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sexta-feira, 21 de março de 2025

Música e paz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Ricardo Abrahão 

 

‘Um dos maiores poderes que a música tem é a possibilidade de amenizar as dificuldades da vida. Os arqueólogos sempre fizeram descobertas muito valiosas sobre instrumentos musicais e sonoros e suas respectivas funções. A música sempre esteve presente nas mais variadas situações humanas, nos rituais, nas danças, na organização social, nos diversos trabalhos no campo e mais do que tudo nas formas de expressão da espiritualidade; no entanto, a paz ganha de todas as outras situações : música que cura e pacifica o espírito.

Temos vivido momentos incertos, confusos e uma enorme onda de ausência da paz, desde a interior até entre fronteiras. Algumas pessoas não possuem nem mesmo algum momento de paz. Quero recordar um homem que não fez outra coisa pela Igreja e pelo mundo a não ser promover a paz : o Papa João XXIII. Angelo Giuseppe Roncalli desde menino queria ser ‘apenas um padre do campo’  e sua luta por ver um mundo melhor foi incansável. O menino que um dia se tornou Papa legou a todos o Sacrosantum Concilium e uma das mais belas e necessárias encíclicas, a Pacem in Terris. Todo músico católico tem a mais profunda obrigação de estudar o documento sobre música contido no Concílio Vaticano II e também entender as relações entre paz e manifestações sonoras.

A igreja é um espaço físico que promove a paz e a união. Todos os sons dentro dela devem permanecer mergulhados nos propósitos da paz. Os músicos podem emitir sons que pacificam os corações dos que procuram uma espiritualidade saudável e equilibrada. Não há encontro de amor sem a paz, ela deve chegar primeiro e os primeiros dentro das funções litúrgicas que devem meditar sobre a própria paz de espírito são os músicos. Uma pergunta que sempre guia o coração do músico é : o que estou fazendo aqui? É sempre necessário recordar, ou seja, fazer o coração sentir novamente. Que São João XXIII seja uma excelente referência aos que desejam promover a paz no mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musica-e-paz.html


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Musicalidade do Espírito Santo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 

 

‘Musicalidade e espiritualidade andam juntas. Nosso espírito, nosso mundo psíquico, nossa mente não se organizam sem uma escuta equilibrada e disposta. Para escutar é necessário disposição, ou melhor, colocar-se em posição – interna e externa – de realização da escuta. Do contrário, o risco de viver num mundo idealizado, imaginário e muitas vezes alucinado é muito grande. O que adiante ter ideias lindas sem nenhuma realização, isto é, sem transformá-las em realidade? A escuta só é verdadeira quando é viva! Ela vem de dentro ao encontro do outro e, dessa forma, ‘(…) onde dois ou mais estiverem reunidos, eu estarei no meio deles’ (Mt 18,20).

Musicalidade é também o encontro da música interior com a música e os sons externos, ou seja, a presença do outro, do diálogo, daquele que diversifica e nos convida a sair, ir ao encontro. A música é para ser ouvida, escutada, contemplada. Quem toca, toca porque ouve e toca para o outro ouvir. Em seu livro O poder do silêncio, Eckhart Tolle escreve : ‘A verdadeira inteligência atua silenciosamente. A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontradas’. Na liturgia só pode haver espaço para amor, calma e beleza!

A música sacra deve ser trabalhada como a arqueologia, que descobre o objeto de origem com paciência, inteligência e cuidado. O Espírito Santo está pronto dentro de cada ser humano desde a origem da criação até a eternidade. O Espírito Santo é inteligência. O trabalho do coração é descobrir esse espírito por meio da beleza e do amor. Maurício Meschler, no livro O dom do Pentecostes, diz que ‘a Eucaristia é a obra magnífica do amor de Deus’ e ‘mais íntima ainda é a relação que com o Espírito Santo têm os efeitos da Eucaristia’ e ainda diz que ‘o Espírito Santo que habita em nós quer voltar à sua origem’. Meu grande amigo, Cláudio Pastro, ensinou a mim muitas coisas sobre a beleza do Espírito Santo e escreveu em seu livro O Deus da beleza : ‘A beleza não é um produto do ser humano; está tão acima dele! Ela o atrai, o seduz e, assim, o ser humano não vive sem ela’. 

