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domingo, 26 de julho de 2026

O Cenobitismo, equilíbrios comunitários

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Ex-presidente da AIM


‘Uma das principais características da nossa vida é o ser cenobítica. Vivemos em comunidade e damos testemunho, juntos, da realidade do Corpo de Cristo. Há, aqui, algo de profundamente misterioso, pois mesmo que o homem seja um animal social, temos que reconhecer que a vida comum não é fácil. São Bento fala disto a que dá muita importância.

‘Os cenobitas são os que vivem em comum, num mosteiro, e combatem sob uma Regra e um abade; através de provação diuturna no mosteiro, instruídos na companhia de muitos, aprendem a lutar contra o demónio. São bem adestrados nas fileiras fraternas. São livres diante dos costumes do mundo e de sua conduta. Não estão encerrados nos seus próprios apriscos, mas nos do Senhor. A satisfação dos desejos não é para eles lei’ (RB 1).

Passam a vida num lugar estável, com sua comunidade e, salvo por razão especial, no próprio mosteiro. É assim que se pode fazer um primeiro retrato do projeto cenobítico, segundo São Bento, e segundo o cap. 1 da Regra.

No começo da Regra, a preocupação de São Bento é a da conversão  pessoal. A comunidade seria como um meio para esta conversão, para fazer a experiência do caminho da caridade. Mas ao longo da Regra, e sobretudo no fim, percebe-se uma abertura para a dimensão propriamente comunitária, como um bem em si. Se este projeto comunitário é tão importante, precisamos de alguns meios para caminhar e sobretudo para conseguir viver os equilíbrios difíceis, que fazem que cada um possa se sentir no seu lugar nesta comunidade, segundo sua personalidade.

As funções e as pessoas

Numa comunidade o abade tem uma função quase impossível. É como o vigário de Cristo. Isto quer dizer que ele deve apontar aquele que é o abade verdadeiro, o Cristo, que se dá como Palavra de Deus, por meio do seu ensinamento e por seu exemplo. É a mesma coisa para outros que exercem responsabilidades na comunidade. Uma das dificuldades da nossa vida comunitária, está em confundir a função com a pessoa. E isto a tal ponto que os que não têm um cargo grande sentem-se complexados e vivem, conscientemente ou inconscientemente, uma verdadeira inveja; como se não existissem aos olhos dos outros, pois a tentação de acreditar que só têm valor pelo que fazem, é muito grande. Mas pode haver a tentação oposta : querer existir pelo que se é, sem coincidir com a função que se deve exercer. Quer dizer, querer sentir-se realizado primeiro, e depois exercer uma responsabilidade. Este é o melhor modo de atribuir a si mesmo um poder subjetivo, chegando à sedução. É uma grande ilusão situar-se diante do abade e da comunidade neste registro. Parece-me que uma das qualidades mais importantes dos responsáveis seja a honestidade em assumir sua responsabilidade, sem negar o que se é, mas pondo-o a serviço do que se deve realizar. A atitude do abade deve continuamente apontar ao Cristo. Por causa desta honestidade o abade pode agir segundo a natureza que o Senhor lhe deu, sem se preocupar demais com os comentários de todo o tipo, que inevitavelmente são feitos à sua atuação ou comportamento. Assim pode não haver desequilíbrio entre as aspirações pessoais de quem assume o cargo, e as aspirações legítimas dos outros membros da comunidade, porque todos são chamados a se pôr a serviço uns dos outros, sem se esconderem  atrás da função, ou sem impor o peso de sua subjetividade.

Precisa definir em que consiste a honestidade; São Bento aponta alguns aspectos : alimentar um duplo ensinamento mais por atos do que por palavras. Aliás São Bento diz que o abade deve ser o primeiro a aplicar a Regra na sua totalidade. Que seja casto, sóbrio, misericordioso : terá sempre diante dos olhos sua própria fraqueza, e se lembrará de não quebrar a cana já rachada. Não seja turbulento, nem inquieto; não seja excessivo nem obstinado; não seja ciumento, nem muito desconfiado. Assim, poderá talvez não fazer acepção de pessoas, nem amar mais o nascido livre, do que o originário de condição servil, ou de outras categorias sociais ou culturais : porque servos ou livres somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão… Mostrará a todos a mesma caridade. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu : reger almas e servir aos temperamentos de muitos. Na distribuição dos cargos se conduzirá com discernimento e moderação, lembrando-se da discrição do Santo Jacó, que dizia : se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia. (cf RB 64 e 2)

Esta vida honesta é um projeto difícil, mas é também a chave de uma vida livre segundo a vontade de Deus. Se, como abade, me acontecer sentir algumas dificuldades nesta liberdade, é porque o enraizamento não é bastante ‘honesto’. Esta palavra honestidade pode parecer insuficiente, mas vem de São Bento, no cap. 73.

‘Escrevemos esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou de início de vida monástica… Tu, porém, quem quer que sejas, que te apressas para a Pátria celeste, realiza com a auxílio de Cristo esta mínima regra de iniciação, e, então, chegarás, com a proteção de Deus aos maiores cumes de doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém.’

O Diálogo

São Bento quer que cada um encontre seu lugar na comunidade, podendo falar. É este o sentido do cap. 3 ‘Da Convocação dos irmãos a Conselho’. Dissemos que todos fossem chamados a conselho, porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Mas esta fala deve ser feita com muita sabedoria : ‘Deem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade’. De fato, isto nem sempre é fácil. Por um lado, as questões que dizem respeito à vida do mosteiro são numerosas, e nem todas podem ser objeto de debate; aliás é por isso que existe um conselho. Por outro lado, infelizmente, é raro encontrar uma comunidade em que todos saibam escutar-se mutuamente. Já se sabe de antemão o que pensar das palavras de tal ou tal. A tal ponto que certas palavras não são levadas suficientemente em conta.

