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segunda-feira, 29 de julho de 2024

Inácio de Loyola : de cavaleiro a peregrino

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de João Melo,

professor


De cavaleiro destemido a humilde peregrino. A jornada de Inácio é um testemunho poderoso de conversão e dedicação à fé. No dia 31 de julho, celebramos a festa de Santo Inácio de Loyola, um homem cuja vida foi marcada por uma notável transformação espiritual.

Depois que se recuperou de um ferimento de batalha, Inácio iniciou uma peregrinação que o levou a um encontro com Nossa Senhora de Montserrat em um mosteiro. Durante sua peregrinação de Loyola até Montserrat, ele refletia sobre as grandes obras que desejava realizar por amor a Deus.

O que muita gente não sabe é que a imagem de Nossa Senhora de Montserrat é carinhosamente chamada de La Moreneta, em português A Moreninha. Ela recebe esse nome devido à cor negra da imagem, resultante da fumaça das velas, caso parecido com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, que também é negra. 

Mulheres negras são quase 28% da população brasileira, o maior grupo populacional do país, porém, mulheres e meninas negras são as pessoas que mais vivem em vulnerabilidade social; especialmente as moradoras de periferias, morros e favelas, enfrentam barreiras significativas no acesso a todos os tipos de direitos e serviços púbicos, inclusive aos meios adequados para questões de saúde. Por isso, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns alerta que em nossos tempos é preciso cuidar para que decisões de governo precipitadas não deixem de considerar adequadamente os direitos das mulheres e não as criminalizem em casos em que tenham sofrido alguma violência, especialmente aquelas mulheres em situação de vulnerabilidade. 

Nossa Senhora de Montserrat tem uma história milagrosa. Segundo antigos escritos sua imagem foi encontrada por uns pobres pastorinhos em 880, em uma distante caverna na montanha de Montserrat, após seguirem uma luz misteriosa. Quando tentaram mover a imagem para o centro da cidade de Manresa, ela se tornou tão pesada que foi impossível movê-la, evidenciando o desejo da Virgem de permanecer no local onde fora encontrada, na periferia da montanha sagrada. ‘A Moreninha’ queria permanecer com os pobres. 

A Companhia de Jesus, congregação fundada por Santo Inácio de Loyola, tem como uma das suas prioridades de missão no tempo presente caminhar com os empobrecidos, os descartados do mundo, os vulneráveis em sua dignidade, em uma missão de reconciliação e justiça.

Para marcar sua nova vida, Inácio realizou uma vigília, vestido como cavaleiro, na noite anterior à Festa da Anunciação, em 24 de março de 1522. Doou suas roupas finas a um mendigo e vestiu-se com um hábito feito de pano de saco. Passou a noite ora em pé, ora de joelhos, diante do altar de Nossa Senhora de Montserrat, em oração fervorosa. Aos pés do altar, pendurou sua espada e seu punhal, simbolizando a renúncia às suas antigas aspirações de cavaleiro e a dedicação ao serviço de Cristo.

Após uma noite de oração, Inácio partiu de Montserrat ao amanhecer, desejando evitar qualquer reconhecimento e honra de nobre cavaleiro. Vestido humildemente, iniciou sua vida como peregrino, carregando apenas um caderno onde anotava suas descobertas espirituais. Esse caderno se tornaria os Exercícios espirituais. Assim, Inácio abraçava uma vida de quem caminha com os pobres, a exemplo do desejo de sua ‘Senhora Moreninha’. 

A verdadeira transformação espiritual requer coragem, humildade e um profundo compromisso com a fé. Sua jornada de cavaleiro a peregrino nos convida a refletir sobre nossas próprias vidas e ambições. Quais são os nossos desejos profundos? Como queremos contribuir para o Reino de Deus? Nossa caminhada de vida também passa por caminhar ao lado dos mais empobrecidos e ajudá-los em seus direitos e necessidades? Assim como Inácio somos chamados a discernir a ação de Deus em nossas vidas e a responder com generosidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/inacio-de-loyola-de-cavaleiro-a-peregrino.html


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Sair do "Retrocedismo"

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Miguel Oliveira Panão 


Desde há algum tempo que existem ondas progressistas e conservadoras quanto à vida da Igreja e a sua relação com o mundo. Uma vez, ouvi que éramos conservadores porque temos um tesouro e queremos conservá-lo. Mas será que a tradição é uma ‘coisa’ estática? O caminho que estamos a fazer no âmbito da sinodalidade não pode levar-nos a andar para trás, negando o que vivemos no presente. O Papa Francisco até inventou uma palavra para quem acha que o melhor seria voltar para trás : um retrocedismo’.

A 1 de Junho de 2022, o Papa Francisco disse no discurso que fez aos participantes do Congresso dedicado às ‘Linhas de Desenvolvimento do Pacto Educativo Global’ que «há a moda – em todos os séculos, mas neste século vejo-a como um perigo na vida da Igreja – que em vez de beber das raízes para ir em frente – aquele sentido das bonitas tradições – há um ‘retrocedismo’, não ‘para baixo e para cima’, mas para trás. Este ‘retrocedismo’ que nos faz seita, que nos fecha, que nos tira os horizontes : denomina-se guardiães de tradições, mas de tradições mortas.»

