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domingo, 12 de novembro de 2023

A graça do batismo, a tradição e os costumes clericais

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea Tornielli


Uma reflexão sobre as respostas do Dicastério para a Doutrina da Fé com relação à celebração do batismo e às pessoas transexuais e homossexuais


São Cipriano, bispo de Cartago, que foi martirizado em 258, participando de um sínodo de bispos africanos, observou : ‘A nenhum homem que venha a existir pode ser negada a misericórdia e a graça de Deus’. E Santo Agostinho escreveu : «As crianças são apresentadas para receber a graça espiritual, não tanto por aqueles que as carregam nos braços (embora também por eles, se forem bons fiéis), mas pela sociedade universal dos santos e dos fiéis... É toda a Igreja Mãe dos santos que age, pois ela como um todo gera cada um deles».

Essas são duas declarações dos Padres da Igreja que atestam a absoluta gratuidade do batismo, de alguma forma também relativizando o papel dos pais e padrinhos (‘se forem bons fiéis’) que pedem o sacramento e apresentam a criança. Essas são palavras que melhor do que outras iluminam a recente resposta do Dicastério para a Doutrina da Fé às perguntas de um bispo brasileiro sobre o batismo. A nota assinada pelo cardeal Victor Manuel Fernandéz e aprovada pelo Papa Francisco mostra uma clara harmonia com o recente magistério papal. De fato, Francisco tem insistido repetidamente que a porta dos sacramentos, e em particular a do batismo, não deve permanecer fechada, e que a Igreja nunca deve se transformar em uma alfândega, mas sim acolher e acompanhar todos em seus acidentados caminhos na vida.

Um documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinado pelo Prefeito Fernandéz e aprovado pelo Papa na audiência de 31 de outubro, expressa uma opinião positiva se não se cria ...

As respostas do dicastério doutrinário, no contexto altamente polarizado que caracteriza a Igreja hoje, provocaram reações opostas, incluindo aquelas que temem que, ao admitir ao sacramento do batismo os filhos de casais homossexuais (adotados ou filhos de um dos dois parceiros, talvez gerados por gestação artificial), tanto o chamado ‘casamento gay’ quanto a prática do chamado ‘útero de aluguel’ se tornem moralmente lícitos. Também pode ser lida nesse sentido, novamente pelos críticos, a flexibilização da proibição de padrinhos e madrinhas de batismo, que o Dicastério apresenta de forma problemática. 

Em primeiro lugar, é interessante notar uma passagem da nota, onde se recorda que as respostas publicadas nestes dias ‘repropõem, em boa substância, os conteúdos fundamentais do que já foi afirmado no passado sobre este assunto por este Dicastério’. A menção se refere a pronunciamentos anteriores que permaneceram em segredo (um dos quais também é citado na nota de rodapé) que remontam a este pontificado e aos de seus antecessores. Além disso, as citações iniciais dos dois Padres da Igreja propostas no início deste artigo estão contidas, juntamente com muitas outras, em um documento público da então Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada pelo cardeal croata Franjo Šeper e pelo arcebispo dominicano Jérôme Hamer. Essa foi uma instrução aprovada em outubro de 1980 por São João Paulo II, na qual ele respondeu a uma série de objeções contra a celebração do batismo infantil, reafirmando a importância de uma ‘prática imemorial’ de origem apostólica que não deveria ser abandonada.

Para aqueles que hoje negariam o batismo aos filhos de casais homossexuais porque, ao batizá-los, a Igreja tornaria moralmente lícitas as uniões homossexuais ou a prática da barriga de aluguel, o documento de 1980 já havia, de fato, respondido indiretamente, afirmando que ‘a prática do batismo infantil é autenticamente evangélica, pois tem valor de testemunho; manifesta a iniciativa de Deus em relação a nós e a gratuidade de seu amor que envolve toda a nossa vida : 'Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou... Nós o amamos, porque ele nos amou primeiro' (1 João 4: 10. 19.)’. E também ‘no caso dos adultos, as exigências de receber o batismo não devem nos fazer esquecer que Deus 'não nos salvou por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, median­te o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo,' (Tito 3, 5.)’.

A instrução aprovada pelo Papa Wojtyla há quarenta e três anos obviamente levou em conta a mudança do contexto social e a secularização : ‘Pode acontecer que pais incrédulos e que praticam apenas ocasionalmente, ou mesmo não cristãos, que por razões dignas de consideração pedem o batismo para seus filhos, solicitem aos párocos’. Como se deve agir nesses casos? Permanecendo válido o critério - de ontem e de hoje - de que o batismo de crianças é celebrado se houver o compromisso de educá-las de maneira cristã, o documento de 1980 especificou a esse respeito : ‘Quanto às promessas, qualquer compromisso que ofereça uma esperança bem fundamentada para a educação cristã das crianças deve ser considerado suficiente’. A prática atual nas paróquias atesta o fato de que, seguindo o exemplo do Nazareno, incansável em sua busca por cada ovelha perdida, é suficiente que um parente se comprometa perante a Igreja a não fechar a porta. 

Não seria necessário, hoje, acreditar mais na ação da graça que atua por meio dos sacramentos, que não são um prêmio para os perfeitos, mas um remédio para os pecadores? Não deveríamos olhar mais para as páginas do Evangelho, de onde emerge Jesus, que ama primeiro, perdoa primeiro, abraça primeiro com misericórdia, e é nesse abraço que o coração das pessoas é movido para a conversão?

E, novamente, que culpa têm as crianças? Seja como for que tenham vindo ao mundo, elas são sempre criaturas amadas e queridas de Deus. Não valeria a pena, então, concentrar-se mais no lado positivo, ou seja, no fato de que as pessoas pedem o batismo em um contexto pós-cristão, onde é cada vez mais raro que isso aconteça por mero costume?

