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sábado, 26 de abril de 2025

O legado espiritual deixado pelo Papa Francisco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Adelson Araújo dos Santos, SJ


‘Os 12 anos de pontificado do Papa Francisco ficarão, com certeza, marcados na nossa memória afetiva e intelectiva, por tudo o que ele nos marcou com seu carisma pessoal de pastor que sempre buscou se aproximar das suas ovelhas e de não deixar ninguém de fora do rebanho de Cristo, como também por meio dos seus ensinamentos, caracterizados por uma forte teologia e espiritualidade do encontro, da escuta e do discernimento.

Contudo, tendo chegado aos 67 anos de vida consagrada como membro da Companhia de Jesus, não é de admirar que durante os seus 12 anos de pontificado, muito do que o Papa nos comunicou com gestos e com palavras tenha origem na espiritualidade dos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. De fato, é possível identificar no jeito como Francisco viveu o seu pontificado alguns traços marcantes da espiritualidade inaciana. Ele mesmo fez questão de ressaltar isso em julho de 2013, no voo de volta da viagem que fizera ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, quando perguntado se ainda se sentia jesuíta como Papa, assim respondeu : ‘Eu me sinto jesuíta na minha espiritualidade, na espiritualidade dos Exercícios, a espiritualidade que eu tenho no coração’.

Mas, como reconhecer no pontificado do Papa Francisco esse carisma inaciano? Para responder a esta pergunta eu destacaria três características centrais deixadas por Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais, que moldaram a espiritualidade e o carisma dos jesuítas e que acompanharam Francisco diariamente na sua experiência de Deus e na sua missão como bispo de Roma e sucessor de Pedro.

A primeira característica é a de sentir-se chamado a ser um ‘contemplativo na ação’, expressão criada por Jerônimo Nadal, um dos primeiros jesuítas e estreito colaborador de Santo Inácio em Roma. Isto significa que, para um jesuíta (e todo inaciano ou inaciana) existe uma harmonia total entre a vida espiritual e a vida apostólica, pois em tudo aquilo que fazemos e em qualquer ambiente onde estivermos podemos (e devemos) buscar e encontrar a Deus, ou seja, não apenas nos momentos formais de oração ou no interior dos templos ou conventos. Isso faz com que seja o Espírito de Cristo a guiar tudo aquilo que faço ao longo do meu dia, para que se cumpra a vontade de Deus na minha ação apostólica. E, por outro lado, permite que o meu ministério e serviço não seja um mero ativismo ou rotina profissional, mas seja fruto da minha oração, como um encontro íntimo com o Senhor que não me fecha em mim mesmo, mas abre sempre para a missão e para os demais.

Ora, não temos dúvidas do quanto o Papa Francisco souber viver e ensinar essa necessária harmonia entre oração e ação, tendo sido ele mesmo um grande ‘contemplativo’, alguém que deu sempre um profundo testemunho do valor da oração e da vida espiritual, mas sem jamais abandonar a vida de serviço a Deus e ao próximo. De fato, ele mesmo em uma de suas catequeses alertou que ‘alguns mestres de espiritualidade do passado compreenderam a contemplação em oposição à ação, e exaltaram aquelas vocações que fogem do mundo e dos seus problemas, a fim de se dedicarem inteiramente à oração. Na realidade, em Jesus Cristo, na sua pessoa e no Evangelho não há oposição entre a contemplação e a ação, não. No Evangelho, em Jesus não há contradição’ (Catequese - 32. A oração contemplativa).

A segunda característica da espiritualidade que os membros da Companhia de Jesus buscam viver, como vimos o Papa Francisco fazer ao longo da sua vida, tem a ver com a nossa postura no mundo e no modo de viver a nossa fé e espiritualidade cristã de forma encarnada e em constante relação e diálogo com a realidade, com as diferentes culturas e com todas as criaturas que conosco habitam a mesma casa comum, que é o nosso planeta. De fato, nos Exercícios Espirituais meditamos e contemplamos a criação divina como obra do amor que Deus para com cada uma de suas criaturas, de modo muito especial o ser humano. E, quando pelo pecado pessoal e estrutural essa criação é ameaçada e destruída, afastando-se do plano divino, meditamos e contemplamos como a Santíssima Trindade resolve enviar ao mundo o Redentor, não para condenar, mas para salvar o mundo, por meio de Jesus, caminho, verdade e vida.

Desse modo, quando vemos a preocupação que teve o Papa pelas criaturas de Deus, ao escrever uma encíclica (Laudato Si’ – 2015) nos chamando a atenção para a necessidade de cultivarmos uma ecologia integral, que cuide melhor de tudo aquilo que Deus criou e nos chama a uma mudança de hábitos e uma verdadeira ‘conversão ecológica’ para assegurar às futuras gerações um mundo melhor, ele certamente estava expressando uma espiritualidade que não nos deixa indiferente ao que se passa ao nosso redor e com os nossos semelhantes e outras criaturas de Deus, pois nos Exercícios inacianos rezamos que Cristo deseja ter colaboradores que o ajudem em sua missão redentora e salvífica, o que implica também viver uma espiritualidade que se preocupe com a dimensão ambiental, social, política, cultural e cotidiana da vida, já que em tudo isso o Espírito de Cristo age. Da mesma forma, Francisco mostrou a fonte inaciana da sua espiritualidade quando escreveu ‘Fratelli tutti’, encíclica que nos recorda que somos todos irmãos e, portanto, temos que ter cuidado pelo outro, como queria Santo Inácio que fosse as relações fraternas nas comunidades jesuítas, chamando a seus membros de ‘amigos no Senhor’ e levando-os a praticar a solidariedade e a justiça do Reino em favor dos que sofrem injustiças e abandono.