Tomáš Halík, na introdução que fez em Praga na Assembleia Sinodal Continental Europeia, diz que «Se a Igreja pretende contribuir para a transformação do mundo, deve estar permanentemente em transformação.» E essa transformação do mundo faz-se através da Evangelização, que é a sua principal missão. Uma Evangelização que produza fruto por inculturação. Halík nota como o mundo, hoje, está mais conectado do que nunca, e ao mesmo tempo, está mais polarizado do que nunca.

Segundo um grupo de investigadores liderado por Shanto Iyengar, que publicou uma síntese para a Annual Review of Political Science, existe um tipo de polarização nos Estados Unidos que é muito emocional, a polarização afectiva. Significa que produz comportamentos polarizados entre as pessoas, muito para além do lado político em que se encontram. Isto é, tanto esquerda como direita podem ter a mesma ideia política, mas isso não diminui a polarização afetiva entre as partes. Soube de um episódio, há algum tempo, de uma diocese que organizou uma ação de formação sobre a procriação medicamente assistida, para informar as pessoas e reflectir seriamente sobre o assunto. Porém, um grupo de católicos interpretou que falar sobre o assunto seria concordar e promover a PMA, quando o propósito não era concordar ou discordar, mas refletir e formar. A ação acabou por não se realizar porque se previa uma manifestação sem sentido. Aquele grupo de católicos havia cedido ao ‘retrocedismo’. Precisamos de sair do ‘retrocedismo’.

Meses depois, no dia 1 de Setembro, o Papa Francisco volta a falar do assunto aos membros da Associação Italiana de Professores e Cultores de Liturgia : «Há um espírito que não é o da verdadeira tradição : o espírito mundano do ‘retrocedismo’, hoje na moda : pensar que ir às raízes significa retroceder. Não, são coisas diferentes. Se fores às raízes, as raízes levam-te para cima, sempre. Como a árvore, que cresce a partir do que lhe chega das raízes. E a tradição consiste precisamente em ir às raízes, porque é a garantia do futuro, como dizia Mahler. Ao contrário, o ‘retrocedismo’ é recuar dois passos porque é melhor e ‘sempre se fez assim’. É uma tentação na vida da Igreja que te leva a um restauracionismo mundano, disfarçado de liturgia e teologia, mas é mundano. E o ‘retrocedismo’ é sempre mundanidade : por isso, o autor da Carta aos Hebreus diz : ‘Não somos pessoas que andam para trás’. Não, vais em frente, de acordo com a linha que a tradição te dá. Voltar para trás é ir contra a verdade e também contra o Espírito. Fazei bem esta distinção.»

Quando os mais ‘retrocedistas’ ouvem o Papa Francisco falar deste modo, poderão pensar que ele é ‘progressista’ e que a Igreja está a ficar uma confusão de ideias e a perder alguma da sua identidade relativamente a valores relacionados com situações de clivagem social como o aborto, a homossexualidade ou a eutanásia. Parece-lhes que diante daquele que sofre, o papa quebra os ideais de há séculos, para minar a tradição com tendências culturais hodiernas, onde tudo é relativo, permitido, desde que amemos, levando a uma ruptura com valores fundamentais. O que queria então dizer Santo Agostinho com ‘ama e faz o que quiseres’? Por outro lado, se uma pessoa vestir uma roupa diferente, passa a ser uma outra pessoa? Pensar numa polarização afetiva entre conservadores e progressistas é continuar a mentira que esta divisão reflete.

A revolução da sinodalidade consiste na ruptura que está a fazer com os grilhões das polarizações afetivas que temos nos pés e que nos impedem de avançar no caminho da modernização da espiritualidade, não pela alteração da Tradição, mas pelo seu aprofundamento. Qualquer aprofundamento do conteúdo exige uma reforma na forma. Teilhard de Chardin acreditava haver uma só força que unia sem destruir : o amor. Assim como Halík, também eu acredito que a transformação da Igreja está a acontecer por estarmos a tornarmo-nos numa comunidade dinâmica de peregrinos. Quem sabe se nesta peregrinação pelo mundo contemporâneo, um pequeno, mas importante passo, não seja começar por sair do ‘retrocedismo’.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/907/sair-do-retrocedismo/

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Aceitei o amor de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Congresso mundial em Celje da Fraternidade Cristã Intercontinental dos Doentes Crônicos e Deficientes Físicos (Frater) 
Congresso mundial em Celje da Fraternidade Cristã Intercontinental dos Doentes Crônicos e Deficientes Físicos (Frater) 

*Artigo Jože Potrpin, 
de Ljubljana (Eslovenia)

Para o título da mensagem para o 28° Dia Mundial do Enfermo, na festa de Nossa Senhora de Lourdes celebrada em 11 de fevereiro, o Papa Francisco escolheu as palavras de Jesus : «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Essas palavras expressam a solidariedade do Filho do Homem com todos aqueles que estão feridos e oprimidos. Ele convida todos ‘a entrar em sua vida para experimentar a ternura’ e se tornar ‘alívio e conforto’ para os outros. O lugar em que os doentes podem encontrar alívio é a Igreja, que deseja cada vez mais tornar-se ‘hospedaria’ do Bom Samaritano que é Cristo. O Papa destaca o papel crucial dos agentes de saúde. Em nossa história se apresenta como portador de deficiência o senhor Tone Planinšek, que experimentou a proximidade e a ‘saúde’ de Deus e quer partilhar essa sua experiência com os outros.