É confortante reler as palavras que um grande bispo do século XX proferiu em uma entrevista em julho de 1978 sobre Luise Brown, a primeira criança nascida em um tubo de ensaio. Ele denunciou o risco de surgirem ‘fábricas de crianças’ separadas do contexto familiar e explicou que compartilhava ‘apenas em parte’ o entusiasmo pelo experimento. Mas, no final, ele ofereceu seus ‘mais calorosos votos à criança’ e um pensamento afetuoso aos pais, dizendo : ‘Não tenho o direito de condená-los : subjetivamente, se eles agiram com intenção correta e de boa fé, podem até ter grande mérito diante de Deus pelo que decidiram e pediram aos médicos para realizar’. Esse bispo se chamava Albino Luciani, era o Patriarca de Veneza, um mês depois se tornaria João Paulo I e hoje é beato.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-11/editorial-tornielli-a-graca-do-batismo-e-os-costumes-clericais.html

sábado, 11 de março de 2023

Quaresma: itinerário pascal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE


O batismo é o primeiro passo da iniciação à vida crista. O batismo é também o nascimento para a vida cristã. Mediante o batismo, homens e mulheres, por serem criaturas humanas, são consagrados como filhos e filhas de Deus, tornando-se templos do Espírito Santo, assim como assegura o apóstolo Paulo : ‘Pela graça do batismo, que possamos chegar ao estado de homem perfeito à estatura da maturidade de Cristo’ (Ef 4, 13). Animados, evidentemente, pela Palavra de Deus, lâmpada para nossos passos e luz para nossas estradas da vida (cf. Sl 15), neste tempo da Quaresma, a Igreja de Deus não para, prosseguindo sua caminhada, na promessa de Jesus de Nazaré, a de um mundo reconciliado, pacificado e transfigurado em Deus.

O mistério da cruz de Cristo é enorme e ensina-nos que a salvação é definitiva, que temos que nos afastar do relativo e abraçar o absoluto. Também nos ensina que temos que nos convencer sempre mais de que o sonho de Deus, que é paz, justiça, concórdia e solidariedade, é tarefa de todos. Que a vida se constitui no viver bem neste mundo, na lógica do projeto de Deus, que quer dizer que devemos andar na direção do Reino de amor, inaugurado por Jesus de Nazaré, ensinando-nos a deixar para trás sua realidade contraditória, agora direcionada para um cenário sagrado e beatífico, longe de choro, tristeza, enfermidade e morte; enfim, será a paz, o novo céu e a nova terra, na sua Páscoa definitiva.

Como é importante perceber e acolher, neste itinerário pascal, como incógnita vasto e profusamente dilatado, a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, numa abrangência a conduzir ao mistério contemplação, mas como sinal do amor maior, imprimindo na mente e no coração das pessoas o olhar solidário de Jesus de Nazaré, sem que nunca se esqueça dos pontos cruciais da Mãe Terra, onde residem criaturas humanas em situação infra-humana ou em estado de rejeição ou abandono.

Que o Cristo exaltado da cruz seja memória clara, e que não paire dúvida sobre a redenção do gênero humano, sensibilizando-nos a proclamar bem alto e até mesmo gritar o Evangelho de Jesus com a própria vida, na assertiva do bem-aventurado Charles de Foucauld : ‘Tão logo que acreditei existir um Deus, compreendi que só podia fazer uma única coisa : viver só para Ele’. Assim seja!’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domhelder.edu.br/noticias/pagina/religiao

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

A Igreja Católica precisa repensar o papel dos padrinhos

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ted Kennedy Jr

Tradução : Ramón Lara


No ano passado, aos 59 anos, escolhi uma nova madrinha.

Um ano antes, minha madrinha e tia, Jean Kennedy Smith, havia falecido, Jean e eu construímos uma vida inteira de memórias e confidências, trabalhamos de perto para expandir as oportunidades artísticas para pessoas com deficiência, e sua perda me deixou diante de um vazio emocional e espiritual.

Meu relacionamento com Jean não poderia ser substituído, mas era importante para mim construir outro relacionamento único com alguém que incorporasse integridade, uma profunda espiritualidade e uma profunda gratidão pela vida. Gradualmente, uma imagem de uma potencial nova madrinha se formou na mente : minha tia Ethel Kennedy.

Minha tia Ethel e eu compartilhamos um vínculo especial há muito tempo. Nossos jantares juntos são recheados de histórias e seguidos de canções. (Ethel adora quando canto um sucesso atual da Broadway ou uma velha balada) Adoramos velejar juntos no Nantucket Sound, e finge surpresa quando peço para assumir o leme, o que sempre faço. Nós rimos juntos e choramos juntos. Sempre valorizei profundamente sua perspectiva e orientação únicas, especialmente em momentos difíceis e dolorosos. Sinto que minha tia Ethel possui mais sabedoria, compaixão, fé, gratidão e aceitação do que qualquer outra pessoa que conheço.

No entanto, hesitei em pedir que assumisse esse novo papel. Como matriarca de nossa família, minha tia Ethel tem muitas outras responsabilidades familiares. E ela tem muitos filhos, netos e bisnetos que já exigem seu amor e atenção. Eu não queria sobrecarregá-la ou aumentar sua longa lista de obrigações.

Mas quanto mais pensava nisso, mais percebia que era a única pessoa em minha vida que incorporava o tipo de fé que mais admiro e respeito. Resolvi escrever uma carta e convidá-la para ser minha madrinha.

Certa noite, antes de um de nossos jantares à beira da lareira, decidi ler a carta em voz alta. Tia Ethel estava sentada em seu lugar habitual em seu sofá azul, com seu cachorro, Rascal, descansando ao seu lado. Levantei-me e tirei a carta manuscrita do bolso da camisa. Limpei minha garganta. Com lágrimas começando a brotar em meus olhos, li minha carta para ela. Expliquei o quanto a amava e estimava, e como esperava que ela considerasse esse novo e especial papel de madrinha.

Eu nunca vou esquecer o amor e a emoção que nós dois sentimos quando ela aceitou com entusiasmo. Eu estava sobrecarregado de alegria.

Minha tia Ethel sugeriu que de alguma forma formalizássemos nosso novo relacionamento e eu concordei. Convidamos nossa família e alguns amigos próximos para assistir à missa juntos, após o que ambos demos um testemunho de amor um pelo outro, bem como nossas esperanças para nosso novo relacionamento espiritual. (Fomos abençoados por ter Matt Malone, S.J., da America Media, para celebrar esta cerimônia) Concluímos o culto pedindo a todos os presentes que se unissem para renovar nossas promessas batismais, que nos uniram e reafirmaram nosso relacionamento com nossa comunidade cristã maior.

