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segunda-feira, 20 de abril de 2026

«Que os fortes nos ouçam para que não se tornem fracos na injustiça»

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Andrea Tornielli


‘Nasceu a 2 de março de 1876, há cento e cinquenta anos. Foi eleito a 2 de março de 1939, dia do seu aniversário. Eugenio Pacelli, Papa Pio XII, escolheu para o seu brasão episcopal a imagem de uma pomba com um ramo de oliveira e o lema Opus iustitiae pax («A paz é fruto da justiça»). Assumiu o pontificado nas vésperas da Segunda Guerra mundial. Assim que tomou posse, tudo fez para evitar o início do conflito. As suas palavras são atuais como nunca.

Na sua mensagem radiofônica de 24 de agosto de 1939, imediatamente após o Pacto Molotov-Ribbentrop e uma semana após a invasão da Polónia pelo exército alemão, Pio XII disse : «Hoje, quando, apesar das Nossas repetidas exortações e do Nosso particular interesse, os receios de um sangrento conflito internacional se tornam cada vez mais persistentes; hoje, quando a tensão dos ânimos parece ter atingido um ponto em que o desencadear do terrível turbilhão da guerra parece iminente, dirigimos com espírito paternal um novo e mais fervoroso apelo aos Governantes e aos povos : aos primeiros, para que, deixando de lado as acusações, as ameaças e as causas de desconfiança mútua, procurem resolver as diferenças atuais pelo único meio adequado para tal, ou seja, através de acordos comuns e leais aos últimos, para que, com calma e serenidade, sem agitação indevida, incentivem as tentativas pacíficas daqueles que os governam».

«É com a força da razão — acrescentou o Papa Pacelli — e não com a das armas, que a Justiça avança. E os impérios não fundados na Justiça não são abençoados por Deus. A política emancipada da moral trai aqueles que a desejam assim». Estas palavras da mensagem radiofônica permanecem célebres : «O perigo é iminente, mas ainda há tempo. Nada se perde com a paz. Tudo se pode perder com a guerra».

O Pontífice apelou à negociação e à diplomacia : «Que os homens voltem a compreender-se uns aos outros. Que retomem as negociações. Negociando com boa vontade e com respeito pelos direitos mútuos, perceberão que negociações sinceras e eficazes nunca estão impedidas de alcançar um sucesso honroso. E que se sintam grandes — verdadeiramente grandes — se, silenciando as vozes da paixão, tanto coletiva como individual, e permitindo que a razão reine suprema, tiverem poupado o sangue dos irmãos e a ruína da pátria».

Esta mensagem incluía ainda um apelo direto aos ‘fortes’ : «Que os fortes nos ouçam, para que não se tornem fracos na injustiça. Que os poderosos nos ouçam, se desejam que o seu poder não seja de destruição, mas sim para apoiar o povo e salvaguardar a tranquilidade, a ordem e o trabalho».

Este apelo, como se sabe, foi ignorado. Durante os anos da guerra, Pio XII, através das suas mensagens radiofônicas, lançou as bases para um novo equilíbrio global, saudando a instituição das Nações Unidas. Poucos meses após o fim do sangrento conflito que custou a vida a mais de 60 milhões de pessoas, na sua mensagem radiofônica de Natal de 1945, afirmou : «Quem procura segurança para o futuro não deve esquecer que a única verdadeira garantia reside na própria força interior, isto é, na proteção da família, dos filhos, do trabalho, no amor fraterno, no abandono de todo o ódio, de toda a perseguição ou opressão injusta contra cidadãos honestos, na leal concórdia entre os Estados, entre os povos».

Na passagem seguinte, o Papa falou sobre aquilo a que hoje chamamos fake news, a manipulação da opinião pública, crucial na promoção de guerras : «Para isso, é necessário que renunciemos em todos os lugares à criação artificial, pelo poder do dinheiro, pela censura arbitrária, pelos julgamentos unilaterais e pelas declarações falsas, de uma suposta opinião pública que move o pensamento e a vontade dos eleitores como caniços agitados pelo vento. Deve-se dar o devido valor à verdadeira e grande maioria, composta por todos aqueles que vivem honesta e pacificamente do seu trabalho, no seio das suas famílias, e que desejam fazer a vontade de Deus».

