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domingo, 6 de setembro de 2026

A ascese na Igreja primitiva, nos padres da Igreja e na vida atual

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘A ascese é um dos pontos importantes no seguimento a Jesus Cristo, na vida cristã e ela também foi de enorme envergadura nos primeiros séculos do cristianismo, com os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos sabendo que muitos viveram esta dimensão em suas comunidades e nos desertos. Nesses primeiros séculos da vida cristã entendamos nós que a palavra ‘padre’ é dada no sentido de fundador de comunidades cristãs, muitas vezes convertido do paganismo ao cristianismo, de modo que teve uma missão importante na vida comunitária, esta pessoa podia ser do ministério sacerdotal, mas também podia ser um leigo, ou uma leiga, pessoa não ligada necessariamente ao sacramento da ordem sacerdotal. O termo Padre neste período era mais no sentido de fundador, coordenador de comunidades. A ascese é dada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo (cfr. Mt 22,37-39). Nós fazemos uma análise na forma como a ascese cristã se desenvolveu no período antigo e ilumina a vida atual no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.

O significado da palavra ascese

A ascese vem do verbo grego ‘askein’ que se refere ao treinar para uma corrida, exercitar-se para adquirir um certo ideal, virtude. A ascese significava um exercício sistemático para se alcançar algo fundamentado, uma missão maior. Para a Sagrada Escritura a ascese muito tem a dizer ao povo que passou por provações no deserto, a intimidade reservada com Deus, a libertação da escravidão da Babilônia, a semelhança com a vida de São João Batista no deserto e na vida pública, como o novo Elias [1].

A ascese também significou uma ação interior para adquirir a unidade com Deus, através da virtude, da oração, dos sacramentos, de uma vida empenhada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo [2].

A prática de Jesus

Jesus esteve ao lado das pessoas de todas as categorias, das mulheres, dos pecadores, das pessoas necessitadas (cfr. Mc 2,16; Mt 11,18; Mc 15,41) pedindo os valores da conversão de vida (cfr. Mc 1,15), para assim estar no caminho da vida verdadeira. Jesus exigia das autoridades e de seus discípulos, as condições para entrar no Reino de Deus, pelo despojamento e pela vida caritativa, a superação do legalismo, o empenho pela cruz, o amor dos irmãos e no seu seguimento (cfr. Mc 8,34; Mt 19,21) [3].

A ascese na Igreja antiga

São Clemente de Roma, bispo, Papa no final do século I afirmou a importância dos dons para serem servidos à comunidade. Tudo deveria estar a serviço da comunidade. Ele disse que o forte cuide do fraco, o fraco respeite o forte, o rico socorra o pobre, o pobre agradeça a Deus por alguém lhe dar a suprir a sua indigência; o sábio mostre a sua sabedoria em boas obras; o humilde viva o amor; o puro viva em comunhão com as pessoas e com Deus [4]. Santo Inácio de Antioquia, bispo no século I e início do século II afirmava que era preciso fugir as profissões desonestas. Ele também tinha presentes os maridos para que amassem as suas esposas e as esposas seus maridos e que se alguém permanecesse na castidade, vivesse na humildade. Ele dizia também que os homens e as mulheres que se casassem que se fizesse a sua união com o parecer do bispo, para que o seu matrimônio fosse segundo o Senhor, para a honra das pessoas e de Deus [5].

A ascese no monaquismo antigo

O monaquismo surgiu na Igreja antiga com Santo Antão, o patrono dos monges e de todo o movimento monacal [6]. O movimento surgiu com homens e mulheres que entravam no deserto adentro para uma vida solitária, comunitária, feita pela oração e pelo trabalho, leitura da Sagrada Escritura. Eles e Elas tinham presentes os patriarcas do AT, Moisés, os profetas, São João Batista, mas sobretudo Jesus Cristo, o verdadeiro asceta que evangelizou os pobres, curou os doentes, expulsou os demônios, enfrentou e denunciou as hipocrisias das autoridades religiosas, políticas; Ele se retirava frequentemente para a oração no monte (cfr. Mt 14,23), mas descia para o anúncio do Reino de Deus. Jesus se tornou o modelo a ser seguido na vida monástica. A ascese ganhará o sentido de retirar-se para a oração, mas também comprometer-se na vida familiar, comunitária, social para um dia participar do Reino dos Céus [7].

As Sagradas Escrituras e a oração

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos tinham presentes as Sagradas Escrituras para vivenciar a ascese. As pessoas deveriam fazer as coisas segundo a Vontade de Deus e ter presentes também as Sagradas Escrituras. Desta forma o monge do deserto via nas Escrituras Sagradas o princípio formal da própria existência. As Escrituras eram as mãos de Deus que continuavam a plasmar o ser humano para uma vida conforme a Vontade de Deus [8].

As Sagradas Escrituras conduziam a pessoa para a oração com Deus e à unidade com as pessoas. Era preciso o conhecimento das Sagradas Escrituras, mas também era preciso estar tudo acompanhado pelas orações, para não ficar somente num conhecimento puramente intelectual [9]. As pessoas monacais ensinavam as outras pessoas a meditar a Palavra de Deus, a ruminar como se devesse mastigar a Palavra de Deus, de Jesus para se tornar um verdadeiro e fundamental alimento, capaz de nutrir-se espiritualmente para a vida cotidiana e a preparação para a vida sobrenatural [10].

Para uma vida ascética o tempo não se media para os monges e as monjas; Era aquilo que se meditava, sobretudo a Palavra de Deus, a oração e os sacramentos, determinavam o quanto tempo desejava a se tornar assimilável a vida ascética com Deus, com as pessoas, com as comunidades, para que assim as pessoas vivessem a unidade com Deus em vista da vida eterna [11]. Nós acreditamos a importância da ascese na atualidade para que saibamos discernir o certo e o errado sob a luz do Espírito Santo e mantenhamo-nos unidos a Igreja, a Esposa de Jesus Cristo, e nós sejamos os seus membros ativos, participativos para a glória de Deus Pai.’

