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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quando o cotidiano se torna lugar de Ressurreição

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘A Páscoa nasce de um sinal discreto, quase silencioso, mas profundamente eloquente. O túmulo não está simplesmente vazio, há ali um lençol ao chão. Um vestígio. Um rastro de presença. Um significante que diz, sem palavras, que Ele esteve ali, mas já não está mais. Não se trata de ausência, mas de uma presença que não pode mais ser contida nos limites da matéria, do tempo, do espaço. A ressurreição não deixa um vazio, deixa um traço, um recomeço.

Na liturgia da Sexta-feira Santa somos conduzidos por uma narrativa intensa, quase cinematográfica. A terra treme. O dia escurece. O véu do templo se rasga. A criação inteira parece reagir ao drama da cruz. Há quase que um excesso de sinais, uma densidade de acontecimentos que expressa a gravidade daquele momento. A morte de Jesus não passa despercebida. Ela sacode o mundo. Ela rompe estruturas. Ela desvela aquilo que estava oculto. É como se o cosmos inteiro participasse daquele instante-limite em que o amor é levado até o extremo. Entretanto, quando chegamos à ressurreição, algo muda radicalmente.

Os relatos que seguem à ressurreição se tornam sóbrios, contidos. Não há terremotos. Não há céu escurecendo. Não há véus se rasgando. Há um jardim. Há uma manhã. Há passos lentos e desanimados que ganham pressa e vigor ao passar da dor ao medo e do medo à esperança. Há uma mulher que procura um corpo. Há discípulos que correm. Há um pão que é partido. Há encontros na praia, na Galileia. A ressurreição não se impõe com estrondo. Ela se oferece no cotidiano.

Talvez porque a vida nova não se reconheça no extraordinário, mas na transformação do ordinário. Talvez porque Deus, ao ressuscitar Jesus, não quis apenas vencer a morte, mas habitar de outro modo a existência humana. Não mais a partir de sinais que se impõem de fora, mas de uma presença que nasce desde dentro, que se deixa perceber na experiência, no encontro, na partilha.

É nesse horizonte que o caminho de Emaús se torna chave de leitura para a Páscoa. Dois discípulos caminham, carregando a dor e a frustração. O Ressuscitado se aproxima sem ser reconhecido. Caminha com eles. Escuta. Fala. Explica. Permanece. Não há nada de extraordinário naquele caminho e é justamente ali que tudo acontece. O coração começa a arder. A esperança, quase apagada, reacende. No gesto simples de partir o pão, os olhos se abrem.

A ressurreição acontece, então, também como experiência daqueles que necessitavam ter a sua esperança devolvida e ressignificada pelo Mestre. Não como imposição de uma evidência externa, mas como transformação interior que reconfigura o modo de perceber a realidade. Os discípulos não voltam a ser os mesmos, não porque tenham visto um milagre espetacular, mas porque foram atravessados por uma presença que devolveu sentido à vida. O Ressuscitado não elimina a história deles, não apaga suas feridas, mas as habita com uma força nova.

O mesmo acontece com toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Aquele que foi crucificado então se faz presente de outro modo. Não mais restrito a um corpo localizado, mas presente na Palavra que ilumina, no pão que se reparte, na comunidade que se reúne, na vida que insiste em florescer. A ressurreição não retira os discípulos do mundo, ela os devolve ao mundo com outro olhar.

Por conta de tudo isso, a Páscoa não é uma fuga da realidade. É um mergulho mais profundo nela. Um reconhecimento de que o cotidiano, tantas vezes marcado pela repetição e pelo cansaço, pode se tornar lugar de encontro com o Ressuscitado. O jardim, a estrada, a mesa, é nesses espaços simples que Deus escolhe se revelar.

O lençol ao chão permanece como sinal. Ele nos recorda que algo aconteceu, que a morte não teve a última palavra, mas também nos impede de reduzir a ressurreição a uma prova material. O Ressuscitado não está ali para ser retido, analisado, controlado; Ele está vivo de um modo novo, que só pode ser reconhecido por quem se deixa tocar, por quem caminha, por quem escuta, por quem partilha.

A Páscoa, então, revela-se como uma passagem contínua, uma passagem do olhar que busca sinais grandiosos para o olhar que aprende a reconhecer Deus no cotidiano, uma passagem do desejo de controlar o mistério para a disposição de habitá-lo, uma passagem da lógica da evidência para a lógica do encontro.

Talvez seja esse o maior anúncio pascal: o Ressuscitado continua a caminhar conosco. Não com estrondo, mas com presença; não com imposição, mas com proximidade. É no tecido simples da vida, nas estradas que percorremos, nas mesas que partilhamos, nos encontros que nos atravessam que Ele se deixa reconhecer.

O túmulo ficou para trás. O lençol permanece como memória, mas a vida segue, agora habitada por uma presença que transforma tudo, desde dentro.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/quando-o-cotidiano-se-torna-lugar-de-ressurreicao.html

 

sábado, 4 de abril de 2026

A Páscoa do Senhor em São João por Santo Agostinho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘A Igreja celebra a Páscoa do Senhor como o ponto central da vida de Jesus em vista da salvação humana. É o mistério do amor, da doação do Senhor por nós e pela humanidade. Para voltar ao Pai era necessário que o Filho do Homem, Filho de Deus passasse pela paixão, morte e ressurreição. Jesus tinha consciência desta passagem fundamental sem a qual não teria a redenção humana. Nos próximos dias celebraremos os mistérios que proporcionaram vida em abundância, pois teremos presentes o amor de Deus a nós e a toda a humanidade; ‘Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único’ (Jo 3,16). A seguir nós teremos a visão de Páscoa em Santo Agostinho, a partir do evangelista São João, o discípulo amado do Senhor.