Como viver o cristianismo sem a musicalidade do Espírito Santo? ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça’. (Mt 8,8)’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musicalidade-do-espirito-santo.html

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pio XII e a Música

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em Roma no dia 2 de março de 1876 e faleceu em Castelgandolfo no dia 9 de outubro de 1958. Pio XII foi eleito Papa no dia 2 de março de 1939, com um pontificado dotado de muitos elementos marcantes para a história da Igreja. Seu documento sobre música sacra – Carta Encíclica Musicae Sacrae Disciplina – é fundamental até hoje por conter muitos elementos que trazem sentido à música na liturgia. Com grande maestria que lhe era própria, ele ressalta que o artista na Igreja deve ser inspirado pelo amor e pela fé. Vejam-se os parágrafos 11 e 12 : ‘Isso, se vale para toda obra de arte, claro é que deve aplicar-se também a respeito da arte sacra e religiosa. Antes, a arte religiosa é ainda mais vinculada a Deus e dirigida a promover o seu louvor e a sua glória, visto não ter outro escopo a não ser o de ajudar poderosamente os fiéis a elevar piedosamente a sua mente a Deus, agindo ela, por meio das suas manifestações, sobre os sentidos da vista e do ouvido. Daí que o artista sem fé, ou arredio de Deus com a sua alma e com a sua conduta, de maneira alguma deve ocupar-se de arte religiosa; realmente, não possui ele aquele olho interior que lhe permite perceber o que é requerido pela majestade de Deus e pelo seu culto. Nem se pode esperar que as suas obras, destituídas de inspiração religiosa – mesmo se revelam a perícia e uma certa habilidade exterior do autor –, possam inspirar aquela fé e aquela piedade que convêm à majestade da casa de Deus, portanto, nunca serão dignas de ser admitidas no templo da Igreja, que é a guardiã e o árbitro da vida religiosa. Em vez disso, o artista que tem fé profunda e leva conduta digna de um cristão, agindo sob o impulso do amor de Deus e pondo os seus dotes a serviço da religião por meio das cores, das linhas e da harmonia dos sons, fará todo o esforço para exprimir a sua fé e a sua piedade com tanta perícia, beleza e suavidade que esse sagrado exercício da arte constituirá para ele um ato de culto e de religião e estimulará grandemente o povo a professar a fé e a cultivar a piedade. Tais artistas são e sempre serão tidos em honra pela Igreja; esta lhes abrirá as portas dos templos, visto comprazer-se no contributo não pequeno que, com a sua arte e com a sua operosidade, eles dão para um mais eficaz desenvolvimento do seu ministério apostólico’ (Papa Pio XII, Carta Encíclica Musicae Sacrae Disciplina).

Desse modo, o músico como artista dentro da liturgia deve ser munido dos principais sentimentos que tocam a alma do cristão e aumentam a esperança no coração de todos os que se encontram na igreja. O músico cristão deve amenizar as angústias dos corações, fazendo valer o fundamento cristão de que ‘a boca fala do que está cheio o coração’.

Que os músicos litúrgicos jamais se esqueçam do grande amor de Deus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pio-xii-e-a-musica.html


terça-feira, 13 de agosto de 2024

Música, espírito e beleza

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘A beleza é o ponto central na vida do artista. Ela é condutora e meta ao mesmo tempo. Ao cristianismo o conceito de beleza é vital, pois nada pode ser mais belo do que o próprio Cristo! 

Meu querido amigo Cláudio Pastro muito ensinou a todos sobre as artes e a liturgia. Em seu livro O Deus da beleza nos oferece palavras esclarecedoras, conceitos estéticos e a relação com Deus : ‘Hoje, o que chamamos de beleza está completamente distante de seu centro, de suas raízes, do elemento gerador da própria beleza’. Cláudio se refere ao consumismo e ao comércio que se postam como os ‘produtores’ e não simplesmente portadores da beleza, assunto muito sério nos dias de hoje, inclusive nas igrejas. Há correntes entre religiosos e leigos que associam as expressões do belo como produto de uma sociedade consumista e distante da pobreza cristã. Acabam por não entender nem a beleza nem a verdadeira simplicidade dos pobres de coração.

