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segunda-feira, 20 de abril de 2026

«Que os fortes nos ouçam para que não se tornem fracos na injustiça»

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Andrea Tornielli


‘Nasceu a 2 de março de 1876, há cento e cinquenta anos. Foi eleito a 2 de março de 1939, dia do seu aniversário. Eugenio Pacelli, Papa Pio XII, escolheu para o seu brasão episcopal a imagem de uma pomba com um ramo de oliveira e o lema Opus iustitiae pax («A paz é fruto da justiça»). Assumiu o pontificado nas vésperas da Segunda Guerra mundial. Assim que tomou posse, tudo fez para evitar o início do conflito. As suas palavras são atuais como nunca.

Na sua mensagem radiofônica de 24 de agosto de 1939, imediatamente após o Pacto Molotov-Ribbentrop e uma semana após a invasão da Polónia pelo exército alemão, Pio XII disse : «Hoje, quando, apesar das Nossas repetidas exortações e do Nosso particular interesse, os receios de um sangrento conflito internacional se tornam cada vez mais persistentes; hoje, quando a tensão dos ânimos parece ter atingido um ponto em que o desencadear do terrível turbilhão da guerra parece iminente, dirigimos com espírito paternal um novo e mais fervoroso apelo aos Governantes e aos povos : aos primeiros, para que, deixando de lado as acusações, as ameaças e as causas de desconfiança mútua, procurem resolver as diferenças atuais pelo único meio adequado para tal, ou seja, através de acordos comuns e leais aos últimos, para que, com calma e serenidade, sem agitação indevida, incentivem as tentativas pacíficas daqueles que os governam».

«É com a força da razão — acrescentou o Papa Pacelli — e não com a das armas, que a Justiça avança. E os impérios não fundados na Justiça não são abençoados por Deus. A política emancipada da moral trai aqueles que a desejam assim». Estas palavras da mensagem radiofônica permanecem célebres : «O perigo é iminente, mas ainda há tempo. Nada se perde com a paz. Tudo se pode perder com a guerra».

O Pontífice apelou à negociação e à diplomacia : «Que os homens voltem a compreender-se uns aos outros. Que retomem as negociações. Negociando com boa vontade e com respeito pelos direitos mútuos, perceberão que negociações sinceras e eficazes nunca estão impedidas de alcançar um sucesso honroso. E que se sintam grandes — verdadeiramente grandes — se, silenciando as vozes da paixão, tanto coletiva como individual, e permitindo que a razão reine suprema, tiverem poupado o sangue dos irmãos e a ruína da pátria».

Esta mensagem incluía ainda um apelo direto aos ‘fortes’ : «Que os fortes nos ouçam, para que não se tornem fracos na injustiça. Que os poderosos nos ouçam, se desejam que o seu poder não seja de destruição, mas sim para apoiar o povo e salvaguardar a tranquilidade, a ordem e o trabalho».

Este apelo, como se sabe, foi ignorado. Durante os anos da guerra, Pio XII, através das suas mensagens radiofônicas, lançou as bases para um novo equilíbrio global, saudando a instituição das Nações Unidas. Poucos meses após o fim do sangrento conflito que custou a vida a mais de 60 milhões de pessoas, na sua mensagem radiofônica de Natal de 1945, afirmou : «Quem procura segurança para o futuro não deve esquecer que a única verdadeira garantia reside na própria força interior, isto é, na proteção da família, dos filhos, do trabalho, no amor fraterno, no abandono de todo o ódio, de toda a perseguição ou opressão injusta contra cidadãos honestos, na leal concórdia entre os Estados, entre os povos».

Na passagem seguinte, o Papa falou sobre aquilo a que hoje chamamos fake news, a manipulação da opinião pública, crucial na promoção de guerras : «Para isso, é necessário que renunciemos em todos os lugares à criação artificial, pelo poder do dinheiro, pela censura arbitrária, pelos julgamentos unilaterais e pelas declarações falsas, de uma suposta opinião pública que move o pensamento e a vontade dos eleitores como caniços agitados pelo vento. Deve-se dar o devido valor à verdadeira e grande maioria, composta por todos aqueles que vivem honesta e pacificamente do seu trabalho, no seio das suas famílias, e que desejam fazer a vontade de Deus».