A Páscoa tem significado de passagem

Santo Agostinho teve presente o capitulo 13 de São João onde se diz que ‘Jesus antes da festa da Páscoa, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim’ (cfr. Jo 13, 1). Para ele entra aqui os significados de Páscoa, que se de um lado vem do grego páschein, padecer [1], de outro lado a Páscoa tem o significado na sua verdadeira língua, a hebraica, a qual diz respeito à passagem, uma vez que o povo de Deus celebrou a Páscoa no momento em que as pessoas fugiam do Egito ao passar pelo Mar Vermelho (cf. Ex 14,29). O tempo completou-se onde Jesus seria conduzido como ovelha ao matadouro, para o único sacrifício e perfeito (cf. Is 53,7). Qual seria a passagem que Jesus iria realizar? A passagem dele foi deste mundo ao Pai [2], de modo que Ele passou pelo sofrimento, pela cruz para chegar à glória da ressurreição. A Páscoa possui o significado da passagem do Senhor deste mundo para a vida divina.

Ele teve um amor grande, até o fim

O amor do Senhor não teve limites para com os seus e para o gênero humano, indo até o fim. O Bispo de Hipona afirmou que o fim do qual o evangelista afirmou, trata-se daquele que leva à plenitude, não de um fim que aniquila, perece, mas do fim de um amor sem limites [3]. É um amor segundo as palavras evangélicas que podem ser tomadas também num sentido humano, segundo o qual se diz que Jesus amou os seus até o fim pois os amou até a morte [4]. É evidente que o amor de Jesus não se esgota pela morte; Ele sempre nos amou e nos ama até o fim para significar um amor que não mediu palavras e ações [5].

O Pai pusera tudo nas mãos  de Jesus

O Evangelista São João afirmou que o Pai pusera tudo nas mãos de seu Filho, Jesus, que o diabo pusera no coração de Judas o propósito de entregá-lo, que Ele viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela e começou a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (cf. Jo 13,2-5) [6]. Jesus não fez este gesto maravilhoso no fim, mas durante a ceia, pois Ele tornou a sentar-se à mesa, significando a necessidade do serviço como doação de si mesmo, para o próximo e para Deus.

O projeto de entregar Jesus

São João afirmou que Judas queria entregar Jesus às autoridades tendo presente o diabo que pusera isso no coração dele para entregar Jesus [7]. Segundo Santo Agostinho esta ação de pôr era uma sugestão espiritual, não do ouvido, era pelo pensamento, não era do corpo, mas era do espírito. Santo Agostinho levantou a pergunta como é possível que as diabólicas sugestões se introduzam e se misturem com os pensamentos humanos? A resposta vem quando o consentimento que presta a mente humana a cada uma das sugestões por mérito humano o fará se tiver sido abandonada pelo auxílio divino, ou por obra da graça. Já tinha sido posto no coração de Judas, por ação diabólica, que o discípulo entregasse o Mestre que ele não aprendera tratar-se de Deus. Na verdade Judas foi ao banquete como espião do Pastor, segundo o bispo de Hipona, como quem espreita o Salvador, e vende o Redentor. Viera nesta condição, e pensava que fosse ignorado, pois não pode enganar Aquele a quem pretendia enganar. No entanto Jesus percebeu o pensamento e a ação de Judas que iam se realizar contra o Senhor [8].

O gesto humilde do Senhor

Como foi dito, Jesus levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela. Colocou em seguida água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com quem estava cingido (cf. Jo 13, 5). O evangelista quis enaltecer seja a humildade de Jesus servidor das pessoas e da humanidade, como também enaltecer a sua excelsitude [9]. Tendo presente que o Pai pôs tudo em suas mãos, Ele não lavou as mãos dos discípulos, mas sim os seus pés. Ele exerceu o serviço de quem era escravo [10], demonstrando o amor pelo serviço essencial que aconteça na vida da comunidade.

A atitude de Jesus foi aquela de uma grande humildade, no sentido de que Deus era, é o Encarnado, assumindo todas as coisas referentes à humanidade na maior simplicidade da vida. Ele lavou também os pés de Judas, aquele que deveria trair a Jesus, demonstrando um grande grau de humildade, cujas mãos Ele antevia já comprometidas com o crime [11].

Jesus estava próximo de sua paixão, morte e ressurreição. Com o gesto do lava-pés ensinou aos seus discípulos e a todos nós, a importância do serviço, da vivência da humildade, fazendo perecer para sempre a vaidade, o orgulho das pessoas, de suas autoridades, para enaltecer a caridade e o amor entre as pessoas, com Deus [12]. A Páscoa é passagem do mistério da encarnação, paixão, morte, ao mistério da glória da ressurreição e a sua entrada à direita do Pai.’

 [1] Cfr. Homilia 55,1. O amor até o fim.  In: Santo Agostinho. Comentários a São João II. Evangelho – Homilias 50-124. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 73.

[2] Cfr. Idem, pg. 74.

[3] Cfr. Ibidem, n. 2, pg. 75.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem, pgs. 75-76.

[6] Cfr. Ibidem, n. 03, pg. 76.

[7] Cfr. Ibidem, n. 04, pg. 76.

[8] Cfr Ibidem, pg. 77.

[9] Cfr. Ibidem, n. 6. Pg. 78.

[10] Cfr. Ibidem.

[11] Cfr. Ibidem.