Pio XII concluiu : «A futura obra da paz visa banir do mundo qualquer uso agressivo da força, qualquer guerra ofensiva. Quem não acolheria de bom grado tal propósito, e especialmente a sua efetiva implementação? Se isto não for apenas um gesto de boa vontade, porém, é necessário excluir toda a opressão e toda a ação arbitrária, tanto interna como externa».’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-04/por-004/que-os-fortes-nos-oucam-para-que-nao-se-tornem-fracos-na-injust.html


 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pio XII e a Música

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em Roma no dia 2 de março de 1876 e faleceu em Castelgandolfo no dia 9 de outubro de 1958. Pio XII foi eleito Papa no dia 2 de março de 1939, com um pontificado dotado de muitos elementos marcantes para a história da Igreja. Seu documento sobre música sacra – Carta Encíclica Musicae Sacrae Disciplina – é fundamental até hoje por conter muitos elementos que trazem sentido à música na liturgia. Com grande maestria que lhe era própria, ele ressalta que o artista na Igreja deve ser inspirado pelo amor e pela fé. Vejam-se os parágrafos 11 e 12 : ‘Isso, se vale para toda obra de arte, claro é que deve aplicar-se também a respeito da arte sacra e religiosa. Antes, a arte religiosa é ainda mais vinculada a Deus e dirigida a promover o seu louvor e a sua glória, visto não ter outro escopo a não ser o de ajudar poderosamente os fiéis a elevar piedosamente a sua mente a Deus, agindo ela, por meio das suas manifestações, sobre os sentidos da vista e do ouvido. Daí que o artista sem fé, ou arredio de Deus com a sua alma e com a sua conduta, de maneira alguma deve ocupar-se de arte religiosa; realmente, não possui ele aquele olho interior que lhe permite perceber o que é requerido pela majestade de Deus e pelo seu culto. Nem se pode esperar que as suas obras, destituídas de inspiração religiosa – mesmo se revelam a perícia e uma certa habilidade exterior do autor –, possam inspirar aquela fé e aquela piedade que convêm à majestade da casa de Deus, portanto, nunca serão dignas de ser admitidas no templo da Igreja, que é a guardiã e o árbitro da vida religiosa. Em vez disso, o artista que tem fé profunda e leva conduta digna de um cristão, agindo sob o impulso do amor de Deus e pondo os seus dotes a serviço da religião por meio das cores, das linhas e da harmonia dos sons, fará todo o esforço para exprimir a sua fé e a sua piedade com tanta perícia, beleza e suavidade que esse sagrado exercício da arte constituirá para ele um ato de culto e de religião e estimulará grandemente o povo a professar a fé e a cultivar a piedade. Tais artistas são e sempre serão tidos em honra pela Igreja; esta lhes abrirá as portas dos templos, visto comprazer-se no contributo não pequeno que, com a sua arte e com a sua operosidade, eles dão para um mais eficaz desenvolvimento do seu ministério apostólico’ (Papa Pio XII, Carta Encíclica Musicae Sacrae Disciplina).

Desse modo, o músico como artista dentro da liturgia deve ser munido dos principais sentimentos que tocam a alma do cristão e aumentam a esperança no coração de todos os que se encontram na igreja. O músico cristão deve amenizar as angústias dos corações, fazendo valer o fundamento cristão de que ‘a boca fala do que está cheio o coração’.

Que os músicos litúrgicos jamais se esqueçam do grande amor de Deus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/pio-xii-e-a-musica.html


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Pio XII e o Holocausto: Realidade ou Revisionismo?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Uma pintura do Papa Pio XII na Universidade Católica da América em Washington, 25 de maio de 2021 | Foto CNS/Tyler Orsburn

*Artigo de Kevin M. Doyle

Tradução : Ramón Lara


‘Em 2004, Marc Saperstein, professor de Estudos Judaicos na Universidade George Washington, ofereceu uma revisão cuidadosa de The Popes Against the Jews: The Vatican’s Role in the Rise of Modern Anti-Semitism, escrito por David Kertzer, professor da Brown University. Saperstein elogiou o relato de Kertzer sobre a opressão sofrida pelos judeus nos territórios papais durante os primeiros dois terços do século 19, mas passou a desafiar poderosamente as alegações de Kertzer sobre o papel do Vaticano na construção da ‘Antecâmara do Holocausto’.

