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domingo, 14 de janeiro de 2024

Amós, o justo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Nilton Cesar Boni, cmf


Sobre as origens do profeta Amós, temos poucos dados. Ele representa o mais antigo profetismo escriturístico. Nasceu em Tegoa (cidade localizada a dezessete quilômetros ao sul de Jerusalém) e apresentou-se no reino do norte (Samaria) em 760 a.C. como profeta do juízo. Em seu livro ele aparece como sendo homem do campo, lavrador. Diz-se que era pastor, mas, isso não pode ser entendido como sua profissão e sim no sentido de salvação e libertação do seu povo, ao estilo de Moisés e Davi, pois sua participação profética se dá a partir do chamado a obedecer a Deus (cf. Am 7,14-15).

Nessa época, o reino de Israel encontrava-se economicamente em ascendência, contudo, a hipocrisia religiosa, o luxo e a perversão sexual tomaram conta da sociedade, destruindo moralmente as consciências. Embora o povo se sentisse religioso e fizesse peregrinações aos santuários, os excessos de promiscuidade eram evidentes. Amós anuncia a ruína desse estilo de vida desmascarando a segurança dos israelitas e a queda do reino do norte (cf. Am 7,7-8).

No entanto, nesse horizonte ameaçador aparece uma pequena luz consoladora. Acontecerá uma mudança drástica, mas o Senhor não os abandonará e manterá a aliança feita com os antepassados. A esperança está numa mudança sincera de vida por meio da penitência. A glória de Israel virá com o Messias prometido da descendência de Davi.

A mensagem de Amós é bem clara: de esperança e perdão para que se restabeleçam os princípios morais de Javé. Os sinais que acompanham esse desejo de mudança estão na natureza e nos acontecimentos históricos, isto é, o Senhor dá sinais para retomarem o caminho correto.

Amós representa um novo jeito de ser profeta, centrado na justiça social baseada na solidariedade com os oprimidos e pisados pelo sistema dominante vigente. Dentro de um povo dominado pela violência, manipulado pela idolatria, tendo a vida assaltada pelo sofrimento, resta ao profeta levantar sua voz contra tudo aquilo que fere a dignidade humana. Foi ameaçado, perseguido, insultado e perseverou na luta por Deus.

Com ele aprendemos a ser perseverantes e nunca nos vender aos sistemas que exploram e nos afastam da graça de Deus. A verdade deve reinar em nossas condutas para que a beleza da Palavra de Deus resplandeça com fervor sobre aqueles que ainda vivem na cegueira da ganância e do egoísmo. Essa é a vocação do profeta : sacudir a consciência dos que se acomodaram e compactuam com a cultura da conformidade e da indiferença. Os profetas não vieram para agradar e falar coisas bonitas, mas, para nos ensinar a viver com fidelidade à missão que Deus nos reservou.

‘A verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da escuta diligente da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história. O profeta sente arder no coração a paixão pela santidade de Deus e, depois de ter acolhido a Palavra no diálogo da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e com os gestos, fazendo-se porta-voz de Deus contra o mal e o pecado.’ (São João Paulo II)

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/amos-o-justo.html


sábado, 1 de julho de 2023

Lutar pela justiça, com realismo e esperança

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


A sabedoria judaico-cristã sempre nos exortou a confiar na justiça de Deus, mas se manteve reticente quanto à justiça humana. Além das limitações inerentes à condição humana, alguns povos têm sistemas jurídicos e legislações mais eficientes, que conferem mais segurança aos cidadãos, enquanto outros têm sistemas menos eficientes, que levam à insegurança social. Infelizmente, o Brasil, na percepção da maioria de seus cidadãos, se aproxima muito mais do segundo caso que do primeiro.

Em 2019, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP), a taxa média de resolução de roubos (casos em que houve identificação e punição dos culpados) foi cerca de 8%; para os casos de assassinato, 22%. Ainda para 2019, o tempo médio de uma cobrança judicial, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), era de 8 anos. É forçoso reconhecer que números como esses não transmitem segurança à população.

A situação tende a ficar mais escandalosa quando se trata da aplicação da justiça contra as ilegalidades cometidas pelos poderosos. Os que anteontem se pronunciavam contra a corrupção, ontem foram condenados por corrupção e hoje estão sendo inocentados. Empresários ricos e políticos cumprem pena em prisão domiciliar, cercados de mordomias, enquanto jovens pobres se espremem em cadeias que são mais escolas de criminalidade do que espaços de ressocialização. A truculência se volta seletivamente contra quem está numa situação fragilizada, enquanto quem está no poder se vale de supostos direitos para não ser condenado. Enquanto o governo procura reduzir isenções fiscais e sonegação, partidos políticos negociam no Congresso uma anistia milionária das próprias multas.

Não faltam motivos para indignação – mas ela, por si só, não é uma postura plenamente cristã. Sem compromisso, engajamento e esperança, a indignação nos deixa deprimidos, ansiosos e/ou raivosos – posturas essas que não condizem com um modo de ser cristãos. Ah! E não podemos esquecer da inteligência e do discernimento. O Evangelho nos recomenda sermos cautelosos, astutos, como as serpentes e simples, mansos, como as pombas (Mt 10, 16), mas frequentemente nos tornamos – por conta da indignação raivosa – agressivos como serpentes e ingênuos como pombas.