Finalmente, a terceira característica marcante do carisma inaciano que facilmente identificamos na vida e na mensagem do Papa Francisco foi o de sempre ter buscado o ‘discernimento’ espiritual em tudo o que fazia e em todas as decisões que tomava. De fato, este é um dos maiores dons deixado pelos Exercícios Espirituais, não apenas para os membros da Companhia de Jesus, mas para todos os cristãos. Como afirmou o Superior Geral dos jesuítas, Pe. Arturo Sosa, ‘os Exercícios Espirituais Inacianos são um tipo de escola do discernimento. Seguindo os Exercícios Espirituais, toda pessoa pode ser ajudada a escutar a voz de Deus chamando a totalidade da vida humana a decidir pelo seguimento dessa voz – para fazer uma escolha’.

Se observarmos bem, todo o pontificado de Francisco foi uma constante escola de discernimento apostólico e eclesial, como se verificou recentemente com o Sínodo da sinodalidade, cujo tema foi ‘Por uma Igreja Sinodal : Comunhão, Participação e Missão’. Tendo participado da comissão de espiritualidade de preparação ao sínodo e, posteriormente, das duas sessões da assembleia sinodal em outubro de 2023 e 2024, pude perceber claramente o desejo do Papa de que nós nos puséssemos em um caminho de reflexão no qual todos as vocações da Igreja — leiga, religiosa, sacerdotal, diaconal — se sentissem chamadas a participar ativamente, escutando-se mutuamente e discernindo a voz do Espírito Santo falando por meio de todos os batizados e batizadas.

Muitas outras características do modo de ser, de pensar e de agir do Papa Francisco poderiam ser identificadas como oriundas das fontes inacianas dos Exercícios Espirituais, que ele conheceu desde cedo na sua formação jesuítica e que procurou viver até o fim da sua vida terrena, agora chegada ao fim. Que neste momento em que ele nos deixa, seja esse legado espiritual que nos deixa, um tesouro que saibamos preservar e aumentar, como Igreja verdadeiramente discípula, missionária e sinodal.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-04/legado-espiritual-deixado-papa-francisco.html


domingo, 5 de janeiro de 2025

3 Conselhos do Papa Francisco para viver bem a vocação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

No início de 2025 somos chamados a refletir sobre como nosso compromisso com Deus pode ser renovado e vivido ao longo do ano. No contexto do ano litúrgico, a Igreja propõe meses temáticos para nos ajudar a aprofundar aspectos importantes da vida eclesial : em agosto, a promoção e a oração pelas vocações; em setembro, a escuta e a prática da Palavra de Deus; em outubro, as missões. Essa dinâmica nos convida a olhar para o novo ano como uma oportunidade de cultivar nossa vocação e redescobrir a graça de sermos filhos amados de Deus.

Para vivermos bem esse propósito em 2025, podemos nos inspirar nos conselhos do Papa Francisco, dados na mensagem para o 61º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado em abril do último ano. Ele nos encoraja a viver nosso chamado ancorados na esperança cristã, fascinados por Jesus e comprometidos na construção do Reino de Deus.

Entre os seus ensinamentos, destacam-se três conselhos que permanecem atemporais e relevantes.

  • Escuta do chamado divino como realização pessoal : a vocação não é um peso, mas uma oportunidade de descobrir quem somos e como podemos servir. O Papa lembra que a plenitude da vida é alcançada quando respondemos com amor ao chamado que Deus nos faz.
  • Solidariedade e compromisso com o bem comum : Francisco destaca o valor do serviço ao próximo e a importância de trabalharmos juntos pela construção de uma sociedade mais justa, onde a solidariedade transforma realidades.
  • Cultivo da esperança e envolvimento ativo : apesar das dificuldades somos chamados a ser ‘peregrinos de esperança’, promovendo paz e cuidado mútuo, vivendo o sonho de Deus para a humanidade.

Que 2025 seja um ano de escuta, ação e compromisso renovado com o chamado de Deus. Que nossos passos sejam guiados pela fé e pelo desejo de construir um mundo mais fraterno, à luz do Evangelho. Deixemo-nos fascinar por Jesus e por sua missão, confiantes na certeza de que Ele caminha ao nosso lado. Que Deus nos abençoe neste novo ano!

Intenções do Papa Francisco para o mês de janeiro :

Pelo direito à educação

Rezemos para que os migrantes, os refugiados e as pessoas atingidas pela guerra vejam sempre respeitado seu direito à educação, necessária para construir um mundo melhor.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/3-conselhos-do-papa-francisco-para-viver-bem-a-vocacao.html


domingo, 3 de setembro de 2023

Um sussurro no silêncio da estepe

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Encontro do Papa Francisco com os fiéis da Mongólia na Catedral dos Santos Pedro e Paulo

*Artigo de Andrea Tornielli

Editorial do Vatican News


Nas palavras que o Papa Francisco dirigiu à Igreja da Mongólia, pequena em número, mas grande em caridade, encontramos preciosas percepções, úteis muito além das fronteiras dessa terra onde o olhar se perde no horizonte das estepes. A essa Igreja ainda nascente, o Sucessor de Pedro lembrou o que é a missão, ou seja, ‘gastar a própria vida pelo Evangelho’. Disse que, justamente porque ‘se experimentou na própria vida a ternura do amor de Deus’, aquele ‘Deus que se fez visível, tocável, encontrável em Jesus’, boa notícia destinada a todos os povos, a Igreja ‘não pode deixar de levar’ esse anúncio, ‘encarnando-o na própria vida e 'sussurrando-o' ao coração das pessoas e das culturas’.

