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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quando o cotidiano se torna lugar de Ressurreição

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘A Páscoa nasce de um sinal discreto, quase silencioso, mas profundamente eloquente. O túmulo não está simplesmente vazio, há ali um lençol ao chão. Um vestígio. Um rastro de presença. Um significante que diz, sem palavras, que Ele esteve ali, mas já não está mais. Não se trata de ausência, mas de uma presença que não pode mais ser contida nos limites da matéria, do tempo, do espaço. A ressurreição não deixa um vazio, deixa um traço, um recomeço.

Na liturgia da Sexta-feira Santa somos conduzidos por uma narrativa intensa, quase cinematográfica. A terra treme. O dia escurece. O véu do templo se rasga. A criação inteira parece reagir ao drama da cruz. Há quase que um excesso de sinais, uma densidade de acontecimentos que expressa a gravidade daquele momento. A morte de Jesus não passa despercebida. Ela sacode o mundo. Ela rompe estruturas. Ela desvela aquilo que estava oculto. É como se o cosmos inteiro participasse daquele instante-limite em que o amor é levado até o extremo. Entretanto, quando chegamos à ressurreição, algo muda radicalmente.

Os relatos que seguem à ressurreição se tornam sóbrios, contidos. Não há terremotos. Não há céu escurecendo. Não há véus se rasgando. Há um jardim. Há uma manhã. Há passos lentos e desanimados que ganham pressa e vigor ao passar da dor ao medo e do medo à esperança. Há uma mulher que procura um corpo. Há discípulos que correm. Há um pão que é partido. Há encontros na praia, na Galileia. A ressurreição não se impõe com estrondo. Ela se oferece no cotidiano.

Talvez porque a vida nova não se reconheça no extraordinário, mas na transformação do ordinário. Talvez porque Deus, ao ressuscitar Jesus, não quis apenas vencer a morte, mas habitar de outro modo a existência humana. Não mais a partir de sinais que se impõem de fora, mas de uma presença que nasce desde dentro, que se deixa perceber na experiência, no encontro, na partilha.

É nesse horizonte que o caminho de Emaús se torna chave de leitura para a Páscoa. Dois discípulos caminham, carregando a dor e a frustração. O Ressuscitado se aproxima sem ser reconhecido. Caminha com eles. Escuta. Fala. Explica. Permanece. Não há nada de extraordinário naquele caminho e é justamente ali que tudo acontece. O coração começa a arder. A esperança, quase apagada, reacende. No gesto simples de partir o pão, os olhos se abrem.

A ressurreição acontece, então, também como experiência daqueles que necessitavam ter a sua esperança devolvida e ressignificada pelo Mestre. Não como imposição de uma evidência externa, mas como transformação interior que reconfigura o modo de perceber a realidade. Os discípulos não voltam a ser os mesmos, não porque tenham visto um milagre espetacular, mas porque foram atravessados por uma presença que devolveu sentido à vida. O Ressuscitado não elimina a história deles, não apaga suas feridas, mas as habita com uma força nova.

O mesmo acontece com toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Aquele que foi crucificado então se faz presente de outro modo. Não mais restrito a um corpo localizado, mas presente na Palavra que ilumina, no pão que se reparte, na comunidade que se reúne, na vida que insiste em florescer. A ressurreição não retira os discípulos do mundo, ela os devolve ao mundo com outro olhar.

Por conta de tudo isso, a Páscoa não é uma fuga da realidade. É um mergulho mais profundo nela. Um reconhecimento de que o cotidiano, tantas vezes marcado pela repetição e pelo cansaço, pode se tornar lugar de encontro com o Ressuscitado. O jardim, a estrada, a mesa, é nesses espaços simples que Deus escolhe se revelar.

O lençol ao chão permanece como sinal. Ele nos recorda que algo aconteceu, que a morte não teve a última palavra, mas também nos impede de reduzir a ressurreição a uma prova material. O Ressuscitado não está ali para ser retido, analisado, controlado; Ele está vivo de um modo novo, que só pode ser reconhecido por quem se deixa tocar, por quem caminha, por quem escuta, por quem partilha.

A Páscoa, então, revela-se como uma passagem contínua, uma passagem do olhar que busca sinais grandiosos para o olhar que aprende a reconhecer Deus no cotidiano, uma passagem do desejo de controlar o mistério para a disposição de habitá-lo, uma passagem da lógica da evidência para a lógica do encontro.

Talvez seja esse o maior anúncio pascal: o Ressuscitado continua a caminhar conosco. Não com estrondo, mas com presença; não com imposição, mas com proximidade. É no tecido simples da vida, nas estradas que percorremos, nas mesas que partilhamos, nos encontros que nos atravessam que Ele se deixa reconhecer.

O túmulo ficou para trás. O lençol permanece como memória, mas a vida segue, agora habitada por uma presença que transforma tudo, desde dentro.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/quando-o-cotidiano-se-torna-lugar-de-ressurreicao.html

 

sábado, 19 de abril de 2025

Cristo, nossa Páscoa!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Leomar Antonio Brustolin,

Arcebispo Metropolitano de Santa Maria, RS


‘A palavra ‘Páscoa’ remonta ao ambiente semita, cujo significado é ‘passagem’. Povos antigos, de tradição agrícola, festejavam a passagem do inverno e a chegada da primavera. Na claridade da lua cheia, os pastores imolavam os primeiros cordeiros, acreditando que esse sacrifício asseguraria proteção contra as influências do mal. Comiam a carne numa refeição familiar que cultuava os laços de parentesco e da tribo.

O povo judeu deu um novo sentido a essa passagem. Na entrada da primavera celebravam a Páscoa fazendo memória do anjo que passou pelas portas das casas dos hebreus, marcadas pelo sangue dos cordeiros e que poupou da morte os primogênitos deles antes da travessia do mar Vermelho, quando foram libertados da escravidão egípcia. Essa festa é celebrada ainda hoje entre as famílias israelitas. O simbolismo das antigas culturas pastoris e agrícolas adquiriu um novo significado: as ervas amargas, que outrora eram consumidas na refeição noturna dos pastores, entre os judeus significam a lembrança do tempo difícil da escravidão. Os pães sem fermento evocam a miséria no Egito e a pressa com que os israelitas partiram, sem ter tempo de levedar a massa. É celebrada na primavera, pois no começo dessa estação Israel saiu do Egito. É uma festa noturna, porque o Êxodo se realizou em noite iluminada pela lua cheia (cf. Dt 16,1).

