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domingo, 26 de abril de 2026

A visão antropológica nos santos padres da Igreja e na atualidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘Nós estamos num período muito importante na vida humana onde se ressaltam o desejo forte pela paz entre os povos e nações. Nós rezamos ao Senhor pelo dom da paz. Nós temos presentes a visão de Deus verdadeiro, Uno e Trino, a criação, as pessoas, as suas obras, a necessidade do cuidado com as obras do Criador. Deus criou o ser humano; homem e mulher os fez à sua imagem e semelhança (cfr. Gn 1,27). Nestes últimos anos e meses estamos presenciando uma série de casos de feminicídios, a morte de mulheres por serem mulheres, muitas vezes por seus maridos, companheiros ou ex-companheiros. Pela Palavra de Deus que coloca a igualdade entre o homem e mulher somos nós convidados a lutar pela vida superando a morte de muitas pessoas, sobretudo com as mulheres. A seguir, vejamos nós ver a forma como os santos padres, os primeiros escritores cristãos colocaram a visão antropológica que sirva de inspiração para agir bem no mundo atual.

Deus os fez homem e mulher

São Clemente, bispo de Roma, Papa, século I afirmou a criação humana, homem e mulher, por Deus Criador na qual Ele a plasmou por suas próprias e imaculadas mãos, ao dizer : Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, fazendo-os homem e mulher, masculino e feminino (cfr. Gn 1,26-27). Cumpridas todas as obras os aprovou o Senhor Deus e os bendisse, dizendo que era para eles crescerem e multiplicarem-se (cfr. Gn 1, 28). Criados desta forma, nós somos chamados, tanto os homens como as mulheres a fazer a vontade divina com toda a nossa força e praticar obras de justiça, de paz e de amor [1].

A Palavra de Deus falou da criação humana

A Carta de Barnabé, um escrito no final do século I disse que a criação humana foi obra de Deus Uno e Trino, pois o Senhor disse ao Filho : ‘Façamos o homem, homem e mulher, à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar’ (Gn 1, 28). e vendo a obra de suas mãos saindo de uma forma muito boa disse também o Senhor para eles crescerem e multiplicarem-se e possam encher a terra (cfr. Gn 1, 28) [2]. Por isso Deus nos criou de uma forma tão bem constituídos de modo que é preciso viver a unidade entre o homem e a mulher sem um dominar o outro ou tirar-lhe a própria vida.

Formou-os à sua imagem

A Carta a Diogneto, escrito do século II disse que Deus deu ao ser humano, homem e mulher a palavra e a razão para contemplar o Criador de todas as coisas. E somente a eles permitiu-lhes a graça da contemplação, o olhar para o alto, para o seu Criador. Ele os formou à sua Imagem, enviando-lhes seu Filho Unigênito, para anunciar-lhes o Reino dos céus. Desta forma o ser humano amando o seu Criador ele se torna imitador da sua bondade [3].

A dignidade do ser humano

Teófilo de Antioquia, bispo do século II teve presente coisas boas em relação à criação em geral, mas em relação à criação humana não existem palavras que expressem a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja breve. O fato maravilhoso de Deus ao dizer : ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’ (Gn 1,26) dá a entender a dignidade do ser humano, homem e mulher. Ele disse estas palavras a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria. Ele também ordenou que o ser humano se alimentasse das ementes da terra e buscassem o bem de toda a criação, incluída a sua, a humana [4].

Deus glorificado na sua criatura

Santo Ireneu de Lião, bispo, século III afirmou que Deus será glorificado na sua criatura, conformada e modelada no seu próprio Filho, pois pelas mãos do Pai, isto é, por meio do Filho e do Espírito Santo, o ser humano, homem e mulher e não uma parte tornam-se semelhante a Deus [5]. Nós vemos a importância da criação por parte de Deus Criador ao ser humano na visão de Deus que é Uno e Trino concedendo-lhes todas as graças para uma vida feliz e realizada.

A bondade do Criador

Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III afirmou a bondade do Criador ao criar as coisas deste mundo. O fato era este : Deus viu aquilo que estava realizando, honrava-o, completando a bondade de suas obras pelo seu olhar. Deus bendizia as coisas boas, para que Ele fosse sempre anunciado bom em todos os aspectos, em todos os tempos e eras, tanto no dizer como no fazer. O mundo foi constituído de bens do Senhor. No entanto, para quem as coisas eram preparadas senão para aquele que seria à sua imagem e semelhança? A divina bondade criou, não só com uma palavra de ordem o ser humano, mas com um ato generoso da sua mão, com uma benigna promessa : ‘Façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança’(Gn 1,26).

A referência é sempre à bondade, não como uma virtude do Criador, mas como uma Pessoa, porque Ela falou, plasmou o homem e a mulher do lodo até fazê-los de carne, sendo um ato de amor de Deus. ‘A bondade soprou até fazê-los tornarem-se uma alma, não morta, mas viva’ [6]. A bondade o fez senhor de todas as coisas, não só para dominá-las, mas para dar-lhes o nome. Novamente Deus previu para ele uma ajuda : ‘Não é bom que o homem esteja só, de modo que Ele criou a mulher’(Gn 2,18 )[7]. Nós percebemos a importância do ser humano ser criado à imagem e semelhança de Deus.

