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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A tradição contemplativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘O fato de a meditação, a oração contemplativa, ser autenticamente cristã também pode ser constatado pelo fato de que, em muitas tradições cristãs, a oração silenciosa constitui o centro da adoração. Na tradição carmelita, Santa Teresa de Ávila foi muito influenciada, nos primeiros vinte anos de sua jornada espiritual, por um livro devocional popular da época chamado ‘Terceiro Alfabeto Espiritual’, de Francisco de Osuna, um monge franciscano, que recomendava a oração pela repetição de uma frase espiritual. Com ele como guia, ela foi conduzida da oração discursiva para o que chamou de ‘oração da quietude’ e até mesmo para a ‘oração da união’. Essas formas de oração são caracterizadas por uma crescente profundidade de silêncio e quietude interior. É uma maneira de abrir o coração a Deus na oração.

A ‘Oração de Jesus’, que se tornou conhecida no Ocidente no século XIX através do encantador livro ‘Relatos de um peregrino russo’, de autor anônimo, foi uma continuação da tradição de oração na Igreja Ortodoxa Oriental conhecida como ‘Oração do Coração’. Novamente, a ênfase está na repetição de uma frase de oração que leva ao silêncio interior e à solidão. Tanto essa tradição quanto aquela que John Main redescobriu para nós nos escritos de João Cassiano baseiam-se nos ensinamentos dos Padres do Deserto, em particular Evágrio Pôntico, que foi uma importante fonte e inspiração para ambas.

Na Inglaterra do século XIV, foi a obra ‘A Nuvem do Não-saber’, também de autor anônimo, que recomendou a mesma forma de oração. O autor enfatiza ‘perfurar o coração de Deus com um dardo flamejante de amor’. Para isso, precisamos concentrar todo o nosso amor e atenção em uma única palavra. Ele sugere que escolhamos uma palavra monossilábica como ‘Deus’ ou ‘Amor’, que expresse a intenção do nosso coração. O movimento da ‘Oração Centrada’ de Thomas Keating se inspira neste livro. O autor de ‘A Nuvem do Não-saber’ expressa o que está por trás de todos os ensinamentos da tradição mística cristã, ou seja, precisamos nos desapegar dos pensamentos, concentrando-nos em nossa palavra : ‘Fixe-a em sua mente para que permaneça lá, aconteça o que acontecer’. Ou, como John Main sempre dizia : ‘Apenas diga a sua palavra ’. 

Todos os guias espirituais mencionados fazem parte do que é conhecido como a tradição mística da ‘via negativa’, na qual Deus é incognoscível e inexprimível às nossas limitadas capacidades racionais. Portanto, precisamos nos desapegar do pensamento, de todos os pensamentos, sejam eles mundanos ou espirituais, para nos abrirmos mais a Ele e escutarmos profundamente a ‘voz mansa e delicada’. A ênfase está no Amor, em repetir a oração com amor e fidelidade. As diferenças em nossa época entre, por exemplo, a Tradição Carmelita, a ‘Oração Centrante’ e a ‘Comunidade Mundial para a Meditação Cristã’ são muito menores do que as correspondências entre as nossas respectivas formas de oração. Podemos nos inspirar em fontes diferentes, mas todos estamos empenhados em reconectar as pessoas no caminho espiritual com uma forma autêntica de oração que conduz ao silêncio e à consciência da Presença de Deus em nossos corações.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/a-tradicao-contemplativa-2/


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

As muralhas de Jericó

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Comunidades e paróquias de várias partes do mundo costumam realizar hoje em dia o chamado ‘Cerco de Jericó’ que relembra o momento em que os israelitas, depois de sua longa caminhada pelo deserto, cercaram e conquistaram a cidade depois de vários dias de batalha.

A história da queda das muralhas de Jericó, apesar de ser uma das passagens mais conhecidas da Bíblia também não tem uma comprovação histórica, e esta não era a preocupação maior dos escritores sagrados, tendo um significado simbólico para os israelitas, representando a vitória da fé sobre os obstáculos humanos, a fidelidade de Deus às suas promessas e a necessidade de obedecer aos seus mandamentos. Além disso, ela mostra que Deus pode usar de pessoas improváveis, como Raabe, para cumprir os seus propósitos.

Além de sua importância histórica e religiosa, as muralhas de Jericó são um marco do desenvolvimento humano. Elas representam uma das primeiras expressões de urbanização e engenharia na história da humanidade. Construídas com recursos locais e técnicas rudimentares, elas são testemunhos do esforço coletivo de uma sociedade que já compreendia a necessidade de proteção, organização e infraestrutura. Mais do que estruturas físicas, as muralhas de Jericó simbolizam a transição de comunidades nômades para sociedades sedentárias e urbanas, marcando o início de uma nova era na civilização humana.

As muralhas eram uma poderosa fortificação que protegia a cidade de Jericó, localizada no vale do Rio Jordão, na atual Cisjordânia, hoje localizada a apenas 25 km de Jerusalém. A cidade é considerada uma das mais antigas do mundo e as evidências arqueológicas da ocupação humana datam mais ou menos do ano 8 mil a.C.

Suas muralhas foram construídas em diferentes períodos da história e a mais famosa delas data do século XV a.C., quando os israelitas, liderados por Josué, invadiram a terra de Canaã, prometida por Deus a Abraão e seus descendentes, atravessaram o Rio Jordao e cercaram a cidade.

As escrituras Sagradas relatam que os israelitas por 6 dias cercaram a cidade de Jericó, seguindo as instruções divinas pronunciadas por Josué que havia sucedido a Moisés na condução do povo. No sétimo dia, eles deram sete voltas ao redor da cidade, tocando trombetas de chifres de carneiros, gritando e conduzindo a Arca da Aliança com as Tábuas da Lei em procissão.