O músico cristão deve ser pobre, humilde, manso de coração. É pobre quem descobre dentro de seu ser a beleza do Espírito Santo e se deixa conduzir por essa presença suave que a tudo dá vida e equilíbrio. A música sacra é a mais silenciosa resposta do amor de Deus tocando o fundo do coração, abrindo as portas da humanidade para a vida infinita. Jesus ensina no Evangelho que se pode reconhecer uma árvore pelos frutos que dela saem; da mesma forma se pode reconhecer um músico católico pelo amor que tem à liturgia e por total entrega à mais esplêndida beleza, a Eucaristia Ela é tudo! A música deve ser, assim, a reverberação do Espírito Santo na humanidade de quem compõe, toca, canta, ouve. É questão de harmonia e inteligência espiritual, capacidade de percepção que só o pobre de si mesmo pode sentir. Sentir não é saber que existe. Sentir é sentir. Deus vem na brisa suave. É preciso meditar, silenciar a vaidade e o orgulho. É preciso orar. A oração desenvolve a inteligência do coração. Em seu livro O poder do silêncio, Eckhart Tolle escreve : ‘A verdadeira inteligência atua silenciosamente. A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontradas’. Na liturgia só pode haver espaço para amor, calma e beleza.

A música sacra deve ser trabalhada como a arqueologia, que descobre o objeto de origem com paciência, conhecimento e cuidado. O Espírito Santo está pronto dentro de cada ser humano desde a origem da criação até a eternidade. O trabalho do coração é descobrir esse espírito por meio da beleza e do amor. Maurício Meschler, no livro O dom do Pentecostes, diz que ‘a Eucaristia é a obra magnífica do amor de Deus’ e ‘mais íntima ainda é a relação que com o Espírito Santo têm os efeitos da Eucaristia’. Música é beleza e espírito do amor de Deus. Meschler ainda diz que ‘o Espírito Santo que habita em nós quer voltar à sua origem’.

‘A beleza não é um produto do ser humano; está tão acima dele! Ela o atrai, o seduz e, assim, o ser humano não vive sem ela.’ (Cláudio Pastro).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musica-espirito-e-beleza.html

terça-feira, 11 de junho de 2024

Musicalidade e mansidão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 

 

‘Tem circulado entre a fala de pacientes do meu consultório de psicanálise e pessoas da minha convivência diária a constatação de que, em geral, a maioria não tem escutado bem. Não são questões auditivas. São questões de escuta atenta. Então, reflito bastante sobre tudo o que me dizem e prefiro não encontrar ‘culpados’, ou seja, colocar a culpa em redes sociais e aparelhos digitais, o que muitos terapeutas tem feito. Minha preferência é pensar que não estamos nos concentrando o suficiente na musicalidade da escuta. Afinal, música e escuta necessitam concentração.

Proponho uma reflexão baseada na escuta musical : Jesus concentrou com precisão o coração como o lugar onde a escuta é eficaz. Ele diz que o caminho é fazer como Ele mesmo, ou seja, sendo manso e humilde de coração. Mansidão e humildade são palavras que fundamentam a história da escuta humana. Os sábios nos guiaram por caminhos seguros e foram homens de excelente escuta. Atualmente há uma grande procura sobre a música como ferramenta de cura, meditação, equilíbrio e paz.

O cristianismo é mansidão e humildade e, para ser chamada música cristã, os sons musicais na Igreja necessitam veicular e promover acesso à mansidão e à humildade no coração humano. Do contrário, torna-se muito grande o risco de colocar o coração nas deturpações da vida. O Coração de Jesus é a música do Amor por excelência.

É tempo de parar e aprender a escutar a Voz que canta no Sagrado Coração de Jesus, evitando a dispersão e promovendo a concentração. A musicalidade do Coração Divino rege acordes que conduzem, os que verdadeiramente escutam, ao caminho seguro da verdadeira paz. Nossa única tarefa é aprender a escutar sempre. Que o Amor seja nossa música!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musicalidade-e-mansidao.html

domingo, 14 de abril de 2024

Música e saúde

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Muito já se falou sobre a relação entre música e saúde e incontáveis trabalhos pelo mundo têm comprovado os efeitos da música no corpo e na mente. Sendo assim, não há possibilidade de não entendermos a responsabilidade que temos sobre os sons que emitimos aos ouvidos do outro. Os sons podem ajudar, organizar e oferecer saúde ao ser humano, no entanto, se empregados de forma desequilibrada, podem causar muitos males.