Pio XII concluiu : «A futura obra da paz visa banir do mundo qualquer uso agressivo da força, qualquer guerra ofensiva. Quem não acolheria de bom grado tal propósito, e especialmente a sua efetiva implementação? Se isto não for apenas um gesto de boa vontade, porém, é necessário excluir toda a opressão e toda a ação arbitrária, tanto interna como externa».’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-04/por-004/que-os-fortes-nos-oucam-para-que-nao-se-tornem-fracos-na-injust.html


 

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Pio XII e o Holocausto: Realidade ou Revisionismo?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Uma pintura do Papa Pio XII na Universidade Católica da América em Washington, 25 de maio de 2021 | Foto CNS/Tyler Orsburn

*Artigo de Kevin M. Doyle

Tradução : Ramón Lara


‘Em 2004, Marc Saperstein, professor de Estudos Judaicos na Universidade George Washington, ofereceu uma revisão cuidadosa de The Popes Against the Jews: The Vatican’s Role in the Rise of Modern Anti-Semitism, escrito por David Kertzer, professor da Brown University. Saperstein elogiou o relato de Kertzer sobre a opressão sofrida pelos judeus nos territórios papais durante os primeiros dois terços do século 19, mas passou a desafiar poderosamente as alegações de Kertzer sobre o papel do Vaticano na construção da ‘Antecâmara do Holocausto’.

Por coincidência, ambos os professores Saperstein e Kertzer tiveram pais rabinos que serviram como capelães do Exército dos EUA na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Por mais coincidência, o testemunho do rabino Harold Saperstein fornece um bom ponto de partida para a consideração do último trabalho de David Kertzer, The Pope at War : The Secret History of Pius XII, Mussolini, and Hitler.

Diante de sua congregação de Long Island em 1964, o rabino Harold Saperstein abordou a controvérsia em torno de ‘The Deputy’, que apresentou os frequentadores do teatro da Broadway a um pontífice em tempos de guerra mais preocupado com os bens da igreja do que com a vida dos judeus. Saperstein criticou o Papa Pio XII por denúncias de crimes de guerra privadas e por sua fraqueza diplomática e teológica. Ainda assim, Saperstein insistiu ‘por experiência pessoal’ como capelão do Exército dos EUA que o próprio Pio XII fosse creditado com o resgate de judeus romanos pela igreja durante o ataque nazista de outubro de 1943, relatando :

Eu dirigi para o Gueto de Roma. Havia muitas pessoas com a Estrela de Davi no meu Jeep que se aglomeravam ao meu redor. ‘Como você sobreviveu?’, perguntei? 'O papa deu ordens às igrejas e aos mosteiros para nos acolher', disseram, 'e eles o fizeram e salvaram nossas vidas.'

Este relato de Saperstein - um homem instruído, mas mundano que havia sido ferido por um franco-atirador árabe na Palestina em 1939 e trabalhou com o Comitê de Coordenação Não-Violenta Estudantil no Alabama em 1965 era consistente com o relato de Roma libertada pelo vencedor do Pulitzer e colunista do New York Times Anne O'Hare McCormick.

Agora imagine que você é Pio XII em outubro de 1943, logo após a SS da Alemanha ter se movido contra os judeus em Roma. Centenas de judeus já encontraram abrigo nas instituições católicas de Roma, incluindo o próprio Vaticano. (Dentro de oito meses, o número aumentaria muito além de 4.000, um terço dos judeus de Roma.) Você está ponderando se deve arriscar a provocação de denunciar publicamente as prisões dos 1.000 judeus capturados e destinados a morrer. O risco para os judeus que você acolheu na custódia da Igreja não pesaria muito em sua decisão? Não pela avaliação de David I. Kertzer em O Papa em Guerra : A História Secreta de Pio XII, Mussolini e Hitler.

Kertzer insiste em reprovar a reação silenciosa do Vaticano à detenção, mas não reconhece o dilema no terreno apresentado pelos judeus já escondidos. Somente depois de se deparar com uma série aleatória de tópicos não relacionados à perseguição judaica, como o rosário agarrado à amante de Mussolini, Kertzer admite um capítulo depois meramente que Pio estava ‘consciente de que entre o grande número de refugiados escondidos nos edifícios religiosos de Roma havia muitos judeus’. Ele também afirma falsamente que nenhuma evidência mostra que o Papa tenha dirigido instituições para receber judeus.