Depois disso, as muralhas caíram permitindo que os israelitas entrassem e conquistassem a cidade. As Escrituras narram ainda que a única família que foi poupada foi a de Raab, uma prostituta que escondeu os espiões que haviam sido enviados por Josué e que reconheceu o poder do Deus de Israel. Todo o resto foi destruído pelo fogo e pelos saques dos israelitas.

Na sétima vez, quando os sacerdotes deram o toque de trombeta, Josué ordenou ao povo : ‘Gritem! O Senhor lhes entregou a cidade!

A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos. Mas fiquem longe das coisas consagradas, não se apossem de nenhuma delas, para que não sejam destruídos. Do contrário trarão destruição e desgraça ao acampamento de Israel.

Toda a prata, todo o ouro e todos os utensílios de bronze e de ferro são sagrados e pertencem ao Senhor e deverão ser levados para o seu tesouro.

Quando soaram as trombetas o povo gritou. Ao som das trombetas, e do forte grito, o muro caiu. Cada um atacou do lugar onde estava, e tomaram a cidade. Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos, todos os seres vivos que nela havia. (Jos 6,16-21).

As muralhas de Jericó continuam sendo uma das construções mais enigmáticas da Antiguidade, associadas tanto à arqueologia quanto a relatos bíblicos. Sua fama procede tanto da narrativa bíblica encontrada no Livro de Josué, que descreve a conquista da cidade pelos israelitas após suas muralhas desabarem ao som de trombetas e gritos, como ao significado histórico da cidade que foi tantas vezes destruída e sempre reconstruída. Por isso, além do relato religioso que é mais simbólico que real, as muralhas e a cidade têm um significado histórico e arqueológico profundo.

Graças às escavações arqueológicas realizadas em vários períodos as muralhas da cidade foram descobertas, a começar das ruínas mais antigas de algumas estruturas fortificadas que datam do período neolítico, por volta de 8 mil anos a.C. Muros e torres feitos de pedra tinham fins defensivos, servindo também para finalidades religiosos ou cerimoniais.

No entanto, a historicidade desse evento é motivo de debate entre estudiosos. Algumas escavações chegaram a sugerir que Jericó não teria muralhas correspondentes às que são descritas na época em que os israelitas teriam conquistado a cidade, por volta do século XIII ou XV a.C.

Assim como outras passagens do Primeiro Testamento o relato bíblico pode ser entendido mais como uma tradição simbólica ou metafórica.  Independentemente de sua conexão com os relatos bíblicos, Jericó e suas muralhas continuam a fascinar arqueólogos, historiadores e religiosos, sendo um exemplo poderoso de como os vestígios do passado podem lançar luz sobre as complexas origens da sociedade e da cultura humanas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-09/curiosidades-biblia-muralhas-jerico.html

domingo, 26 de janeiro de 2025

Sagrada Tradição e Sagrada Escritura

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Luís Eugênio Sanábio e Souza,

escritor 


‘A fé cristã é fruto da graça divina que nos conduz a acolher a Tradição Apostólica e a Sagrada Escritura, que o Magistério da Igreja Católica guarda e interpreta com autoridade ao longo dos séculos. Portanto, o verdadeiro conhecimento sobre os ensinamentos de Jesus Cristo não nasce de opiniões ou interpretações subjetivas e isoladas ao longo da história.  Jesus Cristo ordenou aos apóstolos que o Evangelho fosse por eles anunciado a todos os homens (Mateus 28,19-20) e esta transmissão, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras :  oralmente e por escrito.  A transmissão oral é chamada de Tradição Apostólica enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente ligada a ela.  Esta Tradição é a que vem dos apóstolos e transmite o que estes receberam do ensinamento e do exemplo de Jesus e o que receberam por meio do Espírito Santo que Jesus prometeu a eles (João 14,26).  Daí resulta que a Igreja ‘não deriva a sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura. Por isso, ambas (Tradição e Escritura) devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência’ (Concílio Vaticano II: DV, 9).  

A Igreja explica que da Tradição Apostólica é preciso distinguir as ‘tradições’ teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais surgidas ao longo do tempo nas comunidades locais.  É à luz da grande Tradição que estas ‘tradições’ podem ser mantidas, modificadas ou mesmo abandonadas, sob a guia do Magistério da Igreja.  Comentando sobre a Tradição Apostólica, o memorável Papa Bento XVI assim disse :  ‘Podemos afirmar portanto que a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E sendo assim, neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor : ‘E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos’ (Mt 29, 20).  Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados.  Escritos sob a inspiração do Espírito Santo, os textos bíblicos têm Deus como autor. 

Foi a Tradição Apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados que é denominada ‘Cânon’ das Escrituras.  Esta lista comporta 46 escritos para o Antigo Testamento e 27 para o Novo Testamento.  A primeira geração de cristãos ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento atesta o importante processo da Tradição viva. O Concílio Vaticano II indica três critérios para ler a Sagrada Escritura :  1. Prestar atenção ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira ;  2. Ler a Escritura dentro da Tradição viva da Igreja inteira; 3. Estar atento ‘à analogia da fé’ que é a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da revelação divina.  ‘O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo’ (Concílio Vaticano II: DV, 10).   Crer é um ato pessoal e ao mesmo tempo eclesial. 

A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a fé do fiel católico. ‘Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas’ =  ‘Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica’ (disse Santo Agostinho, nascido no ano 354).