E no entanto, no mosteiro, cada um tem um lugar único. Cada um tem uma inteligência única alimentada por sua experiência particular. Um é perfeitamente natural e sem complexos, e fala como lhe vem à ideia, sem se interrogar muito. Um outro é capaz de trazer uma reflexão sobre os princípios abstratos de uma ação; outro, ao contrário, falará sobre o modo prático de pôr a coisa em ação. Esta escuta mútua é capital para se viver em comunidade, e não acontece só em reuniões do capítulo, deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Percebe-se muitas vezes que alguns se afastam da vida comunitária porque não se leva em conta o que dizem. Cada um quer expressar alguma coisa, isso está mesmo na originalidade da natureza humana; se não pode fazê-lo no grupo em que vive, definha, e às vezes procura noutro lugar um espaço mais propício. Aqueles que pensam ter algo mais interessante a dizer que os outros, façam um esforço de paciência para escutar. Pode parecer menos apropriado, e no entanto é útil. Assim cada um poderá existir neste diálogo, que é uma componente essencial do amor. Tudo se faça, porém, com discrição, discernimento. Não se trata de dizer qualquer coisa, seja de que modo for, ou a quem for, sob o pretexto que se precisa falar.

Obediência

Como consequência da escuta mútua, vem a obediência, essa qualidade de atenção uns aos outros.

‘Não só ao abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus’ (RB 71).

Que há de mais belo do que uma comunidade em que os irmãos, as irmãs, independentemente de sua idade, de sua função, de sua origem e de sua formação, se obedecem uns aos outros! Em vez de se picarem uns aos outros, exercendo essa tentação de poder que só leva a incompreensões, conflitos, injustiças profundas! Como é maravilhoso fazer tudo para se compreenderem, em todo o sentido do termo, de se servirem, de se encontrarem num verdadeiro serviço mútuo!

É triste que muitas vezes nossa maneira de olhar o outro leve marcas de inveja. Todos temos dons diferentes, por que querer ter os dons dos outros em vez de fazer frutificar os nossos, que são sempre infinitamente preciosos para todos? Um sabe acolher magnificamente. Outro sabe contar ou organizar. Outro sabe cantar, ou ensinar. Outro sabe acompanhar os outros em caminhos difíceis. Outro sabe viver um silêncio frutuoso, ou ainda suportar santamente a doença, ou dizer uma boa palavra, guiar um trator, consertar um carro, ou dirigir na perfeição. Alguns sabem escrever livros, outros cozinhar admiravelmente, ou manter um lugar numa ordem perfeita, ou perfeitamente limpa! Que mais? Não há ninguém sem dons ou qualidades, mas só estão verdadeiramente a serviço da comunidade, se a pessoa aceitar pô-los a serviço e desenvolvê-los, e a comunidade os acolhe e obedece a eles.

Isto significa que não pode haver ideias feitas sobre os outros na vida comum. Escutam-se muitas vezes julgamentos sobre os outros, até mesmo rejeições; quanto mais se rejeita, mais o outro se sente incapaz. O amor é a esperança imensa da confiança, apesar de todas as tentações de rejeição que se pode sentir dentro de si mesmo.

Assim pode-se obedecer positivamente, acolher-se mutuamente, amar-se, reconhecer-se, perdoar-se, construir-se, edificar-se mutuamente, e encontrar aquele equilíbrio bom numa comunidade aberta, onde o impossível pode tornar-se testemunho para uma difusão da Boa Nova : Cristo quebrou o muro do ódio.

Eis a verdadeira alegria na conversão do coração.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


sábado, 11 de janeiro de 2025

Abadia na França testemunha retorno dos construtores beneditinos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 A planta geral da futura abadia para a comunidade de Le Barroux, a abadia beneditina de Sainte-Marie de la Garde

*Artigo de Solène Tadié

 

‘O encolhimento da Igreja na França parece ter relativamente poupado a vida monástica. Melhor ainda, o país parece estar vendo um retorno gradual de monges-construtores, a ponto de reviver memórias nostálgicas dos dias do rei são Luís IX (1214-1270).

A abadia beneditina de Sainte-Marie de la Garde, comunidade filha de Sainte-Madeleine du Barroux na diocese de Agen, no sudoeste da França, embarcou num vasto e audacioso projeto de ampliação.

A iniciativa dos monges beneditinos é um esforço de reconstrução civilizacional, seguindo um modelo arquitetônico clássico de inspiração românica e cluniacense, destinado a resistir ao teste do tempo.

A primeira fase do chamado Projeto Grande Esperança, lançado em maio de 2023, inclui a construção de um claustro, campanário e alojamentos para os monges. Depois virá a construção de uma igreja e uma cripta abaciais, um complexo hoteleiro, uma sala de conferências e uma enfermaria. O projeto implica em um grande desafio financeiro.

Cresce o número de fiéis e vocações

Ao contrário de muitas comunidades no resto da Europa, os monges de Le Barroux e sua comunidade afiliada de Sainte-Marie de la Garde parecem resistir à tempestade da descristianização do continente.

Em 2001, o número crescente de monges na abadia de Le Barroux (na região de Var, no sudeste da França) levou parte da comunidade a se mudar para a diocese de Agen para acomodar novas vocações e o número crescente de fiéis.

Fundada em 1970 por dom Gérard Calvet, a abadia de Saint-Madeleine du Barroux celebra a missa tradicional em latim anterior à reforma do Concílio Vaticano II. Os serviços litúrgicos, cantados inteiramente em canto gregoriano, foram recentemente postos à disposição do público por meio do aplicativo Neumz.