[12] Cfr. Ibidem, n. 7, pg. 79.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/pascoa-senhor-sao-joao-santo-agostinho.html

 

sábado, 19 de abril de 2025

Cristo, nossa Páscoa!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Leomar Antonio Brustolin,

Arcebispo Metropolitano de Santa Maria, RS


‘A palavra ‘Páscoa’ remonta ao ambiente semita, cujo significado é ‘passagem’. Povos antigos, de tradição agrícola, festejavam a passagem do inverno e a chegada da primavera. Na claridade da lua cheia, os pastores imolavam os primeiros cordeiros, acreditando que esse sacrifício asseguraria proteção contra as influências do mal. Comiam a carne numa refeição familiar que cultuava os laços de parentesco e da tribo.

O povo judeu deu um novo sentido a essa passagem. Na entrada da primavera celebravam a Páscoa fazendo memória do anjo que passou pelas portas das casas dos hebreus, marcadas pelo sangue dos cordeiros e que poupou da morte os primogênitos deles antes da travessia do mar Vermelho, quando foram libertados da escravidão egípcia. Essa festa é celebrada ainda hoje entre as famílias israelitas. O simbolismo das antigas culturas pastoris e agrícolas adquiriu um novo significado: as ervas amargas, que outrora eram consumidas na refeição noturna dos pastores, entre os judeus significam a lembrança do tempo difícil da escravidão. Os pães sem fermento evocam a miséria no Egito e a pressa com que os israelitas partiram, sem ter tempo de levedar a massa. É celebrada na primavera, pois no começo dessa estação Israel saiu do Egito. É uma festa noturna, porque o Êxodo se realizou em noite iluminada pela lua cheia (cf. Dt 16,1).

Nós, cristãos, assumimos essa festa como a passagem da paixão e da morte de Jesus Cristo para a sua ressurreição e vitória eterna. Em Jesus Cristo se revela o mistério pascal da cruz e da ressurreição. A passagem que Jesus oferece à humanidade é do vazio e do absurdo para a plenitude do sentido. O mistério pascal celebra a vitória do impossível e a possibilidade do impensável. Em Jesus Cristo, a humanidade recebe a salvação de Deus, o perdão dos pecados e a vida que não conhece mais o fim.

Celebrar a Páscoa é considerar a unidade inseparável entre cruz e ressurreição. O crucificado da Sexta-feira Santa é o vitorioso ressuscitado do Sábado Santo. Separar a cruz da ressurreição é esvaziar o sentido da Páscoa. Se celebrássemos apenas a morte de Jesus de Nazaré, perderíamos a novidade surpreendente de Deus, que é capaz de renovar todas as coisas e dar nova vida ao que já morreu. Se celebrássemos, no entanto, somente a ressurreição, esvaziaríamos o sentido das experiências de cada dia, marcadas por sombras e preocupações, angústias e tristezas e até sonhos e desejos de um mundo melhor. A Páscoa cristã celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo : rosto humano de Deus, rosto divino do ser humano.

A Páscoa nos ensina que o povo de Deus não pode deixar de sonhar, de desejar e esperar. Contra todo desespero e ilusão é necessário seguir criando e trabalhando por um mundo melhor. Apesar dos impérios da morte, da potência do vazio, do absurdo e das propostas que favorecem uma minoria mundial, o cristão não pode deixar de profetizar em favor da vida, da dignidade humana e da preservação do cosmos.

Pode parecer estranho, mas a única maneira de os cristãos mostrarem-se realistas é aspirar ao impossível. Caminha-se neste mundo rumo ao futuro de Deus, onde estarão unidos para sempre o Céu e a Terra. Tudo se dirige para a mesma meta: o Senhor que ressuscita e vem, o mundo que chegará à sua plena realização em Cristo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/cristo-nossa-pascoa.html

domingo, 31 de março de 2024

Ser testemunha do Ressuscitado

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Rosa Maria Dilelli Cruvinel


A notícia da Páscoa sempre é impulso a uma postura evangelizadora ativa e urgente. Jesus foi crucificado, morto e sepultado e Deus o ressuscitou como havia prometido a nossos pais (cf. At 13,32-33). Jesus deixou à Igreja o mandato de pregar e dar testemunho de tudo o que lhe aconteceu (cf. At 10,39-42). 

O Senhor é quem confia aos seus a missão do anúncio da sua ressurreição. Ele aparece primeiro a Maria Madalena e a envia a anunciar a alegre mensagem da Páscoa : ‘Vai a meus irmãos e dize-lhes : ‘Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’. Então, Maria foi imediatamente anunciar aos discípulos : ‘Vi o Senhor! E ouvi o que Ele me disse’’ (Jo 20,17-18). Maria Madalena tornou-se, assim, a primeira testemunha da ressurreição do Senhor. 

Em nossa época, na qual a Igreja é convocada a levar a alegria do Evangelho por meio de uma nova evangelização e a espalhar a grandeza do mistério da misericórdia divina, o testemunho de Santa Maria Madalena é um sinal de esperança de salvação aos pecadores, pois essa mulher, da qual Jesus expulsou sete demônios (cf. Lc 8,2), dá o testemunho de muito amor a Cristo e foi por Ele também muito amada. Ela foi ‘chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da misericórdia divina’ e por São Tomás de Aquino ‘apóstola dos apóstolos’’, declarou o Cardeal Robert Sarah (Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 2016). 

A Páscoa é tempo para que cada cristão dê um testemunho autêntico de amor ao Ressuscitado, assim como fez Maria Madalena. Ser testemunha fiel de Cristo é a principal postura de todo verdadeiro evangelizador, pois o testemunho coerente é condição essencial para uma evangelização eficaz. Para evangelizar os homens de hoje, faz-se necessário que sejam impactados a partir do encontro pessoal com Jesus ressuscitado. O mundo precisa de ‘evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja familiar’ (Exortação Apostólica Evangelii Nutiandi, 76). 

Urgem em todo o orbe terrestre testemunhas da fé que foram profundamente transformadas em seus corações, cuja experiência transborda em santidade de vida e comunica às estruturas humanas a santificação operada por Cristo por meio do Espírito Divino (cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 36). 

Não tema! Tenha consigo o Espírito Santo, protagonista de toda missão evangelizadora. É hora de anunciar com fervor o imenso amor de Deus presente no mistério pascal. Alegre-se! O Senhor o(a) chama pelo seu nome a testemunhar com renovado ardor que Ele está vivo! Feliz Páscoa!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/ser-testemunha-do-ressuscitado.html

sábado, 30 de março de 2024

A Páscoa e o valor da vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Luis Eugênio Sanábio e Souza


Um ilustre teólogo da Igreja primitiva assim pôde dizer : ‘Fiducia christianorum resurrectio mortuorum; illam credentes, sumus’ = ‘A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos’ (Tertuliano, teólogo nascido em 155). Jesus Cristo pôde dizer : ‘Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente’ (João 11,25-26). Assim, a Igreja Católica ensina que a ressurreição de Cristo (e o próprio Cristo ressuscitado) é princípio e fonte de nossa ressurreição futura. Ressuscitaremos como Cristo, com Cristo e por Cristo.

Mas o que é ressuscitar? ‘Na morte, que é separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, ao passo que sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida a seu corpo glorificado. Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da ressurreição de Jesus’ (Catecismo da Igreja Católica n° 997). Mas quem ressuscitará?  Todos os homens que morreram. A Igreja explica que ‘os que tiverem feito o bem sairão para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento (João 5,29)’ (Catecismo da Igreja Católica n° 998).

Apoiando-se nas afirmações da Sagrada Escritura, a Igreja ensina que, quando tiver terminado o único curso de nossa vida terrestre, não voltaremos mais a outras vidas terrestres. De fato, a Bíblia nos diz que ‘os homens devem morrer uma só vez’ (Hebreus 9,27). Por isso a Igreja sempre declarou que ‘reincarnatio post mortem non habetur’ = ‘não existe reencarnação depois da morte’ (Catecismo da Igreja Católica n° 1013). Segundo a fé católica, cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num juízo particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação (purgatório), seja para entrar de imediato na felicidade do céu (comunhão eterna com Deus), seja para condenar-se de imediato para sempre (inferno).

A verdade da divindade de Jesus Cristo é confirmada por sua ressurreição. Sendo verdadeiro Deus, Jesus Cristo é ‘autor da vida’ (Atos dos Apóstolos 3,15).

Infelizmente nos nossos dias a vida humana é frequentemente e gravemente desrespeitada. Em alguns países, algumas autoridades ousam em propor legalizar um suposto direito de praticar o aborto. Na realidade, ‘a decisão deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má do ponto de vista moral e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como meio para um fim bom’ (Papa João Paulo II: Encíclica Evangelium vitae n° 57). A Igreja, que está do lado da vida, reafirma que ‘o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis’ (Concílio Vaticano II: GS, 51).

Que a mensagem da Páscoa possa conservar em nós aquele desejável amor à vida humana que se fundamenta naquele que é ‘o caminho, a verdade e a vida’ (João 14,6).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-03/pascoa-valor-vida.html

sexta-feira, 29 de março de 2024

Crucificado, morto e sepultado

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Cristo na cruz (El Greco) 

*Artigo do Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer,

Arcebispo Metropolitano de São Paulo, SP


A celebração da Semana Santa e da Páscoa nos confronta com uma parte essencial da profissão de fé cristã, que diz respeito a Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador da humanidade. Refiro-me, em particular, ao ‘Credo’ mais curto, conhecido como símbolo apostólico. Essa fórmula da nossa fé, mais resumida, foi definida bem cedo na Igreja e reflete a pregação apostólica.

A parte que diz respeito a Deus Pai é breve : ‘Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra’. Provavelmente, essa afirmação de fé era a mais tranquila e não oferecia muita dificuldade na pregação e na acolhida da fé. A parte referente a Jesus Cristo, em vez disso, representa mais da metade da fórmula da fé da comunidade cristã. Provavelmente, por causa das contradições e heresias que já surgiam por toda parte, era necessário explicitar bem mais o conteúdo da fé referente a Jesus Cristo.

‘Creio em seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria’. A pregação apostólica a respeito de Jesus, como Filho único, ou ‘unigênito de Deus’, representava um problema para muitos. Como entender que Deus tem um ‘Filho unigênito’? Não havia como explicar, senão pela palavra do próprio Jesus e dos apóstolos. São João, no prólogo do seu Evangelho, identifica Jesus como o ‘Verbo’, ou Palavra eterna de Deus, que ‘se fez carne’, em quem contemplamos ‘a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade’ (Jo 1,14). E afirmando que ‘ninguém jamais viu a Deus’, destaca : ‘O Unigênito de Deus, que está no seio do Pai, foi quem o revelou’ (Jo 1,18).

A expressão identifica Jesus como Filho de Deus e também como verdadeiro homem. Na conversa com Nicodemos, Jesus afirma : ‘Deus amou tanto o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito’ (Jo 3,16). Mais difíceis pareciam as partes seguintes da profissão da fé apostólica, quando se afirma que o Filho Unigênito, eterno Deus com o Pai, ‘nasceu da Virgem Maria e se fez homem’. Essa afirmação do nosso Credo refere-se ao mistério mais admirável da nossa fé cristã, que também ofereceu sempre dificuldades. A maior parte dos desvios da fé e das heresias diz respeito, justamente, a essa afirmação : Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem (humano). Sempre houve quem afirmasse apenas uma parte : Jesus, somente como Filho de Deus, considerando a sua humanidade apenas como aparente; ou, então, Jesus apenas como homem, sendo a sua divindade apenas uma afirmação simbólica ou um mito. No entanto, a Igreja dos primeiros séculos do Cristianismo enfrentou essas dificuldades na sua pregação e em Concílios ecumênicos importantes. E manteve-se fiel à pregação de Jesus e dos apóstolos, mesmo quando a afirmação sobre Jesus, ‘verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem’, possa parecer uma contradição humanamente impossível.

A parte mais difícil do Credo apostólico refere-se à sua Paixão, Morte e Ressurreição : ‘Padeceu sob Pôncio Pilatos, morreu e foi sepultado’. Como foi que Pilatos entrou no Credo cristão? Ele foi um governante fraco que, mesmo sabendo ser Jesus inocente, o condenou à morte para ficar ‘de bem’ com a multidão, que pedia a morte de Jesus. Nossa fé não é em Pilatos, mas em Jesus, historicamente, socialmente e humanamente situado, ‘verdadeiro homem’, e não um mito criado pela fantasia dos discípulos. As afirmações seguintes, breves e lapidares, são igualmente densas de sentido e retratam respostas a vários problemas postos à pregação da fé cristã. ‘Foi crucificado, morto e sepultado’. O Filho de Deus morreu e, ainda mais, numa cruz? Foi até mesmo sepultado? Parecia demais para os religiosos do tempo e também para os pagãos e os filósofos. Mas era isso mesmo que os apóstolos pregavam. São Paulo, aos gregos de Corinto, escreve sem meias palavras : ‘Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos’ (1Cor 1,21).

Havia quem espalhasse que Jesus não chegou a morrer na cruz, mas apenas perdeu os sentidos, que recuperou depois de ser posto no túmulo. Tratava-se de uma maneira de diminuir o ‘escândalo’ de um Filho de Deus crucificado e morto; e também para explicar a sua Ressurreição, como o ‘acordar de um desmaio’. Mas os apóstolos não cederam nem um pouco no seu testemunho sobre a morte de cruz daquele que reconheceram como verdadeiramente homem/ humano e Deus/divino. E, contra toda negação ou tentativa de racionalizar esse ‘mistério da fé’, a Igreja manteve-se fiel à pregação apostólica. Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem.

Há quem pergunte : para onde foi o Filho de Deus, na sua divindade, após a sua morte, segundo a sua humanidade? ‘Desceu à mansão dos mortos’. A Igreja parte do pressuposto segundo o qual Ele veio ao mundo para oferecer a misericórdia e a salvação de Deus a todos; mesmo aos que já haviam morrido antes de sua vinda ao mundo e que estavam ‘na mansão dos mortos’. O Salvador, morto na cruz e sepultado como os demais humanos, foi levar a Boa Nova da misericórdia, do perdão e da vida de Deus aos que esperavam por Ele, desde Adão até o último dos falecidos.

Quanta coisa sublime e profunda faz parte do patrimônio da fé da Igreja, do qual fazemos parte! Para ler e aprofundar a catequese sobre o Credo, é só tomar em mãos o Catecismo da Igreja Católica, no capítulo III, que trata de nossa fé em Jesus Cristo. No Sábado Santo, durante a Vigília Pascal, nós faremos a renovação da nossa profissão de fé, junto com os que serão batizados e com toda a Igreja.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-03/crucificado-morto-sepultado.html

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Teologia e Espiritualidade da Quaresma

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB) 

Para bem compreender o sentido espiritual e teológico da Quaresma é sempre necessário partir do grande mistério pascal

*Artigo publicado pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia


Com efeito, a Quaresma é o início da celebração do ‘Grande Sacramento Pascal’. Foi o Papa Leão Magno quem o indicou sugestivamente como Magnum Paschale Sacramentum, ele que foi definido como o grande doutor do Mistério Pascal. Por seu significado e eficácia espiritual, a Santa Páscoa é a solenidade que ultrapassa todas as outras do ano litúrgico. Seu objetivo, de fato, não diz respeito apenas a um aspecto ou momento limitado do grande plano da salvação divina, mas o abrange em sua plenitude. Por isso, na grande vigília do Sábado Santo, a liturgia escolheu, entre as páginas da Bíblia, as leituras que recordam e celebram : a criação do mundo; a eleição e as promessas a Abraão; a criação do povo de Israel; as profecias; os ritos do sacerdócio judaico. Esses elementos e fatos constituíram a preparação remota e imediata do grande acontecimento da nossa salvação, que se deu com : a encarnação, o nascimento, a paixão, a morte e a ressurreição do Filho de Deus, Jesus Cristo.

 A preparação para a Páscoa

A Páscoa expressa a plenitude de toda a ação salvífica. É por isso que a cada ano se realiza uma renovação que santifica e purifica a Igreja mais do que todas as outras celebrações do ano cristão. Por isso, a Páscoa exige uma preparação espiritual e ascética especial, maior do que a que se dedica a qualquer outra festa ou solenidade. Por sua vez, a celebração espiritual da Quaresma visa preparar, nos fiéis e em toda a comunidade eclesial, a atitude que lhes permita celebrar e receber, em toda a sua plenitude, a graça do sacramento pascal (Paschale sacramentum).

Além do Papa Leão Magno, também Santo Agostinho, em seu comentário ao Salmo 148, contempla em termos muito profundos o mistério da Páscoa e a preparação espiritual para ela (Quaresma). A Quaresma descreve a história da nossa vocação cristã em duas fases. A primeira fase diz respeito sobretudo ao presente, isto é, à nossa vida terrena, sujeita a todas as dificuldades, tentações e tribulações. A segunda fase diz respeito sobretudo a nossa vida futura que passaremos na eternidade, na casa do Pai, em seu reino de glória e felicidade que nunca terá fim. A Igreja, na sua fé, estabeleceu dois tempos para poder celebrar a Páscoa, um antes e um depois.

O tempo que antecede a Páscoa é a Quaresma, que representa o caminho de nossa vida terrena, com suas sombras cotidianas, os riscos, os perigos, as adversidades, os esforços, os fracassos e os sacrifícios. É um tempo de conversão, arrependimento, luta contra o mal e esperança do bem maior. Nele pedimos o perdão por meio de esmolajejum e oração. O tempo após a Páscoa nos presenteia com o que agora possuímos apenas em parte e na fé, mas que viveremos plenamente no final das provações e tribulações da vida presente.

Então, iremos bendizer e glorificar para sempre, com louvor, agradecimento, exultação e aleluia o Senhor Vitorioso e Ressuscitado. A paixão e a morte de Cristo representam nossa vida presente. Sua gloriosa e luminosa Ressurreição representa aquela vida que já possuímos parcialmente e que será para sempre plenitude de bem-aventurança, luz, paz e glória divina.

Quaresma é o ‘sinal sacramental’ da conversão contínua a que todo cristão é chamado para que alcance o ‘estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude’ (Ef 4,13).

Uma vez convertidos, devemos nos converter novamente. A conversão se expressa desde o início com uma fé total e radical que não coloca limites nem obstáculos ao dom de Deus. Ao mesmo tempo, porém, determina um processo dinâmico e permanente que dura toda a vida, exigindo uma passagem contínua da vida segundo a carne e da vida segundo o Espírito.

Devemos estar cientes da precariedade da vida nova em nós, sempre necessitada de uma ajuda especial de Deus. Esta humilde consciência constitui o fundamento permanente do nosso caminho : o primeiro passo é a humildade; o segundo passo ainda é humildade; o terceiro permanece a humildade; e quanto mais que você peça, darei sempre a mesma resposta : a humildade. Devemos ainda nos considerar longe da meta e progredir em direção a ela. ‘Enfim, irmãos, alegrai-vos, procurai a perfeição, encorajai-vos, tende um mesmo pensar, viver em paz’ (2Cor 13,11). A caridade quer crescer. Quem renuncia deliberadamente ao progresso não tem caridade; ainda é escravo do pecado. O progresso consiste então em tentar evitar todo o pecado e em fazer o bem com motivações cada vez mais puras.

Na antiga Quaresma, a Igreja vivia e acompanhava dois caminhos paralelos :

  • O caminho de iniciação para os catecúmenos, com suas etapas de escrutínios, exorcismos, entrega do Credo e do Pai Nosso. Tinha como meta litúrgica a noite pascal, com a celebração dos três sacramentos da iniciação cristã : BATISMO, CONFIRMAÇÃO, EUCARISTIA. Com a reforma litúrgica, desejada pelo Vaticano II, todos nós revivemos este caminho, no ano litúrgico A, com os trechos do Evangelho que apresentam os relatos da Samaritana, do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro;
  • O caminho de conversão para os penitentes, que tinha início na quarta-feira ‘capite quadrigesimae’, com a imposição das cinzas e do cilício, tinha como meta litúrgica a Quinta-feira Santa, com o rito da RECONCILIAÇÃO presidido pelo Bispo. Em algumas comunidades se fazia o ‘lava-pés’, segundo a leitura de Jo 13,10 : ‘Quem tomou banho (batismo), não precisa lavar senão os pés (reconciliação), pois está limpo’. Revivemos este caminho liturgicamente no ano C, com as passagens do Evangelho do Filho Pródigo e da mulher adúltera.

Depois, há o caminho da Cruz, que diz respeito a todos os discípulos e tem como mata litúrgica a Sexta-Feira Santa. É explorado por nós no ano litúrgico B com os símbolos da serpente de bronze e do grão de trigo que morre.

No caminho quaresmal dos CATECÚMENOS e dos PENITENTES (anos A e C), está envolvida toda a IGREJA, mãe que gera ou regenera seus filhos ‘não sem dor’ (ano B).

 As leituras da Quaresma

Três itinerários podem ser vislumbrados :

  • uma Quaresma batismal (ano A);
  • uma Quaresma Cristocêntrica (ano B);
  • uma Quaresma penitencial (ano C).

O ciclo A (aquele com o caráter batismal mais forte) pode ser seguido todos os anos de acordo com as necessidades pastorais de cada comunidade.

Obras quaresmais :

  • Oração, para uma adequada relação com DEUS.
  • Esmola, para uma justa relação com o PRÓXIMO.
  • Jejum, para uma correta relação COSIGO MESMO. Jejuamos para dar esmolas e assim tornar a oração aceitável e eficaz.

A experiência em outras tradições

O Islã adquiriu uma realidade semelhante à nossa Quaresma : é o mês de RAMADAN, com jejum diurno, como um rito coletivo da comunidade muçulmana. Neste mês, as orações são duplicadas. Lembrando que só o Senhor é o Provedor, participamos da fome e da sede dos pobres.