‘Vamos percorrer agora, em sintonia com o Dia Mundial do Enfermo, a história de Tone Planinšek : o sofrimento pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição. Depende de como o aceitamos. Nas provações, que acompanham toda vida humana, o sofrimento ajuda no crescimento espiritual e assim a vida se enriquece espiritualmente. Mas pode ser também um incômodo, quando o consideramos uma punição divina. O sofrimento é um dom de Deus, mas nós temos medo. Talvez seja também porque tem um preço tão inestimável que conhecemos muito pouco. Para nós é significativo, porque conhecemos a estrada em que Maria nos ajuda a caminhar atrás de Jesus e a não errar. Em Lourdes, Ela escolheu uma pastorinha simples, pobre e sempre doente chamada Bernadete. Ela também sofreu muito por causa dos interrogatórios e humilhações. Jesus, de fato, proclamou os pobres herdeiros do Reino dos Céus. 

O espírito saudável no corpo com deficiência física

Um espírito saudável pode existir também num corpo doente e com deficiência física? ‘Nasci como um garoto saudável, primeiro de sete filhos numa família camponesa. Talvez eu não tivesse ainda um ano quando observaram que a minha coluna começava a ficar curva por causa do raquitismo. Assim, no início do ensino fundamental (naquela época na Eslovênia a escola começava aos 7 anos e durava 8 anos) eu girava pelos hospitais. Frequentei a escola primária no meu país de nascimento e a escola profissional no Instituto para a formação dos jovens portadores de deficiência, onde estudei para tornar-me alfaiate. Depois do aprendizado comecei a trabalhar. Não era fácil encontrar trabalho na fábrica de pele. No início, tinham problemas por causa da minha altura. Tenho um 1 metro e 30 centímetros. Mais tarde trabalhei com máquinas especiais e vários instrumentos. Também me tornei o inovador do ano. Após vinte anos de trabalho, me aposentei cedo por causa de problemas de saúde frequentes. Mas na aposentadoria não fiquei parado. Tornei-me ativo na Fraternidade Cristã Intercontinental dos Doentes Crônicos e Deficientes Físicos (Frater). Eu também ‘caí’ nas águas do jornalismo. Por muitos anos fui membro do conselho pastoral paroquial e várias vezes animador dos crismandos’.

 A família alargada em festa
A família alargada em festa

Pequeno sol ou raio

Tudo começou com a fé, a tradicional. Depois a fé começou a crescer em mim, pois comecei a ler também algo de espiritual. Ia também ao catecismo para os jovens. Durante a escola profissional no Instituto para a formação, experimentei o significado da fé na vida. Por causa de um livro, enviado pelo correio para o endereço do Instituto pela Editora Družina, porque fui atraído por uma participação, quase me expulsaram do instituto. Não podia ir à missa, somente escondido. Durante esse período eu poderia ter renunciado à fé, mas pelo contrário, a abracei ainda mais forte. Comecei também a me perguntar o porque do sofrimento. Por que as pessoas sofrem? Através da meditação e a leitura de conteúdos espirituais cheguei ao conhecimento de que esta é a minha missão. Jesus sofreu também. Com o sofrimento redimiu o mundo. Por isso, cheguei à conclusão de que o sofrimento é a mais elevada forma de amar; caso contrário Deus teria escolhido outra. Agora que várias dificuldades e problemas foram adicionados à deficiência, ofereço tudo isso a Jesus para algumas intenções concretas. ‘O sofrimento por si mesmo nos empurra para o céu. Mas não irá adiante sem a nossa colaboração’, me escreveu um sacerdote anos atrás. Ele também sofreu muito. Em resumo, recebi o amor de Deus em meu coração. De vez em quando alguém diz que eu sou um sol, um pequeno sol ou um raio’.

Peregrinação nacional dos doentes, deficientes e idosos ao santuário nacional em Brezje
Peregrinação nacional dos doentes, deficientes e idosos ao santuário nacional em Brezje

A deficiência pode também ser um privilégio

Muitas vezes, os ‘saudáveis’ erram pois querem fazer no lugar do deficiente ou doente o que eles sabem fazer ou devem fazer sozinhos. Isso já começa na família. Eu, pelo contrário, nunca ouvi em casa : ‘Você não pode de nenhuma maneira. Você não deve, nós faremos por você’. Mas é também verdade que nós, crianças, nos ajudamos reciprocamente. Cada um tem o dever de fazer o que pode e pedir ajuda apenas para o que for impossível fazer. O portador de deficiência não é uma pessoa menos capaz ou uma pessoa com necessidades especiais. Parece-me mais apropriado chamá-lo : pessoa com uma missão especial. Estou pensando na missão que Deus nos deu, que Ele deu a cada pessoa. A deficiência pode ser um privilégio se a acolhemos como um dom de Deus, que nos ajuda a escolher o caminho da santidade. Sim, para muitos a pessoa com deficiência é um pequeno sol, quando para ele a deficiência não representa um fardo, mas se entende como uma pessoa com seus talentos. Estes são sóis pequenos, e eu conheço muitos’.