Nós, cristãos, assumimos essa festa como a passagem da paixão e da morte de Jesus Cristo para a sua ressurreição e vitória eterna. Em Jesus Cristo se revela o mistério pascal da cruz e da ressurreição. A passagem que Jesus oferece à humanidade é do vazio e do absurdo para a plenitude do sentido. O mistério pascal celebra a vitória do impossível e a possibilidade do impensável. Em Jesus Cristo, a humanidade recebe a salvação de Deus, o perdão dos pecados e a vida que não conhece mais o fim.

Celebrar a Páscoa é considerar a unidade inseparável entre cruz e ressurreição. O crucificado da Sexta-feira Santa é o vitorioso ressuscitado do Sábado Santo. Separar a cruz da ressurreição é esvaziar o sentido da Páscoa. Se celebrássemos apenas a morte de Jesus de Nazaré, perderíamos a novidade surpreendente de Deus, que é capaz de renovar todas as coisas e dar nova vida ao que já morreu. Se celebrássemos, no entanto, somente a ressurreição, esvaziaríamos o sentido das experiências de cada dia, marcadas por sombras e preocupações, angústias e tristezas e até sonhos e desejos de um mundo melhor. A Páscoa cristã celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo : rosto humano de Deus, rosto divino do ser humano.

A Páscoa nos ensina que o povo de Deus não pode deixar de sonhar, de desejar e esperar. Contra todo desespero e ilusão é necessário seguir criando e trabalhando por um mundo melhor. Apesar dos impérios da morte, da potência do vazio, do absurdo e das propostas que favorecem uma minoria mundial, o cristão não pode deixar de profetizar em favor da vida, da dignidade humana e da preservação do cosmos.

Pode parecer estranho, mas a única maneira de os cristãos mostrarem-se realistas é aspirar ao impossível. Caminha-se neste mundo rumo ao futuro de Deus, onde estarão unidos para sempre o Céu e a Terra. Tudo se dirige para a mesma meta: o Senhor que ressuscita e vem, o mundo que chegará à sua plena realização em Cristo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/cristo-nossa-pascoa.html

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

O sábado e o Domingo na visão de Ratzinger

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
"Já na época apostólica, o dia da Ressurreição se impôs por si mesmo como dia da Assembleia Cristã: era o ‘Dia do Senhor’(Apc 1,10), o dia no qual Ele (Jesus) entrava entre os seus e os seus iam ao seu encontro." 

*Artigo de Jackson Erpen 


‘No livro ‘Chi ci aiuta a vivere? Su Dio e l’uomo’ (‘Quem nos ajuda a viver? Sobre Deus e o homem’), Joseph Ratzinger escreve que aproximadamente no ano 110 d.C. Inácio, bispo de Antioquia, era levado de navio da Síria para Roma para ser devorado pelas feras. Durante esta viagem, com as mãos acorrentadas, escreveu sete cartas às comunidades cristãs que estavam ao longo do seu itinerário. Em uma destas cartas está a frase : «Nós não celebramos mais o sábado, mas vivemos observando o dia do Senhor (o domingo), no qual surgiu também a nossa vida...» (Magn. 9, 1).

Ou seja, os cristãos são formalmente descritos como pessoas que vivem de acordo com o domingo. A observância do domingo determina o seu ritmo de vida, caracteriza a sua íntima forma de vida. O domingo é para eles, por assim dizer, o lugar na trama do tempo onde se chega à própria vida, se experimenta o que a vida realmente significa.

Esta experiência de vida autêntica continua durante toda a semana. Permanece, por assim dizer, o tom fundamental que persiste no ruído da semana e cujo eco nos permite reencontrar sempre a saída, em direção à luz.

Depois de ‘Domingo, maior do que o Dia do Sábado Judaico’, Pe. Gerson Schmidt nos propõe a reflexão ‘O sábado e o Domingo na visão de Ratzinger’ :

‘Joseph Ratzinger, em seu livro Obras Completas (Volume XI), que aborda sobre a Teologia da Liturgia – O Fundamento Sacramental da Existência Cristã, descreve sobre o sábado e o domingo, tema que estamos aprofundando. Santo Inácio de Antioquia diz que ‘aquele que da vida nos antigos ordenamentos chegou à novidade, à esperança, não é mais um homem do sábado, mas vive segundo o Dia do Senhor’. Ratzinger diz que ‘o ritmo sabático e a vida segundo o Dia do Senhor se contrapõem, portanto, como dois estilos de vida fundamentalmente diferentes : de uma parte, o ser colocados estavelmente sobre determinados trilhos normativos; de outra, o viver com base no que há de vir, com base na esperança. O teólogo alemão, que se tornou Papa Bento XVI, faz uma pergunta : Como se desenvolveu concretamente da observância do sábado para a celebração do domingo?

E responde : ‘Podemos considerar, por certo, que, já na época apostólica, o dia da Ressurreição se impôs por si mesmo como dia da Assembleia Cristã : era o ‘Dia do Senhor’(Apc 1,10), o dia no qual Ele(Jesus) entrava entre os seus e os seus iam ao seu encontro. Assembleia em torno do Ressuscitado significa que Ele partia de novo o pão para os seus (cf. Lc 24,30.35). Era um encontro com o Cristo presente, um encaminhar-se em direção a sua vinda final e em tudo isso, ao mesmo tempo, estava a presença da Cruz como a sua verdadeira elevação, como o evento do seu amor que se distribui em dom. O Novo Testamento, como, também, os escritos mais antigos do século II, confirmam muito claramente : o Domingo é o dia do culto dos cristãos’. Ratzinger embasa esses dados em outro teólogo alemão Willy Rordorf, em sua obra ‘Sabbat e Sonntag in der Alten Kirche, ou seja, o ‘Sabbat (judaico) e o Domingo na Igreja Antiga’[1].

