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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Irmã Josephine Mary Miller (1948-2022)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Marie-Paule Bart, OCBE

Cisterciense Bernardina de Esquermes


‘Josephine Miller nasceu em 16 de abril de 1948, em Exeter, Devon. Quando ainda era muito jovem, seus pais se mudaram para a costa leste e se estabeleceram em Southend-on-Sea, Essex. Essa cidade, na foz do rio Tâmisa, ela consideraria sua terra natal. Ao longo de sua vida, ela manteve um profundo apego a essa cidade.

A família era composta por três filhas : Josephine era a segunda, precedida por Elizabeth e seguida por Anne. Todas as três frequentaram a St. Bernard’s Convent High School em Westcliff-on-Sea. Esta escola era administrada pelas Cistercienses Bernardinas de Esquermes.

O primeiro contato de Josephine com as Bernardinas ocorreu quando ela tinha apenas quatro anos, quando se tornou aluna na Lindisfarne Preparatory School, uma pequena escola primária também dirigida pelas Bernardinas. Segundo suas próprias palavras, foi muito jovem quando começou a desejar ser religiosa. Aos 18 anos, em setembro de 1966, ela ingressou no noviciado das Bernardinas no Mosteiro Notre-Dame de La Plaine, na França. Uma experiência fundamental que ela descreveu assim :

‘Eu entrei no noviciado na França logo após o Concílio, quando mal se começava a falar de aggiornamento, muito menos de inculturação. Sendo inglesa e muito jovem, eu era incapaz de discernir o que era monástico e cisterciense, o que era estilo de vida francês, o que poderia e deveria mudar, eu estava perdida; com uma mestra de noviças muito sábia e muito santa, mas que tinha mais do que três vezes a minha idade. Nossas conversas eram bastante curtas! No entanto, o Senhor assumiu o controle; Ele me fez descobrir as antífonas do Advento, depois as antífonas do ‘O’, depois os responsórios das Vigílias de Natal, em latim, e eu estava no caminho. Meu amor pela liturgia, depois pela Bíblia, depois pela vida monástica, data dessa experiência.

Na minha opinião, o que descrevi foi uma experiência muito cisterciense, mesmo que eu absolutamente não soubesse disso na época. O Senhor tomou a iniciativa, reacendeu uma fé que começava a vacilar, proporcionou uma primeira experiência de alegria espiritual, ensinou-me a saborear a Palavra de Deus sem negligenciar a inteligência, mesmo que esta fosse apenas o ponto de partida. Foi uma experiência cisterciense : humana, espiritual e muito simples’ [1].

Essa experiência seria a base de sua vida, e ela aprofundaria esse sulco com paciência, perseverança e simplicidade.

De fato, Irmã Josephine Mary amava a vida monástica, que vivia com o coração, simplicidade e autenticidade. Ela amava a liturgia, da qual se alimentava diariamente : as leituras, as antífonas e as orações estavam firmemente ancorados em sua memória e moldavam sua vida cotidiana. Ela participava dessa liturgia comunitária como cantora (tinha uma bela voz) e como responsável. Foi por isso que desempenhou um papel determinante na renovação da liturgia das Bernardinas inglesas nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Sua fé era profunda e sua vida espiritual era alimentada por sua paixão pelos escritos de São Bernardo.

Embora mantivesse uma certa reserva na comunidade, Irmã Josephine Mary possuía uma autoridade moral natural, apreciada e respeitada por suas irmãs. Ela prestava muita atenção às pessoas e sabia ouvir. Assim, irmãs, oblatos, amigos, outros superiores monásticos, clérigos de outras confissões buscavam seus conselhos, apreciavam seu acompanhamento e valorizavam seu apoio. Ela desejava o melhor para cada um, incentivando-os em seu crescimento espiritual e humano.

Com grande habilidade para idiomas, ela ensinou inicialmente na St. Bernard’s Convent em Westcliff-on-Sea, depois em Slough, até sua eleição como Priora Geral em 1990. Grande pedagoga, excelente professora, ótima guia, ela sabia extrair o melhor das pessoas, confiando nelas, mas também sendo exigente. A partir de 1978, ela serviu a Ordem como mestra das noviças em Slough, de 1978 a 1990, Priora Geral de 1990 a 2008 e Priora em Hyning de 2008 a 2020.

Como Priora Geral, ela liderou o delicado processo de reestruturação na França, devido à diminuição das vocações : o fechamento de uma escola profissional, a retirada da comunidade de Cambrai e a transferência da escola para a tutela diocesana. Na Inglaterra, também foi necessário acompanhar o discernimento que resultou na retirada da comunidade da St. Bernard’s Convent Grammar School em Slough, transferida para a diocese, e no estabelecimento de uma comunidade em Brownshill, Gloucestershire. No Japão, com a comunidade envelhecendo, chegou o momento de transferir as escolas para outra congregação e estabelecer a comunidade em um novo local.

A situação das comunidades de Goma e Buhimba durante os eventos de 1994 em Ruanda foi ainda mais difícil, seguida pela fuga das irmãs de Buhimba em 1996, algumas das quais não puderam ser localizadas por semanas, tão longe da Casa Geral... Ela também acompanhou e apoiou a busca por um novo local na África e a fundação do Mosteiro Notre-Dame de Bafor, em Burkina Faso.

