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domingo, 26 de abril de 2026

A visão antropológica nos santos padres da Igreja e na atualidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘Nós estamos num período muito importante na vida humana onde se ressaltam o desejo forte pela paz entre os povos e nações. Nós rezamos ao Senhor pelo dom da paz. Nós temos presentes a visão de Deus verdadeiro, Uno e Trino, a criação, as pessoas, as suas obras, a necessidade do cuidado com as obras do Criador. Deus criou o ser humano; homem e mulher os fez à sua imagem e semelhança (cfr. Gn 1,27). Nestes últimos anos e meses estamos presenciando uma série de casos de feminicídios, a morte de mulheres por serem mulheres, muitas vezes por seus maridos, companheiros ou ex-companheiros. Pela Palavra de Deus que coloca a igualdade entre o homem e mulher somos nós convidados a lutar pela vida superando a morte de muitas pessoas, sobretudo com as mulheres. A seguir, vejamos nós ver a forma como os santos padres, os primeiros escritores cristãos colocaram a visão antropológica que sirva de inspiração para agir bem no mundo atual.

Deus os fez homem e mulher

São Clemente, bispo de Roma, Papa, século I afirmou a criação humana, homem e mulher, por Deus Criador na qual Ele a plasmou por suas próprias e imaculadas mãos, ao dizer : Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, fazendo-os homem e mulher, masculino e feminino (cfr. Gn 1,26-27). Cumpridas todas as obras os aprovou o Senhor Deus e os bendisse, dizendo que era para eles crescerem e multiplicarem-se (cfr. Gn 1, 28). Criados desta forma, nós somos chamados, tanto os homens como as mulheres a fazer a vontade divina com toda a nossa força e praticar obras de justiça, de paz e de amor [1].

A Palavra de Deus falou da criação humana

A Carta de Barnabé, um escrito no final do século I disse que a criação humana foi obra de Deus Uno e Trino, pois o Senhor disse ao Filho : ‘Façamos o homem, homem e mulher, à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar’ (Gn 1, 28). e vendo a obra de suas mãos saindo de uma forma muito boa disse também o Senhor para eles crescerem e multiplicarem-se e possam encher a terra (cfr. Gn 1, 28) [2]. Por isso Deus nos criou de uma forma tão bem constituídos de modo que é preciso viver a unidade entre o homem e a mulher sem um dominar o outro ou tirar-lhe a própria vida.

Formou-os à sua imagem

A Carta a Diogneto, escrito do século II disse que Deus deu ao ser humano, homem e mulher a palavra e a razão para contemplar o Criador de todas as coisas. E somente a eles permitiu-lhes a graça da contemplação, o olhar para o alto, para o seu Criador. Ele os formou à sua Imagem, enviando-lhes seu Filho Unigênito, para anunciar-lhes o Reino dos céus. Desta forma o ser humano amando o seu Criador ele se torna imitador da sua bondade [3].

A dignidade do ser humano

Teófilo de Antioquia, bispo do século II teve presente coisas boas em relação à criação em geral, mas em relação à criação humana não existem palavras que expressem a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja breve. O fato maravilhoso de Deus ao dizer : ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’ (Gn 1,26) dá a entender a dignidade do ser humano, homem e mulher. Ele disse estas palavras a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria. Ele também ordenou que o ser humano se alimentasse das ementes da terra e buscassem o bem de toda a criação, incluída a sua, a humana [4].

Deus glorificado na sua criatura

Santo Ireneu de Lião, bispo, século III afirmou que Deus será glorificado na sua criatura, conformada e modelada no seu próprio Filho, pois pelas mãos do Pai, isto é, por meio do Filho e do Espírito Santo, o ser humano, homem e mulher e não uma parte tornam-se semelhante a Deus [5]. Nós vemos a importância da criação por parte de Deus Criador ao ser humano na visão de Deus que é Uno e Trino concedendo-lhes todas as graças para uma vida feliz e realizada.

A bondade do Criador

Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III afirmou a bondade do Criador ao criar as coisas deste mundo. O fato era este : Deus viu aquilo que estava realizando, honrava-o, completando a bondade de suas obras pelo seu olhar. Deus bendizia as coisas boas, para que Ele fosse sempre anunciado bom em todos os aspectos, em todos os tempos e eras, tanto no dizer como no fazer. O mundo foi constituído de bens do Senhor. No entanto, para quem as coisas eram preparadas senão para aquele que seria à sua imagem e semelhança? A divina bondade criou, não só com uma palavra de ordem o ser humano, mas com um ato generoso da sua mão, com uma benigna promessa : ‘Façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança’(Gn 1,26).

A referência é sempre à bondade, não como uma virtude do Criador, mas como uma Pessoa, porque Ela falou, plasmou o homem e a mulher do lodo até fazê-los de carne, sendo um ato de amor de Deus. ‘A bondade soprou até fazê-los tornarem-se uma alma, não morta, mas viva’ [6]. A bondade o fez senhor de todas as coisas, não só para dominá-las, mas para dar-lhes o nome. Novamente Deus previu para ele uma ajuda : ‘Não é bom que o homem esteja só, de modo que Ele criou a mulher’(Gn 2,18 )[7]. Nós percebemos a importância do ser humano ser criado à imagem e semelhança de Deus.