Um novo começo

Ao compartilhar esta história com um grupo mais amplo de familiares e amigos católicos, muitos ficaram surpresos ao saber do meu status de novo afilhado. Eles nunca imaginaram que fosse possível, quando adultos, escolher um novo padrinho depois de perder um antigo. Também compartilhei minha história com vários padres. Eles me disseram que não conseguiam se lembrar de um único caso em que um adulto convidou alguém para se tornar seu novo padrinho.

Alguns dos meus amigos descreveram o luto pela perda de seus padrinhos, por morte ou desconexão, enquanto outros não se lembram de ter conhecido seus padrinhos. É um papel que significa coisas diferentes para pessoas diferentes, mas a Igreja Católica tem uma compreensão específica disso. Para batismos infantis, normalmente um padrinho é um amigo próximo ou parente dos pais da criança. Eles são escolhidos para testemunhar o batismo de uma criança e devem orientar a criança em seu desenvolvimento de caráter e formação espiritual. E na igreja primitiva, os padrinhos juravam assumir a responsabilidade legal e financeira por seu afilhado em caso de negligência ou morte dos pais.

Contudo, muitas vezes, entendemos que a relação padrinho/afilhado se estende apenas até a infância do afilhado. Acredito que nossa comunidade católica precisa expandir nossa noção atual desse relacionamento sagrado para aqueles de nós batizados quando crianças, a fim de enfatizar que o papel é aquele que dura e é necessário por toda a vida. Se não fizermos isso, estaremos perdendo uma enorme oportunidade de fortalecer nossos laços espirituais e intergeracionais.

A necessidade e o desejo de orientação espiritual, amor, apoio e orientação pessoal não terminam quando atingimos a idade adulta. Todos nós continuamos a precisar de ajuda com decisões difíceis e desafios pessoais ao longo de nossas vidas. Quando o papel ativo de um padrinho termina, seja por apatia, distanciamento ou morte, devemos nos sentir à vontade para pedir a outra pessoa que assuma esse papel. É uma bela maneira de reconhecer, homenagear e celebrar um indivíduo que já abriu seu coração e, ao abraçar esse novo papel, pode fazer uma diferença importante. Minha experiência em forjar esse novo relacionamento já aprofundou meu relacionamento com minha nova madrinha e fortaleceu meu senso de conexão com minha fé católica.

Isso não quer dizer que nosso relacionamento mudou de repente em um curto período de tempo. Mas há definitivamente um novo sentimento de união e um senso mais profundo de confiança. Há uma segurança e conforto que vem de poder falar honestamente e ser vulnerável com alguém no contexto desse relacionamento. Tia Ethel compartilhou comigo que ela sente o mesmo.

Há muitas maneiras pelas quais a Igreja Católica pode procurar expandir nosso conceito atual e muitas vezes limitado de padrinho, quer isso signifique ajudar as pessoas a encontrar novos padrinhos entre uma comunidade paroquial, celebrar uma missa para padrinhos e afilhados ou oferecer palestras sobre a história, o futuro e o significado do papel de guia. Mas não precisamos esperar por uma mudança institucional para dar esse passo. Se está faltando um padrinho, você pode pensar em homenagear uma pessoa em sua vida com um convite para esse novo relacionamento agora mesmo. Todos os membros de nossa comunidade de fé merecem a chance de procurar e identificar um mentor espiritual e uma presença respeitada e amorosa.

Hoje em dia, minha tia Ethel e eu ainda fazemos as mesmas coisas que sempre fizemos, compartilhando jantares e músicas, esperanças e sonhos, mas esses momentos juntos agora parecem ainda mais especiais, porque agora compartilhamos esse vínculo único um com o outro.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1589499

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Novo céu e nova terra

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

‘O batismo é o primeiro passo da iniciação à vida crista. O batismo é também o nascimento para a vida cristã. Mediante o batismo, homens e mulheres, por serem criaturas humanas, são consagrados como filhos e filhas de Deus, tornando-se templos do Espírito Santo, assim como assegura o apóstolo Paulo : ‘Pela graça do batismo, que possamos chegar ao estado de homem perfeito à estatura da maturidade de Cristo’ (Ef 4, 13). Animados, evidentemente, pela Palavra de Deus, lâmpada para nossos passos e luz para nossas estradas da vida (cf. Sl 15), a Igreja de Deus não para, prosseguindo sua caminhada através da catequese.

A catequese a consideramos uma tarefa abundantemente indispensável e relevante, essencial à vida da comunidade de fé. Em tempos de pandemia, vemo-la como um compromisso eclesial neste ano de 2022, o qual se torna enormemente urgente para a Igreja, com sua concretude para nossa Paróquia de Santo Afonso. Daí que acolho, com maior prazer e satisfação, as equipes de catequese, vendo-as como instrumentos da bondade de Deus, no contexto da educação na fé de nossas crianças, jovens e adultos. Que surja, pela catequese, uma consciência sempre e cada vez maior, que nós, criaturas humanas, e a própria Igreja estejamos a caminho para a casa definitiva do Pai.

É importante perceber e acolher a catequese como uma nova etapa, que se inicia com você, querida criança, querido irmão e irmã! É um caminho novo que se abre, mas não sendo igual, incomparável ao anterior, no sentido de que a caminhada redimensionada é, sim, uma feliz ocasião para que a comunidade de fé possa reavaliar sua vida, desafiada a vivenciar sua fé, a qual se traduz em amor : ‘Deus é amor, e quem permanecer no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele’ (1Jo, 4, 7ss).

Que seja muito verdadeira sua acolhida, como projeto redentor, que tem como objetivo o do fortalecimento da fé e da esperança. A mente, o coração e os olhos voltam-se na direção do futuro, através da catequese, tendo como fundamento a luz que jamais se extingue, com a humanidade reconciliada e pacificada em Deus. Ficou para trás sua realidade contraditória, agora direcionada para um cenário sagrado e beatífico, longe de choro, tristeza, enfermidade e morte; enfim, será a paz, o novo céu e a nova terra! Assim seja!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1566505/2022/02/novo-ceu-e-nova-terra/

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O limbo das crianças mortas sem Batismo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Ensinou-se, desde o século XI, que as crianças mortas sem Batismo não eram merecedoras do céu nem do inferno, mas, sim, do limbo das crianças (assim chamado, a partir do século XIII, para distinguir do limbo dos pais, estado transitório no qual todos justos do Antigo Testamento aguardavam a redenção de Cristo). Essa sentença – que é teológica, mas não de fé – tem sido repensada nos nossos dias. Detalhemos a temática.