Paciência e esperança

O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (EG) lembra que o tempo no qual se desenvolvem os processos é superior ao espaço limitado pelos condicionamentos da conjuntura (cf. EG 222-225). Mesmo que as coisas não aconteçam como gostaríamos hoje, elas irão mudar em função dos processos virtuosos que começamos ou mantivemos hoje. Na Fratelli tutti (FT), por sua vez, lembrará que nem sempre é possível obter grandes resultados, mas o amor e a fecundidade que acompanham as sementes de bem plantadas hoje já são por si só uma primeira recompensa que recebemos pelo nosso esforço (FT 193-197).

Lutar por um mundo melhor e mais justo exige paciência, pois os frutos desejados nem sempre são colhidos. Mas ver a árvore do bem crescer já traz satisfação e nos aproxima mais do coração de Deus. A esperança cristã não é um pensamento positivo ilusório, mas a confiança que brota da contemplação dessas pequenas plantas de bem que vão nascendo e crescendo entre nós. Ainda nas palavras de Francisco, ‘Que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança. Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a oferecer-Lhe tudo, também nos dá as forças e a luz de que necessitamos para prosseguir’ (Laudato si’, LS 244-245).

Olhar para as sementes da esperança

Há alguns anos, os brasileiros depositaram grande esperança na judicialização da política – e a Lava Jato foi o símbolo mais clamoroso dessa esperança. Uma avaliação de seus resultados, pelo menos na atualidade, depende da posição do avaliador no espectro político. Contudo, por mais negativa que seja a avaliação, não é possível negar que trouxe à luz casos concretos de corrupção estatal; assim como, por mais positiva que seja tal avaliação, não é possível negar a partidarização que sofreu e os retrocessos que aconteceram em suas decisões e em sua forma de atuar.

O cristianismo não crê numa justiça sustentada pelo punitivismo e pelo legalismo. A investigação criteriosa e a aplicação de penas cabíveis são instrumentos indispensáveis à justiça. Mas não bastam. Numa visão integral, precisam ser acompanhados de ações restaurativas, que procuram eliminar ou minimizar as consequências do mal cometido, bem como por processos que levem à construção de uma nova ordem social, mais justa e fraterna.

Nesse sentido, cada um de nós é chamado a lutar e a depositar suas esperanças no fortalecimento das organizações sociais e de sua capacidade de acompanhar e monitorar as ações do governo; na formação de novos quadros partidários, com políticos cada vez mais comprometidos com o bem comum e menos envolvidos em negociatas e acordos questionáveis; nos processos de aperfeiçoamentos das estruturas do Estado, que caminham muito mais lentamente do que gostaríamos, mas não deixam de mudar ao longo do tempo.

Não à impunidade e à conivência

Não deve haver complacência com a impunidade. O perdão, ainda que necessário para a boa aplicação da justiça, pressupõe o arrependimento e o esforço para reparar os males cometidos. Sem esse arrependimento e esse esforço pelo bem, o perdão corre o risco de tornar-se ocasião de impunidade e injustiça (cf. FT 250-254).

Não podemos deixar de nos indignarmos com o mal, sob o risco de nos tornarmos acomodados e coniventes. ‘Como é perigoso e prejudicial este habituar-se que nos leva a perder a maravilha, a fascinação, o entusiasmo de viver o Evangelho da fraternidade e da justiça!’, diz o Papa Francisco (EG 179).

Contudo, são os olhos habituados pelo discernimento cristão, que veem os sinais de Seu amor mesmo em meio às mazelas do mundo, que podem nos permitir ver a injustiça e lutar pelo bem comum sem perder a alegria e a esperança.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/05/21/lutar-pela-justica-com-realismo-e-esperanca/

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Bento XVI: "Tudo se desmorona se falta a verdade"

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Élio Gasda


O Papa mais longevo da história da Igreja renunciou em 2013 alegando ‘incapacidade de administrar bem o ministério’. Como bispo emérito da Diocese de Roma, viveu seus últimos dias em um mosteiro, onde faleceu em 31 de dezembro de 2022. O último pontífice a renunciar foi Gregório XII, em 1415.

Para Bento XVI, ‘no mundo atual, omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo demasiado grande para o homem’ por isso seu lema : Colaborador da Verdade. 

Foram três encíclicas : Deus Caritas Est, Spe salvi. Caritas in Veritate (CV) é sua encíclica social sobre o ‘desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade’. Foi publicada em 2009, com dois anos de atraso, devido à crise econômica que explodiu em 2007. A mais grave desde 1929, começou nos Estados Unidos e se alastrou pelo mundo, derrubou governos, gerou elevadas taxas de desemprego, aumento dos preços e a fome em todo planeta. ‘A fome ceifa a vida de muitíssimos Lázaros impedidos de sentar-se à mesa… do rico epulão’ (CV 27). A reforma agrária, o acesso à alimentação e à água como direitos universais de todos os seres humanos sem distinção ou discriminações são urgências (CV 27). Em pleno século XXI, ‘dar de comer aos famintos é um imperativo ético de Jesus. Eliminar a fome tornou-se um objetivo para paz e a vida na terra’ (CV 27).

