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segunda-feira, 9 de junho de 2025

O discernimento vocacional segundo a Regra de São Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

O jovem São Bento recebe do padre Romano o hábito dos eremitas

Afresco do mosteiro de Subiaco (Itália)

*Artigo de Dom Bernardo Olivera, OCSO

Antigo Abade Geral dos Trapistas

 

Esta intervenção [1] de Dom Bernardo Olivera sobre a formação inicial nos pareceu útil para iluminar essa formação muito concretamente, a partir do que São Bento pensa na sua Regra

(Sl 4,7)

 

‘A abundância e a falta de vocações são, geralmente, causas que sublinham a importância do discernimento. A falta de vocações convida, muitas vezes, a correr o risco de ‘aceitar’ qualquer tipo de candidatos; a abundância leva não os passar pela peneira da colheita.

Nosso objetivo é consultar o ensino de São Bento na sua Regra: um ensinamento que vai desde o antes da entrada, até à profissão monástica.

São Bento tinha certamente o carisma do discernimento dos espíritos, mas quando se trata de vocações, é muito prático : baseia-se no que se vê e pode ser observado. Eis quatro critérios particulares e gerais oferecidos pela Regra.

A paciência perseverante

O primeiro critério da Regra está no começo do cap. 58, e diz assim :

‘Apresentando-se alguém para a vida monástica, não se lhe conceda fácil ingresso, mas como diz o Apóstolo : ‘provai os espíritos, se são de Deus’. Portanto se aquele que vem, perseverar batendo à porta e se depois de quatro ou cinco dias, sendo-lhe feitas injúrias e dificuldade para entrar, parece suportar pacientemente e persistir no seu pedido, conceda-se lhe o ingresso, e permaneça alguns dias com os hóspedes’ (RB 58,1-4).

Trata-se de um discernimento preliminar para examinar se o candidato está tocado pelo Espírito de Deus, no que diz respeito à sua vinda ao mosteiro.

Bento indica dois pontos fáceis de verificar : a perseverança e a paciência. O fator tempo ajudará a verificar estas duas realidades. Se, por um período de alguns dias, o candidato perseverar no seu pedido, e tiver paciência diante da demora que lhe impõem, pode-se dizer que é o Espírito de Deus que o traz ao mosteiro. O que não significa, evidentemente, que deva abraçar obrigatoriamente a vida monástica. A paciência é a primeira virtude que o candidato deve praticar. A paciência - consigo mesmo e com os outros – é um fator prioritário de perseverança na vida monástica. Sem paciência não há comunhão com os sofrimentos pascais de Cristo, nem comunhão profunda e misericordiosa com as deficiências dos irmãos da comunidade (RB Prol 50;72,5).

Comentário pastoral : Muitas vezes condicionados pela falta de vocações, alguns ou algumas se precipitam para admitir candidatos, deixando de lado este critério que todas as regras mencionam, assim como a tradição monástica em geral. Pela mesma razão também, se omite dizer, de antemão, ao candidato as coisas duras e ásperas pelas quais se vai a Deus (58,8).

A verdadeira procura de Deus

O segundo critério beneditino diz assim :

‘Que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito para com o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios’ (58,7).

             A procura de Deus, neste contexto, não é a procura de um Deus escondido, mas de um Deus de quem nos afastamos e para o qual decidimos voltar, um Deus que precede a nossa procura, procurando-nos por primeiro (Prol 2,14; 58,8). Note-se que Bento recomenda ‘observar’. Por outras palavras, os critérios de discernimento que propõe, necessitam de uma observação atenta. O texto sugere quem são os que ‘observam’, é o conjunto da comunidade. O que precede supõe que o ancião (sênior) capaz de ganhar almas (o mestre de noviços) seja particularmente responsável por esta observação… O cuidado que caracteriza esta observação é que seja solícita, observação atenta. Esta atenção particular refere-se à intensidade e à duração. O que a sutilidade e a perspicácia não fazem, faz-se facilmente com o tempo. O tempo revela o coração. O objeto da observação não é a intenção (invisível) do candidato à vida monástica, mas o seu comportamento (visível), e isto numa tríplice perspectiva : o dom de si à vida de oração, a aceitação da vontade dos outros e tudo o que coloca o orgulho do candidato debaixo de seus pés. Note-se que não se trata de se dedicar à oração, à obediência e à humildade, mas de se dar a isso numa aceitação dada, fervorosa e cheia de bom zelo.

- A obra de Deus

No que diz respeito à Obra de Deus, a oração tem o primeiro lugar. Bento é coerente com o que diz no começo da Regra :

‘Antes de tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito insistente que seja por ele realizado’ (Prol. 4).

E, querendo ser ainda mais claro, afirmará, para que não haja dúvidas : ‘Nada preferir à obra de Deus’ (43,3). Note-se que Opus Dei refere-se ao Ofício Divino, mas em relação com o esforço geral de atenção a Deus (cf. 19,1-2; 7,10 e ss).