‘Éramos cerca de 65 em Le Barroux na época, e assim como quando as abelhas em uma colmeia são muito numerosas, e a rainha voa para fundar uma nova colmeia, oito irmãos foram enviados para estabelecer uma nova fundação em outro lugar’, disse o irmão Ambroise, prior da comunidade de Saint-Marie de la Garde, ao jornal National Catholic Register, da EWTN.

Para ele, a mudança foi providencial, já que o bispo de Agen na época, dom Jean-Charles Descubes, estava ansioso para ter uma comunidade contemplativa na diocese e fez tudo o ao seu alcance para facilitar a vinda dos monges. Sem nenhuma abadia ou priorado antigo disponível na região, os irmãos tiveram que adquirir uma propriedade, restaurar as instalações que já existiam, e transformar um velho redil de ovelhas em capela.

O priorado se tornou uma abadia em 2021, com a eleição do primeiro abade, dom Marc Guillot.

A estrutura, que até agora pode acomodar entre 20 e 25 monges, em breve ficará pequena, pois a comunidade já conta com 19 membros, com idade média de 47 anos, e uma ou duas vocações por ano.

‘Mas nossa primeira prioridade é acolher os fiéis na missa, pois a capela comportar um pouco menos de cem pessoas, o que é insuficiente aos domingos e dias festivos, especialmente nos meses de verão, quando somos obrigados a instalar uma tela do lado de fora para que todos possam acompanhar’, disse o irmão Ambroise. ‘Sabíamos desde o início que um dia teríamos que construir nossa própria abadia, mas não víamos isso como um obstáculo’.

As obras, que começaram em maio de 2023, atualmente lidam com as três alas principais do grande claustro, o refeitório, o campanário, a biblioteca, a sala capitular e as celas. Uma quarta ala será construída na segunda fase, prevista para começar em 2027, que incluirá a igreja da abadia e a cripta. Depois, na década de 2030, virão o hotel, a cozinha, as salas de visita, a portaria e, por fim, a enfermaria.

O projeto inteiro, que depende totalmente de patrocínio privado — a lei secular francesa de 1905 proíbe o financiamento público de projetos religiosos — está atualmente estimado em cerca de € 157,9 milhões (cerca de R$ 25 milhões). A comunidade agora estima que faltam pouco menos de €5,8 milhões (cerca de R$ 37 milhões) para os quase €9,6 milhões (cerca de R$ 61,2) milhões necessários para concluir a primeira fase.

Embora várias plataformas de arrecadação de fundos já tenham se mobilizado para apoiar a iniciativa, os monges contam com a experiência e a rede internacional de seu diretor de patrocínio, o general Stéphane Abrial, ex-chefe do Estado-Maior da Força Aérea Francesa e ex-comandante de um dos dois comandos estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

‘É certamente um projeto ambicioso, mas que continua razoável, porque sabemos que os mosteiros serão chamados a desempenhar um papel cada vez maior nos tempos futuros, e cabe a nós mostrar uma ousadia profundamente cristã para reacender a esperança nos corações’, disse o irmão Ambroise. ‘Não temos pretensões, mas imensa convicção’.

Reconstruindo uma Civilização

Para o prior, o aspecto fundamental desse projeto de construção é o desejo de sua comunidade de lembrar ao mundo a primazia de Deus sobre todas as dimensões efêmeras da vida humana, ancorando-a numa herança atemporal.

E para garantir que essa herança seja passada para as gerações futuras, como testemunho silencioso da grandeza e beleza de Deus, todo o complexo será construído no espírito milenar da arquitetura monástica europeia, em pedra de cantaria com fundações de granito, numa abordagem sustentável e ecologicamente correta.

Ao mesmo tempo, a comunidade considera desenvolver uma série de atividades e iniciativas sociais, particularmente na área de treinamento, para apoiar populações locais que, longe dos grandes centros urbanos, sofrem com condições econômicas precárias e lutam para dar um futuro sustentável às suas famílias.

Essa é a receita perfeita para transformar o local em um ‘oásis espiritual’, segundo uma expressão de Bento XVI. Famílias já se aglomeram para comprar casas na área ao redor, confiantes de que o alcance da abadia será sentido em todo o bairro.

É também uma oportunidade para eles de alcançar os que estão longe da fé, tocados por essa iniciativa que dá testemunho da longa tradição francesa de monges construtores, que culminou com Cluny, a abadia mais poderosa da cristandade medieval, e de uma grande confiança no futuro.

Sobre a possibilidade do colapso moral do Ocidente dar origem a um retorno à era de ouro monástica iniciada por São Bento e que contrabalançava a decadência do Império Romano, o irmão Ambroise diz que os cristãos já deveriam agir como se esse fosse o caso.

‘Num momento em que tudo está desmoronando, em que tudo está sendo questionado, em que estamos cedendo ao pessimismo ao nos contentarmos com uma liturgia ruim sob o pretexto de não nos pormos em destaque, uma abadia saindo do chão envia a forte mensagem de que tudo ainda é possível’, concluiu o prior. ‘Neste sentido, nosso projeto faz parte de uma abordagem profundamente civilizacional’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.acidigital.com/noticia/60813/abadia-na-franca-testemunha-retorno-dos-construtores-beneditinos

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

É Deus quem nos chama e envia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da redação da revista Além-mar 


Após seis anos de presença missionária no Nordeste brasileiro, na missão de Piquiá, periferia do município de Açailândia, no Estado do Maranhão, fomos chamados a uma nova etapa como família leiga missionária comboniana (LMC). No mês de Julho de 2023, partimos com a nossa pequena Maria Aparecida, com pouco mais de 2 anos de idade, até à Casa de Missão Santa Teresinha, casa de referência dos LMC do Brasil, localizada na Vila Ipê Amarelo, periferia do município de Contagem, no Estado de Minas Gerais, região Sudeste, percorrendo mais de 2000 km pelas estradas do Brasil.