O grande teólogo Joseph Ratzinger diz que a Ressurreição conecta criação e restauração, início e fim e cita o Hino Cristológico de São Paulo na Carta aos Colossenses. Afirma assim : ‘Mas o nexo com a temática da criação, que para o Sábado é essencial, era implícito, mesmo de uma forma mudada, na data do primeiro Dia da semana, isto é, o dia no qual teve início a criação : a Ressurreição conecta início e fim, criação e restauração. No grande hino Cristológico da Epístola aos Colossenses, Cristo vem chamado, seja o primogênito da criação (cf. Cl 1,15), seja o primogênito dos mortos (cf. Cl1,18), pelo qual Deus quer reconciliar todos consigo. Aqui encontramos, precisamente, a síntese que estava veladamente presente na data do primeiro dia e que, em seguida, deveria determinar a teologia do Domingo Cristão para o futuro. Nesse sentido, todo o conteúdo teológico do Sábado, embora de modo renovado, podia passar na celebração cristã do Domingo. Antes, a passagem do Sábado para o Domingo reflete, precisamente, a continuidade e a novidade da realidade Cristã’.

Nos três primeiros séculos de perseguição na Igreja primitiva, os cristãos não tinham o direito público do domingo e tal celebração externa não podia ter lugar. Quando Constantino, a partir do século IV, transforma o Cristianismo em religião do Império, encontramos em diversas fontes a celebração dos dois dias.  Ratzinger menciona também as Constituições Apostólicas, aqui já referendadas, citando dois textos interessantes. Um texto diz : ‘Transcorreis o sábado e o Dia do Senhor na alegria festiva, porque o primeiro, é o memorial da criação, e o outro aquele da Ressurreição’. Nessas Constituições Apostólicas, um pouco mais adiante, se lê : ‘Eu, Paulo, e eu, Pedro, ordenamos : escravos devem trabalhar cinco dias, no sábado e no domingo devem ter tempo para instrução catequética na igreja. O sábado, de fato, tem o seu fundamento na criação, o Dia do Senhor na Ressurreição’.

A mesma orientação encontramos em São Gregório de Nissa quando diz que esses dois dias tornam-se irmãos. Sobre essa fraternidade dos dois dias, já falávamos que São João Paulo II, na Carta Apóstolica Dies Domini, disse que não faltaram, inclusive, setores da cristandade em que o sábado e o domingo foram observados como «dois dias irmãos»‘[2]. Gregório de Nissa até faz uma pergunta : ‘Com qual olho vês o Dia do Senhor, tu que não tiveste em honra o sábado? Ou não sabes que esses dois dias são irmãos?’[3].

Mas conclui Ratzinger, referendando Willy Rordorf, que o dia espiritual pode ser ‘colocado em um único dia, e naquele caso, o dia de Jesus Cristo, que é, ao mesmo tempo, o terceiro, o primeiro e o oitavo dia, expressão da novidade cristã, como também da síntese cristã, de todas as realidades, deve ter, necessariamente, a precedência’.’

Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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[1] RATZINGER, Joseph. Obras completas, Volume XI, Teologia da Liturgia – Fundamento Existencial da Vida Cristã, Edições CNBB, 2019, p. 229.
[2] JOÃO PAULO II, Dies Domini, 23.
[3] RATZINGER, Joseph. Obras completas, Volume XI, Teologia da Liturgia – Fundamento Existencial da Vida Cristã, Edições CNBB, 2019, p. 231, nota do rodapé.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2024-08/o-sabado-e-o-domingo-na-visao-de-ratzinger.html


sábado, 8 de abril de 2023

Meditação pascoal: deixe-se surpreender por Jesus Cristo Ressuscitado

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Didier Rance


‘Comemoramos os aniversários dos acontecimentos fundadores de nossas famílias (casamentos, nascimentos) e fazemos o mesmo com a fundação de nossa fé, a Ressurreição de Cristo, na Páscoa e inclusive todos os domingos, em todas as missas.

Assim, da mesma maneira que nós gostamos nesses aniversários de família folhear juntos um álbum de fotos (ver nele as lembranças de um casamento ou um nascimento), quando abrimos o Evangelho, encontramos o nosso Senhor Jesus Cristo no frescor da Páscoa junto com Maria Madalena, junto com Pedro, João e os discípulos de Emaús. Vamos caminhar com seus sentimentos e ser surpreendidos, como eles, pelo Cristo Ressuscitado.

Encontrar Jesus Cristo Ressuscitado com Maria Madalena

Maria Madalena vai chorar no túmulo de quem ela amava e quem, é claro, acreditava estar morto, depois de ser testemunha diante da cruz. São Gregório Magno viu na sua obstinação de ir em direção à Cristo, mesmo depois que ele estava morto, um modelo para todos. Mesmo quando nossa fé está no ‘escuro’ e Cristo está morto para nós, continuemos a nos aproximar a ele e amá-lo com todas as nossas forças.

Mas o túmulo está aberto e vazio! Maria não entende nada, ela acredita que alguém pegou o corpo de Cristo e levou ele para algum lugar. Ela dirá isso aos apóstolos e depois voltará ao túmulo, aos anjos e ao próprio Jesus Cristo, a quem ela se confundirá. Por que não reconhece quem continuou aos pés da cruz?

É fácil para nós conceber a idéia da Ressurreição de Cristo, pois a Igreja à proclama desde faz dois mil anos, mas vamos entender que para ela foi a primeira vez que ela tinha experiência com algo assim e era totalmente inimaginável. Os mortos não ressuscitam. É verdade que Lázaro voltou à vida, graças a Jesus, o único que podia fazê-lo, e agora Jesus está morto!

E é então o próprio Jesus que chama ela suavemente pelo seu nome : ‘Maria’. Nem tambores, nem trombetas, nem a chegada chocante surgindo sobre as nuvens, como o do Filho do homem anunciado por Daniel (7,13).

Quanta discrição nesta primeira aparição após a sua vitória sobre a morte! E é pela voz, o órgão da fé (‘A fé, portanto, nasce da pregação e a pregação é feita em virtude da Palavra de Cristo’, Romanos 10, 17), que Maria reconhece. Assim que Maria se vira, ou seja, ela se transforma (etimologicamente são a mesma palavra), ela grita seu amor : ‘Raboní!’ E Jesus responde : ‘Não me retenha, porque ainda não subi ao Pai’.