A imagem de ‘sussurrar ao coração’ é particularmente sugestiva. O cristianismo não se espalhou graças a batalhas ou proclamações culturais estrondosas; nem - por outro lado - por meio da acomodação daquela religião burguesa, composta de ritos, tradições e vida tranquila já denunciada por Charles Peguy. É um anúncio a ser testemunhado, antes de tudo, com a própria vida e, assim, sussurrá-lo aos corações das pessoas e das culturas. O verbo ‘sussurrar’ lembra aquela passagem do Primeiro Livro dos Reis, onde Deus não se manifesta ao profeta Elias em um terremoto ou fogo, mas no ‘murmúrio de um vento suave’.

É somente o brilho do testemunho que pode realmente atrair. Não é por acaso que Friedrich Nietzsche repreendeu os cristãos de sua época : ‘Por sua fé, seus rostos sempre foram mais prejudiciais do que nossas razões!’.

O caminho privilegiado do testemunho, como se vê encarnado na realidade da pequena Igreja da Mongólia, é a caridade. Francisco convidou os católicos desse país a permanecerem sempre em contato com o rosto de Jesus para retornar sempre de novo àquele olhar original do qual tudo nasceu. Porque, caso contrário, até mesmo o compromisso pastoral ‘corre o risco de se tornar uma prestação estéril de serviços, em uma sucessão de ações devidas que acabam não transmitindo nada’.

O Papa enfatizou então que o Nazareno, ao enviar seus seguidores em missão, não os enviou ‘para difundir um pensamento político, mas para testemunhar com a vida a novidade da relação com seu Pai, que se tornou 'nosso Pai', desencadeando assim uma fraternidade concreta com todos os povos’. A Igreja que nasce desse mandato é, portanto, pobre, não depende de seus próprios recursos, estruturas e privilégios, não precisa da muleta do poder, mas ‘se apóia somente em uma fé genuína, no poder desarmante e desarmado do Ressuscitado, capaz de aliviar o sofrimento da humanidade ferida’. É por isso que, acrescentou Francisco, os governos e as instituições seculares ‘não têm nada a temer em relação a ação evangelizadora da Igreja, porque ela não tem uma agenda política a seguir, mas conhece apenas o poder humilde da graça de Deus e de uma Palavra de misericórdia e verdade, capaz de promover o bem de todos’. Palavras significativas não apenas para um país como a Mongólia, onde o respeito pelas diferentes religiões tem uma tradição secular, mas também para seus grandes ‘vizinhos’ de fronteira.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2023-09/papa-mongolia-um-sussuro-no-silencio-da-estepe-editorial.html

segunda-feira, 13 de março de 2023

5 lições do compromisso do Papa Francisco com o diálogo muçulmano-católico

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

 O Papa Francisco aperta a mão do Sheik Ahmad el-Tayeb, grande imã da mesquita e universidade al-Azhar do Egito, depois de assinar em uma reunião inter-religiosa no Memorial do Fundador em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, em 4 de fevereiro de 2019. O pap | foto do CNS/Paul Haring

*Artigo de Jordan Denari Duffner

Tradução : Ramón Lara


‘Em seus primeiros dias como chefe da Igreja Católica, disse o Papa Francisco, ‘não é possível estabelecer vínculos verdadeiros com Deus ignorando as outras pessoas. Por isso é importante intensificar o diálogo entre as várias religiões, e penso particularmente no diálogo com o Islã’.

O Papa mais do que cumpriu o objetivo inicial que estabeleceu para si mesmo – o envolvimento com os muçulmanos tornou-se uma das marcas de seu papado. Na última década, o Papa fez dezenas de visitas a comunidades muçulmanas e países de maioria muçulmana. Ele forjou laços com líderes e crentes comuns e repetidamente chamou a atenção para a presença de Deus nas experiências dos muçulmanos e em muitas das riquezas de sua tradição de fé.

De seus muitos gestos, declarações, viagens e, mais significativamente, seus encontros pessoais com os muçulmanos, algumas lições profundas emergem. Aqui estão apenas cinco :

1. Adorando juntos ‘o Deus Único e Misericordioso’

Pisando em um pequeno tapete de oração vermelho com os pés calçados com meias, o Papa Francisco cruzou as mãos e baixou a cabeça. Ele estava visitando uma mesquita na República Centro-Africana devastada pela guerra em 2015 e queria reservar um momento para rezar em silêncio. No ano anterior, em uma visita à famosa Mesquita Azul em Istambul, na Turquia, o Papa pediu ao Grande Mufti da cidade que orasse por ele. E em uma viagem posterior a Bangladesh, em uma reunião inter-religiosa, o Papa Francisco pediu a um indivíduo muçulmano – um refugiado rohingya de Mianmar – que fizesse uma oração em nome do grupo. Mais tarde, o Papa disse que o encontro o levou às lágrimas.

Em cada um desses momentos de oração, o Papa Francisco pôs em prática o ensinamento da Igreja – afirmado no Concílio Vaticano II e ecoado no Catecismo – de que os muçulmanos ‘junto conosco, adorem o Deus Único e Misericordioso’. Embora certamente existam diferenças doutrinárias entre o que cristãos e muçulmanos professam sobre Deus, isso não nos impede de reconhecer as semelhanças que temos ou de nos reunirmos (junto com judeus e até mesmo outros) para louvar e suplicar ao nosso Deus comum. Tendo feito da misericórdia de Deus um tema importante de seu papado, Francisco intencionalmente chamou a atenção para o fato de que, para os muçulmanos, a misericórdia também é um dos atributos mais importantes de Deus.

Francisco não é o primeiro Papa a fazer declarações ou tomar ações como essas – São João Paulo II e Bento XVI também rezaram publicamente com os muçulmanos em diferentes funções. Ao fazê-lo, todos sinalizam que as orações dos muçulmanos a Deus são válidas e dirigidas ao mesmo Deus misericordioso a quem os católicos também se esforçam para servir.

