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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal. O Coração que nos guia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano

 

‘O gosto de olhar o coração de Jesus com amor e adoração leva-nos logo ao mistério do Natal. Foi ali que começou a manifestar-se a maneira humana de Deus nos amar.

O Sagrado Coração de Jesus, onde vamos descobrindo o calor e a ternura do amor de Deus, começou por ser o coração daquela criança, deitada na manjedoura de Belém.

Como diz o saudoso Papa Francisco na última carta encíclica que nos deixou : «Este Cristo com o seu coração trespassado e ardente é o mesmo Cristo que por amor  nasceu em Belém» (Dilexit nos, 51).

Em Belém aprendemos que Deus não se importa de nos amar com o coração de uma criança. Acreditando, como acreditamos, que, em cada fase da sua vida concreta, desde quando era bebê em Belém, a quando viveu, adolescente e jovem em Nazaré, como também depois na sua vida de adulto, Jesus era sempre plenamente como nós, um ser humano a crescer, e também ele era sempre o «Filho muito amado em quem o Pai põe todo o Seu enlevo» – foi isso mesmo que disse a voz do Pai que se fez ouvir do céu no dia do seu batismo no rio Jordão, como também, mais tarde, sobre o monte da Transfiguração.

Assim, o amor, o carinho que Jesus vivia e manifestava de tantas maneiras diferentes nos momentos e acontecimentos que ele ia vivendo era sempre o amor de Deus traduzido em gestos e atitudes humanas. Como refere o papa, «o modo como nos ama é algo que Cristo não quis explicar-nos exaustivamente. Mostra-o nos seus gestos. Observando-O, podemos descobrir como trata cada um de nós, mesmo que nos custe perceber isso» (Dilexit nos, 33).

Por isso, o Papa Francisco lembrava-nos que, ao contemplarmos o Sagrado Coração de Jesus, vamos muito além da imagem que temos na frente : vemos como esse amor infinito de Deus se exprimiu de mil formas diferentes ao longo de toda a vida de Jesus, desde a sua infância – faz sorrir de maravilha, que Deus tenha amado com coração de criança, ou com os entusiasmos de um jovem que crescia com Maria e José, em Nazaré. Sempre o mesmo amor que ele manifestou e tentou explicar durante a sua vida pública com os seus gestos e os seus ensinamentos aos discípulos e às multidões

E era sempre esse mesmo amor divino que se manifestava em forma humana, quando na cruz, viveu até ao fim o que ele mesmo tinha ensinado, «não há maior amor do que dar a vida pelos amigos».

Com o mistério da ressurreição de Jesus, esse coração que amava com o amor de Deus desde a gruta de Belém, passando por Nazaré e Cafarnaum, e chegando até ao Calvário, esse mesmo coração foi transformado na noite de Páscoa, e ficou a pertencer à vida eterna de Cristo ressuscitado.

Meditando este mistério compreendemos que o que Jesus viveu e fez é a proposta que a Igreja continua a fazer hoje a cada um dos seus discípulos : traduzir o amor de Deus Pai em gestos humanos concretos, pequenos ou grandes que sejam.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1503/natal-o-coracao-que-nos-guia/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Natal na China, os cristãos e a lógica da pequenez

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Igreja de São José em Pequim

*Artigo de Guglielmo Gallone


‘Nos últimos vinte anos, o Natal entrou definitivamente no panorama urbano chinês. E é interessante notar como o aumento da popularidade desta festa acompanha o desenvolvimento econômico e social do país.