Encontrou a sua missão especial

Às vezes, o encorajamento é suficiente para uma pessoa fazer o seu melhor. Nós deficientes e doentes não somos apenas pessoas que recebem ajuda e compaixão, mas também podemos dar. Ser útil para outro ser humano : essa é a minha felicidade. No meu caso, isso já aconteceu no ano de 1975, durante o encontro de enfermos e deficientes no Santuário Mariano de Brezje, quando entrei em contato com a Fraternidade Cristã Intercontinental de Doentes Crônicos e Deficientes Físicos, e nisso encontrei a minha estrada. Ao mesmo tempo, conheci a revista Prijatelj (Amigo). Participei de vários encontros, peregrinações, exercícios espirituais, de muitos fins de semana de oração, de férias, festas de Ano Novo, visitas. Algumas vezes, aceitei organizar exposições de artesanato, acompanhadas de concertos ou mesas redondas sobre diferentes temas com vários convidados. Muitas vezes fui representante da Eslovênia em conferências europeias ou internacionais da Frater. Dei testemunhos durante as missas em diferentes paróquias ou em diferentes grupos, como oratórios, escoteiros... Em 2009, fui eleito responsável pela Fraternidade Cristã de Doentes Crônicos e Deficientes Físicos na Eslovênia e sou ainda hoje’.

 Tone foi fotógrafo oficial no Congresso Eucarístico em Celje
Tone foi fotógrafo oficial no Congresso Eucarístico em Celje

O importante é descobrir e cultivar os talentos que temos. Apesar de algumas privações, talvez elas sejam ainda mais do que pensamos. Fotografar é minha maior alegria e isso já vem da escola primária. Uni essa alegria ao útil e, por esse motivo, gostei cada vez mais de fotografar a vida da Fraternidade Cristã de Doentes Crônicos e Deficientes Físicos. Publiquei minhas fotografias na revista Prijatelj (Amigo), no semanal Družina (Família), no mensal Ognjišče (Núcleo) e também em outras mídias. Tirei duas fotografias muito bonitas e até expressivas quando o arcebispo Alojzij Šuštar ficou sozinho no presbitério em sua cadeira de rodas, enquanto os outros fotógrafos após a cerimônia saíram seguindo os políticos. Eu também fui fotógrafo oficial da revista Prijatelj (Amigo) durante as duas viagens apostólicas do Papa João Paulo II à Eslovênia. Agora, devido à doença, o equipamento fotográfico é muito pesado para mim e, por causa disso, não participo mais de grandes eventos’.

 O arcebispo emérito Alojzij Šuštar ficou sozinho no presbitério
O arcebispo emérito Alojzij Šuštar ficou sozinho no presbitério

O lema da Frater : ‘Levante-te e anda’

Jesus disse essa frase a um coxo dois mil anos atrás. Essas palavras também são válidas para os deficientes hoje. Muitas vezes repeti que as coisas boas feitas por nós deficientes também devem chegar à mídia, para que não nos representem mais como criaturas pobres. Comecei a descrever vários eventos, especialmente aqueles em que participavam pessoas deficientes e doentes. Assim, no final, também cheguei à Rádio Ognjišče, onde há 25 anos preparo o programa intitulado Levanta-te e anda, exatamente um ano a menos do que tem a rádio. Aqui, certamente, tenho ouvintes tanto quanto em uma grande paróquia’.

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O programa que acaricia e incentiva

No programa, dirijo-me às pessoas dentre as quais eu. Quem pode ajudá-las melhor, se não uma delas, que se identifica com elas, que tem experiências semelhantes às delas, porque fala sobre sua vida. Preparo este programa com o coração, não com o conhecimento, de dentro. O programa não tem como objetivo consolar, mas, com seu conteúdos, procura, acima de tudo, incentivar os doentes, os portadores de deficiência e todas as pessoas que sofrem a olhar para o futuro e a se perguntar para que a doença ou a deficiência pode servir’.

Como conclusão

O doente e o deficiente não devem ser apenas um objeto de ajuda, mas, acima de tudo, sujeitos ativos, portadores de uma peregrinação na fé e na esperança, testemunhas dos milagres do amor e da alegria pascal.’


Fonte :

domingo, 3 de setembro de 2017

O turismo religioso é o 'ouro branco' da Arábia Saudita

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘‘A Arábia recebe o mundo’. O lema da edição de 2017 da grande peregrinação muçulmana à Meca resume a ambição do reinado de impulsionar o desenvolvimento do turismo religioso, que rende milhões de dólares ao país - diante da queda dos preços do ouro negro, o petróleo.

As autoridades sauditas nem esperaram o fim da peregrinação para comemorar a recepção de 2,35 milhões de fiéis, mais que no ano passado.

Entre eles, cerca de 1,75 milhão de peregrinos vêm de 168 outros países.

O Ministério do Interior destacou que a peregrinação neste ano aconteceu ‘sem problemas’, em termos de segurança, ou sanitários.

Nosso plano (...) estava à altura dos padrões requeridos’, afirmou o coronel Sami al Shueirej, membro do alto comando da segurança geral saudita.

Em setembro de 2015, o desabamento de uma grua perto da Grande Mesquita de Meca deixou mais de 100 mortos, e quase 2.300 fiéis morreram no tumulto, o que rendeu duras críticas à gestão do reinado saudita.