Deus criou o homem e a mulher e elevou-os à condição sobrenatural de filhos com os dons que acompanhavam tal condição : a imortalidade, a impassibilidade, a integridade e a ciência moral infusa (cf. Gn 1,27-31; 2,4-25). Entretanto, com o pecado original originante, o primeiro casal perdeu a filiação divina e os dons que a acompanhavam (cf. Gn 3,1-24). Deus, porém, não se deixou vencer pelo mal; prometeu que a descendência da mulher (Cristo) esmagaria a cabeça da serpente, símbolo do mal (cf. Gn 3,15). Diante dessa ocorrência, todos os seres humanos nascemos com o pecado original originado. Ele não é uma culpa pessoal, mas a carência da graça santificante e dos dons dela decorrentes. Somos, sem culpa alguma – por solidariedade –, herdeiros da desgraça dos primeiros pais. A princípio, parece difícil entender isso, mas este exemplo nos ajuda : ‘Imaginemos um pai de família que numa noite perde todos os seus bens numa jogatina de cassino; os filhos desse homem não têm culpa, mas hão de carregar as consequências (miséria, fome…) decorrentes do desatino de seu pai’ (Dom Estêvão T. Bettencourt, OSB. Curso de Antropologia Teológica. Rio de Janeiro : Mater Ecclesiae, 2017, p. 367). Contudo, pelo Batismo, somos elevados à dignidade de filhos adotivos (a de Nosso Senhor é física) de Deus (cf. Jo 3,5; Mt 28,19-20). Daí a diligência da Igreja para que os recém-nascidos sejam batizados sem demora (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1257).

Grande amor aos pequeninos

Certos dessa doutrina de fé, vem a questão : e as crianças mortas sem o Batismo que destino têm no além? – A resposta a esta pergunta variou ao longo do tempo. Santo Agostinho de Hipona († 430), influenciado por problemas teológicos de seu tempo, dizia que essas crianças – falecidas sem a graça santificante dada pelo Batismo – iam para o inferno (cf. Sermão 14,3; De peccatorum meritis 1,28) e lá sofriam penas muito suaves. A partir do século XI, passa-se a ensinar que as crianças mortas sem o Batismo não estariam condenadas, mas também não poderiam gozar da bem-aventurança celeste. Estariam no limbo (orla) das crianças, nome dado, no século XIII, ao estado definitivo desses pequeninos privados da graça batismal. Teriam aí uma felicidade natural e, nessa condição, veriam a Deus apenas com as forças humanas, sem o auxílio da graça divina que não receberam. Ora, desconhecendo a elevação sobrenatural, só poderiam se sentir muito venturosas nesse estado de felicidade meramente natural. Na ressurreição final, a alma de cada criança se uniria novamente ao corpo e este gozaria para sempre do mesmo destino da alma : o limbo (cf. Dom Estêvão Bettencourt, OSB. Curso de Novíssimos ou Escatologia. Rio de Janeiro : Mater Ecclesiae, 1993, p. 79-81).

O que foi exposto no parágrafo anterior é uma sentença comum entre os teólogos, mas a Igreja – ainda que algumas vezes provocada – nunca a definiu como doutrina de fé (cf. Bettencourt, Op. cit., p. 82 e 86). Daí, hoje, teólogos pensarem diferente a respeito das crianças mortas sem Batismo. Sim, se somos solidários com o primeiro Adão, o pecador, o somos também – e muito mais – com o segundo Adão, que é Cristo, o Redentor (cf. Rm 5,12-21). Disso decorre, por lógica, que Nosso Senhor, autor do Batismo, não está preso a esse sacramento apenas no que toca ao destino eterno das crianças mortas sem recebê-lo. O Senhor – em seu amplo plano de salvação (cf. 1Tm 2,4) e grande amor aos pequeninos (cf. Mt 18,14) – tem, por Seus méritos, os meios ocultos necessários para salvar essas criancinhas a Ele confiadas pela oração universal da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1261; Comissão Teológica Internacional. A esperança da salvação para as crianças que morrem sem Batismo. São Paulo : Paulinas, 2008). Frise-se, no entanto, que este é um parecer teológico, não doutrina de fé; logo, não isenta ninguém da grande responsabilidade de levar, o quanto antes, os recém-nascidos às águas do Batismo.

Eis o que, de momento, podemos dizer sobre essa discutida sentença teológica.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/02/14/o-limbo-das-criancas-mortas-sem-batismo/

terça-feira, 28 de julho de 2020

Catequese como inserção na comunidade dos batizados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados

*Artigo do Padre Francisco Thallys Rodrigues,

presbítero da Diocese de Crateús,

trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, Tauá, CE


‘Desde os inícios do cristianismo houve um processo de preparação para a inserção nas comunidades cristãs. Ao longo dos séculos, esta preparação passou por muitas mudanças em sua estrutura e organização, a partir das necessidades de cada tempo e lugar. Desde a virada antropocêntrica, iniciada na modernidade e radicalizada na subjetividade da modernidade líquida, a catequese é desafiada a romper o casulo do individualismo, para renascer como catequese que insere a pessoa no seguimento a Jesus, na comunidade dos batizados.

As primeiras comunidades cristãs estavam organizadas em torno da memória de Jesus e da fração do pão, os bens eram partilhados segundo as necessidades de cada um (At 2, 42-47). O crescimento e a expansão das comunidades trouxeram a necessidade de uma preparação para o ingresso pleno. Era necessário conhecer quem era Jesus e as exigências do ser cristão. Este processo ficou conhecido como catecumenato. Após um tempo de preparação, os catecúmenos eram acolhidos na comunidade, podendo participar, integralmente, da fração do pão (Eucaristia), bem como nas demais atividades. Neste percurso, os catecúmenos despojavam-se do homem velho para uma vida nova. No batismo se ‘passava dos ídolos ao Deus vivo e verdadeiro’ (TABORDA).