Comentário pastoral : Não se trata somente de observar o pedido do candidato por meio da sua participação ativa e consciente na Obra de Deus… mas também seu modo de integrar o que os formadores lhe propõem na ordem da práxis  : utilização dos livros do coro, canto; estudo : história, teologia, estrutura da liturgia das horas; mistagogia : oração dos salmos, que o espírito esteja de acordo com o coração…

- A obediência

A obediência beneditina é uma consequência da oração (cf. 6,2), portanto comporta uma certa primazia. O 1º grau da humildade é a obediência sem demora (5,1).

O pedido de obediência (fervor, bom zelo) leva a obedecer não só aos superiores, mas também a todos os irmãos da comunidade (72,6). Esta obediência leva à união com Jesus Cristo, que disse ‘Eu não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou’ (RB 7,32 citando Jo 6).

Comentário pastoral : não esquecer que existem dois tipos de obediência em relação à liberdade :

- obediência por coerção : é o medo que faz agir;

- obediência por convicção : é a escolha que faz agir.

Na primeira forma de obediência, a liberdade é condicionada pelo medo do castigo; no segundo caso, é o livre arbítrio que prevalece (liberdade motivada pela razão) : identifica-se com a obediência voluntária, de que fala Perfectae Caritatis.

- Opróbrios

Os opróbrios, se olharmos a possível fonte basiliana do texto (Basílio, Regra, 6-7), referem-se aos trabalhos modestos e seculares.

São Bento encarrega-se de toda a vida do candidato para ajudar na humildade por meio de inevitáveis humilhações (cf. 7,44-54). É assim que o candidato à vida monástica começa por aderir a Jesus Cristo, que se apresenta manso e humilde de coração, e que veio para servir e não para ser servido (Mt 11,29; Mc 10,45).

Comentário pastoral : não se trata de ser humilhado de propósito, intencionalmente, mas de aceitar uma vida de serviço e de simplicidade.

- Conclusão

São Bento é muito concreto : a procura de Deus manifesta-se combatendo o egoísmo e o orgulho, pois isso impede a comunhão com Jesus Cristo e com o próximo.

Note-se, igualmente, que os três critérios propostos pelo Patriarca têm uma certa correspondência na escada da humildade. De fato, o 1º grau corresponde à relação do monge com Deus; os graus 2 a 4 referem-se à obediência; os graus 5 a 8 propõem o modo de se abaixar com a vergonha e a humilhação.

Por que motivo São Bento não menciona o silêncio como critério de discernimento? Não sabemos. Talvez por motivos literários ou pedagógicos. No entanto, os graus 9 a 12 da humildade falam dele.

Resumindo, as propostas de São Bento podem ser reformuladas em duas perguntas : o candidato à vida monástica procura seguir e imitar o Cristo na sua oração, sua obediência e sua abnegação? Oração, obediência e humildade estão a serviço de uma verdadeira procura de Deus? 

A observância da Regra

O terceiro critério consiste na confrontação com a regra de vida da comunidade.

São Bento diz que ela deve ser lida ao candidato, por inteiro, três vezes antes da profissão final. A capacidade do candidato para observar pacientemente o que ela prescreve, é igualmente um critério de discernimento (58,9-16).

Comentário pastoral : Os comportamentos obedientes e humildes devem vivificar a observância da Regra inteira, sendo esta observância uma prova suplementar da procura de Deus. Além da Regra de São Bento o candidato deve conhecer os costumes da Ordem contidos nas Constituições e Usos da comunidade.

O bom zelo

O pedido que o candidato à vida monástica deve manifestar está intimamente ligado ao bom zelo, típico de quem decidiu afastar-se dos vícios e dirigir seus passos para Deus. Por conseguinte, o cap. 72 da Regra, sobre o Bom Zelo, ou o amor mais ardente, oferece critérios suplementares para verificar o dom da vida e o crescimento na vida divina.

Em resumo, os critérios do bom zelo podem ser apresentados assim :

- respeitar-se uns aos outros (honra);

- ajudar-se mutuamente (paciência);

- obedecer-se mutuamente (obediência);

- renunciar a si mesmo, não ao vizinho (abnegação – oblação);

- amar-se (fraternidade, irmandade);

- temer a Deus com amor (começo da sabedoria);

- amar o abade / com afeição sincera (filiação);

- nada preferir ao Filho único! (Cristocentrismo).

Comentário pastoral : um noviço que não arde, pelo menos algumas vezes, com um zelo ardente, mesmo que seja excessivo, corre o risco de se tornar um professo solene medíocre. A sabedoria popular diz : ‘vassoura nova varre bem’ e ‘burro velho não anda a trote’.

Conclusão

É evidente que estes critérios, em particular o do bom zelo, valem, não só para a entrada na vida monástica e a perseverança, mas também para a passagem do monge e da monja para a vida eterna.

A doutrina do Patriarca, por causa de sua base evangélica, conserva seu valor. O ensinamento de São Bento exposto aqui deve ser levado em conta e traduzido para as circunstâncias do mundo de hoje.