Ao chegar às terras mineiras, após mais de três dias de viagem, fomos acolhidos pela LMC Cristina Paulek, que aí estava há alguns meses, preparando-se para partir para a República Centro-Africana. Celebrámos juntos a sua missa de envio na comunidade Nossa Senhora Aparecida, próxima à nossa casa, sendo uma das dez comunidades da paróquia comboniana de São Domingos de Gusmão, na região de Nova Contagem. Seguiu-se um almoço partilhado com as pessoas da comunidade na casa de missão, com momento de memórias da caminhada, da história e presença LMC neste território, e de um «até breve» à Cristina, que tanto se dedicou a este povo, em diferentes momentos da história.

Após a partida da Cristina, a nossa tarefa foi preparar a casa para acolher a família italiana que estava a caminho para integrar a comunidade missionária conosco. Glória, Matteo e o pequeno Natan, de 3 anos, da diocese de Módena, Itália, já tinham ultrapassado os trâmites burocráticos de documentação e visto, e chegariam em breve. Começamos, então, a pensar os espaços da casa, a reorganizar as divisões, de modo que pudesse acomodar as duas famílias com as crianças da forma mais acolhedora possível, proporcionando espaços de privacidade e ambientes em comum. Ao mesmo tempo, iniciamos o processo de aproximação da comunidade e da realidade local, para podermos, aos poucos, escutar e perceber aquilo que Deus nos convida a fazer por aqui. 

 Colaboração missionária

Com a chegada da família italiana, apoiamo-los na tarefa de inserção e inculturação, nos espaços da casa e da comunidade paroquial, seguindo juntos nesse percurso do reconhecimento e escuta da realidade local.

Semanalmente, realizávamos um momento para partilhar as nossas impressões e sentimentos do que fomos vivenciando. Diante dos diferentes desafios existentes, fomos vendo as possibilidades de caminhar junto com as pessoas, a partir daquilo com o que poderíamos colaborar, integrando com isso a nossa realidade de família. 

Um dos passos foi, junto com o padre comboniano Ricardo, animar o Grupo de Espiritualidade Comboniana (GEC) de Nova Contagem, que tinha estado por muito tempo sem se encontrar, e que desde a chegada recente desse padre estava retornando as atividades. O grupo é formado por lideranças das diferentes comunidades da paróquia, e reúne-se mensalmente para aprofundar o carisma comboniano e organizar ações de animação missionária a nível paroquial, como a semana missionária no mês de Outubro, o tríduo do nascimento de Comboni no mês de Março, a memória do martírio do padre Ezequiel Ramín, comboniano italiano assassinado na região amazónica em 1985, no mês de Julho, entre outras. O Flávio tem-se somado no acompanhamento desses encontros e tem sido uma caminhada interessante, também de aproximação com as lideranças, o que proporciona um maior conhecimento e colaboração.

Outro desafio é a presença nas iniciativas da Casa Comboniana de Justiça e Paz, localizada nas proximidades da casa paroquial, que proporciona diferentes serviços : atendimentos psicológicos; terapias de saúde integrativas; grupo de artesanato para mulheres; apoio a pessoas com necessidades de acompanhamento em tratamentos de saúde; atendimento de pessoas em situação de insegurança alimentar, com o fornecimento de cestas básicas de alimentos; pastoral da escuta. Nas instalações também se realizam atividades pastorais e de formação da paróquia, nomeadamente na área da pastoral afro, com a reorganização do movimento dos APN (Agentes de Pastoral Negro) que refletem e aprofundam a questão do combate ao racismo através do resgate das raízes culturais e sua riqueza (iniciativa apoiada pelo Projeto Solidário JIM, ver página 51). 

A Liliana, LMC portuguesa, tem realizado semanalmente o atendimento com a terapia de biomagnetismo neste espaço, terapia que conhecemos no Maranhão e que é um milagre de Deus na nossa vida, pois nos possibilitou a graça de ampliar a nossa família com a vida da nossa filha.

Desafios

Na comunidade do Ipê Amarelo, um desafio percebido foi a desarticulação da associação comunitária do bairro desde o período da pandemia. Era um grupo ativo, sobretudo com o atendimento dos idosos da comunidade, a promoção de momentos de convívio e de conversação, as oficinas de artesanato. Não obstante, desde o período da pandemia, por diferentes razões, incluindo a questão da partilha do espaço físico da sede da associação com outro grupo, as atividades estavam paradas. 

Dialogando com as pessoas e escutando as suas lembranças e expectativas, temos articulado uma retoma desses momentos comunitários, enquanto contribuímos na construção de um diálogo mais colaborativo com o grupo que partilha o mesmo espaço. Há algumas semanas temos conseguido realizar nas segunda e quartas-feiras à tarde um momento de encontro, alternando com rodas de conversa e oficinas de formação. Já conversámos sobre os problemas de abastecimento de água no bairro, prevenção de infarto, terapia de biomagnetismo, pessoas da comunidade que estão em dificuldades. Além disso, o Flávio tem realizado encontros que visam o desenvolvimento da meliponicultura (criação de abelhas melíponas, isto é, produtoras de mel) como forma de colaboração com o meio ambiente, proporcionando espaços para a multiplicação desses agentes polinizadores nos espaços urbanos. E a Liliana iniciou o atendimento com o biomagnetismo também no espaço da associação, sendo um local mais próximo para as pessoas da comunidade.