À nossa Imagem

Santo Agostinho, Bispo de Hipona séculos IV e V afirmou que Deus criou o ser humano dando as graças de ser a sua imagem e semelhança.  Em seguida o Senhor disse que ele tenha o poder sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais, privados da razão (cfr. Gn 1,28) [8]. Para o Bispo de Hipona o fato de que o ser humano é imagem e semelhança de Deus são dons divinos para serrem vividos na realidade familiar, comunitária e não tem significado de destruição das criaturas, mas amor a mesma e serviço para que todos vivam bem na paz e no amor.

Nós somos convidados a viver a Palavra de Deus na igualdade e no amor entre as pessoas, homens e mulheres. Nós lutemos em favor da vida para que se afaste a violência contra as mulheres e os casos de feminicídios. A Diocese de Marabá tem um projeto, um pacto contra o feminicídio para que seja implantado sempre mais nas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. O Senhor nos ajude nesta missão de viver a fraternidade, o amor entre as pessoas e um dia na eternidade, no Reino de Deus.’

 

[1] Cfr. Lettera ai Corinzi, 33,4-8 di Clemente di Roma. In: Lúomo immagine somigliante di Dio. Milano: Paoline, 1991, pgs. 87-88.

[2] Cfr. Carta de Barnabé, 6,11-12. In: Padres Apostólicos, São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 294-295.

[3] Cfr. Carta a Diogento, 10,2-4. In: Padres Apologistas, São Paulo, Paulus, 1995, pg. 27.

[4] Cfr. Segundo Livro a Autólico 2,18 de Teófilo de Antioquia, In: Padres Apostólicos, Idem, pg. 248.

[5] Cfr. Ireneu de Lião, V,6,1. São Paulo: Paulus, 1996, pg. 530.

[6] Cfr. Contro Marcione, 22 di Tertulliano. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 132.

[7] Cfr. Idem, pg. 132.

[8] Cfr. La Genesi alla Lettera 3,20,30-32. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 255.

  

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-04/visao-antropologica-santos-padres-igreja-atualidade.html

 

domingo, 5 de maio de 2024

A visão antropológica de Joseph Ratzinger - Papa Bento XVI - em relação ao homem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Rodolfo Faria


Estimado leitor da Revista Ave Maria, começo nossa reflexão mensal de maio a partir do pensamento do Papa Bento XVI em relação à visão antropológica do homem e suas relações afetivas. Pensar sobre a humanidade contemporânea será sempre um desafio, sobretudo a partir das categorias que compõem a sociedade.

O homem contemporâneo para Ratzinger é aquele que vive no mundo secularizado, pós-metafísico, edificado substancialmente sobre a interpretação científico-matemática da realidade; aquilo que aparece dotado de valor é unicamente o ‘fato’, alcançado pelos métodos da ciência natural e que pode ser, em consequência, constatável, dominável, transformado pela intervenção do homem. O factum torna-se, assim, imediatamente faciendum, isto é, aquilo que pode ser programado e criado pelo homem e que o projeta para o futuro. O saber torna-se poder. Os processos são assim submetidos à única autoridade comumente reconhecida : a ratio técnica (razão técnica).

Os outros tipos de conhecimento não experimentável, não exprimível em termos científico-positivos, perdem o próprio direito de cidadania no reino do legitimamente comunicável e são confinados ao âmbito do privado, do subjetivo, ao domínio da opinião. Diz ele : ‘A verdade que ao homem cumpre manipular não é nem a verdade do ser, nem em última análise a dos seres realizados, feitos; mas a verdade da alteração do mundo – uma verdade dirigida para o futuro e para a ação’. Isso é chamado por Ratzinger predomínio do ‘saber-fazer’. Essa redução da natureza a dados de fatos exaurivelmente penetráveis, e com isso também manipuláveis, tem como consequência que nenhuma mensagem moral que provém de fora do perímetro do nosso eu pode alcançar-nos. 

O fenômeno moral, como aquele religioso, vem considerado como pertencente à esfera da subjetividade, não tendo cidadania alguma na dimensão da objetividade. Nesse círculo fechado, tem-se um homem que espera a salvação de si mesmo e parece ser incapaz de dá-la.

Sobre a crise da filosofia moderna, a crise da metafísica, ele diz que não se pode ignorar a pergunta metafísica da interrogação filosófica e continua ‘lá onde não se coloca mais a questão sobre a origem e fim do real se transcura próprio àquilo que é o mais específico da pesquisa filosófica’. Nesse cenário, qual o lugar de Deus e do fenômeno religioso? A questão de Deus resulta dessa forma estranha ou Deus é colocado à margem entre as coisas que são tidas como importantes para o homem, para o conhecimento e a transformação do mundo. Joseph Ratzinger não fala tanto de um ateísmo teórico, mas de um ateísmo prático, que poderia ser assim enunciado : ‘Também se Deus existe, este não modifica substancialmente a vida do homem e do mundo’. Essa lógica aprisiona o homem na sua fatualidade, traindo a sua natureza mais profunda, tendo como consequência última e lógica e ao mesmo tempo dramática a destruição do homem mesmo, a sua abolição. Então Ratzinger diz que esta ignora aquela abertura constitutiva do homem ao mistério do ser, que ele expressa e sintetiza em três aspectos característicos da dinâmica espiritual do homem: a procura de sentido; a lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado da pessoa; a capacidade humana do divino.

A procura do sentido : a natureza humana não pode ser saciada pela pura positividade dos fatos. O texto de Mateus 4,4 oferece a Ratzinger o elemento para sublinhar o significado global da existência. Diz ele : ‘Com efeito, o homem não vive apenas do pão da fatualidade; com efeito, ele vive do amor, do sentido das coisas. O sentido é o pão que lhe possibilita subsistir, em sentido próprio como homem. Sem a palavra, sem uma finalidade, sem amor o homem chega à situação de não mais viver, mesmo cercado de todo conforto humano’. O homem necessita de um sentido que preencha a sua solidão : ‘Esta solidão pode ser superada não por meio da razão, mas por meio de uma presença, de um ser que o queira bem’. O homem pode vencer a solidão somente experimentando a existência como um ser amado. 

Ratzinger diz que a questão do sentido não opcional, elemento assessório a uma vida em si já completa, mas é a condição mesma para poder viver, é aquilo que só pode justificar a sua transmissão às futuras gerações. Enfim, o homem que busca um sentido último e onicompreesivo percebe que esse sentido não pode vir da ciência e nem criado do fazer e do operar, mas pode somente ser esperado e recebido daquele que é ‘outro’de si.

A lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado original da pessoa : esse é um principio que norteia toda a teologia de Ratzinger. ‘De ekstasis’, sair de si. A história da salvação, por exemplo, vem compreendida à luz desse princípio como um grande êxodo. Da vocação de Abraão ao seu cumprimento no sacrifício pascal de Cristo, que permanece presente e se desenvolve no mundo pela abertura missionária da Igreja. A profissão batismal representa um sair do próprio ‘eu’ autônomo para entrar no ‘nós’ da comunidade eclesial. A vida cristã é caracterizada por essa dinâmica de ‘sair de si’ sobre a base de Mateus 10,39, ‘Somente quem perde a vida a encontra’.

Para Ratzinger, também a moderna pesquisa da antropologia filosófica consiste na própria superação de si : a abertura, a relação com a totalidade, faz parte da essência do Espírito, assim que somente no superar-se possui-se a si mesmo. O verdadeiro centro da existência humana aparece assim ser ‘ex sistere’, fora de si, somente movendo para o qual o homem pode atingir o seu ‘en si’ próprio. Para ele, Deus é um ser dialógico, em que a essência é ser relação; somente uma compreensão do homem como ‘pessoa’, entendido como relação e abertura ao outro, como atuação permanente da dinâmica do êxodo, respeita a peculiaridade do Espírito humano, criado ‘à imagem e semelhança de Deus’. Enfim, diz Ratzinger : ‘O outro, por meio do qual o Espírito torna-se a si mesmo, é aquele completamente outro, ao qual, balbuciando, pronunciamos o nome Deus’.

A capacidade humana do divino : se o homem é busca de significado da realidade, se o seu ser pessoa se realiza na abertura, no ekstasis, deve-se concluir que a sua medida é somente o infinito, o tudo, é Deus mesmo. Esse é o aspecto que distingue o espírito humano : ‘O homem é ser capaz de pensar o totalmente diverso, o transcendente, isto é, Deus, como quer que o chame’. Diz Ratzinger : ‘Se poderia dizer que o homem representa aquela fase da criação, aquela criatura à qual é dada a possibilidade de ver a Deus e então de participar a vida. (…) Devemos agora acrescentar que essa abertura não é um ‘a mais’ na existência, a qual poderia também ser vivida independente dessa, mas que tal abertura representa aquilo que é mais profundo no homem, ou seja, propriamente aquilo que chamamos alma’. Essa ‘capacidade’ humana do divino vem implicitamente, mas claramente sugerida pelo mesmo texto bíblico do Gênesis quando descreve a criação do homem. Aqui duas afirmações são significativas : Deus criou um ser que pode pensar e conhecer aquele que o criou; o fato de ser criado à imagem e semelhança de Deus, diz ele, ‘A semelhança com Deus significa ‘referência’, é uma dinâmica que coloca em movimento o homem e o orienta para o completamente outro, significa capacidade de relação, significa que o homem é capaz de Deus. Em consequência, o homem é ‘ele mesmo’ em máxima potência quando sai de si, quando é capaz de dizer ‘tu’ a Deus. Essa dinâmica se cumpre somente com o Adão definitivo, aquele que é a perfeita imagem e semelhança de Deus e que por isso revela exemplarmente que é o homem. A abertura para Deus torna-se, de fato, orientação para Cristo, para o seu corpo ressuscitado, para o qual não somente o homem, mas toda a realidade, tende, e na qual ambos se tornam plenamente ‘ele mesmo’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-visao-antropologica-de-joseph-ratzinger-papa-bento-xvi-em-relacao-ao-homem.html