Quando você conhece os judeus que confiaram suas vidas à Igreja em meio ao terror nazista, você entende as escolhas difíceis, onde podemos aprender com a história e testar nossa imaginação e julgamento moral. Kertzer, no entanto, opta por um poleiro de acusação. Infelizmente, o excesso de zelo e a visão de túnel distorcem sua acusação, de modo que seu veredicto, que se baseia parcialmente no uso seletivo e sensacionalista dos arquivos do Vaticano recém-abertos, é pré-ordenado.

Em seu relato, Pio XII, tolhido por um ‘caráter nervoso’, fracassou como líder moral. Segundo o crítico, não tinha confiança inicial em uma vitória aliada e depois ficou muito preocupado com a influência soviética. O Papa é retratado efetivamente indiferente aos judeus, desconfiado da democracia e excessivamente preocupado em manter o favor entre os católicos alemães.

Se você assinar o The New York Times, poderá visualizar on-line a edição de 28 de outubro de 1939. A manchete do Times de primeira página, acima da dobra, de três colunas diz : ‘O Papa condena ditadores, violadores de tratados e o racismo; e convida para a restauração da Polônia.’ A referência é a ‘Summi Pontificatus’, a primeira encíclica de Pio XII, publicada dois meses após o início da guerra. Os franceses enviaram cópias do texto para as tropas alemãs e, como notado no Palestine Post, a Gestapo impediu a divulgação da encíclica pelas igrejas católicas em Colônia.

Alguém poderia pensar que tal manifesto inaugural forneceria o pano de fundo contra o qual todas as mensagens subsequentes do Vaticano seriam interpretadas pelo mundo devastado pela guerra. Mas em um livro com mais de 600 páginas, Kertzer consegue ultrapassar ‘Summi Pontificatus’ em menos de duas páginas, obscurecendo a importância da encíclica e concentrando-se no giro e na falsa autoconfiança entre nazistas e fascistas. Um leitor desinformado não teria ideia de por que o American Jewish Year Book 1940-41 concordou com o Times que Pio havia ‘insurgido fortemente contra as doutrinas do totalitarismo, racismo e materialismo’, um julgamento que foi compartilhado pelo embaixador francês na Santa Sé , François Charles-Roux.

Rádio Vaticano

Outro exemplo da visão de túnel de Kertzer é seu tratamento da Rádio Vaticano. Ele escreve que, no final de 1940, ‘muitos poloneses se perguntavam por que a Rádio Vaticano, embora ocasionalmente falasse dos crimes soviéticos na Polônia, permaneceu em silêncio sobre a ocupação alemã do país…’ Isso engana o leitor de forma clara.

Em janeiro de 1940, a Rádio Vaticano rejeitou a ocupação da Alemanha explicitamente. Classificando o comportamento nazista na Polônia como pior do que o dos russos, um relatório transmitido em vários idiomas denunciou como ‘judeus e poloneses estão sendo agrupados em 'guetos' separados, hermeticamente fechados e lamentavelmente inadequados para a subsistência econômica dos milhões destinados a viver lá’. Um livro de 1941 prefaciado pelo cardeal Arthur Hinsley, o arcebispo de Westminster que apareceu com seu colega anglicano no Royal Albert Hall para condenar a Kristallnacht anos antes, continha uma transcrição da transmissão. Com menos atraso, a transmissão chegou à primeira página do The New York Times em 23 de janeiro de 1940. Parte da manchete diz : ‘Os alemães são ainda piores que os russos’.

Kertzer não menciona esta ou outras transmissões da Rádio Vaticano. O livro não faz referência às transmissões de outubro de 1940 da Rádio Vaticano pronunciando que ‘a guerra de Hitler, infelizmente, não é uma guerra justa’ ou denunciando os ‘princípios imorais’ dos nazistas, nem a referência de março de 1941 à ‘maldade de Hitler’. Nem o leitor aprenderá sobre o lamento de agosto de 1941 sobre ‘este escândalo… o tratamento dos judeus’ ou as repetidas transmissões de 1942 e comentários sobre a carta do Arcebispo de Toulouse, Cardeal Jules-Géraud Saliège, protestando contra a deportação de judeus na França.

Mais preocupante é a omissão de um discurso transmitido pela Rádio Vaticano e reimpresso no L'Osservatore Romano (outro órgão do Vaticano que Kertzer priva de seu devido). Kertzer relata o discurso de Pio XII ao Colégio dos Cardeais em junho de 1943 : ‘o Papa expressou seu desejo de responder àqueles que pediram palavras de conforto, aflitos como estão', como disse o Papa, 'por causa de sua nacionalidade e sua descendência'.