Caritas in Veritate, dividida em sete capítulos e conclusão, recebeu muitas reações. Esquerdista! Socialista! Bradaram os capitalistas neoliberais. Será que realmente leram o texto de quase 130 páginas contendo 159 notas, escrito em latim por um teólogo alemão?

Ratzinger reserva o primeiro capítulo da CV à releitura da Populorum Progressio (PP) de Paulo VI. Escrita em 1967, é uma profunda reflexão sobre o desenvolvimento humano. ‘Deesenvolvimento não se reduz a simples crescimento econômico. O desenvolvimento somente é moral quando promove a todas as pessoas’ (PP 14). Para que os seres humanos possam ser cada mais humanos é preciso passar de ‘condições de vida menos humanas a condições de vida mais humanas’ (PP 20).

Como teólogo, Bento XVI foi ao essencial da fé : ‘A experiência de Deus leva a reconhecer no outro a imagem divina e a viver um amor que se torna cuidado do outro e pelo outro’ (CV 11). ‘Amor eterno e Verdade absoluta - constituem ‘a principal força propulsora para o autêntico desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade’ (CV 1). Esta vinculação desautoriza o assistencialismo descomprometido que não transforma a realidade (CV 4). A Caridade informada pela Verdade será sempre libertadora (CV 5).

A Verdade tem seu maior inimigo na mentira. Se verdade é o caminho da vida, a mentira leva à morte. O principal confronto de Jesus é com a mentira que mata (Jo 8,44-45). Matar a verdade leva a matar seres humanos (Jo 19,5). É preciso denunciar as políticas, as ideologias e os sistemas alicerçados na mentira.

A Doutrina Social da Igreja é expressão do amor ao próximo vinculado à Verdade (CV 2). Amor, Verdade e Justiça constituem uma unidade em Deus. A caridade exige a justiça : ‘O amor - caritas - é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz (CV 1). O amor ganha forma operativa na justiça como critério orientador da ação política que busca o bem comum (CV 6).

Toda a sociedade deve estar fundada no direito e na justiça. A justiça é medida e virtude que deve orientar a vida social e política. Sua concreção em estruturas sociais e estatais é competência da política. Mas cabe aos cristãos contribuir na formação da consciência ética fundada na justiça (CV 7). Querer o bem comum e trabalhar por ele é uma exigência de justiça e de caridade. Isso implica ‘valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade’ (CV 7).

Toda pessoa é chamada a entrar em comunhão fraterna na sociedade civil, na economia e na política (CV 2). Tolerar a injustiça é tolerar o sofrimento humano. O dever moral para com os que sofrem é dever de justiça.

Bento XVI confirma a Igreja como advogada da justiça e defensora dos Lázaros que morrem de fome às portas dos ricos (CV 27). A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica (Bento XVI).

‘Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa’ (CV 1). Dar de comer a quem tem fome é revelar o rosto da Verdade que liberta!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598952

domingo, 6 de novembro de 2022

Poder, justiça e paz

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


Os cristãos sabem que o exercício do poder somente tem sentido autêntico, coerente com a sua fé, na medida em que representa um serviço ao bem comum. Jesus, Mestre e Senhor, ajuda a humanidade a alcançar a compreensão de que poder e serviço são indissociáveis quando proclama que veio para servir - e não ser servido. O adequado exercício do poder não se relaciona à conquista de espaços para obter favorecimentos de qualquer tipo. Menos ainda quando esses favorecimentos levam à manipulação de interesses que comprometem os direitos de todos, prejudicando, especialmente, os mais pobres. Assim, compreende-se que uma grande tarefa dos cristãos na contemporaneidade é capacitar-se sempre, e cada vez mais, para a experiência da reconciliação, compreendendo o poder como serviço, e não motivo para disputas insanas. Não se orientar, simplesmente, por ideologias e interesses, pois muitos estão na contramão do respeito à vida plena, em todas as suas etapas. E não basta defender uma parte dos valores cristãos. É dever missionário defender todo o conjunto de princípios que se alicerçam nos ensinamentos de Jesus. Isto se faz em fidelidade a Cristo Mestre e Senhor, aquele que não pode ser substituído, em hipótese alguma, por outra pessoa qualquer.

Preocupante nesse sentido é o crescimento de um cristianismo torto no Brasil, apontando graves comprometimentos civilizatórios. É preciso estar atento às crescentes estratégias de manipulação que promovem a mistura entre fé, política e religião, obscurecendo e confundindo mentes, esvaziando as possibilidades reais de uma nova configuração social que favoreça a justiça e a paz. Nessa direção, deve-se refletir e ponderar sabiamente, para ter clareza de que seres humanos, no exercício do poder, não são deuses, para se evitar a idolatria de indivíduos. Ao invés disso, se reconheça a responsabilidade conjunta de todos os cidadãos na (re)construção da sociedade, nos trilhos da justiça e da paz. As eleições são importantes, essenciais na configuração da democracia, mas não esgotam a responsabilidade de cada cidadão. Todos precisam seguir irmanados na permanente tarefa de edificar uma sociedade melhor, o que inclui promover todo o conjunto dos valores cristãos.