Em abril de 2016, Mohamed ben Salman, filho do rei e homem-forte do governo, divulgou um ambicioso plano de reforma, chamado ‘Visão 2030’, para diversificar a economia, atualmente muito dependente do petróleo. O turismo religioso é um dos objetivos.

De hoje até 2030, esperamos receber anualmente 6 milhões de fiéis durante a grande peregrinação e 30 milhões para o Umra’, a pequena peregrinação que pode ser realizada ao longo do ano todo, declarou à AFP o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Meca, Maher Jamal.

O reino, principal exportador de petróleo do mundo, sofre desde meados de 2014 com a queda dos entradas por causa do colapso dos preços do barril.

Até a descoberta do petróleo, a peregrinação era o principal recurso da Arábia Saudita’, lembra o historiador Luc Chantre, especialista da peregrinação na época colonial.

Inclusive antes do islã, Meca era uma plataforma comercial. Um lugar de trocas, onde o religioso e o comercial estavam sempre ligados’.


Modernização

Nos centros comerciais à volta da esplanada da Grande Mesquita de Meca, as lojas vivem lotadas. Elas só fecham na hora da oração, mas voltam a abrir logo em seguida.

Há marcas do mundo inteiro, e inclusive no monte Arafat, onde os peregrinos dedicaram a quinta-feira às preces e às invocações, havia vendedores de tapetes.

Os gastos dos peregrinos (do exterior e nacionais) poderiam oscilar, neste ano, entre 20 bilhões e 25 bilhões de rials (5,33 bilhões a 6,47 bilhões de dólares), contra os 14 bilhões de rials (3,73 bilhões de dólares) do ano passado’, indicou o presidente da Câmara de Comércio.

Cada peregrino gasta milhares de dólares, além das passagens, sobretudo em alojamento, comida e compra de recordações e presentes.

Segundo Jamal, a alta se deve ‘ao aumento em 20% no número de peregrinos’ neste ano.

Em 2013, as obras de ampliação dos lugares santos fizeram a Arábia Saudita reduzir em 20% o número de peregrinos estrangeiros autorizados a viajar. Nos países muçulmanos, a proporção é de um peregrino para cada 1 mil habitantes.

Ria propôs receber mais peregrinos até 2030, por isso, empreendeu grandes transformações arquitetônicas, algumas delas consideradas exageradas.

O projeto inclui uma ampliação das duas mesquitas santas de Medina e Meca.

Para melhorar a circulação dos peregrinos na Caaba (construção cúbica em torno da qual os fiéis dão sete voltas) foram construídos dois patamares sobrepostos, conectados ao primeiro andar por escadas rolantes. Os peregrinos fazem o rito em corredores com ar condicionado ou ventilação.

Em 2010, o país inaugurou uma linha de metrô na superfície que une os principais pontos da peregrinação.’


Fonte :


domingo, 22 de janeiro de 2017

Mineiros e seu Santuário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Santuário celebra 250 anos de peregrinação e fé.
 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘O desenvolvimento integral de uma sociedade depende, significativamente, de sua capacidade para valorizar e cuidar do seu patrimônio, que inclui personagens e acontecimentos da sua história. São eles que tecem a cultura - alicerce do progresso, do desenvolvimento, do sentido de respeito. Por isso, os mineiros têm que aproveitar a ‘oportunidade de ouro’ que marca este novo ano e, assim, impulsionar crescimentos, consolidar a força do Estado de Minas Gerais, nos mais diferentes cenários. Esse momento especial é a celebração do Ano Jubilar - os 250 anos do povo peregrinando na fé ao Santuário Nossa Senhora da Piedade - a Padroeira de Minas Gerais.

A vivência deste tempo é uma convocação que remete todos os mineiros à Serra da Piedade, tesouro de inestimável valor ambiental e ecológico. Ali está um milagre da natureza, obra do Criador, com riquíssima fauna que é referência para pesquisas científicas de diferentes centros acadêmicos. Esse singular jardim botânico congrega, harmoniosamente, a Mata Atlântica, o Cerrado e os Campos Rupestres. Um território com mais de um milhão de metros quadrados, assentado sobre uma rocha de ferro, minas de ouro e aquífero exuberante, patrimônio que jamais será presa do desarvoro do lucro e da ambição desmedida. Este Ano Jubilar é, justamente, tempo propício para se firmar - a partir de legislações, gestos concretos de solidariedade e atitudes cidadãs - conforme se reza na oração de consagração a Nossa Senhora da Piedade - Padroeira de Minas Gerais: esse patrimônio é herança nossa que vamos sempre preservar e defender.

A proteção desse bem significa o rompimento com as dinâmicas que deixam ‘heranças nefastas’, verdadeiras ofensas: as graves feridas na casa comum, os buracos e as devastações que nunca serão apagados da história em razão dos pesos e das desolações que provocam. Por tudo isso, a defesa do Santuário Ecológico dedicado a Nossa Senhora da Piedade é compromisso da Igreja, mas também de todos os segmentos da sociedade, que precisam trabalhar juntos, em cooperação, a partir dessa missão. Não há espaço nem tempo para irracionalidades - a exemplo do desejo de se mostrar poder com a imposição de entraves burocráticos aos projetos reconhecidamente necessários para a preservação do meio ambiente e do patrimônio histórico.  Essas obstruções, de órgãos governamentais ou de outras instâncias, impedem a efetivação de iniciativas capazes de impulsionar o desenvolvimento de Minas. Ações com força para amalgamar as muitas Minas, superando dispersões regionais, para consolidar uma ‘consciência mineira’. A retomada do crescimento e do desenvolvimento do Estado depende dessa consciência que nasce da valorização do próprio patrimônio e da cultura. Um olhar valorativo sobre o que se é e o que se tem.