Em Under His Very Windows, até Susan Zuccotti, uma crítica decidida de Pio XII que Kertzer cita repetidamente, cita o papa completamente. O pontífice expressa compaixão por aqueles ‘atormentados como são por razões de sua nacionalidade ou descendência’ e ‘destinados às vezes, mesmo sem culpa de sua parte, a medidas de extermínio’. Se o italiano ‘travagliati’ se traduz melhor aqui em ‘tormento’ ou ‘problema’ se presta ao debate, mas a omissão de Kertzer da referência ao extermínio é um terrível aviso, um aviso de fatos moldados para se adequar a uma conclusão, e não vice-versa.

Intervenções diplomáticas do Vaticano

O tratamento de Kertzer da intervenção diplomática do Vaticano na Eslováquia é igualmente enganoso. O arcebispo Angelo Roncalli, núncio do Vaticano na Turquia (e mais tarde Papa João XXIII), procurou obter apoio do Vaticano para o transporte para a Palestina de crianças judias ameaçadas de deportação nazista da Eslováquia. Inicialmente, um funcionário descaradamente antissemita revisou o pedido e se opôs com base na ameaça do sionismo às reivindicações católicas na Terra Santa. Essa objeção registrada como o assunto foi objeto de consideração superior. A certa altura, Pio XII enviou um telegrama a Roncalli que ignorou a ideia palestina e, em vez disso, o instruiu a buscar apenas uma parada nas deportações. Pelo relato de Kertzer, Roncalli acabou recebendo instruções para ‘não dar muito apoio à emigração dos judeus para a Palestina’.

Kertzer não nota no que ele descreveu como sua ‘caça ao tesouro’ no arquivo, que o Vaticano considerava o padre como um renegado ‘louco’. Kertzer também pula a frase de abertura de um memorando do Vaticano sobre a Eslováquia uma semana antes : ‘A questão judaica é uma questão de humanidade. As perseguições a que estão sujeitos os judeus na Alemanha e nos países ocupados ou conquistados são uma ofensa à justiça, à caridade e à humanidade’.

Mais amplamente, Kertzer falha em transmitir a vasta gama de intervenções diplomáticas do Vaticano, às vezes bem-sucedidas, mas muitas vezes não, em nome dos judeus, não apenas daqueles que se converteram ao cristianismo, mas também judeus não batizados. O livro O Papa em Guerra termina sem conhecimento dos esforços de resgate diplomático papal em lugares como Hungria, Bulgária, Croácia, França e a própria Alemanha. Evidências das súplicas diplomáticas de Roma, algumas das quais foram noticiadas contemporaneamente pelo menos no New York Times, já estavam disponíveis para leitura nos arquivos do Vaticano anteriormente acessíveis.

O príncipe alemão

Kertzer possui uma importante descoberta em evidências de arquivo das tentativas clandestinas de Pio XII durante a guerra para negociar um melhor tratamento da Igreja maltratada na Alemanha por meio de um príncipe alemão. De fato, os diários do chanceler italiano Galeazzo Ciano publicados em 1946, juntamente com os arquivos alemães publicados em inglês na década de 1950 e os arquivos do Vaticano divulgados em 1965, todos fazem referência ao príncipe intermediário.

Se o objetivo de Kertzer é mostrar a capacidade do Vaticano para a intriga, a longa colaboração de Pio XII com a resistência alemã, amplamente documentada na Igreja dos Espiões de Mark Riebling, teria feito o truque. Peter Hoffman, da Universidade McGill, relata que quando as autoridades alemãs prenderam figuras da resistência (incluindo Dietrich Bonhoeffer) em abril de 1943, o principal conspirador Ludwig Beck notificou Pio XII como sua primeira ordem.

Kertzer não menciona nada disso. O crítico não explica como o apoio papal à resistência, realizado por meio de canais diplomáticos, poderia ter continuado se o Vaticano tivesse decidido abandonar sua pretensão de neutralidade. Tampouco aborda os obstáculos puramente logísticos a Pio XII incendiando as consciências católicas com uma denúncia flamejante e explícita de Hitler. Kertzer claramente acha que Pio XII deveria ter tentado tal protesto, sem se preocupar com a recriminação garantida que essa medida traria contra a Igreja e qualquer pessoa que ela ajudasse por intervenção diplomática ou porto seguro.

Como observado anteriormente, o pai de Kertzer (a quem The Pope at War é dedicado) serviu como capelão na Europa. Morris Kertzer ganhou uma Estrela de Bronze e também viveu em uma Roma recém-libertada, sobre a qual escreveu na época e alguns anos depois. Um jornal do meio-oeste em junho de 1944 citou uma carta de Kertzer : O papel do papa e dos muitos mosteiros que esconderam os judeus dos Nazis e os alimentaram sub-repticiamente, quando a detecção poderia significar a tomada do Vaticano pelos Nazis, é, na minha opinião, uma adição brilhante à história do cristianismo.

Essa carta, suponho, fornece um pouco mais de apoio para aqueles (diferente de mim) que desejam ver Pio XII canonizado. Ainda assim, a escrita do rabino Kertzer oferece uma visão mais valiosa e universal. Em seu livro de 1947, With an H on My Dog Tag, o rabino Kertzer se concentrou no rabino-chefe de Roma, Israel Zolli, que criou controvérsia ao se tornar católico. A conversão de Zolli trouxe acusações de outros judeus no pós-guerra de que Zolli erroneamente ‘se recusou a aceitar o martírio quando os alemães entraram em Roma’. O rabino Kertzer teve uma visão clara, mas compassiva de Zolli, e emitiu esta advertência : ‘Um crítico em um apartamento confortável em Nova York ou Chicago que condena um homem por se recusar a ser martirizado deve examinar sua própria consciência’.

Nesse sentido, devemos tomar cuidado com a tentação da condescendência moral engendrada pela narrativa em que os dilemas éticos enfrentados pelos atores históricos são minimizados ou completamente eliminados.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/08/14/a-exigente-paternidade-dos-dias-de-hoje/

sexta-feira, 4 de março de 2022

Invasão na Ucrânia: de que lado o Vaticano está?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé 


‘Francisco convocou um dia de oração pela paz na Ucrânia, e fez isso um dia antes da invasão russa, ao intuir que a situação se agravaria. E é nessas horas que nos perguntamos : a Santa Sé escolherá a vida da neutralidade ou da ‘profecia’? Como a diplomacia pontifícia irá atuar frente a essa situação? O que ela fez até aqui, está em linha com o clássico posicionamento da Santa Sé nessas situações?

O historiador italiano Alberto Melloni, em artigo publicado pelo jornal italiano La Reppublica, na semana passada, fez esse mesmo questionamento. No seu texto, ele teceu uma reflexão que poucos tiveram a coragem de expor.

O conflito, que acabou se materializando no campo de batalha, também acontece nas igrejas. A autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana, promulgada em 2016, e os desencontros entre o patriarcado de Moscou e o de Constantinopla em meio a esse processo, que culminaram no fim da comunhão eucarística entre ambas as sedes, serviu para legitimar e oficializar uma divisão que perdura há séculos.

E os pronunciamentos nacionalistas do Krill, patriarca de Moscou e de toda a Rússia, certamente não vão ao encontro do que se espera de um líder cristão nesse momento trágico. O mito da Terceira Roma ruiu faz tempo.

Portanto, historicamente, as próprias instituições cristãs, das quais se espera um posicionamento em concordância com o Evangelho, pouco contribuem com o processo de pacificação, ao menos em campo ideológico.

Por outro lado, a visita de Francisco à embaixada da Rússia junto ao Vaticano, na última sexta-feira (25), e sua ligação ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelens'kyj, no dia 26, mostram que a Santa Sé está disposta a jogar no tabuleiro geopolítico global com os recursos que tem.

Não é comum que a autoridade máxima da Igreja Católica vá pessoalmente a órgãos de representação diplomática, uma vez que é o secretário de Estado quem se encarrega de fazer esse tipo de coisa. Mas dada a urgência da situação, e aproveitando-se dos canais de diálogo que o próprio pontífice criou com a Rússia, nada melhor do que fazer uso desse privilégio em vista do bem comum.

E isso serve também para calar a boca de quem opina sobre a diplomacia da Santa Sé e sobre suas alianças, sem o mínimo conhecimento de causa sobre o quanto elas são importantes, principalmente em momentos como esse.

Francisco é um líder global e, graças a seu carisma, a diplomacia da Santa Sé tem adquirido, nos últimos anos, uma relevância que há muito não se via.

O líder da Igreja Católica não só privilegia as periferias do mundo (que é o carro-chefe da sua geopolítica), mas tenta impedir, quase que de maneira profética, que a disparidade entre norte e sul globais ultrapasse a esfera econômica - como já temos observado. Francisco se coloca na brecha, embora sua única arma seja apelar para o diálogo. Seus últimos pronunciamentos sobre a União Europeia, quando condenou as várias colonizações ideológicas que o próprio bloco promoveu, deixou claro que o discurso pontífice vai além do tout court dos pronunciamentos pontifícios, justamente porque é preciso atacar a raiz do problema.

Quando ele fala de uma ‘terceira guerra mundial em pedaços’, cujos sponsors são as grandes potências de sempre, alerta para o perigo de normalizar o jogo de interesses, como se, nessa disputa, houvesse anjos e demônios. Não há. E no atual cenário, a única vítima é o povo ucraniano. Ninguém mais.

O pontífice argentino foi o primeiro papa a encontrar-se com um patriarca de Moscou em 2016. Antes de Francisco, o líder da Igreja Católica se encontrava somente com as delegações e representantes da igreja russa. Ou seja, Francisco abriu um canal de comunicação tão expressivo quanto aquele iniciado por João XXIII em plena Guerra Fria.

Francisco é visto com bons olhos por Putin e Biden, tem contatos fortes com a União Europeia e é bem quisto pelo governo da Itália, que está ‘no seu quintal’. Por isso mesmo, no jogo geopolítico, ele tem a possibilidade de transitar onde quiser, exortar quem quiser e apertar a mão de quem quiser. E isso não está relacionado a ser neutro ou conivente, mas é a postura típica da diplomacia pontifícia, da qual se espera a manutenção do seu status de promotora da paz. Se o povo sofre, a Santa Sé intervém - ou nos bastidores ou escancaradamente. A conta é simples.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1567989/2022/03/invasao-na-ucrania-de-que-lado-o-vaticano-esta/

domingo, 27 de setembro de 2020

O papado em diálogo com os comunistas

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
O líder soviético Gorbachev visita o papa João Paulo II no Vaticano, em 1989


*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

  

‘Igreja Católica e comunismo. Encíclicas, decretos e excomunhões marcam essa relação conturbada e, por assim dizer, incompatível. De 1846 até a metade do século 20, os pontífices condenaram, abertamente, essa ideologia política. A Igreja Católica enfrentou, nessa fase, um dos maiores desafios da sua história.

Para além do massacre causado pelo regime, que se instaurou na Europa a partir da Revolução Russa de 1917, era o materialismo ateu, imposto pelo sistema, o que mais assustava os membros do alto escalão do Vaticano. Não por acaso, encontramos nas prateleiras dos arquivos pontifícios mais condenações ao comunismo que aos fascismos, por exemplo.

Em vista dos próprios interesses, o ditador fascista Benito Mussolini, um ateu declarado, reconheceu, após a sua ascensão, a importância do catolicismo. Querendo ou não, o caráter transnacional da religião alimentava o mito imperial fascista. Por conta disso, passou a se considerar uma espécie de novo Constantino, em referência ao imperador romano que elevou o cristianismo ao status de religião lícita no século 4 e, através disso, criou as bases para a implantação de sua política de expansão territorial.

E para corresponder ainda mais à comparação, Mussolini fez várias concessões à Igreja Católica enquanto esteve no poder. Grata pelos favores, a instituição se omitiu diante de várias atrocidades perpetradas pelo governo do Duce. Uma encíclica publicada por Pio XI em 1931 (Non abbiamo bisogno) chegou a repudiar algumas ações do partido. No entanto, o documento não emitia nenhuma condenação sistêmica ao regime.

Excomunhão? Só para os vermelhos

Vale salientar que, curiosamente, os fascistas jamais foram excomungados. Já os comunistas, sim. Em 1949, Pio XII publicou um decreto no qual aplicava esse tipo de pena aos católicos italianos que aderissem ao partido. Esse tipo de filiação era considerada uma apostasia pelo então pontífice.

Ora, quer dizer então que existia, para a Igreja, naquele contexto específico, uma ‘ideologia menos pior’? Analisando as ações do magistério pontifício, que se moldavam às circunstâncias, podemos dizer que sim.

Mais à frente, as orientações eclesiais oficiais, incorporadas à cartilha da doutrina social da Igreja, rejeitarão esse tipo de classificação. Para o catolicismo, as ideologias que violam a dignidade humana, independente do espectro político ao qual se associem, são nocivas. Em outras palavras, tanto os princípios da extrema-direita quanto da extrema-esquerda são incompatíveis com os valores do catolicismo.

E chegou a hora de dialogar com os comunistas...

Foi João XXIII, sucessor de Pio XII, quem deu o primeiro passo em direção à reaproximação. Lançou um apelo de paz e de conciliação através da encíclica Pacem in Terris (1963), na qual afirma que todos partidos políticos, incluindo os de matriz marxista, devem trabalhar, juntos, pelo bem comum. Apesar de ter condenado abertamente o comunismo no documento, garantiu aos católicos, em outras palavras, o direito à liberdade partidária.

E é nessa fase que acontece a implementação da chamada Ostpolitik Vaticana. Essa política diplomática da Santa Sé, em diálogo com os governos comunistas do Leste Europeu, visava promover a liberdade religiosa nos países do bloco soviético. Nas palavras do atual secretário de estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, foi um ‘verdadeiro martírio da paciência, que levou a Igreja a aproveitar cada brecha de abertura’.

E Paulo VI, sem renunciar à empreitada audaciosa iniciada por seu antecessor, deu continuidade às negociações. João Paulo II, que voltou a condenar o comunismo publicamente, ainda que de maneira discreta, foi o primeiro sumo pontífice a se encontrar com um líder soviético, no caso, Mikhail Gorbachev.

Grupos conservadores criticam o processo, pois, segundo eles, tal medida teria provocado a ‘infiltração de agentes comunistas’ nos departamentos da cúria romana. Porém, convenhamos : com acordo ou sem acordo, nenhum Estado estava imune a esse tipo de invasão em plena Guerra Fria, não é mesmo? Além disso, os poucos espiões identificados – na maioria, padres que trabalhavam como funcionários da instituição – foram expulsos pelos papas após terem sido descobertos.

O idealizador desse projeto de degelo diplomático foi o cardeal italiano Agostino Casarolli, que, mais à frente, se tornaria secretário de estado de João Paulo II. Graças aos acordos arquitetados por ele, a delegação do patriarcado ortodoxo russo foi autorizada a participar do Concílio Vaticano II, na década de 1960. O preço que o Vaticano teve que pagar foi aceitar a determinação imposta pela URSS de não se pronunciar sobre o comunismo durante toda a assembleia. Por outro lado, a presença dos religiosos, provenientes de Moscou, permitiu que a Santa Sé ficasse a par dos ataques aos cristãos do território.

Sem contar que, com sua habilidade, Casarolli conseguiu transpor as barreiras, até então intransponíveis, entre a Santa Sé e alguns países da Cortina de Ferro. Sob sua supervisão, a Santa Sé iniciou as negociações com a Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia, por exemplo. E, por fim, para coroar os esforços de décadas, enviou representantes para a Conferência de Helsinque, capital da Finlândia, onde foi firmado um pacto de conduta sobre direitos e liberdades dos cidadãos em 1975.

O atual acordo firmado entre Santa Sé e China, selado em 2018, cujo conteúdo explicamos na semana passada, segue os parâmetros da Ostpolitik. Os objetivos são claros : garantir a plena liberdade de culto e pôr um fim à perseguição aos cristãos no local. Pena que alguns católicos, ignorando o alto índice de complexidade do jogo, cuidadosamente posto sobre o tabuleiro da diplomacia, exigem que os efeitos sejam imediatos. Esquecem que o papa é, além de autoridade religiosa, um chefe de Estado. E deve, por assim dizer, ‘pisar em ovos’, como qualquer líder político, quando se encontra diante de uma situação delicada.

Francisco foi questionado, recentemente, por não ter se pronunciado sobre os atos pró-democracia que acontecem em Hong Kong. Ele chegou a excluir um trecho de um discurso, previamente preparado pelos seus colaboradores, no qual ele dizia estar preocupado com o que ocorre na região. Isso aconteceu durante a oração mariana do Ângelus, realizada em 5 de julho deste ano. Claramente, o papa quer evitar, ao menos nessa fase, novos desencontros com Pequim.

Mais uma vez, fica claro que, com os comunistas – e em especial, com os chineses, é necessário ir devagar. Matteo Ricci que o diga...

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1473235/2020/09/o-papado-em-dialogo-com-os-comunistas/

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Compreendendo o acordo entre China e Vaticano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Há uma estimativa de 12 milhões de católicos na China, divididos entre uma associação governamental cujo clero é escolhido pelo Partido Comunista e uma igreja não oficial que jura lealdade ao Vaticano.
Há uma estimativa de 12 milhões de católicos na China,
divididos entre uma associação governamental
cujo clero é escolhido pelo Partido Comunista e
uma igreja não oficial que jura lealdade ao Vaticano.