Precisam, pois, ser enfrentadas, com reações cabíveis, sobretudo com a força de autênticos testemunhos cristãos, as manipulações da fé, para que o Evangelho, com a sua força transformadora, inspire a promoção da justiça e da paz. Não se pode ‘esvaziar’ a espiritualidade cristã e o seu testemunho, sob o risco de escolhas e posturas que não dão conta de configurar um qualificado tecido social. Não se deve, pois, seguir apenas alguns valores e princípios cristãos, mas pautar-se por todo o conjunto de valores e princípios sustentados pelo Evangelho. O amplo respeito a esse conjunto precisa, especialmente, ser vivido pelos cristãos, que caminham no horizonte do Reino de Deus, conscientes de que aqui não há uma cidade permanente - todos buscam aquela cidade que há de vir, cumprindo a insubstituível tarefa de fermentar o mundo com o sabor do Evangelho. Essa consciência não permite aos discípulos e discípulas, nos processos políticos de definição sobre o exercício do poder, se enjaularem na parcialidade que prejudica a justiça e a paz.

É preciso cuidado para evitar escolhas que atrasem os processos de desenvolvimento integral impondo pesados fardos sobre os mais pobres. Ajuda nesse cuidado meditar sobre a lúcida observação do Papa emérito Bento XVI, em reflexão sobre a procura da paz. Bento XVI, ao focalizar o Estado de direito, alerta sobre o risco de um poder exercido pela força da destruição dos próprios direitos. Isto significa, conforme explica o Papa emérito, uma perversão enraizada nas instituições que deveriam servir à justiça, mas que, simultaneamente, consolidam o domínio da iniquidade, propriamente o domínio da mentira, com força de obscurecer as consciências. Observe-se a importância desta tarefa missionária dos cristãos : ter lucidez necessária para escolher, no seu direito cidadão, a partir do voto, não simplesmente um indivíduo para o exercício do poder, mas um conjunto de pautas com força civilizatória competente na efetivação da justiça e da paz

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1592781

quarta-feira, 6 de julho de 2022

A justiça de Deus: algo inaceitável para muitas pessoas

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘O tema da justiça já é discutido há muitos séculos. São conhecidos os grandes textos dos filósofos gregos que tratam sobre essa temática, bem como toda uma discussão trazida pelo próprio texto bíblico, seja no Antigo Testamento, seja no Novo Testamento.

Algo que se mostra característico nos textos do Antigo Testamento é a íntima ligação que havia entre a justiça e a misericórdia, de maneira que ambas deveriam ser pensadas juntas, jamais separadas. Ser justo, nesse sentido, como nos mostra Arminio Vaz em seu artigo2, envolve uma ação concreta, direcionada ao próximo, visando o seu bem, o que claramente está para muito além de um mero cumprimento de preceitos legais.

Essa justiça, claramente, não é algo que somente se fala sobre, antes, algo que se pratica. Os Salmos, como nos mostra Armindo Vaz no mesmo artigo citado acima, ‘sobressai em toda Bíblia hebraica pela frequência com que relaciona a justiça com os pobres (139 vezes), além da ideia de ordem a justiça, contém geralmente um aspecto dinâmico : indica uma ação que se conforma à ordem estabelecida, seja dando ao outro o que lhe corresponde, seja restaurando-o na sua devida dignidade. Neste sentido, a justiça não estava já feita : era realizada por ação divina e por comportamento humano’.

Novamente, o que se ressalta não é uma justiça condenatória e que contabiliza erros e acertos, antes uma justiça que demanda mudanças sociais concretas, que visam o bem de todas as pessoas, principalmente dos pobres.

Quando passamos para o Novo Testamento, é muito conhecido o texto de Paulo que fala que ‘aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós para que nele fôssemos feitos justiça de Deus’ (2 Coríntios 5:21), o que por si só já deveria nos dar uma ideia de que o que Paulo coloca aqui vai na contramão da ideia de que a justiça se dá a partir da antiga lei de Talião (quem matou deve morrer, quem feriu deve ser ferido etc.).

Muito pelo contrário, em paralelo àquilo que o Antigo Testamento fala sobre a justiça (sempre importante nos lembrarmos de que Paulo é um judeu e, portanto, mesmo escrevendo em grego, muito possivelmente pensa com as categorias judaicas de sua criação), Deus, em Cristo, revela sua misericórdia salvadora, de maneira que a partir da morte e ressurreição de Cristo, tendo-nos encontrado com Ele, passamos a ser também agentes da misericórdia de Deus no mundo. Se em Cristo fomos feitos justiça de Deus e se a justiça pressupõe a misericórdia, a salvação e o bem ativo na direção do próximo, então somos convidados e convidadas a nos tornarmos pessoas que tenham esse tipo de atitude no mundo em que vivemos.