O modo como seus princípios são encarnados pode mudar e enriquecer-se.’

 [1] Intervenção na sessão dos formadores da ABECCA (2019).

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Tornar-me eu mesma no mosteiro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Vitral do Encontro, capela do mosteiro

*Artigo de Irmã Maria Terezinha Bezerra dos Santos, OSB

Mosteiro do Encontro, PR


‘Pediram-me para dar um testemunho sobre minha experiência monástica, porém, acho que mais que um testemunho, gostaria de partilhar o quanto a vida consagrada monástica me ajuda em minha caminhada humana, cristã e espiritual.

Sou monja beneditina do Mosteiro do Encontro, localizado em Mandirituba, Paraná, nasci em Palmeira dos Índios, Alagoas. Estou na vida monástica há 15 anos, sou professa solene há 9 anos.

Sabemos que a vida cristã é determinada por verbos de movimento, mesmo quando é vivida na dimensão monástica e contemplativa claustral, é uma contínua busca [1]. Bem sabemos que para São Bento a procura de Deus é o primeiro critério para se receber alguém que deseja entrar no Mosteiro [2]. Procurar a Deus no Ofício Divino : temos aí nosso primeiro serviço e, a partir dele, toda a nossa vida no mosteiro é organizada. Aprendi com esta organização, que meu trabalho não seria ‘visto’, nem apreciado pelas pessoas, não iria receber elogios e reconhecimento pelo que viria a fazer. No começo, devo reconhecer que não foi fácil aceitar isso, mas depois percebi que meu, nosso serviço, no Mosteiro do Encontro, não é um trabalho para ser reconhecido, mas recebido. Sei que nossa vida entregue à oração, por toda Igreja e por todo o mundo, dá frutos. A diferença é que estes frutos é o próprio Senhor quem os colhe!

Devo ser sincera em afirmar que nunca pensei em ser religiosa, menos ainda em ser monja! Mas Deus foi conduzindo a minha vida de tal modo que foi impossível dizer não ao seu chamado. Eu não conhecia a vida monástica, mas tinha um amigo que era monge beneditino, fui ao seu Mosteiro, em Santa Rosa, Rio Grande do Sul, fazer um retiro de preparação para entrar em uma congregação de vida apostólica. Quando participei das vésperas pela primeira vez com os monges, não sei explicar o que aconteceu, só sei que ali tive a certeza que Deus tinha me chamado para esta vida. Voltei decidida a entrar em um mosteiro, mas não sabia onde. Este mesmo amigo me indicou alguns mosteiros, entre eles o Mosteiro do Encontro.

Quando cheguei ao Mosteiro do Encontro meu primeiro desejo foi ir embora, achei que não era o meu lugar, mas fiquei o tempo que tinha me proposto a ficar e no final da estadia, (uma semana), pedi para fazer um tempo de experiência de 3 meses. Desde então passaram-se 15 anos. Meu sim passou e continua a passar por muitas purificações. Graças a Deus! Quando cheguei ao Mosteiro, pensava que entrando na vida religiosa a santidade era ‘automática’, eu era muito fechada em mim mesma, achava que o mosteiro me daria a oportunidade de ficar em meu lugar, tranquila, devo reconhecer que não foi fácil aceitar que a vida monástica não é só rezar e viver em meu próprio mundo. Pouco a pouco, entendi que a vida monástica é justamente um contínuo sair de mim mesma, e ir ao encontro do outro, seja na oração, na comunidade ou na acolhida dos que chegam ao Mosteiro.

O Mosteiro do Encontro tem um nome sugestivo, levando em consideração o que nosso Papa Francisco vem a todo o momento pregando sobre a cultura do encontro. Posso afirmar que fiz esta experiência do Encontro, de várias maneiras, mas vou limitar-me a três áreas onde pude viver e vivo continuamente este mistério do Encontro.

Meu primeiro encontro foi comigo mesma. Quando cheguei ao Mosteiro me deparei com uma irmã Maria Terezinha, que nunca havia percebido antes, não que ela não existisse, mas eu dava um jeito de deixá-la de lado, escondida nas aparências. Sempre vivi meus sentimentos e relações de maneira o mais superficial possível, tinha medo de tocar minhas fragilidades e que as pessoas conhecessem uma Terezinha com sentimentos muitas vezes reprovados. Não me permitia tocar minha raiva, ciúmes, medo, evitava olhar para uma Terezinha com limites ou simplesmente humana; em verdade, encontrei-me com minha humanidade. Este encontro foi indispensável para que eu pudesse começar a fazer um caminho de auto aceitação e reconciliação com minha própria história de salvação!