 

[1] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum Augustinianum. Casa Editrice Marietti- Genova-Milano. 2006, pgs. 571-572.

[2] Cfr. Ascèsi. In: Il Vocabolario Treccani, Il Conciso. Lavìs, Trento,1998, pg. 127.

[3] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Idem, pg. 572,

[4] Cfr. Clemente aos Romanos, 38,2. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.

[5] Cfr. Inácio a Policarpo, 5,2. In: Idem, pg. 123.

[6] Cfr. Santo Atanásio. Vida e Conduta de Santo Antão. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Ibidem, pg. 573.

[8] Cfr. Nazzareno Treccioni, L´Ascesi nei Padri del Deserto. Attraverso gli apoftegmi. Todi (PG). Tau Editrice, 2022, pgs.113-114.  

[9] Cfr. Idem, pg. 114.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 115.

[11] Cfr. Ibidem, pg. 115. 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/ascese-igreja-primitiva-padres-igreja.html


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Constituição Sacrosanctum Concilium: Marco fundamental na história da Liturgia da Igreja Católica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Lino Rampazzo


‘A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, promulgada em 4 de dezembro de 1963, constitui o primeiro documento conciliar promulgado pelo Concílio Vaticano II e representa um marco fundamental na história da liturgia da Igreja Católica. Seu objetivo não foi simplesmente introduzir modificações nos livros e nas formas celebrativas, mas promover uma renovação da vida cristã a partir da compreensão mais profunda da liturgia.

 A palavra ‘liturgia’ vem do grego ‘leiton ergon’ e significa, ao pé da letra, ‘obra pública’. Para nós, refere-se à oração pública e oficial da Igreja. A ‘liturgia’ é definida pelo Concílio Vaticano II como ‘o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo’ e ‘obra de Cristo Sacerdote e do seu corpo que é a Igreja’ (Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 7).

Esse documento conciliar afirma que a liturgia contribui de modo eminente para que os fiéis expressem em suas vidas e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a verdadeira natureza da Igreja (cf. Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 2), por isso, a reforma litúrgica deve ser compreendida dentro de uma perspectiva mais ampla : a liturgia está relacionada à vida da Igreja, à evangelização, à santificação dos fiéis e à glorificação de Deus.

Mais de seis décadas depois da promulgação da constituição conciliar, o Papa Leão XIV dedicou, em 2026, uma série de catequeses à Sacrosanctum Concilium

A primeira catequese, realizada em 20 de maio de 2026, apresenta a liturgia como realidade intimamente vinculada ao mistério de Cristo. A segunda, de 27 de maio, trata da relação entre tradição e desenvolvimento. A terceira, de 3 de junho, aborda o rito, o sinal e o símbolo. A quarta, de 24 de junho, concentra-se no mistério eucarístico. A quinta, de 5 de agosto, trata da oração da Igreja. A sexta, de 12 de agosto, reflete sobre o ano litúrgico.

Um dos pontos mais importantes das catequeses de Leão XIV consiste em afirmar que a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não pode ser reduzida a um projeto de alteração das cerimônias litúrgicas, pois tem como principal objetivo conduzir a Igreja à contemplação e ao aprofundamento do vínculo vivo que a constitui : o mistério de Cristo. 

O segundo elemento fundamental da interpretação de Leão XIV é a centralidade do mistério pascal. Para o Papa, o mistério cristão é o acontecimento da paixão, morte, ressurreição e glorificação de Cristo. Esse mistério não pertence apenas ao passado. Na liturgia, ele se torna sacramentalmente presente. Essa perspectiva permite compreender uma das afirmações mais importantes da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium : ‘Pela liturgia, especialmente pelo sacrifício eucarístico, realiza-se a obra da nossa redenção’ (2).

Na liturgia, Cristo continua a agir pelo poder do Espírito Santo. Ele santifica a Igreja e a associa à sua oferta ao Pai. O Papa recorda que Cristo está presente na Palavra proclamada, nos sacramentos, nos ministros, na comunidade reunida e, de modo eminente, na Eucaristia, portanto, a liturgia não é simplesmente uma reunião da comunidade cristã, é uma ação na qual Cristo mesmo atua na sua Igreja.

A liturgia possui também uma forte dimensão eclesiológica, pois a Igreja não existe separadamente dela; pelo contrário, a liturgia manifesta e edifica a Igreja.

Na primeira catequese, Leão XIV utilizou uma imagem particularmente significativa : a Igreja nasce do lado aberto de Cristo na cruz e, na liturgia, Cristo continua a agir nela pelo Espírito Santo. A celebração eucarística, portanto, não apenas manifesta a Igreja, contribui para edificá-la como corpo de Cristo. Ao celebrar a Eucaristia, a Igreja recebe o corpo de Cristo e torna-se aquilo que recebe. O Papa retoma, nesse contexto, a tradição de Santo Agostinho para mostrar que existe uma relação íntima entre o corpo eucarístico recebido e o corpo eclesial constituído.

Outro aspecto particularmente importante é a compreensão da relação entre tradição e progresso. Nesse sentido, a reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II deve ser compreendida em continuidade com a tradição viva da Igreja. A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não propõe uma ruptura com o passado. O princípio fundamental apresentado pelo concílio é conservar a sã tradição e, ao mesmo tempo, abrir caminho para um progresso legítimo, conforme o número 23 da constituição.

Assim como a Igreja é um organismo vivo, também sua liturgia pode desenvolver-se historicamente sem perder sua identidade fundamental.

Estas breves considerações não têm a pretensão de apresentar toda a riqueza teológica e pastoral da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium; mesmo assim, podem ser um incentivo para estudar e valorizar essa importante constituição conciliar.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-constituicao-sacrosanctum-concilium-marco-fundamental-na-historia-da-liturgia-da-igreja-catolica.html

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O coração de Maria, coração da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Antônio Ferreira, cmf

 

Escuta obediente, comunhão com Cristo e serviço fecundo ao mundo

‘A Igreja não pode ser compreendida apenas como uma instituição organizada ou como um conjunto de estruturas pastorais. Ela é, antes de tudo, um mistério de comunhão, um corpo vivo animado pelo Espírito Santo. Essa comunhão tem sua origem na Trindade e se manifesta historicamente na vida do povo de Deus.

Se Cristo é a cabeça desse corpo, Maria pode ser contemplada, por analogia teológica, como o coração da Igreja. São João Paulo II recorda que Maria ‘precede’ a Igreja no caminho da fé e da santidade. Nela, a Igreja reconhece o modo mais pleno de responder à iniciativa divina.

Na Sagrada Escritura, o coração é o centro da pessoa, lugar da escuta, da decisão e do amor. Contemplar o coração de Maria é, portanto, contemplar a forma interior da vida cristã, aquilo que a Igreja é chamada a viver em todas as épocas.

O Concílio Vaticano II afirma explicitamente que Maria é imagem, modelo e mãe da Igreja. O que Deus realizou no coração de Maria revela o que deseja realizar no coração da Igreja e de cada fiel.

Na antropologia bíblica, o coração não se reduz ao campo dos sentimentos, mas designa o centro da pessoa, onde se unem inteligência, vontade, memória e abertura a Deus. É no coração que o ser humano escuta e decide, acolhe ou rejeita a Palavra divina, orientando toda a sua existência, por isso, a Escritura associa o drama do pecado ao endurecimento do coração, entendido como resistência interior à ação de Deus. O profeta Jeremias aprofunda essa visão ao afirmar que o coração humano, ferido pelo pecado, é ambíguo e necessita de redenção.

Ao longo da história da salvação, Deus revela-se como aquele que deseja transformar o coração do seu povo. A infidelidade de Israel não é apresentada apenas como desobediência externa à lei, mas como ruptura interior da aliança, por isso, os profetas anunciam uma salvação que atinge o núcleo da pessoa. Entre essas promessas, destaca-se a palavra de Ezequiel : ‘Eu vos darei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne’ (36,36). A imagem expressa a passagem de uma existência fechada e autossuficiente para uma vida sensível, dócil e aberta à escuta do amor de Deus.

Essa promessa encontra sua realização plena no mistério da encarnação. Em Maria, o coração humano torna-se totalmente disponível à ação do Espírito Santo. Seu ‘sim’ não é apenas um gesto pontual, mas uma atitude permanente de fé, escuta e obediência interior. O Evangelho de Lucas destaca essa dimensão ao afirmar que Maria ‘guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração’ (2,19), revelando um coração que acolhe a Palavra, discerne os acontecimentos e permanece fiel mesmo quando não compreende plenamente os desígnios de Deus.

A tradição da Igreja reconhece em Maria a arca da nova aliança : assim como a antiga arca continha as tábuas da lei, Maria acolhe em seu seio a própria Palavra viva de Deus, o Verbo feito carne. Nesse horizonte, o coração de Maria adquire profundo significado teológico e eclesial, pois manifesta aquilo que Deus deseja realizar em toda a humanidade redimida : um coração novo, plenamente aberto à graça. Como afirma Hans Urs von Balthasar, o princípio mariano na Igreja expressa essa atitude fundamental de acolhida e disponibilidade, na qual a Igreja se reconhece como esposa e serva da Palavra. Ao contemplar o coração de Maria, a Igreja reconhece sua própria vocação mais profunda : ser totalmente de Deus para a vida do mundo.

Maria não é apenas a mãe biológica de Jesus, mas a primeira crente da nova aliança. Antes de gerar Cristo em seu ventre, ela o acolheu pela fé em seu coração. Santo Agostinho expressa essa verdade de modo luminoso ao afirmar que Maria ‘concebeu primeiro no coração e depois no ventre’. Sua maternidade é, portanto, essencialmente espiritual, nascida da escuta da Palavra e da adesão livre ao projeto de Deus. Nesse sentido, Maria inaugura a nova forma de pertença ao povo de Deus, fundada não na carne, mas na fé.

O coração de Maria é o primeiro espaço humano plenamente aberto à nova aliança. Diferentemente do coração endurecido frequentemente denunciado pelos profetas, nela não há resistência à vontade divina. Seu ‘fiat’ revela um coração unificado, dócil e totalmente disponível à ação do Espírito Santo, assim, Maria torna-se o lugar onde a antiga promessa se cumpre e onde a aliança nova e eterna encontra sua primeira realização concreta na história.

Esse dado é essencial para compreender Maria como modelo da Igreja. O Concílio Vaticano II afirma que aquilo que nela aconteceu de modo singular deve realizar-se na Igreja de modo espiritual e sacramental. Como Maria, a Igreja é chamada a escutar a Palavra, acolher Cristo e deixá-lo tomar forma em seu interior, para depois oferecê-lo ao mundo. A maternidade eclesial nasce da fé vivida, da comunhão com Cristo e da docilidade ao Espírito.