Em casa, a vida comunitária foi-se organizando e reorganizando, conforme a realidade de cada etapa. No terreno da casa de missão há duas construções. Nos primeiros meses, a nossa família ocupou a sala da casa maior como quarto, enquanto se ampliava a estrutura da casa existente ao lado para poder ter um quarto também para a pequena Maria. A obra, que se pensava levar três meses, levou nove. Quase como gerar uma criança, geramos e gerimos essa relação comunitária ao longo desse tempo e então partimos para o novo espaço, ainda em organização. Têm sido tempos de crescimento e constante amadurecimento, pessoal e das relações. A Maria, desde o início do ano, está na escolinha, também para nós uma nova etapa e desafio, como para todos os pais.

Passado quase um ano desde a nossa chegada, temos vivido diferentes momentos, alguns mais desafiadores, outros mais alegres e motivadores. Integrar missão como família é um caminho exigente, e ao mesmo tempo, profundamente recompensador. Caminhar com a comunidade, ver as crianças integradas, e aprender a cada dia a confiar no Deus que nos envia! Tudo é missão! A vida é missão!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/1225/e-deus-quem-nos-chama-e-envia/

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Papa Francisco: os padres precisam ter esses 4 traços no mundo de hoje

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Gerard O'Connell

Tradução  : Ramón Lara


‘Falando em um simpósio sobre sacerdócio, no Vaticano, em 17 de fevereiro, o Papa Francisco ofereceu reflexões que, segundo ele, podem ser consideradas ‘o canto do cisne’ de sua vida sacerdotal, pois são fruto ‘do que o Senhor me ajudou gradualmente realizar’ durante mais de 50 anos no ministério.

Francisco foi ordenado sacerdote da Companhia de Jesus em 13 de dezembro de 1969. Em uma palestra profundamente espiritual nesta semana, apresentou o que chamou de ‘quatro pilares’ ou ‘quatro formas de proximidade’ que considera fundamentais para a vida de um sacerdote ‘pois imitam o próprio estilo de Deus de Deus, que é essencialmente um estilo de proximidade’.

Ao contrário das expectativas, Francisco não fez referência direta ao abuso sexual clerical, que causou uma crise tão profunda na Igreja Católica. Seu objetivo, em vez disso, era apresentar as atitudes fundamentais que ele acredita que todo padre deveria ter no século 21.

Muitos observadores também esperavam que Francisco abordasse a questão do celibato para padres em sua palestra, principalmente porque a questão foi o centro das atenções no sínodo da Amazônia sobre a questão da ordenação de homens casados e, mais recentemente, no caminho sinodal alemão. Mas ele optou apenas por fazer alguns comentários sobre o assunto. Falando no contexto da necessidade de proximidade de um padre com outros padres, o papa disse : ‘Sem amigos e sem oração, o celibato pode se tornar um fardo insuportável e um contratestemunho da própria beleza do sacerdócio’.

O simpósio, por outro lado, discutirá o celibato em seu último dia. Não se espera que ela abra novos caminhos, já que seu principal organizador, o cardeal Marc Ouellet, que escolheu os palestrantes, é conhecido por ser um forte defensor do status quo.

O Papa Francisco disse que, ao preparar sua palestra, foi influenciado tanto pela memória dos padres que durante sua infância e vida posterior lhe mostraram ‘o rosto do Bom Pastor’ quanto por sua própria experiência em acompanhar padres ‘que perderam o fogo do primeiro amor.’ Ele também mencionou as provações e dificuldades que experimentou como sacerdote.

Francisco disse que os desafios de nossa época, incluindo a pandemia de Covid-19 em andamento, exigem que os padres encontrem novas maneiras de responder, mas que muitas respostas hoje não têm ‘o sabor do Evangelho’. Também apontou que alguns padres buscam respostas ancoradas no passado que ‘garantam’ proteção contra riscos; mas se refugiam em uma sociedade que não existe mais. Outros adotam uma atitude de ‘otimismo exasperado’ que acaba por ignorar as feridas das pessoas e não reconhece as tensões, complexidades e ambiguidades do tempo presente.

Sinto que Jesus neste momento da história nos convida mais uma vez a 'lançar-nos no abismo' [Lc 5,4], confiando que Ele é o Senhor da história e que, com sua orientação, discerniremos a direção tomar’, apontou.

À luz dessas realidades, o Papa Francisco disse que decidiu ‘falar sobre o que considero decisivo para a vida de um sacerdote hoje’, ou seja, ‘as quatro formas de proximidade’ : proximidade com Deus, proximidade com o bispo, proximidade com os outros sacerdotes e proximidade com o povo de Deus.

Proximidade com Deus

O papa, primeiro sublinhou a importância fundamental da ‘proximidade com o Senhor’ citando as palavras de Jesus : ‘Eu sou a videira, vocês são os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer’.

Um padre’, disse, ‘é convidado a cultivar antes de tudo essa proximidade, intimidade com Deus, e dessa relação pode alcançar todas as forças necessárias para seu ministério’. Francisco disse que ‘muitas crises no sacerdócio’ têm sua origem na ‘falta de vida de oração, falta de intimidade com o Senhor, redução da vida espiritual a uma mera prática religiosa’.

Lembro-me de momentos importantes da minha vida em que esta proximidade com o Senhor foi decisiva para me sustentar’, falou o Papa.

Sublinhou que ‘sem a intimidade da oração, da vida espiritual, da proximidade concreta de Deus através da escuta da Palavra, da celebração da Eucaristia, do silêncio da adoração, da entrega a Maria, do acompanhamento de um guia, do sacramento da reconciliação… um sacerdote é apenas um mercenário cansado que não tem nenhum dos benefícios dos amigos do Senhor’.

O Santo Padre reconheceu que ‘tudo isso é difícil, a menos que se esteja acostumado a ter espaços de silêncio durante o dia’. É difícil evitar a atividade constante quando não se obtém imediatamente ‘paz’ no coração e, em vez disso, experimenta-se desolação. Mas, disse, ‘é precisamente aceitando a desolação que vem do silêncio, da abstinência da atividade e da palavra, da coragem de se examinar com sinceridade, que tudo ganha uma luz e uma paz que não dependem de nossas próprias forças e nossas capacidades’.

Além disso, apontou, perseverar na oração não significa apenas permanecer fiel a uma prática. Significa não fugir naqueles momentos em que a oração nos leva ao deserto. O caminho do deserto é o caminho que leva à intimidade com Deus.

Proximidade com o bispo

Francisco disse que essa segunda ‘proximidade’, expressa no voto de obediência do padre ao bispo, muitas vezes foi lida de uma maneira que está longe do espírito do Evangelho.

Esta obediência não deve ser vista como ‘um atributo disciplinar’, apontou, mas sim como ‘o sinal mais profundo dos laços que nos unem em comunhão’. Obedecer significa ‘aprender a ouvir e lembrar que ninguém é ‘dono’ da vontade de Deus, que deve ser compreendida apenas através do discernimento’. A lógica desta proximidade, disse, ‘nos permite vencer todas as tentações da mente fechada, da autojustificação e da vida de 'solteiros' e, em vez disso, nos convida a ouvir os outros para encontrar o caminho que leva à verdade e à vida’.

O bispo, seja ele quem for, representa para cada padre e para cada igreja em particular um vínculo que ajuda a discernir a vontade de Deus’, disse Francisco. Mas, insistiu, um bispo só pode promover o discernimento se ouvir ‘a vida de seus sacerdotes e do povo santo de Deus confiado aos seus cuidados’.

Não é por acaso que o mal, para destruir a fecundidade do trabalho da Igreja, procura minar os laços que estabelecem e preservam a unidade’, disse o Papa. Portanto, defender ‘os vínculos do sacerdote com sua Igreja particular, com o instituto ao qual pertence e com seu bispo torna a vida sacerdotal confiável e segura’.

A obediência ‘é a decisão fundamental para aceitar o que nos é pedido’, disse, e exige que os padres ‘rezem por seus bispos e se sintam livres para expressar suas opiniões com respeito e sinceridade, humildade e com a capacidade de ouvir, de ser autocrítico e de se deixar ajudar’.

Se defendermos esse vínculo, prosseguiremos com segurança em nossa jornada’, concluiu.

Proximidade com outros padres

Comentando a terceira atitude fundamental, a proximidade com os outros sacerdotes, o Papa Francisco recordou as palavras de Jesus : ‘onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles’ (Mt 18,20). ‘A fraternidade, como a obediência, não pode ser uma imposição moral de fora’, disse. ‘Fraternidade significa escolher deliberadamente buscar a santidade junto com os outros, não sozinho’.

Francisco disse que ‘os sinais da fraternidade são os do amor’, como disse São Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios (13,4-7). Mencionou primeiro a paciência, que ‘é a capacidade de se sentir responsável pelos outros, de carregar seus fardos, de sofrer de alguma forma com eles’. A paciência é ‘o oposto da indiferença’, de manter distância dos outros para não se envolver em suas vidas, o que é algo que contribui para a solidão dos sacerdotes em muitos presbitérios. Francisco contrastou paciência com inveja, dizendo que não há necessidade de se vangloriar ou inflar o ego porque ‘se há uma coisa de que um sacerdote pode se gloriar é da misericórdia de Deus’ porque ‘ele conhece seus próprios pecados, sua própria miséria, sua limites.’

O amor fraterno não busca o próprio interesse, não é dado à raiva ou ao ressentimento’, disse. Antes, ‘regozija-se com a verdade’ e considera como pecado grave qualquer ‘ataque contra a verdade e a dignidade dos irmãos por meio de calúnias, falas maldosas e boatos’.

Francisco comentou : ‘Todos sabemos como pode ser difícil viver em comunidade’. Mas, disse ele, ‘o amor fraterno é a grande profecia que somos chamados a incorporar na sociedade descartável de hoje’.

Nesse contexto, Francisco comentou sobre o celibato e disse : ‘Onde funciona a fraternidade sacerdotal e onde há laços de verdadeira amizade, é possível viver com mais serenidade também a escolha do celibato’. Ainda reafirmou que ‘o celibato é um dom que a Igreja latina preserva, mas é um dom que, para ser vivido como meio de santificação, exige relacionamentos saudáveis, de verdadeira estima e verdadeira bondade, profundamente enraizados em Cristo. Sem amigos e sem oração, o celibato pode tornar-se um fardo insuportável e um contratestemunho da própria beleza do sacerdócio’.

Proximidade com as pessoas

Francisco enfatizou que ‘nossa relação [como sacerdotes] com o povo santo de Deus é para cada um de nós não um dever, mas uma graça’.

Amar os outros é uma força espiritual que nos atrai à união com Deus’, disse.

Citando sua encíclica, ‘A Alegria do Evangelho’, disse : ‘Para ser evangelizadores das almas, precisamos desenvolver o gosto espiritual de estar perto da vida das pessoas e descobrir que isso é uma fonte de maior alegria. A missão é ao mesmo tempo uma paixão por Jesus e uma paixão por seu povo’.

O Papa Francisco concluiu dizendo aos sacerdotes que ‘as quatro formas de proximidade que o Senhor exige não são um fardo a mais; são um dom que ele dá para manter viva e fecunda nossa vocação’.

Estou certo de que, para compreender de novo a identidade do sacerdócio hoje, é importante viver em estreita relação com a vida real das pessoas’, disse Francisco. Ainda acrescentou : ‘Jesus quer que toquemos a miséria humana, toquemos a carne sofredora dos outros’.