Ele a faz se desapegar de sua afeição pelo homem que ela conheceu antes da Paixão para aprender a conhecer o Senhor. E Jesus acrescenta : ‘Diga aos meus irmãos : ‘Vou para cima junto ao meu Pai, o Pai de vocês; meu Deus, o Deus de vocês'‘.

Jesus Cristo ressuscitado vem ao nosso encontro para confiar-nos uma missão : sermos suas testemunhas. A Ressurreição é o centro da História, mas não é o último ato, e, como Deus é seu autor, oferece-nos a possibilidade de proclamar o seu anúncio e o que isso significa para todos : a possível vitória sobre o mal e a morte, a esperança da vida e da bondade eternas.

Encontrar o Cristo Ressuscitado com São João e São Pedro

Corremos junto com João para o túmulo. Ele vê as telas e acredita. De fato, seus olhos só vêem as telas e uma mortalha, vazias, mas seu coração compreende : Cristo não está mais no túmulo, ele está vivo. Quanto a Pedro, o Evangelho de São João não especifica sua reação no túmulo nem seu caminho pessoal no reconhecimento da Ressurreição.

Mas, além do que São Lucas escreve, que Jesus Cristo lhe apareceu na Páscoa, temos algo melhor : seu próprio testemunho no Pentecostes (Hb 2: 14-36). Pedro foi o primeiro que descobriu, à luz do seu encontro com o Ressuscitado, aquilo que proclama nesse dia : o plano de Deus para a salvação dos homens através da História, culminando na ressurreição daquele que foi pregado na cruz .

Além disso, os Evangelhos da Ressurreição especificam a missão de Pedro (e, portanto, dos seus sucessores). Maria Madalena vai correndo até ele quando vê o túmulo vazio (Jo 20,1-2) e João, o discípulo amado, sai diante dele na entrada do túmulo (Jo 20,3-10): a Igreja do amor reconhece sua primazia. Mais tarde, nas margens do lago da Galiléia, Jesus Ressuscitado confirma e especifica sua missão como pastor e especifica seu papel para toda a Igreja : ‘Leva a pastar minhas ovelhas’ (Jo 21,15-19).

Encontrar o Cristo Ressuscitado com os discípulos de Emaús

Mais uma vez, é Jesus quem toma a iniciativa no caminho. Ele vai caminhar junto com dois homens tristes pelo drama do Calvário. Eles também não o reconhecem, embora o conhecessem bem antes de sua morte, como acontece frequentemente quando não o reconhecemos quando Ele caminha conosco ao nosso lado na vida. Esse trajeto até Emaús é importante para entender o papel da Palavra de Deus no encontro com Jesus.

O que Ele diz à eles durante o trajeto sobre Ele mesmo é muito diferente do que um jornalista diria quando ressurgisse extraordinariamente do mais profundo da morte. Dá à eles, a partir da Escritura, o significado do que Ele viveu. É a fé em Cristo Ressuscitado que abre a inteligência da Escritura para nós, e não o contrário, mas, em troca, entendemos melhor o que Sua Ressurreição significa para nós quando nos alimentamos da Palavra de Deus.

Quando chegaram em Emaús, Jesus se senta à mesa com os dois discípulos. E é então, quando ‘ele pegou o pão e pronunciou a bênção; depois ele quebrou o pão e deu à eles ‘(como o padre na missa), os quais compreendem e reconhecem quem é Ele. Desde então, a Eucaristia tem sido o lugar do nosso encontro sensível com Jesus. ‘Não temos, nem vemos outra coisa verdadeira e sensível neste mundo desse Altíssimo Senhor, exceto seu Corpo e Sangue’, dizia São Francisco de Assis.

E, como Maria Madalena, como João, os dois discípulos entendem que é através do amor que avançam em direção à Ele : ‘Não ardia nosso coração, por acaso, enquanto Ele nos falava durante o caminho e explicava as Escrituras para nós?’ Os peregrinos de Emaús sabiam – e nos convidam a fazer isso com eles – que esse caminho para a felicidade perfeita que eles percorreram com Jesus Cristo Ressuscitado e que correm para compartilhar com os Apóstolos é, de fato, Ele mesmo : ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida ‘(Jo 14,6).

Um caminho que serve para todos nós

Estes encontros de Páscoa podem ser procurados por cada um de nós através de outros testemunhos da Ressurreição : as mulheres santas, São Tomé, os Apóstolos. São como lampejos de uma realidade que sempre nos dominará e nos fará vislumbrar o que Cristo Ressuscitado espera de nós :

  • É sempre Ele quem toma a iniciativa e quem se manifesta livremente escolhendo quem Ele quer;
  • Ele quer ser reconhecido e mostra sinais para alcançá-lo, mas não força nada. Deixa seu interlocutor encontrar sua resposta em liberdade;
  • Esse encontro quebra de tal maneira todas as concepções sobre a vida e a morte que cada um deve passar por uma jornada de reconhecimento, medo, dúvida, alegria incrédula, choque, adoração (alguns não conseguem);
  • Cada um revela suas disposições internas e entendemos que a coisa decisiva para avançar em direção à Ele é o amor;
  • Depois de ser reconhecido, Jesus revela que ele não está mais morto, mas sim vivo (ele fala, anda, come), que continua sendo o mesmo, mas diferente, mestre das limitações deste mundo;
  • Jesus inscreve sua Ressurreição na história de Israel e nas Sagradas Escrituras e convida à lê-las e compreendê-las à luz do evento pascal;
  • Ele conduz do visível ao invisível, do contato físico aos sinais, da presença sensível aos sacramentos em que se entregará e, sobretudo, na Eucaristia;
  • Seus interlocutores entendem que Jesus é mais que o Messias : ‘Meu Senhor e meu Deus!’, exclama Tomé.

