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terça-feira, 28 de janeiro de 2025

O poder da oração e família como pacto para o sucesso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Rodolfo Faria

‘... Não bastasse ser o Filho de Deus, pelo qual todas as coisas foram criadas (cf. Hb 1,2), ainda tomou sobre si todas as faltas da humanidade e sofreu morte, e morte de cruz, portanto, Deus lhe deu o nome que está acima de todo nome (cf. Fl 2,8-9). Jesus Cristo conquistou para si toda a autoridade. É por essa autoridade que, nas últimas palavras do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus, Nosso Senhor ordena aos discípulos uma importante missão, a de ensinar a todas as nações tudo que Ele havia prescrito e batizá-las. 

Essa missão se impõe para todos os seus discípulos, ou seja, todos os cristãos. É por isso que no contexto familiar somos convidados a agir por meio do pacto do sucesso mediante o poder da oração em família. O pacto do sucesso nos relembra o grave dever que temos como cristãos de levar o Evangelho de Jesus Cristo a todas as nações. É importante notar que Nosso Senhor não ordenou que convertêssemos todas as pessoas, mas que ensinássemos. A eficácia da conversão dos homens e do avanço do Reino de Deus não está na forma do nosso ensino, mas na própria Palavra de Deus, no Verbo encarnado, Jesus Cristo. É Ele quem toca os corações mais duros e os transforma. 

Dessa forma, não devemos achar que precisamos ser excelentes pregadores ou exímios oradores para que possamos fazer nossa parte nessa missão. Poderia Nosso Senhor nos dar uma ordem sem que nos desse a graça necessária para cumpri-la? Claro que não! É na nossa fraqueza que Deus revela totalmente sua força (cf. 2Cor 12,9-10). Às vezes podemos pensar que estamos só engatinhando na fé, mas mesmo as crianças se esforçam para se levantar e andar. Também nós devemos nos empenhar!

Nosso empenho deve estar em nos colocarmos a serviço de Jesus para que Ele aja por meio de nós não somente por palavras, mas transformando nossas vidas em exemplos de entrega a Deus; por isso, o pacto do sucesso nos propõe o comprometimento de fazermos nossa parte orando, jejuando e buscando a comunhão da família. Não apenas uma convivência saudável, mas de um amadurecimento espiritual, porque cada membro tem uma função essencial no crescimento da fé dos demais da sua família. 

Embora o convite seja muito necessário, não deve estar desacompanhado de um verdadeiro compromisso de oração de toda a família, assim, o sucesso será resultado do agir de Deus e um fruto espiritual conquistado por todos pelo poder da oração em família. 

Por diversas vezes em suas cartas, São Paulo exorta as comunidades cristãs a que façam orações e súplicas por todas as pessoas, em especial no versículo lido ele vai além, nós devemos orar ‘pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila’ (1Tm 1,2). Esse versículo e tantos outros nos mostram o grande poder que tem a oração em família, sobretudo a oração pelos projetos. Nossa oração é capaz de transpor as barreiras do tempo e do espaço para chegar ao coração de Deus, que escuta e acolhe a súplica de todos os seus filhos. É confiando no poder da oração que a família deve viver o pacto da oração pelos projetos. 

A oração não deve se limitar ao momento da manhã ou da noite, ela deve se tornar um compromisso diário na vida de cada membro da família. É por meio da oração que estabelecemos um diálogo real com Jesus e com a Santíssima Trindade que faz morada em nós. À medida que rezamos nos colocamos em comunhão com Deus e, consequentemente, com toda a Igreja, na chamada comunhão dos santos. A oração nos faz vencer os nossos defeitos, adquirir virtudes e crescer em caridade. 

O comprometimento sincero de orar pelos nossos familiares nos ajuda a viver o mandamento de amor que Deus nos deixou ‘porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus a quem não vê’ (1Jo 4,20b). A família que vive o pacto da oração está livre de amarguras e de qualquer espécie de discórdia, pois, à medida que oramos, colocamo-nos no lugar do nosso irmão, entendemos as suas dores e necessidades e agimos como membros de um mesmo corpo, cuidando uns dos outros (cf. 1Cor 12,12-26). Passamos a amar o nosso irmão como ele é porque aos poucos nos deixamos moldar por Cristo, que ama a cada um incondicionalmente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-poder-da-oracao-e-familia-como-pacto-para-o-sucesso.html

domingo, 6 de novembro de 2022

Poder, justiça e paz

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


Os cristãos sabem que o exercício do poder somente tem sentido autêntico, coerente com a sua fé, na medida em que representa um serviço ao bem comum. Jesus, Mestre e Senhor, ajuda a humanidade a alcançar a compreensão de que poder e serviço são indissociáveis quando proclama que veio para servir - e não ser servido. O adequado exercício do poder não se relaciona à conquista de espaços para obter favorecimentos de qualquer tipo. Menos ainda quando esses favorecimentos levam à manipulação de interesses que comprometem os direitos de todos, prejudicando, especialmente, os mais pobres. Assim, compreende-se que uma grande tarefa dos cristãos na contemporaneidade é capacitar-se sempre, e cada vez mais, para a experiência da reconciliação, compreendendo o poder como serviço, e não motivo para disputas insanas. Não se orientar, simplesmente, por ideologias e interesses, pois muitos estão na contramão do respeito à vida plena, em todas as suas etapas. E não basta defender uma parte dos valores cristãos. É dever missionário defender todo o conjunto de princípios que se alicerçam nos ensinamentos de Jesus. Isto se faz em fidelidade a Cristo Mestre e Senhor, aquele que não pode ser substituído, em hipótese alguma, por outra pessoa qualquer.

Preocupante nesse sentido é o crescimento de um cristianismo torto no Brasil, apontando graves comprometimentos civilizatórios. É preciso estar atento às crescentes estratégias de manipulação que promovem a mistura entre fé, política e religião, obscurecendo e confundindo mentes, esvaziando as possibilidades reais de uma nova configuração social que favoreça a justiça e a paz. Nessa direção, deve-se refletir e ponderar sabiamente, para ter clareza de que seres humanos, no exercício do poder, não são deuses, para se evitar a idolatria de indivíduos. Ao invés disso, se reconheça a responsabilidade conjunta de todos os cidadãos na (re)construção da sociedade, nos trilhos da justiça e da paz. As eleições são importantes, essenciais na configuração da democracia, mas não esgotam a responsabilidade de cada cidadão. Todos precisam seguir irmanados na permanente tarefa de edificar uma sociedade melhor, o que inclui promover todo o conjunto dos valores cristãos.

Precisam, pois, ser enfrentadas, com reações cabíveis, sobretudo com a força de autênticos testemunhos cristãos, as manipulações da fé, para que o Evangelho, com a sua força transformadora, inspire a promoção da justiça e da paz. Não se pode ‘esvaziar’ a espiritualidade cristã e o seu testemunho, sob o risco de escolhas e posturas que não dão conta de configurar um qualificado tecido social. Não se deve, pois, seguir apenas alguns valores e princípios cristãos, mas pautar-se por todo o conjunto de valores e princípios sustentados pelo Evangelho. O amplo respeito a esse conjunto precisa, especialmente, ser vivido pelos cristãos, que caminham no horizonte do Reino de Deus, conscientes de que aqui não há uma cidade permanente - todos buscam aquela cidade que há de vir, cumprindo a insubstituível tarefa de fermentar o mundo com o sabor do Evangelho. Essa consciência não permite aos discípulos e discípulas, nos processos políticos de definição sobre o exercício do poder, se enjaularem na parcialidade que prejudica a justiça e a paz.

É preciso cuidado para evitar escolhas que atrasem os processos de desenvolvimento integral impondo pesados fardos sobre os mais pobres. Ajuda nesse cuidado meditar sobre a lúcida observação do Papa emérito Bento XVI, em reflexão sobre a procura da paz. Bento XVI, ao focalizar o Estado de direito, alerta sobre o risco de um poder exercido pela força da destruição dos próprios direitos. Isto significa, conforme explica o Papa emérito, uma perversão enraizada nas instituições que deveriam servir à justiça, mas que, simultaneamente, consolidam o domínio da iniquidade, propriamente o domínio da mentira, com força de obscurecer as consciências. Observe-se a importância desta tarefa missionária dos cristãos : ter lucidez necessária para escolher, no seu direito cidadão, a partir do voto, não simplesmente um indivíduo para o exercício do poder, mas um conjunto de pautas com força civilizatória competente na efetivação da justiça e da paz

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1592781

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Novas regras de Francisco refletem luta contra abuso de poder

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Enclausurado no Vaticano, por causa da segunda onda de Covid-19 na Itália, papa Francisco aproveitou o confinamento para colocar a máquina vaticana nos trilhos. Em uma semana, mexeu numa das leis da Igreja e até na Secretaria de Estado.

Na quarta-feira (3), através do documento Authenticum charismatis, exigiu que os bispos, a partir de agora, não aprovem nenhum instituto religioso (de freiras e frades) sem que a Santa Sé dê seu nulla osta. Antes da mudança, um prelado tinha certa autonomia para reconhecer tais comunidades, como previa o artigo 579 do Código de Direito Canônico : ‘Os bispos diocesanos, cada qual no seu território, podem erigir, por decreto formal, institutos de vida consagrada, contanto que tenha sido consultada a Sé Apostólica’.

Na prática, por se tratar de um assunto local, bastava que o bispo comunicasse sua decisão a Roma. Agora, além de ‘consultar’, como especificava a medida antiga, o processo não pode ser levado adiante sem que o papa autorize primeiro. De acordo com o novo artigo, o pontífice deve ‘dar uma licença prévia’ para que, aí sim, o bispo possa seguir com a autorização.

Francisco vai contra o que defende?

Alguns consideraram a medida centralizadora e incoerente, tendo em vista que o santo padre tem promovido bastante o protagonismo dos bispos. No entanto, lendo o documento e conhecendo as motivações para publicá-lo, é compreensível essa intervenção do papa. Nada que esteja fora do seu plano de reforma.

O surgimento de ‘guetos religiosos’ tem preocupado muito o Vaticano. Por conta disso, Francisco faz questão de reiterar no texto que um carisma de uma associação ‘não é uma realidade isolada ou marginal, mas pertence à Igreja’.

Com isso, ele quer conter essa onda de ‘autorreferencialidade espiritual’ que se manifesta em algumas dessas congregações nos últimos anos. E tem se preocupado com o ‘culto excessivo’ à figura dos fundadores desses institutos, os quais, muitas vezes, não promovem a comunhão com a própria Igreja, como no caso de alguns grupos tradicionalistas que vemos por aí.

Lembrando que, no atual pontificado, não foram poucos os institutos que tiveram que ser fechados pelo Vaticano por causa desse tipo de postura. E não só : o papa também quer impedir a ascensão de líderes religiosos autoritários; ‘estilos de espiritualidade’ que segregam e rompem com a tradição milenar da Igreja; garantir que essas comunidades tenham uma formação teológica robusta e que sejam transparentes na captação e distribuição de recursos, já que muitas vivem de doações.

Caso 2 

No que se refere à Secretaria de Estado, onde atua o ‘premiê’ da Santa Sé, uma medida ainda mais drástica foi tomada por Francisco nesta quinta-feira (4). Ele não permitirá mais que o organismo administre alguns fundos da instituição. Em carta, ele explicou que, com isso, pretende ‘organizar melhor as atividades econômicas e financeiras (do Vaticano), bem como promover uma gestão que seja mais transparente e mais evangélica’.

Um desses fundos era o Óbulo de São Pedro, um sistema de captação de recursos, mantida por fiéis do mundo todo, para sustentar as obras de caridade do papa. O montante fica à disposição do pontífice caso ele precise fazer uma doação em seu nome. Porém, é administrado por seus colaboradores, que também atuam na distribuição desse dinheiro quando acontecem catástrofes naturais, crises humanitárias e etc. No meio desta pandemia, foi desse montante que o Vaticano tirou dinheiro para comprar as centenas de respiradores que foram enviados aos países mais pobres, por exemplo.

Após escândalo envolvendo justamente esse fundo, que culminou na demissão do cardeal Angelo Becciu, em outubro, o papa resolveu submeter esse e outros fundos à Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (Apsa). O escritório é ligado à Secretaria de Economia, que foi criada por Francisco, em 2014, para fiscalizar melhor as finanças vaticanas. Suspeito de peculato, Becciu teria desviado parte do dinheiro ‘do cofre da caridade do papa’ a uma associação administrada pelo próprio irmão na Sardenha, na Itália. Na época, o purpurado era ‘substituto da Secretaria de Estado’, uma espécie de ‘chefe de gabinete’ do papa.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1481414/2020/11/novas-regras-de-francisco-refletem-luta-contra-abuso-de-poder/

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A religião que se seduz pelo poder faz mal à pessoa e à sociedade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 

*Artigo do padre José María Castillo, SJ

 

‘As notícias que a mídia nos dá hoje, sobre a violência e os absurdos sociais cometidos em muitos lugares, nos últimos anos, nos obrigam a pensar (mais uma vez) sobre o perigo que pode representar a religião. Perigo para a paz, para a política, para a sociedade e para a coexistência dos cidadãos etc.

O que acabei de dizer não é novidade. É um fato bem conhecido e comprovado. E não estou me referindo apenas a eventos do passado. Estamos vivendo isso esses dias. Anjos e demônios nos diários de políticos de alto escalão.

Vemos como a religião está dirigindo a política, atacando ou defendendo os candidatos, para o bem de uns, para o infortúnio de outros. Estamos loucos?

Bem, nesse contexto, eu afirmo que, no cristianismo e em nossa Igreja, isso atingiu o cerne de nossas crenças, o coração da fé. Por isso, há muitos cidadãos que, devido a esta série de absurdos, abandonaram a religião. Estamos perante um assunto da maior importância. Para o bem ou para o mal, não só da política, mas também da religião e da fé.

No cristianismo, temos isso claro. Infelizmente, muitas vezes, os clérigos não ensinam isso como deveriam. Porque com certeza há clérigos interessados no assunto da política e o poder. E há muitos padres que usam a religião para fazer carreira, ter poder, viver com segurança e ser pessoas importantes. Isso é intolerável. 

Poder por poder

Que solução Jesus deu a este assunto tão delicado e tão sério? Jesus deslocou a religião : tirou-a do templo, confrontou os sacerdotes, nunca participou nas cerimônias do ‘lugar santo’. Jesus orou muito. Passou noites inteiras em oração. Mas para orar, ele não foi ao templo. Jesus foi para lugares solitários. A religiosidade que o Evangelho nos ensina não é como a religiosidade que a religião ensina.

É exatamente por isso que Jesus ignorou a política. Ele nunca falou contra o imperador. Jamais falou contra Pôncio Pilatos. Ele também não enfrentou os legionários romanos. Quando Herodes massacrou João Batista, em uma noite de loucura, Jesus não disse uma palavra. E quando informaram a Jesus, diante de uma multidão de pessoas, que Pilatos havia massacrado alguns samaritanos quando estavam celebrando um ato religioso, Jesus não disse uma palavra contra Pilatos. Ao contrário: para as pessoas à sua frente, dizia : ‘E você, se não se converter e mudar de vida, vai acabar como esses samaritanos’.

Além disso, no relato da paixão de Cristo, quem estava contra Jesus? Os sacerdotes. E quem defendeu Jesus no momento da condenação? Pôncio Pilatos. Ainda, quando Jesus agonizou e morreu na cruz, quem fez o primeiro ato de fé, reconhecendo Jesus como o ‘Filho de Deus’? Não foram os apóstolos, que resistiram em acreditar. Os primeiros crentes em Jesus Cristo foram ‘O centurião e os romanos’ (Mt 27, 54) e as mulheres que o acompanhavam (Mt 27, 55-56), agora incapacitadas pela religião, para poderem ser iguais aos homens em dignidade e direitos.

Tudo isto aconteceu muito antes de Deus se fazer presente no mundo, na pessoa e na vida daquele pobre nazareno, que era Jesus. E isto continua acontecendo agora : há políticos que usam a religião para seus interesses. E aqueles que defendem tanto a religião, não fazem caso ao Evangelho. Para Jesus, o primeiro não são as cerimônias e os rituais. Para Jesus, o primeiro é o ser humano, especialmente os que mais sofrem, os enfermos, os pobres, as crianças, os pecadores e as mulheres.

Jesus, frente a Pilatos

Quando vamos deixar de tirar proveito da religião, para extrair dinheiro e poder dela, mesmo disfarçando nossos interesses e fazendo parecer que é o melhor para todos? Quando veremos os cristãos, em massa, identificados como os últimos deste mundo, como o povo de Deus?

E acabo esta reflexão pedindo, sobretudo aos nossos bispos, ‘sigam Jesus’, vivam o Evangelho e sejam (e sejamos todos!) presença de Jesus neste mundo. Os bispos ensinarão o Evangelho de Jesus quando os vejamos vivendo como Jesus viveu. E o mesmo deve ser dito da hierarquia, dos religiosos e dos clérigos em geral. E quem ainda acredita no projeto do Cristianismo e em sua razão de ser, deve fazer o mesmo. Não é uma questão de argumentos. É o que decide se somos ou não crentes em Jesus Cristo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1470694/2020/09/a-religiao-que-se-seduz-pelo-poder-faz-mal-a-pessoa-e-a-sociedade/

 

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O que aconteceu com a Igreja Católica?


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O Palácio de Latrão foi entregue por Constantino I ao bispo de Roma, que converteu o edifício em um templo durante o século IV. A Basílica de São João, à direita, é a igreja mais antiga da Europa e a Catedral de Roma.
O Palácio de Latrão foi entregue por Constantino I ao bispo de Roma,
que converteu o edifício em um templo durante o século IV.
A Basílica de São João, à direita, é a igreja mais antiga da Europa e a Catedral de Roma.

*Artigo de Arthur Jones,
jornalista


‘Esse sistema do Vaticano de diretorias interligadas entre os cardeais da Cúria que comandam as principais Congregações (departamentos), significa que o papa precisa contatar apenas um ou dois cardeais para saber o que está acontecendo em todos os lugares (Peter Drucker, Concept of the Corporation).

Em 14 de janeiro de 1985, escrevi um artigo de quatro páginas e quatro mil palavras na revista Forbes sobre a administração da Igreja Católica, ‘a maior e mais antiga empresa multinacional do mundo’. O artigo foi intitulado : ‘Managing the Lord's Work’ (Gerenciando o trabalho do Senhor).

Cinco meses depois, em 7 de junho de 1985, escrevi o artigo da primeira página e co-escrevi o editorial de primeira página do National Catholic Reporter que expunha a crise nacional de pedofilia católica. O artigo descrevia como os bispos católicos estavam engajados em um encobrimento nacional desses crimes morais e legais. Nas duas décadas seguintes, esses bispos dos EUA continuaram a fazer pouco mais do que trocar de paróquias e lugares de missão aos padres infratores.

Olhando para trás, em mais de três décadas na Forbes, pode-se ver que o Vaticano estava operando em déficit, e ainda ‘de maior preocupação’ foi a dissidência dos fiéis e o clero do catolicismo, deixando de ‘apoiar o papa’ e ‘ignorando suas restrições ao controle de natalidade artificial, o divórcio e a homossexualidade’.

Questões à parte, havia muitos detalhes sobre como a igreja era realmente gerenciada. O Papa Pio XII (1939-58) permitiu que o Instituto Americano de Administração (AIM) investigasse como o sistema de gestão do Vaticano funcionava. A investigação foi atualizada em 1960, sob o papado de João XXIII.

A história da Forbes detalhava a rigidez e a natureza fechada da administração, bem como os principais conselhos do Vaticano aos seus próprios membros : ‘Autoridade total para os principais homens, uma vez escolhidos’.

A estrutura administrativa e fechada da Igreja em Roma, limitada a clérigos masculinos selecionados, estava na raiz da crise da pedofilia. Não pelo que permitiu, mas pelo que a Igreja-em-Roma (o papa, o Colégio dos Cardeais, a Cúria e os arcebispos e bispos), ou seja, a burocracia da igreja, promoveu : um exclusivo Clube dos Antigos Meninos baseado em um sistema de classes rígido.

Alguns leitores católicos podem ficar desanimados, de fato ofendidos, pela maneira desapegada e desapaixonada em que a Igreja Católica discute as decisões a seguir. É verdade que ‘reduzir o 'mistério’ central da igreja aos parâmetros terrenos é arriscar o erro do reducionismo’, como o padre beneditino Patrick Granfield (na época presidente da Sociedade Teológica Católica da América), colocou na Forbes, mas ‘se o senso de 'mistério' como ponto focal da religião não ficar perdido, as analogias mundanas são úteis’.

Somente observando com clareza o que a burocracia da igreja tem feito, pode o leitor ver claramente o dano infligido ao que os católicos conhecem como o Mistério, ‘o depósito da fé’, por ter enfrentado os últimos 33 anos de abuso sexual clerical e encobrimento, inclusive no nível mais alto da instituição. Parece razoável perguntar, como, em nome de Deus, a comunidade que Jesus Cristo fundou chegou a isso?

Há duas respostas : primeiro, o imperador Constantino e, em seguida, os exemplos vivos do famoso ditado do católico inglês Lord Acton : ‘O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente’. Esses exemplos incluem muitos dos papas e seus seletos lacaios.

Os partidários da liderança governante têm o poder suficiente para corromper, se eles se propõem fazê-lo. É por isso que a corrupção não se limitou a Roma. Esteve potencialmente presente onde havia um padre, bispo ou arcebispo presente, embora, graças a Deus, nem todos tenham sido corrompidos.

Dar sentido a dois milênios de poder de cima para baixo relativamente intocável e inatacável requer um atalho. Tirando aqueles papas conhecidos como ‘Grandes Pessoas’, isso será suficiente.

O cristianismo foi uma empresa iniciante de 3 anos de idade quando seu fundador foi morto aos 33 anos. Seu produto era a salvação. Não havia estrutura administrativa além de um sucessor ungido, Simão Pedro, e ele não dava provas de que possuía as habilidades para o trabalho. Na verdade, ele tinha sido grosseiramente desleal com seu chefe. O resto dos escolhidos fugiu ao primeiro sinal de perigo.

Na época da morte de Cristo, não havia plano de negócios. Nenhum acordo sobre quem deveria fazer o quê e um humor incipiente sugerindo que talvez a empresa inteira não fosse a lugar nenhum. Ainda segurando uma analogia comercial, os 12 homens, que foram inspirados após o assassinato e ressurreição de Jesus, foram incitados com a crença de que tinham uma mensagem que o mundo precisava, mesmo que, naquele momento, o mundo não soubesse que queria.

Os 12 deliberadamente deixaram de lado os bens do mundo e determinaram que o único caminho a seguir seria missionário - pregar e arriscar as consequências. Um produto sem nome, sem um logotipo universalmente compreendido, sem sede ou qualquer prova tangível de que funcionava.

A mensagem foi tão convincentemente entregue, tão bem fundamentada, tão atraente à luz das alternativas, que muitas pessoas que a ouviram a aceitaram sem provas. Inicialmente, os adeptos do ministério não tinham uma identificação clara do grupo até que, na Grécia, ‘em Corinto eles foram chamados pela primeira vez cristãos’.

O Fundador, Jesus, um carpinteiro nazareno, usara um logotipo, um peixe. Isso bastou por um tempo (e reapareceu como um adesivo no final dos anos 1970). No primeiro e segundo século, houve o símbolo de Chi Rho, XP, as duas primeiras letras do nome de Cristo em grego.

Alguns afirmam que o Chi Rho já era o símbolo de um batalhão de legiões romanas e os cristãos o adaptaram; outros argumentam o contrário, que os soldados-cristãos a gravaram em seus escudos. O símbolo de Chi Rho viajou muito, 2.000 anos atrás, e na antiga cidade muralhada romana de Chester, na Inglaterra, foi esculpido na rocha por soldados romanos.

A organização cristã tinha cerca de 350 anos antes de se estabelecer no símbolo perfeito : a cruz. Simples, simétrico, gráfico, duradouro, adaptável a uma miríade de desenvolvimentos de design sobre o tema - e diretamente na mensagem.

Mesmo naquela época, ainda não havia uma organização formal geralmente aceita, embora uma estrutura de administração local rudimentar estivesse entrando em prática geral : bispo, presbítero (sacerdote), pessoas. Mas antes que o quarto século fosse concluído, tudo, organizacionalmente falando, mudaria dramaticamente.

Nos primeiros três séculos do cristianismo, havia pouca evidência de permanência física. Os seguidores se reuniram nas casas das pessoas, ou reuniões foram realizadas em instalações disponíveis. Sinagogas e templos eram considerados muito aceitáveis e de acordo com a tradição. Às vezes, como na Síria em 240 d.C., o mais antigo exemplo conhecido, uma casa tinha uma parede interna arrancada para proporcionar um maior espaço de reunião, mais tarde apelidada de igreja doméstica.

O mais antigo local de encontro cristão com data e específico em toda a Grécia e a Macedônia, o Octógono em Filipos, é apenas de inícios do século IV, quando as primeiras igrejas também estavam sendo construídas em Roma.

E, no entanto, no quarto século, o cristianismo já havia experimentado quase tudo que continuaria a experimentar. Foi ridicularizado, desconfiado. Foi proibido, foi perseguido. Foi conduzido no subsolo e era temido. No entanto, foi tão resistente que sobreviveu. Mate um cristão e dois apareceriam em seu lugar. Que regra de lei daria conta de se opor ao cristianismo?

As autoridades começaram a reconhecer, entretanto, que a mensagem não podia ser contida porque, conscientemente ou não, a organização havia desenvolvido o perfeito mecanismo de sobrevivência : cada consumidor, cada cliente do produto, o recebia e era emissário, cada novo convertido se tornava o próximo proselitista. A base de clientes e a força de vendas eram uma só.

O cristianismo criou o sistema ideal de transmissão de mensagens

Como o cristianismo se tornou a marca registrada de muitos soldados romanos, havia o pacote promocional itinerante circulando à custa de outra pessoa. O cristianismo usou a internet do dia o boca-a-boca. Durante a maior parte do tempo, nas primeiras décadas e em muitos lugares, ninguém, a não ser outros cristãos, sabia com certeza quem era cristão e quem não era.

O imperador Constantino foi o primeiro endossante de produto de celebridade do cristianismo. Essa nova religião, o cristianismo, foi um desafio e uma oportunidade. Em um nível, ele orquestrou uma aquisição não hostil da mística e sua utilidade para sua estrutura de governo, mas Constantino tinha pouco interesse em lidar com o pacote do Mistério em si (embora mais tarde se converteu ao cristianismo e chamou um conselho cristão). A aquisição de Constantino funcionou - pelo menos para a satisfação dele.

No entanto, ele destruiu a ainda incipiente organização sobrepondo-a ao modelo imperial e à organização racional. Ele encheu seus bispos com delírios de grandeza e eles transmitiram esses delírios como um direito de primogenitura a sucessivas gerações de hierarcas.

O próximo erro de Constantino foi um enorme desastre estratégico. O imperador queria uma cidade capital só para si. Ele a construiu, de acordo com seus projetos, Constantinopla. O resultado foi que a igreja cristã, como o próprio império, agora tinha dois centros : a igreja de língua grega em Constantinopla (antiga Bizâncio) e a igreja de língua latina em Roma.

A situação dava um forte significado ao adágio ‘uma casa dividida’, pois a igreja do Oriente, em Constantinopla, considerava-se, em todos os sentidos, igual à igreja do Ocidente em Roma.

A decisão de Constantino deu à Igreja de Roma uma luta de mil anos pela primazia leste-oeste, que perdeu. De fato, gerencialmente falando, o papado e a Igreja de Roma, pós-Constantino, foram moldados em grande medida pela contínua rivalidade com seu concorrente, a Igreja em Constantinopla (e igualmente moldada, infelizmente para o futuro, pelas ideias da grandeza imperial de Constantino).

O bispo de Roma queria dominar o mercado dominando a igreja grega. De fato, em 1054, depois de 700 anos, ela cedeu o mercado oriental a Constantinopla e se contentou em aumentar o poder do papado sobre o Ocidente.

Complexo de superioridade

O que Constantino havia criado na florescente Igreja Cristã, centralizada em Roma, era um complexo de superioridade imperial. Este complexo de superioridade, evidente na maioria de seus papas e bispos, continuou até o presente. Na antiguidade tardia, onde os cristãos tinham sido identificados por sua simples túnica em face aos luxuosos trajes de Roma, agora os cristãos com dinheiro assistiam à missa em elegantes adornos bordados com cenas das Escrituras.

Onde casas-igrejas e os templos de outros tinham bastado, Constantino deu o tom para os papas, dando-lhes o seu palácio de Latrão e criando para eles enormes basílicas imperiais e igrejas ornamentadas. O estilo exuberante pegou, e logo ‘a igreja dos pobres’ tinha pelo menos uma igreja em Roma com um arco de prata sólida sobre seu altar.

O complexo de superioridade agarrava-se com firmeza não apenas às afetações principescas dos religiosos, alterava tudo, das relações intergrupais e da cooperação até seu modo de comunicação com o mundo exterior. Não foi a rainha Vitória quem supostamente usou a realeza pela primeira vez quando disse : ‘Não estamos achando graça’. Foi o papa Leão, o Grande, 440-461. A realeza vestiu o hábito.

O American Institute of Management teve uma visão diferente. Ao descrever a estrutura de gerenciamento da igreja como ‘medieval e autoritária’, eles advertiram que ‘a linha e a responsabilidade do pessoal administrativos são investidos no papa’.

Segundo a tradição posterior, Pedro estabeleceu-se em Roma, o centro do Império, um movimento que, com o tempo, deu ao bispo de Roma a primazia sobre todos os outros.
Então, vamos olhar para alguns bispos de Roma mais tarde conhecidos como ‘grandes’. (com agradecimentos aos Monarcas Absolutos de John Julian Norwich : Uma História do Papado.)

Leão, o Grande (440-461) : Leão estabeleceu a monarquia e usou o ‘nós’ real emprestado mais tarde pela rainha Vitória. Ele governou a Itália e derrotou bárbaros. Sua carta, ‘Tomé de Leão’, escrita para o Concílio de Calcedônia em 451, levou outros a acreditarem que ‘Pedro falou por intermédio de Leão’. Leo reivindicou a sucessão de Pedro.

Gelásio I (492-496) : Gelásio, o africano, mandou os governantes recuar e insistiu que os padres eram mais poderosos que os príncipes. Ele disse que os príncipes também deviam entrar no céu, mas os papas tinham as chaves do Reino dos céus.

Gregório I (590-604) : Como senador, Gregório Magno era administrador leigo. Ele foi o primeiro monge a ser eleito papa e introduziu monges no Palácio de Latrão, que era a sede da igreja antes de São Pedro. Ele governou o Ocidente porque os imperadores viviam em Constantinopla. Gregório chamou os papas de ‘o servo dos servos de Deus’.

Gregório VII (1073-85) : Era um ministro das finanças papal que criou o papado imperial. Gregório VII desafiou o Sacro Imperador Romano, que se apresentou nas neves de Canossa em 1077. Era considerado um reformador austero e era temido e reverenciado.

Inocêncio III (1198-1216) : Inocêncio tornou-se papa aos 37 anos. Declarou a Carta Magna inválida e usou o título de ‘Vigário de Cristo’. Ele saqueou Constantinopla, tornou a reconciliação ortodoxa impossível e criou a trágica Cruzada das Crianças. Reconheceu os franciscanos e dominicanos, como novas ramas de religiosos urbanos, modernos e pobres.

João XXII (1316-34) : João era francês e governava em Avignon. Ele afastou ainda mais as contrapartes. Foi um inescrupuloso - cinco parentes próximos se tornaram cardeais - e fez do papado a monarquia mais rica da Europa. Dante o colocou no inferno.

Sisto V (1585-90) : teve um reinado curto mas eficaz. Sisto manteve a simplicidade franciscana, mas não era bobo. Derrubou bandidos e foi amigo dos judeus de Roma. Estabeleceu a cúria romana em sua forma moderna e organizou a Contra-Reforma.

Bento XIV (1740-58) : Lord Macaulay, um historiador britânico do século 19, disse que ele foi o maior dos papas. Seu contemporâneo, Voltaire, disse que ‘iluminou o mundo cristão antes de começar a governá-lo’. Bento era popular e letrado. Andou pelas ruas de Roma e conversou com seus súditos. Fundou academias para a educação. Em sua terra natal, Bolonha, e em outros lugares, ele encorajou as primeiras mulheres professoras. Até João XXIII, nenhum papa foi tão universalmente amado.

Pio XI (1922-39) : Antigo bibliotecário do Vaticano, fundou a Rádio Vaticana para dirigir-se ao mundo. Durante todo o seu papado, Pio revelou a dureza e uma resiliência de caráter, e centralizou a igreja em um grau nunca antes possível. As universidades romanas receberam novas e impressionantes instalações; a maioria dos bispos estudavam nelas. O Tratado de Latrão de 1929 com Benito Mussolini terminou com os ‘estados papais’ e a disputa com a Itália e deu ao Vaticano uma permissão geral. Seu acordo com Hitler em 1933 prejudicou a reputação de Pio, mas ele despertou para os males do nazismo e condenou o comunismo.

Ninguém nunca disse que todos esses papas eram santos. Mas eles eram ótimos. Propuseram uma ótima organização de homens. Era a organização, a centralização do poder, que, às vezes, era mais importante do que a santidade da mensagem. Nove grandes monarcas - de 266 até hoje. Todos eles com uma coisa em comum : o poder de reprimir e punir os desafiantes.

O poder era invencível enquanto aqueles fora da cultura, mas ainda assim comprometidos com ela, pudessem acreditar que a cultura (isto é, a Igreja em Roma) era a porta de entrada para a salvação e o céu.

O que desgastou essa cultura foi a primazia - no Vaticano II (1962-65) - dada à Eucaristia e às Escrituras.

Os católicos comuns começaram a ver por si mesmos onde está a verdadeira salvação.


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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Somos pelagianos sem o saber?


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  Dentre suas características, o pelagianismo nega necessidade da graça divina para a salvação.
Dentre suas características, o pelagianismo nega a necessidade
da graça divina para a salvação. (Jeremy Bishop/ Unsplash)

*Artigo de José María Castillo,
teólogo


 ‘O Papa Francisco, em sua recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, nos faz perceber que, talvez sem estarmos cientes do que está acontecendo com muitos cristãos, na realidade estamos vivendo nosso cristianismo à custa de recuperar e dar nova vida a erros (e heresias) que foram rejeitados pela Igreja séculos atrás. Mas acontece que agora esses erros do passado estão sendo reabilitados como se fossem a solução para os nossos problemas.

Por isso, o Papa fala agora sobre o ‘pelagianismo atual’. Qualquer cristão, medianamente cultivado, sabe muito bem que o pelagianismo é uma heresia disseminada pelo monge Pelágio no século V. Em resumo, o que Pelágio ensinava é que o pecado original não existe e negava a necessidade da graça de Deus. Porque o monge Pelágio entendia que a vontade humana tem poder e autonomia que lhe bastam. Assim, os pelagianos relativizavam, ou até mesmo negavam, a necessidade da recepção de sacramentos ou da observância de práticas religiosas. Exatamente o que muitas pessoas pensam e fazem hoje. São aquelas que não rezam ou não vão à missa. Porque estão persuadidas de que têm vontade e liberdade para serem cidadãos exemplares. Outra coisa é se de fato o são. Porque escandalosos e corruptos existem em abundância.

Diante dessas ideias, o Papa Francisco insiste, com toda razão, em que os pelagianos (antigos e modernos) ‘no fundo confiam apenas em suas próprias forças e sentem-se superiores aos outros’. Por isso, na minha opinião, aqueles que pensam e vivem assim cumprem o que o Papa diz na carta. São aqueles que têm ‘a ideia de que tudo pode ser feito com a vontade humana’. É o que eles pensam e dizem. Mas eles o fazem?

Sabemos muito bem que a Igreja foi mudando em muitas coisas. Mas quase sempre com atraso. E porque não teve mais outra escolha senão mudar. Por exemplo : não faz muito tempo, o conhecido historiador Frédéric Lenoir nos recordava que a Inquisição foi abolida no século XVIII. Mas por quê? Por que a instituição tomou consciência de seu abominável comportamento e decidiu emendar-se? Não. Simplesmente porque já não dispunha mais dos meios necessários para sua vontade de dominação. Porque a separação da Igreja e do Estado privou a Igreja do ‘braço secular’ no qual se apoiava para tirar a vida dos hereges (Cristo Filósofo, Madri: Ariel, p. 29).

Pois algo semelhante está acontecendo agora com este ‘pelagianismo atual’. Explico-me. Muitas pessoas não pensaram naquilo que sabiamente disse Peter Sloterdijk : ‘sem uma crítica da verticalidade, não estamos em condições de avançar’. O ‘sistema vertical’ já não se sustenta mais. Por quê? Muitas pessoas não perceberam a mudança mais profunda que estamos experimentando. Um fato que está mudando a vida das pessoas é que o ‘poder opressivo’ está sendo substituído pelo ‘poder sedutor’ (Byung-Chul Han). Quando vejo a quantidade de pessoas que, em todos os lugares e em todos os momentos, estão debruçadas sobre a tela do celular e prestam mais atenção a isso do que a qualquer ameaça, digo a mim mesmo : isso é mais grave e determinante do que imaginamos!

A religião foi decisiva enquanto o poder opressivo (o pecado, a culpa, o inferno...) era forte o suficiente para influenciar a vida dos crentes. Esse poder e essa força enfraqueceram e a cada dia interessam menos e podem menos. O que permanece em pé? O poder sedutor daquilo que nos impressiona e atrai.

Por que o Papa Francisco atrai tantas pessoas que nem sequer têm crenças religiosas? Por uma razão muito simples. Porque ele tem poder de sedução. É verdade que este Papa tem inimigos, especialmente em ambientes clericais e tradicionais. Pela simples razão de que esses ambientes viveram, em grande parte, do poder opressivo (de Deus, do bispo, do pároco, do pecado e do inferno). Na medida em que os ‘clericais’ e ‘tradicionais’ ficam sem ‘poder opressivo’, nessa mesma medida se veem desarmados e têm a impressão de que estão soçobrando.

Pelo contrário, se lemos e relemos as páginas dos Evangelhos, o que se percebe é que Jesus tinha um ‘poder sedutor’ irresistível. A coisa mais clara, nesse sentido, é o poder que, no Evangelho, tem o ‘seguimento’ de Jesus. Basta uma palavra : ‘segue-me’. E isso é tudo. Nem um programa de vida, nem um motivo, nem um ideal. Nada (Dietrich Bonhoeffer). E sabemos que, pela força dessa palavra, as pessoas deixavam suas casas, suas famílias, esqueciam-se de comer, perdiam toda segurança... A força da sedução era irresistível. Quão insuportável era para os Sumos Sacerdotes e ‘homens da religião’ o poder sedutor de Jesus. Até que decidiram matá-lo (Jo 11, 47-53).

Pelagianismo atual? Como precisamente conclui Francisco, enquanto ‘em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, desamparado e necessitado, está presente a própria imagem de Deus’, e nós o tratamos de acordo, o futuro estará cada dia mais claro. Tal religião tem e terá um poder irresistível.’


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