Por coincidência, ambos os professores Saperstein e Kertzer tiveram pais rabinos que serviram como capelães do Exército dos EUA na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Por mais coincidência, o testemunho do rabino Harold Saperstein fornece um bom ponto de partida para a consideração do último trabalho de David Kertzer, The Pope at War : The Secret History of Pius XII, Mussolini, and Hitler.

Diante de sua congregação de Long Island em 1964, o rabino Harold Saperstein abordou a controvérsia em torno de ‘The Deputy’, que apresentou os frequentadores do teatro da Broadway a um pontífice em tempos de guerra mais preocupado com os bens da igreja do que com a vida dos judeus. Saperstein criticou o Papa Pio XII por denúncias de crimes de guerra privadas e por sua fraqueza diplomática e teológica. Ainda assim, Saperstein insistiu ‘por experiência pessoal’ como capelão do Exército dos EUA que o próprio Pio XII fosse creditado com o resgate de judeus romanos pela igreja durante o ataque nazista de outubro de 1943, relatando :

Eu dirigi para o Gueto de Roma. Havia muitas pessoas com a Estrela de Davi no meu Jeep que se aglomeravam ao meu redor. ‘Como você sobreviveu?’, perguntei? 'O papa deu ordens às igrejas e aos mosteiros para nos acolher', disseram, 'e eles o fizeram e salvaram nossas vidas.'

Este relato de Saperstein - um homem instruído, mas mundano que havia sido ferido por um franco-atirador árabe na Palestina em 1939 e trabalhou com o Comitê de Coordenação Não-Violenta Estudantil no Alabama em 1965 era consistente com o relato de Roma libertada pelo vencedor do Pulitzer e colunista do New York Times Anne O'Hare McCormick.

Agora imagine que você é Pio XII em outubro de 1943, logo após a SS da Alemanha ter se movido contra os judeus em Roma. Centenas de judeus já encontraram abrigo nas instituições católicas de Roma, incluindo o próprio Vaticano. (Dentro de oito meses, o número aumentaria muito além de 4.000, um terço dos judeus de Roma.) Você está ponderando se deve arriscar a provocação de denunciar publicamente as prisões dos 1.000 judeus capturados e destinados a morrer. O risco para os judeus que você acolheu na custódia da Igreja não pesaria muito em sua decisão? Não pela avaliação de David I. Kertzer em O Papa em Guerra : A História Secreta de Pio XII, Mussolini e Hitler.

Kertzer insiste em reprovar a reação silenciosa do Vaticano à detenção, mas não reconhece o dilema no terreno apresentado pelos judeus já escondidos. Somente depois de se deparar com uma série aleatória de tópicos não relacionados à perseguição judaica, como o rosário agarrado à amante de Mussolini, Kertzer admite um capítulo depois meramente que Pio estava ‘consciente de que entre o grande número de refugiados escondidos nos edifícios religiosos de Roma havia muitos judeus’. Ele também afirma falsamente que nenhuma evidência mostra que o Papa tenha dirigido instituições para receber judeus.

Quando você conhece os judeus que confiaram suas vidas à Igreja em meio ao terror nazista, você entende as escolhas difíceis, onde podemos aprender com a história e testar nossa imaginação e julgamento moral. Kertzer, no entanto, opta por um poleiro de acusação. Infelizmente, o excesso de zelo e a visão de túnel distorcem sua acusação, de modo que seu veredicto, que se baseia parcialmente no uso seletivo e sensacionalista dos arquivos do Vaticano recém-abertos, é pré-ordenado.

Em seu relato, Pio XII, tolhido por um ‘caráter nervoso’, fracassou como líder moral. Segundo o crítico, não tinha confiança inicial em uma vitória aliada e depois ficou muito preocupado com a influência soviética. O Papa é retratado efetivamente indiferente aos judeus, desconfiado da democracia e excessivamente preocupado em manter o favor entre os católicos alemães.

Se você assinar o The New York Times, poderá visualizar on-line a edição de 28 de outubro de 1939. A manchete do Times de primeira página, acima da dobra, de três colunas diz : ‘O Papa condena ditadores, violadores de tratados e o racismo; e convida para a restauração da Polônia.’ A referência é a ‘Summi Pontificatus’, a primeira encíclica de Pio XII, publicada dois meses após o início da guerra. Os franceses enviaram cópias do texto para as tropas alemãs e, como notado no Palestine Post, a Gestapo impediu a divulgação da encíclica pelas igrejas católicas em Colônia.