Todos esses encontros terminam com um envio de missão. Jesus confia a cada um a responsabilidade de contar esse encontro com Ele e de dar testemunho da boa nova da Salvação. Assim, Jesus forma o coração e o intelecto para dar testemunho dele, antes que o Espírito Santo dê forças para fazê-lo. Todas essas aparições de Cristo Ressuscitado refletem, portanto, um encontro pessoal com Ele. Cada um de nós é chamado a isso nos sacramentos, na oração e em toda a vida. Jesus é sempre nosso contemporâneo e nós também somos chamados por Ele a aceitar o mesmo desafio que as suas primeiras testemunhas.’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/cp1/2020/04/08/meditacao-pascoal-deixe-se-surpreender-por-jesus-cristo-ressuscitado/

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Sexta-feira Santa: como falar as crianças sobre a Cruz?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Edifa


‘`As vezes hesitamos em falar mal da cruz às crianças, por medo de impressioná-las e dar-lhes uma imagem triste da fé cristã. Em si, não há nada de agradável na cruz: é o instrumento de uma tortura particularmente cruel e pode-se compreender a revolta de quem olha para ela sem saber o que significa. Se Jesus fosse um dos torturados entre outros, se fosse apenas um homem condenado à morte injustamente, seria de fato uma demonstração de um masoquismo doentio colocar crucifixos nas paredes de nossas casas e igrejas. Mas Jesus não é um homem como os outros, e se ele sofreu a crucificação, não é porque ele não pôde evitar. Filho de Deus, e o próprio Deus, ele ofereceu sua vida por amor a nós. Ele poderia ter eliminado aqueles que o mataram, mas livremente escolheu não fazer isso, a fim de salvá-los, de nos salvar. Por isso é importante, principalmente na Sexta-Feira Santa, conversar sobre o assunto com as crianças.

Não se demore em detalhes macabros, mas anuncie o amor do Senhor

A cruz é impressionante, é verdade. Crianças muito sensíveis podem ser profundamente afetadas pelo realismo de certos crucifixos ou por imagens de Jesus coberto de sangue, exausto e cheio de dores. Sob o pretexto de explicar o quanto Jesus nos amou, não vamos usar este tipo de representações: as crianças correm o risco de ficar marcadas apenas pelo horror dos tormentos infligidos a Jesus e ficar aterrorizadas por isso. Além disso, é importante evitar que muitos pais e catequistas se sintam tentados a falar o mínimo possível sobre a Paixão e a crucificação aos pequenos, passando rapidamente na Sexta-Feira Santa para ir diretamente à alegria da Páscoa.

A cruz não é um aspecto acessório de nossa fé. É um mistério central. ’Nós, como nos lembra São Paulo, proclamamos um Messias crucificado’. (1 Cor 1, 23) Ou seja : anunciamos Jesus, que veio para nos revelar a infinita misericórdia de Deus. Falar da cruz não é demorar-se em detalhes macabros, mas é anunciar o amor do Senhor por cada um de nós : Ele, o Filho de Deus, o Todo-Poderoso, torna-se pobre e impotente entre as nossas mãos, para dar sua vida por amor. E a cruz é o sinal tangível desse amor.

Confie no Evangelho 

Para ajudar as crianças a entender esse mistério, não devemos nos confiar na descrição detalhada das torturas de Jesus, mas na Palavra de Deus! Não são as nossas palavras que os introduzirão no mistério da cruz, é o próprio Espírito Santo, por meio do que vamos dizer. O Senhor precisa de nós para se dar a conhecer aos nossos filhos, mas somos chamados, como São Paulo, a anunciar o Evangelho ‘sem recorrer à sabedoria da linguagem humana, que tornaria sem sentido a cruz de Cristo’ (1 Cor 1, 17). ’Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado’ (1 Cor 2, 1-2).

Comecemos pelo próprio texto do Evangelho. Por exemplo, todas as noites desta semana, na hora de orar em família, podemos reler uma passagem da Paixão. Os mais jovens não vão ouvir tudo, talvez, nem entender tudo (nem nós), mas a palavra de Deus vai passar por eles. O que se esconde dos sábios e dos eruditos se revela aos pequenos, não o esqueçamos. Podemos mostrar a eles um crucifixo, que homenagearemos na Sexta-Feira Santa, no nosso cantinho de oração, por exemplo. O importante é viver isso em um clima de paz, amor e contemplação, não só no momento da oração, mas ao longo de toda a Semana Santa.

A cruz não pode ser separada da ressurreição

Enquanto damos mais ênfase na na cruz na Sexta-feira santa e na ressurreição no domingo de Páscoa, esses dois eventos são inseparáveis um do outro. É por isso que é bom, especialmente para as crianças, para quem três dias é uma eternidade, terminar as Estações da Cruz ou a oração familiar da Sexta-Feira Santa, anunciando a Ressurreição e a festa da Páscoa.

Se ignorarmos a Paixão de Jesus, o que podemos dizer sobre a ressurreição? Corremos o risco de reduzi-la a uma renovação da vida, como a da primavera após o inverno. Ao querermos tornar as coisas acessíveis às crianças, podemos correr o risco de distorcê-las.’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/cp1/2021/04/01/sexta-feira-santa-como-falar-as-criancas-sobre-a-cruz/

domingo, 17 de abril de 2022

Crer na Ressureição

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Eder Vasconcelos e Roberto Camilo Órfão Morais


‘Qual o sentido em falar de Páscoa, ‘passagem’ para uma vida nova, em meio às tantas contradições e divisões? Como falar de esperança, até mesmo contra toda esperança, em meio à tanto medo e sofrimento?

Muitos insistem em vincular o Deus da vida a um projeto de ódio e discriminação. Mas a nossa esperança cristã tem um nome  : Jesus Cristo. E se fundamenta em um fato : sua ressurreição. Os cristãos devem dar sempre ‘razão da esperança’ no meio de uma sociedade desesperançada. O ‘princípio esperança’ dos discípulos missionários de Jesus tem seu fundamento na própria esperança iniciada por ele. Nosso Deus não é Deus dos mortos. É Deus dos vivos. A ressurreição de Jesus é a maior prova disso. É a maior prova do amor do Pai para com o Filho. 

Carlos Mendoza-Álvarez, teólogo dominicano escreve na introdução do seu livro A ressureição como antecipação messiânica : ‘Crer na ressurreição será, em suma, insurreição de vida nova, praticada com dignidade, resiliência e esperança pelas pessoas e comunidades sobreviventes de hoje’. Crer na ressurreição é crer na vitória da vida sobre a morte. Crer na ressureição é crer no Cristo que diz : ‘Eu sou a ressureição e a vida’. Crer na ressurreição é colocar a vida em relevo. A Igreja proclama, professa em seu Credo : ‘creio na ressurreição da carne e na vida eterna’. Nós cremos na ressurreição! Nós cremos na vida!

