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domingo, 5 de maio de 2024

A visão antropológica de Joseph Ratzinger - Papa Bento XVI - em relação ao homem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Rodolfo Faria


Estimado leitor da Revista Ave Maria, começo nossa reflexão mensal de maio a partir do pensamento do Papa Bento XVI em relação à visão antropológica do homem e suas relações afetivas. Pensar sobre a humanidade contemporânea será sempre um desafio, sobretudo a partir das categorias que compõem a sociedade.

O homem contemporâneo para Ratzinger é aquele que vive no mundo secularizado, pós-metafísico, edificado substancialmente sobre a interpretação científico-matemática da realidade; aquilo que aparece dotado de valor é unicamente o ‘fato’, alcançado pelos métodos da ciência natural e que pode ser, em consequência, constatável, dominável, transformado pela intervenção do homem. O factum torna-se, assim, imediatamente faciendum, isto é, aquilo que pode ser programado e criado pelo homem e que o projeta para o futuro. O saber torna-se poder. Os processos são assim submetidos à única autoridade comumente reconhecida : a ratio técnica (razão técnica).

Os outros tipos de conhecimento não experimentável, não exprimível em termos científico-positivos, perdem o próprio direito de cidadania no reino do legitimamente comunicável e são confinados ao âmbito do privado, do subjetivo, ao domínio da opinião. Diz ele : ‘A verdade que ao homem cumpre manipular não é nem a verdade do ser, nem em última análise a dos seres realizados, feitos; mas a verdade da alteração do mundo – uma verdade dirigida para o futuro e para a ação’. Isso é chamado por Ratzinger predomínio do ‘saber-fazer’. Essa redução da natureza a dados de fatos exaurivelmente penetráveis, e com isso também manipuláveis, tem como consequência que nenhuma mensagem moral que provém de fora do perímetro do nosso eu pode alcançar-nos. 

O fenômeno moral, como aquele religioso, vem considerado como pertencente à esfera da subjetividade, não tendo cidadania alguma na dimensão da objetividade. Nesse círculo fechado, tem-se um homem que espera a salvação de si mesmo e parece ser incapaz de dá-la.

Sobre a crise da filosofia moderna, a crise da metafísica, ele diz que não se pode ignorar a pergunta metafísica da interrogação filosófica e continua ‘lá onde não se coloca mais a questão sobre a origem e fim do real se transcura próprio àquilo que é o mais específico da pesquisa filosófica’. Nesse cenário, qual o lugar de Deus e do fenômeno religioso? A questão de Deus resulta dessa forma estranha ou Deus é colocado à margem entre as coisas que são tidas como importantes para o homem, para o conhecimento e a transformação do mundo. Joseph Ratzinger não fala tanto de um ateísmo teórico, mas de um ateísmo prático, que poderia ser assim enunciado : ‘Também se Deus existe, este não modifica substancialmente a vida do homem e do mundo’. Essa lógica aprisiona o homem na sua fatualidade, traindo a sua natureza mais profunda, tendo como consequência última e lógica e ao mesmo tempo dramática a destruição do homem mesmo, a sua abolição. Então Ratzinger diz que esta ignora aquela abertura constitutiva do homem ao mistério do ser, que ele expressa e sintetiza em três aspectos característicos da dinâmica espiritual do homem: a procura de sentido; a lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado da pessoa; a capacidade humana do divino.

A procura do sentido : a natureza humana não pode ser saciada pela pura positividade dos fatos. O texto de Mateus 4,4 oferece a Ratzinger o elemento para sublinhar o significado global da existência. Diz ele : ‘Com efeito, o homem não vive apenas do pão da fatualidade; com efeito, ele vive do amor, do sentido das coisas. O sentido é o pão que lhe possibilita subsistir, em sentido próprio como homem. Sem a palavra, sem uma finalidade, sem amor o homem chega à situação de não mais viver, mesmo cercado de todo conforto humano’. O homem necessita de um sentido que preencha a sua solidão : ‘Esta solidão pode ser superada não por meio da razão, mas por meio de uma presença, de um ser que o queira bem’. O homem pode vencer a solidão somente experimentando a existência como um ser amado. 

Ratzinger diz que a questão do sentido não opcional, elemento assessório a uma vida em si já completa, mas é a condição mesma para poder viver, é aquilo que só pode justificar a sua transmissão às futuras gerações. Enfim, o homem que busca um sentido último e onicompreesivo percebe que esse sentido não pode vir da ciência e nem criado do fazer e do operar, mas pode somente ser esperado e recebido daquele que é ‘outro’de si.

A lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado original da pessoa : esse é um principio que norteia toda a teologia de Ratzinger. ‘De ekstasis’, sair de si. A história da salvação, por exemplo, vem compreendida à luz desse princípio como um grande êxodo. Da vocação de Abraão ao seu cumprimento no sacrifício pascal de Cristo, que permanece presente e se desenvolve no mundo pela abertura missionária da Igreja. A profissão batismal representa um sair do próprio ‘eu’ autônomo para entrar no ‘nós’ da comunidade eclesial. A vida cristã é caracterizada por essa dinâmica de ‘sair de si’ sobre a base de Mateus 10,39, ‘Somente quem perde a vida a encontra’.

