‘Se apenas
observarmos nossos pensamentos por um tempo, logo perceberemos que todos eles
estão ligados ao passado ou ao futuro. Eles giram em torno de nossas
preocupações sobre o que aconteceu, na forma de memórias, boas e ruins, ou
sobre o que pode acontecer, nossos medos, esperanças, desejos e planos. Nem
mesmo vemos as pessoas e situações como elas realmente são, mas coloridas por
nossos pensamentos, opiniões, preconceitos, experiências e emoções. Na verdade,
poderíamos facilmente dizer que andamos por aí, em uma paisagem de nossa
própria mente, nossos próprios pensamentos, em um mundo de ilusão de nossa
própria criação. Ficamos presos em nossa própria história; essa criação de
nossa mente pode ser tão poderosa, que pode parecer a única realidade que
existe. Pode mascarar a existência de uma Realidade Superior.
Mas esta
Realidade Superior, Deus, é experimentada pelos Místicos como puro ‘Ser’ no ‘Aqui
e Agora’ : ‘Entre os nomes, nenhum é mais apropriado do que
Aquele-que-é… pois ele habita sempre de novo em um Agora sem cessar.’ (Meister
Eckhart)
Quando Moisés
pergunta a Deus quem ele é, ele obtém duas respostas – uma enfatiza o aspecto
histórico : ‘Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.’ (Êxodo) e
a segunda aponta para o Deus no Aqui e Agora : ‘Eu sou o
que sou’ (Êxodo) – ser puro, energia pura, consciência pura. No ‘Evangelho
de João’ ouvimos Jesus dizer algo semelhante sobre si mesmo : ‘Antes que
Abraão existisse, ‘Eu sou’.’
Deixar de
lado nossos pensamentos, nos permite permanecer no momento presente. É o ‘caminho
estreito’ da atenção em nosso mantra, que nos ajuda a alcançar o
silêncio no solo de nosso ser, no aqui e Agora, deixando nosso
ser condicionado para trás. A eternidade está no agora. Precisamos perceber que
o tempo é realmente feito de uma sequência de momentos do ‘Agora’ –
tudo acontece no Agora. Mas distorcemos o Agora, ao
habitarmos nas nossas memórias ou ao usarmos este momento precioso como um mero
trampolim para antecipar e preparar o futuro.
Além disso,
uma vez que o momento do Agora tenha passado e desaparecido, o
que resta dele torna-se parte do passado, uma mera memória. Estas são novamente
construções da mente : interpretações de acontecimentos coloridos pelo
autoengano, pelo medo, pela esperança ou pela necessidade de consolo, realmente
não muito diferente de um sonho ou fantasia. Além disso, essa coloração varia
dependendo das mudanças de humor e das circunstâncias. Precisamos abandonar
essas miragens; existe realmente apenas o ‘Aqui e Agora’. Estar
presente, e ouvir atentamente o mantra nos permite fazer isso, deixar de lado
pensamentos e imagens, do passado e do futuro e nos permite ser nosso
verdadeiro ‘eu’ habitando no Agora : ‘Ser
consciente é viver no momento presente, não ficar preso ao passado, nem
antecipar um futuro que pode nunca acontecer. Quando temos plena consciência do
presente, a vida se transforma e a tensão e o estresse desaparecem. Grande
parte da vida moderna é uma antecipação febril de atividade e emoções futuras.
Temos que aprender a recuar para a liberdade e a possibilidade do presente.’
(Bede Griffiths OSB).’
‘O fato de a
meditação, a oração contemplativa, ser autenticamente cristã também pode ser
constatado pelo fato de que, em muitas tradições cristãs, a oração silenciosa
constitui o centro da adoração. Na tradição carmelita, Santa Teresa de Ávila
foi muito influenciada, nos primeiros vinte anos de sua jornada espiritual,
por um livro devocional popular da época chamado ‘Terceiro
Alfabeto Espiritual’, de Francisco de Osuna, um monge franciscano, que
recomendava a oração pela repetição de uma frase espiritual. Com ele como guia,
ela foi conduzida da oração discursiva para o que chamou de ‘oração da quietude’
e até mesmo para a ‘oração da união’. Essas formas de oração são caracterizadas
por uma crescente profundidade de silêncio e quietude interior. É uma
maneira de abrir o coração a Deus na oração.
A ‘Oração de
Jesus’, que se tornou conhecida no Ocidente no século XIX através do
encantador livro ‘Relatos de um peregrino russo’, de autor
anônimo, foi uma continuação da tradição de oração na Igreja Ortodoxa Oriental
conhecida como ‘Oração do Coração’. Novamente, a ênfase está na repetição de
uma frase de oração que leva ao silêncio interior e à solidão. Tanto essa
tradição quanto aquela que John Main redescobriu para nós nos escritos de João
Cassiano baseiam-se nos ensinamentos dos Padres do Deserto, em particular
Evágrio Pôntico, que foi uma importante fonte e inspiração para ambas.
Na Inglaterra
do século XIV, foi a obra ‘A Nuvem do Não-saber’, também
de autor anônimo, que recomendou a mesma forma de oração. O autor enfatiza ‘perfurar
o coração de Deus com um dardo flamejante de amor’. Para isso, precisamos
concentrar todo o nosso amor e atenção em uma única palavra. Ele sugere
que escolhamos uma palavra monossilábica como ‘Deus’ ou ‘Amor’, que expresse a
intenção do nosso coração. O movimento da ‘Oração Centrada’ de Thomas Keating
se inspira neste livro. O autor de ‘A Nuvem do Não-saber’ expressa o que está
por trás de todos os ensinamentos da tradição mística cristã, ou seja,
precisamos nos desapegar dos pensamentos, concentrando-nos em nossa palavra : ‘Fixe-a
em sua mente para que permaneça lá, aconteça o que acontecer’. Ou,
como John Main sempre dizia : ‘Apenas diga a sua palavra ’.
Todos os
guias espirituais mencionados fazem parte do que é conhecido como a tradição
mística da ‘via negativa’, na qual Deus é incognoscível e
inexprimível às nossas limitadas capacidades racionais. Portanto, precisamos
nos desapegar do pensamento, de todos os pensamentos, sejam eles mundanos ou
espirituais, para nos abrirmos mais a Ele e escutarmos profundamente a ‘voz
mansa e delicada’. A ênfase está no Amor, em repetir a oração com amor e
fidelidade. As diferenças em nossa época entre, por exemplo, a Tradição
Carmelita, a ‘Oração Centrante’ e a ‘Comunidade Mundial para a Meditação Cristã’
são muito menores do que as correspondências entre as nossas respectivas formas
de oração. Podemos nos inspirar em fontes diferentes, mas todos estamos
empenhados em reconectar as pessoas no caminho espiritual com uma forma
autêntica de oração que conduz ao silêncio e à consciência da Presença de Deus
em nossos corações.’
‘Ao longo do Antigo e do
Novo Testamento, a quietude é apresentada como a chave para uma meditação
eficaz. Por exemplo, o salmista proclama : ‘Descansa no Senhor, põe nele a tua
esperança’ (Salmo 37, 7).
Além
disso, Elias descobre a voz de Deus em um ‘murmúrio de uma brisa ligeira’
(1 Reis 19,12).
Ouvir
Deus e meditar em sua Palavra exigem uma certa quietude, o que é difícil de
adquirir na vida moderna. Nossas vidas são repletas de ruídos, tanto visuais
quanto auditivos.
Mas
como podemos alcançar essa quietude?
No
livro The Glories of the Catholic Church (‘As Glórias da
Igreja Católica’), o autor explica uma maneira simples de fazer isso :
‘Esse
tipo de oração requer quase as mesmas disposições para dormir. Para dormir,
devemos nos manter o mais imóveis e tranquilos possível, sem fixar o pensamento
em nada. Assim, aqueles que estão atentos e fervorosos na oração, e têm o
Espírito divino para operar em suas almas, devem se esforçar para se manter em
um estado de perfeita compostura de mente e corpo, e não permitir que nenhuma
ideia se intrometa ou qualquer afeição perturbe as operações da graça divina …
Todo o segredo da oração é a atenção da mente e a afeição do coração.’
Apesar
de parecer simples, certamente não é fácil! No entanto, essa descrição nos dá
uma certa chave para entender a quietude, a calma e o silêncio tão necessários
em nossa vida.
Nossas
mentes são feitas para pensar, assim como nossos pulmões são feitos para
respirar, então não podemos esperar que nossos pensamentos simplesmente cessem.
Em vez disso, precisamos canalizá-los e direcioná-los para uma disposição de
calma, afastando pacientemente os pensamentos que nos distraem de nosso
propósito de oração.
Isso
requer uma disposição particular e um lugar onde haja verdadeiro silêncio.
Assim como não conseguimos adormecer com música alta estridente em nossos
ouvidos, nunca alcançaremos a quietude se formos bombardeados por qualquer
barulho constante.
Basicamente,
assim como temos uma rotina que nos acalma e nos prepara para dormir à noite,
também precisamos desenvolver uma rotina que nos coloque em um estado de
espírito semelhante para a oração.
Portanto,
se você deseja crescer em seu relacionamento com Deus, considere praticar a
meditação cristã, limpando sua mente e acalmando seu corpo para que você possa
ouvir a voz de Deus.’
Embora
a passagem citada do livro de 1960, Disputed Questions, fosse sobre a Europa na
Segunda Guerra Mundial, Cuomo disse que as palavras de Merton são ‘exatamente aquilo que está acontecendo aqui
agora – assustadoramente exatas’.
Cuomo
não é o único a divulgar a relevância contemporânea de Merton. Apesar do
entusiasmo morno de algumas lideranças da Igreja, os escritos de Merton sobre
relações inter-religiosas, racismo, justiça social e contemplação continuam
inspirando os católicos 50 anos após sua morte.
‘Sua mensagem parece durar e ser tão
profética hoje, senão até mais, do que quando ele a escreveu’, disse Paul
Pearson, diretor do Thomas Merton Center, um arquivo dos documentos de Merton,
um museu e um centro de pesquisas na Bellarmine University, em Louisville,
Kentucky.
Sobre
espiritualidade, justiça social e diálogo inter-religioso, ‘tudo o que Merton diz ainda é relevante hoje’,
observou Pearson, acrescentando que, se ainda estivesse vivo, Merton
provavelmente estaria escrevendo ‘fundamentalmente sobre os mesmos problemas’.
Dez
de dezembro, marca o 50º aniversário da trágica morte acidental de Merton – ele
foi eletrocutado por um ventilador perto de Bangkok, onde ele participava de um
congresso monástico inter-religioso. O aniversário está sendo marcado por
eventos em todo o mundo, da Rússia à Argentina, de Cleveland à Abadia de
Gethsemani, no Kentucky, onde Merton viveu e está enterrado.
O padre trapista Thomas Merton em uma foto no eremitério da Abadia de Gethsemani
Pearson
faz parte das dezenas de estudiosos de Merton – muitos dos quais não haviam
nascido quando Merton morreu – que se apresentarão em um congresso na Catholic
Theological Union, em Chicago, neste fim de semana.
Intitulado
‘Desaparecer de vista? Thomas Merton, 50
anos depois e além’, o encontro começou nessa sexta-feira à noite com uma
conferência do padre franciscano Richard Rohr – que alguns veem como um
sucessor espiritual de Merton – e continuará com um cronograma de palestras,
painéis e missa neste sábado (as inscrições estão esgotadas).
O
congresso é copromovido pelo Bernardin Center da Catholic Theological Union,
pelo Hank Center for the Catholic Intellectual Heritage da Loyola University
Chicago, e pelo Capítulo de Chicago da Sociedade Internacional Thomas Merton.
Pearson
vê o interesse em Merton ‘crescer em vez
de diminuir’, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, com mais
dissertações sobre a sua obra, provenientes da Europa Oriental e da Ásia, e um
número crescente de cursos sendo ministrados sobre ele.
Em
Bellarmine, uma aula sobre Merton é oferecida a cada semestre e geralmente tem
uma lista de espera, apesar de muitos jovens católicos não conhecerem Merton ou
a sua obra. Os estudantes gostam de aprender sobre contemplação, oração e
silêncio, mas Merton é frequentemente a primeira exposição deles ao catolicismo
como algo diferente de dogmas e leis morais, disse Gregory Hillis, professor
associado de teologia, que leciona o curso.
‘Há um desejo por uma vida espiritual mais
profunda, que vem de um profundo sentimento de ansiedade que as pessoas têm’,
disse Hillis, observando que ‘a maioria
desses estudantes nunca viveu em uma situação em que não estivéssemos em guerra’.
Guia espiritual
Assim
como muitos de uma geração anterior, Hillis leu a autobiografia best-seller de
Merton de 1948, ‘A montanha dos sete
patamares’, quando era jovem, e ela influenciou profundamente a sua vida.
Ele se candidatou ao emprego em Bellarmine, em parte, para estudar Merton e
está escrevendo um livro sobre o catolicismo de Merton. Em um impulso de ‘exuberância juvenil’, ele até fez uma
tatuagem de um desenho de Merton.
A
jornalista e escritora espiritual Judith Valente também leu a autobiografia de
Merton enquanto estava na faculdade e ficou inicialmente impressionada com a
sua magistral escrita de poesia e prosa. ‘Ele
era alguém que podia fazer com que a preparação de uma tigela de aveia soasse
como o evento mais fascinante do mundo’, disse ela ao NCR em uma entrevista
por e-mail.
Ela
releu ‘A montanha dos sete patamares’
nos seus 30 anos, quando precisava ouvir a mensagem dele para desacelerar,
estar mais atenta ao sofrimento dos outros e ‘olhar para dentro de mim, para encontrar aquela centelha que me faz ser
quem eu sou’.
A
famosa oração de Merton, que começa com ‘Meu
Senhor Deus, eu não tenho nem ideia de para onde estou indo...’, apresentou
Michael Brennan a Merton nos anos 1970, quando ele enfrentava uma possível
convocação para a Guerra do Vietnã.
Atual
coordenador do Capítulo de Chicago da Sociedade Internacional Thomas Merton,
Brennan vê o escritor espiritual como um ‘herói
contemporâneo’, que fala às questões sociais e eclesiais de hoje.
‘Ele tem muito a dizer nos dias de hoje,
particularmente sobre compaixão, paz, justiça e empatia’, disse Brennan. ‘Eu acho que ele é tão relevante hoje quanto
foi na sua época.’
Brennan
chama Merton de ‘diretor espiritual de
longe’, com uma ‘abordagem do senso
comum à vida’. Ele atende ao pedido de contemplação de Merton reservando
tempo para o silêncio na capela do aeroporto O’Hare, onde trabalha como
encarregado de bagagens.
Mas
é a escrita de Merton sobre justiça – e particularmente sobre raça – que muitos
dizem que precisa ser mais lida hoje. Desde cedo, Merton viu o racismo como um
problema do privilégio branco e como um pecado estrutural.
A
autora e cineasta Cassidy Hall acredita que a obra de Merton é estranhamente
relevante. ‘É uma lembrança constante do
trabalho ainda em andamento pela paz, a justiça social, a igualdade, os
direitos humanos e muito mais’, disse ela em um e-mail ao NCR.
Depois
de ler Merton pela primeira vez há sete anos, Hall ficou inspirada a fazer uma
peregrinação a todos os 17 mosteiros cistercienses/trapistas nos Estados
Unidos, o que resultou no documentário In
Pursuit of Silence [Em busca
de silêncio, em tradução livre]. Ela está trabalhando agora em um
pequeno documentário sobre os últimos anos de Merton no eremitério.
Abaixo, um
trailer de Day of a Stranger [Dia de um estranho], documentário de Cassidy Hall
sobre Thomas Merton, apresenta gravações da voz de Merton.
Hall
elogia a honestidade de Merton e a sua capacidade de lidar com os paradoxos, o
que ela acredita que fala a uma cultura contemporânea atolada no medo.
‘Thomas Merton apontou para outro modo de
vida, um modo que abraçava os paradoxos da vida e apontava para a beleza do
mistério, um modo que navegava o amor pela própria vida, um modo que empurrava
para o verdadeiro eu, um modo que abraçava o estranho e o deixava entrar
amorosamente como um vizinho, um modo que realmente acolhia todos à mesa a que
eles pertencem’, disse Hall.
‘Fiel inquieto’
Mas
a abertura de Merton ao diálogo inter-religioso deixou alguns católicos
nervosos – à época e agora. Em 2005, quando os bispos dos Estados Unidos
estavam criando um Catecismo para jovens adultos, no qual cada capítulo começa
com o perfil de um católico exemplar, Merton foi originalmente incluído, mas
depois removido.
Charge do National Catholic Reporter
de 11-03-2005 ilustra a polêmica sobre a remoção de Thomas Merton de um
Catecismo católico para jovens adultos
‘A geração com a qual estávamos falando não
tinha nem ideia de quem ele era’, disse na época o bispo Donald Wuerl,
presidente do conselho editorial da instituição. Mas ele também fez alusão a
preocupações de que os estudos de Merton sobre as religiões orientais
implicassem uma falta de compromisso com o catolicismo.
Nada
poderia estar mais longe da verdade, dizem estudiosos de Merton. E o Papa
Francisco deve concordar, tendo escolhido Merton como um dos quatro
estadunidenses que ele destacou em seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos
em 2015.
Merton
‘continua sendo uma fonte de inspiração espiritual
e um guia para muitas pessoas’, disse o papa. ‘Merton foi, acima de tudo, um homem de oração, um pensador que desafiou
as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a
Igreja. Ele também foi um homem do diálogo, um promotor da paz entre os povos e
as religiões.’
O
organizador do congresso de Chicago, Steven Millies, disse que Merton era um ‘fiel inquieto’, que pode falar com os ‘nones’ de hoje e com outros que lutam
com a religião institucional.
‘Ele lutou com a tradição, assim como queria
viver dentro dela’, disse Millies, diretor do Bernardin Center.
‘Eu acho que é útil voltar para alguém que
foi um comentador e observador pensativo, confiante, questionador e crítico da
condição social, que estava tentando encontrar uma maneira de se conectar com o
mundo fora da Igreja’, disse ele.
Na
Loyola, os estudantes respondem à conexão de Merton com a contemplação e a ação
social, e a sua abertura ao diálogo inter-religioso que não desvaloriza outra
tradição teológica, disse Michael Murphy, diretor do Hank Center.
Merton
pode ser um modelo em um tempo de profunda polarização, disse ele. ‘Mesmo que tenham se passado 50 anos desde
que ele morreu, eu acho que finalmente o estamos entendendo.’’
‘A
meditação cristã é uma versão cristã da meditação oriental silenciosa. Aqui o
que mais importa é a experiência de silêncio e de interioridade – mais do que
qualquer coisa que possa ser dito a respeito dessa experiência, além do
ensinamento essencial de como fazê-la, que pode ser resumido simplesmente em
três pontos :
procurar
um lugar adequado e silencioso;
Sentar-se
confortavelmente e fechar levemente os olhos;
Repetir
mentalmente um mantra escolhido da Sagrada Escritura;
Concentrar-se
sempre neste mantra e voltar a ele sempre que se perder;
Preferivelmente
repetir este exercício duas vezes ao dia por 20 minutos : ao início das
atividades do dia e ao início das atividades da noite.
Este formato de meditação silenciosa é
recente no Cristianismo. Podemos dizer que seria uma tradução ou adaptação
cristã da prática Oriental. Isso hoje é possível devido a alguns contextos, dos
quais gostaríamos de comentar alguns.
Meditação Cristã é também o nome de
uma comunidade cristã internacional – a WCCM – de natureza ecumênica e
inter-religiosa que propõe o ensinamento da prática da meditação, tal como foi
recomendado pelo seu idealizador e fundador, Dom John Main, um
monge beneditino Inglês, falecido em 1982.
Hoje, a Comunidade Mundial de Meditação Cristã – WCCM– nos seus muitos Grupos de
Meditação, promove iniciativas de formação contínua, que possibilita o
amadurecimento e fundamentação a todos que têm o desejo de fazer este caminho
espiritual, que é a prática da meditação, no contexto cristão, por meio de Retiros,
Palestras, Cursos e Grupos semanais de prática.
Podemos encontrar semelhantes
iniciativas contemplativas como a Contemplative
Outreach, divulgada pelo Abade Thomas Keating
OCSO, no formato da Oração Centrante. Também encontramos
atualmente outros nomes, por exemplo ‘A Oração do Repouso' – como uma proposta de tradução e atualização de termos próprios deste
tipo de espiritualidade.
Um dos objetivos da formação contínua,
por exemplo, é a compreensão de alguns contextos que tornaram possível cristãos
expressarem sua fé através de uma prática, percebida a princípio, como não
cristã.
Embora não tenhamos pretensão de
explicar em poucas linhas a complexidade da história das Tradições, podemos,
ainda que sumariamente, ao menos considerar alguns pontos relevantes sobre
mudança de paradigmas – no sentido mais amplo do termo. Por isso podemos
sugerir ao menos três contextos cristãos interessantes :
1) Estamos num contexto de celebração
dos quinhentos anos da Reforma Protestante. A historiografia Católica do século
XX consegue reconhecer que o monge agostiniano Lutero (1483-1546) não foi
simplesmente um herético e um cismático, parecendo ter causado uma revolução na
maneira medieval de compreensão do que poderia ser uma sociedade cristã e sobre
o monopólio do sagrado. Embora nem Lutero e nem a Igreja Católica da época
tenham sido exemplos de ecumenismo ou de diálogo inter-religioso no sentido
moderno do termo, a história mostrou que pessoas corajosas e mártires, de ambos
os lados, testemunharam que, para que uma Comunidade de fé possa
amadurecer, é preciso reformar-se começando por dentro, pelo íntimo.
A história pessoal de Lutero e dos reformadores é dramática o bastante para
prová-lo. Poder ler o nosso texto sagrado em nossa própria língua foi uma das
consequências desse drama pessoal de fé.
2) Pouco mais de cinquenta anos atrás,
aconteceu uma outra revolução cristã, por assim dizer, de que talvez poucos
cristãos conheçam a história : fazemos a memória de um senhor pouco
conhecido, o Papa João XXIII, falecido em 1963 e canonizado recentemente pelo
Papa Francisco. Foi eleito para o trono papal aos 77 anos como uma proposta de
transição. Para a surpresa de todos, inicia uma reforma interna na Igreja com
uma expressão leve e informal dizendo que ’era preciso abrir as janelas
e fazer o ar circular.’
Vale lembrar que há 1.700 anos atrás,
o Abade Pastor, um monge do deserto Egípcio, deixou o seguinte registro : ‘Se
você tiver um armário cheio de roupas e deixá-las lá por muito tempo, irão
apodrecer. Acontecerá o mesmo com os pensamentos em seu coração. Se não os
trouxermos para fora por meio de trabalho físico, após muito tempo eles
estragam e tornam-se ruins.’ (Thomas Merton, A Sabedoria do
Deserto, Martins Fontes Ed., 2004, p. 47)
Assim aconteceu o Concílio Vaticano II
(1962-65) e por causa disso, hoje podemos expressar o maior mistério de nossa
fé – a Missa, a Celebração Eucarística – em nossa própria língua, o que nos
permite compreender para crer melhor; podemos dialogar com o mundo moderno e
com as várias Tradições religiosas e culturais; reconhecer e acolher os mais
pobres, no sentido material e espiritual; voltar às fontes cristãs e descobrir
que podemos e devemos, sim, meditar nos moldes orientais, fundamentados nos
melhores mestres espirituais católicos, pois, de acordo com a mais recente
edição do Catecismo da Igreja Católica, ‘O
Homem é capaz de Deus’
(Catecismo da Igreja Católica n. 26 – Primeira Seção, Capítulo I).
3) Neste contexto propício, podemos
perceber uma outra revolução na esfera da expressão da fé, mais discreta,
silenciosa na prática, possibilitada pelo monge beneditino Inglês, Dom
John Main, mencionado anteriormente. Tendo aprendido a meditar por ocasião
de sua viagem à Malásia, a serviço da Coroa Britânica, foi orientado, pela
delicadeza de seu Mestre oriental, a fazer a prática da meditação usando
um ‘mantra’ que poderia ser tirado do texto sagrado da sua
própria tradição, a Bíblia judaico-cristã. Dom John Main tinha muito apreço
pela palavra sagrada ‘Maranäthä’ que se encontra no final do
Livro do Apocalipse (Ap. 22, 20).
Mais tarde, inspirado pela curiosidade
religiosa de um de seus alunos sobre a possibilidade de praticar a meditação
oriental no contexto cristão, teve como sistematizar a prática, encontrando na
história da própria Tradição Cristã, as Raízes teológico-espirituais para
o ensinamento seguro e eficaz da prática da Meditação a todos que sentem
necessidade de preencher essa lacuna na expressão de sua fé cristã.
Além da compreensão dos contextos, a
formação contínua proposta pela Escola da Meditação Cristã –
WCCM – bem como pelo GETM – Grupo de Estudos Thomas
Merton– consiste em estudar e tornar conhecidos os textos dos muitos
mestres espirituais da sabedoria mística cristã.
Por exemplo, poderíamos dizer, em
grandes linhas, que no contexto cristão, a ideia da prática da meditação, na
forma oriental tal como conhecemos hoje, começa a aparecer discreta e
oficialmente nos escritos do monge Trapista americano Thomas Merton,
falecido durante uma peregrinação ao Oriente em 1968. Num dos seus escritos (de
uma tradução Brasileira de 1962) ele diz :
‘A
meditação é mais do que pensar.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual
e Meditação, Vozes Ed., 1962, p. 64)
‘A
meditação é, na realidade, coisa simples e não há necessidade de
técnicas complicadas para nos ensinar como nos sairmos bem nessa tarefa. Mas
isso não significa que possa ser praticada sem uma constante disciplina
interior.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação,
Vozes Ed., 1962, p. 93)
‘Para
meditar, tenho que afastar meu pensamento de tudo que me impeça de
estar atento a Deus presente em meu coração. Ora, isso é impossível se
não recolho meus sentidos.’ (Thomas Merton, Direção
Espiritual e Meditação, Vozes Ed., 1962, p. 94)
‘A
Fé é o primeiro passo, porque é um tipo de conhecimento que adere, na
obscuridade, sem imagens nem representações, por meio de uma identificarão
amorosa ao Deus vivo.’ (Thomas Merton, Novas Sementes de
Contemplação, Fisus Ed., 1999, p. 134)
‘O
Filho Pródigo da parábola evangélica (Lc 15, 11ss) pode servir-nos de modelo :
depois de ter esbanjado seus bens em terras longínquas, morria de fome, sem
conseguir alimentar-se nem mesmo com os restos lançados ao porcos que cuidava.
Mas ‘entrando em si’,
meditou sobre sua condição. A
meditação foi curta. Disse de si para si : ‘Voltarei a casa de meu
Pai e lhe direi : ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti; não sou mais digno de
ser chamado teu filho. O senhor me receberia como um dos teus empregados?’’
(Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes Ed.,
1962, p. 96)
‘De modo geral, a melhor
posição para meditar é sentado, mas a alguém que deseja seriamente
meditar deve se permitir certa liberdade nessa matéria. Citamos
como prova desse fato um trecho de Richard Rolle, um simpático
místico Inglês do século XIV, no seu ‘Form of Perfect Living :
‘Tem me agradado muito estar
sentado; não por penitência ou fantasia, ou por desejo de que falem de mim
ou algo semelhante, mas só por saber que assim mais amava a Deus e por
mais tempo demorava em mim a consolação do amor, do que quando andava, ou
estava em pé, ou ajoelhado. Pois, sentado, estou em maior repouso e meu
coração mais se eleva. Todavia, pode acontecer a outro não estar bem quando
sentado (como a mim sucede – e pretendo continuar até a morte) a não ser que
esteja ele nas mesmas disposições de alma em que acho.’’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação, Vozes
Ed., 1962, p. 100).
‘A
meditação está contida quase inteiramente nesta única ideia : despertar
o nosso ser interior, sintonizando-nos intimamente com o Espírito
Santo, de maneira a correspondermos a Sua graça.’(Thomas Merton, Direção
Espiritual e Meditação, Vozes Ed., 1962, p. 125)
‘A
verdadeira finalidade da meditação cristã é praticamente a mesma da oração
litúrgica e a recepção dos sacramentos, isto é, uma união mais profunda,
pela graça e a caridade, com o Verbo da Vida, a pessoa
de Jesus Cristo.’ (Thomas Merton, Direção Espiritual e
Meditação, Vozes Ed., 1962, p. 123)’
O Pérólas Finas pede escusas pela demora em continuar com o comentário ao Documento de Igreja – Carta 70- que fora motivado antes pela necessidade de publicar assuntos relativos ao tempo litúrgico daquele momento, que reputamos preferenciais aos temas mais comuns e mais cotidianos.
Por isso agora nos ocupamos em dar continuidade ao tema qual já vínhamos nos ocupando.
Havíamos, no Capítulo IV, falado sobre a oração do Pai Nosso. Agora é momento de falarmos sobre modos não recomendáveis de se fazer oração.
A Carta 70, no Título III, se ocupa desse tema. Faz ela referência dois movimentos reconhecidos como não recomendáveis para a oração e meditação nos tempos contemporâneos, quais sejam: a pseudo gnose e ao messalianismo. Tais movimentos entendiam que o corpo era impeditivo, senão um obstáculo para a elevação da alma, além de mais outros senões.
E, de fato, era esse argumento disseminado e às vezes até seguidos por alguns padres do deserto, como é o caso do Monge asceta São Simeão (o estilita), que para atingir os graus da perfeição, mortificava seu corpo, imobilizado a uma coluna por fortes correntes, ficando, pois, exposto a vermes que lhe cobriam o corpo e, caiam ao chão, Simeão pedia ao seu servidor Antonio que os recolocassem no corpo e proferia a seguinte frase: “Comei o que Deus vos deu”). Com tal prática esperava estar mais próximo de Deus. E sua carne consumida cedia lugar somente ao espírito, em exercício de purificação. (Cf. Padres do Deserto, Homens Embriagados de Deus. – Jacque Lacarrière- Ed. Loyola pg. 186/186).
Os padres da igreja combateram tal rigor corporal, dando ênfase antes à necessidade de entrega do homem, pelo coração, a oração e a conversão dos costumes, como por ex. podemos citar São João Clímaco, autor ascético do Século VII, (que viveu como anacoreta no Monte Sinai), em Escada do Paraíso.
Não somente os Padres da Igreja, mas também os Doutores da Igreja, como por ex. Santo Agostinho apontam ao homem, como o caminho da perfeição, a conversão de costumes, ante a necessidade de observar, com rigor, as três virtudes teologais apontadas pelo Apóstolo Paulo em (1Cor. 13,13): a fé, a esperança e a caridade.
A Carta 70, realça o fato do corpo, como matéria, também haver sido criado por Deus, e, portanto, não pode ser mal. E de fato não o é. O corpo é abrigo da alma, E para trilhar com ela o caminho da santidade, como tal, depende primeiro, da graça de Deus; porque o homem não caminha às sós e nem é capacitado com seus dons aleatoriamente. Para termos ou ganharmos determinados dons dependemos da graça e dádiva divinas. E um dos dons que recebemos é o DOM DA ORAÇÃO. E não somente o dom da oração, mas da oração contínua e silenciosa, como pede a MEDITAÇÃO CRISTÃ, tema de nosso trabalho.
Então, a graça dos dons, a higidez de corpo, alma e de espírito não são experiências psicológicas. São perfeitas intervenção, infusão mesma, do Espírito Santo e imersão do cristão nos mistérios divinos. Os Padres da Igreja, em combatem a pseudognose, já assim afirmavam, que a união do homem orante com Deus se realiza no mistério, mas de forma especial, através dos sacramentos pela Igreja afirmados.
Portanto, a oração perfeita, boa para Deus e para o orante, não depende somente de quem se propõe a fazê-la. Antes deve mesmo o orante se abandonar na seara de Deus, como dizia Santa Teresa D Ávila, ir ao Senhor mesmo que seja apenas para cavocar os seus jardins com grande alegria e vontade.
Assim, a meditação cristã, como forma de oração que é, não deve desconsiderar a distância natural que há entre o homem com seu Criador, (guardadas as certezas de que Deus não é nem terrestre, nem limitado, nem apreensível através de conceitos, nem cognoscível, mas antes de tudo escapam a nós o seu mistérios); pode, o meditante cristão, através desse abandonar-se em Deus e ao silêncio, num constante clamor, (vinde Pai ou Maranatha), lhe ocorrer um encontro com Deus, numa experiência única de união espiritual, mas antes totalmente dependente da graça divina.
Por isso a Carta 70 rechaça os modelos imitativos da meditação cristã e os reconhecem como errôneos, pois estes afirmam que, pode apenas, através de uma atitude psicológica e puramente humana, se estabelecer uma experiência de Deus e o homem, se este se entregar a tal pratica, como remédio psicológico ou espiritual, e como processo rápido para encontrar Deus.
A Carta então afirma que essa tentativa de fusão da meditação cristã, nas comunidades eclesiais, com a não cristã, não é isenta de riscos e erros; isto porque umas, só buscam uma preparação psicofísica para uma contemplação cristã e outras, porque procuram produzir por técnicas diversas, experiências espirituais análogas àquelas que se mencionam nos escritos de certos místicos católicos; e outras que se afirmam numa figura do absoluto, como equivalentes à majestade Deus revelada em Cristo, o que não se coaduna com o magistério da Igreja, pois esta se afirma na crença das obras salvadora realizadas na história constante da Tradição cristã, assim como a firmeza na crença do nosso Salvador Jesus Cristo e da Santíssima Trindade, consolidada da nova e eterna aliança firmada por Ele em imolação na cruz.
A proposta da Carta 70 para uma harmonização entre a meditação cristã e as meditações análogas é de que, para uma boa coexistência, se examine bem os critérios e métodos dessas outras técnicas e, de forma cuidadosa e bem discernidas de seus conteúdos, possa se evitar cair a Igreja Católica no que denomina de um pernicioso sincretismo.
Portanto, não se trata aqui de se rejeitar esta ou aquela forma ou técnica de se meditar, orientada por quaisquer que sejam seu matiz, oriental ou ocidental. Trata-se, essencialmente, de informar o cristão ligado à Igreja Católica Apostólica Romana, de que esta possui sua maneira própria de meditar, fundada no Magistério da Igreja e da fé que professa e, portanto, segundo os critérios da sua Tradição e os fundamentos Apostólicos que prega, emergentes, estes, das Sagradas Escrituras, portanto tendo centro Cristológio.
Bebemos, também, das fontes doutrinais dos Padres do Deserto, dos Padres e Doutores da Igreja e, ainda, das vidas dos Santos e Mártires, que nos legaram inúmeros exemplos de entrega e persistência na vida de oração e no “sentire cum Eclésia”. E todos, colhendo benefícios inenarráveis, somente possíveis àqueles que seguiram e observaram,com grande esmero, o caminho de Cristo, de cujos exemplos a história é testemunha.
Apenas para não deixarmos o leitor sem exemplos, anotaremos alguns quJESUS e, a própria Carta 70 faz referência, mas que podem ser outros acrescentados, sem qualquer possibilidade de esgotá-los, ante o rol imenso que existe. Santo Antão, São Pacômio, São Macário, Santa Marana, Santa Cira, São Bento , Santo Agostinho, Santa Mônica, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena, Santa Faustina, S. João da Cruz dentre inúmeros outros.
Finalmente, e dando por encerrado o comentário a que nos propusemos, ressaltamos que a Carta 70 é documento da Igreja que trata da Meditação Cristã, mas faz uma abordagem profunda e teológica de outros aspectos eclesiais, aspectos estes que completam e se somam àqueles mais específicos da meditação e da vida do cristão.
Queremos agradecer as visitas à matéria, que certamente não se esgotará por aqui, dada a sua importância para a vida cristã e na necessidade daquele que pretende levar uma vida de oração, para se aperfeiçoar no caminho da conversão, tendo como primazia o Caminho de Jesus, para chegarmos ao Pai.
Dando continuação à nossa
proposta contida no preâmbulo do Capítulo I,vamos aqui dar mais alguns passos no mister de comentar a Carta 70.
Há,
no documento em exame uma pergunta que é feita pelos cristãos, hoje: se não seria possível, mediante nova
educação à oração, enriquecer nosso patrimônio, incorporando–lhe também
elementos que até agora eram estranhos?
Bem, a que elementos
estranhos estão os indagantes se referindo?
É de bom alvitre lembrar que o método da
oração cristã, como um todo sempre foi simples.E como a meditaçãoé forma de
oração, também é estruturada em elementos simples.
A teor da Carta 70 vemos que a
estruturada oração cristã tem seu
arquétipo fundadona fé cristã. Portanto esse é elemento essencial e
inarredável. É dela e através dela queo fiel extrairá o nexo fundamental, do
seurelacionamento intimo e pessoal com
Deus. O fiel se desnudará diante de seu
Criador e passa a lhe falar com sinceridade e amizade profundas.Efervesces-se na alma, depurando a verdade
necessária para a sua plena aproximação com a Trindade, que lhe dá substância
para comungar, como criatura redimida, das virtudes e atributos do
batismo.
Essediálogo intimo e profundo do fiel com Deus é silencioso, recôndito,isolado. Mas ao mesmo tempo é dinâmico, pois
exige um caminhar permanente, uma atitude de conversão.E essa conversão devesempre alimentada na mesa eucarística e nas
virtudes batismais.
Diz a Carta 70,que esse caminhar do homem na vida de oração
e, pois, no caminho da conversão, implica num êxodo do eu do homem para o Tu de
Deus.
Também afirma que a oração
cristã é sempre autenticamente pessoal, individual e, ao mesmo tempo
comunitária.
Nesse passo recusa o Documento
técnicas impessoais ou centradas sobre o eu, pois tais métodoslevam a automatismos que acabam por
aprisionar o meditante num espiritualismo intimista, que logo o incapacita para
umaabertura livre para o Deus
transcendente.
Admite que a Igreja possa buscar
novos métodos de meditação. Mas legitimados, sempre,no encontro de duas liberdades:ainfinitade Deuse a finitado
homem, como elemento essencial para uma oração autenticamente cristã.
Pois bem, aquestão inicial parece-nosainda
carecer de melhor análise, parauma
maior clareza de resposta.Lembrando que
a pergunta era:podemoseducar-nos para a oração e nos é lícito
lançar mãos de outros elementos que até agora nos era estranhos?
Se
estivermos falando de oração, que é gênero, da qual a meditação é uma espécie,
não podemos colocar elementos que sejam estranhos aos que, com abundância nos
trás os Evangelhos Sagrados.
Carta em análise nos dá o exemplo dos Salmos,
que antecedemtão antiga Fonte, o Antigo
Testamento, como forma de autênticaoração.Exemplifica também com o
Novo Testamento onde nos aponta o Cristo
como fonte permanente de revelação e de comunhão com o Pai.Dele emanam as mais belas orações que
conhecemos que tinham como elementos inarredáveis:a fé no Pai que o enviou. A obediênciaobstinada no cumprir do que lhe foi
revelado, uma certeza imensurável deque,pela oração, seria ouvido pelo Pai;e de que se entregando à cruz, nos remiria dos nossos pecados nos
livraria dos nossos pecados e nos restituiria a vida eterna.
Pois bem.As
mais belas orações (proferidas com palavras ou no mais profundo silêncio)foramdeixadas
por Jesus Cristo. E ele não só as proferiu, mas nos exortou praticá-las e
ensinou-nos a dizê-las.
Delas nos ocuparemos no capítulo III, próximo,rogando, sempre, amealhar do Espírito Santo,
a graça de podermos concretizar.