Para o teólogo Hans Urs von Balthasar, Jesus Cristo em sua missão e Ressureição, caminha em direção contraria àquela das doutrinas filosóficas gregas sobre a morte : ‘não se trata de se desapegar das coisas transitórias para buscar refúgio em um Eterno, mas, ao contrário de lançar as sementes da eternidade nos campos do mundo, deixando que o reino de Deus venha brotar nesses mesmos campos’. 

É interessante observar que as primeiras testemunhas da ressureição de Jesus foram as mulheres. Por razões óbvias, pois elas que cuidaram de Jesus durante a vida, souberam cuidar na morte. Essas mulheres, nos ensinam que quem permanece cuidando até o fim, são as primeiras testemunhas do mistério da ressurreição.  

O crer, o testemunhar à ressureição, está vinculado ao saber cuidar. A Páscoa é tempo de renovar esse valor ético, responsável por manter e recriar a própria vida. É tempo de revisitarmos a ética do cuidado se, desejamos continuar a existir neste Planeta chamado Terra.

A fé cristã, revela, ‘um Deus sensível ao coração’. Amar, sem medo, ensina os evangelhos, porque a morte não é a última palavra, mas nos integra e reúne, para toda a eternidade...

Todos os dias Jesus morre crucificado devido nosso egocentrismo e ressuscita no saber cuidar de homens e mulheres generosos e solidários. A ressureição de Jesus de Nazaré abre um futuro de vida plena, plena vida para toda a humanidade. Sua ressurreição é o fundamento e a garantia da nossa ressurreição. 

A fome, as guerras, os genocídios e os terrorismos já não tem a última palavra : A vida ressurge dos escombros da morte. Jesus, o Vivente está no meio, no coração da comunidade cristã e diz para cada um de nós : ‘Coragem!  Eu venci a morte.’’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1574668/2022/04/crer-na-ressureicao/

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A ressurreição do teu sofrimento

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da 'Salus in Caritate'


‘Às vezes pode parecer que não há ressurreição das nossas crucificações pessoais.

Ao entrarmos bravamente em uma vida com Cristo, o sofrimento, a dor e a humilhação são esperados. Aceitamos o desafio – embora nem sempre a princípio -, sabemos que essas estações da vida nos levarão a uma união mais próxima com o Coração de Nosso Senhor.

Mas então a estação pode se transformar em um estado perpétuo e se torna muito fácil aceitar o peso da nossa cruz como uma medida de quem somos. Passamos a acreditar que somos o nosso sofrimento, angústia, dúvidas, anseios, incertezas, medos.

Mas a vida de Jesus não terminou na cruz. Ele não nos convida para a morte, mas para a vida! Depois da cruz vêm a ressurreição. E a vida de um cristão é exatamente isso : de cruz em cruz, de conversão em conversão, de ressurreição em ressurreição.

Por isso celebramos a Paixão, Morte e Páscoa do Nosso Senhor Jesus, anualmente, pois a vivemos diariamente. Por esse motivo, meditamos os Mistérios do Nascimento, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus aos olhos da Santa Virgem no Santo Rosário, pois fazemos também parte da História Sagrada. Somos herdeiros do Pai e Co-herdeiros de Cristo.

Os salmos nos desafiam vez após vez a cantar uma nova canção! Nossa música é de alegria! Jesus sopra em nós alegria crônica, não tristeza! Sim, nosso Deus abraçou o sofrimento da cruz para que pudesse estar conosco e que sigamos unidos a Ele cada vez mais intimamente em nossa angústia humana.

Ele nos mostrou o poder e a imensidão de Seu grande amor através desse sofrimento. No entanto, muitas vezes ficamos neste lugar de tristeza; nós nos convencemos de que foi para isso que o Senhor nos chamou. Nosso Deus não descansou em mágoa. Nosso Deus transfigura a frustração e a raiva para amar e se deleitar.

Nós temos uma ideia muito errada sobre alegria e sofrimento. Acreditamos que alegria é euforia e que sofrimento é castigo. Não vemos que nossa situação humana nos condiciona a uma alegria na angústia, uma alegria que supera os medos, uma alegria firme, um alegria forte. Que pouco tem a ver com pulos e gritos.

É um estado interior daquele que sabe estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, com a pessoa certa. Mesmo que isso signifique estar em uma situação que aparentemente não mostra nenhum sinal de alegria.

Aceitamos o sofrimento, mas os nossos corações estão ardendo de alegria, quer saibamos disso ou não. Deus está esperando dentro de nossas almas para incendiar nossas vidas não com dor e tristeza perpétuas, mas com luz e vida!

Justificamos em demasia a nossa miséria, o que nos impede de ver que cada fibra do nosso ser anseia por liberdade. Deus espera um convite para nos libertar. Nos libertar da forma errada de vivermos as diversas situações da vida, nos libertar para nos unirmos a Ele com coração alegre mesmo em situações difíceis.

Todos os dias somos convidados a mudar o tom da música que entoamos, a cantar a alegria e o louvor ao nosso Senhor e Salvador, com nossas atitudes, gestos, sorriso e olhar. Nós sabemos que nunca nos foi prometido que a dor irá embora pra sempre ou que nosso sofrimento não retornará.

O que nos é prometido é que : no cotidiano, na glória de cada dia, podemos continuamente retornar à imensa alegria do nosso Criador :

Eis que estarei contigo todos os dias.

O sofrimento e a dor não são o nosso lugar, mas uma oportunidade de transfiguração e purificação, de conversão. Você foi feito para ALEGRIA que excede todo entendimento.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2018/06/04/a-ressurreicao-do-teu-sofrimento/

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Os que se foram ficam

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Johan Konings, SJ

‘‘Vita mutatur, non tollitur’ diz a liturgia das exéquias : ‘A vida é transformada, não tirada’. Neste tempo de muitas despedidas inesperadas, prematuras, às vezes chegando multiplicadas na mesma família, essas palavras devem ser mais do que um consolo barato. São Paulo as formulou de outra maneira : ‘Semeia-se um corpo material, ressuscita um corpo espiritual’ ... ‘nem todos morreremos, mas seremos todos transformados’... ‘os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados’ (1 Coríntios 15,44.51.52). 