O aspecto econômico e produtivo

Inicialmente, a China conheceu o Natal principalmente como a ‘fábrica para o mundo’. Um exemplo entre muitos : entre 80% e 90% de todas as decorações natalinas globais — luzes, enfeites, árvores artificiais — hoje são produzidas nas zonas industriais da China, entre as quais se destaca principalmente a cidade de Yiwu, na província de Zhejiang. Por isso o Natal chega primeiro como ciclo produtivo e depois como festa. Depois disso, o bem-estar chinês começou a crescer. Entre 2005 e 2020, a renda disponível urbana multiplicou-se por mais de quatro vezes, a classe média ultrapassou os 400 milhões de pessoas e o consumo interno tornou-se um dos objetivos estratégicos. Assim, durante a primeira década do século XXI, os chineses não só produzem, mas começam sobretudo a consumir : abrem negócios, frequentam centros comerciais, transformam o espaço urbano. É precisamente nesta transição que o Natal muda de natureza. De evento puramente industrial, torna-se uma ocasião comercial e simbólica, especialmente para os mais jovens.

Entre mercadinhos e vilas natalinas 

Hoje, é normal passear por Xangai e se deparar com mercadinhos de Natal montados nos grandes shopping centers de Xintiandi ou ao longo do Bund, entre chalés de madeira, luzes decorativas e música de fundo. E não é só isso : na cidade mais ao norte da China, Mohe (província de Heilongjiang), foi montada uma verdadeira aldeia natalina onde os visitantes podem mergulhar na atmosfera natalina : há um correio do Papai Noel, esculturas de neve, casinhas decoradas e figuras do Papai Noel com as quais tirar fotos, montadas no que é frequentemente descrito como uma versão chinesa da famosa Vila do Papai Noel de Rovaniemi, na Finlândia.

O brilho que atrai 

É claro que tudo isso ocorre exclusivamente sob uma perspectiva econômica. No entanto, muitos jovens chineses ficam atraídos pelo brilho que o Natal traz consigo e acabam entrando nas igrejas, tentando entender o que leva os cristãos chineses a serem portadores de tanta alegria. Um jovem local nos contou isso. ‘Embora o período de Natal na China não seja celebrado como nos países europeus, mesmo porque é preciso trabalhar, a Missa da Meia Noite está sempre cheia e, especialmente nas pequenas aldeias, consegue atrair a atenção dos mais jovens. Normalmente são celebradas três missas : a Vigília, a Missa da Meia-Noite e a Missa de Natal’. Além disso, continua, ‘um dos momentos mais apreciados é aquele entre a Vigília e a Missa da Meia-Noite. A Igreja valoriza esse intervalo : os fiéis que prepararam uma apresentação podem se apresentar, o coral canta, as pessoas recitam orações pela paz, os padres recitam as homilias...’.

Uma maçã para a noite da paz 

E quando lhe pedimos para nos contar mais sobre esse momento tão especial, o jovem menciona ‘espetáculos com canções sacras ou dedicadas à história da Igreja, ao nascimento de Jesus... muitas pessoas vêm apenas para ouvir os corais. Agora, isso se tornou um hábito. Nem é preciso passar a palavra nas aldeias’. Além disso, continua, ‘os padres e os fiéis preparam pequenos presentes para os jovens chineses. Não são chocolates ou gadgets, mas maçãs. Em chinês, maçã se diz píngguǒ, um termo que lembra a palavra píng’ān, ‘paz’. Não é por acaso : a véspera de Natal é chamada de Píng’ān yè, a ‘noite da paz’. Oferecer uma maçã torna-se assim um gesto simples de felicitações capaz de falar a todos. A Igreja local não critica a sociedade chinesa, mas procura adaptar-se a ela. Outro exemplo : em nossos presépios, frequentemente incluímos elementos tradicionais típicos da cultura local. Lâmpadas, pequenos templos...’.

A espera pela luz 

Em suma, apesar das dificuldades, o Natal na China parece ser muito animado. ‘Para os fiéis católicos do meu país — observa Chiaretto Yan, focolarino chinês e autor do livro Il mio sogno cinese (Meu sonho chinês, Ed. Ancora 2025) — o Natal é uma alegria íntima. Eu diria que os chineses vivem o Natal como se ainda fosse a Sexta-feira Santa : ou seja, na espera. O Natal é a espera pela luz, assim como a Sexta-feira Santa é a espera pela ressurreição. Acho que o mesmo vale para o diálogo entre o cristianismo e a cultura chinesa : é importante iniciar um processo em vez de buscar ou alcançar imediatamente um resultado, como sugeria a cultura do encontro do Papa Francisco’.

A lógica da pequenez 

Um desejo que se concretiza na imagem, reproduzida em nosso jornal também por outras fontes, de muitos fiéis chineses que, na véspera de Natal, permanecem rezando durante toda a noite. Uma imagem difícil de ver em outros lugares, que testemunha justamente a paciência, a espera. Princípios que, na tradição taoísta chinesa, são expressos com o wu wei : não agir contra o tempo das coisas, não forçar o curso dos acontecimentos, mas acompanhar o seu devir. Um pouco como José e Maria acompanharam o nascimento de Jesus. Na gruta, na minoria, no pequeno. Ou melhor, na pequenez. Naquela ‘lógica da pequenez’ que o Papa Leão XIV evocou em sua viagem à Turquia e ao Líbano e que os fiéis chineses procuram encarnar todos os dias. E então, shèngdàn jié kuàilè (feliz festa do Nascimento sagrado!)’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-12/china-cristianismo-asia-vaticano-mundo-religiao-jesus.html


domingo, 21 de dezembro de 2025

Noite Silenciosa e Santa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Silêncio, palavra doce e capaz de nos ajudar muito em tudo. Muitas vezes, temos medo do silêncio. É interessante perceber que, para muitos, o silêncio incomoda mais do que a vida barulhenta, cheia de ruídos e excesso de palavras. Sim, gastamos muito mais palavras do que o necessário, no entanto, não haverá sabedoria sem um silêncio saudável, equilibrado e com positivos resultados. O silêncio é segurança que o coração encontra para que o Evangelho tenha meios de ser vivido dentro e fora.

Jesus é a melodia da vida do cristão, é a condução do amor. A música brota do silêncio e retorna a ele mesmo. Música é movimento dentro do silêncio. A melodia cristã nos ensina muito sobre nós mesmos, coloca-nos diante de nossa própria natureza e garante a esperança como virtude teologal. A música cristã deve nos conduzir à verdade dentro de nós, por isso, nasce do verdadeiro silêncio e retorna para ele. A melodia cristã deve iluminar o coração para que o reconhecimento do amor se efetue dentro dele.

O verdadeiro silêncio espiritual é o exercício da liberdade do coração, do discernimento e da razão, da escolha e da responsabilidade. A música do coração cristão busca a criatura e reconhece o Autor da criação transformando o mundo exterior em amor. É o principal motivo pelo qual escutamos boa música, celebramos liturgia responsável e promovemos a música sacra. Felizmente, no Brasil aumenta o número de concertos e recitais de música sacra nas igrejas. A boa cultura pode muito nos ajudar no exercício da oração e da renovação de nossas forças, assim, o silêncio interior vai encontrando melhores recursos para despertar em nós o amor. Dom Columba Marmion, em sua belíssima obra Jesus Cristo, vida da alma, diz que ‘é pelo exercício das nossas próprias faculdades, inteligência, vontade, coração, sensibilidade, imaginação, que a nossa natureza humana, mesmo ornada da graça, deve executar as suas ações : mas estes atos, que derivam da natureza, são pela graça elevados a ponto de serem dignos de Deus’.

 Stille Nacht! Noite silenciosa! Noite feliz! A impressão que se tem é que a canção de Natal Noite feliz transcendeu os limites da religião e alcançou a universalidade do amor nos corações de todos! Stille NachtHeilige Nacht!, composição austríaca do Padre Joseph Mohr e do músico Franz Gruber traça o perfil da chegada do Menino Jesus. A tradução e versão portuguesa foi feita pelo Frei Pedro Sinzig, grande compositor alemão naturalizado brasileiro. O universo parou para escutar a respiração do Menino, o Verbo Encarnado. Foi a noite mais silenciosa e santa que já houve! O coração dos pastores logo escutou a melodia santa, o louvor dos anjos, o Gloria in excelsis Deo. É preciso ter coração humilde e manso para escutar a santa e silenciosa melodia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

‘Entoai, cantai a Deus ação de graças, tocai para o Senhor em vossas harpas!’, diz o Salmo 146. A graça é melodia silenciosa e doce esperança em nossos corações!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/noite-silenciosa-e-santa-3.html

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

'Reconstruir a Casa do Senhor. Uma Igreja sem contraposições' – Segunda Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Isabella Piro



De que unidade devemos dar testemunho? E como oferecer ao mundo uma comunhão crível que não seja, genericamente, fraternidade? Estas foram as principais questões propostas na segunda de três meditações do Advento proferidas pelo Pe. Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia. O frade menor capuchinho propôs-as a Leão XIV e aos seus colaboradores da Cúria Romana na manhã desta sexta-feira, 12 de dezembro, na Sala Paulo VI. O tema escolhido para as três reflexões é: ""Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus".


A Torre de Babel e o medo da dispersão

 

Após a primeira meditação de 5 de dezembro, dedicada à "Parusia do Senhor", nesta sexta-feira o Pe. Pasolini articulou sua reflexão em torno de três imagens: a Torre de Babel, o Pentecostes e a reconstrução do Templo de Jerusalém. A primeira imagem — a de uma cidade fortificada e uma torre imponente — é o emblema de uma família humana que, após o dilúvio, busca exorcizar "o medo da dispersão". Mas tal projeto esconde "uma lógica mortal", já que a unidade é buscada "não pela reconciliação das diferenças, mas pela uniformidade".

 

O pensamento único do totalitarismo do Século XX

 

"É o sonho de um mundo onde ninguém é diferente, ninguém corre risco, tudo é previsível", observou o padre Pasolini, tanto que a torre é construída não com pedras irregulares, mas com tijolos idênticos entre eles. O resultado é, sim, a unanimidade, mas uma unanimidade aparente e ilusória, porque "é alcançada ao custo da eliminação das vozes individuais".

A partir daí, o pensamento do pregador volta-se para os tempos modernos e contemporâneos, nomeadamente, para os totalitarismos do século XX que impuseram o "pensamento único", silenciando e perseguindo a dissidência. Mas "cada vez que a unidade é construída suprimindo as diferenças - acrescentou - o resultado não é a comunhão, mas a morte".

 

O consenso rápido das redes sociais e da IA

 

Também hoje, "na era das redes sociais e da inteligência artificial", os riscos da padronização não faltam, antes pelo contrário; surgem em novas formas, em que os algoritmos criam "bolhas de informação" unívocas, esquemas previsíveis que reduzem a complexidade humana em um padrão, plataformas que visam o consenso rápido, penalizando a "dissidência reflexiva".

Trata-se de uma tentação que "não poupa sequer a Igreja", explicou o capuchinho, recordando as muitas vezes ao longo da história em que a unidade da fé foi confundida com uniformidade, em detrimento do "ritmo lento da comunhão que não teme o confronto e não apaga as nuances".


A diferença é a gramática da existência

 

Um mundo construído sobre a utopia de cópias idênticas, continuou o sacerdote, "é a antítese da criação", porque "Deus cria separando, distinguindo, diferenciando" a luz das trevas, as águas da terra, o dia da noite. Nesse sentido, "a diferença é a própria gramática da existência", e rejeitá-la significa inverter "o impulso criador" em busca de uma falsa segurança que é, na verdade, "uma rejeição da liberdade".

 

Deus restaura a dignidade às singularidades

 

A confusão de línguas com que Deus responde à Torre de Babel, portanto, não é uma punição, mas sim "uma cura", enfatizou o pregador da Casa Pontifícia: o Senhor "restitui a dignidade às singularidades", dando novamente à humanidade "o bem mais precioso", ou seja, "a possibilidade de não sermos todos iguais". Porque "não existe comunhão sem diferença".

 

Pentecostes, emblema da comunhão

 

A segunda imagem é a de Pentecostes, o emblema da comunhão apesar da ausência de uniformidade. Os apóstolos falam a sua própria língua, e os ouvintes a compreendem na sua, porque "a diversidade permanece, mas não divide"; as diferenças não são eliminadas para criar unidade, mas transformadas "no tecido de uma comunhão mais ampla".

 

A renovação da Igreja, uma necessidade perene

 

O padre Pasolini ilustrou então a terceira imagem: o Templo de Jerusalém, destruído e reconstruído muitas vezes. Cada reconstrução, explicou ele, "nunca pode ser um caminho linear", porque a compô-la serão "entusiasmos e lágrimas, novos impulsos e arrependimentos profundos". Tudo isso é "um precioso compêndio" para compreender "a perene necessidade" de renovação da Igreja, bem encarnada por São Francisco de Assis.

A Igreja, de fato, é chamada a permitir-se ser continuamente reconstruída para revelar "a beleza do Evangelho", permanecendo fiel a si mesma e, ao mesmo tempo, continuando a "colocar-se a serviço do mundo".

 

Acolher a variedade, não apagá-la

 

Longe de ser "uma necessidade extraordinária", enfatizou o padre Pasolini, a renovação eclesial é "a atitude ordinária" da Igreja fiel ao mandato apostólico e, sobretudo, não é uniformidade, nem "uma obra pacífica". A Igreja que se renova, de fato, é aquela capaz de "acolher a diversidade" e capaz  de "um combate espiritual autêntico", livre dos "atalhos de puro conservadorismo e de inovação acrítica". Porque a comunhão nunca é "um sentimento homogêneo", nem uma recíproca eliminação, mas antes um lugar de "escuta recíproca". Só assim, de fato, "a Igreja pode verdadeiramente voltar a ser o lar de todos".

 

O Concílio Vaticano II e a "Primavera do Espírito"

 

Uma última reflexão do padre Pasolini foi dedicada ao Concílio Vaticano II: sessenta anos após, a grande assembleia , frequentemente descrita como a "primavera do Espírito", emerge quer "um declínio das práticas, dos números e das estruturas históricas da vida cristã" quanto um novo fermento do Espírito, evidenciado pela "centralidade da Palavra de Deus", por um laicato "mais livre e mais missionário", por "um caminho sinodal" que se tornou uma "forma necessária" e por um cristianismo que "floresce em muitas regiões do mundo".

 

Retornar ao coração do Evangelho

 

O declínio, explicou o pregador, torna-se decadência se a Igreja perde a "consciência da própria natureza sacramental e se percebe como uma organização social", reduzindo a fé à ética, a liturgia à performance e a vida cristã a moralismo.

Em vez disso, para além de posições ideológicas, como o tradicionalismo e o progressivo, o declínio pode se tornar "um tempo de graça" no momento em que a Igreja retorna "ao coração do Evangelho", distanciando-se de "estratégias" humanas, de "contraposições que dividem e tornam estéril cada diálogo", bem como de "soluções imediatas e fáceis".

 

A Igreja, dom a ser protegido e serviço

 

Em última análise, concluiu o padre Pasolini, a Igreja não é algo a ser edificado segundo critérios humanos, mas é "um dom a ser recebido, protegido e servido" com gestos humildes, dia após dia, cada um com um fragmento de fidelidade e caridade. O pregador da Casa Pontifícia concluiu então sua reflexão com uma oração ao Senhor para que "o povo dos fiéis possa sempre progredir na construção da Jerusalém celeste".

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/segunda-pregacao-advento

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal: Deus se faz próximo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Antônio Ferreira, cmf

 

‘Enquanto os evangelhos de Lucas e Mateus detalham o nascimento de Jesus, o Evangelho de João nos apresenta uma perspectiva diferente. Ele se inicia antes da criação, revelando Jesus como a Palavra de Deus, que era Deus e estava com Deus desde o princípio. Ao longo dos séculos, Deus revelou-se na criação, nas suas alianças com o povo de Israel, em Moisés, e revelou-se nos profetas. Aqueles que acreditaram nessa revelação tornaram-se filhos e filhas de Deus. Segundo João, a revelação mais plena ocorre com a encarnação do Verbo, demonstrando o amor infinito de Deus e superando a lei mosaica.

Ao ecoar as primeiras palavras de Gênesis, ‘‘No princípio’ (1,1), João estabelece um paralelo entre os dois relatos, a criação original e a nova criação em Cristo. A encarnação do Verbo representa um novo ato criativo, em que Deus, em sua infinita misericórdia, decide habitar entre os seres humanos, inaugurando um novo momento na história da humanidade. A encarnação do Verbo é, portanto, o ponto culminante de toda a história da salvação.

Como em Gênesis, também aqui a luz é um elemento primordial ligado à vida e à superação das trevas. A luz, identificada com Cristo, representa a força salvadora de Deus, enquanto as trevas simbolizam o pecado e a morte. A oposição entre luz e trevas, presente em ambos os textos, adquire em João uma dimensão mais espiritual e teológica, simbolizando a força do bem sobre mal. Enquanto em Gênesis a escuridão é um estado da criação, em João ela representa as forças que se opõem à revelação divina. Em João, esses elementos são representantes de Cristo ou de seus oponentes. Assim como em Gênesis, a luz em João é sinônimo de vida e vitória sobre as trevas. 

O evangelista João nos apresenta um paradoxo : Jesus, a luz do mundo, esteve entre nós e, no entanto, não foi reconhecido. Essa falta de reconhecimento não se limita à ignorância, mas à rejeição consciente de sua mensagem. Ao dizer que ‘o mundo não o conheceu’, João afirma que a humanidade se colocou em oposição a Deus. A cruz de Cristo revela a responsabilidade de cada um diante desse amor rejeitado e, ao mesmo tempo, a universalidade do amor divino. Conhecer Jesus implica mais do que ter informações sobre Ele, significa acolher seu ensinamento e seguir seus passos. A cruz revela também que mesmo aqueles que rejeitaram a luz podem encontrar perdão e restauração em Deus.

O Natal celebra o mistério da encarnação : Deus se fez homem, partilhando nossa condição humana em todas as suas dimensões, exceto o pecado. A afirmação de que Deus se tornou humano representa uma revolução teológica radical, tanto para os judeus quanto para os romanos e gregos. A figura de Jesus, um líder humilde e itinerante, contrasta com as expectativas do Messias poderoso, guerreiro, comum na cultura judaica. Para os gregos, a ideia de um deus se tornar homem era incompreensível, desafiando suas concepções mitológicas. O Natal celebra essa verdade paradoxal : Deus, em sua infinita misericórdia, fez-se homem para compartilhar nossa condição humana e nos oferecer a salvação. É a celebração desse amor divino que se fez próximo.

No Natal, a luz divina irrompe nas trevas do mundo, revelando-nos o rosto de Deus criança. Nascido numa manjedoura, Ele nos convida a um novo nascimento, à renovação da esperança. Aquele que criou os Céus e a Terra se faz pequeno para que possamos acolhê-lo em nossos corações. Sua presença transforma nossas vidas, convidando-nos a construir um mundo mais justo e fraterno seguindo seu exemplo de amor e compaixão. Da manjedoura, Deus olha-nos com o rosto de uma criança, cheio de esperança e vitalidade, dizendo a nós ‘Quero crescer na tua família, na tua comunidade, na tua vida’. Deus se faz próximo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/natal-deus-se-faz-proximo.html


 

domingo, 22 de dezembro de 2024

Sinfonia transformativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Miguel Oliveira Panão,

professor

 

‘Esta manhã ponderava se Deus seria um Maestro de uma grande orquestra chamada Universo onde todos podem improvisar e gerar uma Sinfonia em vez de cacofonia. Seria a Sinfonia que emerge da liberdade de todos poderem improvisar e fruto da complexidade relacional existente e da qual fazemos parte. Na prática, devido à rede de relações que permeia o mundo, todos caminhamos juntos e tocamos notas feitas de escolhas. Na Natureza, as escolhas são biológicas, mas no ser humano deveriam ser conscientes. Em Deus, as escolhas são um Mistério como realidades escondidas que nos atraem a uma vida cada vez mais profunda. Que sinfonia quer Deus orquestrar de cada vez que celebramos o nascimento de Jesus?

As ruas enchem-se de luzes desde Novembro. O primeiro pensamento foi de alguma perplexidade porque a celebração do Natal ainda distava de mais de um mês. Seria o anseio pela festa do Emanuel, Jesus, Deus-conosco? Ou seria a habitual febre do consumo subjacente à versão mais laica desta época? Gostaria que a resposta fosse sim à primeira pergunta e não à segunda, mas no fundo sabemos ser o contrário. Por isso, o desafio diante de nós em cada ano que passa é o equilíbrio saudável entre os anseios do mundo e as razões profundas que afetam a nossa existência.

Deus, que se faz um de nós e morre, afeta a minha existência porque descobrir as razões de tal escolha parecem ser um manancial natalício de reflexão infindável. Se Jesus não tivesse nascido, o mundo não seria o mesmo. O coração humano sem o Coração de Jesus talvez fosse mais selvagem. E a mudança que a sua breve existência humana realizou na evolução da nossa espécie parece-me ser a revolução do amor que quebra todas as barreiras, mais cedo ou mais tarde. Dada a aceleração que tenho assistido neste ano de 2024 que está prestes a terminar, refletir sobre a síntese do nosso coração ao Coração de Jesus é um bálsamo de lentidão que nos ajuda a parar para estarmos mais conscientes do rumo que estamos a seguir na história humana.

O Papa Francisco tem uma expressão na carta encíclica Amou-nos (Dilexit Nos) que considero muito forte: «Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas» (DN, 21).

A complexidade que existe no mundo natural nasce do facto de tudo estar relacionado com tudo, um aspecto central já presente na carta encíclica Laudato Si’, mas qual o fruto desses relacionamentos além da complexidade dos sistemas? Penso que seja a unidade em torno de um Coração que significa todo o pulsar proveniente da relacionalidade existente neste universo.

Os ritmos a que batem os nossos corações são diferentes. Por vezes, as ondas anulam-se quando os pulsares são opostos. Por vezes ampliam-se de tal forma que entram em ressonância e podem levar à ruptura.

Quando penso no nascimento de Jesus, Deus-Trindade oferece um só Coração ao mundo que inclui todos os pulsares, por mais diferentes que sejam. Coração que se revela sinfonia transformativa de unidade na diversidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1290/sinfonia-transformativa/

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Musicalidade e Esperança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘A arte da escuta atravessa a história humana e desloca o homem a elaborar seus instintos auditivos de sobrevivência, transformando a mesma escuta na mais sublime capacidade interior, o sentimento. Foi numa noite silenciosa, calma, que pessoas simples ouviram um coro angélico cantar ‘Gloria in excelsis Deo et in Terra pax hominibus bonae voluntatis’. A música celestial só pode ser ouvida por aqueles que, de um modo ou de outro, aproximam-se da humildade. Não foi difícil aos pastores o encontro com o Menino Jesus, bastou a eles seguir a melodia dos anjos para reconhecerem a grande esperança acolhida pela manjedoura na gruta de Belém.

Noite silenciosa! Noite santa! O encontro sublime entre a maior humildade e o maior louvor! A criação parou para escutar a esperança. Quem se propõe a músico litúrgico se coloca à disposição de trabalhar com os sons em função da esperança. Um músico narcisista não oferece nada além do que sua incapacidade de sentir esperança. Não é uma simples questão de entendimento. O ponto central da melodia cristã é o sentimento, uma experiência delicada com o Espírito Santo. Temos testemunhado muitos ‘entendidos’ no Evangelho que mais criam conflitos do que esperanças.

A musicalidade da esperança é infalível e inconfundível porque conforta o coração, acalenta sonhos, toca a oração profunda e transforma tudo em caridade. A esperança é uma melodia interior que transcende tempo e espaço e, como a Estrela Guia, leva-nos à manjedoura da humildade onde o Amor incarnatus est nos aguarda para abraçar-nos para sempre. 

Que o Natal de Jesus seja a melodia que nunca cessa de cantar o amor em nossos corações! Feliz Natal!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/musicalidade-e-esperanca.html

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Melodiar a esperança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bernardino Frutuoso,

jornalista

 

‘Vivemos uma época complexa, marcada por incertezas, sofrimentos e medos. Os ventos fortes da guerra e da violência continuam a soprar em muitas regiões do mundo. A cultura do descarte e do consumismo, as desigualdades, o crescente paradigma tecnocrático difundem-se e condicionam muitos dos nossos comportamentos diários. Enfrentamos, igualmente, uma grave crise climática global : a atmosfera aquece, o nível dos mares sobe, a riqueza da biodiversidade perde-se, as secas e as inundações são mais frequentes e severas. Apesar da procura de soluções e consensos multilaterais para enfrentar as alterações climáticas, as medidas assumidas não são aplicadas – como lembra o papa na exortação Laudate Deum. Esta crise, como explica o Papa Francisco na encíclica Laudate Si’, está ligada a uma crise socio-economica, que afecta sobretudo os mais vulneráveis. Por isso, o papa pede o perdão das dívidas dos países pobres, que nunca poderão pagá-las, que é uma verdadeira «dívida ecológica» – apelo que renova para o jubileu que vamos viver em 2025.

Neste cenário, podemos cair no pessimismo, no desânimo e na passividade. No entanto, como crentes, estamos chamados, como proclama o lema do jubileu de 2025, a ser peregrinos da esperança. Na bula de proclamação do Ano Santo, que iniciamos no dia 24 deste mês, o Papa Francisco pede-nos que descubramos a esperança nos sinais dos tempos. «Para não cair na tentação de nos considerarmos subjugados pelo mal e pela violência, é necessário prestar atenção a tanto bem que existe no mundo. Porém, os sinais dos tempos, que contêm o anélito do coração humano, carecido da presença salvífica de Deus, pedem para ser transformados em sinais de esperança», sublinha o pontífice. 

Os cristãos devemos olhar para o futuro com esperança, tendo «uma visão da vida carregada de entusiasmo para transmitir» e apoiando «uma aliança social em prol da esperança, que seja inclusiva e não ideológica». 

Francisco convida-nos, ainda, a ser signos tangíveis de esperança para todos aqueles que não a têm, nomeadamente os doentes, os presos, os migrantes, os pobres, os anciãos.  Cada discípulo missionário de Jesus, portanto, tem um papel essencial na construção da cultura da vida e da esperança, como aponta o papa : «Com os gestos, as palavras, as opções de cada dia, a paciência de semear um pouco de encanto e gentileza onde quer que estejamos, queremos cantar a esperança, para que a sua melodia faça vibrar as cordas da Humanidade e desperte nos corações a alegria e a coragem de abraçar a vida».

O Natal é um tempo oportuno para reforçar a esperança e a utopia cristã. Celebramos com alegria que o nosso Deus não está longe, mas vive no meio de nós, porque Ele é o Emanuel, o Deus conosco. O Menino que nasce em Belém é a fonte da nossa esperança; é a alegria para os nossos corações e a força que nos permite lutar por um mundo melhor, fraterno, solidário e justo. Ele é o Messias prometido, capaz de gerar nos nossos corações a liberdade e a paz, a audácia e o compromisso. Ele faz-nos acreditar que o mundo pode ser uma casa para todos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1289/melodiar-a-esperanca/