No Mosteiro fiz a experiência de sentir-me amada na situação em que me encontrava, não precisava mostrar ser uma pessoa que não era, podia ser eu mesma como sou, com qualidades e limites e isto me deu e dá coragem para continuar o caminho de conversão. Experimentei a paciência de minhas irmãs, que mesmo no silêncio diziam que acreditavam em mim. Aí se deu o meu segundo Encontro, com minha comunidade. Esta experiência de aceitação e acolhida por parte de minha comunidade me fez perceber o quanto eu precisava de pessoas que me confrontassem, que me ajudassem a sair de meu comodismo. Na vida comunitária descobri e pude desenvolver dons que nunca imaginei ter.

Minha experiência na vida comunitária foi como se eu tivesse a oportunidade de ‘renascer’. Sinto que cada dia, no ‘útero’ de minha comunidade, o Senhor me recria, me ensina a recomeçar, cura minhas feridas, demonstra seu amor, por meio de pessoas que nunca imaginei encontrar na minha vida. Claro que constantemente tenho que aprender a relacionar-me com pessoas diferentes de mim, que nem sempre estão de acordo com minhas ideias, nem eu com as delas, mas tenho que aprender a respeitá-las como são, não é um caminho fácil, mas este processo tem me ensinado a buscar o verdadeiro sentido de estar e permanecer no Mosteiro. Com a vida comunitária aprendo sempre mais que não posso caminhar sozinha, que preciso de relações verdadeiras para viver minha consagração como Deus me pede.

Só quando entendi que não podia viver minha consagração em meu próprio mundo de reservas, que tinha que caminhar com minhas irmãs, muitas vezes morrendo à minha própria vontade, pude entender o que é ser consagrada pelo Reino, para construir o Reino de Deus já aqui e agora vivendo e servindo em comunidade a caminho, mas com desejo verdadeiro de responder e ser fiel ao seguimento do único Senhor.

A terceira experiência de Encontro foi com as pessoas que chegam ao Mosteiro. Sabemos que para São Bento todos os que chegam ao Mosteiro devem ser acolhidos como o próprio Cristo [3]. Na prática e na vivência do cotidiano, esta acolhida não é tão simples assim. No começo não entedia por quê tinha que dar atenção para todos os que chegavam ao mosteiro, às vezes, humanamente falando, em horas inconvenientes... Muitas vezes não entendia porque deixamos os trabalhos, ou mesmo a oração, para ir ao encontro das pessoas que chegam até nós. Mas aos poucos fui me dando conta que as pessoas que chegam ao Mosteiro buscam a paz, querem ser acolhidas e escutadas, querem sentir-se amadas, valorizadas como pessoas. Muitas pessoas que chegam a nós têm tudo o que mundo e o dinheiro podem oferecer, mas não encontram o essencial. Então entendi que as pessoas buscam Aquele que é o único capaz de saciar esta busca e preencher o vazio, que nada nem ninguém poderia preencher. Elas procuram a Deus, e o modo como acolho estas pessoas pode proporcionar lhes este encontro. Hoje posso afirmar que cada vez que acolho uma pessoa, neste encontro, posso ser instrumento de Deus para esta pessoa, mas estas pessoas são sempre mais instrumentos de Deus em minha vida. Isto me faz perceber o quanto Ele pode realizar por nós, e em nós, utilizando-se de nossos irmãos e irmãs, que se tornam verdadeiramente manifestação de sua graça e presença em nossas vidas!

Não poderia terminar esta partilha, sem expressar minha gratidão à toda equipe da AIM, que desde o início de minha vida monástica esteve presente com sua ajuda para minha formação monástica, seja no período da formação inicial com a escola de formadores que também me proporcionou continuar meu encontro comigo mesma e minha humanidade, seja na continuação em minha formação permanente -, agora estou terminando o curso de formação monástica dos cistercienses em Roma. Sei que o Senhor age em nós com sua graça, mas bem sabemos que também nós precisamos abrir-nos ao que Ele tem a nos oferecer! Ficam aqui os meus sinceros agradecimentos a nossos irmãos e irmãs da AIM que não medem esforços para nos ajudar em nossa formação, proporcionando-nos ferramentas para vivermos de modo mais coerente nossa vida monástica! Que o Senhor nos sustente a cada dia em nosso sim, e com Ele sigamos com nosso desejo de em tudo glorificá-lo! Assim seja!’

[1] Ano da vida consagrada, Alegrai-vos: Carta circular aos consagrados e às consagradas do magistério do Papa Francisco, São Paulo, Ed. Paulinas, p. 23.

[2] Regra de São Bento 58,7.

[3] Regra de São Bento 53,1.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/117

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Da escravidão ao altar: Santa Josefina Bakhita

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Deivith Zanioli,

Missionário Comboniano

  

‘No mês de fevereiro, recordamos Santa Josefina Bakhita (1869-1947), uma santa africana que, após anos de escravidão, consagrou-se ao verdadeiro ‘Patrão’. 

Vamos conhecer um pouco da sua história. Desde pequena, ela sofreu muito, pois aos 9 anos de idade foi capturada por traficantes de escravos enquanto brincava nos campos próximos à sua residência no Sudão. Nas mãos dos raptores, estes a indagaram sobre o seu nome; ela permaneceu em silêncio, o que levou os algozes a chamá-la de ‘Bakhita’, termo que significa ‘a sortuda’.