A mesma coisa que nossa fé chama a ressurreição de Cristo acontece a todos os que de alguma forma, seja pela fé professa, seja pela caridade vivida, são semelhantes a ele. Não é uma realidade física, ainda que o credo fala em ‘ressurreição da carne’ – carne, corpo, corpo e alma são expressões que tem o sentido bíblico de pessoa humana individuada, identificada, mas não necessariamente física. Por isso Paulo falou em ‘corpo espiritual’. Mas é uma realidade. O espiritual não é menos real que o natural. Por isso, se acreditamos que o Ressuscitado está realmente presente, podemos acreditar também que os que nos deixaram ‘em Cristo’ (no sentido amplo que indiquei acima) estão realmente presentes. Mas de outro modo do que estávamos acostumados. Não tirados, mas transformados. 

O primeiro sinal dessa presença é a memória inapagável, o sentimento que cresce com o tempo se tiver como base uma experiência de amor, de retidão, de generosidade, de justiça. Ou mesmo, de busca talvez não bem concluída, mas que testemunha um desejo insaciável do mistério do amor infinito. Tudo isso não escapa à nossa percepção, mas há muito mais que não percebemos tão diretamente. É como se os amados estivessem presentes na ‘nuvem’, não no sentido de sumidos do mundo, mas como arquivos guardado na nuvem da internet, acessível em qualquer lugar, pelo menos, se tivermos a senha. E essa senha é a nossa fé. Ela abre o acesso aos que desde sua presença física entraram nessa presença duradoura. Duradoura, e mais rica que antes. Porque não mais exposta a quedas de força...

Mas achamos que o fisicamente ausente não está aí. Isso, porque não entendemos o que Jesus disse a Maria Madalena : ‘Não me toques’, ou ‘não me segures, eu ainda não subi...’ (João 20,17). O modo certo para que essa nova presença se torne real para nós é largar a presença terrena. E então se realiza o que João descreve como a memória trazida pelo Espírito e a habitação em e entre nós graças à guarda do mandamento do amor (João 14,23).

Uma amiga que perdeu o seu irmão na pandemia reclamou com Deus : ‘Eu pedi tanto e você não me ouviu!’ – ‘Como? Eu lhe ouvi! O que falta?’ – ‘Quero-o em casa’ – ‘Ele está em casa.’ – ‘Aqui na minha casa!’ – ‘Ah... você se expressou mal’... Depois a jovem me confiou : ‘Nunca falei tanto com ele quanto agora’. Isso é real.

Esta reflexão não é um tratado sobre a vida pós-morte, mas uma reflexão sobre o significado dessa vida para os que ficam. Só para dizer que essa percepção da presença é real, não ilusória. É importante crer que o não materialmente verificável ‘é’ e ‘tem sentido’. Sentido vital. Aliás, o que é materialmente verificável não se crê mas se constata.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1534636/2021/08/os-que-se-foram-ficam/

domingo, 4 de abril de 2021

Meditação pascoal: deixe-se surpreender por Jesus Cristo Ressuscitado

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Didier Rance,

diácono


‘Comemoramos os aniversários dos acontecimentos fundadores de nossas famílias (casamentos, nascimentos) e fazemos o mesmo com a fundação de nossa fé, a Ressurreição de Cristo, na Páscoa e inclusive todos os domingos, em todas as missas.

Assim, da mesma maneira que nós gostamos nesses aniversários de família folhear juntos um álbum de fotos (ver nele as lembranças de um casamento ou um nascimento), quando abrimos o Evangelho, encontramos o nosso Senhor Jesus Cristo no frescor da Páscoa junto com Maria Madalena, junto com Pedro, João e os discípulos de Emaús. Vamos caminhar com seus sentimentos e ser surpreendidos, como eles, pelo Cristo Ressuscitado.

Encontrar Jesus Cristo Ressuscitado com Maria Madalena

Maria Madalena vai chorar no túmulo de quem ela amava e quem, é claro, acreditava estar morto, depois de ser testemunha diante da cruz. São Gregório Magno viu na sua obstinação de ir em direção à Cristo, mesmo depois que ele estava morto, um modelo para todos. Mesmo quando nossa fé está no ‘escuro’ e Cristo está morto para nós, continuemos a nos aproximar a ele e amá-lo com todas as nossas forças.

Mas o túmulo está aberto e vazio! Maria não entende nada, ela acredita que alguém pegou o corpo de Cristo e levou ele para algum lugar. Ela dirá isso aos apóstolos e depois voltará ao túmulo, aos anjos e ao próprio Jesus Cristo, a quem ela se confundirá. Por que não reconhece quem continuou aos pés da cruz?

É fácil para nós conceber a idéia da Ressurreição de Cristo, pois a Igreja à proclama desde faz dois mil anos, mas vamos entender que para ela foi a primeira vez que ela tinha experiência com algo assim e era totalmente inimaginável. Os mortos não ressuscitam. É verdade que Lázaro voltou à vida, graças a Jesus, o único que podia fazê-lo, e agora Jesus está morto!

E é então o próprio Jesus que chama ela suavemente pelo seu nome : ‘Maria’. Nem tambores, nem trombetas, nem a chegada chocante surgindo sobre as nuvens, como o do Filho do homem anunciado por Daniel (7,13).

Quanta discrição nesta primeira aparição após a sua vitória sobre a morte! E é pela voz, o órgão da fé (‘A fé, portanto, nasce da pregação e a pregação é feita em virtude da Palavra de Cristo’, Romanos 10, 17), que Maria reconhece. Assim que Maria se vira, ou seja, ela se transforma (etimologicamente são a mesma palavra), ela grita seu amor : ‘Raboní!’ E Jesus responde : ‘Não me retenha, porque ainda não subi ao Pai’.

Ele a faz se desapegar de sua afeição pelo homem que ela conheceu antes da Paixão para aprender a conhecer o Senhor. E Jesus acrescenta : ‘Diga aos meus irmãos : ‘Vou para cima junto ao meu Pai, o Pai de vocês; meu Deus, o Deus de vocês’’.