Hoje em dia é muito comum vermos pessoas que se dizem cristãs querendo projetar o conceito de justiça humana para Deus. Em outras palavras, acha-se um absurdo que pecadores e pecadoras sejam salvos pela graça, sem precisar ‘pagar’ nada por isso. Querem, contudo que essas pessoas sofram, vejam o quão ‘estreito’ é caminho que conduz à salvação, numa leitura totalmente fora daquela anunciada por Jesus.

Afinal, a justiça de Deus não é a justiça humana. A justiça divina, como compreendida no texto bíblico, é uma que salva, transforma, liberta, age com misericórdia, resgata da morte, restaura a dignidade, chama para o Reino de paz. Ou seja, é sempre uma justiça amorosa, não punitiva. Afinal, se afirmamos que Deus é amor, então não existe ‘Deus é amor, mas é justo’. Se compreendermos o que o texto bíblico afirma a respeito da justiça, então não deveríamos ter dificuldades em assumir que Deus é justo porque ama e ama porque é justo, estando os dois conceitos de amor e justiça intimamente conectados.

Mas dizer isso não implica desistir de requerer de Deus uma justiça como nós achamos que ela deve ser, o que para muitas pessoas que se dizem cristãs hoje pode ser um tremendo choque? Não se rompe, assim, com todo um ranking já criado de ‘justos’ e ‘injustos’, ‘dignos’ e ‘indignos’ da salvação?

Ora, é isso mesmo.

Bem-vindo e bem-vinda à maravilhosa e chocante graça de Deus’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1583311/2022/07/a-justica-de-deus-algo-inaceitavel-para-muitas-pessoas/

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A história do grande justo


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Fernando Domingues,
Missionário Comboniano


‘Estamos, talvez, no início do século V antes de Cristo. A história que encontramos no livro de Job interroga-nos acerca de um dos grandes mistérios da vida : por que sofre uma pessoa que é justa e que sempre fez o bem?

Essa pergunta não nos apoquenta só a nós, cristãos. É um mistério da vida que interroga todos, sejam eles de que religião forem, e mesmo quem não segue nenhuma crença religiosa.

Este livro da Bíblia está escrito de maneira bastante complexa, mas não vamos estudá-lo aqui. Indico só alguns elementos importantes que nos podem ajudar na nossa reflexão sobre a relação entre a nossa fé cristã e as outras religiões do mundo.

Em duas ou três pinceladas, a história de Job apresenta-o como um famoso homem bom e justo, que fazia em tudo a vontade de Deus, e Deus tinha-o premiado com saúde, uma família grande e muitas riquezas.

Depois aparece Deus, que faz uma reunião de todos os seus filhos celestes, entre os quais um que dá pelo nome de Satanás! E é este último que conta como, passeando pela terra, deu com este tal Job. E é o mesmo Satanás que desafia Deus : não admira que Job te seja fiel e viva uma vida santa; mas será que continuará a servir-te fielmente se vier a encontrar-se na pobreza, na solidão e na dor? Deus aceita o desafio, e as desgraças começam a cair sobre o grande justo : as suas riquezas ficam reduzidas a cinza, depois perde os filhos, um atrás do outro e, para cúmulo, apanha uma doença terrível que lhe cobre o corpo de chagas. Os amigos, e mesmo a esposa que desde sempre partilhava a sua vida feliz, tentam convencê-lo de que Deus o abandonou e que é melhor que também ele abandone Deus. Contra tudo e contra todos, no meio do seu sofrimento imenso, Job chega quase a insultar a Deus, mas decide finalmente que Deus é o Senhor de tudo, Deus sabe o que faz, e não toca a um homem julgar o criador que lhe deu a vida. A seu tempo, Deus recompensa Job pela sua fidelidade total mesmo na miséria, na solidão de quem perdeu a família, e na doença.

Numa época em que o povo de Israel enfrentava o desafio de continuar fiel à Aliança com Deus, mesmo no tempo de tremendas dificuldades no presente e das grandes incertezas do futuro, a história de Job renovou a fé e a esperança em muita gente.

Dizem-nos os estudiosos que o autor deste livro tinha viajado pelo Egito e outros países do Médio Oriente e por lá tinha escutado esta história do grande justo. De fato, antes de chegar a Israel, esta história pertencia à religião de um outro povo, mas Deus fez com que ela se tornasse Sua Palavra também para os membros do seu Povo Eleito. Deus usou um ‘pedaço de Escritura’ de uma outra tradição religiosa para ensinar alguma coisa de importante ao povo de Israel. Na Bíblia encontramos outros textos que também vieram ‘de fora’. Deus é o Deus de toda a humanidade e pode usar elementos do caminho religioso de um povo para servir de ensinamento a outro povo.

Também nós, como Job, o Grande Justo, precisamos de dizer «o homem não pode julgar a Deus seu Criador» e aceitar com alegria os dons que Deus nos envia, seja qual for a sua origem.