À nossa Imagem

Santo Agostinho, Bispo de Hipona séculos IV e V afirmou que Deus criou o ser humano dando as graças de ser a sua imagem e semelhança.  Em seguida o Senhor disse que ele tenha o poder sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais, privados da razão (cfr. Gn 1,28) [8]. Para o Bispo de Hipona o fato de que o ser humano é imagem e semelhança de Deus são dons divinos para serrem vividos na realidade familiar, comunitária e não tem significado de destruição das criaturas, mas amor a mesma e serviço para que todos vivam bem na paz e no amor.

Nós somos convidados a viver a Palavra de Deus na igualdade e no amor entre as pessoas, homens e mulheres. Nós lutemos em favor da vida para que se afaste a violência contra as mulheres e os casos de feminicídios. A Diocese de Marabá tem um projeto, um pacto contra o feminicídio para que seja implantado sempre mais nas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. O Senhor nos ajude nesta missão de viver a fraternidade, o amor entre as pessoas e um dia na eternidade, no Reino de Deus.’

 

[1] Cfr. Lettera ai Corinzi, 33,4-8 di Clemente di Roma. In: Lúomo immagine somigliante di Dio. Milano: Paoline, 1991, pgs. 87-88.

[2] Cfr. Carta de Barnabé, 6,11-12. In: Padres Apostólicos, São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 294-295.

[3] Cfr. Carta a Diogento, 10,2-4. In: Padres Apologistas, São Paulo, Paulus, 1995, pg. 27.

[4] Cfr. Segundo Livro a Autólico 2,18 de Teófilo de Antioquia, In: Padres Apostólicos, Idem, pg. 248.

[5] Cfr. Ireneu de Lião, V,6,1. São Paulo: Paulus, 1996, pg. 530.

[6] Cfr. Contro Marcione, 22 di Tertulliano. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 132.

[7] Cfr. Idem, pg. 132.

[8] Cfr. La Genesi alla Lettera 3,20,30-32. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 255.

  

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-04/visao-antropologica-santos-padres-igreja-atualidade.html

 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

‘A visão da Igreja de Santa Hildegarda de Bingen’,

por Giovani Gasparro

*Artigo de Brennan Pursel

Tradução : Equipe Christo Nihil Praeponere

 

‘Santa Hildegarda de Bingen (1098–1179) é uma maravilha do passado, um fenômeno histórico por direito próprio, e um questionamento direto a todos que se preocupam em aprender sobre ela e com ela hoje, no século XXI. Em suma, a vida e os escritos dela colocam uma dura pergunta : teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Hildegarda passou quase toda a vida no vale do Reno, perto de onde o rio Meno nele deságua. O vale central da Renânia é uma das regiões mais férteis da Alemanha; possui um clima suave e temperado, onde pessoas viveram em comunidades por milênios. Desde suas origens, o Reno forma uma via rápida natural nas terras alpinas até sua foz no Canal da Mancha e no Mar do Norte. O paradoxo da vida de Hildegarda é que ela foi uma alma solitária e contemplativa que viveu numa importante via, por assim dizer, onde ela se tornou o centro das atenções.  

Hildegarda, um dos dez filhos de um casal da nobreza local, provavelmente teve uma primeira infância bastante privilegiada e normal, exceto por sofrer de uma doença que a deixava acamada. Durante esses períodos de fraqueza e dor, ela começou a ver imagens incomuns, talvez a partir dos cinco anos de idade. Quando falou com as pessoas sobre suas visões, mandaram-na ficar calada. Quando tinha sete anos, seus pais decidiram que ela deveria entrar para vida religiosa, e assim a entregaram aos cuidados de Juta (Judite), uma anacoreta, enclausurada numa cela de pedra adjacente a um mosteiro beneditino. Lá Hildegarda viveu, estudou, trabalhou e rezou por trinta anos. Um número cada vez maior de moças foi viver com elas, até que Juta se tornou a superiora de um pequeno convento beneditino. Quando Juta morreu em 1136 (Hildegarda tinha 38 anos), a comunidade de mulheres religiosas a escolheu por unanimidade para liderá-las. Pouco se sabe dessas três décadas da vida de Hildegarda, com a exceção de que seus ataques de enfermidade e as visões continuaram. Ela só falou com Juta sobre as visões, mas esta informou a um monge, Volmar, cuja posição era supervisionar as religiosas e ministrar-lhes os sacramentos.

A vida de Hildegarda mudou radicalmente aos 42 anos. A essa altura, ela já tivera a sua visão mais poderosa, não apenas uma visão de luzes e imagens, mas de inspiração, de compreensão, uma infusão de conhecimento sobre o significado da Escritura e de todo o conteúdo da fé. Também recebeu a ordem de escrever o que havia aprendido. Sentindo-se aquém da tarefa, Hildegarda ficou gravemente doente. Volmar mandou que ela escrevesse, e o abade do mosteiro adjacente concordou. Sua doença arrefeceu, e ela começou a escrever o que vira em latim (que não aprendera muito bem), trabalhando com Volmar, que a ajudou durante os trinta anos seguintes. Sua primeira e maior obra, Scivias, discorre em três livros sobre Deus e toda a Criação, a Redenção, a Igreja, o demônio e, finalmente, sobre toda a história da salvação. O primeiro a ler trechos da obra foi o abade; depois, o arcebispo de Mainz; depois, São Bernardo de Claraval e o próprio Papa, Eugênio (1145–1153), que leu os escritos dela em voz alta aos participantes de um sínodo na cidade de Trier, na Alemanha. A notícia se espalhara. Uma verdadeira profetisa vivia no Reno. Ainda que limitada, chegara ao fim a solidão de Hildegarda.