Nos dez anos subsequentes à sua captura, a santa passou pelas mãos de cinco diferentes proprietários de escravos. Em um ato de coragem e sorte, conseguiu escapar com sua irmã das mãos dos traficantes, porém, foram encontradas por outros traficantes, que as capturaram. Um deles decidiu mantê-la como empregada doméstica para sua filha.

Em seguida ela foi vendida a um oficial militar turco, cuja família a submeteu a frequentes maus tratos, incluindo agressões físicas e marcações corporais com agulhas. Posteriormente, o oficial vendeu seus escravos em Cartum antes de retornar à Turquia.

O quarto proprietário de Bakhita foi o vice-cônsul italiano em Cartum, que demonstrou bondade em sua relação com ela, buscando inclusive localizar seus familiares, sem sucesso. Decidido a proporcionar-lhe um futuro melhor, ele a levou à Itália, onde Bakhita foi transferida para a família da senhora Michieli. 

Essa família possuía um hotel perto do mar Vermelho e pensaram em levar Bakhita para os ajudar como garçonete. Antes de partir, o administrador da família sugeriu que a escrava conhecesse a fé católica. Com isso Bakhita foi confiada aos cuidados das Filhas da Caridade de Canossa, em Veneza. No convento ela se sentiu profundamente acolhida.

Quando a senhora Michieli tentou levar Bakhita de volta para sua casa, esta se recusou a sair do convento, declarando que não poderia arriscar-se a perder o bem mais precioso da sua vida : Deus. O caso foi levado ao cardeal patriarca e ao procurador do rei, que decidiram, com base na legislação italiana da época, que a escravidão era ilegal e que Bakhita era, portanto, uma mulher livre.

Pouco tempo depois, Bakhita foi batizada e expressou seu desejo de ingressar na vida religiosa. Em 8 de dezembro de 1896, aos 27 anos, ela professou seus votos religiosos nas Filhas da Caridade de Canossa.

A vida de Santa Josefina Bakhita é um testemunho de resiliência, fé e transformação. O início da sua vida, marcado pela escravidão, culminou em uma liberdade que não foi apenas física, mas profundamente espiritual, encontrada no amor de Deus e no serviço aos outros.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/da-escravidao-ao-altar-santa-josefina-bakhita.html

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Discrição: uma virtude esquecida?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Marzena Devoud


Num mundo movido pelas redes sociais, tudo nos impulsiona ao exibicionismo e à superexposição até das nossas oscilações de humor e dos nossos pensamentos mais secretos, e sempre na velocidade do tempo real. Mesmo assim, neste mesmo mundo, existem pessoas que sabem ser discretas. São pessoas que ainda observam o mundo com discernimento e autocontrole.

Acontece que viver esta virtude da discrição nem sempre é fácil. De fato, quem não quer se destacar na multidão hoje em dia acaba sendo visto como ‘suspeito’.

‘É exatamente isso que eu vivo no meu trabalho’, conta Magali, 33, designer gráfica. Reservada por natureza, ela prefere não chamar a atenção da sua equipe. ‘Minhas roupas são tradicionais e meu jeito de falar é decididamente discreto. Eu também tenho regras de cortesia. Falar ou interromper a outra pessoa para colocar os holofotes sobre mim e ‘me vender’ me deixa horrorizada! E, sim, muita gente me acha antiquada’.

Aparentemente, não há nada mais ultrapassado que a discrição. Mas que tal se manter-se discreto e reservado e ficar quieto para dar espaço aos outros for uma experiência de alegria e de preciosa paz interior? A discrição e a humildade podem ser traços de caráter que nos surgem naturalmente, ou expressões de fidelidade aos valores da ‘boa educação’ que exigem moderação tanto nas atitudes quanto nas aparências. Mas também pode ser a obra ativa do Espírito Santo.

Para o pe. Raphaël Buyse, a discrição é uma virtude específica que exercemos na nossa relação com os outros e que exprime ‘o respeito amoroso por cada ser humano, começando pelos mais próximos e pelos mais fracos’. É um ‘olhar atento, capaz de discernir em detalhe as necessidades profundas, que podem ser muito sutis, daqueles que nos rodeiam. Uma virtude moderadora que dá nuances e equilíbrio à vida e a penetra com uma delicadeza misteriosa’, escreve ele, esboçando o retrato de um grande monge beneditino, o belga Frederic Debuyst (1922-2017).

Debuyst, o fundador do mosteiro de Saint-André de Clerlande, em Ottignies-Louvain-la-Neuve, na Bélgica, era um homem de grande gentileza, modesto, e, para muitos, um mestre na arte da discrição. Era obra do Espírito do Senhor. ‘A sua vida mostrou, sem grandes discursos, que o seguimento de Cristo nunca deve ser feito com esforços violentos ou sobressaltos exuberantes, mas com muita paciência na vida quotidiana, num ritmo regular de oração e trabalho, na capacidade de suportar as próprias deficiências e as dos outros’, escreve o pe. Raphaël Buyse.