Para Ratzinger, também a moderna pesquisa da antropologia filosófica consiste na própria superação de si : a abertura, a relação com a totalidade, faz parte da essência do Espírito, assim que somente no superar-se possui-se a si mesmo. O verdadeiro centro da existência humana aparece assim ser ‘ex sistere’, fora de si, somente movendo para o qual o homem pode atingir o seu ‘en si’ próprio. Para ele, Deus é um ser dialógico, em que a essência é ser relação; somente uma compreensão do homem como ‘pessoa’, entendido como relação e abertura ao outro, como atuação permanente da dinâmica do êxodo, respeita a peculiaridade do Espírito humano, criado ‘à imagem e semelhança de Deus’. Enfim, diz Ratzinger : ‘O outro, por meio do qual o Espírito torna-se a si mesmo, é aquele completamente outro, ao qual, balbuciando, pronunciamos o nome Deus’.

A capacidade humana do divino : se o homem é busca de significado da realidade, se o seu ser pessoa se realiza na abertura, no ekstasis, deve-se concluir que a sua medida é somente o infinito, o tudo, é Deus mesmo. Esse é o aspecto que distingue o espírito humano : ‘O homem é ser capaz de pensar o totalmente diverso, o transcendente, isto é, Deus, como quer que o chame’. Diz Ratzinger : ‘Se poderia dizer que o homem representa aquela fase da criação, aquela criatura à qual é dada a possibilidade de ver a Deus e então de participar a vida. (…) Devemos agora acrescentar que essa abertura não é um ‘a mais’ na existência, a qual poderia também ser vivida independente dessa, mas que tal abertura representa aquilo que é mais profundo no homem, ou seja, propriamente aquilo que chamamos alma’. Essa ‘capacidade’ humana do divino vem implicitamente, mas claramente sugerida pelo mesmo texto bíblico do Gênesis quando descreve a criação do homem. Aqui duas afirmações são significativas : Deus criou um ser que pode pensar e conhecer aquele que o criou; o fato de ser criado à imagem e semelhança de Deus, diz ele, ‘A semelhança com Deus significa ‘referência’, é uma dinâmica que coloca em movimento o homem e o orienta para o completamente outro, significa capacidade de relação, significa que o homem é capaz de Deus. Em consequência, o homem é ‘ele mesmo’ em máxima potência quando sai de si, quando é capaz de dizer ‘tu’ a Deus. Essa dinâmica se cumpre somente com o Adão definitivo, aquele que é a perfeita imagem e semelhança de Deus e que por isso revela exemplarmente que é o homem. A abertura para Deus torna-se, de fato, orientação para Cristo, para o seu corpo ressuscitado, para o qual não somente o homem, mas toda a realidade, tende, e na qual ambos se tornam plenamente ‘ele mesmo’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-visao-antropologica-de-joseph-ratzinger-papa-bento-xvi-em-relacao-ao-homem.html

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Os conselhos concretos de Bento XVI para sermos mais santos no cotidiano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Mathilde de Robien


‘Longe da imagem que alguns fizeram de Bento XVI – a de um teólogo desligado das realidades da vida -, ele teve, sim, uma percepção muito clara das dificuldades que todos encontram ao viver diariamente na presença de Deus.

Em uma homilia do Advento em 2009, ele observou : ‘Na existência cotidiana, todos nós vivemos a experiência de ter pouco tempo para o Senhor e pouco tempo também para nós. Terminamos por ser absorvidos pelo ‘fazer'‘.

Quem já não viveu períodos em que o número de coisas que temos de fazer nos sobrecarrega tanto, que já não temos tempo nem disponibilidade de espírito para o que é verdadeiramente essencial?

O que é essencial?

Para Bento XVI, essencial é o nosso encontro com Cristo.

‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’, escreveu Bento XVI na sua primeira encíclica, Deus caritas est.

A fé é, antes de tudo, uma relação, um encontro com Deus. A nova direção decisiva é tornar-se santo. E a forma como avançamos no caminho da santidade é viver regularmente com Cristo, deixando-nos envolver pelo seu amor.

Para que nos tornemos amigos de Deus, Bento XVI recomenda alguns hábitos bastante acessíveis e fáceis de praticar.

1.      Tenha contato com Deus duas vezes ao dia

Todo relacionamento morre se não for mantido. Isso é verdade para casais, famílias e amigos, mas também no que diz respeito ao relacionamento com o Senhor. É por isso que Bento XVI disse : ‘Nunca começar nem terminar um dia sem, pelo menos, um breve contato com Deus’. Não precisa ser, necessariamente, uma oração, mas um pensamento, um gesto, uma palavra de elogio ou gratidão, no início e no fim do dia.

2.     Todas as manhãs, agradeça ao Senhor pelo dom da fé

Em sua última audiência geral, em 27 de fevereiro de 2013, Bento XVI compartilhou uma bela e curta oração e incentivou-nos a recitá-la diariamente pela manhã, a fim de expressarmos o amor ao Senhor e agradecê-lo pelo dom da fé. Eis a oração em questão : ‘Eu Vos adoro, meu Deus, e Vos amo com todo o coração. Agradeço-Vos por me terdes criado, feito cristão’.