‘Fica, portanto, claro que, segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos que um não tem consistência sem os outros, e que, juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas’ (Concílio Vaticano II: DV n° 10).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-01/sagrada-tradicao-sagrada-escritura.html

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Fé, comunidade e tradição em torno do corpo de Cristo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Renata Moraes


Passados sessenta dias após a Páscoa, a Igreja Católica celebra a Solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, mais conhecida como Corpus Christi. Essa data especial tem como objetivo central manifestar publicamente a fé no mistério da Eucaristia, que representa a presença real de Jesus Cristo na hóstia consagrada.

Em outras palavras, a festa de Corpus Christi é um momento para celebrar e reafirmar a crença de que, ao receber a comunhão, os fiéis comungam com o próprio corpo e sangue de Jesus, fortalecendo sua ligação com Deus.

Por meio de procissões pelas ruas, a comunidade católica demonstra publicamente sua fé e homenageia o Santíssimo Sacramento. Altares ornamentados, cantos religiosos e a participação fervorosa dos fiéis transformam essa data em uma grande festa de fé e devoção.

Mais do que uma simples celebração religiosa, a solenidade de Corpus Christi é um convite à reflexão sobre a fé e à renovação do compromisso com os ensinamentos de Jesus. É um momento para aprofundar a relação com Deus e reforçar a importância da Eucaristia na vida dos fiéis. 

Eucaristia : ápice da fé cristã e sacrifício do Senhor

A Eucaristia ocupa uma posição central na vida da Igreja. Na carta encíclica intitulada Ecclesia de Eucharistia (A Igreja vive da Eucaristia), o Santo Papa João Paulo II reafirma a importância da Eucaristia como ‘o cerne do mistério da Igreja’. O Concílio Vaticano II também havia declarado que o Sacrifício Eucarístico é a ‘fonte e o ápice de toda a vida cristã’.

Acima de tudo, a Eucaristia é o grande mistério da fé, conforme destacado no primeiro capítulo da encíclica. É o presente supremo de Jesus, que se oferece pela nossa salvação. Ao celebrarmos a Eucaristia, o evento salvífico da morte e ressurreição de Jesus torna-se verdadeiramente presente e eficaz. Esse sacrifício é tão importante para a salvação da humanidade que Jesus Cristo ascendeu ao Pai somente depois de nos deixar o meio de participar e desfrutar dos seus frutos salvíficos. A Eucaristia é o pão vivo que nos fortalece e revigora diariamente.

‘A Eucaristia é o pão de cada dia que se toma como remédio para a nossa fraqueza de cada dia’, já expressava o filósofo cristão e doutor da Igreja Santo Agostinho. O próprio Papa Francisco em diversos momentos falou sobre a fortaleza espiritual desse banquete : ‘A Eucaristia não é um prêmio para os bons, mas remédio para os fracos’.

Presença de Cristo na eucaristia na vida espiritual dos católicos

Em entrevista à reportagem da Revista Ave Maria, o filósofo e professor de História, Alexandre Ferreira Santos, falou sobre o papel da contemplação do mistério da presença de Cristo na Eucaristia na vida espiritual de um fiel. De acordo com Santos, a compreensão desse fenômeno vai além do conceito metafísico de estar presente no mundo, adentrando a esfera da teologia e da experiência espiritual.

‘É importante termos em mente que a ‘presença’, enquanto fenômeno, fundamenta o nosso ser no mundo, isso é algo metafísico. Quer dizer, quando estamos conscientes de que ‘estamos presentes’ abrimos mão de nossas ilusões de futuro e de nossas culpas do passado, por exemplo. Ao estarmos conscientes do tempo presente, inclusive temos a oportunidade de valorizar ausências que são queridas. Não é à toa que estão tão em alta as técnicas de mindfulness, de atenção plena etc.’, destacou o docente.

O filósofo prosseguiu relacionando essa compreensão com a presença de Cristo na Eucaristia, enfatizando que a experiência vai além de simplesmente estar consciente do momento presente. ‘Tudo porque Jesus nos chama a ir além de uma mera ‘metafísica da presença’ e experimentar a sua ‘teologia da presença’. Quando ele nos diz, em Mateus 28,20, ‘Eis que estarei convosco até o fim dos tempos’, Ele oferece para a vida espiritual do fiel cristão algo muito maior que qualquer técnica e meditação pode fazer por si mesma’, explicou o também teólogo.

Segundo Alexandre, estar na presença de Cristo na Eucaristia significa experimentar o reino de amor e o perdão alcançado na cruz, superando tanto as preocupações com o futuro quanto o peso das culpas passadas. ‘Em espírito e verdade somos capazes de alcançar tal status interior, mas Jesus Mestre não espera que alcancemos tal iluminação sozinhos, por isso oferece sua presença no Santíssimo Sacramento’, ressaltou.

Ao questionar o filósofo e teólogo Alexandre Ferreira Santos sobre o impacto da Eucaristia na vida comunitária dos católicos, sua resposta revela uma profunda reflexão sobre os princípios fundamentais da fé cristã e sua aplicação prática. ‘Jesus nos deixou a Eucaristia no pão e no vinho consagrados e nos colocou em torno da mesma mesa’, afirma ele, destacando a dimensão simbólica e comunitária da Eucaristia. 

Ele enfatiza também a fé na capacidade humana de convivência e solidariedade, inspirada pela presença de Cristo na celebração. ‘Ao recebermos a comunhão, recebemos também o Espírito Santo, que inflama em nós o amor’, destaca o teólogo, ressaltando o papel transformador da Eucaristia na vivência do amor fraterno. Ele ressalta a importância de reconhecer a presença de Cristo em cada pessoa, especialmente nos mais necessitados, alinhando-se com a opção preferencial pelos pobres estabelecida em Mateus 25.