O Povo de Deus espera encontrar pastores com o estilo de Jesus – não 'funcionários clericais' ou 'profissionais do sagrado' – mas pastores cheios de compaixão, oportunidades, homens corajosos, capazes de parar diante de quem está ferido e mostrar preocupação’, disse o Papa Francisco. ‘Homens de coragem, prontos para se aproximar dos que sofrem e ajudar. Homens contemplativos, cuja proximidade com as pessoas lhes permite proclamar diante do poder da Ressurreição ainda agora em ação’.

Ao estar perto das pessoas, disse Francisco, ‘um pastor torna possível reunir uma comunidade e promover o crescimento desse sentimento de pertença. Pois pertencemos ao povo santo e fiel de Deus, que é chamado a ser um sinal da ruptura do reino de Deus no aqui e agora da história. Mas se o pastor se afastar, as ovelhas também se perderão e ficarão à mercê de todo e qualquer lobo’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1566419/2022/02/papa-francisco-os-padres-precisam-ter-esses-4-tracos-no-mundo-de-hoje/

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Cardeal fala do papel de comunidades monásticas no Sínodo dos Bispos

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Redação ACI


‘Faltando pouco mais de um mês para a abertura oficial do próximo sínodo dos bispos, que terá como tema ‘Por uma Igreja sinodal : comunhão, participação e missão’, o secretário-geral do sínodo, cardeal Mario Grech, escreveu uma carta às comunidades monásticas para explicar-lhes qual será sua principal missão durante os trabalhos preparatórios.

Os trabalhos do sínodo começarão oficialmente em 9 de outubro deste ano e terminarão em 2023, também no mês de outubro, com a celebração da Assembléia Geral Ordinária, em Roma.

Em carta, o cardeal Grech disse aos membros das comunidades monásticas que eles foram eleitos para uma tarefa muito específica : a oração. ‘Há pessoas que, escolhidas entre o povo, têm a tarefa de nunca abandonar, nem de dia, nem de noite, o ministério da oração e do louvor no templo do Senhor’, disse o cardeal.

Ele pediu aos irmãos e irmãs chamados à vida monástica e contemplativa que sejam ‘custódios, para todos, do pulmão da oração’. Essa será a sua principal missão durante os trabalhos do sínodo, sem que isso prejudique outras contribuições.

Certamente, não faltará a contribuição de vocês em outros aspectos dos diversos momentos do nosso caminho sinodal, mas a sua vocação ajuda-nos, ainda que só com a sua presença, a ser uma Igreja que escuta a Palavra, capaz de deixar que o Espírito converta o seu coração, que persevera na comunhão e na oração’, afirmou o cardeal.

Não lhes peço que rezem em vez dos outros irmãos e irmãs’, acrescentou, ‘mas que estejam atentos à dimensão espiritual do caminho que empreenderemos, para poder discernir a ação de Deus na vida da Igreja universal e de cada uma das Igrejas particulares’.

A oração é o encontro dinâmico do amor no Deus Trino : na unidade multiforme que nos impulsiona ao testemunho vivo’, disse o cardeal. Segundo ele a oração está profundamente ligada a outros três termos : escuta, conversão e comunhão. Sobre a escuta, lembrou a afirmação do papa Francisco : ‘uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, consciente de que escutar é mais do que ouvir’. O cardeal disse que ‘a vida monástica e contemplativa pôs a experiência da escuta sempre no centro, a tal ponto de que, muitas vezes, as regras monásticas das diferentes tradições não foram outra coisa que compilações de expressões bíblicas e evangélicas, para afirmar que a vida monástica e contemplativa é uma encarnação da Palavra de Deus escutada, meditada e interiorizada’.

A própria hospitalidade, tão comum nas comunidades monásticas e contemplativas, é uma experiência de acolhida e escuta, que encontra sua fonte no convívio com as Escrituras, na ‘lectio divina’ e em outros enfoques espirituais à Palavra de Deus’, disse o cardeal.

O segundo lugar, a conversão, está intimamente ligado à escuta. O cardeal Grech afirmou que ‘um verdadeiro caminho sinodal não pode prescindir da vontade de se deixar converter pela escuta da Palavra e da ação do Espírito Santo em nossa vida’. ‘A vida monástica e contemplativa recorda a toda a Igreja que o convite à conversão está no próprio coração do anúncio de Jesus, que percorria as aldeias da Galileia dizendo : ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo’’.

Por fim, o terceiro termo : comunhão. O cardeal afirmou que a ‘sinodalidade’ é uma garantia de unidade, como lembrou o papa : ‘O fato de o sínodo atuar sempre ‘cum Petro’ e ‘sub Petro’ não é uma limitação da liberdade, mas uma garantia de unidade’.

Para o cardeal, a vida contemplativa e monástica testemunha essa verdade e estabelece o vínculo que une a escuta e a conversão com a comunhão : ‘A finalidade da escuta e da conversão é a comunhão’.

Nas suas comunidades, sabem bem que a comunhão é também o critério último de discernimento e de verificação do caminho sinodal’, afirmou, e que ‘a comunhão eclesial é o selo de discernimento e de verificação do caminho sinodal’.

De fato, ‘a vida comunitária, própria da vida religiosa, se experimenta como comunhão, que não é o mesmo que uniformidade. Efetivamente, é o critério para verificar um autêntico caminho compartilhado em uma perspectiva de fé’.