Para Bento XVI, o dom da fé é ‘o nosso bem mais precioso, que ninguém nos pode tirar!’

3.     Todos os dias, encontre uma oportunidade para se alegrar

‘Um desejo de alegria espreita no coração de cada homem e mulher’, disse Bento XVI na 27ª Jornada Mundial da Juventude de 2012. ‘Além das satisfações imediatas e passageiras, o nosso coração procura a alegria profunda, total e duradoura, que possa dar ‘sabor’ à existência’, disse Bento XVI. Ele ainda acrescentou :

‘E todos os dias são tantas as alegrias simples que o Senhor nos oferece : a alegria de viver, a alegria face à beleza da natureza, a alegria de um trabalho bem feito, a alegria do serviço, a alegria do amor sincero e puro. E se olharmos com atenção, existem muitos outros motivos de alegria : os bons momentos da vida familiar, a amizade partilhada, a descoberta das próprias capacidades pessoais e a consecução de bons resultados, o apreço da parte dos outros, a possibilidade de se expressar e de se sentir compreendidos, a sensação de ser úteis ao próximo.’

4.    Todos os dias, observe um sinal de Deus

 ’Os acontecimentos individuais do dia são indícios que Deus nos dá, sinais da atenção que Ele tem por cada um de nós. Quantas vezes Deus nos dá um vislumbre de seu amor! Manter, por assim dizer, um ‘diário interior’ deste amor seria uma bela e salutar tarefa para a nossa vida’, disse Bento XVI em 2009.

5.     Contemplar obras de arte

Como músico e amante da música, Bento XVI experimentou como a beleza pode nos elevar a Deus. Durante uma audiência geral em agosto de 2011, ele compartilhou o quanto um concerto de Bach em Munique o havia tocado : ‘No final da última peça, uma das Cantatas, senti, não por raciocínio mas no profundo do coração, que quanto eu ouvira me tinha transmitido a verdade, a verdade do sumo compositor, impelindo-me a dar graças a Deus’.

‘As cidades e os povoados do mundo inteiro encerram tesouros de arte que exprimem a fé e nos exortam à relação com Deus. Então, a visita aos lugares de arte não seja apenas uma ocasião de enriquecimento cultural — também isto — mas possa tornar-se sobretudo um momento de graça, de estímulo para refortalecer o nosso vínculo e o nosso diálogo com o Senhor’, concluiu o Papa.

6.    Aproveitar os momentos engraçados da vida

Numa entrevista antes da viagem apostólica à Baviera, em setembro de 2006, Bento XVI destacou a importância de não se levar muito a sério e de saber aproveitar as pequenas alegrias da vida : ‘Não sou um homem que se lembra continuamente de anedotas. Mas considero muito importante saber ver o aspecto divertido da vida e a sua dimensão alegre e não viver tudo tão tragicamente, e diria que isto é necessário também no meu ministério. Um escritor disse que os anjos conseguem voar porque não se consideram a si mesmos com demasiada seriedade. E também nós talvez pudéssemos voar um pouco mais, se não déssemos tanta importância a nós mesmos’.

7.     Invocar os santos com mais frequência

Bento XVI tinha uma grande devoção e confiança nos santos. Na missa inaugural de seu pontificado, em 24 de abril de 2005, confiou-se à vasta comunhão dos santos : ‘Todos os santos de Deus estão aí para me proteger, me sustentar e me carregar’.

Ele convidou todos os batizados a pedirem a proteção dos santos.

8.    Reservar um tempo para o silêncio

Apesar da correria da vida, Bento XVI nos convida a fazer tempos regulares de silêncio, um caminho confiável para o encontro com Deus, um espaço para deixar falar ‘alegria, preocupações, sofrimento’, um tempo essencial para discernir o que é importante do que é inútil ou incidental. 

‘Não há que surpreender-se se, nas diversas tradições religiosas, a solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas. O Deus da revelação bíblica fala também sem palavras : ‘Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra Encarnada’, afirmou Bento XVI em mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/03/10/os-conselhos-concretos-de-bento-xvi-para-sermos-mais-santos-no-cotidiano/

quarta-feira, 26 de abril de 2023

4 situações em que o anjo da guarda ajudou Bento XVI

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Fernando Cárdenas Lee


‘Bento XVI teve pelo menos quatro experiências com seu anjo da guarda. Ele mesmo as revelou. Duas dessas situações aconteceram quando ele era muito jovem. O padre Fernando Cárdenas, sacerdote especializado em anjos, explica isso em um vídeo que publicou em seu canal no YouTube em homenagem ao falecido Papa.

A primeira experiência ocorreu quando ele teve difteria, ainda na infância. Disseram que ele não sobreviveria, mas Ratiznger finalmente se recuperou e atribuiu sua cura ao seu anjo da guarda.

A segunda foi quando ele caiu em um tanque e conseguiu sair, graças à ajuda dos seus protetores celestiais.

Mais tarde, no fim da Segunda Guerra Mundial, Hitler o enviou para uma unidade antiaérea. Mas Ratzinger fugiu.

Ele estava doente, com sepse. Naquele momento, o jovem Joseph conheceu alguns soldados. Sua situação era grave e desertar do exército era uma traição à pátria.

Mas, devido ao seu delicado estado de saúde, deixaram-no ir e ele conseguiu voltar para casa. Em suas memórias, Ratzinger diz que parecia que um anjo o protegia.

Em 2009 já como Papa, foi de férias a Castel Gandolfo com a intenção de escrever a sua obra ’Jesus de Nazaré’. Lá, ele caiu e precisou engessar o braço. Bento XVI disse que seu anjo da guarda permitiu esta queda, para que ele pudesse descansar.

O que o Papa ensinou sobre os anjos

O jornalista Vittorio Messori entrevistou Ratzinger quando ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e lhe perguntou sobre o mundo invisível. A resposta veio com uma analogia : quando se olha nos olhos de uma pessoa, pode-se vislumbrar o que está lá dentro, se essa pessoa está triste ou feliz. Você não vê a tristeza, mas olhando nos olhos de uma pessoa, você pode vislumbrar algo invisível.

Messori, então, perguntou a Ratzinger se ele já tinha visto seu anjo da guarda. Ele respondeu que não e que, em todo caso, não se deve parar no anjo, mas ter comunicação com Deus.

Quanto aos anjos, Ratzinger dizia que, com base na Sagrada Escritura e na Tradição, sabe-se que são criaturas (não deuses), mas a sua natureza é estar na presença de Deus. E o segundo aspecto é que eles são mensageiros de Deus. Podem estar – e estão – perto dos homens porque estão na presença de Deus.

Certa vez, Bento XV disse aos jovens para sentirem a presença dos anjos da guarda e se deixarem guiar por eles. E para os casados, que buscassem frequentemente a ajuda de seus anjos da guarda para crescer no testemunho constante do amor autêntico.

Portanto, juntemo-nos aos anjos para entrarmos em comunicação com Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/01/11/4-situacoes-em-que-o-anjo-da-guarda-ajudou-bento-xvi/

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Dom Catelan: A herança litúrgica do Papa Bento XVI

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Antonio Luiz Catelan Ferreira,

Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, RJ

 

A liturgia é um dos temas mais caros ao Papa Bento XVI. Ele dedicou-lhe muita atenção e reflexão, tanto em sua produção teológica pessoal, como em seu Magistério Pontifício.

A produção teológica de J. Ratzinger a respeito da liturgia é marcada principalmente por duas obras : A Festa da Fé (1981) e O Espírito da Liturgia : uma introdução (2000). Na coleção que reúne sua produção teológica, o volume 11 recolhe diversos artigos, conferências, apresentações e homilias sobre o tema. Na língua original soma 757 páginas (Herder, 2008), na tradução brasileira (Ed. CNBB, 2ª edição revisada, 2019) soma 751).

O texto em que ele desenvolve seu pensamento de modo mais sistemático e completo é do ano 2000. O título da obra se assemelha muito ao do livro de um de seus autores favoritos, Romano Guardini, O Espírito da Liturgia, publicado em 1918. Com isso ele indica que pretende retomar aspectos de uma corrente do Movimento Litúrgico que não receberam a mesma atenção no caminho da liturgia ao longo do Século XX. A história da liturgia e de seus principais elementos é apresentada na perspectiva da continuidade fundamental e o que se assemelha a rupturas ele demonstra serem evoluções necessárias do fundamento posto por Deus desde o ato criador do cosmos. Essa perspectiva se manifesta já na relação entre o Antigo e o Novo Testamento.

Nesse libro, o estudo dos fundamentos bíblicos da liturgia recebe atenção primorosa. Dialoga com os autores das principais pesquisas e as passa em resenha para discutir as ideias principais ou mais difundidas. Dá grande atenção ao desenvolvimento da liturgia ao longo da história da Igreja, em perspectiva de crescimento orgânico, vital, sem rupturas bruscas. Destaca-se sua exposição sobre o significado da participação ativa de todos os fiéis nas celebrações : trata-se não simplesmente de fazer ou dizer coisas, mas de tomar parte na ação fundamental, que é realizada por Cristo através de sua Igreja. Os fiéis não são meros expectadores, tomam realmente parte no ato de culto, suas ações exteriores são extremamente importantes. Bastaria, para compreender a importância que J. Ratzinger atribui a elas, a leitura do capítulo quarto desse livro, a respeito da forma litúrgica, onde trata do significado espiritual do rito, do corpo com suas posições e gestos, da voz, da veste e da matéria que entra no ato de culto.

Em seu Magistério Pontifício, destacam-se duas exortações apostólicas e uma carta apostólica. Os textos maiores, as exortações apostólicas, são : Sacramentum Caritatis (2007) e Verbum Domini (2010). No primeiro, a opção por apresentar a Eucaristia a partir da fé, da celebração e da vida, assume a perspectiva mistagógica. Essa perspectiva caracteriza grande parte de suas homilias sobre temas litúrgicos. Destacam-se as proferidas por ocasião das celebrações anuais da Missa Crismal (manhã de Quinta-Feira Santa), dos Batismos celebrados na Festa do Batismo do Senhor e das Ordenações. Sua compreensão da mistagogia se encontra no magnífico número 64 dessa exortação. Ele considera que essa é a forma fundamental da formação liturgia, formar pela liturgia mais que para ela (embora valorize muito também essa modalidade). Não menos importante é a noção de culto espiritual que se encontra no número 70, que exprime como o mistério crido e celebrado se torna ‘princípio da vida nova’ e ‘forma da existência cristã’.