Jesus Cristo ressuscitado vem ao nosso encontro para confiar-nos uma missão : sermos suas testemunhas. A Ressurreição é o centro da História, mas não é o último ato, e, como Deus é seu autor, oferece-nos a possibilidade de proclamar o seu anúncio e o que isso significa para todos : a possível vitória sobre o mal e a morte, a esperança da vida e da bondade eternas.

Encontrar o Cristo Ressuscitado com São João e São Pedro

Corremos junto com João para o túmulo. Ele vê as telas e acredita. De fato, seus olhos só vêem as telas e uma mortalha, vazias, mas seu coração compreende : Cristo não está mais no túmulo, ele está vivo. Quanto a Pedro, o Evangelho de São João não especifica sua reação no túmulo nem seu caminho pessoal no reconhecimento da Ressurreição.

Mas, além do que São Lucas escreve, que Jesus Cristo lhe apareceu na Páscoa, temos algo melhor : seu próprio testemunho no Pentecostes (Hb 2: 14-36). Pedro foi o primeiro que descobriu, à luz do seu encontro com o Ressuscitado, aquilo que proclama nesse dia : o plano de Deus para a salvação dos homens através da História, culminando na ressurreição daquele que foi pregado na cruz .

Além disso, os Evangelhos da Ressurreição especificam a missão de Pedro (e, portanto, dos seus sucessores). Maria Madalena vai correndo até ele quando vê o túmulo vazio (Jo 20,1-2) e João, o discípulo amado, sai diante dele na entrada do túmulo (Jo 20,3-10) : a Igreja do amor reconhece sua primazia. Mais tarde, nas margens do lago da Galiléia, Jesus Ressuscitado confirma e especifica sua missão como pastor e especifica seu papel para toda a Igreja : ‘Leva a pastar minhas ovelhas’ (Jo 21,15-19).

Encontrar o Cristo Ressuscitado com os discípulos de Emaús

Mais uma vez, é Jesus quem toma a iniciativa no caminho. Ele vai caminhar junto com dois homens tristes pelo drama do Calvário. Eles também não o reconhecem, embora o conhecessem bem antes de sua morte, como acontece frequentemente quando não o reconhecemos quando Ele caminha conosco ao nosso lado na vida. Esse trajeto até Emaús é importante para entender o papel da Palavra de Deus no encontro com Jesus.

O que Ele diz a eles durante o trajeto sobre Ele mesmo é muito diferente do que um jornalista diria quando ressurgisse extraordinariamente do mais profundo da morte. Dá a eles, a partir da Escritura, o significado do que Ele viveu. É a fé em Cristo Ressuscitado que abre a inteligência da Escritura para nós, e não o contrário, mas, em troca, entendemos melhor o que Sua Ressurreição significa para nós quando nos alimentamos da Palavra de Deus.

Quando chegaram em Emaús, Jesus se senta à mesa com os dois discípulos. E é então, quando ‘ele pegou o pão e pronunciou a bênção; depois ele quebrou o pão e deu a eles (como o padre na missa)', os quais compreendem e reconhecem quem é Ele. Desde então, a Eucaristia tem sido o lugar do nosso encontro sensível com Jesus. ‘Não temos, nem vemos outra coisa verdadeira e sensível neste mundo desse Altíssimo Senhor, exceto seu Corpo e Sangue’, dizia São Francisco de Assis.

E, como Maria Madalena, como João, os dois discípulos entendem que é através do amor que avançam em direção à Ele : ‘Não ardia nosso coração, por acaso, enquanto Ele nos falava durante o caminho e explicava as Escrituras para nós?’ Os peregrinos de Emaús sabiam – e nos convidam a fazer isso com eles – que esse caminho para a felicidade perfeita que eles percorreram com Jesus Cristo Ressuscitado e que correm para compartilhar com os Apóstolos é, de fato, Ele mesmo : ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’(Jo 14,6).

Um caminho que serve para todos nós

Estes encontros de Páscoa podem ser procurados por cada um de nós através de outros testemunhos da Ressurreição : as mulheres santas, São Tomé, os Apóstolos. São como lampejos de uma realidade que sempre nos dominará e nos fará vislumbrar o que Cristo Ressuscitado espera de nós :

  • É sempre Ele quem toma a iniciativa e quem se manifesta livremente escolhendo quem Ele quer;
  • Ele quer ser reconhecido e mostra sinais para alcançá-lo, mas não força nada. Deixa seu interlocutor encontrar sua resposta em Liberdade;
  • Esse encontro quebra de tal maneira todas as concepções sobre a vida e a morte que cada um deve passar por uma jornada de reconhecimento, medo, dúvida, alegria incrédula, choque, adoração (alguns não conseguem);
  • Cada um revela suas disposições internas e entendemos que a coisa decisiva para avançar em direção à Ele é o amor;
  • Depois de ser reconhecido, Jesus revela que ele não está mais morto, mas sim vivo (ele fala, anda, come), que continua sendo o mesmo, mas diferente, mestre das limitações deste mundo;
  • Jesus inscreve sua Ressurreição na história de Israel e nas Sagradas Escrituras e convida a lê-las e compreendê-las à luz do evento pascal;
  • Ele conduz do visível ao invisível, do contato físico aos sinais, da presença sensível aos sacramentos em que se entregará e, sobretudo, na Eucaristia;
  • Seus interlocutores entendem que Jesus é mais que o Messias : ‘Meu Senhor e meu Deus!’, exclama Tomé.

Todos esses encontros terminam com um envio de missão. Jesus confia a cada um a responsabilidade de contar esse encontro com Ele e de dar testemunho da boa nova da Salvação. Assim, Jesus forma o coração e o intelecto para dar testemunho dele, antes que o Espírito Santo dê forças para fazê-lo. Todas essas aparições de Cristo Ressuscitado refletem, portanto, um encontro pessoal com Ele. Cada um de nós é chamado a isso nos sacramentos, na oração e em toda a vida. Jesus é sempre nosso contemporâneo e nós também somos chamados por Ele a aceitar o mesmo desafio que as suas primeiras testemunhas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/cp1/2020/04/08/meditacao-pascoal-deixe-se-surpreender-por-jesus-cristo-ressuscitado/