Alguém poderia pensar que tal manifesto inaugural forneceria o pano de fundo contra o qual todas as mensagens subsequentes do Vaticano seriam interpretadas pelo mundo devastado pela guerra. Mas em um livro com mais de 600 páginas, Kertzer consegue ultrapassar ‘Summi Pontificatus’ em menos de duas páginas, obscurecendo a importância da encíclica e concentrando-se no giro e na falsa autoconfiança entre nazistas e fascistas. Um leitor desinformado não teria ideia de por que o American Jewish Year Book 1940-41 concordou com o Times que Pio havia ‘insurgido fortemente contra as doutrinas do totalitarismo, racismo e materialismo’, um julgamento que foi compartilhado pelo embaixador francês na Santa Sé , François Charles-Roux.

Rádio Vaticano

Outro exemplo da visão de túnel de Kertzer é seu tratamento da Rádio Vaticano. Ele escreve que, no final de 1940, ‘muitos poloneses se perguntavam por que a Rádio Vaticano, embora ocasionalmente falasse dos crimes soviéticos na Polônia, permaneceu em silêncio sobre a ocupação alemã do país…’ Isso engana o leitor de forma clara.

Em janeiro de 1940, a Rádio Vaticano rejeitou a ocupação da Alemanha explicitamente. Classificando o comportamento nazista na Polônia como pior do que o dos russos, um relatório transmitido em vários idiomas denunciou como ‘judeus e poloneses estão sendo agrupados em 'guetos' separados, hermeticamente fechados e lamentavelmente inadequados para a subsistência econômica dos milhões destinados a viver lá’. Um livro de 1941 prefaciado pelo cardeal Arthur Hinsley, o arcebispo de Westminster que apareceu com seu colega anglicano no Royal Albert Hall para condenar a Kristallnacht anos antes, continha uma transcrição da transmissão. Com menos atraso, a transmissão chegou à primeira página do The New York Times em 23 de janeiro de 1940. Parte da manchete diz : ‘Os alemães são ainda piores que os russos’.

Kertzer não menciona esta ou outras transmissões da Rádio Vaticano. O livro não faz referência às transmissões de outubro de 1940 da Rádio Vaticano pronunciando que ‘a guerra de Hitler, infelizmente, não é uma guerra justa’ ou denunciando os ‘princípios imorais’ dos nazistas, nem a referência de março de 1941 à ‘maldade de Hitler’. Nem o leitor aprenderá sobre o lamento de agosto de 1941 sobre ‘este escândalo… o tratamento dos judeus’ ou as repetidas transmissões de 1942 e comentários sobre a carta do Arcebispo de Toulouse, Cardeal Jules-Géraud Saliège, protestando contra a deportação de judeus na França.

Mais preocupante é a omissão de um discurso transmitido pela Rádio Vaticano e reimpresso no L'Osservatore Romano (outro órgão do Vaticano que Kertzer priva de seu devido). Kertzer relata o discurso de Pio XII ao Colégio dos Cardeais em junho de 1943 : ‘o Papa expressou seu desejo de responder àqueles que pediram palavras de conforto, aflitos como estão', como disse o Papa, 'por causa de sua nacionalidade e sua descendência'.

Em Under His Very Windows, até Susan Zuccotti, uma crítica decidida de Pio XII que Kertzer cita repetidamente, cita o papa completamente. O pontífice expressa compaixão por aqueles ‘atormentados como são por razões de sua nacionalidade ou descendência’ e ‘destinados às vezes, mesmo sem culpa de sua parte, a medidas de extermínio’. Se o italiano ‘travagliati’ se traduz melhor aqui em ‘tormento’ ou ‘problema’ se presta ao debate, mas a omissão de Kertzer da referência ao extermínio é um terrível aviso, um aviso de fatos moldados para se adequar a uma conclusão, e não vice-versa.