2. ‘Fazendo teologia juntos’ : reconhecendo a sabedoria do outro

No final de sua encíclica ‘Laudato Si’’, o Papa Francisco escreveu sobre a importância de desenvolver uma imaginação ‘sacramental’ – de ver Deus na natureza e em nossos semelhantes. Ao afirmar isso, a primeira fonte que o papa cita não é um místico cristão, mas um muçulmano. Na nota de rodapé associada, Francisco aponta para Ali al-Khawas, um poeta muçulmano que escreveu no século 16 sobre a percepção de Deus quando ‘o vento sopra, … os suspiros dos enfermos, os gemidos dos aflitos’. Embora a nota de rodapé esteja enterrada em um longo documento, sua inclusão na encíclica é inovadora; esta foi a primeira vez na história da Igreja Católica que um texto religioso não cristão foi citado em um documento oficial de ensino.

Os muçulmanos também foram fundamentais na encíclica de Francisco de 2020, ‘Fratelli Tutti’, centrada no tema da fraternidade humana. Francisco escreve que foi ‘estimulado’ a escrever a encíclica por sua amizade com o Grande Imam Ahmed al-Tayeb, chefe da Al-Azhar, uma conhecida universidade islâmica sunita e mesquita no Egito. O colega do Imam al-Tayeb, Mohamed Mahmoud Abdel Salem, participou da divulgação formal da encíclica ao público. Como o correspondente do Vaticano nos Estados Unidos, Gerard O'Connell, apontou, não havia precedentes para um muçulmano inspirar uma encíclica e para um muçulmano participar de apresentá-la ao mundo.

Ambas as encíclicas mostram como Francisco - e, na verdade, toda a Igreja Católica—foi moldada positivamente pelos muçulmanos e pela sabedoria expressa por meio de sua tradição de fé. Eles também demonstram que as fronteiras entre nossas comunidades religiosas são mais porosas do que costumamos imaginar. A história da Igreja Católica – incluindo seu ensino formal – foi moldada pela ativa participação muçulmana.

Em um movimento anterior sem paralelo, o Papa Francisco trabalhou com o Imam al-Tayeb para ser coautor do Documento de 2019 sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência. Neste documento original, o Papa e o imã se basearam em suas muitas convicções teológicas e morais compartilhadas para pedir ações concretas que promovam a justiça, a paz e o florescimento humano no mundo. Embora mantendo suas próprias convicções religiosas, os dois líderes redigiram o documento como amigos e iguais; como disse o cardeal Michael L. Fitzgerald, M. Afr., um líder nas relações católico-muçulmanas, ‘eles estavam fazendo teologia juntos’.

3. Sentar-se com os ‘santos da porta ao lado’ ou ao redor do mundo

Durante sua viagem ao Iraque em 2021, o Papa Francisco visitou outro grande líder muçulmano, desta vez do ramo xiita do Islã. O Grande Aiatolá ‘Ali al-Sistani é um líder globalmente reverenciado, mas apesar de seu alto perfil, ele vive em uma casa modesta. Assim como o Papa Francisco, o idoso é conhecido por sua humildade.

Há poucos detalhes sobre o tempo que o Papa passou com al-Sistani, mas Francisco disse depois que ‘este encontro fez bem à minha alma. Ele é uma luz. Esses sábios estão em toda parte porque a sabedoria de Deus foi espalhada por todo o mundo’. Francisco passou a enquadrar al-Sistani como um ‘santo de todos os dias’, um dos ‘santos da porta ao lado’, pessoas que vivem seus valores com coerência.

Para Francisco, os encontros inter-religiosos não são, em última análise, grandes ideias teológicas, mas sim os indivíduos humanos reais que encontramos. Esteja se reunindo com grandes líderes ou pessoas comuns, ele traz o mesmo nível de atenção e cuidado, ciente de que cada pessoa é santa e amada por Deus além da medida.

Essa mesma visão inspirou Francisco a fazer uma visita improvisada a uma família muçulmana que mora em um conjunto habitacional em Milão, na Itália, em 2017. Enquanto compartilhavam doces e nozes, as crianças ofereceram ao papa desenhos coloridos e o pai, Mihoual, mostrou-lhe peças da arte islâmica. Posteriormente, Mihoual disse que a presença de Francisco era como ‘ter um amigo em casa’.

Para Francisco, o diálogo inter-religioso é fundamentalmente sobre ‘compartilhar nossas alegrias e tristezas’ com o outro. Não precisa haver nenhum objetivo maior; estar verdadeiramente presente e atento ao fato de que um indivíduo é criado à imagem de Deus é tudo o que é necessário.

4. ‘O outro pode ser você’ : defendendo a dignidade de todos

Ajoelhado sobre uma bacia, o Papa Francisco derramou água fria sobre os pés de um homem e os enxugou com uma toalha branca. Estava cumprindo um ritual da Semana Santa que geralmente é reservado aos católicos, mas optou por incluir pessoas de outras religiões, incluindo os muçulmanos, como um gesto de solidariedade universal. Para Francisco, o diálogo se traduz em atos de serviço.

Durante uma década marcada pela migração em massa de (e demonização de) refugiados, muitos dos quais são muçulmanos, Francisco tem a intenção de encontrá-los em seu sofrimento. Sua primeira viagem internacional como Papa foi para a ilha mediterrânea de Lampedusa, onde muitos refugiados desembarcaram após angustiantes viagens pelo mar. O compromisso de Francisco com o bem-estar dos refugiados vai além de gestos e palavras. Em 2016, ajudou pessoalmente a reassentar três famílias sírias refugiadas muçulmanas na Cidade do Vaticano.

Quando se trata de condenar o fanatismo religioso e a perseguição, o Papa Francisco exibe uma consistência moral que é rara entre os líderes mundiais. Assim como defende os cristãos que enfrentam perseguição, também defende os muçulmanos diante da islamofobia. Sua postura de princípios envia uma mensagem importante para muitos cantos da Igreja, particularmente nos Estados Unidos, onde a preocupação com a perseguição aos cristãos é frequentemente priorizada, enquanto a perseguição aos muçulmanos – tanto em casa quanto no exterior – é frequentemente ignorada.