Novas vocações afluíram ao convento dela. Talvez para separar as ovelhas dos bodes, ela transferiu sua comunidade para um vale inabitado e arborizado às margens do Reno, e começou a construir o novo convento. Mas o movimento não parou por aí. Em poucos anos, ela teve de fundar outro convento, desta vez na margem oposta do rio. Como abadessa, ela visitava aquele mosteiro uma ou duas vezes por semana. As pessoas afluíam para ouvi-la falar, para receber sua bênção e para obter tratamentos para suas enfermidades. Tempos depois, ela publicou um grande tratado sobre muitas doenças e o modo de curá-las de alma das pessoas, para pedir explicações da Escritura, explicações teológicas dos mistérios divinos e conhecimento sobre o futuro. Ela foi convocada para se reunir com o sacro imperador romano e fazer previsões para ele, que depois as confirmou. Ela falava e escrevia sobre o que lhe chegava, fossem notícias boas ou ruins. Sua voz interior lhe disse muitas coisas de que se queixar. Ela não guardava nada para si quando se tratava de dilacerar clérigos e prelados corruptos por causa de seus abusos da Igreja, da venda de ofícios e por levarem vidas de pompa, luxo e repletas de prazeres sexuais. Quando um prior escreveu para ela, pedindo que rezasse por ele porque estava fazendo o mesmo por ela e porque queria um bom desfecho para seus negócios, ela o repreendeu sem rodeios por seu egoísmo e sua visão pagã de oração. Não temos como saber o número de pessoas que ficavam perplexas com ela.

Além das centenas de cartas, ela escreveu outro livro sobre a vida moral e seus méritos, uma obra visionária como Scivias, sobre como temos de viver para participar da paz e da glória celestes. Outro livro é dedicado à descrição das obras divinas. Além do tratado médico, ela escreveu livros para explicar como a natureza funciona de acordo com os preceitos misteriosos de Deus. Ela recebeu a revelação da ordem divina em todas as coisas e se esforçou por transmitir essa ordem a outras pessoas. Também compôs setenta canções e uma peça musical de moralidade sobre as virtudes. Seu estilo, em prosa e em verso, é sempre vívido, persuasivo e repleto de imagens proféticas; é o oposto da escrita acadêmica árida e técnica. Contudo, não é fácil diferenciar precisamente entre o que ela recebeu numa visão, o que aprendeu em outros livros e na tradição local e oral, e o que ela observava e pensava por si.        

Obviamente, tal proeminência (destituída de quaisquer credenciais formais ou poder bruto que lhe servisse de apoio) fez com que ela se metesse em alguns problemas. Foi necessário muito esforço para convencer o abade (sob cuja autoridade ela vivera com Juta) a permitir que ela transferisse suas monjas e seus dotes para a nova localidade no Reno. Suas exortações aos clérigos e leigos poderosos e pecaminosos aumentaram a sua lista de potenciais detratores e inimigos. Algumas pessoas disseram que ela era uma impostora egoísta, ou simplesmente louca. O conflito com seu bispo para impedir que sua protegida, a irmã Richardis, fosse liderar outro convento foi uma causa perdida, já que afinal o Papa interveio para a apoiar o bispo. O caso não fez com que ninguém mostrasse suas melhores qualidades. Por volta do fim de sua vida, Hildegarda permitiu que um homem excomungado fosse enterrado no solo sagrado de seu convento; ela disse que ele se havia reconciliado verdadeiramente com Deus logo antes de morrer. O bispo discordou e pôs seu convento sob interdito, negando a Hildegarda e suas freiras o acesso aos sacramentos, mas ela o cansou com orações e súplicas. Em poucos meses, o interdito foi suspenso, e o túmulo permaneceu intacto. Porém, esses conflitos foram antes a exceção do que a regra.

O fato de ela ter sido uma mulher vivendo no século XII não representou um obstáculo sério à sua missão de disseminar a palavra da revelação de Deus até o fim de sua vida. Começando com cerca de sessenta anos, ela realizou quatro longas viagens pela área rural local, pregando tanto para o clero como para os leigos, com a aprovação de ninguém menos que o Papa. Suas canções eram cantadas em locais tão distantes quanto Paris, e a palavra de sua sabedoria se espalhou por toda a cristandade. Depois de sua morte na idade venerável de 81 anos, iniciou-se imediatamente um culto dedicado a ela. Embora não haja nenhum registro de sua canonização oficial nos séculos XII e XIII, ela foi listada entre os santos do Martirológio Romano ainda no século XVI. Foi só recentemente que o Papa Bento XVI a inscreveu no catálogo dos santos (uma ação chamada de ‘canonização equivalente’), no dia 10 de maio de 2012; e em 7 de outubro do mesmo ano deu a ela o título de Doutor da Igreja, um reconhecimento concedido a somente 33 pessoas até então, três delas mulheres.

Mas, por estarmos no século XXI, muitas pessoas simplesmente não aceitam que Deus tenha comunicado nada, muito menos a verdade, por meio de Hildegarda. Alguns historiadores diagnosticaram seus sofrimentos contínuos como enxaquecas, mas todos falharam completamente em explicar a origem de suas visões em termos médicos. Não podemos negar que alguns de seus sintomas se assemelham aos da enxaqueca, mas o poder e a riqueza de suas visões, bem como a profundidade da compreensão que ela mesma tinha delas, têm uma fonte muito diferente.

Ela não é uma desconhecida na Alemanha contemporânea, mas a maioria das pessoas conhece seu nome pelo motivo errado. Há uma linha de produtos e um site de internet que levam seu nome e vendem elixires feitos de plantas, poções, cremes, pós, rochas e corantes, todos comercializados para a felicidade, o sentimento de liberdade e a independência das pessoas. Porém, a prioridade de Hildegarda era a santificação e a salvação dos outros. Alega-se que os produtos são baseados nos escritos dela, mas eles estão mais alinhados com o comercialismo da Nova Era. Mais séria e mais digna é a associação (Bund der Freunde Hildegards) que publica um periódico trimestral e possui uma rede de médicos, quiropráticos e pesquisadores da área médica, os quais realizam um verdadeiro esforço para aplicar seus remédios e metodologias aos problemas que as pessoas enfrentam hoje. Mas esse grupo quase não entende a mensagem religiosa de Hildegarda. Num nível mais popular, cineastas alemães lançaram um longa-metragem sobre ela em 2009 : Vision: From the Life of Hildegard von Bingen (‘Visão: Da Vida de Hildegarda de Bingen’). O filme a apresenta como religiosa, abadessa, escritora, compositora e médica, terminando com seus preparativos para uma viagem de pregação. Infelizmente, porém, a produção se concentra nos esforços dela para ser reconhecida pelos homens da Igreja, bem como para conseguir a independência em relação ao controle deles. O roteiro conta a história da luta de uma mulher pobre e oprimida do século XII para se tornar plenamente ela mesma diante de uma hierarquia eclesiástica medíocre, invejosa, sexista e masculina.       

Hildegard foi e é muito mais que isso. Dizendo de modo bem simples, ela foi uma grande santa. Sofreu e lutou terrivelmente. Amou a Deus acima de todas as coisas e sacrificou tudo para agradá-lo. Perseverou até o fim. Inspirou inúmeras pessoas. Disse a elas que deveriam parar de pecar e abraçar a santidade. Para chegar a conhecê-la, leia os seus escritos. Algumas imagens lhe parecerão exóticas ou bizarras, mas a sabedoria de seus preceitos morais e insights religiosos merece um sério exame e um grande respeito.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://padrepauloricardo.org/blog/santa-hildegarda-uma-visionaria-para-todas-as-eras

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Leão XIV e a Quarta Revolução

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Miguel Oliveira Panão 

 

Vivemos na quarta revolução da visão do mundo e o Papa Leão XIV, ao referir a questão da inteligência artificial (IA) subjacente à escolha do nome, assume este como um desafio para a missão cristã no futuro.

A primeira foi a revolução espacial que aconteceu com Copérnico ao ampliar a nossa noção de espaço da Terra ao Cosmos. A segunda revolução foi temporal e aconteceu quando Darwin ampliou a nossa noção da vida à de uma evolução ao longo de muitos anos. A terceira revolução é mais subtil, a mental, que aconteceu com Freud e a ideia do inconsciente ou uma maior apreensão da realidade da nossa consciência.

Segundo o filósofo Luciano Floridi, a quarta revolução é a informacional onde nos tornamos, juntamente com as máquinas, inforgs ou organismos informacionais, conectados através da infosfera e partilhando um espaço de ação com o mundo artificial por nós criado. Esse mundo começou a ser habitado por agentes virtuais com os quais interagimos diariamente.

Há dias precisei esclarecer um assunto sobre o pagamento do alojamento do meu site e o agente que a empresa me facultava para interagir era, por padrão, o virtual. Para poder estabelecer um diálogo aberto, sem que estivesse restrito à base de dados das questões mais comuns, precisei explicitar a necessidade de conversar com um ‘agente humano’. A expansão da agência baseada em IA será útil por não estar restrita aos ritmos normais de um humano que precisa de voltar a casa do trabalho. Uma IA não dorme, não come (embora precise de eletricidade para alimentar os servidores), não julga, não perde a paciência, não se cansa e procura ser sempre simpática sem qualquer hipocrisia. Tudo isto porque não sente nenhuma emoção. Quando queremos resolver problemas técnicos e diretos, uma IA será o ideal, mas se existirem nuances relacionadas com aspectos ou fases particulares da nossa vida, a compaixão, a compreensão, o pôr-se no lugar daquele que sofre com o problema exige um coração humano.

Os problemas da revolução industrial que levaram Leão XIII a escrever a Rerum Novarum são diferentes dos desafios que começamos a enfrentar com a quarta revolução informacional prenhe de agentes virtuais nos quais as empresas começam a conferir algum poder de decisão. As questões éticas e de responsabilidade são enormes e sérias.

Um papa cuja escolha é uma inspiração do Espírito Santo implica que Deus vê o sentido para onde tende o mundo e oferece-nos um pastor para nos orientar pelos montes e vales da vida profunda. A Quarta Revolução será um inequívoco desafio pastoral porque afetará a vida de todo o ser humano, a sua dignidade, sentido de justiça e trabalho. Porém, não serão apenas as questões relacionadas com a justiça social e o trabalho, mas também com a vida das nossas comunidades onde há décadas que os agentes virtuais começaram a entrar através de toques de telemóvel durante a consagração eucarística. Ainda não é claro o caminho a seguir, mas a eleição de Leão XIV é um sinal de Deus Conosco. 


Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1369/leao-xiv-e-a-quarta-revolucao/

domingo, 5 de maio de 2024

A visão antropológica de Joseph Ratzinger - Papa Bento XVI - em relação ao homem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Rodolfo Faria


Estimado leitor da Revista Ave Maria, começo nossa reflexão mensal de maio a partir do pensamento do Papa Bento XVI em relação à visão antropológica do homem e suas relações afetivas. Pensar sobre a humanidade contemporânea será sempre um desafio, sobretudo a partir das categorias que compõem a sociedade.

O homem contemporâneo para Ratzinger é aquele que vive no mundo secularizado, pós-metafísico, edificado substancialmente sobre a interpretação científico-matemática da realidade; aquilo que aparece dotado de valor é unicamente o ‘fato’, alcançado pelos métodos da ciência natural e que pode ser, em consequência, constatável, dominável, transformado pela intervenção do homem. O factum torna-se, assim, imediatamente faciendum, isto é, aquilo que pode ser programado e criado pelo homem e que o projeta para o futuro. O saber torna-se poder. Os processos são assim submetidos à única autoridade comumente reconhecida : a ratio técnica (razão técnica).

Os outros tipos de conhecimento não experimentável, não exprimível em termos científico-positivos, perdem o próprio direito de cidadania no reino do legitimamente comunicável e são confinados ao âmbito do privado, do subjetivo, ao domínio da opinião. Diz ele : ‘A verdade que ao homem cumpre manipular não é nem a verdade do ser, nem em última análise a dos seres realizados, feitos; mas a verdade da alteração do mundo – uma verdade dirigida para o futuro e para a ação’. Isso é chamado por Ratzinger predomínio do ‘saber-fazer’. Essa redução da natureza a dados de fatos exaurivelmente penetráveis, e com isso também manipuláveis, tem como consequência que nenhuma mensagem moral que provém de fora do perímetro do nosso eu pode alcançar-nos. 

O fenômeno moral, como aquele religioso, vem considerado como pertencente à esfera da subjetividade, não tendo cidadania alguma na dimensão da objetividade. Nesse círculo fechado, tem-se um homem que espera a salvação de si mesmo e parece ser incapaz de dá-la.

Sobre a crise da filosofia moderna, a crise da metafísica, ele diz que não se pode ignorar a pergunta metafísica da interrogação filosófica e continua ‘lá onde não se coloca mais a questão sobre a origem e fim do real se transcura próprio àquilo que é o mais específico da pesquisa filosófica’. Nesse cenário, qual o lugar de Deus e do fenômeno religioso? A questão de Deus resulta dessa forma estranha ou Deus é colocado à margem entre as coisas que são tidas como importantes para o homem, para o conhecimento e a transformação do mundo. Joseph Ratzinger não fala tanto de um ateísmo teórico, mas de um ateísmo prático, que poderia ser assim enunciado : ‘Também se Deus existe, este não modifica substancialmente a vida do homem e do mundo’. Essa lógica aprisiona o homem na sua fatualidade, traindo a sua natureza mais profunda, tendo como consequência última e lógica e ao mesmo tempo dramática a destruição do homem mesmo, a sua abolição. Então Ratzinger diz que esta ignora aquela abertura constitutiva do homem ao mistério do ser, que ele expressa e sintetiza em três aspectos característicos da dinâmica espiritual do homem: a procura de sentido; a lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado da pessoa; a capacidade humana do divino.

A procura do sentido : a natureza humana não pode ser saciada pela pura positividade dos fatos. O texto de Mateus 4,4 oferece a Ratzinger o elemento para sublinhar o significado global da existência. Diz ele : ‘Com efeito, o homem não vive apenas do pão da fatualidade; com efeito, ele vive do amor, do sentido das coisas. O sentido é o pão que lhe possibilita subsistir, em sentido próprio como homem. Sem a palavra, sem uma finalidade, sem amor o homem chega à situação de não mais viver, mesmo cercado de todo conforto humano’. O homem necessita de um sentido que preencha a sua solidão : ‘Esta solidão pode ser superada não por meio da razão, mas por meio de uma presença, de um ser que o queira bem’. O homem pode vencer a solidão somente experimentando a existência como um ser amado. 

Ratzinger diz que a questão do sentido não opcional, elemento assessório a uma vida em si já completa, mas é a condição mesma para poder viver, é aquilo que só pode justificar a sua transmissão às futuras gerações. Enfim, o homem que busca um sentido último e onicompreesivo percebe que esse sentido não pode vir da ciência e nem criado do fazer e do operar, mas pode somente ser esperado e recebido daquele que é ‘outro’de si.

A lei fundamental do ekstasis como manifestação do significado original da pessoa : esse é um principio que norteia toda a teologia de Ratzinger. ‘De ekstasis’, sair de si. A história da salvação, por exemplo, vem compreendida à luz desse princípio como um grande êxodo. Da vocação de Abraão ao seu cumprimento no sacrifício pascal de Cristo, que permanece presente e se desenvolve no mundo pela abertura missionária da Igreja. A profissão batismal representa um sair do próprio ‘eu’ autônomo para entrar no ‘nós’ da comunidade eclesial. A vida cristã é caracterizada por essa dinâmica de ‘sair de si’ sobre a base de Mateus 10,39, ‘Somente quem perde a vida a encontra’.

Para Ratzinger, também a moderna pesquisa da antropologia filosófica consiste na própria superação de si : a abertura, a relação com a totalidade, faz parte da essência do Espírito, assim que somente no superar-se possui-se a si mesmo. O verdadeiro centro da existência humana aparece assim ser ‘ex sistere’, fora de si, somente movendo para o qual o homem pode atingir o seu ‘en si’ próprio. Para ele, Deus é um ser dialógico, em que a essência é ser relação; somente uma compreensão do homem como ‘pessoa’, entendido como relação e abertura ao outro, como atuação permanente da dinâmica do êxodo, respeita a peculiaridade do Espírito humano, criado ‘à imagem e semelhança de Deus’. Enfim, diz Ratzinger : ‘O outro, por meio do qual o Espírito torna-se a si mesmo, é aquele completamente outro, ao qual, balbuciando, pronunciamos o nome Deus’.

A capacidade humana do divino : se o homem é busca de significado da realidade, se o seu ser pessoa se realiza na abertura, no ekstasis, deve-se concluir que a sua medida é somente o infinito, o tudo, é Deus mesmo. Esse é o aspecto que distingue o espírito humano : ‘O homem é ser capaz de pensar o totalmente diverso, o transcendente, isto é, Deus, como quer que o chame’. Diz Ratzinger : ‘Se poderia dizer que o homem representa aquela fase da criação, aquela criatura à qual é dada a possibilidade de ver a Deus e então de participar a vida. (…) Devemos agora acrescentar que essa abertura não é um ‘a mais’ na existência, a qual poderia também ser vivida independente dessa, mas que tal abertura representa aquilo que é mais profundo no homem, ou seja, propriamente aquilo que chamamos alma’. Essa ‘capacidade’ humana do divino vem implicitamente, mas claramente sugerida pelo mesmo texto bíblico do Gênesis quando descreve a criação do homem. Aqui duas afirmações são significativas : Deus criou um ser que pode pensar e conhecer aquele que o criou; o fato de ser criado à imagem e semelhança de Deus, diz ele, ‘A semelhança com Deus significa ‘referência’, é uma dinâmica que coloca em movimento o homem e o orienta para o completamente outro, significa capacidade de relação, significa que o homem é capaz de Deus. Em consequência, o homem é ‘ele mesmo’ em máxima potência quando sai de si, quando é capaz de dizer ‘tu’ a Deus. Essa dinâmica se cumpre somente com o Adão definitivo, aquele que é a perfeita imagem e semelhança de Deus e que por isso revela exemplarmente que é o homem. A abertura para Deus torna-se, de fato, orientação para Cristo, para o seu corpo ressuscitado, para o qual não somente o homem, mas toda a realidade, tende, e na qual ambos se tornam plenamente ‘ele mesmo’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-visao-antropologica-de-joseph-ratzinger-papa-bento-xvi-em-relacao-ao-homem.html

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Papa Francisco : Bento XVI ensina a olhar com coragem os problemas de nosso tempo


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
Papa Francisco e Bento XVI em um encontro de 2017


‘O Papa Francisco incentivou a prosseguir o estudo do legado de Bento XVI e assinalou que o Papa Emérito ensina a olhar com coragem e esperança os problemas de nosso tempo.

O Santo Padre falou sobre isso na audiência concedida aos membros da Fundação Joseph Retingir – Bento XVI, no sábado, 17 de novembro, para conferir o Prêmio Retingir 2018, que foi entregue a teólogo católica alemã Marianne Schlosser, especialista em São Boaventura, e ao arquiteto suíço Maria Botta, que desenhou e construiu várias igrejas.

Sobre Schlosser, o Papa destacou que ‘é muito importante que seja reconhecida cada vez mais a contribuição feminina no campo da pesquisa teológica científica e do ensino da Teologia, por muito tempo considerados campos quase exclusivos do clero’.

Sobre Maria Bota, o Santo Padre ressaltou que ‘o compromisso do arquiteto criador de locais sagrados na cidade dos homens é de grande valor, e deve ser reconhecido e incentivado pela Igreja, em particular quando se corre o risco do esquecimento da dimensão espiritual e da desumanização dos espaços urbanos’.

Em seguida, Francisco disse que ‘esta é uma bela ocasião para dirigir juntos nosso pensamento afetuoso e grato ao Papa Emérito Bento XVI. Como admiradores de sua herança cultural e espiritual, vocês receberam a missão de cultivá-la e fazer com que continue frutificando, com aquele espírito fortemente eclesial’ que sempre caracterizou Joseph Retingir.

O seu é um espírito que olha com consciência e coragem os problemas de nosso tempo e sabe extrair da escuta da Escritura na tradição viva da Igreja a sabedoria necessária para um diálogo construtivo com a cultura de hoje’, destacou.

Nesse sentido, prosseguiu o Santo Padre, ‘encorajo-os a continuar estudando os seus escritos, mas também a enfrentar os novos temas com os quais a fé é chamada a dialogar, como os que foram evocados por vocês e que eu considero muito atuais, desde o cuidado da Criação como Casa comum e a defesa da dignidade da pessoa humana’.

Do mesmo modo, o Pontífice sublinhou que, ‘no contexto dos grandes problemas do nosso tempo, a teologia e a arte devem seguir estando incentivados e elevados pela potência do Espírito, fonte de força, alegria e esperança’.

Em seguida, o Papa recordou uma reflexão que Bento XVI fez há alguns anos sobre São Boaventura e a esperança.

Uma bela imagem da esperança a encontramos num de seus sermões do Advento, onde ele compara o movimento da esperança ao voo do pássaro, que abre as asas da maneira mais ampla possível, e para movê-las emprega todas as suas forças. Faz de si mesmo um movimento para subir e voar. Esperar é voar, diz São Boaventura. Mas a esperança exige que todos os nossos membros se movam e projetem-se em direção ao verdadeiro auge do nosso ser, em direção às promessas de Deus. Quem espera, diz ele, ‘deve levantar a cabeça, voltando para o alto os seus pensamentos, em direção à altura e de nossa existência, ou seja, em direção a Deus’’, disse Bento XVI no cidade italiana de Bagnoregio, em setembro de 2009.

Para concluir, o Papa Francisco agradeceu aos ‘teólogos e arquitetos que ajudam a levantar a cabeça e a dirigir nossos pensamentos para Deus. Desejo-lhes o melhor neste nobre trabalho para que sempre se dirija a este fim’.’


Fonte :

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A vocação nasce do olhar!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Padre Manuel João P. Correia,
Missionário Comboniano

Quando nasce uma vocação? Onde situar a sua origem? Qual é o seu primeiríssimo instante? À pergunta poderíamos dar uma resposta de certo modo óbvia: a vocação nasce no coração de Deus! Como e quando, porém, se manifesta ela no coração da pessoa?


‘Viria espontâneo pensar que, dado tratar-se de um ‘chamamento’ (vocação provém do verbo latino vocare, ‘chamar’), ela é semeada pela ‘boca’ de quem chama e brota no ‘ouvido’ de quem escuta. Na origem da vocação estaria pois a ‘palavra’.

Eu acho, porém, que antes da palavra (pronunciada e escutada) está o... olhar! Ou melhor, dois olhares que se cruzam, que comunicam e estabelecem uma relação particular.


A vocação nasce de um olhar

Encontramos no Evangelho numerosos exemplos. Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu Simão Pedro e seu irmão André e chamou-os; mais adiante viu os filhos de Zebedeu, Tiago e João, e chamou-os também (Marcos 1). Passando por ali de novo, no dia seguinte, viu Levi, filho de Alfeu, sentado ao posto da cobrança e disse-lhe : ‘Segue-me’; e este levantou-se e seguiu-o (Marcos 2).

Não sempre este olhar conseguiu o seu intento, como quando Jesus fitou com amor o jovem rico e o convidou a segui-lo. O jovem abaixou os olhos e afastou-se triste, cabisbaixo (Marcos 10). Mas já assim não foi com outro rico, Zaqueu, alcançado também ele pelo olhar de Jesus : ‘Chegando Jesus àquele lugar e levantando os olhos, viu-o e disse-lhe : Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa. Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente’ (Lucas 19).

Esta relação entre vocação e visão não aparece só com Jesus que chama, Ele que é a Palavra que se tornou visível (1 João 1). Podemos comprovar que tal sucede também em algumas vocações do Antigo Testamento. Recordemos Moisés, por exemplo : vendo a sarça ardendo, aproximou-se para ver de perto; o Senhor viu Moisés que se aproximava para observar e, do meio da sarça, o chamou : ‘Moisés, Moisés’ (Êxodo 3).

Embora o antigo testamento privilegie a escuta, é dito que no Sinai ‘todo o povo viu as vozes’ (Êxodo 20,18, segundo o texto hebraico). A palavra não se opõe à visão, ela habita também no olhar!


O olhar de Jesus

O Evangelho nada diz sobre o rosto de Jesus, as suas feições, a cor dos seus cabelos ou dos seus olhos, mas fala frequentemente do seu olhar. A sua intimidade passa através do seu modo de olhar. Com efeito, nós falamos e comunicamos com os olhos; até sentimentos e emoções íntimas que, por vezes, a palavra não consegue transmitir. Este olhar de Jesus tinha um efeito singular. Um simples trocar de olhares e tudo muda. Quando Jesus chamou os seus apóstolos, não se diz que tenha dialogado com eles ou tentado persuadi-los. O seu olhar tinha um tal poder de convicção ou de atracção que dispensava palavras ou discursos retóricos. Jesus chamou-os, e eles abandonaram tudo e seguiram-no imediatamente. O seu olhar tocara-lhes o coração e a vida deles mudou para sempre.

O Papa Francisco comentava, há tempos, o impacto deste olhar sobre Mateus. Jesus olha Mateus nos olhos, um cobrador de impostos, um pecador público. O dinheiro é a sua vida, o seu ídolo. Mas agora, afirma o papa, sente ‘no seu coração o olhar de Jesus dirigido a ele’. ‘E aquele olhar envolve-o totalmente, transformou a sua vida. Nós dizemos : converteu-o. Assim que viu aquele olhar, levantou-se e seguiu-o. E isso é verdadeiro : o olhar de Jesus sempre nos levanta. Um olhar que nos leva para cima, que jamais nos abandona. Jamais humilha. Convida a levantar-se. Um olhar que leva a crescer, a ir em frente, que encoraja, porque nos quer bem’ (Santa Marta, 21.9.2013).


Um olhar que interpela

Dir-se-ia que a palavra não basta para suscitar uma vocação. É necessário um olhar que nos ‘interpele’ e dê consistência e força à palavra. Isto tem a sua base antropológica. Nós comunicamos, antes de mais, com o olhar. Uma verdadeira comunicação requer um encontro face a face, um olhar-se nos olhos. Não basta uma simples troca de palavras através do ecrã do iPhone!...

O homem Adão precisa de ter diante de si um interlocutor, alguém que lhe ‘corresponda’ (um ‘face-a-face’, parece indicar o texto de Génesis 2,20) para poder compreender-se a si próprio. O olhar do outro torna-se o espelho em que nos contemplamos. Quando negamos ou suprimimos esse olhar, como no caso de Caim com o seu irmão Abel, o nosso olhar obscurece-se e caminhamos nas trevas.

O nosso olhar é interpelado mas também interpela o mundo e os outros que nos rodeiam. Recebe e exerce uma influência, positiva ou negativa. Um olhar pode fazer desabrochar quanto de melhor existe no coração de quem se olha. Tem o poder de fazer renascer a vida e a esperança, de suscitar potencialidades inimagináveis. Como pode amarfanhar, abater, semear a morte.

Pensemos no olhar enamorado que faz com que a amada ou o amado se sinta uma ‘fada’ ou um ‘príncipe’. Naquele olhar, crescendo, nasce a vocação ao matrimónio. Mas quando aquele olhar começa a redimensionar o outro, vendo-o com olhos que o diminuem até o anular, aí começa a tragédia. Basta que apareça um outro olhar em que uma pessoa se sinta valorizada e estimada para pôr em perigo tal matrimónio.


Um olhar que ama

Ver não é uma tarefa fácil. Hoje vivemos na época do show planetário, com um dilúvio contínuo de imagens que nos submergem com o seu poder de sedução. É preciso aprender a ver, pois podemos ‘ter olhos e não ver’ (como diz Jesus dos seus discípulos, a certa altura). Isto implica uma caminhada espiritual de purificação do nosso olhar para evitar uma visão superficial, utilitária, manipuladora...

A pureza do olhar está ligada à do coração. ‘Os puros de coração verão a Deus’, diz Jesus. Esta pureza é a do Amor. O ‘bem ver’ é uma questão de ‘bom coração’. Citando O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, ‘Só se vê bem com o coração’. É o coração que dá profundidade ao olhar, porque ‘o essencial é invisível aos olhos’.

Para purificar o nosso coração precisamos de nos ver na pupila dos olhos de Deus. Só eles reflectem a imagem do que somos realmente : ‘Tu és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo’ (Isaías 43,4). Só assim descobrimos a nossa verdadeira identidade e a nossa vocação, no olhar apaixonado do coração de Deus. Por isso os pequenos e os humildes, os pecadores e as prostitutas se sentiam acolhidos e estimados pelo olhar de Cristo. Fora de tal olhar o homem desce à fossa : ‘Não me oculteis a vossa face, para que não me torne como os que descem à sepultura’ (Salmo 142,7).

A vocação nasce e cresce na contemplação. Aliás São Paulo diz que através do olhar nos transformamos em espelho de Cristo. A sua imagem impregna o nosso coração e transforma-nos n’Ele. Grande é o poder desta Imagem! ‘Todos nós, a rosto descoberto, reflectimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela acção do Espírito do Senhor’ (2 Coríntios 3,18).

Olhar e deixar-se olhar por Cristo, é o segredo de uma vocação cristã vivida com paixão. O Papa Francisco, na tal homilia a que acenámos antes, concluía dizendo : ‘Todos nós nos encontraremos diante daquele olhar, aquele olhar maravilhoso. E vamos em frente na vida, na certeza de que Ele nos olha. Mas também Ele nos espera para nos olhar definitivamente. E aquele último olhar de Jesus sobre a nossa vida será para sempre, será eterno. Eu peço a todos esses santos que foram olhados por Jesus, que nos preparemos a deixar-nos olhar na vida, e que nos preparemos também para aquele último... e primeiro olhar de Jesus’.


Um olhar que vê

Um olhar purificado pelo amor, o olhar do coração, vê o mundo e os outros com outros olhos! Não com um olhar indiferente ou concupiscente mas... com olhos de ver!

Eis um bonito exemplo, que tem algo de fantástico e incrível. Trata-se de uma criança, Vivienne Harr, uma menina californiana de apenas 8 anos, que deu início a um projecto com o objectivo de acabar com a exploração infantil.

Um dia a sua mãe fez-lhe ver, com comoção, uma foto de duas crianças nepalesas, de mãos dadas, transportando nas costas enormes pedras. Vivienne ficou profundamente chocada. E decidiu ‘fazer alguma coisa’ para mudar tal situação. A única coisa que sabia e podia fazer era… vender limonada! Com a ajuda da família, Vivienne construiu a sua barraquinha de limonada, com a finalidade de amealhar... 100 000 dólares para financiar a libertação de meninos escravos.

Durante semanas, meses, um ano inteiro... levou adiante o seu propósito. O seu olhar de um coração de criança e a sua tenacidade fizeram o milagre.

O seu projecto tornou-se famoso quando um cronista do The New York Times, tendo recebido uma mensagem de Vivienne, a publicou no Twitter : ‘Olá, sou uma criança de 8 anos e vendo limonada contra a escravidão, todos os dias, até quando alcançar 100 mil dólares.’ Em pouco tempo tão insólita notícia ganhou destaque em várias emissoras e jornais. Viajando com a sua barraquinha, convidada a espectáculos e actividades de beneficência…, o sucesso da iniciativa foi tal que em breve alcançou o objectivo que se propusera.

Quando os pais lhe fizeram notar que agora podia dar-se por satisfeita, ela perguntou : ‘Mas será que acabou a escravidão das crianças?’ ‘É claro que não’, lhe responderam eles. ‘Então também eu não terminei!’ Continuou a sua campanha, e chegou a um milhão de dólares. Hoje a sua limonada artesanal é vendida em muitos lugares do país.

Da venda da limonada Vivienne aprendeu uma coisa : ‘Pensava que o máximo da vida fosse outra coisa, e ao invés sou tão feliz servindo e ajudando : é a coisa mais bela do mundo!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFAupkkpykZcEZjFgJ