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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O cristianismo na Turquia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Santa Sofia, catedral cristã construída pelo imperador Justiniano no século VI e atualmente convertida em mesquita

*Artigo da Vatican News


‘Ao preparar-me para realizar a Viagem Apostólica à Turquia, com esta carta desejo encorajar em toda a Igreja um renovado impulso na profissão da fé, cuja verdade – que há séculos constitui o património comum dos cristãos – merece ser confessada e aprofundada de maneira sempre nova e atual. A este respeito, foi aprovado um precioso documento da Comissão Teológica Internacional : Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. O 1.700º aniversário do Concílio Ecuménico de Nicéia. Remeto-me a ele, porque oferece perspectivas úteis para aprofundar a importância e a atualidade não só teológica e eclesial, mas também cultural e social do Concílio de Nicéia. (Leão XIV, Carta Apostólica In Unitate Fidei, no 1.700° aniversário do Concílio de Niceia).

Os cristãos na Turquia (Türkiye) 

Terra natal de São Paulo de Tarso e ‘berço’ da propagação do cristianismo, os cristãos representam hoje uma minoria em uma população de quase 86 milhões, com uma maioria absoluta de muçulmanos sunitas. Embora a Constituição turca reconheça a liberdade de culto e, segundo uma circular de 2003, a conversão de uma fé para outra seja legal, as comunidades cristãs, juntamente com outras minorias religiosas no país, enfrentam hoje diversas dificuldades.

Em particular, a Igreja Católica continua a não ter um reconhecimento jurídico, nem mesmo o status de ‘confissão admitida’ que o Tratado de Lausanne de 1923 havia concedido aos ortodoxos, aos armênios ortodoxos e aos judeus. Essa falta de reconhecimento se estende à questão dos bens e das propriedades, mas também a todas as estruturas, como dioceses e paróquias, e ao status do clero. Um sinal positivo nesse sentido foi o decreto de 2011, pelo qual o então primeiro-ministro Tayip Erdoğan estabeleceu a restituição aos cristãos greco-ortodoxos, caldeus, armênios e judeus das propriedades confiscadas pelo governo nacionalista de Kemal Ataturk na primeira metade do século XX. Restituição da qual foi excluída a Igreja Latina.

A reivindicação da Igreja por maior liberdade religiosa, contudo, também enfrentou hostilidade de grupos e partidos islamistas, defensores do retorno a um Estado confessional. Embora as relações com o governo islâmico moderado do primeiro-ministro Erdoğan tenham sido marcadas pelo diálogo, na última década a Igreja Católica na Turquia também viveu momentos dramáticos com os assassinatos do padre Andrea Santoro em Trabzon, em 2006, e de dom Luigi Padovese, Vigário Apostólico da Anatólia, assassinado em İskenderun, em junho de 2010.

O Patriarcado Ecumênico 

A Igreja Ortodoxa conta com aproximadamente 225 milhões de fiéis, presentes principalmente no sudeste e leste da Europa. É composta por diversas Igrejas Patriarcais, que mantêm sua autonomia, embora permaneçam unidas em espírito de fé. O termo ‘ortodoxo’ foi adotado pela primeira vez pelos cristãos gregos no século IV para distinguir a fé canônica das doutrinas heterodoxas. Também são chamadas ortodoxas algumas Igrejas Orientais que se separaram no século V, após a controvérsia monofisista.

As Igrejas Ortodoxas são lideradas por um Patriarca, título que remonta às cinco primeiras Igrejas de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, e à Pentarquia estabelecida sob Justiniano (527-565). O título foi posteriormente estendido ao Metropolita de Moscou (século XVI), aos Arcebispos da Sérvia e Bulgária (início do século XX) e ao chefe da Igreja da Romênia (meados do século X), enquanto o chefe da antiga Igreja da Geórgia tem o título de ‘Catholicos Patriarca’. Por fim, a Igreja Apostólica Armênia (Etchmiadzin) é liderada por um Catholicos.

A hierarquia ortodoxa inclui as três antigas ordens de diácono, presbítero e bispo : o arquidiácono é um diácono; o arquimandrita é um sacerdote; o metropolita, o arcebispo e o patriarca são bispos.

O Patriarcado Ecumênico constitui a sede mais elevada e o centro supremo da Ortodoxia em todo o mundo. O Patriarca Ecumênico é primus inter pares, o primeiro entre iguais, em relação aos outros Patriarcas da Ortodoxia, e a primazia de Constantinopla incorpora canonicamente a unidade da Ortodoxia e coordena suas atividades. Sua jurisdição eclesiástica inclui, além de Istambul, quatro dioceses turcas, o Monte Atos, Creta, Patmos e as Ilhas do Dodecaneso e, após a emigração, dioceses na Europa Central e Ocidental, nas Américas, no Paquistão e no Japão. Por fim, o Patriarcado Ecumênico representa os ortodoxos em todo o mundo, nos territórios não sujeitos à jurisdição direta dos outros Patriarcados Ortodoxos. A sede do Patriarcado esteve, durante séculos, ao lado da Catedral de Santa Sofia. Após a queda de Constantinopla em 1453, foi transferida e está localizada no bairro de Fanar desde 1601.

O Patriarca Ecumênico de Constantinopla, S.S. Bartolomeu I Demétrio Archondonis, nasceu em 1940 na ilha de Imoros, no Mar Egeu (atual Gökçeada, Turquia). Cidadão turco, mas pertencente à comunidade grega da Turquia, estudou na Escola Teológica de Halki (1961), no Pontifício Instituto Oriental de Roma, no Instituto Ecumênico de Bossey e na Universidade de Munique. Ordenado diácono (1961) e sacerdote (1969), tornou-se secretário particular de seu antecessor, o Patriarca Ecumênico Demétrio (1972-1991). Metropolita da Filadélfia (1973) e de Calcedônia (1990), foi eleito o 270º sucessor de Santo André em 2 de novembro de 1991, adotando o nome de Bartolomeu I. Notório o seu empenho em favor da cooperação inter-ortodoxa e o diálogo ecumênico, bem como com o meio ambiente,  o que lhe rendeu o apelido de ‘Patriarca Verde’.

A Igreja Patriarcal de São Jorge 

A Igreja Patriarcal de São Jorge fica ao lado do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. O prédio sagrado, de 1720, não possui cúpula, em conformidade com a regra estabelecida pelos otomanos após a conquista da cidade, já que as cúpulas eram consideradas prerrogativa exclusiva de mesquitas e prédios ligados à tradição islâmica.

De notável valor artístico é o Trono do Patriarca Ecumênico, incrustado com marfim e datado do final do período bizantino. A Igreja Patriarcal abriga as relíquias de alguns dos santos mais venerados da antiga Constantinopla, como Eufêmia de Calcedônia. Desde a festa de Santo André (30 de novembro) de 2004, a Igreja Patriarcal também abriga parte das relíquias de São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo, entregues em 27 de novembro de 2004 ao Patriarca Bartolomeu I.

A Catedral Latina do Espírito Santo 

A Catedral Latina do Espírito Santo foi aberta ao culto em 5 de julho de 1846. As relíquias de vários santos foram colocadas perto do altar, incluindo a de São Lino, Papa e mártir (67-69), sucessor do Apóstolo Pedro. Na festa de São João Crisóstomo, padroeiro do Vicariato Apostólico de Constantinopla (27 de janeiro de 1884), o Papa Leão XIII doou uma relíquia do santo à Catedral.

A Catedral, afiliada à Basílica de São Pedro do Vaticano em 11 de maio de 1989, tem capacidade para aproximadamente 550 pessoas. No pátio, encontra-se uma estátua do Papa Bento XV, erguida pelos turcos em 1919, apesar de ele ainda estar vivo, em reconhecimento pelo seu compromisso com as vítimas turcas da guerra de 1915-1918, com a inscrição : ‘Ao grande Pontífice da tragédia mundial, Bento XV, benfeitor dos povos, sem distinção de nacionalidade ou religião, como sinal de gratidão, o Oriente.’ Durante seu pontificado, ocorreram massacres de cristãos armênios no Império Otomano, e Bento XV fez tudo o que pôde para ajudá-los.

A Catedral do Espírito Santo foi visitada pelo Papa Paulo VI (1967), acompanhado pelo Patriarca Ecumênico Atenágoras ; João Paulo II (1979), acompanhado pelo Patriarca Ecumênico Dimitrios I; Bento XVI (2006) e Francisco (2014), acompanhado pelo Patriarca Bartolomeu I.

Catedral Apostólica Armênia 

O Patriarcado Armênio de Constantinopla é uma sede autônoma da Igreja Apostólica Armênia. A sede do Patriarca Armênio de Constantinopla, também conhecido como Patriarca Armênio de Istambul, é a Igreja Patriarcal Surp Asdvadzadzin (Igreja Patriarcal da Santa Mãe de Deus), no bairro de Kumkapı. O Patriarcado Armênio de Constantinopla reconhece a primazia do Catholicos de Todos os Armênios, na sede espiritual e administrativa da Igreja Armênia, Etchmiadzin (Armênia), em assuntos referentes à Igreja Apostólica Armênia em todo o mundo. Em assuntos locais, a sé patriarcal é autônoma.

Igreja Siríaca Ortodoxa 

A Igreja Siríaca Ortodoxa é uma Igreja Ortodoxa Oriental autocéfala originária da Síria, mas com seguidores espalhados por todo o mundo. A Igreja é liderada pelo Patriarca siro-ortodoxo de Antioquia, com sede em Damasco, a capital da Síria. A Igreja Siríaca Ortodoxa tem aproximadamente dois milhões de fiéis em todo o mundo. O Patriarca da Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia e de Todo o Oriente é Inácio Efrém II. Membro do Conselho Mundial de Igrejas, ele contribuiu significativamente para a fundação da organização ecumênica Christian Churches Together (‘Igrejas Cristãs Unidas’) em 2007.

A Igreja siríaca ortodoxa Mor Ephrem está localizada em Yeşilköy, no lado europeu de Istambul. Inaugurada em 2023, é a primeira e, até o momento, a única igreja construída na Turquia desde a fundação da República. É dedicada a Efrém, o Sírio. A igreja levou dez anos para ser construída, sete dos quais sete anos devido a questões administrativas. Sua inauguração foi adiada pela pandemia de COVID-19 e pelo terremoto de 2023 na Turquia e na Síria.

A Igreja Católica na Turquia (dados)

 Segundo dados fornecidos pelo Escritório Central de Estatística da Igreja, existem na Turquia cerca de 60 mil católicos (0,6% da população), pequeno rebanho pastoreado por 10 bispos, 18 sacerdotes diocesanos e 58 sacerdotes religiosos (76 no total). Os diáconos permanentes são 2, os religiosos não sacerdotes 5, religiosas professas 37, membros de Institutos Seculares 1, missionários leigos 2, catequistas 56. Há 1 seminarista menor e 10 seminaristas maiores.

A Igreja no país tem 7 Circunscrições Eclesiásticas, 40 paróquias, além de 18 outros centros pastorais. Administra 13 escolas maternais e primárias, com 1.165 estudantes; 10 médias inferiores e secundárias, com 5.198 estudantes; e um instituto superior/universidade, com 400 estudantes.

Ademais, possui 5 hospitais, 2 ambulatórios, 5 casas para idosos e pessoas com invalidez; 2 orfanatos e jardins da infância; tem 1 consultório familiar, além de outras 7 instituições.

Estão presentes na Turquia : 

Dos Latinos :

1 Arquidiocese em (Izmir/Esmirna)

2 Vicariatos Apostólicos (Istambul, Anatólia)

Dos Caldeus :

1 Arquieparquia (Diarbekir)

Dos Armênios :

1 Arquieparquia (Istambul)

Dos Sírios :

1 Exarcado Patriarcal (Turquia)

Dos Bizantinos :

1 Exarcado Apostólico (Istambul)

İznik, anteriormente conhecida como Niceia, é uma cidade na Turquia, localizada a 130 km a sudeste de Istambul, no centro do distrito homônimo da província de Bursa. A cidade é mais conhecida por ter sediado dois Concílios Ecumênicos : o convocado pelo Imperador Constantino I em 325 e aquele convocado pela Imperatriz Irene de Atenas em 787. Hoje, a localidade é mais conhecida por sua produção de cerâmica.

Em 2014, foram descobertas as ruínas do que mais tarde ficou conhecido como as ruínas de uma antiga basílica de três naves. A igreja, construída há aproximadamente 1.600 anos em nome de São Neófito, um jovem mártir cristão morto em 303 durante as perseguições do Imperador Diocleciano, foi destruída por um terremoto em 740, e seus restos foram submersos pelo lago. As ruínas, visíveis graças a fotografias aéreas da época de sua descoberta, agora são facilmente avistadas da margem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-11/turquia-cristianismo-viagem-apostolica-leao-xiv.html

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Musicalidade do Espírito Santo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 

 

‘Musicalidade e espiritualidade andam juntas. Nosso espírito, nosso mundo psíquico, nossa mente não se organizam sem uma escuta equilibrada e disposta. Para escutar é necessário disposição, ou melhor, colocar-se em posição – interna e externa – de realização da escuta. Do contrário, o risco de viver num mundo idealizado, imaginário e muitas vezes alucinado é muito grande. O que adiante ter ideias lindas sem nenhuma realização, isto é, sem transformá-las em realidade? A escuta só é verdadeira quando é viva! Ela vem de dentro ao encontro do outro e, dessa forma, ‘(…) onde dois ou mais estiverem reunidos, eu estarei no meio deles’ (Mt 18,20).

Musicalidade é também o encontro da música interior com a música e os sons externos, ou seja, a presença do outro, do diálogo, daquele que diversifica e nos convida a sair, ir ao encontro. A música é para ser ouvida, escutada, contemplada. Quem toca, toca porque ouve e toca para o outro ouvir. Em seu livro O poder do silêncio, Eckhart Tolle escreve : ‘A verdadeira inteligência atua silenciosamente. A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontradas’. Na liturgia só pode haver espaço para amor, calma e beleza!

A música sacra deve ser trabalhada como a arqueologia, que descobre o objeto de origem com paciência, inteligência e cuidado. O Espírito Santo está pronto dentro de cada ser humano desde a origem da criação até a eternidade. O Espírito Santo é inteligência. O trabalho do coração é descobrir esse espírito por meio da beleza e do amor. Maurício Meschler, no livro O dom do Pentecostes, diz que ‘a Eucaristia é a obra magnífica do amor de Deus’ e ‘mais íntima ainda é a relação que com o Espírito Santo têm os efeitos da Eucaristia’ e ainda diz que ‘o Espírito Santo que habita em nós quer voltar à sua origem’. Meu grande amigo, Cláudio Pastro, ensinou a mim muitas coisas sobre a beleza do Espírito Santo e escreveu em seu livro O Deus da beleza : ‘A beleza não é um produto do ser humano; está tão acima dele! Ela o atrai, o seduz e, assim, o ser humano não vive sem ela’. 

Como viver o cristianismo sem a musicalidade do Espírito Santo? ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça’. (Mt 8,8)

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musicalidade-do-espirito-santo.html

terça-feira, 9 de abril de 2024

A tática cristã do amor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf


Despojarmo-nos das coisas supérfluas e doá-las a quem necessita torna-nos mais coerentes com a palavra de Jesus, que diz ‘Quem de vocês não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo’ (Lc 14,33). 

Assim começa nossa aventura de caminhar seguindo Jesus. Ele veio fazer uma revolução para mudar o mundo e nós que queremos segui-lo. Cumprindo seus ensinamentos, devemos procurar também modificar o mundo, produzir uma profunda renovação na sociedade, fazer nascer a fé nos corações das pessoas, reacendê-la nas pessoas que não se comprometem seriamente com o seguimento de Jesus, o que repugna aos homens e mais ainda a Deus. Jesus disse : ‘Eu vim trazer fogo sobre a terra e que outra coisa desejo senão que se acenda?’ (Lc 12,49). Vamos acender os corações – começando pelos nossos –, fazendo circular entre nós o verdadeiro amor. 

Toda mudança, qualquer revolução precisa de uma estratégia e ordem. É preciso um método e meios que ajudam a atingir os objetivos, a conduzir à vitória certa. Qual é a tática da nossa revolução pacífica? 

É verdade que, muitas vezes, sentimos o coração explodir de alegria pelo desejo de comunicar aos outros o imenso tesouro que descobrimos quando seguimos Jesus e amamos a todos como Ele ama e ensina. Muitas vezes comunicamos nosso entusiasmo e até convidamos outros a seguir o que o Evangelho ensina. Às vezes, nossas palavras não são bem aceitas, compreendidas, mas há também quem as entende e segue também nosso convite. Outras vezes encontramos, no ambiente onde estamos, indiferença, incompreensão e até zombarias. Tudo isso talvez aconteça porque não usamos a tática fundamental de nossa revolução. 

No entanto, e encontramos a pérola preciosa, se descobrimos algo belo e bom que transforma nossas vidas e nos dá sentido para viver, conservemos tudo isso nos corações. Agradeçamos a Deus e peçamos a Ele ardentemente, no silêncio de nossos quartos, ou diante de Jesus presente no tabernáculo nas igrejas ou mesmo no profundo de nossos corações onde Ele habita, para que nos faça verdadeiros apóstolos seus. 

Em seguida, antes de falar, comecemos por fazer, isto é, a amar. Era assim que Jesus fazia : agia e depois ensinava. 

Olhe ao seu redor e em todas as pessoas que encontrar veja nelas o próprio Jesus. Ame as pessoas. 

Se elas sofrem, sofra com elas. Se estão alegres, alegre-se com elas. Elas têm preocupações? Console-as. Estão em dificuldades? Divida-as com elas. Querem jogar? Jogue com elas. Querem passear? Acompanhe-as. Querem estudar? Ajude-as. Ajude sua mãe em casa quando ela precisa. Ajude a cuidar do irmãozinho ou dos avós idosos ou enfermos. Seja para eles como um anjo da guarda. 

Enfim, ame, ame sempre. Mesmo que isso lhe custe, faça tudo que puder para estar unido ao próximo, exceto nas coisas más que logicamente devemos evitar sempre. Fazer-se um com os outros, eis a tática nossa de discípulos de Jesus. Agindo assim muitos corações serão tocados e podem até perguntar por que você age assim com as pessoas. Aí então é o momento de falar, de explicar. Desse modo, as palavras que disser serão compreendidas porque antes foram vividas por você. Dessa maneira, outros poderão querer seguir também seu exemplo. 

Vivendo assim, Jesus permanece entre nós. Deixemos que Ele aja. Ele é onipotente. Esse amor vai se alastrando sempre mais.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-tatica-crista-do-amor.html


domingo, 28 de janeiro de 2024

Projeto sobre o "tesouro da fé" dos mártires “cristãos secretos" é lançado no Japão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de  Walter Sanchez Silva


O projeto Thesaurum Fidei. Missionários, mártires e cristãos escondidos no Japão. 300 anos de heroica fidelidade a Cristo, em que se destaca a figura do beato Angelo Orsucci, martirizado em 1622, foi lançado em Roma na quarta-feira (24).

O projeto chega à Cidade Eterna quase um ano depois de ter sido apresentado na arquidiocese italiana de Lucca e contém uma exposição que pode ser vista na Pontifícia Universidade Gregoriana a partir do dia 19 de fevereiro.

No lançamento do projeto, segundo Vatican News, serviço de informações da Santa Sé, também foi apresentado um volume que reúne pesquisas de estudiosos italianos, japoneses e americanos, sob a curadoria do arcebispo de Lucca, dom Paolo Giulietti, e do professor Olimpia Niglio, da Universidade de Pavia.

A ocasião inicial do projeto foi o 400º aniversário do martírio do beato Orsucci (1622-2022) e o 450º aniversário de seu nascimento (1573-2023).

Dom Paolo Giulietti destacou que o projeto é importante porque ao fazer ‘surgir o corajoso testemunho dos mártires missionários, destes cristãos que foram conservando o tesouro da fé por gerações, inclusive em um contexto tão difícil, é verdadeiramente um grande estímulo, porque a Igreja será missionária se conservar o tesouro da fé em grande honra para a própria vida, para a vida do mundo’.

O bispo também enfatizou que o testemunho dos chamados ‘cristãos secretos’ e mártires ‘serve para certificar um protagonismo leigo na transmissão da fé na família, na sociedade e, depois para dizer que não existe nenhuma condição em que seja impossível ser cristão’, mesmo com ‘exemplos particulares de heroísmo e fidelidade’.

Os ‘cristãos secretos’ do Japão

A perseguição no Japão foi uma das mais terríveis da história. Em 1597, 50 anos depois da chegada dos jesuítas e antes da chegada dos franciscanos e dominicanos, o imperador acreditava que o apostolado dos religiosos era, na realidade, um projeto de conquista militar.

Desde então, os cristãos foram perseguidos e tiveram que se esconder nas catacumbas. Como não havia padres porque eles tinham sido expulsos, eram os próprios pais que batizavam seus filhos e transmitiam a fé a eles.

Muitas pessoas foram mortas por ódio à fé, entre elas 26 mártires em Nagasaki e 188 pessoas que perderam a vida na segunda onda de perseguições entre 1603 e 1639.

Apesar da severa perseguição, a comunidade cristã ressurgiu em 1865, quando o Japão reabriu suas portas aos missionários franceses, que celebraram a Sexta-Feira Santa com dez mil fiéis.

O arcebispo Giuletti comentou que é possível que ‘nesta época não tenha menos mártires do que o Japão no século XVII’, referindo-se não apenas àqueles que morrem por ódio à fé, mas também àqueles que são discriminados ‘em sociedades secularizadas por suas profissões de fé’.

Beato Angelo Orsucci

Angelo Orsucci foi um dominicano de Lucca, nascido em uma família nobre, e foi missionário na Espanha, nas Filipinas e depois no Japão.

Ele se destaca por seus inúmeros testemunhos escritos, preservados no convento de San Romano, em Lucca, e por suas cartas aos seus familiares, na qual falava dos cristãos que viviam escondidos e que ele os visitava à noite disfarçado de comerciante. Ele foi descoberto e preso em 1618.

Apesar de viver em condições péssimas, em um espaço apertado e com pouquíssima comida, o beato escreveu : ‘ Sou muito feliz nesta prisão’.

Em 10 de setembro de 1622, junto com seus companheiros, foi condenado a morte na fogueira. Ele é um dos 205 mártires liderados pelo beato Afonso Navarrete, que foram beatificados em 1867.

Hoje, no Japão, a porcentagem de cristãos é de apenas 0,01%, em uma população de aproximadamente 126 milhões de pessoas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.acidigital.com/noticia/57228/projeto-sobre-o-tesouro-da-fe-dos-martires-cristaos-secretos-e-lancado-no-japao

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Igreja Nossa Senhora da Arábia, no Kuwait, celebra seu Jubileu de Diamante

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Agência Fides


As celebrações pelo aniversário da Igreja de Nossa Senhora da Arábia serão concluídas na sexta-feira, 8 de dezembro, com a concelebração Eucarística presidida por dom Aldo Berardi, O.S.T, vigário apostólico da Arábia Setentrional.

‘Depois de um ano de celebração e peregrinação - comenta dom Berardi à Agência Fides - celebraremos a Missa conclusiva da qual tomarão parte, entre outros, dom Eugene Martin Nugent, núncio apostólico do Kuwait, o custódio da Arábia, padre Michael Fernandes OFM Cap, todos os sacerdotes do Kuwait e representantes do Qatar e do Bahrein. Todas os outros festejos previstos para este evento foram canceladas pelo governo em solidariedade com os palestinos.’

A Igreja de Nossa Senhora da Arábia é a ‘igreja mãe’ do Vicariato Apostólico da Arábia do Norte, que inclui Kuwait, Bahrein, Qatar e Arábia Saudita. É a primeira igreja católica construída em solo kuwaitiano e é dedicada à Mãe de Deus, Maria Santíssima.

Era 25 de dezembro de 1945 quando foi celebrada a primeira Missa no Kuwait, os fiéis reuniram-se então em uma tenda em Magwa, onde então, de 1946 a 1948, o missionário carmelita Pe. Carmel Spiteri ia celebrar periodicamente.

Em 1948, uma antiga central eléctrica de Ahmadi foi transformada em capela onde foi celebrada a primeira Missa no dia da Festa da Apresentação da Bem-Aventurada Virgem Maria. No mesmo ano, foi nomeado o primeiro sacerdote residente no Kuwait, pe. Theophano Stella, que mais tarde se tornou o primeiro vigário apostólico do Kuwait. Em 1952, a Kuwait Oil Company (KOC) concedeu permissão para construir uma nova igreja em Ahmadi. A pedra fundamental da nova igreja foi abençoada pelo Papa Pio XII antes de ser enviada ao Kuwait.

No dia 8 de setembro de 1955 foi colocada a primeira pedra no local onde seria construída a nova igreja, que em abril de 1956 foi consagrada a Nossa Senhora da Arábia.

O Kuwait foi o primeiro membro do Conselho de Cooperação do Golfo a estabelecer relações diplomáticas com o Estado do Vaticano. As relações entre a Santa Sé e o Governo do Kuwait remontam a outubro de 1968. Porém, só em 2000 foi estabelecida a Nunciatura Apostólica no país com a esperança de que, além de fortalecer os laços, ajudasse a promover relações de amizade e a favorecer o diálogo entre cristianismo e islamismo.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-12/reflexao-advento-tempo-renovacao-esperanca.html


domingo, 22 de outubro de 2023

Jean-Pierre Mahé: cristianismo armênio, memória oriental da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Mosteiro Tatev na região de Goris, a 316 km de Yerevan, sudeste da Armênia, construído no século X.
 

*Artigo de Delphine Allaire


‘‘As igrejas e mosteiros de Nagorno-Karabakh devem ser respeitados e protegidos.’ O Papa Francisco lançou este apelo no domingo, 15 de outubro, depois do Angelus, expressando a sua preocupação pela situação humanitária dos deslocados. O enclave armênio viu a fuga de 100.000 dos seus habitantes desde a agressão militar de Baku lançada há um mês, em 19 de Setembro.

A herança religiosa cristã de dois mil anos desta terra, o berço espiritual da Armênia, está agora nas mãos dos azerbaijanos. Segundo dados do Defensor dos Direitos Armênios, quase 1.500 monumentos armênios já tinham ficado sob o controlo do Azerbaijão após a guerra de 2020. Entre eles, 161 mosteiros e igrejas. O desafio de manter a presença cristã e preservar a sua herança religiosa remonta aos primeiros séculos.

Terra da Arca de Noé, a Armênia adotou o cristianismo como religião oficial alguns anos antes de Roma. O orientalista francês Jean-Pierre Mahé, especialista em cristianismo armênio e diretor de estudos da École Pratique des Hautes Études, traça no tempo as origens e particularidades desta Igreja mártir.

Como o cristianismo chegou e se difundiu na Armênia e como esteve desde o início intimamente ligado à unidade do país?

A cristianização foi inicialmente não oficial, simplesmente provocada por intercâmbios comerciais, intelectuais e religiosos entre a Síria e a Armênia. Segundo a Tradição, Tadeu teria sido o primeiro apóstolo da Armênia e teria ido até Abgar, o rei de Edessa. Diz-se que ele converteu todo o reino de Abgar, cuja metade sul era siríaca. A metade norte era armênia. O soberano não a declarou uma religião obrigatória. Foi uma conversão pessoal da sua parte. Muitos de seus súditos o imitaram. A linguagem religiosa armênia empresta termos essenciais do siríaco. Por exemplo, sexta e sábado são muito importantes, porque o primeiro efeito da conversão ao cristianismo é estruturar a semana. Estamos saindo de um regime de calendário onde o tempo é dividido em meses lunares para entrar num tempo mais litúrgico, onde todas as semanas são marcadas pela preparação do sábado, urbat, na sexta-feira, depois o Shabat no sábado, e depois o domingo, primeiro dia da semana seguinte, Dia da Ressurreição.

As comunidades cristãs foram, portanto, estabelecidas no sul da Armênia na era apostólica, a partir do final do século I e provavelmente no início do século II. A Armênia do Norte permaneceu pagã, convertida não pelo Sul, mas pelo Ocidente. Graças ao apostolado de São Paulo, o cristianismo difundiu-se na Ásia Menor e, a partir da Capadócia, difundiu-se também na Armênia no início do século IV, na época do rei Tirídates, estabelecido no trono pelo imperador romano Diocleciano.

No início, Tirídates era um pagão militante e por isso matou religiosas que se refugiaram do Império Romano na Armênia. A Tradição diz que após os crimes ele teria sido transformado em porco selvagem. Neste momento, um cristão que ele havia prendido anteriormente, São Gregório, o Iluminador, foi libertado da prisão, convertendo-o entãi ao cristianismo nos primeiros dez anos do século IV.

Em que aspectos esta difusão do cristianismo na Armênia difere daquela em Nagorno-Karabakh?

Nagorno-Karabakh pertence a uma região montanhosa isolada ligada ao cristianismo de outras maneiras. Um homem santo, Yeghishe ou Eliseu, era segundo os textos mais antigos um dos discípulos de Tiago, o Justo. Ele foi para o norte do atual Azerbaijão, para a margem esquerda do rio Kura, onde fundou a mais antiga, mãe de todas as igrejas do Cáucaso.

Posteriormente, o cristianismo se espalhou pelo resto do país, mas o cristianismo de Nagorno-Karabakh se deve principalmente à ação de um governante Vatchagan, o Piedoso, que subiu ao trono em 484. Vatchagan, o Piedoso, construiu uma nova cidade. Ele purificou os lugares ocupados pelos ídolos pagãos espalhando as relíquias dos santos, e devemos-lhe em particular a construção do monumento religioso mais antigo de Karabakh e do Azerbaijão, que é o mausoléu de Grigoris, filho pequeno de São Gregório, o Iluminador e Catholicos da Albânia Caucasiana. Este monumento está hoje em Amaras. Há também abaixo de Karabakh, no corredor de Lachin, uma igreja muito antiga chamada O mosteiro de Hirondelle e cujas partes mais antigas hoje preservadas datam do século IV.

Como é que esta Igreja Apostólica Armênia progrediu? Qual é o estado das suas relações com outras Igrejas cristãs, nomeadamente Roma, durante o período conhecido como a Igreja dos Três Concílios?

Roma está muito longe da Armênia. Por razões geográficas, e não dogmáticas, a relação importante era, portanto, com Jerusalém. A partir de 324, o sucessor de São Gregório, o Iluminador, seu filho que se chamava Aristakes, participou do Concílio de Nicéia e foi um dos signatários do Concílio de Nicéia. Depois, o sucessor de Aristakes, Vertanès, também filho de São Gregório, o Iluminador, correspondeu-se com o patriarca Macário de Jerusalém. Ele havia sido convidado pelo Patriarca Macário para a inauguração da Igreja de Anástase, o Santo Sepulcro. Não pôde ir até lá, mas os enviados em seu lugar compareceram ao batismo dos catecúmenos para a Páscoa, questionando o Patriarca Macário sobre como administrar o batismo. Isto marcou o início de uma relação muito profunda entre os Armênios e a Igreja Mãe de Jerusalém. Foi aqui que adotaram os seus hábitos e o seu calendário litúrgico. Uma das originalidades do calendário litúrgico armênio é a celebração simultânea, no dia 6 de janeiro, da festa da Natividade, dos Três Reis Magos e do batismo de Cristo, como se os Três Reis Magos tivessem chegado justamente no momento em que o Cristo nasceu. E como se, 30 anos depois, exatamente no mesmo dia e no mesmo momento, Cristo tivesse recebido o batismo no Jordão. É um rito muito antigo de Jerusalém, posteriormente modificado no século IV, para que possamos distinguir claramente a natureza humana da natureza divina de Cristo, mas que os armênios nunca aboliram.

As relações com Roma são posteriores e datam da época das Cruzadas, do início do século XI, ainda que certas correspondências atestem ligações já desde Carlos Magno. Durante as Cruzadas, os francos não hesitaram em receber os sacramentos dos padres armênios, nem em casar com mulheres armênias. Naquela época havia uma familiaridade muito grande, uma fraternidade muito grande entre os francos e os latinos.

As relações se deterioraram por volta do século XIII, quando os latinos tomaram conhecimento da abordagem heresiológica dos gregos em relação aos armênios. Os gregos condenaram os armênios como hereges e cismáticos. Os latinos examinaram mais de perto e começaram a listar os erros dos armênios e começaram a tentar convertê-los à liturgia romana e a forçar uma união com Roma.

Ao longo desta história e de sucessivas dominações, que tipo de perseguição têm sofrido os cristãos armênios? De quem vieram e com que consequências?

As perseguições foram inicialmente zoroastrianas. Quando a Armênia se tornou cristã, no início do século IV, uma nova monarquia persa foi estabelecida no Irã, enquanto a monarquia anterior era uma monarquia parta, amiga dos armênios.

Pelo contrário, os persas alegaram restaurar completamente a religião de Zoroastro, demolir ‘todos os ídolos’ e estabelecer o culto ao fogo sagrado. Inicialmente houve perseguição latente, depois em 449 apareceu um decreto de conversão compulsória para todos os armênios sob pena de morte. Naquela época, os armênios se revoltaram e enfrentaram com muita coragem a ameaça dos persas, maiores em número e modernidade de armamento. Foram, portanto, todos mortos numa batalha em 451. Mas depois da derrota, não quiseram abjurar e, portanto, até ao fim do Império Persa, até meados do século VII - o Império Persa foi derrotado pelos árabes em 653 -, houve retornos periódicos da perseguição zoroastriana na Armênia.

Depois disso, houve o mal-entendido da disputa com os bizantinos. Os bizantinos acusaram os armênios de serem monofisitas, isto é, de negarem a natureza humana de Jesus Cristo. Com efeito, na Igreja Armênia, Jesus tem uma natureza que é eterna, que é a natureza da Palavra de Deus, e tem uma humanidade que é uma indulgência de Deus, uma economia de Deus. Isto quer dizer que pela graça, o Verbo eterno tornou-se homem, mas a sua humanidade é completamente real, isto é, que Jesus é totalmente homem e totalmente Deus de acordo com a doutrina armênia. Mas os bizantinos não ouviram isso e perseguiram os armênios a partir do século X.

Depois, os armênios acolheram o califado árabe, pensando em assinar um acordo de tolerância, prestando homenagem e a continuação do culto sem perseguições. Foi o que aconteceu enquanto os árabes temiam as tribos do Cáucaso.

Mas a partir do século VIII eles conquistaram a Ásia Central, portanto os armênios não lhes serviam mais do ponto de vista estratégico e começaram a persegui-los. O século VIII, portanto, testemunha as perseguições muçulmanas contra os armênios antes de outras invasões. Como os turcos e os mongóis não eram muçulmanos desde o início, os armênios tentaram sobreviver apesar das crueldades, mas quando estas pessoas se tornaram islâmicas, houve muitos, muitos mártires armênios do Islã.

O século XIX foi o grande período de decomposição do Império Otomano, durante o qual os armênios foram vistos como uma ameaça pelos defensores do Império e apareceram os primeiros projetos de destruição em massa, massacres e eliminação total dos Armênios.

À luz desta história turbulenta, como caracterizar a fé dos armênios? Tem ela esta famosa resistência espiritual específica dos povos perseguidos, muitas vezes aninhados na encruzilhada dos impérios?

O cristianismo não é praticado da mesma forma no Oriente e no Ocidente, e em particular na Armênia. A liturgia tem precedência, é toda a religião, vivida como antecipação dos fins últimos. Uma verdadeira liturgia armênia dura 3 horas no domingo : a primeira hora como período de penitência, depois a própria liturgia começa com a procissão da Cruz, e depois vem a liturgia diante dos anjos. Na liturgia armênia, eles são representados por diáconos que seguram sistros seráficos representando o som das asas dos serafins. A liturgia não acontece apenas no altar, mas também no altar celestial, o templo celestial descrito por Isaías e Ezequiel. Este é o ponto mais importante da liturgia. E assim a resiliência dos armênios é muito forte. Ela tinha um apego inabalável ao cristianismo e uma coragem extraordinária diante do martírio.

Por que então a sobrevivência do cristianismo armênio representa uma questão vital e existencial para o mundo inteiro?

O capítulo dedicado às Igrejas Orientais do Concílio Vaticano II, escrito pelos Padres Conciliares, afirma que existem tesouros das origens do cristianismo preservados pelas Igrejas do Oriente, tanto as ligadas a Roma como as independentes. Existem várias maneiras de expor os mistérios.

Esta é a razão pela qual o Papa Francisco declarou Doutor da Igreja universal em 2015 o grande poeta místico e teólogo armênio São Gregório de Narek, poeta do ano 1000 que enuncia o dogma cristão com uma ortodoxia perfeita, mas ao mesmo tempo com uma certa independência em relação às formulações do Ocidente.

Para a preservação da memória do pensamento cristão, isto é muito importante. E deve notar-se que a Armênia e a Geórgia constituem ilhas do Cristianismo num oceano do Islã. Os cristãos armênios e de Nagorno-Karabakh são testemunhas desta memória.’


Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-10/igreja-armenia-cristaos-fe-europa-asia-alto-karabakh-martires.html


sábado, 26 de agosto de 2023

A paganização do cristianismo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Eduardo Oliveira 


‘Quando estudamos a história das religiões, percebemos que houve um acidentado caminho de tentativas de autotranscendência na compreensão que as sociedades tiveram de si e do mundo.

Fustel de Coulanges, em ‘A sociedade Antiga’, mostra que a religião não era uma espécie de ‘valor agregado’ às antigas civilizações, mas a argamassa que as unia. Traça um itinerário que vai desde os deuses familiares até os panteões criados pelas antigas civilizações. Acerca da relação entre ‘religião e moral’ ele escreve :

É natural que a ideia moral tenha tido seu começo e tenha progredido como a ideia religiosa. O Deus das primeiras gerações, nessa raça, era bem mesquinho; pouco a pouco os homens tornaram-no maior; assim a moral, a princípio muito restrita e incompleta, alargou-se insensivelmente, até que, de progresso em progresso, chegou a proclamar o dever do amor para com todos os homens. Seu ponto de partida foi a família, e foi sob a ação das crenças da religião doméstica que os deveres começaram a aparecer aos olhos do homem’ (São Paulo, Editora das Américas: 1961, p. 67).

Também Mircea Eliade mostra que a relação entre religião e moral é muito precária no paganismo antigo :

Seria um erro acreditar que o homem religioso das sociedades primitivas e arcaicas recusa-se a assumir a responsabilidade de uma existência autêntica. Pelo contrário, ele assume corajosamente enormes responsabilidades : por exemplo, a de colaborar na criação do Cosmos, criar seu próprio mundo, ou assegurar a vida das plantas e dos animais etc. Mas trata se de um tipo de responsabilidade diferente daquelas que, a nossos olhos, parecem ser as únicas autênticas e válidas. Trata-se de uma responsabilidade no plano cósmico, diferente das responsabilidades de ordem moral, social ou histórica, as únicas conhecidas pelas civilizações modernas. Na perspectiva da existência profana, o homem só reconhece responsabilidade para consigo mesmo e para com a sociedade. Para ele, o Universo não constitui um Cosmos, ou seja, uma unidade viva e articulada; é simplesmente a soma das reservas materiais e de energias físicas do planeta. E a grande preocupação do homem moderno é a de não esgotar inabilmente os recursos econômicos do globo. Mas, existencialmente, o primitivo situa se sempre num contexto cósmico. À sua experiência pessoal não falta nem autenticidade nem profundidade, mas, pelo fato de se exprimir numa linguagem que não nos é familiar, ela parece inautêntica ou infantil aos olhos dos modernos’ (‘O Sagrado e o Profano’, São Paulo: Martins Fontes, 1992, pp. 49-50).

Em outras palavras, as sociedades antigas eram sociedades mágicas. A experiência religiosa se dava através de uma noção fantástica da ação dos deuses. Os deuses não eram propriamente bons ou maus. Eram uma reprodução da imagem do homem, que tem seus interesses pragmáticos em busca da satisfação de suas necessidades básicas.

A concepção de um ‘deus bom’ é muito tardia na história das religiões. Alguns a atribuem a uma espécie de migração do misticismo do extremo oriente, via o espiritualismo budista, reelaborado na religião persa e sistematizado na filosofia grega. Há quem hipotize uma influência causal do zoroastrismo persa sobre a religião judaica no período pós-exílico, supondo que a ‘monolatria’ foi introduzida pela classe sacerdotal, juntamente com o culto sacrifical monopolizado por ela, com a execução de uma intensa produção literária que começava a apresentar a ideia de bondade como característica de Yahweh.

Alguns apresentam hipóteses e conjecturas como fatos consumados, mas, como afirma Alan Segal, ‘a influência iraniana em Israel continua sendo um verdadeiro mistério. Quando os documentos religiosos iranianos foram publicados pela primeira vez no Ocidente, no século XIX e início do século XX, começou uma onda de interesse por tudo o que fosse zoroastriano (da grafia grega, ‘Zoroastro’, de sua figura principal, Zarathushtra), não apenas porque eram expressões exóticas e novas de sabedoria, embora isso certamente fizesse parte da atratividade, mas porque as imagens iranianas e especialmente seu dualismo religioso pareciam espelhar muitas coisas sobre o pensamento judeu e cristão nos primeiros séculos de nossa era. Depois de um período de reivindicações extravagantes e intenso e polêmico escrutínio, a maioria hostil, o mundo acadêmico não admitiu quase nada do zoroastrismo como uma influência na tradição judaica nativa’ (‘Life after death: a history of the afterlife in western religion’, New York, Doubleday: 2004, p. 175, tradução minha).

Em todo caso, a relação entre moral e religião é decorrente do monoteísmo, o qual entendeu a bondade de Deus e, portanto, percebeu que a origem do mal não está num princípio que lhe seja perfeitamente antagônico, mas que, em todos os casos, está subordinado a ele.

Não é sem razão que percebemos nas Escrituras reverberações disso. Satã, no livro de Jó, aparece como um ‘anjo’ a serviço de Deus. No judaísmo tardio, essa concepção de satanás como acólito de Deus permaneceu, sendo fortemente refutada pela Igreja, nos seus primeiros séculos.

No Novo Testamento, a figura do diabo aparece sobretudo como a de um ‘tentador’, aquele que se atira no meio (diabo, vem de ‘dia’ e ‘boulos’, literalmente, no grego, aquele que se atravessa pelo meio) para desviar o homem do seu fim (a noção de pecado como ‘hamartia’, que no grego remete a errar o alvo, tem grandes afinidades com isso). E o Filho de Deus se encarna, para ‘destruir as obras do diabo’ (1Jo 3,8).

Ao invés de rejeitar a lei, o Novo Testamento, a despeito da crítica moderna liberal, reforça a necessidade de uma conduta moral elevada, que leve o homem a uma radical mudança de pensamento (‘metanóia’ significa literalmente isso) provida de frutos de boas ações.

Desgraçadamente, os reformadores lançaram uma grande confusão quando trataram do caráter salvífico da lei. Para Lutero, como a salvação se dá apenas pela fé e é forânea, ou seja, uma imputação exterior que não modifica a natureza, tudo que o homem faz é mau e, portanto, incapaz de ser atinente à salvação. A doutrina católica sempre sustentou que o homem não pode se salvar, que depende radicalmente da graça de Cristo; mas que a graça opera uma verdadeira regeneração que transforma o homem em colaborador do Senhor em seu processo de transformação, de tal modo que as suas boas obras podem ser deiformes, ou seja, podem ser feitas a partir de uma verdadeira união com Deus e ter um verdadeiro valor sobrenatural.

Calvino agravou ainda mais a situação, pois, com a doutrina da corrupção total, que permanece mesmo após a justificação, o homem só pode ser salvo por uma eleição divina que independe da sua própria escolha pessoal. Neste sentido, a imagem de Deus, na teologia calvinista, se parece muito mais com as divindades antigas, que são totalmente soberanas, não vinculadas à sua própria bondade, e que podem decidir livremente o que quiserem, independentemente da bondade ou malícia do homem. Para Calvino, porém, a bondade moral de alguém seria sinal de sua predestinação, pois a perseverança dos santos seria fruto de uma graça irresistível.

Sendo assim, temos como que uma relação diferente entre moral e religião no contexto católico e protestante : para o protestante, o homem faz o bem porque Deus mandou na sua Palavra (legalismo moral), o que difere do judaísmo (legalismo cúltico), que entende que a observância cerimonial da lei é salvífica; para o catolicismo, o homem deve fazer o bem porque o bem é bom em si mesmo, e isso é racionalmente rastreável e útil para a salvação, desde que ele esteja em estado de graça e realizando obras sobrenaturalmente virtuosas.

Neste sentido, uma moral elevada faz toda a diferença. E, quando lemos o Novo Testamento, percebemos como o chamado a uma vida moral correta é apresentada como condição para o progresso na espiritualidade : nos sinóticos, especialmente em Mateus, vemos como a lei moral é condição para ser um homem justo (não é atoa que o Sermão da Montanha começa pelo comentário à lei para, somente depois, partir para o comentário sobre a oração); nos escritos joaninos, vemos a mesma exigência de luta contra o pecado, a tal ponto que o narrador afirma que quem peca é do diabo; nas cartas paulinas, isso é definitivamente salientado na luta entre a carne e o espírito, as obras da carne e o fruto do Espírito.

Quando a crítica histórica avançou em seu intento de desconstruir e desmistificar a Sagrada Escritura, sem discernir a Divina Revelação por detrás de todas as contingências históricas ocorridas na composição dos textos, acabou por criar um problema de difícil solução. Como Hasel explica em sua ‘Introdução ao Antigo Testamento’, houve um momento em que as ‘ciências bíblicas’ se independentizaram da dogmática e passaram a utilizar métodos tão somente historiográficos, renunciando à fé (como se o texto mesmo não tivesse sido escrito a partir da fé).

Ora, reduzindo tudo à mitologia, estava esvaziada a dogmática e, portanto, todas as exigências morais passaram a ser percebidas como meras formas de controle social da religião sobre o comportamento individual das pessoas. Como a solução pietista consistiu em transformar a piedade no fundamento da fé (na versão católica, isso significou tomar a sério tão somente as construções dogmáticas dos Concílios), o fortalecimento dogmático tomado como pura abstração eclesial começou a conviver com uma abertura moral cada vez mais libertária, uma vez que o todo da Revelação era interpretado como condicionado às circunstâncias históricas sociopolíticas.

Portanto, a imagem de Deus oriunda dessas especulações cria uma verdadeira ruptura entre dogma e moral. Alguém pode tranquilamente rezar o Credo apostólico e proclamar-se a favor do aborto, do concubinato, do sexo livre etc. O hiato entre moral e dogma, acaba, por fim, recriando a própria imagem de Deus, aos moldes da nova espiritualidade decorrente disso (um ‘deus amor’ que acaba, por fim, sendo apenas uma reprodução das deusas de procriação da antiguidade, por exemplo).

Em outras palavras, essa cisão produziu uma verdadeira fenda que, ao fim e ao cabo, funciona apenas como meio de reconduzir o cristianismo a uma mera versão do paganismo antigo : o Cristo Deus é esvaziado no Jesus Homem cuja reconstrução indiciária é mais fictícia do que qualquer outra coisa, visto que os rudimentos para tal projeto são tão esfarelados que não podem produzir nada que seja coerente; esse núcleo duro revolucionário em que sucumbiu a identidade de Cristo na nova teologia se presta a todo tipo de instrumentalizações.

Deste modo, o cenário resumidamente por ser descrito nesses termos :

1. Paganismo antigo – panteão de deuses sem conexão moral

2. Judaísmo pós-exílico – monolatria rumo ao monoteísmo (Deus justo) com conexão moral

3. Cristianismo – monoteísmo trinitário (Deus amor) com conexão moral mais elevada ainda

4. Situação atual do cristianismo pós-moderno – monoteísmo trinitário dogmático, sem conexão moral para além das agendas sociais da revolução do momento.

Como se vê claramente, trata-se de uma redução do cristianismo à estrutura do paganismo antigo (relação entre os nn. 1 e 4), em que Deus se reduz a expressões humanas, com algumas pinceladas de Divina Revelação.

Tudo isso tem duas consequências terríveis.

A primeira é a inevitável falsificação de Deus. Um Deus que não se importa com o bem ou o mal, que é indiferente à justiça ou injustiça praticada pelos seus filhos, que trata o santo e o ímpio do mesmo modo, é injusto, não tem razão de ser. Esse tipo de abordagem ética conduzirá inevitavelmente ao ateísmo.

A segunda é o enclausuramento espiritual do homem. O processo de santificação é um progressivo caminho de espiritualização, em que o homem vai deixando o atolamento no mundo dos sentidos e vai entrando na liberdade do espírito. Nada disso pode acontecer sem o refreamento das paixões e a submissão destas à ordem da razão iluminada pela fé. Desconectar a dogmática da moral nada mais é que tornar a própria dogmática apenas um conjunto de fórmulas teóricas, a partir das quais o homem jamais poderá experimentar a intimidade da vida da graça.

É exatamente esse isolamento teologal, que faz da teologia uma ciência de tipo racionalista, espiritualmente marginalizada, o que permite que alguns cheguem a aberrações desse tipo, como a paganização do cristianismo pelo cancelamento da moral. Talvez não haja modo mais claro de expressar aquilo que São Paulo chama de ‘apostasia’ (2Ts 2,3) e que Jesus chama de ‘anomia’ (Mt 24,12), ou seja, rejeição da lei moral.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/08/24/a-paganizacao-do-cristianismo/