Ora, o anúncio da fé cristã, sua preparação e vivência, aconteciam dentro de uma comunidade concreta de pessoas que se entendiam como irmãos e irmãs, filhos de Deus, a partir do batismo. Era impensável cristãos sem comunidades, que vivessem isolados. Neste sentido, pôde-se dizer que a fé cristã é necessariamente eclesial, isto é, nasce a partir da comunidade dos batizados que professam a fé em Jesus Cristo ressuscitado, que revelou o Pai e nos enviou o Espírito. A comunidade gera, no batismo, filhos e filhas e os alimenta por meio da fração do pão, da vida fraterna e da caridade. 

Quando se toma os textos que compõem o Novo Testamento, nota-se a presença viva de diferentes comunidades, nas suas alegrias e tristezas, como seguidoras de Jesus. Os Evangelhos evidenciam as crises e os desafios enfrentados, enquanto que as Cartas de Paulo, são dirigidas as comunidades, que receberam o anúncio da fé e que passam por dificuldades. Portanto, desde uma perspectiva bíblica, não se pode pensar em cristãos avulsos, desligados de comunidades concretas.

No decorrer dos séculos, este processo de preparação passou por diversas mudanças. Por muito tempo, a catequese foi compreendida como preparação exclusiva para os sacramentos, estando ancorada em catecismos, que ensinavam ‘fórmulas e doutrinas’, sem uma clara contextualização desta vivencia da fé. Entretanto, mesmo neste tempo, a catequese acontecia no seio da comunidade, a partir de pessoas designadas para esta missão.

Nos últimos tempos, tem ocorrido muitos esforços, para uma preparação da catequese que brote desde a comunidade de fé e que conduza ao seguimento a Jesus. A catequese de inspiração catecumenal, é uma tentativa de resposta ao tempo presente, a partir das intuições fundamentais da Tradição da Igreja, sobretudo, a partir do Concílio Vaticano II. O êxito desta proposta, depende de um trabalho conjunto, que conjugue diferentes instâncias : famílias, animadores, membros da comunidade[1] e, principalmente, o protagonismo do catecúmeno em vista de gerar um verdadeiro discipulado, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma).  Todos devem sentir-se corresponsáveis pela formação dos novos membros.

Não se pode ceder à tentação da individualização da fé cristã que reduz o Reinado de Deus, anunciado por Jesus, a um sentimento, doutrina ou filosofia, que pode ser vivido de modo individualista. Cada vez mais, a fé cristã tem sido apresentada, desprovida de seu caráter comunitário, do seu compromisso com a vida em todas as suas expressões. Jesus é apresentado como um fazedor de milagres, que resolve todos os problemas, mas que não gera compromisso com o Reinado de Deus. A partir dos dados dos Evangelhos e das primeiras comunidades cristãs, fica evidente que esta é uma grave distorção. A fé cristã tem como eixo central, o seguimento a Jesus na comunidade dos batizados.

É preciso passar de uma catequese que ensina doutrinas e fórmulas, a uma catequese que leve ao encontro com Jesus Cristo. A catequese deve levar a inserção no mistério de Cristo dentro da comunidade, para que se experimente os mesmos sentimentos que perpassaram Jesus (Fl 2,5). Precisamos de uma catequese que prepare para a vivência do Evangelho, que não seja puramente sacramental. Nas palavras do papa Francisco : ‘A iniciação cristã exige que nas nossas comunidades se realize sempre mais um itinerário catequético que ajude a experimentar o encontro com o Senhor, o crescimento no seu conhecimento e o amor pelo seu seguimento’.

O encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4,5-42) ilustra o processo mistagógico que deve perpassar a catequese. Neste encontro, Jesus estabelece uma relação com a samaritana, rompendo todas as barreiras religiosas e étnicas, na qual apresenta a água viva que sacia todas as sedes humanas. Este encontro com Jesus, leva a samaritana a deixar o cântaro, para anunciar aos seus, que encontrou o sentido para a vida. Queira Deus que nossa catequese seja, cada vez mais, mistagógica, levando ao encontro com Jesus e com os irmãos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1461191/2020/07/catequese-como-insercao-na-comunidade-dos-batizados/

 

[1] E principalmente o protagonismo do catecumeno em vista de gerir um verdadeiro DISCIPULADO, a partir da experiência concreta com uma pessoa, Jesus Cristo, morto e ressuscitado (Kerigma)

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Como Nicodemos confunde entre “nascer do Alto” e “nascer de novo”


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Lição 3 – Jesus e o Novo Nascimento – Assembleia de Deus do Arsenal
*Artigo de Dom Henrique Soares da Costa,
Bispo de Palmares, PE


Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares, PE, publicou em seu blog uma esclarecedora reflexão sobre o tempo pascal que estamos vivendo e a sua relação profunda com o Batismo e a Eucaristia :

Nos dias da Oitava da Páscoa ouvimos na Missa diária os evangelhos que narram as aparições do Ressuscitado aos seus discípulos. Na segunda semana, ouvimos o capítulo terceiro de São João. E por quê? Porque a tradição da Igreja vê aí, no diálogo de Jesus com Nicodemos, uma catequese sobre o Batismo. Batismo e Eucaristia, os sacramentos pascais, simbolizados na água e no sangue que brotaram do lado do Crucificado logo depois que Ele entregou o Espírito.

Como afirma a Primeira Carta de São João : três são os que dão testemunho de Jesus : o Espírito, a água e o sangue. Em outras palavras : no Batismo e na Eucaristia recebemos o Espírito Santo que nos testemunha o Cristo morto e ressuscitado como Senhor vivente e nos dá a Sua própria Vida divina recebida do Pai no evento mesmo da Ressurreição : ‘Morto na carne, foi vivificado no Espírito’ (1Pd 3,18).

Na perícope de João 3, Nicodemos vem de noite à procura de Jesus. É um chefe judeu versado na Torá. Vem de noite à procura da Luz… Ele reconhece que Jesus vem de Deus, acredita nos sinais que o Senhor realiza, mas ainda não sabe, não crê que Jesus é o Filho de Deus… Como judeu, ainda está na noite! Aqui, não há remédio : um filho de Israel, por bom que seja, por bem intencionado que se mostre, somente alcança a luz quando crê em Jesus como o Messias enviado pelo Pai. Até lá, está na noite!