Fonte :

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Exceder a justiça dos escribas e fariseus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O que Jesus quer mostrar é que a justiça do Reino não se baseia no cumprimento de normas.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


Pois digo a vós que se não exceder de vós a justiça mais do que a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus. (Mt 5,20)


‘Esse versículo, que se encontra nos ditos chamados Sermão do Monte na narrativa evangélica de Mateus, se mostra extremamente interessante. Porém, para compreendê-lo é necessário ter em mente o contexto do que representava o farisaísmo na época de Jesus. Os fariseus, nesse período, eram os responsáveis por garantir que as leis de seu povo fossem seguidas por todo aquele que se dizia servo de Deus. Esse prestígio alcançado tem muito a ver com toda a luta em favor da ortodoxia judaica que se estabeleceu desde a época em que Israel foi dominado pelo Império Grego e que pode ser lido nos livros de I e II Macabeus. Os fariseus e seu amor pela Torá foram os grandes responsáveis pelo estabelecimento do Monoteísmo na sociedade de Israel, principalmente no período conturbado da perseguição Selêucida que ocorreu, aproximadamente, ente 170 – 160 a.C.

Com isso em mente, não é difícil entender o prestígio que gozavam entre a sociedade judaica no tempo de Jesus. Da mesma forma, eram exímios cumpridores da Lei de Moisés, de maneira que poderiam ser vistos pelo povo como exemplo de pessoas justas, ou seja, aquelas que andam de acordo com a Torá.

Diante disso, é importante entender que Jesus nunca foi contra os fariseus. Sua luta era contra os fariseus hipócritas, isto é, pessoas que impunham fardos pesados sobre os ombros das pessoas e não moviam um dedo para ajudar, como nos diz o texto de Mateus 23. Jesus via, sim, justiça nos fariseus e nos escribas e tinha por eles grande apreço, até porque discutia com eles em uma cultura que dizia que somente se discutia com quem se respeitasse. Dessa forma, o discurso de que Jesus era contra todos os fariseus e escribas não é verdadeiro.

Ao mesmo tempo, Jesus, ao dizer que a justiça de seus discípulos deve exceder em muito a desses escribas e fariseus poderia gerar, a princípio, certo desconcerto na mente dos que o ouviam. Como seria possível exceder a justiça daqueles que eram considerados como os mais fiéis seguidores da lei de Moisés?

O que Jesus quer mostrar é que a justiça do Reino não se baseia no cumprimento de normas pré-estabelecidas que devem ser seguidas à risca para se garantir alguma benevolência da parte de Deus. Afinal, esse era o intuito de vários fariseus. Por meio de sua justiça demonstrada no cumprimento da Lei esperavam alcançar o beneplácito divino e também ser reconhecido pela sociedade de seu tempo. Nesse sentido, por serem exímios cumpridores da Lei, vários se consideravam moralmente superiores aos outros e mais dignos da salvação do que os que não seguiam tão fielmente às instruções dadas a Moisés. Em outras palavras, era uma justiça que se baseava na Lei e que visava o reconhecimento por parte da sociedade.

O evangelista Mateus, ao dizer que a justiça que é esperada para a entrada no Reino é uma que exceda a dos escribas e fariseus, coloca-nos diante de uma verdade que Paulo já havia desenvolvido de que não é possível por meio do cumprimento da lei alcançar a graça divina. A justiça do Reino é uma justiça que se baseia somente na fé e, nesse sentido, há uma mudança na perspectiva de seu significado. Justo não é mais aquele/a que se adequa às normas, antes, aquele/a que se volta para Deus e tem sua vida transformada por meio desse encontro.

Assim, a justiça não é mais algo a ser graduado, conforme consolidado por todo um sistema farisaico do tempo de Jesus e, muitas vezes, vivo ainda hoje. Antes, em Jesus, se inaugura um novo tipo de justiça, que se mostra fruto de um relacionamento e de um encontro com o Pai.

            Diante disso, toda tentativa de estabelecer a entrada no Reino de Deus por meio de atos de justiça se torna sem sentido para a fé cristã. Muito pelo contrário, ao se reconhecer que a nossa justiça procede do amor de Deus que nos torna justos, é possível dizer que toda nossa boa obra deve ser um reflexo desse amor que nos alcançou em primeiro lugar, sendo somente assim o modo pelo qual nossa justiça excederá em muito a dos escribas e fariseus.’


Fonte :