Por fim, o cardeal Grech disse que os irmãos e irmãs chamados à vida monástica e contemplativa, ‘com sua preciosa vocação, que enriquece toda a comunidade eclesial, são custódios e testemunhas de realidades fundamentais para o processo sinodal que o Santo Padre nos convida a realizar’’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/cardeal-fala-do-papel-de-comunidades-monasticas-no-sinodo-dos-bispos-48178

terça-feira, 28 de julho de 2020

Catequese como inserção na comunidade dos batizados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados

*Artigo do Padre Francisco Thallys Rodrigues,

presbítero da Diocese de Crateús,

trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, Tauá, CE


‘Desde os inícios do cristianismo houve um processo de preparação para a inserção nas comunidades cristãs. Ao longo dos séculos, esta preparação passou por muitas mudanças em sua estrutura e organização, a partir das necessidades de cada tempo e lugar. Desde a virada antropocêntrica, iniciada na modernidade e radicalizada na subjetividade da modernidade líquida, a catequese é desafiada a romper o casulo do individualismo, para renascer como catequese que insere a pessoa no seguimento a Jesus, na comunidade dos batizados.

As primeiras comunidades cristãs estavam organizadas em torno da memória de Jesus e da fração do pão, os bens eram partilhados segundo as necessidades de cada um (At 2, 42-47). O crescimento e a expansão das comunidades trouxeram a necessidade de uma preparação para o ingresso pleno. Era necessário conhecer quem era Jesus e as exigências do ser cristão. Este processo ficou conhecido como catecumenato. Após um tempo de preparação, os catecúmenos eram acolhidos na comunidade, podendo participar, integralmente, da fração do pão (Eucaristia), bem como nas demais atividades. Neste percurso, os catecúmenos despojavam-se do homem velho para uma vida nova. No batismo se ‘passava dos ídolos ao Deus vivo e verdadeiro’ (TABORDA).

Ora, o anúncio da fé cristã, sua preparação e vivência, aconteciam dentro de uma comunidade concreta de pessoas que se entendiam como irmãos e irmãs, filhos de Deus, a partir do batismo. Era impensável cristãos sem comunidades, que vivessem isolados. Neste sentido, pôde-se dizer que a fé cristã é necessariamente eclesial, isto é, nasce a partir da comunidade dos batizados que professam a fé em Jesus Cristo ressuscitado, que revelou o Pai e nos enviou o Espírito. A comunidade gera, no batismo, filhos e filhas e os alimenta por meio da fração do pão, da vida fraterna e da caridade. 

Quando se toma os textos que compõem o Novo Testamento, nota-se a presença viva de diferentes comunidades, nas suas alegrias e tristezas, como seguidoras de Jesus. Os Evangelhos evidenciam as crises e os desafios enfrentados, enquanto que as Cartas de Paulo, são dirigidas as comunidades, que receberam o anúncio da fé e que passam por dificuldades. Portanto, desde uma perspectiva bíblica, não se pode pensar em cristãos avulsos, desligados de comunidades concretas.

No decorrer dos séculos, este processo de preparação passou por diversas mudanças. Por muito tempo, a catequese foi compreendida como preparação exclusiva para os sacramentos, estando ancorada em catecismos, que ensinavam ‘fórmulas e doutrinas’, sem uma clara contextualização desta vivencia da fé. Entretanto, mesmo neste tempo, a catequese acontecia no seio da comunidade, a partir de pessoas designadas para esta missão.

Nos últimos tempos, tem ocorrido muitos esforços, para uma preparação da catequese que brote desde a comunidade de fé e que conduza ao seguimento a Jesus. A catequese de inspiração catecumenal, é uma tentativa de resposta ao tempo presente, a partir das intuições fundamentais da Tradição da Igreja, sobretudo, a partir do Concílio Vaticano II. O êxito desta proposta, depende de um trabalho conjunto, que conjugue diferentes instâncias : famílias, animadores, membros da comunidade[1] e, principalmente, o protagonismo do catecúmeno em vista de gerar um verdadeiro discipulado, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma).  Todos devem sentir-se corresponsáveis pela formação dos novos membros.

Não se pode ceder à tentação da individualização da fé cristã que reduz o Reinado de Deus, anunciado por Jesus, a um sentimento, doutrina ou filosofia, que pode ser vivido de modo individualista. Cada vez mais, a fé cristã tem sido apresentada, desprovida de seu caráter comunitário, do seu compromisso com a vida em todas as suas expressões. Jesus é apresentado como um fazedor de milagres, que resolve todos os problemas, mas que não gera compromisso com o Reinado de Deus. A partir dos dados dos Evangelhos e das primeiras comunidades cristãs, fica evidente que esta é uma grave distorção. A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados.

É preciso passar de uma catequese que ensina doutrinas e fórmulas, a uma catequese que leve ao encontro com Jesus Cristo. A catequese deve levar a inserção no mistério de Cristo dentro da comunidade, para que se experimente os mesmos sentimentos que perpassaram Jesus (Fl 2,5). Precisamos de uma catequese que prepare para a vivência do Evangelho, que não seja puramente sacramental. Nas palavras do papa Francisco : ‘A iniciação cristã exige que nas nossas comunidades se realize sempre mais um itinerário catequético que ajude a experimentar o encontro com o Senhor, o crescimento no seu conhecimento e o amor pelo seu seguimento’.

O encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-42) ilustra o processo mistagógico que deve perpassar a catequese. Neste encontro, Jesus estabelece uma relação com a samaritana, rompendo todas as barreiras religiosas e étnicas, na qual apresenta a água viva que sacia todas as sedes humanas. Este encontro com Jesus, leva a samaritana a deixar o cântaro, para anunciar aos seus, que encontrou o sentido para a vida. Queira Deus que nossa catequese seja, cada vez mais, mistagógica, levando ao encontro com Jesus e com os irmãos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1461191/2020/07/catequese-como-insercao-na-comunidade-dos-batizados/

 

[1] E principalmente o protagonismo do catecumeno em vista de gerir um verdadeiro DISCIPULADO, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma)