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domingo, 18 de janeiro de 2026

Permanecendo no momento presente

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘Se apenas observarmos nossos pensamentos por um tempo, logo perceberemos que todos eles estão ligados ao passado ou ao futuro. Eles giram em torno de nossas preocupações sobre o que aconteceu, na forma de memórias, boas e ruins, ou sobre o que pode acontecer, nossos medos, esperanças, desejos e planos. Nem mesmo vemos as pessoas e situações como elas realmente são, mas coloridas por nossos pensamentos, opiniões, preconceitos, experiências e emoções. Na verdade, poderíamos facilmente dizer que andamos por aí, em uma paisagem de nossa própria mente, nossos próprios pensamentos, em um mundo de ilusão de nossa própria criação. Ficamos presos em nossa própria história; essa criação de nossa mente pode ser tão poderosa, que pode parecer a única realidade que existe. Pode mascarar a existência de uma Realidade Superior. 

Mas esta Realidade Superior, Deus, é experimentada pelos Místicos como puro ‘Ser’ no ‘Aqui e Agora’ : ‘Entre os nomes, nenhum é mais apropriado do que Aquele-que-é… pois ele habita sempre de novo em um Agora sem cessar.’ (Meister Eckhart)  

Quando Moisés pergunta a Deus quem ele é, ele obtém duas respostas – uma enfatiza o aspecto histórico : ‘Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.’ (Êxodo) e a segunda aponta para o Deus no Aqui e Agora : ‘Eu sou o que sou’ (Êxodo) – ser puro, energia pura, consciência pura. No ‘Evangelho de João’ ouvimos Jesus dizer algo semelhante sobre si mesmo : ‘Antes que Abraão existisse, ‘Eu sou’.’ 

Deixar de lado nossos pensamentos, nos permite permanecer no momento presente. É o ‘caminho estreito’ da atenção em nosso mantra, que nos ajuda a alcançar o silêncio no solo de nosso ser, no aqui e Agora, deixando nosso ser condicionado para trás. A eternidade está no agora. Precisamos perceber que o tempo é realmente feito de uma sequência de momentos do ‘Agora’ – tudo acontece no Agora. Mas distorcemos o Agora, ao habitarmos nas nossas memórias ou ao usarmos este momento precioso como um mero trampolim para antecipar e preparar o futuro. 

Além disso, uma vez que o momento do Agora tenha passado e desaparecido, o que resta dele torna-se parte do passado, uma mera memória. Estas são novamente construções da mente : interpretações de acontecimentos coloridos pelo autoengano, pelo medo, pela esperança ou pela necessidade de consolo, realmente não muito diferente de um sonho ou fantasia. Além disso, essa coloração varia dependendo das mudanças de humor e das circunstâncias. Precisamos abandonar essas miragens; existe realmente apenas o ‘Aqui e Agora’. Estar presente, e ouvir atentamente o mantra nos permite fazer isso, deixar de lado pensamentos e imagens, do passado e do futuro e nos permite ser nosso verdadeiro ‘eu’ habitando no Agora : ‘Ser consciente é viver no momento presente, não ficar preso ao passado, nem antecipar um futuro que pode nunca acontecer. Quando temos plena consciência do presente, a vida se transforma e a tensão e o estresse desaparecem. Grande parte da vida moderna é uma antecipação febril de atividade e emoções futuras. Temos que aprender a recuar para a liberdade e a possibilidade do presente.’ (Bede Griffiths OSB).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/permanecendo-no-momento-presente/


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A tradição contemplativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘O fato de a meditação, a oração contemplativa, ser autenticamente cristã também pode ser constatado pelo fato de que, em muitas tradições cristãs, a oração silenciosa constitui o centro da adoração. Na tradição carmelita, Santa Teresa de Ávila foi muito influenciada, nos primeiros vinte anos de sua jornada espiritual, por um livro devocional popular da época chamado ‘Terceiro Alfabeto Espiritual’, de Francisco de Osuna, um monge franciscano, que recomendava a oração pela repetição de uma frase espiritual. Com ele como guia, ela foi conduzida da oração discursiva para o que chamou de ‘oração da quietude’ e até mesmo para a ‘oração da união’. Essas formas de oração são caracterizadas por uma crescente profundidade de silêncio e quietude interior. É uma maneira de abrir o coração a Deus na oração.

A ‘Oração de Jesus’, que se tornou conhecida no Ocidente no século XIX através do encantador livro ‘Relatos de um peregrino russo’, de autor anônimo, foi uma continuação da tradição de oração na Igreja Ortodoxa Oriental conhecida como ‘Oração do Coração’. Novamente, a ênfase está na repetição de uma frase de oração que leva ao silêncio interior e à solidão. Tanto essa tradição quanto aquela que John Main redescobriu para nós nos escritos de João Cassiano baseiam-se nos ensinamentos dos Padres do Deserto, em particular Evágrio Pôntico, que foi uma importante fonte e inspiração para ambas.

Na Inglaterra do século XIV, foi a obra ‘A Nuvem do Não-saber’, também de autor anônimo, que recomendou a mesma forma de oração. O autor enfatiza ‘perfurar o coração de Deus com um dardo flamejante de amor’. Para isso, precisamos concentrar todo o nosso amor e atenção em uma única palavra. Ele sugere que escolhamos uma palavra monossilábica como ‘Deus’ ou ‘Amor’, que expresse a intenção do nosso coração. O movimento da ‘Oração Centrada’ de Thomas Keating se inspira neste livro. O autor de ‘A Nuvem do Não-saber’ expressa o que está por trás de todos os ensinamentos da tradição mística cristã, ou seja, precisamos nos desapegar dos pensamentos, concentrando-nos em nossa palavra : ‘Fixe-a em sua mente para que permaneça lá, aconteça o que acontecer’. Ou, como John Main sempre dizia : ‘Apenas diga a sua palavra ’. 

Todos os guias espirituais mencionados fazem parte do que é conhecido como a tradição mística da ‘via negativa’, na qual Deus é incognoscível e inexprimível às nossas limitadas capacidades racionais. Portanto, precisamos nos desapegar do pensamento, de todos os pensamentos, sejam eles mundanos ou espirituais, para nos abrirmos mais a Ele e escutarmos profundamente a ‘voz mansa e delicada’. A ênfase está no Amor, em repetir a oração com amor e fidelidade. As diferenças em nossa época entre, por exemplo, a Tradição Carmelita, a ‘Oração Centrante’ e a ‘Comunidade Mundial para a Meditação Cristã’ são muito menores do que as correspondências entre as nossas respectivas formas de oração. Podemos nos inspirar em fontes diferentes, mas todos estamos empenhados em reconectar as pessoas no caminho espiritual com uma forma autêntica de oração que conduz ao silêncio e à consciência da Presença de Deus em nossos corações.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/a-tradicao-contemplativa-2/


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Como alcançar o silêncio através da meditação cristã

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Philip Kosloski,

escritor e designer gráfico

 

‘Ao longo do Antigo e do Novo Testamento, a quietude é apresentada como a chave para uma meditação eficaz. Por exemplo, o salmista proclama : ‘Descansa no Senhor, põe nele a tua esperança’ (Salmo 37, 7).

Além disso, Elias descobre a voz de Deus em um ‘murmúrio de uma brisa ligeira’ (1 Reis 19,12).

Ouvir Deus e meditar em sua Palavra exigem uma certa quietude, o que é difícil de adquirir na vida moderna. Nossas vidas são repletas de ruídos, tanto visuais quanto auditivos.

Mas como podemos alcançar essa quietude?

No livro The Glories of the Catholic Church (‘As Glórias da Igreja Católica’), o autor explica uma maneira simples de fazer isso :

‘Esse tipo de oração requer quase as mesmas disposições para dormir. Para dormir, devemos nos manter o mais imóveis e tranquilos possível, sem fixar o pensamento em nada. Assim, aqueles que estão atentos e fervorosos na oração, e têm o Espírito divino para operar em suas almas, devem se esforçar para se manter em um estado de perfeita compostura de mente e corpo, e não permitir que nenhuma ideia se intrometa ou qualquer afeição perturbe as operações da graça divina … Todo o segredo da oração é a atenção da mente e a afeição do coração.’

Apesar de parecer simples, certamente não é fácil! No entanto, essa descrição nos dá uma certa chave para entender a quietude, a calma e o silêncio tão necessários em nossa vida.

Nossas mentes são feitas para pensar, assim como nossos pulmões são feitos para respirar, então não podemos esperar que nossos pensamentos simplesmente cessem. Em vez disso, precisamos canalizá-los e direcioná-los para uma disposição de calma, afastando pacientemente os pensamentos que nos distraem de nosso propósito de oração.

Isso requer uma disposição particular e um lugar onde haja verdadeiro silêncio. Assim como não conseguimos adormecer com música alta estridente em nossos ouvidos, nunca alcançaremos a quietude se formos bombardeados por qualquer barulho constante.

Basicamente, assim como temos uma rotina que nos acalma e nos prepara para dormir à noite, também precisamos desenvolver uma rotina que nos coloque em um estado de espírito semelhante para a oração.

Portanto, se você deseja crescer em seu relacionamento com Deus, considere praticar a meditação cristã, limpando sua mente e acalmando seu corpo para que você possa ouvir a voz de Deus.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2020/08/25/como-alcancar-o-silencio-atraves-da-meditacao-crista/

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

50 anos após a morte de Merton, 'finalmente o estamos entendendo'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Merton “continua sendo uma fonte de inspiração espiritual e um guia para muitas pessoas”, disse o papa.
Merton continua sendo uma fonte de inspiração espiritual
e um guia para muitas pessoas, disse o papa.

*Artigo da National Catholic Reporter/ IHU
Tradução : Moisés Sbardelotto


Embora a passagem citada do livro de 1960, Disputed Questions, fosse sobre a Europa na Segunda Guerra Mundial, Cuomo disse que as palavras de Merton são ‘exatamente aquilo que está acontecendo aqui agora – assustadoramente exatas’.

Cuomo não é o único a divulgar a relevância contemporânea de Merton. Apesar do entusiasmo morno de algumas lideranças da Igreja, os escritos de Merton sobre relações inter-religiosas, racismo, justiça social e contemplação continuam inspirando os católicos 50 anos após sua morte.

‘Sua mensagem parece durar e ser tão profética hoje, senão até mais, do que quando ele a escreveu’, disse Paul Pearson, diretor do Thomas Merton Center, um arquivo dos documentos de Merton, um museu e um centro de pesquisas na Bellarmine University, em Louisville, Kentucky.

Sobre espiritualidade, justiça social e diálogo inter-religioso, ‘tudo o que Merton diz ainda é relevante hoje’, observou Pearson, acrescentando que, se ainda estivesse vivo, Merton provavelmente estaria escrevendo ‘fundamentalmente sobre os mesmos problemas’.

Dez de dezembro, marca o 50º aniversário da trágica morte acidental de Merton – ele foi eletrocutado por um ventilador perto de Bangkok, onde ele participava de um congresso monástico inter-religioso. O aniversário está sendo marcado por eventos em todo o mundo, da Rússia à Argentina, de Cleveland à Abadia de Gethsemani, no Kentucky, onde Merton viveu e está enterrado.


O padre trapista Thomas Merton em uma foto no  eremitério da Abadia de Gethsemani (Foto: CNS/Merton Legacy Trust/Thomas Merton Center)
O padre trapista Thomas Merton em uma foto no  eremitério da Abadia de Gethsemani

Pearson faz parte das dezenas de estudiosos de Merton – muitos dos quais não haviam nascido quando Merton morreu – que se apresentarão em um congresso na Catholic Theological Union, em Chicago, neste fim de semana.

Intitulado ‘Desaparecer de vista? Thomas Merton, 50 anos depois e além’, o encontro começou nessa sexta-feira à noite com uma conferência do padre franciscano Richard Rohr – que alguns veem como um sucessor espiritual de Merton – e continuará com um cronograma de palestras, painéis e missa neste sábado (as inscrições estão esgotadas).

O congresso é copromovido pelo Bernardin Center da Catholic Theological Union, pelo Hank Center for the Catholic Intellectual Heritage da Loyola University Chicago, e pelo Capítulo de Chicago da Sociedade Internacional Thomas Merton.

Pearson vê o interesse em Merton ‘crescer em vez de diminuir’, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, com mais dissertações sobre a sua obra, provenientes da Europa Oriental e da Ásia, e um número crescente de cursos sendo ministrados sobre ele.

Em Bellarmine, uma aula sobre Merton é oferecida a cada semestre e geralmente tem uma lista de espera, apesar de muitos jovens católicos não conhecerem Merton ou a sua obra. Os estudantes gostam de aprender sobre contemplação, oração e silêncio, mas Merton é frequentemente a primeira exposição deles ao catolicismo como algo diferente de dogmas e leis morais, disse Gregory Hillis, professor associado de teologia, que leciona o curso.

‘Há um desejo por uma vida espiritual mais profunda, que vem de um profundo sentimento de ansiedade que as pessoas têm’, disse Hillis, observando que ‘a maioria desses estudantes nunca viveu em uma situação em que não estivéssemos em guerra’.

Guia espiritual

Assim como muitos de uma geração anterior, Hillis leu a autobiografia best-seller de Merton de 1948, ‘A montanha dos sete patamares’, quando era jovem, e ela influenciou profundamente a sua vida. Ele se candidatou ao emprego em Bellarmine, em parte, para estudar Merton e está escrevendo um livro sobre o catolicismo de Merton. Em um impulso de ‘exuberância juvenil’, ele até fez uma tatuagem de um desenho de Merton.

A jornalista e escritora espiritual Judith Valente também leu a autobiografia de Merton enquanto estava na faculdade e ficou inicialmente impressionada com a sua magistral escrita de poesia e prosa. ‘Ele era alguém que podia fazer com que a preparação de uma tigela de aveia soasse como o evento mais fascinante do mundo’, disse ela ao NCR em uma entrevista por e-mail.

Ela releu ‘A montanha dos sete patamares’ nos seus 30 anos, quando precisava ouvir a mensagem dele para desacelerar, estar mais atenta ao sofrimento dos outros e ‘olhar para dentro de mim, para encontrar aquela centelha que me faz ser quem eu sou’.

A famosa oração de Merton, que começa com ‘Meu Senhor Deus, eu não tenho nem ideia de para onde estou indo...’, apresentou Michael Brennan a Merton nos anos 1970, quando ele enfrentava uma possível convocação para a Guerra do Vietnã.

Atual coordenador do Capítulo de Chicago da Sociedade Internacional Thomas Merton, Brennan vê o escritor espiritual como um ‘herói contemporâneo’, que fala às questões sociais e eclesiais de hoje.

‘Ele tem muito a dizer nos dias de hoje, particularmente sobre compaixão, paz, justiça e empatia’, disse Brennan. ‘Eu acho que ele é tão relevante hoje quanto foi na sua época.’

Brennan chama Merton de ‘diretor espiritual de longe’, com uma ‘abordagem do senso comum à vida’. Ele atende ao pedido de contemplação de Merton reservando tempo para o silêncio na capela do aeroporto O’Hare, onde trabalha como encarregado de bagagens.

Mas é a escrita de Merton sobre justiça – e particularmente sobre raça – que muitos dizem que precisa ser mais lida hoje. Desde cedo, Merton viu o racismo como um problema do privilégio branco e como um pecado estrutural.

A autora e cineasta Cassidy Hall acredita que a obra de Merton é estranhamente relevante. ‘É uma lembrança constante do trabalho ainda em andamento pela paz, a justiça social, a igualdade, os direitos humanos e muito mais’, disse ela em um e-mail ao NCR.

Depois de ler Merton pela primeira vez há sete anos, Hall ficou inspirada a fazer uma peregrinação a todos os 17 mosteiros cistercienses/trapistas nos Estados Unidos, o que resultou no documentário In Pursuit of Silence [Em busca de silêncio, em tradução livre]. Ela está trabalhando agora em um pequeno documentário sobre os últimos anos de Merton no eremitério.




Abaixo, um trailer de Day of a Stranger [Dia de um estranho], 
documentário de Cassidy Hall sobre Thomas Merton, 
apresenta gravações da voz de Merton.



Hall elogia a honestidade de Merton e a sua capacidade de lidar com os paradoxos, o que ela acredita que fala a uma cultura contemporânea atolada no medo.

‘Thomas Merton apontou para outro modo de vida, um modo que abraçava os paradoxos da vida e apontava para a beleza do mistério, um modo que navegava o amor pela própria vida, um modo que empurrava para o verdadeiro eu, um modo que abraçava o estranho e o deixava entrar amorosamente como um vizinho, um modo que realmente acolhia todos à mesa a que eles pertencem’, disse Hall.

‘Fiel inquieto’

Mas a abertura de Merton ao diálogo inter-religioso deixou alguns católicos nervosos – à época e agora. Em 2005, quando os bispos dos Estados Unidos estavam criando um Catecismo para jovens adultos, no qual cada capítulo começa com o perfil de um católico exemplar, Merton foi originalmente incluído, mas depois removido.

Charge do National Catholic Reporter de 11-03-2005 ilustra a polêmica sobre a remoção de Thomas Merton de um Catecismo católico para jovens adultos (Ilustração: Pat Marrin)
Charge do National Catholic Reporter de 11-03-2005 ilustra a polêmica sobre a remoção de Thomas Merton de um Catecismo católico para jovens adultos 


‘A geração com a qual estávamos falando não tinha nem ideia de quem ele era’, disse na época o bispo Donald Wuerl, presidente do conselho editorial da instituição. Mas ele também fez alusão a preocupações de que os estudos de Merton sobre as religiões orientais implicassem uma falta de compromisso com o catolicismo.

Nada poderia estar mais longe da verdade, dizem estudiosos de Merton. E o Papa Francisco deve concordar, tendo escolhido Merton como um dos quatro estadunidenses que ele destacou em seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos em 2015.

Merton ‘continua sendo uma fonte de inspiração espiritual e um guia para muitas pessoas’, disse o papa. ‘Merton foi, acima de tudo, um homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja. Ele também foi um homem do diálogo, um promotor da paz entre os povos e as religiões.’

O organizador do congresso de Chicago, Steven Millies, disse que Merton era um ‘fiel inquieto’, que pode falar com os ‘nones’ de hoje e com outros que lutam com a religião institucional.

‘Ele lutou com a tradição, assim como queria viver dentro dela’, disse Millies, diretor do Bernardin Center.

‘Eu acho que é útil voltar para alguém que foi um comentador e observador pensativo, confiante, questionador e crítico da condição social, que estava tentando encontrar uma maneira de se conectar com o mundo fora da Igreja’, disse ele.

Na Loyola, os estudantes respondem à conexão de Merton com a contemplação e a ação social, e a sua abertura ao diálogo inter-religioso que não desvaloriza outra tradição teológica, disse Michael Murphy, diretor do Hank Center.

Merton pode ser um modelo em um tempo de profunda polarização, disse ele. ‘Mesmo que tenham se passado 50 anos desde que ele morreu, eu acho que finalmente o estamos entendendo.’’


Fonte :

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Thomas Merton e a Meditação

Por Dom Alexandre de Andrade, OSB

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‘A meditação cristã é uma versão cristã da meditação oriental silenciosa. Aqui o que mais importa é a experiência de silêncio e de interioridade – mais do que qualquer coisa que possa ser dito a respeito dessa experiência, além do ensinamento essencial de como fazê-la, que pode ser resumido simplesmente em três pontos :

  • procurar um lugar adequado e silencioso;
  • Sentar-se confortavelmente e fechar levemente os olhos;
  • Repetir mentalmente um mantra escolhido da Sagrada Escritura;
  • Concentrar-se sempre neste mantra e voltar a ele sempre que se perder;
  • Preferivelmente repetir este exercício duas vezes ao dia por 20 minutos : ao início das atividades do dia e ao início das atividades da noite.

Este formato de meditação silenciosa é recente no Cristianismo. Podemos dizer que seria uma tradução ou adaptação cristã da prática Oriental. Isso hoje é possível devido a alguns contextos, dos quais gostaríamos de comentar alguns.