Intervenções diplomáticas do Vaticano

O tratamento de Kertzer da intervenção diplomática do Vaticano na Eslováquia é igualmente enganoso. O arcebispo Angelo Roncalli, núncio do Vaticano na Turquia (e mais tarde Papa João XXIII), procurou obter apoio do Vaticano para o transporte para a Palestina de crianças judias ameaçadas de deportação nazista da Eslováquia. Inicialmente, um funcionário descaradamente antissemita revisou o pedido e se opôs com base na ameaça do sionismo às reivindicações católicas na Terra Santa. Essa objeção registrada como o assunto foi objeto de consideração superior. A certa altura, Pio XII enviou um telegrama a Roncalli que ignorou a ideia palestina e, em vez disso, o instruiu a buscar apenas uma parada nas deportações. Pelo relato de Kertzer, Roncalli acabou recebendo instruções para ‘não dar muito apoio à emigração dos judeus para a Palestina’.

Kertzer não nota no que ele descreveu como sua ‘caça ao tesouro’ no arquivo, que o Vaticano considerava o padre como um renegado ‘louco’. Kertzer também pula a frase de abertura de um memorando do Vaticano sobre a Eslováquia uma semana antes : ‘A questão judaica é uma questão de humanidade. As perseguições a que estão sujeitos os judeus na Alemanha e nos países ocupados ou conquistados são uma ofensa à justiça, à caridade e à humanidade’.

Mais amplamente, Kertzer falha em transmitir a vasta gama de intervenções diplomáticas do Vaticano, às vezes bem-sucedidas, mas muitas vezes não, em nome dos judeus, não apenas daqueles que se converteram ao cristianismo, mas também judeus não batizados. O livro O Papa em Guerra termina sem conhecimento dos esforços de resgate diplomático papal em lugares como Hungria, Bulgária, Croácia, França e a própria Alemanha. Evidências das súplicas diplomáticas de Roma, algumas das quais foram noticiadas contemporaneamente pelo menos no New York Times, já estavam disponíveis para leitura nos arquivos do Vaticano anteriormente acessíveis.

O príncipe alemão

Kertzer possui uma importante descoberta em evidências de arquivo das tentativas clandestinas de Pio XII durante a guerra para negociar um melhor tratamento da Igreja maltratada na Alemanha por meio de um príncipe alemão. De fato, os diários do chanceler italiano Galeazzo Ciano publicados em 1946, juntamente com os arquivos alemães publicados em inglês na década de 1950 e os arquivos do Vaticano divulgados em 1965, todos fazem referência ao príncipe intermediário.

Se o objetivo de Kertzer é mostrar a capacidade do Vaticano para a intriga, a longa colaboração de Pio XII com a resistência alemã, amplamente documentada na Igreja dos Espiões de Mark Riebling, teria feito o truque. Peter Hoffman, da Universidade McGill, relata que quando as autoridades alemãs prenderam figuras da resistência (incluindo Dietrich Bonhoeffer) em abril de 1943, o principal conspirador Ludwig Beck notificou Pio XII como sua primeira ordem.

Kertzer não menciona nada disso. O crítico não explica como o apoio papal à resistência, realizado por meio de canais diplomáticos, poderia ter continuado se o Vaticano tivesse decidido abandonar sua pretensão de neutralidade. Tampouco aborda os obstáculos puramente logísticos a Pio XII incendiando as consciências católicas com uma denúncia flamejante e explícita de Hitler. Kertzer claramente acha que Pio XII deveria ter tentado tal protesto, sem se preocupar com a recriminação garantida que essa medida traria contra a Igreja e qualquer pessoa que ela ajudasse por intervenção diplomática ou porto seguro.

Como observado anteriormente, o pai de Kertzer (a quem The Pope at War é dedicado) serviu como capelão na Europa. Morris Kertzer ganhou uma Estrela de Bronze e também viveu em uma Roma recém-libertada, sobre a qual escreveu na época e alguns anos depois. Um jornal do meio-oeste em junho de 1944 citou uma carta de Kertzer : ‘O papel do papa e dos muitos mosteiros que esconderam os judeus dos Nazis e os alimentaram sub-repticiamente, quando a detecção poderia significar a tomada do Vaticano pelos Nazis, é, na minha opinião, uma adição brilhante à história do cristianismo’.