5. ‘Não é justo e não é verdade’ : Resistindo a estereótipos

O Papa Francisco pediu repetidamente aos países ocidentais que deixem de lado o bode expiatório anti-muçulmano e o nativismo, e muitos de seus comentários públicos têm sido um corretivo útil para o discurso global dominante sobre o Islã.

Por exemplo, em uma coletiva de imprensa em 2016, Francisco exortou seu público a resistir à tendência de reduzir as causas da violência cometida pelos muçulmanos à religião. ‘Não é justo identificar o Islã com violência. Não é justo e não é verdade’, disse, apontando que quando pessoas de outras religiões (incluindo cristãos) cometem violência, isso não é tipicamente atribuído à sua identidade religiosa. Embora reconheça que alguns grupos marginais, como o Estado Islâmico, reivindicam um pedigree islâmico, ele chamou a atenção para o que vê como causas mais profundas da chamada violência islâmica, incluindo a perda de identidade entre os jovens e, como disse em uma homilia da Quinta-feira Santa, o comércio de armas e os que se beneficiam financeiramente com os conflitos. Talvez sem surpresa, muitos católicos resistiram ou recuaram contra a abordagem sutil do Papa.

Ainda assim, o Papa Francisco às vezes caiu em algumas falácias comuns e tropos estereotipados ao discutir o Islã, que contradizem suas melhores intenções. Por exemplo, em vários pontos pediu publicamente aos líderes muçulmanos que condenassem a violência cometida por seus companheiros muçulmanos. Essas ligações podem contribuir para a percepção errônea de que os muçulmanos ainda não estão condenando o terrorismo – quando, na verdade, estão.

A atenção especial de Francisco ao diálogo com os muçulmanos é uma consequência natural de seu compromisso mais amplo de encontrar todas as pessoas, especialmente aquelas que são mais marginalizadas. Tanto em seus sucessos quanto em seus erros, Francisco nos oferece lições não apenas sobre como melhorar nosso relacionamento com os muçulmanos, mas com todos aqueles que podemos encontrar.' 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao

domingo, 5 de março de 2023

Dez anos depois, uma olhada em algumas das principais frases de efeito do Papa Francisco

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Elise Ann Allen

Tradução : Ramón Lara


Quando Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa Francisco há quase dez anos, o mundo foi imediatamente cativado por sua personalidade vibrante, sua simplicidade, seu amor pelos pobres e o vocabulário papal novo e francamente incomum que ele costuma adotar.

Desde sua primeira buona sera até suas piadas ocasionais sobre a sogra, até o uso de imagens simbólicas e seus gracejos disparatados, alguns dos quais o colocaram em apuros, o Papa Francisco tem sido uma máquina de frase de efeito.

Embora tenha se tornado mais roteirizado à medida que seu papado durou, seu estilo de conversa franco e fácil, sua linguagem simples e seu envolvimento caloroso com membros do público e líderes políticos estavam inicialmente entre os aspectos mais atraentes de Francisco após sua eleição.

Ele foi eleito Papa em 13 de março de 2013, dando início a uma série de ‘primeiros’ para a Igreja Católica.

A Igreja não apenas experimentou a primeira renúncia papal em 600 anos, com a decisão histórica de Bento XVI de renunciar ao papado, mas também teve seu primeiro papa jesuíta e seu primeiro papa latino-americano.

Graças ao crescimento das plataformas de mídia social na última década, Francisco também é o primeiro Papa 'digital' real, no sentido de que ele tem contas na maioria das principais redes sociais e, portanto, tem uma visibilidade global maior do que a maioria de seus predecessores provavelmente teve, o que significa que rapidamente ganhou reputação pelas frases de efeito coloridas que costuma lançar.

Algumas de suas observações pareciam estranhas ou engraçadas, como sua declaração aos crentes durante uma audiência geral em maio de 2013 de que os cristãos deveriam ser alegres, em vez de ter um rosto como de uma ‘pimenta em conserva’.

Muitos de seus comentários foram apreciados, como sua descrição do amor de Deus como uma ‘carícia’ e seu foco no perdão, e outros nem tanto, como sua crítica em algumas ocasiões em que as mulheres são ‘a cereja no topo do bolo’ e, portanto, precisam ser mais plenamente incluídas na Igreja.

No entanto, de todas as citações que o Papa Francisco deu à Igreja ao longo dos anos, algumas se destacam pela publicidade que ganharam ou pela relevância que mantêm no tom geral de seu papado.

Aqui está um resumo de algumas das principais referências papais desde 2013 :

Não se esqueça de orar por mim

Até agora, tornou-se característico do Papa Francisco pedir orações no final de praticamente qualquer discurso ou evento público e é seu slogan clássico no final de seu discurso semanal do Angelus de domingo, dizendo aos fiéis reunidos ‘não se esqueça de orar por mim. Tenha um bom almoço e adeus!’ antes de sair de vista.

É provavelmente o pedido repetido com mais frequência e, de fato, esse foi quase o primeiro pedido que Francisco fez como Papa depois de pisar na loggia central de São Pedro após sua eleição.

Depois de pedir aos presentes que rezassem por Bento XVI e fazer um apelo à fraternidade global, pediu aos fiéis que rezassem por ele, dizendo : ‘Gostaria de dar a bênção, mas antes quero pedir-vos um favor. Antes que o bispo abençoe o povo, peço que rezem ao Senhor para me abençoar – a oração do povo pelo seu bispo. Façamos esta oração, a tua oração por mim, em silêncio’.