A discrição, então, é o Espírito de sabedoria que nos inspira a passar preferencialmente do ‘respeito pelos mais dignos’ ao ‘respeito pelos mais fracos’. É o bem que ‘fala pouco, não se apresenta, não se difunde nas organizações e nas estatísticas’, continua.

Portanto, antes de entrarmos nas redes sociais para compartilhar as nossas ‘selfies’, buscar ‘curtidas’ e seguidores e participar do exibicionismo generalizado da nossa época, talvez devêssemos nos perguntar se estamos sendo seduzidos pelo narcisismo e pelo orgulho, em vez de praticar um nível saudável de discrição que nos permita focar nos outros. Isto exige sacrifício e verdadeira caridade.

A virtude evangélica da discrição, em suma, é caminho para a conversão do coração e para o renascimento no Espírito, como Jesus revelou a Nicodemos : ‘Faze isto e viverás’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/05/02/discricao-uma-virtude-esquecida/


domingo, 29 de janeiro de 2023

Ser missionário em Taiwan

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Eduardo Revolledo Villanueva,

Missionário Comboniano


Para falar da minha vocação, tenho de recordar a minha experiência na paróquia comboniana Cristo Missionário del Padre, situada na periferia de Lima, no Peru.  Desde criança e adolescente participei com grande entusiasmo nos grupos de acólitos, liturgia, catequese e jovens. Sinto que a minha vocação para a vida religiosa missionária nasceu do contacto que tive com os combonianos que lá conheci. Marcou-me muito o seu testemunho de vida e, sobretudo, a proximidade com as pessoas. Eram sacerdotes «com cheiro de ovelha», como diz o Papa Francisco. Serviam com muita dedicação o povo simples e pobre, esforçando-se para ser sinal de um Deus próximo. Foi isso que me chamou a atenção e me motivou a querer ser missionário.

Caminho formativo

Animado pelo testemunho dos combonianos, comecei um caminho de discernimento mais aprofundado para poder descobrir o que Deus queria para mim. Com muitos medos e dúvidas, mas com a convicção de que Deus me acompanharia, no ano de 2008 ingressei no postulantado dos Missionários Combonianos, naquela que é a primeira etapa de formação para a vida religiosa, e iniciei os estudos de Filosofia. Foi uma experiência muito positiva e pude partilhar as minhas inquietações vocacionais com jovens peruanos e chilenos que tinham o mesmo ideal e queriam ser missionários ao estilo de São Daniel Comboni.

Depois fui para o México por quase dois anos para continuar o meu processo de formação. Foi a primeira vez que saí do meu país e tive uma experiência internacional. Nesse período, reafirmei o meu desejo de seguir Jesus Cristo e dedicar a minha vida à missão segundo o carisma dos Missionários Combonianos. Por isso, em 2014 fiz os primeiros votos religiosos. Para realizar os estudos teológicos, os meus superiores destinaram-me ao Quênia. Estive nesse país da África Oriental por quase quatro anos e a experiência que fiz ficou marcada no meu coração.

Ir para outro continente e aprender novos idiomas foi, sem dúvida, um grande desafio para mim. Como missionário, foi necessário abrir a mente e o coração, afiançar a vontade e a determinação de aprender com as pessoas, conhecer a sua cultura e os seus costumes. A partilha quotidiana com os Quenianos ajudou-me a confirmar a minha vocação para a vida religiosa missionária.

Depois de terminar os meus estudos no Quénia, fui destinado à Ásia. Passei o primeiro ano no Vietname a estudar a língua e, em seguida, vim para Taiwan para aprender chinês. Foi ali que entreguei a minha vida para a missão, com a consagração perpétua a Deus e ordenação diaconal na paróquia comboniana que servimos nos arredores de Taipei. Posteriormente, regressei ao Peru, onde fui ordenado sacerdote para o serviço do povo de Deus.

Missão em Taipei

Atualmente, sirvo como pároco numa paróquia da periferia da cidade onde vivem os combonianos em Taipei (Taiwan). A paróquia é pequena, pois a percentagem de católicos na região é baixa, no entanto, a comunidade cristã é viva e muito entusiasta na expressão da sua fé. A paróquia é muito peculiar, pois acolhe imigrantes vietnamitas e pessoas provenientes da China continental, de Hong Kong e Taiwan. É um verdadeiro lugar multicultural, em que a fé é o ponto de encontro e união. Na paróquia realizamos diversas tarefas pastorais, nomeadamente o acompanhamento de grupos de crianças e adolescentes, o atendimento de migrantes, a pastoral indígena, a visita a famílias, os cursos bíblicos.

Todavia, porque a nossa paróquia está junto de uma casa para doentes de lepra, oferecemos o nosso serviço como voluntários e cuidamos deles com muito carinho, apesar de a maioria deles não ser cristã. É uma bela oportunidade para o encontro inter-religioso e o diálogo com os nossos irmãos budistas e taoistas.