O Judaísmo conhece um período particular de purificação : são os 10 dias que vão do Ano Novo Judaico ao Dia da Expiação (Kippur).

Simbolismo Bíblico da Quaresma

40 dias (que na verdade são 46, dos quais 6 domingos são retirados como pascoas semanais) de dilúvio (Gn 7,4); de Moisés no Sinai, após o pecado do Povo, (Ex 34,28); de Elias no deserto (1 Reis 19,8); de Jonas em Nínive, (Gn 3,4); de Jesus no deserto das tentações, (Mt 4,1-11). Este período refere-se aos 40 anos do Êxodo, no DESERTO.

‘A Igreja se une, a cada ano, durante os quarenta dias da grande Quaresma, ao mistério de Jesus no deserto’ (CIC 540).

Por isso, o cristão é chamado a participar da escolha fundamental de Jesus. Com as promessas batismais, se compromete a rejeitar as mesmas tentações de bem-estar, sucesso e do poder (cf. Mt 4,1-11). A Igreja o recorda todos os anos com a celebração da Quaresma. É um caminho de essencialidade, em que a adesão a Deus nasce das opções de sacrifício.

A Quaresma deve ser para o cristão o que foi para o seu Senhor : um DESERTO em que ressoa a PALAVRA que purifica e motiva a ascese, que nos ilumina e nos abre à mística.

O Espírito Santo, que conduziu Jesus ao deserto (Lc 4,1), guia a Igreja neste período litúrgico, para que todos os seus filhos, com a Páscoa de Cristo, celebrem também o seu renascimento e a sua plena assimilação ao Ressuscitado.

Esta ação purificadora do Espírito é sinergia que supõe nosso envolvimento ativo na ASCESE, em todos os seus vários aspectos de :

  • abnegação, que é renúncia aos nossos egoísmos;
  • mortificação, como nossa participação na morte de Cristo, fazendo morrer em nós o que pertence ao velho;
  • jejum de tudo o que é supérfluo e nos condiciona;
  • silêncio interior e exterior, para dar lugar à Palavra;
  • humildade, que é a verdade do nosso ser : somos feitos de barro (húmus).

Colaborando assim com o Espírito Santo, criaremos em nós aquele DESERTO em que Deus poderá falar aos nossos corações (Os 2,16-25), para educar-nos ao Absoluto, despojando-nos dos nossos ídolos (Dt 32,10-12).

Assim, o ‘deserto’ de lugar de tentação se tornará o lugar de nosso compromisso com Deus (Jr 2, 2). Se quisermos, nossa cidade também pode ser o ‘deserto’ onde Deus nos encontra (Deus habita na cidade). ‘Magna civitas, magna solitudo’ já dizia Bacon.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https ://faculdadejesuita.edu.br/teologia-e-espiritualidade-da-quaresma/

terça-feira, 11 de abril de 2023

O que é a Oitava de Páscoa e qual é a sua importância?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Felipe Aquino,

professor


‘Após o domingo de Páscoa, a Igreja vive o Tempo Pascal; são sete semanas em que celebra a presença de Jesus Cristo Ressuscitado entre os Apóstolos, dando-lhes as suas últimas instruções (At1,2). Quarenta dias depois da Ressurreição Jesus teve a sua Ascensão ao Céu, e ao final dos 49 dias enviou o Espírito Santo sobre a Igreja reunida no Cenáculo com a Virgem Maria. É o coroamento da Páscoa. O Espírito Santo dado à Igreja é o grande dom do Cristo glorioso.

Tempo Pascal

O Tempo Pascal compreende esses cinquenta dias (em grego = ‘pentecostes’), vividos e celebrados ‘como um só dia’. Dizem as Normas Universais do Ano Litúrgico que : ‘os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição até o domingo de Pentecostes devem ser celebrados com alegria e júbilo, ‘como se fosse um único dia festivo’, como um grande domingo’ (n. 22).

É importante não perder o caráter unitário dessas sete semanas. A primeira semana é a ‘oitava da Páscoa’. Ela termina com o domingo da oitava, chamado ‘in albis’, porque nesse dia os recém batizados tiravam as vestes brancas recebidas no dia do Batismo.

Esse é o Tempo litúrgico mais forte de todo o ano. É a Páscoa (passagem) de Cristo da morte à vida, a sua existência definitiva e gloriosa. É a Páscoa também da Igreja, seu Corpo. No dia de Pentecostes a Igreja é introduzida na ‘vida nova’ do Reino de Deus. Daí para frente o Espírito Santo guiará e assistirá a Igreja em sua missão de salvar o mundo, até que o Senhor volte no Último Dia, a Parusia. Com a vinda do Espírito Santo à Igreja, entramos ‘nos últimos tempos’ e a salvação está definitivamente decretada; é irreversível; as forças o inferno vencidas pelo Cristo na cruz, não são mais capazes de barrar o avanço do Reino de Deus, até que o Senhor volte na Parusia.

Prolongar a alegria da Ressurreição

A Igreja logo nos primórdios começou a celebrar as sete semanas do Tempo Pascal, para ‘prolongar a alegria da Ressurreição’ até a grande festa de Pentecostes. É um tempo de prolongada alegria espiritual. Esse tempo deve ser vivido na expectativa da vinda do Espírito Santo; deve ser o tempo de um longo Cenáculo de oração confiante.

Nestes cinquenta dias de Tempo Pascal, e, de modo especial na Oitava da Páscoa, o Círio Pascal é aceso em todas as celebrações, até o domingo de Pentecostes. Ele simboliza o Cristo ressuscitado no meio da Igreja. Ele deve nos lembrar que todo medo deve ser banido porque o Senhor ressuscitado caminha conosco, mesmo no vale da morte (Sl 22). É tempo de renovar a confiança no Senhor, colocar em suas mãos a nossa vida e o nosso destino, como diz o salmista : ‘Confia os teus cuidados ao Senhor e Ele certamente agirá’ (Salmo 35,6).

Domingos de Páscoa

Os vários domingos do Tempo Pascal não se chamam, por exemplo, ‘terceiro domingo depois da Páscoa’, mas ‘III domingo de Páscoa’. As leituras da Palavra de Deus dos oito domingos deste Tempo na Santa Missa estão voltados para a Ressurreição. A primeira leitura é sempre dos Atos dos Apóstolos, as ações da Igreja primitiva, que no meio de perseguições anunciou o Senhor ressuscitado e o seu Reino, com destemor e alegria.

Portanto, este é um tempo de grande alegria espiritual, onde devemos viver intensamente na presença do Cristo ressuscitado que transborda sobre nós os méritos da Redenção. É um tempo especial de graças, onde a alma mais facilmente bebe nas fontes divinas. É o tempo de vencer os pecados, superar os vícios, renovar a fé e assumir com Cristo a missão de todo batizado : levar o mundo para Deus, através de Cristo. É tempo de anunciar o Cristo ressuscitado e dizer ao mundo que somente nele há salvação.

Então, a Igreja deseja que nos oito dias de Páscoa (Oitava de Páscoa) vivamos o mesmo espírito do domingo da Ressurreição, colhendo as mesmas graças. Assim, a Igreja prolonga a Páscoa, com a intenção de que ‘o tempo especial de graças’ que significa a Páscoa, se estenda por oito dias, e o povo de Deus possa beber mais copiosamente, e por mais tempo, as graças de Deus neste tempo favorável, onde o céu beija a terra e derrama sobre elas suas Bênçãos copiosas.

Bênçãos da Páscoa

Mas, só podem se beneficiar dessas graças abundantes e especiais, aqueles que têm sede, que conhecem, que acreditam, e que pedem. É uma lei de Deus, quem não pede não recebe. E só recebe quem pede com fé, esperança, confiança e humildade.

As mesmas graças e bênçãos da Páscoa se estendem até o final da Oitava. Não deixe passar esse tempo de graças em vão! Viva oito dias de Páscoa e colha todas as suas bênçãos. Não tenha pressa! Reclamamos tanto de nossas misérias, mas desprezamos tanto os salutares remédios que Deus coloca à nossa disposição tão frequentemente.

Muitas vezes somos miseráveis sentados em cima de grandes tesouros, pois perdemos a chave que podia abri-lo. É a chave da fé, que tão maternalmente a Igreja coloca todos os anos em nossas mãos. Aproveitemos esse tempo de graça para renovar nossa vida espiritual e crescer em santidade.

O Círio Pascal

O Círio Pascal estará acesso por quarenta dias nos lembrando isso. A grande vela acesa simboliza o Senhor Ressuscitado. É o símbolo mais destacado do Tempo Pascal. A palavra ‘círio’ vem do latim ‘cereus’, de cera. O produto das abelhas. O círio mais importante é o que é aceso na vigília Pascal como símbolo de Cristo – Luz, e que fica sobre uma elegante coluna ou candelabro enfeitado.

O Círio Pascal é já desde os primeiros séculos um dos símbolos mais expressivos da vigília, por isso ele traz uma inscrição em forma de cruz, acompanhada da data do ano e das letras Alfa e Ômega, a primeira e a última do alfabeto grego, para indicar que a Páscoa do Senhor Jesus, princípio e fim do tempo e da eternidade, nos alcança com força sempre nova no ano concreto em que vivemos. O Círio Pascal tem em sua cera incrustado cinco cravos de incenso simbolizando as cinco chagas santas e gloriosas do Senhor da Cruz.

O Círio Pascal ficará aceso em todas as celebrações durante as sete semanas do Tempo Pascal, ao lado do ambão da Palavra, até a tarde do domingo de Pentecostes. Uma vez concluído o tempo Pascal, convém que o Círio seja dignamente conservado no batistério. O Círio Pascal também é usado durante os batismos e as exéquias, quer dizer no princípio e o término da vida temporal, para simbolizar que um cristão participa da luz de Cristo ao longo de todo seu caminho terreno, como garantia de sua incorporação definitiva à Luz da vida eterna.

Sacramental

No Vaticano, a cera do Círio Pascal do ano anterior é usada para a confecção do ‘Agnus Dei’ (Cordeiro de Deus), que muitos católicos usam no pescoço; é um sacramental valioso para nos proteger dos perigos desta vida, pois é feito do Círio que representa o próprio Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele é confeccionado de cera branca onde se imprime a figura de um cordeiro, símbolo do Cordeiro Imolado para reparar os pecados do mundo.

Esses ‘Agnus Dei’ são mergulhados pelo Papa em água misturada com bálsamo e o óleo Sagrado Crisma. O Sumo Pontífice eleva profundas orações a Deus implorando para os fiéis que os usarem com fé, as seguintes graças : expulsar as tentações, aumentar a piedade, afastar a tibieza, os perigos de veneno e de morte súbita, livrar das insidias, preservar dos raios, tempestades, dos perigos das ondas e do fogo – impedir que qualquer força inimiga nos prejudique – ajudar as mães no nascimento das crianças.’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/04/17/a-importancia-da-oitava-de-pascoa/