A principal tarefa do músico litúrgico é o equilíbrio. A base do equilíbrio é o conhecimento. Alegar ser instrumento de Deus na música litúrgica exige conhecimento musical e humano. Não basta a tal da boa vontade, muitas vezes tão deturpada, é necessário juízo diante da execução musical. Como pode uma pessoa dizer que é instrumento de Deus quando desconhece a própria criação? Como criatura, deve-se conhecer seu Autor. É nesse ponto que encontramos uma imensa desconexão entre uma coisa e outra. A música deve estar em consonância perfeita entre Criador e criatura, desse modo, o conhecimento é fundamental para que se expresse com profunda ternura o verdadeiro valor da Eucaristia na vida do católico. 

O ambiente onde se celebra a Eucaristia deve ser saudável em todos os sentidos, portanto, os sons emitidos nesse ambiente não podem em hipótese alguma provocar dissonâncias entre corpo e alma. Por exemplo : o sistema nervoso se defende do volume alto, o que desconstrói o espírito de escuta. A desafinação também é uma forma de desconexão com o corpo. O monge beneditino Anselm Grün nos alerta muito sobre o perigo de uma espiritualidade adoecida e se expressa de maneira clara e feliz em diversos livros sobre a importância de nos conhecermos o suficiente para encontrarmos Deus dentro de nós. No livro A saúde como tarefa espiritual ele traz um importante alerta para evitarmos uma espiritualidade asfixiante : ‘A espiritualidade neurótica reprime a sombra e agarra-se forçosamente a ideais, sem jamais conseguir realizá-los’. O neurótico deseja, mas não realiza. Música é realização. Eucaristia é realização.

No Evangelho de João, Jesus diz ser o pastor do rebanho e suas ovelhas o seguem. Discipulado é seguimento. Suas ovelhas são os que ouvem sua voz, porém, não basta ouvir : é necessário seguir, colocar-se em ação, entender a mensagem. O músico litúrgico deve estar pleno do Espírito para bem servir ao Senhor com o coração afinado à voz que diz ‘Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem’ (Jo 10,14). Quando a voz do Pastor se faz presente no coração do músico, nada o impede de dedicar-se inteiramente aos estudos, ao treino e ao trabalho que a música exige como reflexo de toda a criação de Deus.

Que a música litúrgica nos conduza à saúde do corpo e da alma, fazendo ressoar o Espírito Santo em todo o tempo, e que nossos corações cantem como no Salmo 83,5-6 : 

‘Felizes os que habitam vossa casa;

para sempre haverão de vos louvar!

Felizes os que em vós têm sua força,

e se decidem a partir quais peregrinos!’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musica-e-saude.html


terça-feira, 27 de junho de 2023

As cordas do coração: uma história musical

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ana Lydia Sawaya


‘A música tem a capacidade de transformar-nos, de mover-nos, co-mover-nos, carregar-nos junto consigo, e nos fazer mudar de posição, de pensamento e de sentimento. Um pesquisador que estudou esse fenômeno descreveu-o assim : 

Uma canção tem o inexplicável poder de sintetizar em três ou quatro minutos um momento marcante na vida de alguém. Ao ouvir de surpresa ‘aquela’ música no rádio, emoções como saudade, alegria, tristeza ou nostalgia vêm à mente e podem alterar o humor do dia, até mesmo levar alguém a tomar atitudes ou, em alguns casos, repensar sua existência. Mas muitas vezes essa experiência (não julgada) acaba assim que começa a próxima. No oposto, quando ouvida pela primeira vez, uma composição pode ser tão marcante que se tornará referência para as futuras lembranças e sensações. (G. Junior, Cardinales bonitas, Revista FAPESP 120)

Por que é assim? O nosso coração é feito de cordas e quando estas se sintonizam com uma harmonia certa, todo o nosso ser se comove. O coração humano foi feito para algo, alguém que está fora dele, além dele, e nosso coração estará sempre procurando-o. Dizia Santo Agostinho : ‘o nosso coração foi feito para ti Senhor e está inquieto enquanto não repousa em ti’ (Confissões I, 1,1).Todos os seres humanos são assim, quer tenham uma fé ou não. Há uma canção muito famosa Allelluyah de Leonard Cohen que conta a história do rei Davi e diz que até Deus se comoveu com os acordes que Davi compunha quando tocava sua lira, tornando-se para sempre seu amigo :