‘Um estilo de vida simples, práticas sustentáveis e a militância contra o colapso climático são apelos que emergem das palavras da bênção sobre os dons do ofertório : ‘Bendito sejais, Senhor, pelo fruto da terra e do trabalho humano’. A vida brota da vida’, afirma o especialista, ecoando a ideia de que a plenitude da graça divina permeia toda a criação. Ele conclui destacando a necessidade de uma conversão pessoal e comunitária para promover a vida em abundância para todos os seres da criação.

A resposta do filósofo ressoa com a mensagem evangélica de amor, solidariedade e compromisso com os mais vulneráveis, inspirando os fiéis a viverem sua fé de forma autêntica e transformadora na comunidade e no mundo.

Testemunho público da fé nas ruas de Santana de Parnaiba

A celebração do corpo de Cristo na cidade de Santana de Parnaíba (SP) sempre aliou a devoção à beleza dos enfeites confeccionados pela comunidade nas principais ruas do centro histórico e ao longo dos anos tornou-se uma das maiores manifestações religiosas do Estado de São Paulo. 

Os tapetes são confeccionados com serragem colorida, que encantam pelo tingimento (são diversas cores vivas). Na confecção vale a criatividade de cada um, assim vários outros materiais são usados, como pó de café, casca de ovo, cal, madeira, flores, tecidos e até esculturas de barro.

‘O evento cresceu e cerca de 60 mil turistas visitam a cidade na data, que fica repleta de barracas de alimentação e artesanato. Toda a infraestrutura é cedida pela Prefeitura de Santana de Parnaíba e a organização da programação religiosa (missas, procissões etc.) é de responsabilidade da Paróquia Santa Ana, assim como a elaboração do tema, projeto de desenhos e distribuição dos tapetes, hoje confeccionados pela comunidade religiosa’, informou a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Santana de Parnaíba.

No próximo dia 30 de maio, a cidade se prepara para receber o Corpus Christi, evento anual marcado por sua tradição e significado religioso. Com o tema ‘Eucaristia, fonte de unidade e fraternidade’, a comunidade se reúne para celebrar a presença de Cristo na Eucaristia.

As atividades têm início às cinco da manhã, quando os moradores responsáveis pela confecção dos tradicionais tapetes de serragem se encontram na escola mais próxima do centro histórico. Após um café reforçado, cerca de mil voluntários das comunidades locais iniciam o trabalho de elaboração dos coloridos tapetes.

Às sete da manhã, no palco principal na praça 14 de Novembro, tem início uma série de momentos de oração e meditação, com destaque para as laudes às sete, o Terço mariano às oito, a pregação às nove e a santa Missa na matriz às dez e ao meio-dia. A programação ainda inclui a coroação de Maria às catorze horas, seguida pela santa Missa campal e procissão às quinze, com uma ressalva de que a programação está sujeita a alterações.

Após a conclusão da santa Missa, os fiéis saem em procissão pelas ruas do centro histórico, acompanhando o Jesus eucarístico e percorrendo quase um quilômetro de tapetes formados por serragem colorida. O evento, além de ser uma manifestação de fé, representa um momento de união e comunhão entre os membros da comunidade.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/fe-comunidade-e-tradicao-em-torno-do-corpo-de-cristo.html


domingo, 12 de novembro de 2023

A graça do batismo, a tradição e os costumes clericais

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea Tornielli


Uma reflexão sobre as respostas do Dicastério para a Doutrina da Fé com relação à celebração do batismo e às pessoas transexuais e homossexuais


São Cipriano, bispo de Cartago, que foi martirizado em 258, participando de um sínodo de bispos africanos, observou : ‘A nenhum homem que venha a existir pode ser negada a misericórdia e a graça de Deus’. E Santo Agostinho escreveu : «As crianças são apresentadas para receber a graça espiritual, não tanto por aqueles que as carregam nos braços (embora também por eles, se forem bons fiéis), mas pela sociedade universal dos santos e dos fiéis... É toda a Igreja Mãe dos santos que age, pois ela como um todo gera cada um deles».

Essas são duas declarações dos Padres da Igreja que atestam a absoluta gratuidade do batismo, de alguma forma também relativizando o papel dos pais e padrinhos (‘se forem bons fiéis’) que pedem o sacramento e apresentam a criança. Essas são palavras que melhor do que outras iluminam a recente resposta do Dicastério para a Doutrina da Fé às perguntas de um bispo brasileiro sobre o batismo. A nota assinada pelo cardeal Victor Manuel Fernandéz e aprovada pelo Papa Francisco mostra uma clara harmonia com o recente magistério papal. De fato, Francisco tem insistido repetidamente que a porta dos sacramentos, e em particular a do batismo, não deve permanecer fechada, e que a Igreja nunca deve se transformar em uma alfândega, mas sim acolher e acompanhar todos em seus acidentados caminhos na vida.

Um documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinado pelo Prefeito Fernandéz e aprovado pelo Papa na audiência de 31 de outubro, expressa uma opinião positiva se não se cria ...

As respostas do dicastério doutrinário, no contexto altamente polarizado que caracteriza a Igreja hoje, provocaram reações opostas, incluindo aquelas que temem que, ao admitir ao sacramento do batismo os filhos de casais homossexuais (adotados ou filhos de um dos dois parceiros, talvez gerados por gestação artificial), tanto o chamado ‘casamento gay’ quanto a prática do chamado ‘útero de aluguel’ se tornem moralmente lícitos. Também pode ser lida nesse sentido, novamente pelos críticos, a flexibilização da proibição de padrinhos e madrinhas de batismo, que o Dicastério apresenta de forma problemática. 