Normalmente, tendemos a pensar que os missionários são os que ensinam as pessoas sobre Deus. Não obstante, considerando a minha curta experiência no Vietname e em Taiwan, acho que é o oposto. São as pessoas que encontro que, na sua simplicidade, me revelam o rosto misericordioso de Deus. Na verdade, são elas que me ensinam a ser um pároco missionário, incentivando-me a ser uma pessoa próxima, com disponibilidade para aprender dia a dia com elas, que comigo partilham a sua cultura, a sua fé e a sua experiência com o nosso Deus, que é amor e está presente nos seus corações.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/860/ser-missionario-em-taiwan/

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Sessenta bispos do Brasil escrevem carta contra Bolsonaro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

 

‘A uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, que acontece no próximo domingo, dia 30, parte da hierarquia católica resolveu se manifestar. Dessa vez, para se declararem publicamente contra o atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Os prelados dizem que a motivação para a publicação do documento ‘está na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz’. Os bispos refutam as práticas adotadas por Bolsonaro, mostrando que a postura do atual mandatário da República não condiz com os 10 mandamentos bíblicos.

Por medo de represálias por parte dos apoiadores do candidato à reeleição, os bispos resolveram não assinar o texto. Portanto, é um documento original, mas redigido de maneira anônima.

Nossa equipe de reportagem teve acesso à carta por meio de um dos bispos redatores, que não quis se identificar, haja vista a onda de violência que tem se registrado em alguns lugares do Brasil durante missas e eventos religiosos. Eles têm medo de que, em suas dioceses, os fundamentalistas atentem contra sua integridade física.

‘Não cabe neutralidade quando se trata de decidir entre dois projetos de Brasil : um democrático e outro autoritário’, enfatizam.

Sem usar meias palavras, os bispos também rechaçam o terrorismo eleitoral praticado por centros culturais, padres e influencers católicos contra os eleitores que não apoiam o atual governo.

‘O chefe do governo e seus apoiadores, principalmente políticos e religiosos, abusaram do nome de Deus para legitimar seus atos e ainda o usam para fins eleitorais. O uso do nome de Deus em vão é desrespeito do segundo mandamento’, completam.

O slogan da campanha de Bolsonaro, usado pelo presidente em 2018, também foi criticado pelo grupo de prelados.

‘Enquanto dizia ‘Deus acima de tudo’, o presidente ofendia mulheres, debochava de pessoas que morriam asfixiadas, além de não demonstrar compaixão alguma com as quase 700 mil vidas perdidas para a Covid-19 e com as 33 milhões de pessoas famintas em seu país.

A política do armamento, também defendida pelo atual governo, também foi mencionada na carta.

‘Os discursos e medidas que visam armar todas as pessoas e eliminar os opositores estão em contradição com o 5 mandamento, que diz ‘não matarás’, quanto com a Doutrina Social da Igreja, que propõe o desarmamento e diz que ‘o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz’ (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508).

Os autores do documento, que se apresentam como ‘bispos do diálogo pelo Reino’, encerram lançando um apelo ao povo brasileiro, e explicando que não se trata, dada a urgência da situação, de abraçar um projeto político, mas de uma escolha ética.

‘A Igreja não tem partido, nem nunca terá, porém ela tem um lado, e sempre terá : o lado da justiça e da paz, da verdade e da solidariedade, do amor e da igualdade, da liberdade religiosa e do Estado Laico, da inclusão social e do bem viver para todos. [...] Nossa motivação é ética e não decorre do seguimento de um líder político, nem de preferências pessoais, mas vem da fidelidade ao Evangelho de Jesus’, concluem.

Veja a carta completa  :

A GRAVIDADE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES 2022

Irmãos e irmãs,

Somos bispos da Igreja Católica de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em plena comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB que, no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Lideramos a escrita de uma primeira Carta ao Povo de Deus, em julho de 2020. Diante da gravidade do momento atual, nos dirigimos novamente a vocês.

O segundo turno das eleições presidenciais de 2022 nos coloca diante de um dramático desafio. Devemos escolher, de maneira consciente e serena, pois não cabe neutralidade quando se trata de decidir sobre dois projetos de Brasil, um democrático e outro autoritário; um comprometido com a defesa da vida, a partir dos empobrecidos, outro comprometido com a ‘economia que mata’ (Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, 53); um que cuida da educação, saúde, trabalho, alimentação, cultura, outro que menospreza as políticas públicas, porque despreza os pobres. Os dois candidatos já governaram o Brasil e deram resultados diferentes para o povo e para a natureza, os quais podemos analisar.

Iluminados pelas exigências sociais e políticas de nossa fé cristã e da Doutrina Social da Igreja Católica, precisamos falar de forma clara e direta sobre o que realmente está em jogo neste momento. Jesus nos mandou ser ‘luz do mundo’ e a luz não deve ficar escondida (Mt 5,15).

Somos testemunhas de que o atual Governo, que busca a reeleição, virou as costas para a população mais carente, principalmente no tempo da pandemia. Apenas às vésperas da eleição, lançou um programa temporário de auxílio aos necessitados. A 59ª Assembleia Geral da CNBB constatou ‘os alarmantes descuidos com a Terra, a violência latente, explícita e crescente, potencializada pela flexibilização da posse e porte de armas […]. Entre outros aspectos destes tempos, estão o desemprego e a falta de acesso à educação de qualidade para todos. A fome é certamente o mais cruel e criminoso deles, pois a alimentação é um direito inalienável’ (Mensagem da CNBB ao Povo Brasileiro sobre o Momento Atual). A vida não é prioridade para este governo.

O chefe de Governo e seus apoiadores, principalmente políticos e religiosos, abusaram do nome de Deus para legitimar seus atos e ainda o usam para fins eleitorais. O uso do nome de Deus em vão é um desrespeito ao 2º mandamento. O abuso da religião para fins eleitoreiros foi condenado em nota oficial da presidência da CNBB (11/10/2022), para a qual ‘a manipulação religiosa sempre desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados em nosso Brasil’.

Enquanto dizia ‘Deus acima de tudo’, o Presidente ofendia as mulheres, debochava de pessoas que morriam asfixiadas, além de não demonstrar compaixão alguma com as quase 700 mil vidas perdidas para a covid-19 e com os 33 milhões de pessoas famintas em seu país. Lembramos que o Brasil havia saído do mapa da fome em 2014, por acerto dos programas sociais de governos anteriores. Na prática, esse apelo a Deus é mentiroso, pois não cumpre o que Jesus apresentou como o maior dos mandamentos : amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22, 37). Quem diz que ama a Deus, mas odeia o seu irmão é ‘mentiroso’ (1Jo 4,20).

Os discursos e as medidas que visam armar todas as pessoas e eliminar os opositores estão em contradição tanto com o 5º mandamento, que diz ‘não matarás’, quanto com a Doutrina Social da Igreja, que propõe o desarmamento e diz que ‘o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz’ (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508).

Vivemos quatro anos sob o reinado da mentira, do sigilo e das informações falsas. As fake news (notícias falsas veiculadas como se fossem verdades) se tornaram a forma ‘oficial’ de comunicação do Governo com o povo. Isso fere o 8º mandamento, de não levantar falso testemunho, mas mostra também quem é o verdadeiro ‘senhor’ dos que, perversamente, se dedicam a espalhar falsidades e ocultar informações de interesse público. Jesus diz que o Diabo é o pai da mentira (Jo 8, 44), enquanto Ele é o ‘caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14,6).

Mensagem ao Povo Brasileiro, da 59ª Assembleia Geral da CNBB, alertou-nos, também, de que ‘nossa jovem democracia precisa ser protegida, por meio de amplo pacto nacional’. No entanto, o atual governo e os parlamentares que o apoiam ameaçam modificar a composição do Supremo Tribunal Federal para criar uma maioria de apoio aos seus atos. O controle dos poderes Legislativo e Judiciário sempre foi o passo determinante para a implantação das ditaturas no mundo.

Os cristãos têm capacidade para analisar qual dos dois projetos em disputa está mais próximo dos princípios humanistas e da ecologia integral. Basta analisar com dados e números e perguntar : qual dos candidatos concorrentes valorizou mais a saúde, a educação e a superação da pobreza e da miséria e qual retirou verbas do SUS, da educação e acabou com programas sociais? Quem cuidou da natureza, principalmente, da Amazônia e quem incentivou a queima das florestas, o tráfico ilegal de madeiras e o garimpo em terras indígenas?

Não se trata de uma disputa religiosa, nem de mera opção partidária e, tampouco, de escolher o candidato perfeito, mas de uma decisão sobre o futuro de nosso país, da democracia e do povo. A Igreja não tem partido, nem nunca terá, porém ela tem lado, e sempre terá : o lado da justiça e da paz, da verdade e da solidariedade, do amor e da igualdade, da liberdade religiosa e do Estado laico, da inclusão social e do bem viver para todos. Por isso, seus ministros não podem deixar de se posicionar, quando se trata de defender a vida do ser humano e da natureza. Nossa motivação é ética e não decorre do seguimento de um líder político, nem de preferências pessoais, mas vem da fidelidade ao Evangelho de Jesus, à Doutrina Social da Igreja e ao magistério profético do Papa Francisco.

Deus abençoe o povo brasileiro e o Espírito Santo de sabedoria e verdade ilumine nossas mentes e corações, na hora de votarmos nesse segundo turno das eleições de 2022. Vejamos Jesus no rosto de cada pessoa, especialmente dos pobres que sofrem e não em autoridades humanas que os manipulam em nome de um projeto ideológico de poder político e econômico.

 

Em 24 de outubro de 2022, Memória de Santo Antônio Maria Claret, bispo.

 

Bispos do Diálogo pelo Reino

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1591954