A Igreja existe, portanto, para acolher Cristo, gerá-lo na história e torná-lo presente à humanidade. Sempre que se afasta desse movimento interior de fé e entrega, corre o risco de perder sua identidade missionária. O Papa Francisco recorda que a evangelização autêntica nasce de uma Igreja que se deixa transformar pelo Evangelho que anuncia. À luz do coração de Maria, a Igreja redescobre sua vocação mais profunda : ser espaço vivo da nova aliança, onde Cristo continua a nascer para a vida do mundo.

O Evangelho de Lucas apresenta Maria como a mulher da escuta interior, aquela que acolhe os acontecimentos à luz da Palavra de Deus : ‘Maria conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração’ (2,19). A atitude de guardar e meditar indica um coração atento, capaz de escutar para além da superfície dos fatos. Maria não reage impulsivamente, nem busca compreender tudo de imediato; ela acolhe, reflete e confia. Sua escuta não é passiva, mas profundamente ativa, pois envolve a totalidade da pessoa e orienta suas escolhas.

Na economia da fé cristã, a escuta precede a ação. Bento XVI recorda que ‘No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa’, encontro que se dá pela escuta da Palavra. Maria ensina à Igreja que não existe fecundidade pastoral sem uma escuta profunda e orante. Toda ação missionária que não brota da escuta corre o risco de se tornar ativismo estéril, desconectado da vontade de Deus.

O ‘fiat’ de Maria – ‘Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ – revela o ápice dessa escuta obediente. Não se trata de resignação nem de submissão cega, mas de uma adesão livre, consciente e amorosa ao projeto divino. O Catecismo da Igreja Católica afirma que, ao pronunciar seu ‘sim’, Maria se entrega totalmente à pessoa e à obra do Filho, movida pela fé e pela confiança absoluta em Deus. Sua obediência nasce do amor e se traduz em disponibilidade permanente.

Essa espiritualidade da escuta possui uma clara dimensão eclesial. Uma Igreja inspirada no coração de Maria reconhece-se discípula antes de ser mestra, em constante atitude de discernimento e docilidade ao Espírito Santo. O Concílio de Jerusalém exprime essa dinâmica ao afirmar que ‘Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós’, indicando que as decisões da Igreja brotam da escuta comunitária da Palavra e da ação do Espírito. Assim, a Igreja mariana é chamada a ouvir antes de falar, a discernir antes de agir e a deixar-se conduzir pelo Espírito, para que sua missão seja verdadeiramente fecunda e fiel ao Evangelho.

A comunhão de Maria com Cristo constitui o eixo central de toda a sua existência. Desde a anunciação até sua presença fiel junto à cruz e no seio da Igreja nascente, Maria vive uma união progressiva, profunda e obediente ao mistério do Filho. Essa comunhão é essencialmente teologal, pois envolve a escuta da Palavra, a adesão da fé e a conformação interior à vontade de Deus. O coração de Maria torna-se, assim, o espaço humano onde a comunhão com Cristo alcança sua expressão mais plena, fruto de uma fé vivida concretamente no cotidiano da história.

O episódio das bodas de Caná revela de modo exemplar essa espiritualidade mariana. Atenta à necessidade concreta – a falta de vinho –, Maria a apresenta a Jesus com confiança silenciosa e, ao mesmo tempo, dirige aos servos uma palavra que ultrapassa o contexto imediato : ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’ (Jo 2,5). Nessa atitude, manifesta-se sua missão na economia da salvação : Maria nunca ocupa o centro nem substitui o Filho, mas conduz sempre a Cristo, única fonte da vida nova.

Do ponto de vista teológico, Caná ilumina o papel mediador de Maria, compreendido como participação subordinada e totalmente orientada à mediação única de Cristo. Sua intervenção antecipa simbolicamente a ‘hora’ de Jesus e indica que sua presença materna acompanha e sustenta a missão do Filho. A comunhão entre Maria e Cristo torna-se, assim, modelo da relação entre a Igreja e seu Senhor, marcada pela confiança, pela obediência da fé e pela abertura à ação transformadora de Deus.

A tradição espiritual da Igreja reconheceu nesse dinamismo mariano um caminho seguro de discipulado. São Luís Maria Grignion de Montfort afirma que a verdadeira devoção a Maria é essencialmente cristocêntrica, pois ‘toda a perfeição consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo’. Para a Igreja e para cada cristão, o coração mariano em comunhão com Cristo é escola de fé autêntica : quanto mais o coração se une a Maria, mais profundamente é conduzido a Cristo. Assim, a comunhão mariana revela-se não como desvio, mas como caminho privilegiado para viver o Evangelho em sua radicalidade, fidelidade e beleza.

São João Paulo II, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, apresenta Maria como ‘mulher eucarística’, pois toda a sua vida foi marcada por uma profunda união com o mistério do corpo entregue e do sangue derramado de Cristo. Embora não tenha participado sacramentalmente da última ceia, Maria viveu de modo existencial aquilo que a Eucaristia significa em sua essência : oferta, comunhão e entrega total. Seu ‘fiat’, pronunciado na anunciação, já contém em germe a lógica eucarística do dom de si, que alcançará sua plenitude no sacrifício da cruz.

A maternidade de Maria está intimamente ligada ao mistério eucarístico, pois foi em seu seio que o Verbo assumiu a carne destinada a ser entregue pela salvação do mundo. O corpo de Cristo, presente sacramentalmente na Eucaristia, é o mesmo corpo recebido de Maria, por isso, a comunhão eucarística remete, de modo indireto mas real, à fé, à disponibilidade e à obediência da Virgem. Maria ensina à Igreja que a Eucaristia não é apenas um rito a ser celebrado, mas um mistério a ser acolhido com fé profunda, reverência e atitude interior de oferta.

Ao pé da cruz, Maria vive o ápice de sua espiritualidade eucarística. Ali, ela contempla o corpo entregue e o sangue derramado, antecipados sacramentalmente na última ceia. Sua presença silenciosa e fiel manifesta uma participação interior no sacrifício redentor do Filho. Nessa perspectiva, a Eucaristia aparece como memorial vivo da Páscoa de Cristo e Maria, como aquela que ensina a Igreja a unir inseparavelmente a celebração litúrgica à oferta concreta da própria vida.

A Igreja aprende com o coração de Maria a viver a Eucaristia como fonte de comunhão e missão. Assim como Maria permaneceu unida a Cristo e aos discípulos, especialmente no Cenáculo, a Eucaristia edifica a unidade do corpo de Cristo e gera vínculos de fraternidade entre os fiéis. Vivida à escola de Maria, a comunhão eucarística exige um coração reconciliado, aberto ao outro e disponível ao serviço. Desse modo, a verdadeira adoração prolonga-se na caridade concreta e no compromisso com os mais frágeis, pois quem se alimenta do pão da vida é enviado a tornar-se pão repartido para o mundo.

A profecia de Simeão, pronunciada no templo por ocasião da apresentação de Jesus, ilumina antecipadamente o itinerário espiritual de Maria : ‘E uma espada transpassará a tua alma’ (Lc 2,35). Essa palavra revela que a vocação mariana não está dissociada do sofrimento, mas integrada ao mistério da redenção. Desde o início, Maria é associada ao destino do Filho e sua maternidade se desenvolve sob o sinal da fé provada e amadurecida na dor.

No Calvário, essa profecia atinge seu cumprimento pleno. O Evangelho de João afirma com sobriedade e profundidade : ‘Junto à cruz de Jesus estava de pé sua mãe’ (Jo 19,25). O verbo ‘estar de pé’ possui forte densidade teológica. Ele expressa não apenas presença física, mas atitude interior de firmeza, fidelidade e esperança. Maria não foge do escândalo da cruz nem se entrega ao desespero; ela permanece, sustentada pela fé, mesmo quando todas as promessas parecem contraditas pela morte do Filho.

São João Paulo II interpreta esse momento como uma verdadeira kenosis da fé de Maria. Na Carta encíclica Redemptoris Mater, o Papa afirma que, aos pés da cruz, Maria vive uma participação singular no sacrifício redentor de Cristo, não acrescentando nada à eficácia da redenção, mas oferecendo seu consentimento materno ao desígnio salvífico de Deus. Trata-se de uma fé que não se apoia em sinais visíveis, mas se abandona totalmente à fidelidade de Deus.

O coração transpassado de Maria revela, assim, a profundidade de sua comunhão com Cristo. A dor não a fecha em si mesma, mas a abre ainda mais à missão. No momento extremo, Jesus confia a ela o discípulo amado e, nele, toda a humanidade. A maternidade de Maria assume então uma dimensão universal, nascida no sofrimento e selada pelo amor oblativo.

A Igreja contempla no coração transpassado de Maria um espelho luminoso de sua própria vocação histórica e espiritual. Ao permanecer de pé junto à cruz do Filho, Maria manifesta uma fé que atravessa a provação sem se romper. Seu sofrimento não é fuga nem revolta, mas participação silenciosa no mistério redentor. Desse modo, ela ensina à Igreja que a dor, quando vivida em comunhão com Cristo, não constitui obstáculo à missão, mas pode tornar-se lugar privilegiado de fecundidade espiritual.

A fidelidade cristã, à luz do testemunho de Maria, não se mede apenas pelos momentos de entusiasmo ou de consolação espiritual, mas pela perseverança na noite da fé. Maria não compreende plenamente o mistério da cruz, mas permanece, confiando na promessa de Deus. Essa atitude revela que a verdadeira obediência da fé subsiste mesmo quando desaparecem as seguranças humanas. O Concílio Vaticano II afirma que Maria avançou ‘na peregrinação da fé’, mantendo-se unida ao Filho até o extremo do sofrimento.

Ao mesmo tempo, o coração transpassado de Maria é guardião da esperança cristã. Sua dor não se fecha no desespero, mas permanece aberta à ação de Deus, que transforma a morte em vida. A esperança que habita o coração de Maria nasce da certeza pascal de que o amor é mais forte que a morte. Mesmo no silêncio do Sábado Santo, quando tudo parece perdido, Maria representa a Igreja que espera contra toda esperança, sustentada pela fidelidade de Deus às suas promessas.

O coração transpassado de Maria permanece como fonte de consolação e de luz para a Igreja peregrina. Nele, os fiéis encontram não apenas um modelo de resistência espiritual, mas a certeza de que Deus transforma a dor em caminho de vida nova. Aprendendo com Maria, a Igreja compreende que o sofrimento, vivido em comunhão com Cristo, pode tornar-se fecundo, que a fidelidade se prova na cruz e que a esperança cristã nasce da Páscoa e sustenta a missão mesmo nas horas mais obscuras da história.

Após o acontecimento decisivo da anunciação, o Evangelho de Lucas apresenta Maria imediatamente em movimento : ‘Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá’ (Lc 1,39). A atitude da Virgem revela que o coração que acolhe Deus jamais se fecha em si mesmo. A experiência da graça gera dinamismo, prontidão e serviço. A pressa de Maria não é ansiedade, mas disponibilidade amorosa, indicando que a fé autêntica se traduz em gestos concretos de caridade e atenção ao outro.

Do ponto de vista teológico, a visitação ultrapassa o simples encontro familiar e assume um profundo significado salvífico. Maria, portadora do Verbo encarnado, torna-se a arca da nova aliança, levando Cristo ao encontro de Isabel e de João Batista ainda no seio materno. Onde Maria chega, o Espírito Santo age : João estremece de alegria e Isabel proclama a bem-aventurança daquela que acreditou na promessa do Senhor. A alegria que brota desse encontro é sinal da presença do Reino, que se manifesta na comunhão, na vida que desperta e na fé compartilhada.

A tradição da Igreja reconhece na visitação um ícone da Igreja missionária. Maria não guarda para si o dom recebido, mas coloca-se a caminho, superando distâncias e dificuldades. Nesse sentido, ela antecipa aquilo que o Papa Francisco descreve como ‘Igreja em saída’, uma Igreja que abandona a autorreferencialidade e vai ao encontro do outro com ternura e proximidade. O serviço prestado por Maria a Isabel expressa uma fé que se faz cuidado concreto, solidariedade e presença discreta, especialmente junto aos que mais necessitam.

O coração que serve encontra sua expressão mais elevada no cântico do Magnificat. Longe de ser um hino intimista, trata-se de uma proclamação profética que revela a consciência de Maria sobre a ação de Deus na história. Reconhecendo que tudo é dom – ‘O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas’ –, Maria proclama a lógica do Reino, onde os humildes são exaltados e os famintos saciados. O serviço mariano nasce, assim, da gratidão e da humildade, virtudes que preservam a missão do risco do protagonismo e ensinam à Igreja que servir é, antes de tudo, deixar Deus agir.

A experiência de Maria, desde a anunciação até sua presença silenciosa nas origens da Igreja, revela um coração profundamente missionário. Seu serviço ultrapassa fronteiras pessoais, sociais e culturais, tornando-se anúncio profético da justiça de Deus na história. No Magnificat, Maria proclama um Deus que ‘derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias’. Essa proclamação mostra que a missão cristã não é neutra, mas compromete-se com a transformação da realidade à luz do Reino.

Maria, ao colocar-se a caminho, antecipa a dinâmica missionária da Igreja. Ela não leva a si mesma, mas Cristo, presença viva que gera vida, esperança e alegria. Sua atitude ilumina o chamado da Igreja a sair de seus próprios limites e ir ao encontro das fronteiras da existência humana, compreendidas como os espaços onde a dignidade da pessoa é ferida : pobreza, solidão, sofrimento, violência, exclusão social e vazio espiritual. O Papa Francisco recorda que a Igreja é chamada a assumir o risco da missão, evitando a autorreferencialidade e abrindo-se ao encontro com o outro.

O coração missionário inspirado em Maria caracteriza-se pela humildade, pela escuta e pela proximidade. Ela ensina que evangelizar não é, antes de tudo, conquistar espaços, mas aproximar-se das pessoas, criar vínculos e permitir que o Espírito Santo atue. Sua presença junto aos pequenos e humildes revela uma missão marcada pela ternura, sem perder a firmeza da verdade, pois o amor autêntico não ignora as causas do sofrimento humano nem se omite diante das injustiças.

A espiritualidade mariana contribui para a formação de discípulos missionários capazes de unir compaixão e compromisso. O coração de Maria educa para uma fé encarnada, expressa em ações concretas em favor dos mais vulneráveis, em consonância com a tradição bíblica e o ensinamento social da Igreja. Anunciar o Evangelho nas fronteiras da existência humana implica testemunhar a esperança do Reino e colaborar para a promoção da dignidade, da justiça e da vida plena. Maria permanece como modelo e guia da missão da Igreja no mundo contemporâneo, convidando cada cristão a atravessar fronteiras, vencer o medo e levar Cristo a todos os contextos da vida humana, confiando que Deus realiza maravilhas por meio daqueles que se colocam generosamente a serviço do seu Reino.

Após a ressurreição e a ascensão do Senhor, o livro dos Atos dos Apóstolos apresenta Maria reunida com os discípulos no Cenáculo  ‘Todos perseveravam unanimemente na oração, com algumas mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus’ (At 1,14). A presença de Maria nesse momento fundacional da Igreja não é apenas histórica, mas profundamente simbólica. Ela representa o coração orante da comunidade nascente, aquela que sustenta a unidade, alimenta a esperança e prepara, pela intercessão silenciosa, o dom do Espírito Santo.

No Cenáculo, Maria assume uma função maternal e eclesial. Assim como esteve presente no início da vida terrena de Jesus, agora acompanha o nascimento da Igreja. Sua atitude não é de protagonismo, mas de comunhão : Maria não fala, mas ora; não dirige, mas sustenta; não se impõe, mas reúne. A tradição cristã reconhece nesse gesto a dimensão mais profunda da maternidade espiritual de Maria. Ao proclamar Maria como Mãe da Igreja, o Papa Paulo VI afirmou que ela continua a exercer sua missão materna na vida da comunidade cristã, acompanhando-a com solicitude e intercessão.

A oração perseverante do Cenáculo revela que a missão nasce do silêncio fecundo diante de Deus. O Pentecostes não é fruto de estratégias humanas, mas dom do alto. O Espírito Santo desce sobre uma comunidade reunida, unida e orante, transformando o medo em coragem e a dispersão em comunhão. Maria, que já conhecia a ação do Espírito desde a anunciação, ensina à Igreja a esperar, discernir e acolher o tempo de Deus.

Esse coração orante de Maria permanece atual e necessário. Em um mundo marcado pela pressa, pela fragmentação e pelo individualismo, o estilo mariano oferece à Igreja um caminho evangélico concreto : escuta em vez de ruído, misericórdia em vez de julgamento, serviço em vez de poder. Trata-se de um modo de viver a fé que privilegia a interioridade, a comunhão e a disponibilidade ao Espírito Santo, por isso, Paulo VI chamou Maria de ‘Estrela da Evangelização’, reconhecendo nela o modelo daquela que precede e acompanha a missão da Igreja no mundo.

Viver segundo o coração de Maria significa integrar oração e ação, contemplação e compromisso. A fé mariana não é intimista nem evasiva, mas profundamente encarnada. Maria ensina que a verdadeira fecundidade apostólica nasce da união com Deus e se manifesta no serviço humilde aos irmãos. Onde há um coração dividido, a missão enfraquece; onde há um coração unificado em Deus, a vida floresce.

Contemplar o coração de Maria é redescobrir a identidade mais profunda da Igreja. Escuta, comunhão e serviço não são dimensões isoladas, mas formam uma unidade inseparável. A Igreja só será plenamente fiel a Cristo quando aprender a bater no mesmo ritmo do coração da Virgem : um ritmo de amor total a Deus e de entrega generosa à humanidade. Tornar-se o que se contempla é o caminho espiritual que transforma a devoção mariana em força missionária e em fonte permanente de renovação eclesial.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-coracao-de-maria-coracao-da-igreja.html

 

domingo, 26 de abril de 2026

A visão antropológica nos santos padres da Igreja e na atualidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘Nós estamos num período muito importante na vida humana onde se ressaltam o desejo forte pela paz entre os povos e nações. Nós rezamos ao Senhor pelo dom da paz. Nós temos presentes a visão de Deus verdadeiro, Uno e Trino, a criação, as pessoas, as suas obras, a necessidade do cuidado com as obras do Criador. Deus criou o ser humano; homem e mulher os fez à sua imagem e semelhança (cfr. Gn 1,27). Nestes últimos anos e meses estamos presenciando uma série de casos de feminicídios, a morte de mulheres por serem mulheres, muitas vezes por seus maridos, companheiros ou ex-companheiros. Pela Palavra de Deus que coloca a igualdade entre o homem e mulher somos nós convidados a lutar pela vida superando a morte de muitas pessoas, sobretudo com as mulheres. A seguir, vejamos nós ver a forma como os santos padres, os primeiros escritores cristãos colocaram a visão antropológica que sirva de inspiração para agir bem no mundo atual.

Deus os fez homem e mulher

São Clemente, bispo de Roma, Papa, século I afirmou a criação humana, homem e mulher, por Deus Criador na qual Ele a plasmou por suas próprias e imaculadas mãos, ao dizer : Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, fazendo-os homem e mulher, masculino e feminino (cfr. Gn 1,26-27). Cumpridas todas as obras os aprovou o Senhor Deus e os bendisse, dizendo que era para eles crescerem e multiplicarem-se (cfr. Gn 1, 28). Criados desta forma, nós somos chamados, tanto os homens como as mulheres a fazer a vontade divina com toda a nossa força e praticar obras de justiça, de paz e de amor [1].

A Palavra de Deus falou da criação humana

A Carta de Barnabé, um escrito no final do século I disse que a criação humana foi obra de Deus Uno e Trino, pois o Senhor disse ao Filho : ‘Façamos o homem, homem e mulher, à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar’ (Gn 1, 28). e vendo a obra de suas mãos saindo de uma forma muito boa disse também o Senhor para eles crescerem e multiplicarem-se e possam encher a terra (cfr. Gn 1, 28) [2]. Por isso Deus nos criou de uma forma tão bem constituídos de modo que é preciso viver a unidade entre o homem e a mulher sem um dominar o outro ou tirar-lhe a própria vida.

Formou-os à sua imagem

A Carta a Diogneto, escrito do século II disse que Deus deu ao ser humano, homem e mulher a palavra e a razão para contemplar o Criador de todas as coisas. E somente a eles permitiu-lhes a graça da contemplação, o olhar para o alto, para o seu Criador. Ele os formou à sua Imagem, enviando-lhes seu Filho Unigênito, para anunciar-lhes o Reino dos céus. Desta forma o ser humano amando o seu Criador ele se torna imitador da sua bondade [3].

A dignidade do ser humano

Teófilo de Antioquia, bispo do século II teve presente coisas boas em relação à criação em geral, mas em relação à criação humana não existem palavras que expressem a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja breve. O fato maravilhoso de Deus ao dizer : ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’ (Gn 1,26) dá a entender a dignidade do ser humano, homem e mulher. Ele disse estas palavras a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria. Ele também ordenou que o ser humano se alimentasse das ementes da terra e buscassem o bem de toda a criação, incluída a sua, a humana [4].

Deus glorificado na sua criatura

Santo Ireneu de Lião, bispo, século III afirmou que Deus será glorificado na sua criatura, conformada e modelada no seu próprio Filho, pois pelas mãos do Pai, isto é, por meio do Filho e do Espírito Santo, o ser humano, homem e mulher e não uma parte tornam-se semelhante a Deus [5]. Nós vemos a importância da criação por parte de Deus Criador ao ser humano na visão de Deus que é Uno e Trino concedendo-lhes todas as graças para uma vida feliz e realizada.

A bondade do Criador

Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III afirmou a bondade do Criador ao criar as coisas deste mundo. O fato era este : Deus viu aquilo que estava realizando, honrava-o, completando a bondade de suas obras pelo seu olhar. Deus bendizia as coisas boas, para que Ele fosse sempre anunciado bom em todos os aspectos, em todos os tempos e eras, tanto no dizer como no fazer. O mundo foi constituído de bens do Senhor. No entanto, para quem as coisas eram preparadas senão para aquele que seria à sua imagem e semelhança? A divina bondade criou, não só com uma palavra de ordem o ser humano, mas com um ato generoso da sua mão, com uma benigna promessa : ‘Façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança’(Gn 1,26).