Ora, para que que se veja a Luz é necessário nascer do Alto, nascer de Deus, recebendo uma Vida divina, ressuscitada, e somente Jesus Cristo pode realizar isto, dando-lhe o Seu Espírito. Nicodemos confunde ‘nascer do Alto’, isto é, nascer de Deus, receber a Vida divina, do Eterno, com ‘nascer de novo’ (em grego ánothen significa as duas coisas). Jesus, no entanto, refere-Se ao Batismo, no qual se nasce para a Vida que vem de Deus, Vida dada pelo próprio Jesus morto e ressuscitado : nascer da água e do Espírito significa nascer pela água que é instrumento do Espírito, isto é, que é símbolo eficaz da potente ação do Espírito. O que nasce da carne, da pura natureza humana, é somente carne e não tem como chegar à Vida de Deus. É preciso receber essa Vida divina pela água que doa o Espírito no Batismo.

Aqui, a inteligência humana desfalece. A ação do Espírito de Deus é como o vento : vemos os seus efeitos, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai, pois Deus é Mistério, Deus é liberdade em toda a Sua obra. Ao homem cabe acolhê-Lo com amor e adoração. Aquele que recebe o Espírito e se deixa por Ele conduzir, torna-se livre, como o vento, é uma nova criatura, tem uma nova compreensão e, finalmente, experimenta que Jesus, nosso Senhor, realmente veio de Deus não como um simples profeta realizador de sinais, mas como o próprio Filho, divino como o Pai.

É esta a experiência dos que foram batizados na Páscoa; é esta a nossa experiência : experimentar que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, Vivo e Vivificante, pleno do Espírito, Senhor que dá a Vida! Tal experiência é fruto da presença do Espírito de Cristo que recebemos nas águas batismais! Eis! Como os antigos hebreus atravessaram o Mar Vermelho, como Jesus atravessou o Mar da Morte, nós, atravessamos as águas batismais, deixando o Egito da velha vida para entrar na Terra Prometida que é a comunhão com o Pai através do Seu Filho Jesus Cristo, pois recebemos o Seu Espírito Santo!


Fonte :
* Artigo na íntegra

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Santo Hilário, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Bento XVI, Papa Emérito

  
‘Gostaria hoje de falar de um grande Padre da Igreja do Ocidente, Santo Hilário de Poitiers, uma das grandes figuras de Bispos do século IV. Em relação aos arianos, que consideravam o Filho de Deus, Jesus, uma criatura, mesmo se excelente, mas só criatura, Hilário consagrou toda a sua vida à defesa da fé na divindade de Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus como o Pai, que o gerou desde a eternidade.

Não dispomos de dados certos sobre a maior parte da vida de Hilário. As fontes antigas dizem que nasceu em Poitiers, provavelmente por volta do ano 310. De família rica, recebeu uma sólida formação literária, que se reconhece bem nos seus escritos. Não parece ter crescido num ambiente cristão. Ele mesmo nos fala de um caminho de busca da verdade, que o conduziu pouco a pouco ao reconhecimento do Deus criador e do Deus encarnado, que morreu para nos dar a vida eterna.

Batizado por volta de 345, foi eleito Bispo da sua cidade natal por volta de 353-354. Nos anos seguintes, Hilário escreveu a sua primeira obra, o Comentário ao Evangelho de Mateus. Trata-se do mais antigo comentário em língua latina que nos tenha chegado deste Evangelho. Em 356 Hilário assistiu como Bispo ao Sínodo de Béziers, no sul da França, o ‘sínodo dos falsos apóstolos’, como ele mesmo o chama, a partir do momento que a assembleia foi dominada pelos bispos filoarianos, que negavam a divindade de Jesus Cristo. Estes ‘falsos apóstolos’ pediram ao Imperador Constâncio a condenação ao exílio do Bispo de Poitiers. Assim Hilário foi obrigado a deixar a Gália durante o Verão de 356.

Exilado na Frígia, na atual Turquia, Hilário entrou em contacto com um contexto religioso totalmente dominado pelo arianismo. Também ali a sua solicitude de Pastor o levou a trabalhar incansavelmente pelo restabelecimento da unidade da Igreja, com base na recta fé formulada pelo Concílio de Niceia. Para esta finalidade ele iniciou a redação da sua obra dogmática mais importante e conhecida :  De Trinitate (Sobre a Trindade). Nela, Hilário expõe o seu caminho pessoal rumo à consciência de Deus e preocupa-se em mostrar que a Escritura afirma claramente a divindade do Filho e a sua igualdade com o Pai não só no Novo Testamento, mas também em muitas páginas do Antigo, no qual já aparece o mistério de Cristo. Perante os arianos ele insiste sobre a verdade dos nomes de Pai e de Filho e desenvolve toda a sua teologia trinitária partindo da fórmula do Batismo que nos foi dado pelo próprio Senhor; ‘Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’.

O Pai e o Filho são da mesma substância. E se alguns trechos do Novo Testamento poderiam fazer pensar que o Filho é inferior ao Pai, Hilário ofereceu regras claras para evitar interpretações desviantes :  alguns textos da Escritura falam de Jesus como Deus, outros ao contrário põem em realce a sua humanidade. Alguns referem-se a Ele na sua preexistência junto do Pai; outros tomam em consideração o estado de abaixamento (kenosi), a sua descida até à morte; por fim, outros, contemplam-no na glória da ressurreição. Nos anos do seu exílio Hilário escreveu também o Livro dos Sínodos, no qual reproduz e comenta para os seus irmãos Bispos da Gália as confissões de fé e outros documentos dos sínodos reunidos no Oriente nos meados do séc. IV. Sempre firme na oposição aos arianos radicais, Santo Hilário mostra um espírito conciliante em relação aos que aceitavam confessar que o Filho era semelhante ao Pai na essência, naturalmente procurando conduzi-los para a fé plena, segundo a qual não há apenas uma semelhança, mas uma verdadeira igualdade do Pai e do Filho na divindade. Também isto me parece característico : o espírito de conciliação que procura compreender quantos ainda não a conseguiram e ajuda-os, com grande inteligência teológica, a alcançar a fé plena na divindade verdadeira do Senhor Jesus Cristo.