Esse olhar permite reconhecer também os tesouros da religiosidade, um legado de riqueza inestimável desse estado diamante. O Ano Jubilar celebrado em 2017 exalta, precisamente, a fé católica mineira - 250 anos de peregrinações ao Santuário da Padroeira de Minas Gerais. O ponto de partida é conversão de Antônio da Silva Bracarena, em 1767. Esse português veio para o Brasil com o objetivo de ganhar dinheiro, trabalhando na construção da Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso, em Caeté, exemplar precioso da arte barroca. Convertido, Bracarena colocou no horizonte de sua vida - no lugar de uma busca egoísta pelo acúmulo de bens - a espiritualidade e a devoção. Passou a viver no alto da Serra da Piedade, como eremita e, após receber autorização da Igreja, começou a construir a Ermida da Padroeira de Minas, ainda em 1767.

Tempos depois a história do Santuário da Padroeira de Minas Gerais é enriquecida com um dom alcançado graças ao trabalho do Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, que integrou o clero da Arquidiocese de Belo Horizonte. A partir da atuação desse mineiro ilustre, que foi colaborador do Monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro - o Evangelista da Piedade -  admirável guardião desse território sagrado, um capítulo importante foi escrito na história de Minas : o Papa São João XXIII concedeu ao Santuário Nossa Senhora da Piedade o título de Santuário da Padroeira de Minas Gerais.  Firma-se, assim e cada vez mais, esse território como grande centro de espiritualidade, força indispensável que conduz a sociedade mineira rumo a avanços, a partir da fé, do compromisso com a justiça e com o bem de todos.

 O Santuário Nossa Senhora da Piedade é o coração de Minas Gerais e este Ano Jubilar deve ser vivido sobre os trilhos da oração e do trabalho. Nos trilhos da oração, todos são convidados a peregrinar - em grupos, com as comunidades de fé e famílias, para viver os momentos que reúnem celebrações e a oportunidade de se reconciliar com Deus. Momentos propícios para deixar-se tocar pela força restauradora do silêncio da montanha sagrada, por sua aragem que limpa o coração, fecundando-o com a densidade espiritual da presença inspiradora de Maria, discípula exemplar. Esse Ano Jubilar, que precisa ser vivido também nos trilhos do trabalho, é convocação para que todos, em parceria e colaboração com os que integram a Faço Parte - Campanha dos Devotos de Nossa Senhora da Piedade -, instâncias governamentais e segmentos diversos, se comprometam com a realização de obras fundamentais : a edificação da Via do Peregrino, do Museu Maria Regina Mundi, a conclusão e restauração da Igreja Nova das Romarias, que pode tornar-se Basílica da Padroeira de Minas.

Essas e tantas outras iniciativas buscam fortalecer, cada vez mais, o Santuário e, consequentemente, as batidas do Coração de Minas, que é esse território sagrado.  Peregrinar ao Santuário e receber a graça de uma nova etapa na vida - abrindo um novo ciclo familiar, pessoal e social, de vida cidadã e religiosa -, além de assumir a tarefa de divulgar que Nossa Senhora da Piedade é a Padroeira de Minas Gerais. Um compromisso de todos, ato de fé e de religiosidade, de cidadania e de apreço pelo dom de ser do Estado de Minas Gerais.  Agora é a hora dos mineiros e de seu Santuário.’


Fonte :

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um elogio de Bergoglio a Guardini, pensador profético

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Recebendo em audiência os participantes do congresso patrocinado pela fundação dedicada ao teólogo ítalo-alemão, o Papa Francisco identifica alguns traços do trabalho : a necessidade do perdão, a fé do povo, a reflexão sobre os fundamentos cristãos da civilização europeia

Romano Guardini, um dos teólogos mais citados pelo Papa Francisco, é ‘um pensador que tem muito a dizer aos homens de nosso tempo, e não só aos cristãos’. Assim disse na manhã de hoje o próprio Pontífice, durante a audiência concedida aos participantes do congresso promovido pela ‘Fundação Romano Guardini’ de Berlim, por ocasião do 130º aniversário do nascimento do filósofo italiano-alemão.

Desejando um ‘bom sucesso’ para a Fundação, que está trabalhando para fazer ‘entrar o pensamento de Guardini em um diálogo polifônico com os âmbitos da política, da cultura e da ciência de hoje’, o Santo Padre refletiu sobre uma passagem da obra crítica ‘O mundo religioso de Dostoiévski’.

Neste ensaio, Guardini cita um episódio de Os Irmãos Karamazov, em que o starec Zosima recebe as pessoas para a confissão e a benção. Aproxima-se dele também uma anciã camponesa que matou o marido, suportando as suas violências e abusos.

Oprimido pela culpa, ‘a mulher acredita que é condenada’. O sacerdote, porém, lhe recorda que ‘a sua existência tem um sentido, porque Deus a acolhe no momento do arrependimento’.