A referência é sempre à bondade, não como uma virtude do Criador, mas como uma Pessoa, porque Ela falou, plasmou o homem e a mulher do lodo até fazê-los de carne, sendo um ato de amor de Deus. ‘A bondade soprou até fazê-los tornarem-se uma alma, não morta, mas viva’ [6]. A bondade o fez senhor de todas as coisas, não só para dominá-las, mas para dar-lhes o nome. Novamente Deus previu para ele uma ajuda : ‘Não é bom que o homem esteja só, de modo que Ele criou a mulher’(Gn 2,18 )[7]. Nós percebemos a importância do ser humano ser criado à imagem e semelhança de Deus.

À nossa Imagem

Santo Agostinho, Bispo de Hipona séculos IV e V afirmou que Deus criou o ser humano dando as graças de ser a sua imagem e semelhança.  Em seguida o Senhor disse que ele tenha o poder sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais, privados da razão (cfr. Gn 1,28) [8]. Para o Bispo de Hipona o fato de que o ser humano é imagem e semelhança de Deus são dons divinos para serrem vividos na realidade familiar, comunitária e não tem significado de destruição das criaturas, mas amor a mesma e serviço para que todos vivam bem na paz e no amor.

Nós somos convidados a viver a Palavra de Deus na igualdade e no amor entre as pessoas, homens e mulheres. Nós lutemos em favor da vida para que se afaste a violência contra as mulheres e os casos de feminicídios. A Diocese de Marabá tem um projeto, um pacto contra o feminicídio para que seja implantado sempre mais nas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. O Senhor nos ajude nesta missão de viver a fraternidade, o amor entre as pessoas e um dia na eternidade, no Reino de Deus.’

 

[1] Cfr. Lettera ai Corinzi, 33,4-8 di Clemente di Roma. In: Lúomo immagine somigliante di Dio. Milano: Paoline, 1991, pgs. 87-88.

[2] Cfr. Carta de Barnabé, 6,11-12. In: Padres Apostólicos, São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 294-295.

[3] Cfr. Carta a Diogento, 10,2-4. In: Padres Apologistas, São Paulo, Paulus, 1995, pg. 27.

[4] Cfr. Segundo Livro a Autólico 2,18 de Teófilo de Antioquia, In: Padres Apostólicos, Idem, pg. 248.

[5] Cfr. Ireneu de Lião, V,6,1. São Paulo: Paulus, 1996, pg. 530.

[6] Cfr. Contro Marcione, 22 di Tertulliano. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 132.

[7] Cfr. Idem, pg. 132.

[8] Cfr. La Genesi alla Lettera 3,20,30-32. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 255.

  

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-04/visao-antropologica-santos-padres-igreja-atualidade.html

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Qual o sentido dos santos da Igreja?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Adelmo Sergio Gomes

  

‘A Igreja Católica, desde muitos séculos, proclama os seus santos. O primeiro processo formal de canonização foi realizado pelo Papa João XV, que elevou aos altares o bispo de Augsburgo, Dom Ulrique, no ano 993.

Os santos refletem a graça de Cristo. Eles não são importantes por si mesmos, mas porque são reflexos de Cristo Jesus. Para alguns a santidade é exclusiva de alguns escolhidos, no entanto, todos os fiéis são chamados à santidade. A santidade não é algo inatingível. Os santos podem brotar em todas as épocas, em qualquer cultura ou em qualquer condição social. Cada santo manifesta um aspecto do mistério de Cristo com sua história e personalidade específica. São João Paulo II refletiu a misericórdia, São Francisco a pobreza radical, Santo Agostinho o intelecto a serviço da fé e outros, a força do martírio. Diante disso, o que vemos é a infinita riqueza de Cristo. 

A Igreja não ‘produz’ santos : ela os reconhece mediante a manifestação do povo. Por meio da canonização, a Igreja confirma formalmente que a pessoa viveu as virtudes cristãs de forma heroica e que sua intercessão junto a Deus é eficaz. A pessoa foi uma imagem viva do Evangelho de Jesus Cristo. Para a Igreja, o santo também é modelo de vida, é um itinerário seguro a ser seguido. A canonização afirma que aquela pessoa já tem a visão de Deus e que pode interceder por todos os fiéis. Isso reafirma a comunhão dos santos : que os fiéis estão ligados intimamente àqueles que nos precederam e que há uma troca de dons entre o Céu e a Terra. 

A santidade não é um privilégio de alguns, mas um chamado universal : ‘Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo’ (Lv 19,2). A Constituição Dogmática Lumen Gentium (Concílio Vaticano II) apresenta um capítulo inteiro sobre a santidade, o ‘Chamado universal à santidade’. 

Não é preciso ser padre, bispo ou o fundador de alguma ordem para ser santo. A santidade é para todos os crentes. Os leigos em sua vida cotidiana podem ser santos. Exemplos de leigos santos : Santa Gianna Beretta Molla, mãe de família; São Luís Martin, pai de família; São Domingos Sávio e Santo Carlos Acutis, os jovens; São José, o trabalhador; São Tomás More, o intelectual. Para ser santo não é preciso ser protagonista de grandes feitos, mas viver o amor de Deus nos pequenos gestos. Santa Teresinha chamava isso de ‘a pequena via’. 

A virtude básica da santidade é a humildade. O santo não se reconhece como santo e se o assim fizesse deixaria de sê-lo. A santidade é uma prerrogativa de Deus, que nela participa o santo. 

Por fim, as vidas dos santos são itinerários de fé, confirmações de que o Espírito Santo continua agindo na história do povo de Deus. Os santos são os nossos irmãos exemplares, que testemunharam a ressurreição. No fim fica o chamado do Apocalipse : ‘Quem tem sede, venha; quem deseja, receba de graça a água da vida’ (22,17). ’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/qual-o-sentido-dos-santos-da-igreja.html