Em 360 ou 361, Hilário pôde finalmente regressar do exílio à pátria e imediatamente retomou a atividade pastoral na sua Igreja, mas a influência do seu magistério expandiu-se de fato muito além dos seus confins. Um sínodo celebrado em Paris em 360 ou 361 retoma a linguagem do Concílio de Nicéia. Alguns autores antigos pensam que esta mudança antiariana do episcopado da Gália seja em grande parte devida à fortaleza e à mansidão do Bispo de Poitiers. Era precisamente este o seu dom :  conjugar fortaleza na fé e mansidão na relação interpessoal. Nos últimos anos de vida ele compôs ainda os Tratados sobre os Salmos, um comentário sobre cinquenta e oito Salmos, interpretados segundo o princípio evidenciado na introdução da obra :  ‘Não há dúvida de que todas as coisas que se dizem nos Salmos se devem compreender segundo o anúncio evangélico, de modo que, seja qual for a voz com a qual o espírito profético tenha falado, tudo esteja todavia referido ao conhecimento da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, encarnação, paixão e reino, e à glória e poder da nossa ressurreição’ (Instructio Psalmorum, 5). Ele vê em todos os Salmos esta transparência do mistério de Cristo e do seu Corpo que é a Igreja. Em diversas ocasiões Hilário encontrou-se com São Martinho :  precisamente perto de Poitiers o futuro Bispo de Tours fundou um mosteiro, que ainda hoje existe. Hilário faleceu em 367. A sua memória litúrgica celebra-se a 13 de Janeiro. Em 1851 o Beato Pio IX proclamou-o Doutor da Igreja.

Para resumir a essência da sua doutrina, gostaria de dizer que Hilário encontra o ponto de partida da sua reflexão teológica na fé batismal. No De Trinitate, Hilário escreve :  Jesus ‘comandou que batizassem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28, 19), isto é, na confissão do Autor, do Unigênito e do Senhor. Um só é o Autor de todas as coisas, porque um só é Deus Pai, do qual tudo procede. E um só é Nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual todas as coisas foram criadas (1 Cor 8, 6), e um só é o Espírito (Ef 4, 4) dom em todos... Em nada pode faltar uma plenitude tão grande, na qual convergem no Pai, no Filho e no Espírito Santo a imensidão no Eterno, a revelação na Imagem, a glória no Dom’ (De Trinitate 2, 1). Deus Pai, sendo todo amor, é capaz de comunicar em plenitude a sua divindade ao Filho. É para mim particularmente bela a seguinte fórmula de Santo Hilário :  ‘Deus sabe ser unicamente amor, sabe ser só Pai. E quem ama não é invejoso, e quem é Pai é-o na sua totalidade. Este nome não admite sujeições, como se Deus fosse Pai em certos aspectos, e noutros não’ (ibid. 9, 61).

Por isso o Filho é plenamente Deus sem falta alguma ou diminuição :  ‘Aquele que provém do Perfeito é perfeito, porque quem tem tudo lhe deu tudo’ (Ibid. 2, 8). Só em Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, a humanidade encontra a salvação. Assumindo a natureza humana, Ele uniu a si cada homem, ‘fez-se a carne de todos nós’ (Tractatus in Psalmos 54, 9); ‘assumiu em si a natureza de toda a carne, e tendo-se tornado por meio dela a videira verdadeira, tem em si a raiz de cada ramo’ (Ibid., 51, 16). Precisamente por isso o caminho rumo a Cristo está aberto a todos porque ele atraiu todos no seu ser homem mesmo se é sempre exigida a conversão pessoal :  ‘Mediante a relação com a sua carne, o acesso a Cristo está aberto a todos, sob condição de que se despojem do homem velho (cf. Ef 4, 22) e o preguem na sua cruz (cf. Cl 2, 14); sob condição de que abandonem as obras de antes e se convertam, para serem sepultados com ele no seu batismo, em vista da vida (cf. Cl 1, 12; Rm 6, 4)’ (Ibid., 91, 9).

A fidelidade a Deus é um dom da sua graça. Por isso Santo Hilário pede, no fim do seu tratado sobre a Trindade, para se poder manter sempre fiel à fé do batismo. É uma característica deste livro :  a reflexão transforma-se em oração e a oração volta a ser reflexão. Todo o livro é um diálogo com Deus. Gostaria de concluir a catequese de hoje com uma destas orações, que se torna assim também nossa oração :  ‘Faz, ó Senhor, recita Hilário, de maneira inspirada com que eu me mantenha sempre fiel ao que professei no símbolo da minha regeneração, quando fui batizado no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Que eu te adore, nosso Pai, e juntamente contigo e com o teu Filho; que eu mereça o teu Espírito Santo, o qual procede de ti mediante o teu Unigênito... Amém’ (De Trinitate 12, 57).’

 (10 de outubro de 2007)

Fonte :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  


domingo, 4 de janeiro de 2015

Epifania e batismo do Senhor Jesus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre Antonio Martins Irineu,
Reitor do Santuário de Fátima da Serra Grande - CE  


‘‘Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante d’Ele, o adoraram. Depois, abriram seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes : ouro, incenso e mirra.’ (Mt 2,11).

Estamos no período da Epifania, ou seja, no terceiro tempo do ciclo do Natal. Nesta época celebramos a revelação universal de Jesus Cristo, a manifestação do Salvador de toda humanidade. Assim como, no Natal, Deus Se manifesta como Homem, na Epifania, esse mesmo Homem se revela como Deus.

A palavra Epifania (do grego ephifaneia, epi (sobre, em cima de) e fanós (lanterna, luz)), que significa ‘manifestação’, ‘aparição’ ou ‘amanhecer’. Logo, a Epifania vem reforçar aquilo que anunciamos no Natal : a vinda do Filho de Deus ao mundo. Os Magos, em sua sabedoria, querem conhecer o Menino, pois sabem que Ele é o Prometido.

Além disso, nesta ocasião, se celebra, também, a apresentação de Jesus ao mundo, relembrando o dia em que Jesus foi apresentado ao Templo por Maria e José como sinal que Sua existência está voltada para a humanidade.