Não se esqueça dos pobres

Esta frase não é tecnicamente do Papa Francisco, mas sim do falecido cardeal brasileiro Claudio Hummes, que estava sentado ao lado do novo papa quando os votos finais foram contados e era óbvio que havia sido eleito.

Naquela ocasião, como o próprio Francisco contou, quando os aplausos começaram a ecoar pela Capela Sistina, Hummes sussurrou em seu ouvido : 'Não se esqueça dos pobres' - uma frase que inspirou o novo Papa a escolher o nome papal’. Francisco’, em homenagem a São Francisco de Assis, conhecido como ‘o pobre de Assis’ e famoso por sua vida de pobreza e serviço aos necessitados.

Embora tenha sido Hummes quem proferiu essa frase para ele, o Papa Francisco a levou tão a sério que se tornou emblemática de muito de seu estilo como papa, muitas vezes falando em nome dos mais marginalizados e das ‘periferias existenciais’ da vida, priorizando-as em suas viagens.

Hacer Lío

Durante sua primeira viagem internacional ao Rio de Janeiro, Brasil, em julho de 2013 – nomeação que o Papa Francisco assumiu após a renúncia da renúncia de seu antecessor – o novo Papa do novo mundo realizou um encontro especial com a juventude argentina, dizendo-lhes para hacer lío, que é uma gíria argentina que se traduz aproximadamente como ‘fazer bagunça’ ou ‘causar estragos’.

‘Quero que a Igreja saia às ruas’, disse, lamentando o alto desemprego juvenil e alertando os jovens para se protegerem contra ‘toda mundanidade, oposição ao progresso, daquilo que é confortável, daquilo que é clericalismo, de tudo aquilo que significa fechar-se em nós mesmos’.

Ao longo dos anos, muitos críticos argumentaram, com ironia, que o Papa Francisco, durante grande parte de seu papado, seguiu seu próprio conselho, fazendo uma ‘bagunça’ das coisas com sua ambiguidade em questões como a comunhão para os divorciados recasados ou uma série de coisas, enquanto os admiradores defenderam esse estilo de 'sair para as ruas' como uma abertura necessária para trazer a igreja para o século XXI.

De qualquer maneira, essa mordida causou sensação na época e tem sido emblemática de muito do estilo do próprio Papa Francisco, pelo menos nos primeiros anos de seu papado.

Quem sou eu para julgar?

Em seu voo de volta daquela viagem ao Rio em 2013, o Papa Francisco levantou as sobrancelhas quando, em resposta a uma pergunta sobre o clero homossexual, disse : ‘Se alguém é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?’

Para muitos, foi uma declaração chocante do líder de uma instituição global ainda amplamente considerada homofóbica por parcelas significativas da sociedade, e onde muitos indivíduos homossexuais têm lutado para encontrar acolhimento e aceitação.

Esta linha é talvez a mais famosa de todas as falas do Papa Francisco ao longo dos anos, e passou a representar seu alcance mais amplo para a comunidade LGBTQ ao longo de seus 10 anos como Papa.

Embora não tenha mudado o ensino oficial da Igreja ou mesmo as bênçãos publicamente aprovadas para casais do mesmo sexo, enfatizou repetidamente a necessidade de ser mais receptivo e inclusivo com os católicos homossexuais e se reuniu repetidamente com grupos e ativistas LGBTQ católicos, incluindo seus colegas jesuíta, padre James Martin.

O cheiro das ovelhas

Outra famosa frase de efeito papal que Francisco recicla continuamente ao longo de seu mandato é que os padres assumam ‘o cheiro das ovelhas’, sendo pastores próximos ao seu povo, em vez de administradores governando de um escritório frio e obsoleto.

Ele pronunciou a frase pela primeira vez em uma missa crismal apenas duas semanas após sua eleição em março de 2013, dizendo aos padres em uma observação improvisada durante sua homilia que : ‘É isso que estou pedindo a vocês, sejam pastores com cheiro de ovelhas.’

Esta frase resume perfeitamente toda a abordagem do Papa Francisco ao cuidado e à prática pastoral, e rapidamente definiu o tom de suas expectativas em relação ao clero sob sua orientação.

A Igreja como hospital de campanha

Talvez uma das imagens mais pungentes da Igreja que o Papa Francisco conjurou foi sua descrição inicial da igreja como ‘um hospital de campanha’ durante uma entrevista com o padre jesuíta Antonio Spadaro, editor da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, em agosto de 2013.

Durante essa conversa, que aconteceu em três reuniões diferentes, Francisco disse : ‘O que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis; precisa de proximidade, proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha após a batalha’.

‘É inútil perguntar a uma pessoa gravemente ferida se ela tem colesterol alto e sobre o nível de açúcar no sangue! Você tem que curar suas feridas. Então podemos conversar sobre todo o resto’, disse Francisco.

Nesta frase de efeito, o Papa Francisco pintou toda a sua visão para o papel da Igreja e de seus pastores no mundo, o que tem sustentado muitas de suas próprias decisões pastorais, incluindo, entre outras coisas, aquelas que saíram de 2014 e Sínodo dos Bispos de 2015 sobre a Família (comunhão para os divorciados recasados), o Sínodo sobre a Amazônia (proteção das populações indígenas) e até mesmo seu alcance à comunidade LGBTQ.

Reproduzir como 'coelhos'

O Papa Francisco levantou as sobrancelhas novamente e criou uma quantidade significativa de reação, quando em um voo de volta das Filipinas em 2015, ele disse aos repórteres que bons católicos deveriam praticar a paternidade ‘responsável’ e não precisavam se reproduzir como ‘coelhos’.

Ele havia sido questionado sobre a posição da Igreja contra o controle artificial da natalidade, visto que durante a viagem ele havia encontrado um grupo de crianças que haviam sido abandonadas porque seus pais não podiam cuidar delas.

Francisco, em sua resposta, permaneceu firme contra o controle artificial da natalidade, dizendo que uma nova vida fazia parte do sacramento do casamento, mas alertou que : ‘Algumas pessoas pensam que… para sermos bons católicos, temos que ser como coelhos. Não. Paternidade é ser responsável. Isso está claro.’

Para o efeito, referiu-se ao caso de uma mulher que conheceu que teve sete filhos por cesariana e esperava o oitavo, dizendo que a gravidez foi irresponsável porque pôs em risco a saúde da mãe e do feto, enquanto ela já tinha tantos que precisavam dela e notou que os especialistas em população haviam aconselhado três filhos por família.

Esta observação papal, embora tenha provocado alguns sorrisos, causou uma enorme reação entre a comunidade pró-vida, especialmente o movimento pró-vida católico americano, que viram o comentário do papa como crítico e ofensivo. Sem dúvida, marcou o início inegável do fim da fase de lua de mel para Francisco, particularmente com os católicos americanos conservadores.

Cultura descartável

Praticamente desde o início de seu reinado até agora, a ‘cultura do descarte’ ou a ‘cultura do desperdício’ tem sido um refrão constante para o Papa Francisco, que desde cedo definiu o termo como ‘a vida humana, a pessoa, não são mais vistos como um valor primário a ser respeitado e salvaguardado’.

A ‘cultura do descartável’ é um tema ao qual o papa volta com frequência em seus discursos públicos e homilias, e também foi um tema importante de destaque de sua ecoencíclica de 2015 Laudato Si, na qual ele usou o termo para condenar não apenas o consumismo perdulário, mas puros interesses de capital e a busca de lucro às custas de pessoas, valores e comunidades quando parecem carecer de valor imediato ou quantificável.

Francisco usou esse termo em referência a vastas categorias de pessoas, dizendo que entre as muitas vítimas da cultura do descartável estão crianças não nascidas perdidas para o aborto, que também comparou a contratar ‘um assassino de aluguel’ para resolver um problema; os idosos, que muitas vezes são abandonados pela família e que foram uma prioridade especial durante os bloqueios do COVID devido ao isolamento que experimentaram; jovens que enfrentam o desemprego e a falta de oportunidades; o meio ambiente e os pobres.

Presença feminina incisiva

No início de seu papado, o Papa Francisco marcou pontos com as mulheres ao dizer que havia uma necessidade ‘urgente’ do que disse ser ‘uma presença feminina mais ampla e incisiva’ na Igreja.

Embora já tivesse mencionado a frase antes, em um discurso aos participantes de uma assembleia organizada pelo Pontifício Conselho para a Cultura em 2015, repetiu esse desejo, dizendo que a Igreja precisa de mulheres que ‘se envolvam em responsabilidades pastorais, no acompanhamento de pessoas, famílias e grupos, assim como na reflexão teológica’.

As mulheres, disse naquela ocasião, não devem mais se sentir ‘como convidadas, mas como participantes plenas nos vários âmbitos da vida social e eclesial’.

Francisco sempre repetiu esse apelo por uma ‘presença feminina mais incisiva’ e, ao longo dos anos, nomeou várias mulheres, tanto leigas quanto religiosas, para cargos de alto escalão nos escritórios da Cúria e nas comissões do Vaticano.

Enquanto algumas de suas outras linguagens insistindo que ‘a Igreja é uma mãe’ e que ‘a Igreja é uma mulher’ talvez tenham caído um pouco mais planas, essa linha despertou esperança para as mulheres católicas em todos os lugares de que elas finalmente teriam uma palavra a dizer, não mais em segundo plano, mas dando uma contribuição real que seria levada a sério e valorizada.

Por favor, obrigado e me desculpe

Vestindo seu chapéu pastoral, o Papa Francisco ofereceu ao mundo outra clássica frase memorável durante uma audiência geral em 2015, dando aos fiéis naquela ocasião o que ele disse serem três palavras-chave para qualquer casamento saudável : ‘por favor’, ‘obrigado’ e ‘Eu' sinto muito.

Essas palavras ‘abrem o caminho para uma boa vida familiar’, disse, mas advertiu que, embora simples, ‘não são tão fáceis de colocar em prática’, exigindo uma grande capacidade de autorreflexão e uma capacidade de engolir o orgulho.

Este se tornou um dos conselhos mais repetidos do Papa Francisco para o casamento e a vida familiar, junto com sua frequente exortação para que os casais sempre se reconciliem antes de ir para a cama, dizendo frequentemente que ‘os pratos podem voar’, mas os casais nunca devem ir para a cama com raiva ou sem fazendo as pazes.

Embora existam inúmeras outras frases que o Papa Francisco usou ao longo dos anos – comparando fofocas a ‘terrorismo’ e condenando a ‘rigidez’ entre o clero, que alguns interpretaram como uma crítica aos católicos conservadores de tendência tradicionalista, ou sua insistência no perdão – estas estão entre as mais memoráveis e que definiram o tom de seu papado.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Os lobos em pele de cordeiro do pontificado de Francisco

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


Que há muitas pessoas que se aproximam do Papa Francisco por conveniência isso a gente não pode negar. Aliás, todo pontífice teve que lidar com os falsos apoiadores. A cúria romana em si é um antro de carreiristas. Portanto, não seria novidade apontarmos que dentro desse ambiente, repleto de ‘vícios de corte’, um jogo de intrigas e disputas ora se manifeste de maneira bastante explícita, ora de maneira velada.

No pontificado de Bento XVI, por exemplo, citamos o caso do cardeal Bertone. No de Francisco, por sua vez, o de Georg Gänswein, ex-secretário pessoal de Papa Ratzinger, e do cardeal australiano Georg Pell, que até sua morte, ao menos publicamente, nunca havia se oposto abertamente ao pontífice argentino.

Que Francisco não é bem quisto por muitos grupos da Cúria Romana, isso a gente já sabe. A questão está em analisar quem realmente está do lado dele e até que ponto existe uma adesão sincera a seu projeto de reforma. Ou seja, a questão agora está em checar por onde andam os inimigos que dão tapinha nas costas do Papa. E há muitos desses, que inclusive ocupam cargos-chave dentro da cúria.

As próprias nomeações de padres para a Secretaria de Estado que, no passado, eram abertamente contrários à linha de governo do papa atual, impressionam.

Nesse sentido, não entendemos se é uma estratégia de Francisco para que eles estejam sob sua vigilância ou se, de fato, o pontífice argentino esteja já na fase de delegar algumas pessoas para se encarregarem dessas nomeações.

Sabemos, por exemplo, que, quando o assunto é América Latina, é o cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, de Honduras, quem acaba exercendo um papel preponderante na hora de decidir quais latino-americanos são dignos de integrar o grupo de colaboradores do Papa em Roma.

Agora sim, sem dúvida, podemos falar de uma solidão vivida pelo Papa Francisco. As resistências à sua reforma, nos últimos anos, só se intensificaram. Além disso, muitos daqueles sobre os quais ele depositou uma certa confiança acabaram abandonando o barco. Uns por não conseguirem lidar com as disputas internas; outros por estarem apegados a um modelo de igreja que não corresponde ao ‘poliedro’ que Papa Francisco propõe.

Isso faz com que as cartas jogadas no próximo conclave ainda sejam incertas, muito embora, aparentemente, o grupo de cardeais pró-Francisco seja expressivo. O que podemos esperar, nos próximos anos, é uma oposição silenciosa, mas bastante consolidada, que fará de tudo para apagar o legado de Francisco. É esperar para ver.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1599067

domingo, 15 de janeiro de 2023

E Francisco após a morte de Bento XVI?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Francisco reza diante de caixão de Bento XVI após funeral do dia 5 de janeiro de 2023 | AFP 

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


O que muda com a morte de Bento XVI? Há um impacto real sobre o pontificado de Francisco? Trata-se de uma página virada na história da Igreja que esconde incertezas sobre o futuro?

Esses foram os questionamentos feitos por algumas pessoas logo após a notícia do falecimento do papa emérito, ocorrido no último dia 31. O problema é que, do ponto de vista histórico, a renúncia de Ratzinger já havia sido vetor de uma revolução sem precedentes, não o seu falecimento em si.

E vou explicar o porquê.

Como sabemos, Bento XVI não foi o primeiro pontífice da história a abdicar. Ao menos desde o século I há registros de demissões do ministério petrino (livres ou forçadas). Papa Clemente (o quarto bispo de Roma), que foi exilado, deixou cargo em favor de Evaristo, de modo que a comunidade cristã não ficasse desamparada.

A diferença é que Papa Ratzinger instaurou uma instituição chamada ‘papado emérito’, cuja regulamentação os canonistas aguardam que se efetive para possibilitar que outros papas, que queiram dar esse passo, sejam amparados por uma legislação clara.

No entanto, Francisco sinalizou que não pretende, durante seu governo, mexer no que aí está. A afirmação foi feita durante entrevista concedida à ABC da Espanha, publicada no mês passado.

‘Não toquei em nada nem tive a ideia de fazê-lo. Talvez o Espírito Santo não queira que eu me preocupe com essas coisas’, ressaltou.

E foi nessa resposta que Francisco instaurou um clima de incerteza tanto em relação a uma eventual renúncia quanto aos critérios que ele mesmo estabeleceu para executá-la no futuro. Muito embora o papa argentino tenha declarado, também nesta entrevista, que já havia assinado sua carta de renúncia em 2013, repetindo o gesto de seus antecessores Pio XII e Paulo VI, tal oficialização, na prática, quer dizer muito pouco. Pacelli e Montini, que fizeram o mesmo, permaneceram no cargo até a morte.

Ou seja, isso não quer dizer que Francisco, com isso, dá por certa sua saída do papado ‘por vias não convencionais’. Mas pode estar ‘jogando’ com essa afirmação, à diferença dos outros dois que citamos, cuja intenção foi guardada a sete chaves e só foi revelada anos após a morte de ambos.

Nesses dois casos precedentes, caso qualquer informação vazasse, impactaria na estabilidade do próprio papado. Um foi papa em meio à Segunda Guerra Mundial. O outro, por sua vez, teve a incumbência de colocar em prática o Concílio Vaticano II e lidar com todas as resistências que se levantaram contra aquele novo modelo de Igreja. Mostrar-se ‘enfraquecido’, em tais contextos, estava fora de cogitação.

Diferente de Bento XVI, Francisco, em suas declarações, esconde grandes trunfos. Ele sabe que muitos, dentro da própria Cúria Romana, o apoiam por conveniência.

Por isso, para ele, é interessante observar, do alto da sua cátedra, como seus colaboradores se movem nesse ‘pré-conclave’.

Francisco é um grande estrategista, no sentido mais nobre do termo. Ele executa um programa de governo capaz de impactar para além dos muros da Igreja. Por isso mesmo, ser reconhecido como líder global por setores que sequer estão ligados à estrutura eclesial é um dado de fato.

Talvez, com isso, ele queira sentir como o colégio cardinalício prepara o terreno para o seu sucessor uma vez que ele, mais que ninguém, não quer que seu substituto decline seu projeto de reforma. Neste caso, mostrar-se enfraquecido e às portas de jogar tudo para o alto, esconde mais vantagens que desvantagens para ele. E ele o faz visando o bem da própria instituição, para que ela não caia nas mãos da ‘corte do retrocesso’ onde um ‘clero nobre’, que se coloca acima do bem e do mal, governa para mas servir aos próprios interesses.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598516