Essa carta, suponho, fornece um pouco mais de apoio para aqueles (diferente de mim) que desejam ver Pio XII canonizado. Ainda assim, a escrita do rabino Kertzer oferece uma visão mais valiosa e universal. Em seu livro de 1947, With an H on My Dog Tag, o rabino Kertzer se concentrou no rabino-chefe de Roma, Israel Zolli, que criou controvérsia ao se tornar católico. A conversão de Zolli trouxe acusações de outros judeus no pós-guerra de que Zolli erroneamente ‘se recusou a aceitar o martírio quando os alemães entraram em Roma’. O rabino Kertzer teve uma visão clara, mas compassiva de Zolli, e emitiu esta advertência : ‘Um crítico em um apartamento confortável em Nova York ou Chicago que condena um homem por se recusar a ser martirizado deve examinar sua própria consciência’.

Nesse sentido, devemos tomar cuidado com a tentação da condescendência moral engendrada pela narrativa em que os dilemas éticos enfrentados pelos atores históricos são minimizados ou completamente eliminados.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/08/14/a-exigente-paternidade-dos-dias-de-hoje/

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Vaticano tira 'véu' sobre o arquivo de Pio XII

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Papa Pio XII conduziu a Igreja Católica entre os anos 1939 e 1958
Papa Pio XII conduziu a Igreja Católica entre os anos 1939 e 1958

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘O papa Pio XII volta para o centro das atenções. Desta vez, sem as especulações que caracterizaram o seu pontificado até agora. Para alguns, um pontífice que foi difamado. Para outros, um líder religioso que se omitiu diante das atrocidades de Adolf Hitler. Pio XII e seu famoso silêncio. Por que ele não disse nada? E se ele tivesse dito, quais consequências isso acarretaria? Se quisermos ser honestos o suficiente, os dois questionamentos são válidos. Sobretudo em um período no qual até as perguntas são condicionadas pelas ideologias.

Um papado que não é observado levando em conta o contexto, certamente ficará à mercê de interpretações apaixonadas, como acontece hoje. Uma prova disso são as várias instrumentalizações relativas aos decretos de Pio XII contra o comunismo feitas atualmente. Para quem tem o mínimo de bom senso, sabe que a condenação à esquerda, em se tratando de espectro político, e pensando na conjuntura atual, jamais foi feita.

O problema está em interpretar um documento com o olhar do presente. E em se tratando de catolicismo, isso é extremamente perigoso. É como pegar a bula Unam Sanctam, de Bonifácio VIII, e aplicá-la no presente. Analisar um sumo pontífice, quer dizer adentrar na sua trajetória e na de seus antecessores e sucessores, justamente porque o papado denota essa hermenêutica da continuidade. Se quebramos esse ciclo, faremos as análises mais surreais possíveis.

Não podemos nos esquecer que, à época, o ateísmo comunista e as várias outras atrocidades cometidas pelo regime colocaram a Santa Sé em estado de alerta. Pio XI - que anos antes havia condenado o fascismo, foi muito mais brando, justamente porque Benito Mussolini permitiu uma série de concessões à Igreja Católica e autorizou que ela exercesse, quase que livremente, a sua pastoral.

Além disso, os papas que sucederam Pacelli, atualizando essa condenação ‘aos vermelhos’, souberam exprimir essa diferença. João XXIII que o diga. Ao falar da ‘liberdade de associação’, na sua encíclica Pacem in terris, era consciente que, numa democracia - a qual se reerguia a duras penas no período em que ele viveu -, os dois pólos são importantes.

Pio XII foi declarado servo de Deus por Bento XVI em 2009. O reconhecimento causou indignação entre os judeus. À altura, os jesuítas começavam a desempoeirar os 20 mil documentos relativos ao pontificado de Eugenio Pacelli, nome de batismo do papa de origem romana. Na época, os pesquisadores tinham a esperança de que todo o acervo de atas, cartas e escritos pessoais desse papa finalmente seriam colocados à disposição dos estudiosos.

Portanto, há muito tempo se preparam para essa abertura, que se concretizará com a autorização de Francisco no próximo dia 2 de março. Para a Santa Sé, um modo de mostrar o trabalho feito por Pio XII em prol dos judeus que, de acordo com relatos da própria comunidade judaica, abrigou muitos daqueles que escapavam das tropas nazistas nos palácios vaticanos.’


Fonte :