No primeiro domingo após a Epifania, celebramos o Batismo do Senhor, festa que encerra o tempo do Natal e abre o período de reflexão sobre o ministério de Cristo. Quando Jesus entrou no Rio Jordão para ser batizado, a voz do Pai O revelou como Filho dizendo : ‘Este é meu Filho muito amado, em quem me comprazo’ (Mt 3,17).

O Espírito Santo apareceu em forma de pomba. Foi a primeira manifestação do Deus Uno e Trino. Que este tempo da Epifania seja o momento propício para aprofundarmos nosso conhecimento em Jesus, a fim de que, conhecendo-O mais e melhor, percebamos o fulgor de Sua manifestação na humanidade. Nesse sentindo, somos vocacionados a ser discípulos e discípulas do Cristo prometido que se torna uma realidade na vida de todos que procuram a paz, a justiça e o amor.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http ://santuariodefatima.org.br/palavra-do-reitor/epifania-e-batismo-do-senhor-jesus-deus-se-revela-a-toda-a-humanidade
  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A voz de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
* Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo de Belém do Pará,
reflete sobre o discernimento cotidiano


‘Há muitas expressões na Sagrada Escritura que indicam o Senhor que fala ao seu povo, e manifestam a força de sua palavra que cria, repreende, educa, acompanha. Desde a forte palavra criadora do livro do Gênesis, passando pela intimidade com os patriarcas e profetas, que "emprestavam" a boca para Deus falar. De Moisés se diz que tinha uma grande amizade com Deus e o Senhor se entretinha com ele face a face. Deus fala! 

"Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. Ele é o resplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele sustenta o universo com a sua palavra poderosa. Tendo feito a purificação dos pecados, sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas, elevado tão acima dos anjos quanto o nome que ele herdou supera o deles" (Hb 1, 1-4). 

"Por estas palavras, a carta aos Hebreus dá a entender que Deus emudeceu, por assim dizer, e nada mais tem a falar, pois o que antes dizia em parte aos profetas, agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é o seu Filho. Se agora, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, faria injúria a Deus não pondo os olhos totalmente em Cristo, sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o! (Mt 17,5). Já te disse todas as coisas em minha Palavra. Põe os olhos unicamente nele, pois nele tudo disse e revelei, e encontrarás ainda mais do que pedes e desejas" (Tratado “A subida do Monte Carmelo”, de São João da Cruz, presbítero, Lib. 2, cap. 22). 

A Igreja tem clara a convicção de que tudo o que é estritamente necessário já foi dito por Deus e encontra o fundamento de sua ação na Escritura Sagrada. Sabe também a Igreja que lhe foi dada a graça do discernimento, pela qual o sadio desdobramento daquilo que foi revelado é expresso nos ensinamentos que são oferecidos pelo longo e seguro exercício do magistério que acompanha a tradição viva, na qual existe a certeza da ação do Espírito Santo, que a acompanha e preserva do erro. 

E Deus se calou? Temos a certeza de que continua a dizer sua Palavra, que ele inspira o bem, suscita a pregação corajosa do Evangelho, sustenta o testemunho dos cristãos. Sabemos que todas as chamadas revelações particulares são objeto de discernimento cuidadoso, pois são reconhecidas como estímulo à vivência do que se expressou na Sagrada Escritura, para que as pessoas não corram de um lado para outro em busca de novidades e pretensos anúncios, especialmente quando estes apontam para datas ou eventos extraordinários. 

O que falta é o discernimento cotidiano e dedicado do que Deus nos fala através dos acontecimentos e de uma quantidade imensa de fatos simples e aparentemente corriqueiros. Deus nos fala através do próximo que grita pela nossa ajuda e pelo serviço de amor, dizendo que tudo o que fazemos ao menor dos irmãos é feito a Jesus. Deus nos fala pela última notícia de violência, que nos assusta e escandaliza, a dizer-nos que nos foi oferecido o caminho para a paz, através dos mandamentos e a prática da fraternidade. Deus nos fala pela Igreja que se reúne e proclama a cada dia a Palavra Sagrada, fonte de vida e santidade. Deus nos fala pelo testemunho corajoso de pessoas que vivem o Evangelho, arrastando com seu exemplo gente que vivia na lama do pecado. Deus nos fala através de seus enviados, e basta pensar na lucidez com que o Papa Francisco tem oferecido à Igreja e o mundo as propostas de vivência do Evangelho e amor ao próximo. Não faltam palavras vindas da boca de Deus. O que pode faltar são ouvidos atentos. 

A Igreja celebra neste final de semana o Batismo de Jesus, quando o Senhor vai ao Rio Jordão, onde João Batista pregava a penitência e a conversão, justamente na preparação da plena manifestação do Messias esperado. Diante de um João Batista surpreso, que diz "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim" (Mt 3,13-17), Jesus entra na fila dos pecadores, ele que é o Cordeiro sem mancha que tira o pecado do mundo! E ali, no gesto de imensa humildade de Jesus, acontece a revelação da intimidade de Deus Trindade. O Filho nas águas, o Espírito em forma de uma pomba e a voz do Pai: "Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado". 

O Senhor Jesus confiou uma missão à Igreja, de ir pelo mundo inteiro e anunciar a Boa-Nova. "Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado" (Mc 16,16). Prometeu inclusive "sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados” (Mc 16,17-18). O mesmo Senhor Jesus, que falou com seus discípulos, "foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus" (Mc 16,19). 

Como os primeiros discípulos, está agora em nossas mãos o anúncio da Boa-Nova. Pedimos a Deus que se multipliquem os operários para a sua messe, vindos de todas os cantos, dispostos a transformar sua vida e sua palavra em testemunho corajoso do Senhor, diante de um mundo que anseia pela palavra de Deus. De fato, a sede e fome da voz de Deus está presente, mesmo quando as pessoas não sabem dar nome ao grito que brota de dentro de si, no cumprimento da palavra profética: "Dias hão de vir, quando hei de mandar à terra uma fome, que não será fome de pão nem sede de água, e sim de ouvir a Palavra do Senhor" (Am 8,11).’

 
Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/a-voz-de-deus