Meditação Cristã é também o nome de uma comunidade cristã internacional – a WCCM – de natureza ecumênica e inter-religiosa que propõe o ensinamento da prática da meditação, tal como foi recomendado pelo seu idealizador e fundador, Dom John Main, um monge beneditino Inglês, falecido em 1982.

Hoje, a Comunidade Mundial de Meditação Cristã – WCCM – nos seus muitos Grupos de Meditação, promove iniciativas de formação contínua, que possibilita o amadurecimento e fundamentação a todos que têm o desejo de fazer este caminho espiritual, que é a prática da meditação, no contexto cristão, por meio de Retiros, Palestras, Cursos e Grupos semanais de prática.

Podemos encontrar semelhantes iniciativas contemplativas como a Contemplative Outreach, divulgada pelo Abade Thomas Keating OCSO, no formato da Oração Centrante. Também encontramos atualmente outros nomes, por exemplo ‘A Oração do Repouso' – como uma proposta de tradução e atualização de termos próprios deste tipo de espiritualidade.

Um dos objetivos da formação contínua, por exemplo, é a compreensão de alguns contextos que tornaram possível cristãos expressarem sua fé através de uma prática, percebida a princípio, como não cristã.

Embora não tenhamos pretensão de explicar em poucas linhas a complexidade da história das Tradições, podemos, ainda que sumariamente, ao menos considerar alguns pontos relevantes sobre mudança de paradigmas – no sentido mais amplo do termo. Por isso podemos sugerir ao menos três contextos cristãos  interessantes :

1) Estamos num contexto de celebração dos quinhentos anos da Reforma Protestante. A historiografia Católica do século XX consegue reconhecer que o monge agostiniano Lutero (1483-1546) não foi simplesmente um herético e um cismático, parecendo ter causado uma revolução na maneira medieval de compreensão do que poderia ser uma sociedade cristã e sobre o monopólio do sagrado. Embora nem Lutero e nem a Igreja Católica da época tenham sido exemplos de ecumenismo ou de diálogo inter-religioso no sentido moderno do termo, a história mostrou que pessoas corajosas e mártires, de ambos os lados, testemunharam que, para que uma Comunidade de fé possa amadurecer, é preciso reformar-se começando por dentro, pelo íntimo. A história pessoal de Lutero e dos reformadores é dramática o bastante para prová-lo. Poder ler o nosso texto sagrado em nossa própria língua foi uma das consequências desse drama pessoal de fé.

2) Pouco mais de cinquenta anos atrás, aconteceu uma outra revolução cristã, por assim dizer, de que talvez poucos cristãos conheçam a história : fazemos a  memória de um senhor pouco conhecido, o Papa João XXIII, falecido em 1963 e canonizado recentemente pelo Papa Francisco. Foi eleito para o trono papal aos 77 anos como uma proposta de transição. Para a surpresa de todos, inicia uma reforma interna na Igreja com uma expressão leve e informal dizendo que ’era preciso abrir as janelas e fazer o ar circular.’ 

Vale lembrar que há 1.700 anos atrás, o Abade Pastor, um monge do deserto Egípcio, deixou o seguinte registro : ‘Se você tiver um armário cheio de roupas e deixá-las lá por muito tempo, irão apodrecer. Acontecerá o mesmo com os pensamentos em seu coração. Se não os trouxermos para fora por meio de trabalho físico, após muito tempo eles estragam e tornam-se ruins.’ (Thomas Merton, A Sabedoria do Deserto, Martins Fontes  Ed., 2004, p. 47)

Assim aconteceu o Concílio Vaticano II (1962-65) e por causa disso, hoje podemos expressar o maior mistério de nossa fé – a Missa, a Celebração Eucarística – em nossa própria língua, o que nos permite compreender para crer melhor; podemos dialogar com o mundo moderno e com as várias Tradições religiosas e culturais; reconhecer e acolher os mais pobres, no sentido material e espiritual; voltar às fontes cristãs e descobrir que podemos e devemos, sim, meditar nos moldes orientais, fundamentados nos melhores mestres espirituais católicos, pois, de acordo com a mais recente edição do Catecismo da Igreja Católica, ‘O Homem é capaz de Deus’ (Catecismo da Igreja Católica n. 26 – Primeira Seção, Capítulo I).

3) Neste contexto propício, podemos perceber uma outra revolução na esfera da expressão da fé, mais discreta, silenciosa na prática, possibilitada pelo monge beneditino Inglês, Dom John Main, mencionado anteriormente. Tendo aprendido a meditar por ocasião de sua viagem à Malásia, a serviço da Coroa Britânica, foi orientado, pela delicadeza de seu Mestre oriental, a fazer a prática da meditação usando um ‘mantra’ que poderia ser tirado do texto sagrado da sua própria tradição, a Bíblia judaico-cristã. Dom John Main tinha muito apreço pela palavra sagrada ‘Maranäthä’ que se encontra no final do Livro do Apocalipse (Ap. 22, 20).

Mais tarde, inspirado pela curiosidade religiosa de um de seus alunos sobre a possibilidade de praticar a meditação oriental no contexto cristão, teve como sistematizar a prática, encontrando na história da própria Tradição Cristã, as Raízes  teológico-espirituais para o ensinamento seguro e eficaz da prática da Meditação a  todos que sentem necessidade de preencher essa lacuna na expressão de sua fé cristã.

Além da compreensão dos contextos, a formação contínua proposta pela Escola da Meditação Cristã – WCCM – bem como pelo GETM – Grupo de Estudos Thomas Merton– consiste em estudar e tornar conhecidos os textos dos muitos mestres espirituais da sabedoria mística cristã.

Por exemplo, poderíamos dizer, em grandes linhas, que no contexto cristão, a ideia da prática da meditação, na forma oriental tal como conhecemos hoje, começa a aparecer discreta e oficialmente nos escritos do monge Trapista americano Thomas Merton, falecido durante uma peregrinação ao Oriente em 1968. Num dos seus escritos (de uma tradução Brasileira de 1962) ele diz :

‘A meditação é mais do que pensar.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 64)

‘A meditação é, na realidade, coisa simples e não há necessidade de técnicas complicadas para nos ensinar como nos sairmos bem nessa tarefa. Mas isso não significa que possa ser praticada sem uma constante disciplina interior.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 93)

‘Para meditar, tenho que afastar meu pensamento de tudo que me impeça de estar atento a Deus presente em meu coração. Ora, isso é impossível se não recolho meus sentidos.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 94)

‘A Fé é o primeiro passo, porque é um tipo de conhecimento que adere, na obscuridade, sem imagens nem representações, por meio de uma identificarão amorosa ao Deus vivo.’ (Thomas Merton, Novas Sementes de Contemplação, Fisus Ed., 1999, p. 134)

‘O Filho Pródigo da parábola evangélica (Lc 15, 11ss) pode servir-nos de modelo : depois de ter esbanjado seus bens em terras longínquas, morria de fome, sem conseguir alimentar-se nem mesmo com os restos lançados ao porcos que cuidava. Mas ‘entrando em si’, meditou sobre sua condição. A meditação foi curta. Disse de si para si : ‘Voltarei a casa de meu Pai e lhe direi : ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti; não sou mais digno de ser chamado teu filho. O senhor me receberia como um dos teus empregados?’’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 96)

‘De modo geral, a melhor posição para meditar é sentado, mas a alguém que deseja seriamente meditar deve se permitir certa liberdade nessa matéria. Citamos como prova desse fato um trecho de Richard Rolle, um simpático místico Inglês do século XIV, no seu  ‘Form of Perfect Living :

‘Tem me agradado muito estar sentado; não por penitência ou fantasia, ou por desejo de que falem de mim ou algo semelhante, mas só por saber que assim mais amava a Deus e por mais tempo demorava em mim a consolação do amor, do que quando andava, ou estava em pé, ou ajoelhado. Pois, sentado, estou em maior repouso e meu coração mais se eleva. Todavia, pode acontecer a outro não estar bem quando sentado (como a mim sucede – e pretendo continuar até a morte) a não ser que esteja ele nas mesmas disposições de alma em que acho.’’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 100).

‘A meditação está contida quase inteiramente nesta única ideia : despertar o nosso ser interior, sintonizando-nos intimamente com o Espírito Santo, de maneira a correspondermos a Sua graça.’(Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 125)

‘A verdadeira finalidade da meditação cristã é praticamente a mesma da oração litúrgica e a recepção dos sacramentos, isto é, uma união mais profunda, pela graça e a caridade, com o Verbo da Vida, a pessoa de Jesus Cristo.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes  Ed., 1962, p. 123)’


Fonte :

domingo, 14 de julho de 2013

Comentário à Carta 70 (Capítulo 5 de 5)

Por (MariaVanda -  Ir. Maria Silvia Obl. OSB)
 

                     O Pérólas Finas pede escusas pela demora em continuar com o comentário ao Documento de Igreja – Carta 70- que fora motivado antes pela necessidade de publicar assuntos relativos ao tempo litúrgico daquele momento, que reputamos preferenciais aos temas mais comuns e mais cotidianos.

                    Por isso agora nos ocupamos em dar continuidade ao tema qual já vínhamos nos ocupando.

                   Havíamos, no Capítulo IV, falado sobre a oração do Pai Nosso. Agora é momento de falarmos sobre modos não recomendáveis de se fazer oração.

                    A Carta 70, no Título III, se ocupa desse tema. Faz ela referência dois movimentos reconhecidos como não recomendáveis para a oração e meditação nos tempos contemporâneos, quais sejam: a pseudo gnose e ao messalianismo. Tais movimentos entendiam que o corpo era impeditivo, senão um obstáculo para a elevação da alma, além de mais outros senões.

                   E, de fato, era esse argumento disseminado e às vezes até seguidos por alguns padres do deserto, como é o caso do Monge asceta São Simeão (o estilita), que para atingir os graus da perfeição, mortificava seu corpo, imobilizado a uma coluna por fortes correntes, ficando, pois, exposto a vermes que lhe cobriam o corpo e, caiam ao chão, Simeão pedia ao seu servidor Antonio que os recolocassem no corpo e proferia a seguinte frase: “Comei o que Deus vos deu”). Com tal prática esperava estar mais próximo de Deus. E sua carne consumida cedia lugar somente ao espírito, em exercício de purificação. (Cf. Padres do Deserto, Homens Embriagados de Deus. – Jacque Lacarrière- Ed. Loyola pg. 186/186).

                    Os padres da igreja combateram tal rigor corporal, dando ênfase antes à necessidade de entrega do homem, pelo coração, a oração e a conversão dos costumes, como por ex. podemos citar São João Clímaco, autor ascético do Século VII, (que viveu como anacoreta no Monte Sinai), em Escada do Paraíso.

                    Não somente os Padres da Igreja, mas também os Doutores da Igreja, como por ex. Santo Agostinho apontam ao homem, como o caminho da perfeição, a conversão de costumes, ante a necessidade de observar, com rigor, as três virtudes teologais apontadas pelo Apóstolo Paulo em (1Cor. 13,13): a fé, a esperança e a caridade.

                      A Carta 70, realça o fato do corpo, como matéria, também haver sido criado por Deus, e, portanto, não pode ser mal. E de fato não o é. O corpo é abrigo da alma, E para trilhar com ela o caminho da santidade, como tal, depende primeiro, da graça de Deus; porque o homem não caminha às sós e nem é capacitado com seus dons aleatoriamente. Para termos ou ganharmos determinados dons dependemos da graça e dádiva divinas. E um dos dons que recebemos é o DOM DA ORAÇÃO. E não somente o dom da oração, mas da oração contínua e silenciosa, como pede a MEDITAÇÃO CRISTÃ, tema de nosso trabalho.

                      Então, a graça dos dons, a higidez de corpo, alma e de espírito não são experiências psicológicas. São perfeitas intervenção, infusão mesma, do Espírito Santo e imersão do cristão nos mistérios divinos. Os Padres da Igreja, em combatem a pseudognose, já assim afirmavam, que a união do homem orante com Deus se realiza no mistério, mas de forma especial, através dos sacramentos pela Igreja afirmados.

                     Portanto, a oração perfeita, boa para Deus e para o orante, não depende somente de quem se propõe a fazê-la. Antes deve mesmo o orante se abandonar na seara de Deus, como dizia Santa Teresa D Ávila, ir ao Senhor mesmo que seja apenas para cavocar os seus jardins com grande alegria e vontade.

                     Assim, a meditação cristã, como forma de oração que é, não deve desconsiderar a distância natural que há entre o homem com seu Criador, (guardadas as certezas de que Deus não é nem terrestre, nem limitado, nem apreensível através de conceitos, nem cognoscível, mas antes de tudo escapam a nós o seu mistérios); pode, o meditante cristão, através desse abandonar-se em Deus e ao silêncio, num constante clamor, (vinde Pai ou Maranatha), lhe ocorrer um encontro com Deus, numa experiência única de união espiritual, mas antes totalmente dependente da graça divina.

                    Por isso a Carta 70 rechaça os modelos imitativos da meditação cristã e os reconhecem como errôneos, pois estes afirmam que, pode apenas, através de uma atitude psicológica e puramente humana, se estabelecer uma experiência de Deus e o homem, se este se entregar a tal pratica, como remédio psicológico ou espiritual, e como processo rápido para encontrar Deus.

                    A Carta então afirma que essa tentativa de fusão da meditação cristã, nas comunidades eclesiais, com a não cristã, não é isenta de riscos e erros; isto porque umas, só buscam uma preparação psicofísica para uma contemplação cristã e outras, porque procuram produzir por técnicas diversas, experiências espirituais análogas àquelas que se mencionam nos escritos de certos místicos católicos; e outras que se afirmam numa figura do absoluto, como equivalentes à majestade Deus revelada em Cristo, o que não se coaduna com o magistério da Igreja, pois esta se afirma na crença das obras salvadora realizadas na história constante da Tradição cristã, assim como a firmeza na crença do nosso Salvador Jesus Cristo e da Santíssima Trindade, consolidada da nova e eterna aliança firmada por Ele em imolação na cruz.

                    A proposta da Carta 70 para uma harmonização entre a meditação cristã e as meditações análogas é de que, para uma boa coexistência, se examine bem os critérios e métodos dessas outras técnicas e, de forma cuidadosa e bem discernidas de seus conteúdos, possa se evitar cair a Igreja Católica no que denomina de um pernicioso sincretismo.

                   Portanto, não se trata aqui de se rejeitar esta ou aquela forma ou técnica de se meditar, orientada por quaisquer que sejam seu matiz, oriental ou ocidental. Trata-se, essencialmente, de informar o cristão ligado à Igreja Católica Apostólica Romana, de que esta possui sua maneira própria de meditar, fundada no Magistério da Igreja e da fé que professa e, portanto, segundo os critérios da sua Tradição e os fundamentos Apostólicos que prega, emergentes, estes, das Sagradas Escrituras, portanto tendo centro Cristológio.

                     Bebemos, também, das fontes doutrinais dos Padres do Deserto, dos Padres e Doutores da Igreja e, ainda, das vidas dos Santos e Mártires, que nos legaram inúmeros exemplos de entrega e persistência na vida de oração e no “sentire cum Eclésia”. E todos, colhendo benefícios inenarráveis, somente possíveis àqueles que seguiram e observaram,com grande esmero, o caminho de Cristo, de cujos exemplos a história é testemunha.

                      Apenas para não deixarmos o leitor sem exemplos, anotaremos alguns quJESUS e, a própria Carta 70 faz referência, mas que podem ser outros acrescentados, sem qualquer possibilidade de esgotá-los, ante o rol imenso que existe. Santo Antão, São Pacômio, São Macário, Santa Marana, Santa Cira, São Bento , Santo Agostinho, Santa Mônica, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena, Santa Faustina, S. João da Cruz dentre inúmeros outros.

                    Finalmente, e dando por encerrado o comentário a que nos propusemos, ressaltamos que a Carta 70 é documento da Igreja que trata da Meditação Cristã, mas faz uma abordagem profunda e teológica de outros aspectos eclesiais, aspectos estes que completam e se somam àqueles mais específicos da meditação e da vida do cristão.

                     Queremos agradecer as visitas à matéria, que certamente não se esgotará por aqui, dada a sua importância para a vida cristã e na necessidade daquele que pretende levar uma vida de oração, para se aperfeiçoar no caminho da conversão, tendo como primazia o Caminho de Jesus, para chegarmos ao Pai.


                     Um abraço fraterno.
                      Maria Vanda

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Comentário à Carta 70 (Capítulo 2 de 5)

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)
 
                                                 Santo Antão                                                
     
Caros Leitores,

            Dando continuação à nossa proposta contida no preâmbulo do Capítulo I,  vamos aqui dar mais alguns passos no mister de comentar a Carta 70.

            Há, no documento em exame uma pergunta que é feita pelos cristãos, hoje: se não seria possível, mediante nova educação à oração, enriquecer nosso patrimônio, incorporando–lhe também elementos que até agora eram estranhos?

           Bem,  a que elementos estranhos estão os indagantes se referindo?

           É de bom alvitre lembrar que o método da oração cristã, como um todo sempre foi simples.  E como a meditação  é forma de oração, também é estruturada em elementos simples.  

           A teor da Carta 70 vemos que a estrutura  da oração cristã tem seu arquétipo fundado  na fé cristã.  Portanto esse é elemento essencial e inarredável.   É dela e através dela que  o fiel extrairá o nexo fundamental, do seu  relacionamento intimo e pessoal com Deus.  O fiel se desnudará diante de seu Criador e passa a lhe falar com sinceridade e amizade profundas.  Efervesces-se na alma, depurando a verdade necessária para a sua plena aproximação com a Trindade, que lhe dá substância para comungar, como criatura redimida, das virtudes e atributos do batismo. 

           Esse  diálogo intimo e profundo do fiel com Deus é silencioso, recôndito,  isolado. Mas ao mesmo tempo é dinâmico, pois exige um caminhar permanente, uma atitude de conversão.  E essa conversão deve  sempre alimentada na mesa eucarística e nas virtudes batismais.    

          Diz a Carta 70,  que esse caminhar do homem na vida de oração e, pois, no caminho da conversão, implica num êxodo do eu do homem para o Tu de Deus.

          Também afirma que a oração cristã é sempre autenticamente pessoal, individual e, ao mesmo tempo comunitária.

         Nesse passo recusa o Documento técnicas impessoais ou centradas sobre o eu, pois tais métodos  levam a automatismos que acabam por aprisionar o meditante num espiritualismo intimista, que logo o incapacita para uma  abertura livre para o Deus transcendente.

          Admite que a Igreja possa buscar novos métodos de meditação. Mas legitimados, sempre,  no encontro de duas liberdades:   a    infinita de Deus   e a finita do homem, como elemento essencial para uma oração autenticamente cristã.

         Pois bem,  a   questão inicial parece-nos  ainda carecer de melhor análise, para  uma maior clareza de resposta.  Lembrando que a pergunta era:  podemos  educar-nos para a oração e nos é lícito lançar mãos de outros elementos que até agora nos era estranhos?                                    

         Se estivermos falando de oração, que é gênero, da qual a meditação é uma espécie, não podemos colocar elementos que sejam estranhos aos que, com abundância nos trás os Evangelhos Sagrados. 

        Carta em análise nos dá o exemplo dos Salmos, que antecedem  tão antiga Fonte, o Antigo Testamento, como forma de autêntica  oração.  Exemplifica também com o Novo Testamento onde  nos aponta o Cristo como fonte permanente de revelação e de comunhão com o Pai.  Dele emanam as mais belas orações que conhecemos que tinham como elementos inarredáveis:  a fé no Pai que o enviou. A obediência  obstinada no cumprir do que lhe foi revelado, uma certeza imensurável de  que,  pela oração, seria ouvido pelo Pai;  e de que se entregando à cruz, nos remiria dos nossos pecados nos livraria dos nossos pecados e nos restituiria a vida eterna. 

        Pois bem.   As mais belas orações (proferidas com palavras ou no mais profundo silêncio)   foram deixadas por Jesus Cristo. E ele não só as proferiu, mas nos exortou praticá-las e ensinou-nos a dizê-las.

        Delas nos ocuparemos no capítulo III, próximo,  rogando, sempre, amealhar do Espírito Santo, a graça de podermos concretizar.

                Até breve.

                Maria Vanda (Ir. Maria Silvia – OSB-SP