There was a secret chord / That David played / And it pleased the Lord. / It goes like this / The fourth, the fifth / The minor fall / The major lift / The baffled King / Composing hallelluyah

Havia um acorde secreto /Que David tocou / E que agradou ao Senhor. / É assim / A quarta, a quinta / A nota menor cai / A nota maior sobe / O rei perplexo e maravilhado / Compondo hallelluyah

É preciso saber reconhecer com inteligência e atenção, com cuidado de si, esses momentos maravilhosos. Neles reside não só uma profunda experiência de felicidade, mas a descoberta da direção certa na vida, condizente com o nosso ‘eu’. 

O mundo de hoje nos confunde e nos subtrai esses momentos de verdade, nos entregando espaços e tempos ilusórios, que podem nos excitar, mas não nos maravilhar. É preciso saber reconhecer a diferença imensa que existe entre o ser excitado por algo e o ficar maravilhado. A primeira é uma experiência alienante, enquanto a segunda é conforme o nosso coração. Essa experiência é como uma oração : nos coloca em contato com o infinito, com o fora do tempo, com a verdade do tempo. E com o desejo verdadeiro que mora no nosso coração.

Há uma história impressionante que aconteceu com uma das maiores pianistas russas do século XX, Marija Judina. Sua história é muito tocante, viveu sua vida vendo seus amigos artistas e escritores sendo presos e mortos pelo regime. Mas ninguém teve a coragem de tocar nela até o fim da sua vida…

Conta-se que uma das suas execuções mais famosas era o Concerto n. 23K 488 de Mozart do qual ela tocava o segundo movimento interpretando-o como uma oração, um réquiem para as vítimas dos campos de concentração de Stalin. Um dia Stalin escuta no radio uma apresentação dela tocando esse concerto, e fica tão impressionando que pede que se compre imediatamente o disco. Mas o disco não existia porque o concerto tinha sido transmitido ao vivo (porque ela era proibida pelo regime de gravar). Assim, sem ter coragem de explicar que a pianista não condizia com a ortodoxia política do ditador e não era agraciada com muita publicidade e sucesso, os comissários da rádio convocam com urgência Marija e a orquestra, o concerto é gravado durante uma noite às pressas e o disco, confeccionado com poucos exemplares e é entregue ao ilustre admirador. Stalin é generoso e manda uma grande soma de dinheiro para a pianista. Ela lhe envia uma carta de resposta dizendo : ‘Agradeço-lhe muito pela sua ajuda, Iosif Vissarionovič. Rezarei dia e noite pelo senhor e pedirei a Deus que perdoe os seus graves pecados contra o povo e a nação. Deus é misericordioso, o perdoará. O dinheiro o entregarei para a restauração da minha paróquia’. Conta-se que o disco com o concerto dela estava no gramofone de Stalin, quando o encontraram morto (cf. G. Parravicini, Marija Judina, più della musica, ed. La casa di Matriona, 2010, Milano, Italia, p. 81). Era exatamente a música que ela tocava para as milhões de pessoas mortas pelas atrocidades dele… 

O que é um coração misericordioso?

Que força divina tem uma oração de intercessão pelas pessoas que realizaram grandes atrocidades na história? 

Marija Judina foi marginalizada pela cultura oficial na União Soviética, mesmo sendo reconhecidamente um prodígio em termos de perfeição musical e técnica. O regime a considerava um perigo e temia a sua fé, declarada e pública. Marija possuía um temperamento indomável e uma total independência no seu modo de ver tudo.

Estas características não eram simplesmente oriundas do seu caráter, mas nasciam de um núcleo interior que ela mesmo reconhecia como ineliminável, irredutível e sempre presente em cada ser humano. Gostava de repetir, ao falar de si mesma, ‘Vivo em um anelo de simpatia mundial’, e ainda, ‘Tenho uma consciência muito clara dos meus pecados e das minhas fraquezas, mas eu me atrevo a pensar’. 