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Não há paz sem justiça

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Esta é uma verdade que deve inspirar os horizontes do povo brasileiro na construção de uma nova ordem social, econômica e política para se alcançar a paz : não há paz sem justiça. Sem esse entendimento, haverá um recrudescimento das diferentes formas de violência. A sociedade se transformará em um campo de guerras, de todo tipo, corroendo, cada vez mais, as riquezas do tecido cultural e histórico que caracterizam o país. A nova ordem a ser buscada exige o fim da inaceitável situação de injustiça que se escancara na forma de desigualdades sociais, se desdobrando em miséria, desemprego e indiferença com os que sofrem.
Conviver com a desigualdade social e tantos outros males, que são frutos da injustiça, é particularmente vergonhoso para uma nação que tem ‘recursos de sobra’, bem mais que o suficiente para edificar e manter uma sociedade justa. Diante de tantas possibilidades, percebe-se que a grave situação atual, de desigualdade, não é ‘obra do acaso’. As análises históricas mostram que é opção deliberada, emoldurada pela incompetência de muitas pessoas. E o resultado é a injustiça que compromete a paz.
Assim, eis a tarefa ética que é da Igreja e de todos os que vivem os compromissos da fé: cada pessoa precisa guiar a própria vida a partir dos ensinamentos de Jesus Cristo com a urgente e laboriosa missão de não se omitir diante dos problemas sociopolíticos atuais. A desigualdade social e outros males evidenciam a carência generalizada de iluminação ética. Por isso, muito além de interesses partidários e grupais, o que deve ser priorizada é a dimensão ético-moral. Cuide-se, assim, para que igrejas não se tornem instrumentos para ações de partidos políticos. Em vez disso, devem contribuir substantivamente para as indispensáveis transformações necessárias neste momento.  
A Igreja é desafiada, sempre à luz de princípios do Evangelho, a auxiliar os diferentes segmentos sociais na adoção de critérios mais consistentes na elaboração de planejamentos, iniciativas e reformas. Daí a necessidade de debates, reflexões, para qualificar projetos e possibilitar escolhas inteligentes, capazes de impulsionar a sociedade rumo a um futuro melhor. A história mostra que não é possível avançar quando se tem apenas propostas demagógicas, como tantas que já induziram a população a opções ruinosas. Por isso, temas de reconhecida importância para o país precisam ser debatidos, com abertura, para alcançar entendimentos, a partir da participação de todos.
Esse exigente e complexo processo requer um sentido pleno de justiça, alcançado a partir da conduta cidadã que deve nortear cada pessoa, em todas as instâncias – de governos e parlamentos ao mundo empresarial, das instituições religiosas aos campos da cultura, arte, ciência e tecnologia. Afinal, em construção está a paz que é tão preciosa para a sociedade. E essa construção é uma obra de justiça e de amor.
O compromisso com a justiça é caminho que leva ao integral restabelecimento da ordem moral e social, tão ferida. Diz o profeta Isaías, apontando caminhos novos para o povo, que a paz é obra da justiça. E há de se reconhecer que a justiça é uma virtude moral, a garantia legal que vela sobre o respeito a direitos e deveres. Essa virtude é enfraquecida quando posturas ideológicas contaminam interpretações, pessoas passam a considerar somente o que interessa aos seus próprios grupos.  Por isso, importante e urgente é fazer com que a prática da justiça seja mais abrangente. Ultrapasse a dinâmica comum aos tribunais para se tornar compromisso cotidiano de cada cidadão. Quando atitudes - simples ou com impacto mais amplo no contexto social - são pautadas pelos parâmetros da justiça, há uma efetiva contribuição para o restabelecimento da ordem social e política que equilibra as relações de um povo.
O brasileiro convive com uma lista enorme de metas e compromissos a serem efetivados. Entre as necessidades, está a urgente responsabilidade de debelar a miséria. Essa situação triste e tantas outras igualmente lamentáveis são produtos da injustiça, alimentada pela ganância sem limites e pela mesquinhez. Combater a pobreza é, pois, um compromisso determinante que precisa da força da justiça – capaz de equilibrar o exercício de direitos e deveres.
Somente a justiça, instrumento para a construção da paz, pode reconfigurar fundamentalmente as posturas que geram desequilíbrio social e submetem grande parte da população a agressões à sacralidade da vida humana. Assim, a inteligência normativa que busca garantir o funcionamento justo da sociedade precisa ser fecundada pela lucidez de princípios sólidos, não imediatistas e utilitaristas. Investir na justiça é imprescindível para a conquista da paz.’

Fonte :

terça-feira, 4 de março de 2014

O reino de Deus e sua justiça

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
arcebispo de Belém do Pará
  
‘Nos dias de Carnaval voltam às ruas fantasias de reis e rainhas, para que o “reinado” de “Momo” se estabeleça, e “tudo acabar na quarta-feira”. Volta então o quotidiano, com suas lutas, tristezas ou alegrias. Muitas pessoas precisarão de muitos fins de semana, com farras, bebidas ou baladas para se desafogarem, seja qual for o tempo do ano. E a vida vai adiante, como se fossem necessários espasmos de exuberância, barulho ou exagero. É o reino da sensibilidade e da superficialidade, ao qual arriscamos ficar acostumados. Nasce no coração de muitas pessoas a pergunta a respeito de uma maior continuidade de sentimentos, marcada pela serenidade. A resposta não está no barulho ou na correria, mas dentro do coração e mais alto, no ponto de chegada das escolhas a serem feitas. Quando estas se realizam em torno de valores consistentes, tudo muda. Divertir-se passa a ser partilha de vida, a alegria brota de dentro e contagia, as festas deixam de ter o gosto amargo da ressaca ou da vergonha e a felicidade verdadeira se instala. 