Justamente as ‘pessoas mais simples’ compreendem melhor ‘o que significa santidade, ou seja, uma existência vivida na fé, capaz de ver que Deus está perto dos homens, tem as suas vidas nas mãos’.

A este respeito, o Papa mencionou outro passo de Guardini : ‘Aceitando com simplicidade a existência da mão de Deus, a vontade pessoal se transforma em vontade divina e assim, sem que a criatura pare de ser unicamente criatura e Deus verdadeiramente Deus, se realiza a unidade viva deles’.

Guardini vê esta ‘unidade viva’ como a ‘relação concreta das pessoas com o mundo e com os outros ao seu redor’, disse o Santo Padre.

Além disso, por ‘povo’, o teólogo ítalo-alemão, compreende ‘o compêndio do que no homem é genuíno, profundo, substancial’, portanto, como um ‘campo de forças da ação divina’, que o próprio povo percebe como ‘em todas as coisas operante e intui o seu mistério, a presença perturbadora’.

Uma concepção muito diferente, portanto, daquela do ‘racionalismo iluminista que considera real apenas o que pode ser apreendido pela razão e que tende a isolar o homem arrancando-o das relações vitais naturais’, frisou Bergoglio.

As reflexões de Guardini, portanto, podem ser aplicadas ao ‘nosso tempo’, tentando ‘encontrar a mão de Deus nos eventos atuais’; por exemplo, fazendo reconhecer que ‘Deus, na Sua sabedoria, nos enviou, na Europa rica, o faminto para que lhe déssemos de comer, o sedento para que lhe déssemos de beber, o peregrino para que o acolhêssemos, e o nu para que o vestíssemos’, comentou o Pontífice.

A história depois vai provar : se somos um povo, certamente o acolheremos como um irmão nosso; se somos somente um grupo de indivíduos, seremos tentados a salvar principalmente a nossa pele, mas não teremos continuidade’, acrescentou o Santo Padre, concluindo com a felicitação aos participantes do congresso voltado a aprofundar a obra de Romano Guardini, com a finalidade de ‘sempre mais compreender o significado e o valor dos fundamentos cristãos da cultura e da sociedade’.’  


Fonte :


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Santa Marta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Marta guiando o tarasca 
(miniatura medieval francesa)

Era irmã de Maria e de Lázaro. Quando recebia o Senhor em sua casa de Betânia, servia-o com muita solicitude. Com suas preces, obteve a ressurreição do irmão.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Santa Marta  :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 103, 1-2. 6 : PL 38, 613.615)     (Séc.V)

Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa
As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer : Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou : Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te : Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar?

Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu : lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui : daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos : Em verdade eu vos digo : ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).


Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, 1453, 1455 


sábado, 12 de abril de 2014

Jesus Cristo não vem a morrer de novo na Cruz. Agora é a nossa vez!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

‘‘Jesus Cristo morreu, Jesus Cristo ressuscitou, Jesus Cristo é o Senhor, Jesus Cristo há de voltar!’ Poucas palavras, com as quais se resume o essencial da fé cristã. Impressiona o fato de que os seguidores de Jesus, nos Atos dos Apóstolos, tenham tido tamanha força transformadora, capaz de compungir os corações mais endurecidos. De lá para cá, é a mesma verdade, a certeza que decide a vida das pessoas, anunciada em todos os recantos da terra, até alcançar os confins do mundo que o Senhor nos deu. É que os pregadores do Evangelho não falam sozinhos e nem são portadores de mensagens próprias. Apenas se colocam à disposição de Deus, que envia a força do Espírito Santo, dando-lhes palavras adequadas e a força para o testemunho corajoso de Jesus Cristo. 

Como somos humanos e vivemos a fé no correr do tempo a pedagogia da Igreja nos faz percorrer, num aprofundamento contínuo do mistério cristão, as diversas etapas da história da salvação. Com a Semana Santa, que está para começar, Jesus Cristo, o único Salvador e Senhor, não percorre de novo os passos da Via Dolorosa, ou vem a morrer de novo na Cruz, para depois ressuscitar. Agora é a nossa vez! E começa a Semana Santa com o convite a visitarmos os lugares santos, para recolher os ensinamentos deixados e, mais do que tudo, recebermos a graça de Deus que nos é dada em tempo oportuno.

Pelas ruas começa nosso giro pelos lugares da fé na manhã do Domingo de Ramos. Começando pelas crianças até chegar aos mais velhos, as ruas da Jerusalém de ontem e de hoje devem ficar fervilhando de gente, aclamações e orações, com os ramos da fé erguidos em louvor ao Senhor. Peço que a juventude nos tome pelas mãos, na Jornada Mundial, desta feita celebrada em cada Igreja Local, no mundo inteiro. O Papa Francisco escolheu como tema da Jornada uma bem-aventurança : ‘Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu’ (Mt 5, 3). Nesta estação do Domingo de Ramos, três lições : ser livres em relação às coisas, despojando-nos do que é supérfluo, pondo Jesus em primeiro lugar em nossas escolhas, com a coragem para viver a sobriedade; depois, cuidar dos mais pobres e sofredores. Diante das mais variadas formas de pobreza, o desemprego, a emigração, dependências dos mais variados tipos, permanecer vigilantes e conscientes, vencendo a tentação da indiferença. Ainda uma lição : os mais pobres são mestres para nós. Ensinam-nos que uma pessoa não vale por aquilo que possui. Mesmo sem bens materiais, conserva sempre a sua dignidade.

Entremos numa casa! Com nossas boas vindas a este novo ‘turismo religioso’, peço a alguns amigos de Jesus, Marta, Maria e Lázaro, assim como os apóstolos do Senhor, que nos acompanhem de segunda até quarta-feira. São dias de mais oração e intimidade com Jesus. Sugerimos um tempo de silêncio e adoração, diante de Jesus Eucaristia, aquele que gostava de ir à casa de Betânia. O lugar santo para esta etapa da peregrinação da Semana Santa pode ser a sua própria casa, ou quem sabe, um pouco mais de silêncio e revisão de vida.

Visitar a Igreja! Na quinta-feira pela manhã, a Igreja quer conduzir-nos ao coração de seu mistério de unidade. Visite, se possível, a Catedral de sua Diocese, para participar da Missa da Unidade. Lá você acompanhará a Bênção dos Óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos e a Consagração do Óleo do Crisma. Os padres renovarão, diante de você e de todo o povo, como testemunhas qualificadas, seus compromissos de serviço. O lugar Santo é a Igreja que se realiza em torno do Bispo, unida ao mundo inteiro! É bom sentir que somos Igreja viva, povo sacerdotal, que bendiz ao seu Senhor.

Bem vindo ao Cenáculo! Desde o início da Quaresma, vivemos para acompanhar Jesus e com ele vivermos a sua Páscoa. Quinta-feira à noite começa a Páscoa. O primeiro lugar a ser visitado tem o nome de Cenáculo, sim, lugar da ceia! Ali, quando chega a ‘hora’ de Jesus, ele se despoja de suas vestes, lava os pés dos discípulos, gesto inusitado e ao mesmo tempo coerente com tudo o que tinha vivido junto deles. Dá de presente o seu mandamento, ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’ e, para a grata surpresa de todos, institui a Eucaristia, memorial permanente de seu eterno amor. Corpo, Sangue, Alma e Divindade estão verdadeiramente presentes! Todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Vinho, anunciamos a Morte do Senhor e anunciamos a sua Ressurreição, até que ele venha! Sejam bem vindos os irmãos e irmãs que ultrapassam os umbrais do Cenáculo, para participar da Mesa do Senhor e aprender as lições do altar! Depois da Missa da Ceia do Senhor, os peregrinos da Semana Santa são convidados a adorarem em silêncio o grande Mistério!

Agora, a subida do Calvário. Daqui para frente, despedida, dor, apreensão, correria, crise. São os discípulos de Jesus que se dispersam por não conseguirem acompanhar seu intrépido Senhor. E nós vamos juntos, pois suas dificuldades retratam o que nós mesmos somos e vivemos. Saia de sua casa, irmão ou irmã, vá pelas ruas, recolha as dores e os pecados próprios ou dos outros, siga o Senhor dos Passos ou a Virgem Dolorosa, representados pelas suas imagens. Abra os ouvidos do coração, pois o esperam três horas de sabedoria pura, destilada da Escritura, no Sermão das Sete Palavras. Em Belém, é a centésima trigésima quinta vez que a cidade interrompe tudo o que faz para apenas ouvir a pregação da Palavra de Deus. Depois, é hora da Igreja, para repousar à sombra dos braços do Servo Sofredor de Javé, ouvir com piedade a narrativa da Paixão, beijar a Cruz e comungar. É a Páscoa da Cruz!

A casa do silêncio! De repente, tudo se faz silêncio. É Sábado Santo! Percorra com os passos do coração o Jardim de José de Arimateia. Aproveite para recordar outros jardins, o da criação, o do Horto das Oliveiras, o do Calvário. Procure a sepultura do Senhor e não desperdice qualquer detalhe. Guarde bem as imagens, registre o som do silêncio.

Da Cruz ao Sepulcro e à Galileia! Estamos preparados para o ato final, derradeira etapa de nossa visita aos lugares santos da Semana Santa. Ninguém fique em casa! Noite de sábado, roupas festivas, velas nas mãos, uma fogueira nos atrai. É fogo novo, sinal de um acontecimento que mudou o mundo. A Igreja acende no único Círio Pascal, as velas de todos os fiéis. A luz do Lume aceso nas noites do mundo, a Igreja nos faz contemplar a história da Salvação, Criação, Alianças, Êxodo, Profetas, Esperanças!

Nenhum roteiro de viagens pode conduzir-nos a tal experiência. É necessário ser peregrinos da fé, desejosos de ver Deus e a sua vitória. Para nossa renovada surpresa, ressoa de novo o Aleluia! O Evangelho, perene Boa Nova, anuncia que Jesus Cristo ressuscitou. Ele está vivo no meio de nós. É o Senhor e portador da Paz. É hora de acompanhar os que são recebidos na Igreja na noite santa e renovar os compromissos batismais. Somos filhos da Igreja, somos irmãos, somos um povo de fé! E o Domingo, que veio a se tornar a Páscoa Semanal dos cristãos, celebrado com alegria e devoção, abrirá a peregrinação cotidiana dos homens e mulheres que, voltando às suas casas, tornar-se-ão anunciadores do mesmo mistério.’


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