A exortação apostólica Verbum Domini trata da Palavra de Deus de modo geral, mas dedica os números 52 a 71 à Palavra de Deus na liturgia. Entre a compreensão do significado teológico da Palavra de Deus, sua difusão pastoral e a atuação da Igreja no mundo consequente à fé, está, como a fazer conexão e transição, a Palavra na celebração. Aí se destaca a noção de sacramentalidade da Palavra (n. 56). Primeira vez que essa expressão ocorre em um documento pontifício, ocasionou muitos estudos e publicações. Em analogia (comparação que leva em conta semelhanças e diferenças) com a encarnação do Filho de Deus e com os sacramentos, ele expõe a eficácia da Palavra, que produz em nós o que significa. Destaca-se a analogia com a presença real de Cristo na Santíssima Eucaristia, pois em sua Palavra ele está realmente presente e se dirige a nós, o que tem consequências para a vida espiritual dos fiéis e para a vida pastoral da Igreja.

Por fim, a carta apostólica (motu proprioSummorum Pontificum (2007), trata do uso da liturgia romana anterior à reforma litúrgica de 1970. Levando em conta o impulso da liturgia para a vida espiritual, para o fortalecimento da religião e da piedade do povo cristão, dá continuidade a ações de seu predecessor, São João Paulo II, que permitiram cada vez mais ampla e facilmente o uso da edição do Missal de 1962. Na introdução aos 12 artigos, demonstra que a coexistência dos dois Missais e dos dois rituais (o da forma típica reformada e o anterior, compreendido como forma extraordinária) não fere a concordância que deve haver entre as Igrejas particulares e a Igreja universal quanto à doutrina da fé, aos sinais sacramentais e aos usos universalmente aceitos. Também não põe em risco a correspondência entre a regra da oração e a regra da fé na Igreja (Instrução Geral sobre o Missal Romano, 3ª ed. típica, n. 397). Isso porque na liturgia há crescimento e progresso, mas na continuidade, sem rupturas. Juntamente com a carta apostólica, escreve uma Carta aos Bispos no qual pede generosidade com relação aos grupos que solicitam celebrações na forma extraordinária como também prudência no acompanhamento, pois ‘não faltam exageros e algumas vezes aspectos sociais indevidamente vinculados à atitude dos fiéis ligados à antiga tradição latina’ (Carta).

Talvez mais até do que o aspecto doutrinal do Magistério litúrgico de Bento XVI, sua forma de celebrar e de pregar durante as celebrações sejam o aspecto mais precioso de seu legado. Ele viveu o que ensinou : ‘a melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada’ (Sacramentum Veritatis, 64).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-02/dom-catelan-heranca-liturgica-papa-bento-xvi.html

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Bento XVI: "Tudo se desmorona se falta a verdade"

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Élio Gasda


O Papa mais longevo da história da Igreja renunciou em 2013 alegando ‘incapacidade de administrar bem o ministério’. Como bispo emérito da Diocese de Roma, viveu seus últimos dias em um mosteiro, onde faleceu em 31 de dezembro de 2022. O último pontífice a renunciar foi Gregório XII, em 1415.

Para Bento XVI, ‘no mundo atual, omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo demasiado grande para o homem’ por isso seu lema : Colaborador da Verdade. 

Foram três encíclicas : Deus Caritas Est, Spe salvi. Caritas in Veritate (CV) é sua encíclica social sobre o ‘desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade’. Foi publicada em 2009, com dois anos de atraso, devido à crise econômica que explodiu em 2007. A mais grave desde 1929, começou nos Estados Unidos e se alastrou pelo mundo, derrubou governos, gerou elevadas taxas de desemprego, aumento dos preços e a fome em todo planeta. ‘A fome ceifa a vida de muitíssimos Lázaros impedidos de sentar-se à mesa… do rico epulão’ (CV 27). A reforma agrária, o acesso à alimentação e à água como direitos universais de todos os seres humanos sem distinção ou discriminações são urgências (CV 27). Em pleno século XXI, ‘dar de comer aos famintos é um imperativo ético de Jesus. Eliminar a fome tornou-se um objetivo para paz e a vida na terra’ (CV 27).

Caritas in Veritate, dividida em sete capítulos e conclusão, recebeu muitas reações. Esquerdista! Socialista! Bradaram os capitalistas neoliberais. Será que realmente leram o texto de quase 130 páginas contendo 159 notas, escrito em latim por um teólogo alemão?

Ratzinger reserva o primeiro capítulo da CV à releitura da Populorum Progressio (PP) de Paulo VI. Escrita em 1967, é uma profunda reflexão sobre o desenvolvimento humano. ‘Deesenvolvimento não se reduz a simples crescimento econômico. O desenvolvimento somente é moral quando promove a todas as pessoas’ (PP 14). Para que os seres humanos possam ser cada mais humanos é preciso passar de ‘condições de vida menos humanas a condições de vida mais humanas’ (PP 20).

Como teólogo, Bento XVI foi ao essencial da fé : ‘A experiência de Deus leva a reconhecer no outro a imagem divina e a viver um amor que se torna cuidado do outro e pelo outro’ (CV 11). ‘Amor eterno e Verdade absoluta - constituem ‘a principal força propulsora para o autêntico desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade’ (CV 1). Esta vinculação desautoriza o assistencialismo descomprometido que não transforma a realidade (CV 4). A Caridade informada pela Verdade será sempre libertadora (CV 5).

A Verdade tem seu maior inimigo na mentira. Se verdade é o caminho da vida, a mentira leva à morte. O principal confronto de Jesus é com a mentira que mata (Jo 8,44-45). Matar a verdade leva a matar seres humanos (Jo 19,5). É preciso denunciar as políticas, as ideologias e os sistemas alicerçados na mentira.

A Doutrina Social da Igreja é expressão do amor ao próximo vinculado à Verdade (CV 2). Amor, Verdade e Justiça constituem uma unidade em Deus. A caridade exige a justiça : ‘O amor - caritas - é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz (CV 1). O amor ganha forma operativa na justiça como critério orientador da ação política que busca o bem comum (CV 6).

Toda a sociedade deve estar fundada no direito e na justiça. A justiça é medida e virtude que deve orientar a vida social e política. Sua concreção em estruturas sociais e estatais é competência da política. Mas cabe aos cristãos contribuir na formação da consciência ética fundada na justiça (CV 7). Querer o bem comum e trabalhar por ele é uma exigência de justiça e de caridade. Isso implica ‘valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade’ (CV 7).

Toda pessoa é chamada a entrar em comunhão fraterna na sociedade civil, na economia e na política (CV 2). Tolerar a injustiça é tolerar o sofrimento humano. O dever moral para com os que sofrem é dever de justiça.

Bento XVI confirma a Igreja como advogada da justiça e defensora dos Lázaros que morrem de fome às portas dos ricos (CV 27). A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica (Bento XVI).

‘Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa’ (CV 1). Dar de comer a quem tem fome é revelar o rosto da Verdade que liberta!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598952

sábado, 21 de janeiro de 2023

Livro: “Deus é sempre novo", a espiritualidade de Bento XVI

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Eugenio Bonanata

Para chegar ao coração e a mente do leitor como uma centelha. Este é o objetivo do livro ‘Deus é sempre novo’, recém publicado pela Libreria Editrice Vaticana. ‘É a síntese do pensamento e do trabalho de uma testemunha credível que ao longo de sua vida se colocou a serviço da Igreja’, afirma o editor do livro Luca Caruso, falando da importância de alimentar a reflexão sobre a busca do rosto de Deus.

Teologia ‘de joelhos’

Um caminho que marcou a existência de Bento XVI, como confirmam seus textos no volume. Homilias, catequeses e discursos que, segundo Caruso, mostram um elemento comum : ‘A vontade e o desejo de compartilhar este precioso tesouro que ele encontrou no estudo e na oração’. Os horizontes abertos por esta síntese espiritual de Bento XVI são infinitos.  ‘Ratzinger é o mestre da fé que se dirige ao povo de Deus’, enfatiza o editor, esperando que o livro ajude a encontrar respostas para as questões da modernidade. ‘Bento XVI fazia teologia de joelhos’, escreve o Papa Francisco no prefácio, recordando precisamente esta proximidade com a dimensão contemporânea.

Um tesouro a ser redescoberto

‘Foi como entrar numa ampla clareira’, diz Caruso sobre o trabalho de pesquisa : ‘O Magistério de Bento XVI está verdadeiramente repleto de tesouros a serem redescobertos’. Fala-se das virtudes teologais, da família, da oração, da alegria. Mas também da combinação de fé e razão como uma estrutura narrativa para recontar a força e a relevância do Evangelho. ‘Nisto’, continua Caruso, ‘ecoa o que foi dito na Encíclica Fides e ratio de João Paulo II : fé e razão como as duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade’.

Arte e beleza

Um passo fundamental é representado pela beleza - que se concretiza na arte - como uma forma privilegiada de encontrar Deus. O Papa Francisco também lembra isso no prefácio, recordando implicitamente outros pontífices do século XX : desde Pio XII, que em 1953 instituiu a Missa dos artistas na Basílica de Santa Maria em Montesanto em Roma, até Paulo VI, que se encontrou várias vezes com artistas na Capela Sistina, inspirando seus sucessores a celebrar esta ocasião. ‘Com Papa Bento XVI’, aponta Caruso, ‘há um convite para seguir o caminho da beleza que nos permite aproximar-nos do eterno e assim acolher a própria beleza de Deus’.