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja

O acordo sobre a nomeação dos bispos chineses firmado entre Santa Sé e a República Popular da China (RPC), no último dia 22, fez com que Papa Francisco, mais uma vez, fosse alvo de críticas. Consciente disso, ele mesmo esclareceu, em entrevista concedida durante o voo de retorno a Roma, após sua visita apostólica aos países bálticos, finalizada na terça-feira (25), o que essa medida representou e quais serão os critérios estabelecidos por ambas as partes para que ela seja levada a cabo. ‘Será um diálogo (entre China e Vaticano) sobre os eventuais candidatos. Tudo se fará no diálogo. Porém, a nomeação virá de Roma, a nomeação virá do papa. Isso é claro’, ressaltou o pontífice.

O papa argentino assumiu para si toda a responsabilidade do acordo, além de mencionar aqueles que o auxiliaram no processo : os arcebispos Claudio Maria Celli e Gianfranco Rota Graziosi, ambos envolvidos nas negociações há mais de 10 anos, e o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.

Segundo o Wikileaks, esse acordo sobre a nomeação dos bispos vem sendo ensaiado desde o pontificado de João Paulo II. Há alguns anos, o jornal italiano Le Formiche publicou uma afirmação atribuída ao chanceler italiano Giulio Andreotti, nos anos 90 : ‘A questão da nomeação dos bispos se resolverá a qualquer momento. O problema dos chineses é o poder que envolve essas nomeações, mas isso o Vaticano fará o possível para contornar. É até melhor que haja um acordo, uma vez que é importante para a Igreja Católica encontrar seu espaço na China’, disse.

Em 2003, outro documento publicado pelo Wikileaks, intitulado ‘Holy See and PRC: time for reconciliation?’, revelou o que Rota Graziosi, então responsável pelas relações diplomáticas entre Santa Sé e China, considerava ideal para se chegar a um acordo definitivo : ‘A Igreja deve ser autônoma, mas não pode ser independente da Santa Sé. [...] É possível que essa igreja se autogoverne, mas deve aceitar as direções do papa, exceção concedida à China por causa da estrutura de controle governativo na revisão e na aprovação das ordenações e de outras decisões papais’, reforçou.

Vale salientar que o reconhecimento da Santa Sé em relação a alguns bispos e sacerdotes da igreja patriótica já vinha acontecendo antes dessa recente oficialização. Durante o pontificado de Bento XVI, inclusive, não foram poucos aqueles que entraram com pedido de reconciliação com Roma, algo que não só lhes foi concedido, mas confirmado através da carta ao povo chinês, escrita por Joseph Ratzinger, em 2007 : ‘O Papa, considerando a sinceridade dos seus sentimentos e a complexidade da situação, e levando em conta o parecer dos Bispos mais vizinhos, em virtude da própria responsabilidade de Pastor universal da Igreja, concedeu-lhes o pleno e legítimo exercício da jurisdição episcopal’, escreveu.

Houve um problema na interpretação desse acordo porque muitas pessoas que não acompanharam o desenrolar das tratativas acabaram considerando-o uma espécie de concordata. Basta que estudemos a fundo o que foram esses tratados pontifícios ao longo de toda a construção da rede diplomática vaticana para derrubarmos essa definição. Não dá para comparar o presente acordo à concordata de Napoleão, de 1801, nem mesmo com aquela estabelecida com o Império austro-húngaro, em 1855, por exemplo. Outros, fazendo referência à fase colonizadora de Espanha e Portugal, o enquadraram dentro da lógica do padroado como se, de repente, o Vaticano passasse a aceitar tudo aquilo que é ditado pela RPC. Não se trata disso nem de longe.

O que se deve levar em consideração é que o acordo sobre a nomeação dos bispos é algo bem pontual e ainda não representa o estabelecimento das relações diplomáticas entre Santa Sé e China, o que implicaria na abertura de uma nunciatura - embaixada vaticana - no país asiático e em uma série de outras medidas de caráter jurídico. Além disso, o acordo é bilateral, portanto, da mesma forma que o Vaticano ‘cede’ ao permitir uma mínima interferência do regime na nomeação dos membros do episcopado, Pequim também ‘cede’ ao conceder ao papa a autoridade na nomeação desses prelados. Algo que, se analisarmos bem, é previsto dentro de qualquer ação diplomática.’


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