Dizia que a grandeza do ser humano não está nos seus dotes, mas no ‘impulso para ousar’ que nasce com cada pessoa, no seu coração que é sede de infinito, e morre, somente, depois dela. Repetia, citando Dostoevskij, que ‘seria necessário cortar a língua de Cícero, cavar os olhos de Copérnico, lapidar Shakespeare…’ Dava-se conta que ela tinha recebido um grande dom e por isso estava sempre disposta a compartilhá-lo generosamente com todos. Muitas vezes foi à fronte para tocar para os soldados durante a guerra…

Quando seus dedos tocavam o teclado do piano, afirmavam seus ouvintes, era-se transportado para um outro mundo, transfigurado, que purificava a realidade das misérias e miudezas, infundindo nelas sentido e esperança, dando-lhes beleza. O fascínio que Marija causava nos seus ouvintes vinha do fato, diziam, que os seus não eram apenas concertos, mas um testemunho, uma ‘apresentação sacra’, uma ‘catarse purificadora’.

Marija Judina buscou a vida inteira a beleza, jogando-se na realidade com inteireza e apaixonadamente; com interesse e simpatia por tudo e por todos que encontrava. A beleza, como padre Vsevolod Špiller disse em seu funeral, não era para ela uma categoria estética, mas a energia da gloria de Deus que transfigura o mundo… abrindo caminho para o outro mundo, para uma realidade maior, onde habita a graça de Deus. 

Essa sua urgência se traduziu também na busca pela nova música contemporânea e pelos compositores da sua época, como ela mesma explicou uma vez : a novidade nasce cada dia, quando se espera pelo milagre inaudito que vem de Deus, do mundo, de outra pessoa, para nos surpreender.

Marija nasce em 9 setembro de 1899 em Nevel’ próximo à Bielorrússia. Era judia e seu pai um médico reconhecido. A família vivia em um território onde, desde Catarina a Grande, era permitido que os judeus vivessem em paz, até serem expulsos e ter suas casas queimadas (inclusive a dela) pelos nazistas em 1941. 

Descobre cedo sua arte e sua vocação e a necessidade de se entregar sem reservas. É enviada pela família, ainda muito jovem, ao conservatório, e tem uma trajetória brilhante e excepcional. Frequenta grupos onde se discute filosofia, arte, religião, e tem muitos amigos entre intelectuais, artistas e religiosos como Pavel Florenskij, Aleksandr Men, Dmitrij Šostakovič, Boris Pasternak. Muitos dos quais vê serem presos e mortos, uma constância ao longo de toda a sua vida…

Descobre o cristianismo, se converte e torna-se ortodoxa. Escreverá no seu diário : Cada pessoa deve justificar o seu próprio caminho pessoal. A minha fé na excepcionalidade e sublimidade da arte o justifica. No fundo, nós todos – homens – chegaremos no mesmo ponto, à vida do espírito, a um outro plano do ser, mas chegaremos por estradas diversas, uns através da arte, outros através do altruísmo, outros ainda, talvez, através do amor. Cada um a seu modo : as estradas são tantas quantos são os homens. É nesta multiforme variedade, que conduz à unidade absoluta, onde reside toda a beleza e a profundidade da vida humana. E nisto está também a dor (12/11/1916).

Recebe grandes prêmios como pianista, mas vai progressivamente sendo marginalizada pelas suas posições abertamente contra o regime soviético. É impedida de tocar em grandes salas de concerto, assim como de gravar recitais. Tudo o que ganhava distribuía a quem tinha mais necessidade do que ela. Termina sua vida quase sem nada. Quem era afinal Marija Judina? Um mistério para todos os que a conheceram e também para nós. Alguém que tinha o extraordinário fascínio de estar na terra, mas já ser cidadã do céu. Parravicini diz em seu livro que o seu era um coração misericordioso semelhante àquele descrito pelos Padres da Igreja : um coração que queima por toda a criação, e se derrete, e não pode suportar escutar ou ver o mínimo sofrimento em qualquer criatura, e em cada instante oferece orações e chora por elas, por causa da grande misericórdia que a comove, à semelhança de Deus (Isaac o Sírio). Como será que Deus escutou suas orações pela sua grande Rússia e por seu terrível ditador Stalin, um dos mais cruéis da história?… O segredo de um coração misericordioso pertence a Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/06/25/as-cordas-do-coracao-uma-historia-musical/

sábado, 3 de maio de 2014

Vaticano realiza pesquisa sobre música sacra

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘A Congregação para o Culto Divino e o Pontifício Conselho para a Cultura enviaram um questionário às conferências episcopais, institutos religiosos maiores e faculdades de teologia para conhecer melhor, em perspectiva pastoral, o panorama da música sacra nas diversas comunidades.

Com o título ‘Música sacra, 50 anos depois do Concílio’, o amplo questionário faz perguntas que vão desde os encarregados da música sacra até os instrumentos utilizados, passando pelos conhecimentos dos músicos sobre a liturgia e pelo uso ou não do canto gregoriano na liturgia dominical. Sobre a enculturação com a música local, o texto recorda o equilíbrio necessário e indica a importância da sacralidade e a correspondência com o rito que se celebra. Criticam-se as músicas ambientais de tipo ‘new age’, que criam estados artificiosos, e destaca-se que a música litúrgica deve ‘predispor a alma ao acolhimento do silêncio sacro’, porque ela ‘guia o indivíduo e a comunidade inteira à plena intimidade com Cristo, na qual a oração se torna adoração e canto de louvor’.

‘O objetivo primário de todo caminho sério de formação deverá ser o de mostrar aos colaboradores da Igreja a missão universal a que ela está consagrada’, para, assim, anunciar o Cristo ‘através da humilde oferta do próprio talento’. Recorda-se também que ‘o patrimônio universal da música sacra guarda, para o bem de toda a Igreja, uma riquíssima herança teológica, litúrgica e pastoral’.

‘O espírito de fidelidade, que conhece também a sadia audácia, deverá oferecer à Igreja contemporânea um repertório musical vivo e atual, que mostre os múltiplos percursos da arte cristã empreendidos ao longo de dois milênios e que, ao mesmo tempo, se mostre capaz de uma autêntica renovação’.

O questionário indaga como se vive o encontro com uma tradição musical proveniente de outras culturas, em tempos de globalização e de novos movimentos eclesiais, e pergunta se há um equilíbrio são entre enculturação, acolhimento e amadurecimento da própria identidade cultural.

‘Eventuais concertos deverão respeitar as claras indicações do magistério’, além de ‘manifestarem um caráter espiritual que os reoriente, inequivocamente, ao contexto sacro’.

O documento reconhece que ‘a evolução das linguagens musicais impôs à sensibilidade das novas gerações, particularmente sob os impulsos da globalização, novos critérios para a escuta, participação e interpretação’, embora tais linguagens tenham, conforme indicado por Bento XVI, ‘a finalidade de transmitir a Mensagem da Salvação em lugares e modos concordes com o novo areópago cultural’.

O documento convida a ‘uma redescoberta global do sentido da música e a um aprofundamento no valor da música sacra no contexto da liturgia’, recordando, também, que ‘a participação plena da assembleia litúrgica requer dois animadores de toda a assembleia para se chegar à mais alta expressão de solenidade’.

‘O canto e a música adquirem, no contexto ritual, um valor sacramental, já que ambos oferecem uma válida contribuição na comunicação da realidade divina cuja presença se realiza pela ação litúrgica’. Por isso, ‘a música litúrgica deve responder aos seus requisitos específicos : a plena adesão aos textos que apresenta, a consonância com o tempo e com o momento litúrgico a que está destinada e a adequada correspondência aos gestos que o rito propõe’.

Destaca-se também que o ‘critério da ‘novidade na fidelidade’ orienta todo o processo de enculturação, a fim de que a música sacra, propondo ‘um canto novo’, se torne veículo de uma tradição viva e criativa’. Observa-se a necessidade de os especialistas terem a devida competência para ‘a adaptação da música sacra nas regiões que possuem uma tradição musical própria, particularmente nos países de missão’.

‘A beleza, portanto, não é um elemento decorativo da ação litúrgica; é um elemento constitutivo, já que é um atributo do próprio Deus e da sua revelação. Conscientes de tudo isto, temos de devotar grande atenção para que a ação litúrgica resplandeça segundo a sua própria natureza’, como ressaltou Bento XVI na Sacramentum Caritatis, 35.

O texto enfatiza também que ‘beleza e inspiração religiosa não garantem uma plena correspondência com as exigências do rito, e a ação litúrgica pede que a música dedicada a ela possua o requisito da manifesta sacralidade (...) Como parte integrante da liturgia, a música sacra se serve da capacidade sobrenatural de favorecer e promover ‘a glória de Deus e a santificação e edificação dos fiéis’ (Pio X)’.

O documento pede cuidados com o uso de ‘música de caráter minimalista, definida como ‘música ambiental’ ou de estilo ‘new age’. Em não poucas ocasiões, foi usado fundo musical na adoração eucarística, em cujo marco, porém, ela não determina estados de ânimo adequados à oração pessoal’.

‘A oração nos abre, pela ação do Espírito, à contemplação mística do mistério de Cristo’, mas ‘a música ambiental suscita estados de consciência que, de certo modo, são artificiosos e inadequados, mostrando certa familiaridade com as refinadas técnicas de manipulação da mente cuja eficácia se conhece na psicologia subliminar’.

A música litúrgica deve ‘predispor a alma ao acolhimento do silêncio sacro’ e guiar o indivíduo e a comunidade ‘à plena intimidade com Cristo, na qual a oração se faz adoração e canto de louvor’.

O documento pode ser lido em www.cultura.va, que disponibiliza o questionário em português, italiano, espanhol, francês e inglês.’


Fonte  :

* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/vaticano-realiza-pesquisa-sobre-musica-sacra


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Santa Cecilia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Santa Cecilia, martirizada entre 176 e 180 D. C., durante o império de Marco Aurélio, é profundamente venerada pela Igreja do oriente e do ocidente. Considerada padroeira da música sacra desde o século XV, sua memória é festejada no dia 22 de novembro, dia da música e dos músicos.
Eis uma parte da Liturgia das Horas nesta data :
 
 PRÓPRIO DOS SANTOS
Ofício das Leituras
 
Segunda leitura
Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo
 
 Cantai a Deus com arte e com júbilo

‘Louvai o Senhor com a cítara, na harpa de dez cordas Salmodiai! Cantai-lhe um cântico novo! (Sl 32,2.3). Despojai-vos da velhice; conhecestes um cântico novo! Novo homem, nova aliança, novo cântico. O cântico novo não pertence aos homens velhos. Somente o aprendem os homens novos, renovados da velhice pela graça e já pertencentes à nova aliança, que é o reino dos céus. Por ele anseia todo o nosso amor e canta um cântico novo. Cante o cântico novo não a língua mas a vida.

Cantai-lhe um cântico novo, cantai bem para ele! Alguém pergunta como cantar para Deus. Canta para ele, mas não cantes mal. Ele não quer que seus ouvidos sejam molestados. Cantai bem, irmãos. Diante de um musicista de bom ouvido, dizem-te para cantar de modo que lhe agrade. Ora se não foste instruído na arte musical, temes cantar para não desagradar ao artista. Não sabendo que és ignorante, ele te repreenderá. Quem se oferecerá para cantar bem a Deus, a ele que de tal modo julga o cantor, de tal modo examina tudo, de tal modo sabe escutar? Quando poderás apresentar um canto com tanta arte que absolutamente em nada desagrades aos ouvidos perfeitos?

Eis que ele te dá um modo de cantar: não procures palavras, como se pudesses explicar aquilo com que Deus se deleita. Canta na jubilação. É isto cantar bem para Deus, cantar na jubilação. O que é cantar no júbilo? Escuta, não se pode expressar por palavras aquilo que se canta no coração. De fato, aqueles que cantam seja na ceifa, seja na vinha, seja em qualquer outro trabalho cheio de ardor, começam com palavras de cantigas a exultar com alegria; depois, a alegria é tanta que já não podem dizê-la, então abandonam as sílabas das palavras e deixam-se levar pelo som do júbilo.

Júbilo é um som a significar que do coração brota algo impossível de se expressar. E quem merece esta jubilação, a não ser o Deus inefável? É inefável o que não podes falar. E se não o podes falar e não deves calar-te, o que te resta senão jubilar? Alegre-se o coração sem palavras, e a imensidão das alegrias não conheça o limite das sílabas. Cantai para ele com arte e com júbilo (cf. Sl 32,3).’


Fonte :
(Ps 32, sermo 1,7-8: CCL 38,253-254) (Séc.V) – ‘In Liturgia das Horas IV, pg. 1469/1470’. 

sábado, 24 de março de 2012

Canto Gregoriano : influência e vivificação

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)
                                        
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