Em primeiro lugar, é interessante notar uma passagem da nota, onde se recorda que as respostas publicadas nestes dias ‘repropõem, em boa substância, os conteúdos fundamentais do que já foi afirmado no passado sobre este assunto por este Dicastério’. A menção se refere a pronunciamentos anteriores que permaneceram em segredo (um dos quais também é citado na nota de rodapé) que remontam a este pontificado e aos de seus antecessores. Além disso, as citações iniciais dos dois Padres da Igreja propostas no início deste artigo estão contidas, juntamente com muitas outras, em um documento público da então Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada pelo cardeal croata Franjo Šeper e pelo arcebispo dominicano Jérôme Hamer. Essa foi uma instrução aprovada em outubro de 1980 por São João Paulo II, na qual ele respondeu a uma série de objeções contra a celebração do batismo infantil, reafirmando a importância de uma ‘prática imemorial’ de origem apostólica que não deveria ser abandonada.

Para aqueles que hoje negariam o batismo aos filhos de casais homossexuais porque, ao batizá-los, a Igreja tornaria moralmente lícitas as uniões homossexuais ou a prática da barriga de aluguel, o documento de 1980 já havia, de fato, respondido indiretamente, afirmando que ‘a prática do batismo infantil é autenticamente evangélica, pois tem valor de testemunho; manifesta a iniciativa de Deus em relação a nós e a gratuidade de seu amor que envolve toda a nossa vida : 'Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou... Nós o amamos, porque ele nos amou primeiro' (1 João 4: 10. 19.)’. E também ‘no caso dos adultos, as exigências de receber o batismo não devem nos fazer esquecer que Deus 'não nos salvou por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, median­te o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo,' (Tito 3, 5.)’.

A instrução aprovada pelo Papa Wojtyla há quarenta e três anos obviamente levou em conta a mudança do contexto social e a secularização : ‘Pode acontecer que pais incrédulos e que praticam apenas ocasionalmente, ou mesmo não cristãos, que por razões dignas de consideração pedem o batismo para seus filhos, solicitem aos párocos’. Como se deve agir nesses casos? Permanecendo válido o critério - de ontem e de hoje - de que o batismo de crianças é celebrado se houver o compromisso de educá-las de maneira cristã, o documento de 1980 especificou a esse respeito : ‘Quanto às promessas, qualquer compromisso que ofereça uma esperança bem fundamentada para a educação cristã das crianças deve ser considerado suficiente’. A prática atual nas paróquias atesta o fato de que, seguindo o exemplo do Nazareno, incansável em sua busca por cada ovelha perdida, é suficiente que um parente se comprometa perante a Igreja a não fechar a porta. 

Não seria necessário, hoje, acreditar mais na ação da graça que atua por meio dos sacramentos, que não são um prêmio para os perfeitos, mas um remédio para os pecadores? Não deveríamos olhar mais para as páginas do Evangelho, de onde emerge Jesus, que ama primeiro, perdoa primeiro, abraça primeiro com misericórdia, e é nesse abraço que o coração das pessoas é movido para a conversão?

E, novamente, que culpa têm as crianças? Seja como for que tenham vindo ao mundo, elas são sempre criaturas amadas e queridas de Deus. Não valeria a pena, então, concentrar-se mais no lado positivo, ou seja, no fato de que as pessoas pedem o batismo em um contexto pós-cristão, onde é cada vez mais raro que isso aconteça por mero costume?

É confortante reler as palavras que um grande bispo do século XX proferiu em uma entrevista em julho de 1978 sobre Luise Brown, a primeira criança nascida em um tubo de ensaio. Ele denunciou o risco de surgirem ‘fábricas de crianças’ separadas do contexto familiar e explicou que compartilhava ‘apenas em parte’ o entusiasmo pelo experimento. Mas, no final, ele ofereceu seus ‘mais calorosos votos à criança’ e um pensamento afetuoso aos pais, dizendo : ‘Não tenho o direito de condená-los : subjetivamente, se eles agiram com intenção correta e de boa fé, podem até ter grande mérito diante de Deus pelo que decidiram e pediram aos médicos para realizar’. Esse bispo se chamava Albino Luciani, era o Patriarca de Veneza, um mês depois se tornaria João Paulo I e hoje é beato.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-11/editorial-tornielli-a-graca-do-batismo-e-os-costumes-clericais.html

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Da Europa à Califórnia, Jean-Louis Pagès, arquiteto de mosteiros

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Abadia de Saint-Michel d’Orange 

*Artigo de Cécile Séveirac 

 

‘Jean-Louis Pagès tem quase 90 anos de idade e no entanto os seus olhos ainda estão cheios de sonhos juvenis. Um construtor de mosteiros românicos mas também um arquiteto de hotéis de luxo e moradias à beira-mar… Este trabalhador esforçado com um temperamento errante parece adorar um desafio.

Nascido em 1933 em Rabat, Marrocos, Jean-Louis Pagès descobriu muito cedo a sua vocação como arquiteto. Quando era jovem, com apenas 4 anos de idade, já estava a ter lições de desenho. Aos 12 anos de idade, a arquitetura tornou-se uma escolha óbvia : ‘Encontrei um rolo de papel vegetal no topo de um armário, no qual foram desenhadas as plantas e seções da minha casa. Isso foi uma revelação’, diz ele à Aleteia. ‘Decidi desde logo que seria arquiteto, e isso nunca me deixou’.

Uma profissão que não deve nada ao acaso e tudo à Providência

Jean-Louis Pagès parece ter herdado este um gosto apurado pelo design e pelas proporções. ‘Já temos três ou quatro arquitetos na família ao longo dos séculos’, sorri ele. E um deles é nada mais nada menos que Hippolyte Pagès, amigo íntimo do Cura d’Ars e principal testemunha da beatificação deste último. Tanto que a família Pagès tem uma relação próxima com este santo, de quem algumas relíquias autenticadas permaneceram no seio da família desde 1863 até serem confiadas à abadia de Sainte Madeleine du Barroux, a pedido de Jean-Louis.

‘A minha irmã mais nova, então com 2 anos, tinha febre tifóide, tão grave que estava a morrer. Ela não passaria daquela noite. O meu avô foi buscar a caixa grande na qual as relíquias do Cura d’Ars eram guardadas e colocou-a junto ao berço. No dia seguinte, a febre desapareceu’, diz Jean-Louis.

O seu encontro com os mosteiros não foi por acaso : com um tio que era monge na abadia de Hautecombe, e repetidas viagens a estes lugares de oração e silêncio, Jean-Louis parecia quase destinado a participar, um dia, na sua concretização. ‘Como estudante, fui fazer o levantamento da abadia de Saint-Guilhem-le-Désert (Hérault, Occitania) e fiquei fascinado. Depois descobri a Grécia, e visitei o Monte Athos três vezes, vendo 18 mosteiros em 20.

Tradição e modernidade a serviço do sagrado

Foi precisamente a arquitetura de Saint-Guilhem-le-Désert, ou a de Sénanque, que o inspirou quando foi chamado a trabalhar em 1983 na construção das abadias Barroux (França), escolhendo com os monges beneditinos um estilo românico, ‘muito simples e muito puro’. Como bônus, havia a exigência de trabalhar ‘como na Idade Média’, com técnicas específicas para esse período, particularmente para determinar as proporções, impondo ao mesmo tempo certos limites ligados a questões de segurança para a construção das alas. A tradição e o progresso andaram assim de mãos dadas durante 25 anos, durante os quais Jean-Louis Pagès trabalhou entre os monges e freiras de Le Barroux, para quem também ajudou a construir a abadia, chamada Notre-Dame de l’Annonciation.

Dois mosteiros já são uma aventura e tanto. Mas isto não foi claramente suficiente para Jean-Louis, que na altura tinha 72 anos de idade. Em 2006, recebeu um telefonema de muito longe. Uma voz do outro lado da linha, o Irmão Jérôme, com sotaque inglês, mas num francês perfeito, perguntou a Jean-Louis se ele o acompanharia ‘numa grande aventura’. ‘Obviamente, eu disse que sim!’ Ela teria lugar a 10.000 km da França, na Califórnia : a construção da maior abadia católica dos Estados Unidos para a comunidade Norbertine em Orange.

‘E como se chamará esta abadia, meu irmão? – São Miguel’. Silêncio no fim da linha. ‘Fiquei em silêncio durante tanto tempo que o Irmão Jérôme pensou que a ligação tinha caído. Miguel : este é o nome do filho de Jean-Louis e da sua esposa, Françoise. O menino morreu muito jovem e brutalmente, em 1991. Foi uma dor extremamente difícil para o casal de superar, e a dor ainda está muito viva.

‘Para mim, era claro como o dia’, diz Jean-Louis com emoção. Foi um presente do céu. Um aceno de Miguel. O projeto durou onze anos. Jean-Louis também lhe aplicou símbolos utilizados por arquitetos medievais, particularmente os da época de São Bernardo, que colocaram um símbolo espiritual em cada fase do processo de construção para atrair o homem a Deus. Entre outras coisas, a igreja da abadia de Saint-Michel d’Orange está virada para oeste para que o sol nascente ilumine o coro no dia da festa do santo que deu o seu nome à abadia, graças a cálculos precisos. Uma vida plena, um trabalho a meio caminho entre o céu e a terra. ‘O tempo das catedrais acabou’, cantou Bruno Pelletier. Talvez, mas obviamente não o tempo dos mosteiros!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/11/18/da-europa-a-california-jean-louis-pages-arquiteto-de-mosteiros/


terça-feira, 31 de maio de 2022

Francisco e o golpe na 'tradicionalice'

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Há quem diga que Francisco pega no pé dos tradicionalistas. Falam de perseguição e até do fim do catolicismo. Uma histeria sem limites.

Na missa do Batismo do Senhor (realizada em 9 de janeiro), quando todos os anos, o Papa batiza algumas crianças da sua diocese, Francisco demonstrou que não está para brincadeira. Como sabemos, mesmo após a reforma litúrgica de Paulo VI, os altares da Basílica de São Pedro e adjacentes, como no caso da capela Sistina, permaneceram atacados ao muro. Sendo assim, mesmo celebrando no rito latino ordinário, o sacerdote que faz uso deles acaba se posicionando ad orientem.

O que o pontífice fez, neste fim de semana? Evitou fazer uso do altar fixo da igreja e, pela primeira vez, pediu ao escritório de celebrações litúrgicas do Vaticano para posicionar um ‘regular’, para que pudesse presidir a solenidade. Ou seja, ficou claro que acabou o tempo dos pitacos renascentistas sobre a ‘postura mais perfeita’ para se celebrar a missa. A mais perfeita, portanto, é aquela que o concílio decidiu - com o beneplácito do Papa, nos idos de 1960. E ponto final.

É como se o catolicismo, composto por uma infinidade de ritos litúrgicos, se resumisse à missa tridentina. E mais : é como se fora da (ex) forma EXTRAORDINÁRIA do rito latino (em caixa alta, para enfatizar) ditasse a fé de seus simpatizantes. Com ela, muitos já flertavam com a apostasia. Sem ela, a abraçaram de vez. Estão sem papa e sem missa. Dizem estar com Roma, mas não seguem o bispo de Roma. Dizem viver a fé católica em plenitude, mas são uma ameaça à própria catolicidade.

Francisco viu tudo isso e interviu. E mais : não deve ter sido fácil voltar atrás na decisão do seu antecessor, Bento XVI. O papa emérito, nas melhores das intenções, focou na pastoral em 2007, mas acabou sendo instrumentalizado por quem só queria um motivo para difundir suas ideologias sectárias. E sabemos muito bem que não foi uma meia dúzia de católicos que virou essa chave.

O problema não está na missa tridentina e nunca esteve. A Igreja não nega sua história, embora avalie, de tempos em tempos, que um ‘aggiornamento’ é necessário. E isso não foi invenção do Vaticano II. O catolicismo sempre acompanhou os ‘sinais dos tempos’, e até se mundanizou, em muitas fases da história, tamanho era seu nível de inserção na sociedade.

Se o sumo pontífice, segundo a própria tradição católica, é chamado a conter as ameaças contra a própria unidade do catolicismo, ele simplesmente cumpre o seu papel ao publicar a Traditionis Custodes. Aliás, ao nomear o documento dessa forma, que na tradução para o portugues le-se ‘Guardião da Tradição’, ele quer demonstrar com isso, que o bispo de Roma, e chefe da Igreja é o guardião da Tradição (com T maiúsculo) por excelência.

O problema é que, na boca desse povo, a tradição virou uma palavra trivial, que se aplica até ao vestido que a moça usa e à gravata borboleta do rapaz que combina o acessório com charuto e frases em latim... Conseguiram o feito de esvaziar o sentido da própria palavra tradição para o catolicismo.

O golpe de Francisco é contra a ‘tradicionalice’. Me permiti esse neologismo, que parte da junção entre as palavras ‘tradição e tolice’. E aqui não falo da tradição católica, mas dessa tradição caricaturada de grupos que, há muito tempo, romperam com a Igreja de Roma. So não admitiram ainda, porque isso pode acarretar prejuízo para aqueles que lucram com essa ‘santa oposição’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1560356/2022/01/francisco-e-o-golpe-na-tradicionalice/

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Jesus instituiu a Tradição da Igreja durante o Tempo Pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Vêneto,

jornalista

 

‘Jesus instituiu a Tradição da Igreja durante o Tempo Pascal : após a Ressurreição e antes de subir ao Céu, Ele voltou a aparecer aos Apóstolos, visivelmente, e lhes transmitiu mais uma série de ensinamentos orais. A Sua Revelação, portanto, continuou a ser comunicada verbalmente aos primeiros discípulos para que, por sua vez, eles pudessem comunicá-la ao mundo. O próprio Cristo, afinal, foi enfático :

Ide, pois, e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’.

Jesus instituiu a Tradição. Ou seja, determinou a pregação e a instrução a todos os povos, em todos os lugares e em todos os tempos, por meio da transmissão oral da Sua Revelação. E, além da doutrina, as Suas instruções aos Apóstolos contêm as diretrizes que eles deveriam implementar para organizar uma sociedade visível, uma instituição, que, ao longo dos séculos, custodiasse e continuasse propagando a transmissão do ensinamento d’Ele.

Em artigo publicado pelo site Radio Roma Libera, o jornalista católico italiano Roberto de Mattei observa, por exemplo, que a primeira Missa celebrada por São Pedro ‘seguiu meticulosamente as indicações de Cristo’.

De Mattei também recorda que esta sociedade visível que é a assembleia dos fiéis, ou seja, a Igreja Católica, se rege com base em três pilares instituídos pelo Seu Fundador, Jesus Cristo :

  • a Hierarquia que Ele estabeleceu;
  • a Doutrina que Ele ensinou;
  • os Sacramentos que Ele instituiu.

Trata-se de uma unidade : se a doutrina de Jesus Cristo foi confiada por Ele próprio aos Seus Apóstolos para que a transmitissem a todos os povos, então a retidão dessa doutrina está vinculada à fiel sucessão apostólica, de modo que não se pode prescindir da hierarquia que garante a sua reta transmissão desde os tempos em que Cristo mesmo a pregou aos Apóstolos.

Por sua vez, esta sucessão apostólica só é garantida pela validade dos sacramentos, já que, entre eles, a ordem sacerdotal só é transmitida validamente por um ministro que tenha sido, ele mesmo, validamente ordenado por outro anterior, também ordenado por um sucessor dos primeiros Apóstolos.

Fidelidade à Igreja, portanto, exige fidelidade à sua doutrina, à sua hierarquia e aos seus sacramentos.

Naqueles dias entre a Ressurreição e a Ascensão, Jesus garantiu aos Seus seguidores, isto é, àqueles que livremente abraçaram a Sua doutrina, aderiram à Sua hierarquia e acolheram os Seus sacramentos :

Eu estarei sempre convosco até o fim dos tempos’ (Mt 28, 20).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2021/04/14/jesus-instituiu-a-tradicao-da-igreja-durante-o-tempo-pascal/

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Sou um católico 'tradicional'. É exatamente por isso que amo o Papa Francisco (e estou perplexo com seus críticos)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Terence Sweeney,

teólogo

Tradução : Ramón Lara


Muito aconteceu no papado do Papa Francisco – momentos de alegria e desânimo – mas devemos lembrar dessas imagens. Elas são uma chave para entender seu papado e para a renovação da Igreja. Francisco era um papa pedindo oração; um papa oferecendo oração.

Eu sou o tipo de católico que deveria ser um inimigo do Papa Francisco. Acho que o catolicismo da década de 1970 foi um desastre, descartando grande parte do patrimônio da Igreja enquanto ignorava a letra e o espírito do Concílio Vaticano II. Não acho que a Igreja deva ‘se adaptar aos tempos’; a Igreja é a especialista em humanidade e divindade. Acredito firmemente que não devemos nos conformar com os tempos, mas renovar a Igreja retornando às fontes de nossa fé : a tradição transmitida pelo magistério e todo o povo de Deus.

E por essas razões, eu apoio o Papa Francisco.

O Papa Francisco confunde nossas expectativas porque elas tendem a ser moldadas pelo mundo. Para muitos da esquerda política, seu papado é o momento de criar uma nova Igreja conforme os tempos, como uma agência espiritual sem fins lucrativos. Em vez de ver as linhas traçadas por Francisco, muitos proclamam que suas iniciativas são ‘passos’ na direção certa, passos para cruzar as linhas do ensinamento católico.

Muito mais dolorosa para mim foi a resposta a Francisco de muitos de meus companheiros católicos de mentalidade tradicional. Um teólogo descreveu ‘Traditionis Custodes’, o recente motu proprio do papa restringindo o uso da forma extraordinária da missa em latim, para mim como uma reação de má-fé a ‘três pessoas no Twitter’. A boa notícia, segundo eles, foi que o Papa Francisco morrerá em breve.

Isso se encaixa em um padrão de discussão dos críticos de Francisco expressos no uso sarcástico do nome ‘Bergoglio’, a hermenêutica negativa aplicada a tudo aquilo que o Papa Francisco diz e o desrespeito às iniciativas papais que em outras circunstâncias fariam os tradicionalistas aplaudirem – a celebração da Dante, a elevação de Santo Irineu a doutor da Igreja, a instituição do Ano de São José. Tendo eu mesmo aprendido o quão importante é estar comprometido com o papado de tradicionalistas católicos, acho vertiginoso e desanimador ouvir o ácido lançado sobre o nosso atual pontífice.

Tanto os críticos quanto os apoiadores não conseguem ver o tradicionalismo de Francisco. Deixe-me destacar três formas de seu tradicionalismo :

  • Primeiro, ser um católico tradicional significa apoiar e realizar as reformas do Vaticano II. Francisco protege essa tradição daqueles de nós que pensam que o Vaticano II é opcional ou lamentável. Não é apenas um papel; é um guia essencial para ser católico no mundo moderno e uma chave hermenêutica para compreender a plenitude de nossa tradição de 2.000 anos.
  • Em segundo lugar, uma das tarefas do papa é enviar missionários ao mundo. Gregório enviou Agostinho à Inglaterra, Honório enviou dominicanos à Polônia, Paulo III enviou missionários às Américas e Francisco nos envia ‘para alcançar as margens da humanidade’. Muitos de nós no centro da Igreja estamos relutantes em fazer isso. Podemos estar muito interessados em mantermos as portas fechadas, em identidades nacionalistas ou em uma visão donatista de uma Igreja menor e mais pura. Mas a essência do Evangelho é espalhar o Evangelho. Para Francisco, a vida interior da Igreja está no movimento de ir ao encontro daqueles fora da Igreja. O que devemos fazer? Convidá-los para a Igreja, pois é dentro dela que encontramos Cristo plenamente. Isso pode não parecer tão novo, mas Francisco é bastante tradicional.
  • Terceiro, no coração do tradicionalismo de Francisco estão as imagens que usei na abertura deste ensaio : um papa pedindo oração, um papa oferecendo oração. Esta é a lex orandi do papado de Francisco, a lei da oração que molda seu ministério e ensino. Em seu discurso anual ‘Urbi et Orbi’, Francisco nos chama à ‘oração e ao serviço silencioso’. Ele nos lembra de ter confiança nessas ‘nossas armas vitoriosas’. Diante de uma pandemia global, Francisco tem a confiança de que a oração e as obras de misericórdia são os caminhos para a vitória.

Essa confiança é essencial para a liderança petrina. Assim como Pedro confiou em Jesus, o papa nos ensina que devemos confiar no Senhor. Francisco ensina que ‘sozinhos nos perdemos : precisamos do Senhor, como os antigos navegadores precisavam das estrelas’.

Sim, eu me preocupo com o Sínodo sobre a sinodalidade. Estou preocupado que muitos vejam isso como uma chance de mudar radicalmente a Igreja (como no desastroso sínodo alemão), e que o sínodo esfume a autoridade eclesial de maneiras que minam a unidade doutrinária. O que precisamos não é uma Igreja diferente, mas uma Igreja mais plenamente atualizada. E sim, eu luto com o que parece ser uma falta de prioridade na reverência litúrgica e na clareza doutrinária. Mas quando presto atenção ao seu ensinamento, encontro repetidas vezes sua mensagem : Abrace o Senhor para abraçar a esperança’.

O papa está orando por nós; vamos orar por ele. Vamos compartilhar sua confiança em Cristo. Juntemo-nos a ele na guarda da tradição e na pregação das boas novas.’ 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1562892/2022/02/sou-um-catolico-tradicional-e-exatamente-por-isso-que-amo-o-papa-francisco-e-estou-perplexo-com-seus-criticos/