Jesus se proclamou Rei e anunciou que seu reino não é desse mundo. Sua paixão era o Reino de Deus. Fala de Reino dos Céus, usa inúmeras parábolas para dele aproximar as pessoas, mostra-o presente dentro e perto de nós, suscita vigilância em seus discípulos para a sua chegada. Um dia, é nossa esperança e certeza, Ele virá glorioso para julgar os vivos e os mortos e o seu Reino não terá fim. Até lá, os cristãos têm a tarefa ao mesmo tempo exigente e gloriosa de anunciar este Reino. Sua vida há de ser de tal modo coerente que as pessoas se sintam atraídas a ponto de aderirem ao Senhor e ao seu Reino. Não é necessário competir ou guerrear com os reinos do mundo, mas implantar os valores do Evangelho, que acolhem e elevam todas as realidades humanas, dando-lhes sentido e rumo.

Da própria natureza (Mt 6,24-34) o Senhor tira comparações para explicar o Reino de Deus. Quando tanta gente tem necessidade de se enfeitar ou se maquiar, em busca de fantasias para o ano inteiro, o Senhor faz voltar os olhos para as flores do campo, que se vestem melhor do que Salomão ou todos os reis da terra. São simples, tirando da terra só e tão somente o que precisam para serem vivas e bonitas. Nelas o Pai do Céu inscreveu uma harmonia que nenhum artista consegue imitar. Olhando-as, nasce nas pessoas apaixonadas pelo Reino de Deus um bom gosto diferente. Em torno de si, a casa, a roupa ou o ambiente começam a ficar diferentes, para melhor, porque elas existem. Sem exageros, saem plantando uma ordem nova, sem imposições, recolhendo o que existe de bom, integrando pessoas e coisas. Sua presença não pesa, mas constroí relacionamento com os outros. Seu jeito de viver, antes de analisar ou criticar, recolhe o bem e a beleza.

Sabemos que muitas pessoas “curtem” a natureza, mas a contribuição dos cristãos é diferente. A poesia da vida nasce do relacionamento com Deus e a justiça de seu Reino. A natureza não é divinizada, mas acolhida e amada por pessoas que fizeram escolhas de vida, recebendo o chamado a seguir Jesus e os valores do Reino de Deus. Não vão em busca de forças extraordinárias, mas descobrem o extraordinário da vida no relacionamento com Deus.

Também o “reino” animal é carregado de lições que apontam para o “Reino de Deus”. Os pássaros dos céus, que não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns (Cf. Mt 6, 26), são sinais do amor com que Deus cuida dos seus. Olhar para eles e descobrir as lições que o Senhor nos oferece é sabedoria! Confiança, liberdade, entrega! Asas que se abrem e muitas pessoas até encontram jeito de “voar”, com instrumentos esportivos que possibilitam sentir o gostinho de tais alturas! Entretanto, maiores altitudes podem ser alcançadas mesmo com os pés no chão, por quem se entrega confiante nos braços do Pai, vivendo bem cada momento presente, ouvindo o apelo do Senhor: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! Para cada dia bastam seus próprios problemas” (Mt 6, 34).

Indo além de plantas ou pássaros, Jesus remete seus discípulos de todos os tempos à escolha que decide tudo: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33). Não somos ingênuos, pensando que Deus estará à nossa disposição para oferecer roupa e alimento, mas sabemos que sua Providência Santíssima age e se realiza também através de nossas escolhas diárias. Buscar a justiça do Reino de Deus quer dizer coerência com a verdade e retidão no agir. Se assim nos decidimos, o espaço está aberto para que Deus realize sua obra. A culpa da falta de comida ou de roupa, casa, abrigo, apoio, não está em Deus, mas nas estruturas injustas que se instalaram entre nós e que não correspondem em nada com o plano por Ele estabelecido. O paraíso terrestre, descrito no livro do Gênesis, continua sendo a referência para quem quer conhecer o projeto original! De lá para cá, muito estrago foi feito e muitas tarefas se apresentam para quem quer optar pelo que Deus pensa.

Nesta semana, a Igreja inicia a Quaresma e lança em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade, que toca num tema atual e desafiador, o tráfico humano. Não corresponde ao plano de Deus as pessoas serem transformadas em mercadorias, ou prostituídas. Atenta contra o Reino de Deus crianças ou jovens e adultos serem negociados para transplante de órgãos. Causa vergonha, revolta, e comoção que grita por soluções o tráfico de pessoas para trabalho escravo! Tudo isso clama pelo Reino de Deus! Desejamos contribuir para que nasça uma nova consciência social e todas as pessoas de boa vontade se unam para vencer esta terrível chaga social. A Campanha da Fraternidade quer ser mesmo uma Campanha de opinião pública, para suscitar novas práticas de relacionamento entre as pessoas.

A justiça do Reino de Deus exige que as pessoas sejam mais tratadas do que as plantas ou os animais! Sem desvalorizar a natureza, é hora de dar um salto de qualidade no relacionamento social. Afinal, no último dia da criação, na belíssima visão do Livro do Gênesis, foram criados o homem e a mulher e só deles se disse “à sua imagem e semelhança” (Cf. Gn 1, 26-31). Não permaneçamos inativos ou imóveis diante de ações que vilipendiam a beleza da obra de Deus. Esperamos um tempo novo e desejamos construí-lo juntos!’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/o-reino-de-deus-e-sua-justica