Pequenas peças no grande mosaico da história

Indicações ao alcance de todos, assim como o chamado à santidade, que diz respeito a cada batizado e nada tem a ver com super poderes e outras coisas extraordinárias. O Papa Bento XVI, explica Caruso, reiterou isto por ocasião do Dia Mundial da Juventude em Colônia, onde os Reis Magos estão enterrados. ‘Identificou precisamente os Magos como aqueles que estão à frente de uma procissão sem limites que transcende épocas e fronteiras e avança em direção ao absoluto de Deus’. Um convite dirigido a cada um de nós : ‘Ser como pequenas peças no grande mosaico da história que’, conclui Caruso, ‘será, em última análise, a face de Deus, que é uma face de misericórdia e de esperança’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-01/livro-bento-xvi-deus-e-sempre-novo-espiritualidade.html

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Bento XVI: As surpresas de um papa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Maria Clara Bingemer,

teóloga


Talvez seja um pouco tardia esta reflexão sobre o Papa Bento XVI já mais de dez dias após sua morte.  Outras preocupações tomam o lugar do tempo do luto mais próximo do falecimento do pontífice que governou a Igreja Católica por oito anos e depois permaneceu em Roma como Papa Emérito até o último dia 31 de dezembro de 2022.  O cenário nacional fervilha com as últimas ameaças à democracia e parece não haver outro assunto.  No entanto, me parece que a figura do falecido é por demais importante para não trazer alguma reflexão sobre sua pessoa.

Por isso mesmo, porque tantas coisas importantes – positivas e críticas – foram ditas e escritas, atenho-me ao que foi essencial de meu contato com o teólogo Ratzinger, em cujos livros li e estudei durante minha graduação em Teologia, e com aquele que se tornou sucessor de João Paulo II em 2005.  

Quando foi anunciada sua eleição pelo cardeal camerlengo em 2005, confesso que tinha sentimentos não muito claros por dentro. Por um lado, compreendia que o conclave o tivesse eleito, era o colaborador mais próximo do papa polonês, o teólogo e pensador refinado, o homem culto que presidia a Pontifícia Comissão para a Doutrina da Fé.  No entanto, pude conhecer de perto igualmente sua atuação à frente desta comissão e minha impressão era de uma certa perplexidade diante de algumas punições e restrições impostas a teólogos que eu conhecia bem de perto e cuja fé profunda e o rigor teológico admirava. Os dois lados se fizeram sentir naquele momento em que a Igreja, após 26 anos do governo de João Paulo II, esperava ventos novos.

Dos oito anos em  que reinou Bento XVI lembro-me de vários momentos em que surpreendeu positivamente: a reconciliação com a Companhia de Jesus, que havia recebido intervenção do antecessor João Paulo II, coisa que tanto fizera sofrer o querido padre Arrupe; o belo texto da primeira encíclica, Deus caritas est, onde o intelectual refinado que era Bento XVI não temia dialogar inclusive com Nietzche, o filósofo tão crítico do cristianismo; a oração pungente em Auschwitz que se lançava de encontro ao silêncio de Deus. Haveria outras, muitas mais a mencionar.

Desejo destacar duas ocasiões que me parecem centrais para compreender por que vejo Bento XVI como alguém surpreendente.

A primeira foi sua vinda ao Brasil para abrir a Conferência de Aparecida, em 2007.  Havia um ambiente de desconforto e temor entre muitos que trabalhavam e participavam do evento.  A Conferência de Santo Domingo, em 1992, havia sido difícil e penosa.  O documento final quase não foi escrito e divulgado.  Graças a circunstâncias várias, entre elas o gênio e a santidade de Dom Luciano Mendes de Almeida, houve um documento com pontos positivos, mas que parecia não levar em conta o sopro profético das conferências de Medellín e Puebla, como a centralidade da opção pelos pobres. Temia-se o que poderia dizer Bento XVI. Se o Papa, no discurso de abertura, pronunciasse uma clara condenação da teologia da libertação, que tinha como centro a opção pelos pobres, seria realmente muito triste para a caminhada da Igreja latino-americana.

O Papa falou.  Declarou que a fé nos liberta do isolamento e nos conduz à comunhão com Deus e com os irmãos, implicando responsabilidade para com o outro.  E continuou. Cito literalmente pela importância que reside nesta frase que mudou completamente o panorama da V Conferência, em Aparecida : ‘Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2 Co 8, 9).’

A partir daquele momento encerravam-se as discussões sobre se a opção pelos pobres seria realmente teológica ou, ao contrário, apenas um subproduto de um marxismo mal compreendido.

A alguns não caiu bem a afirmação do Papa. Chegaram a retirar-se da conferência.   Para muitos de nós que ali estávamos foi uma lufada de ar fresco e uma injeção de ânimo. Aparecida retomou a questão dos pobres, dando-lhe a centralidade devida, e produziu um documento que voltava a trazer esperança para a Igreja do continente.

Em 2012, encontrava-me em Chicago conversando com o grande amigo e teólogo maior David Tracy.  Meio abruptamente ele me perguntou : ‘Você acha que o Papa vai renunciar?’  Surpreendida, disse que jamais havia passado por minha cabeça esta ideia.  David me explicou o porquê de suas suspeitas e sua argumentação não me convenceu.   De Chicago viajei a Roma. Fora convidada a apresentar, ao lado do Cardeal Ravasi e de outros teólogos e editores, o livro de Bento XVI sobre a Infância de Jesus.  Após a apresentação, fomos todos  cumprimentar o autor.  Bento XVI nos recebeu sorridente e alegre com o lançamento do livro.  Ao cumprimentá-lo disse-lhe, referindo-me à Jornada Mundial da Juventude que teria lugar no Rio de Janeiro, em julho de 2013 : ‘Nós o esperamos no próximo ano, no Rio.’  Ao que ele respondeu com um meio sorriso : ‘Se Deus me der saúde...’

No dia 8 de fevereiro de 2013, uma jornalista da Globo News me chamou ao telefone às 8 horas da manhã.  Era segunda feira de Carnaval.  Ouvi do outro lado a seguinte pergunta : ‘Professora, pode falar algo sobre a renúncia do Papa?’ A notícia me deixou perplexa.  Pedi uma hora para inteirar-me e liguei a televisão.  Os olhos do mundo inteiro estavam voltados para Roma e o gesto histórico da renúncia do Pontífice.

O resto é história. O papa Ratzinger explicou ao mundo as razões de sua renúncia.  À medida que o ouvia e lia, sentia crescendo em mim, juntamente com a surpresa, admiração por ele.  É muito difícil retirar-se quando se vê que chegou o momento. O papa bávaro o fez com elegância e firmeza.

Seu corajoso gesto abriu o caminho para a primavera de Francisco, iniciada pouco mais de um mês depois, em 13 de março de 2013. Este segue o caminho das surpresas, embora de forma bem diferente de seu antecessor. Que o Papa Bento descanse em paz e Francisco continue nos surpreendendo ainda por bastante tempo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598687

domingo, 15 de janeiro de 2023

E Francisco após a morte de Bento XVI?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Francisco reza diante de caixão de Bento XVI após funeral do dia 5 de janeiro de 2023 | AFP 

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


O que muda com a morte de Bento XVI? Há um impacto real sobre o pontificado de Francisco? Trata-se de uma página virada na história da Igreja que esconde incertezas sobre o futuro?

Esses foram os questionamentos feitos por algumas pessoas logo após a notícia do falecimento do papa emérito, ocorrido no último dia 31. O problema é que, do ponto de vista histórico, a renúncia de Ratzinger já havia sido vetor de uma revolução sem precedentes, não o seu falecimento em si.

E vou explicar o porquê.

Como sabemos, Bento XVI não foi o primeiro pontífice da história a abdicar. Ao menos desde o século I há registros de demissões do ministério petrino (livres ou forçadas). Papa Clemente (o quarto bispo de Roma), que foi exilado, deixou cargo em favor de Evaristo, de modo que a comunidade cristã não ficasse desamparada.

A diferença é que Papa Ratzinger instaurou uma instituição chamada ‘papado emérito’, cuja regulamentação os canonistas aguardam que se efetive para possibilitar que outros papas, que queiram dar esse passo, sejam amparados por uma legislação clara.

No entanto, Francisco sinalizou que não pretende, durante seu governo, mexer no que aí está. A afirmação foi feita durante entrevista concedida à ABC da Espanha, publicada no mês passado.

‘Não toquei em nada nem tive a ideia de fazê-lo. Talvez o Espírito Santo não queira que eu me preocupe com essas coisas’, ressaltou.

E foi nessa resposta que Francisco instaurou um clima de incerteza tanto em relação a uma eventual renúncia quanto aos critérios que ele mesmo estabeleceu para executá-la no futuro. Muito embora o papa argentino tenha declarado, também nesta entrevista, que já havia assinado sua carta de renúncia em 2013, repetindo o gesto de seus antecessores Pio XII e Paulo VI, tal oficialização, na prática, quer dizer muito pouco. Pacelli e Montini, que fizeram o mesmo, permaneceram no cargo até a morte.

Ou seja, isso não quer dizer que Francisco, com isso, dá por certa sua saída do papado ‘por vias não convencionais’. Mas pode estar ‘jogando’ com essa afirmação, à diferença dos outros dois que citamos, cuja intenção foi guardada a sete chaves e só foi revelada anos após a morte de ambos.

Nesses dois casos precedentes, caso qualquer informação vazasse, impactaria na estabilidade do próprio papado. Um foi papa em meio à Segunda Guerra Mundial. O outro, por sua vez, teve a incumbência de colocar em prática o Concílio Vaticano II e lidar com todas as resistências que se levantaram contra aquele novo modelo de Igreja. Mostrar-se ‘enfraquecido’, em tais contextos, estava fora de cogitação.

Diferente de Bento XVI, Francisco, em suas declarações, esconde grandes trunfos. Ele sabe que muitos, dentro da própria Cúria Romana, o apoiam por conveniência.

Por isso, para ele, é interessante observar, do alto da sua cátedra, como seus colaboradores se movem nesse ‘pré-conclave’.

Francisco é um grande estrategista, no sentido mais nobre do termo. Ele executa um programa de governo capaz de impactar para além dos muros da Igreja. Por isso mesmo, ser reconhecido como líder global por setores que sequer estão ligados à estrutura eclesial é um dado de fato.

Talvez, com isso, ele queira sentir como o colégio cardinalício prepara o terreno para o seu sucessor uma vez que ele, mais que ninguém, não quer que seu substituto decline seu projeto de reforma. Neste caso, mostrar-se enfraquecido e às portas de jogar tudo para o alto, esconde mais vantagens que desvantagens para ele. E ele o faz visando o bem da própria instituição, para que ela não caia nas mãos da ‘corte do retrocesso’ onde um ‘clero nobre’, que se coloca acima do bem e do mal, governa para mas servir aos próprios interesses.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598516