Ao final de seu mandato, ela acolheu o desejo das irmãs do Japão de que a Ordem fundasse outro mosteiro na Ásia, para que o carisma das Cistercienses Bernardinas permanecesse neste continente e que o mosteiro do Japão, ao desaparecer, desse ainda origem a um novo broto. Isso foi plenamente implementado pela Priora Geral seguinte.

Irmã Josephine Mary escreveu, ao reler esses anos :

‘Eles foram um período muito agitado... Nossa fé e esperança foram testadas, às vezes de maneira muito dura, e temos quase certeza de que isso continuará... Temos que procurar, descobrir progressivamente e juntos os caminhos que teremos que seguir. Poderíamos facilmente desistir e ficar desanimados; parece-me que o Senhor nos convida, em vez disso, a perseverar, a orar mais, a purificar nossa fé, a confiar, a construir juntos algo muito modesto, mas autêntico’ [2].

Os diferentes serviços que lhe foram solicitados, primeiro na comunidade e na Ordem, depois no exterior, além das fronteiras, permitiram-lhe compartilhar amplamente e fraternalmente os frutos de sua experiência com o mundo monástico : palestrante em conferências e sessões, facilitadora de discernimento comunitário, acompanhante em muitas visitas regulares tanto aos Cistercienses quanto aos Beneditinos, membro de várias ‘comissões de ajuda’, palestrante na sessão de formadores OSB e Cistercienses em Roma, dez anos no Conselho da AIM, incluindo cinco anos no Comitê Executivo...

Para ela, as comunidades deveriam viver abertas à diocese, à Igreja universal, atentas às transformações do mundo : mulher de fé, profundamente enraizada em Cristo, ela olhava com clareza para as mudanças de nosso tempo, sem pessimismo. Em 2003, ela disse aos superiores monásticos da Região das Ilhas :

‘Essa situação em constante mudança, que nos parece ameaçadora, é, na verdade, uma grande graça, desde que tenhamos fé suficiente para vê-la dessa maneira. Somos obrigados a redefinir nossas prioridades e a nos perguntar como, concretamente, colocaremos nossa busca por Deus em primeiro lugar em nossas vidas diárias.

Em outras palavras, é reconhecer que, através do que experimentamos como ‘diminuição’, Deus nos convida a dar um testemunho mais explícito dos valores do Reino, valores de que nosso mundo precisa ver’ [3].

Após dezoito anos como Priora Geral, ela foi nomeada Priora de Hyning, na Inglaterra. Lá, ela continuou a prestar os mesmos tipos de serviços : responsável pela Comissão encarregada de revisar as Constituições da Ordem, presidente da União dos Superiores Monásticos do Reino Unido e Irlanda (UMS), acompanhante de várias comunidades em processo de discernimento para um novo futuro, visitadora apostólica de uma comunidade belga, etc.

Em 2018, enquanto ainda era priora e continuava ativa em serviço de sua comunidade, da Ordem e da Igreja, um câncer foi diagnosticado. Desde o início, foi-lhe informado que não era curável. Ela enfrentou essa realidade com lucidez durante seus últimos quatro anos de vida. Corajosa e firmemente apoiada pelo Senhor quando estava sobrecarregada com pesadas responsabilidades, ela permaneceu a mesma durante a doença. Sua forte fé na Ressurreição e sua aceitação pacífica da vontade de Deus ao longo de sua vida a ajudaram nas últimas semanas. Sua personalidade rica e forte se suavizou e simplificou durante seu último mandato, o ponto culminante de uma vida generosamente dedicada à escola do serviço ao Senhor. Ela faleceu pacificamente em 16 de fevereiro de 2022 no Hospital St. John, em Lancaster, pronta para encontrar o Senhor a quem ela amou, desejou e serviu tão fielmente’.

 

[1] Conferência proferida em maio de 2000 em Lérins sobre o tema da ‘Formação’.

[2] Introdução ao Relatório elaborado no Capítulo em 2002.

[3] ‘Caos e Paz’, conferência proferida na reunião de superiores monásticos da Região das Ilhas Hawkstone Hall – Inglaterra, outubro de 2003.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria


‘Sede bem humildes; é nosso Senhor quem faz tudo; nós somos seus simples instrumentos. Confiai sempre e muito na divina providência; nunca, jamais, desanimeis, embora venham ventos contrários. Novamente vos digo : confiai em Deus e em Maria Imaculada; permanecei firmes e adiante! Recomendo-vos muito e muito a santa caridade entre vós e especialmente para com os doentes das santas casas, dos asilos etc. Tende grande amor à prática da santa caridade. Está terminada minha missão; morro contente e dou, de todo coração, a vós toda a minha bênção.’ (Testamento espiritual de Santa Paulina)

Amabile Lucia Visintainer, em religião Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, nasceu em Vigolo Vattaro, Diocese de Trento (Itália), filha de Antonio Napoleone e Anna Pianezzer, a 16 de dezembro de 1865, segunda de catorze filhos, nove homens e cinco mulheres.

Foi batizada no dia seguinte ao nascimento e, segundo o uso do tempo, foi crismada a 27 de abril de 1874, durante a visita pastoral do bispo de Trento.

Pela pobreza dos familiares, como as outras meninas da localidade já aos 8 anos ajudou os pais no trabalho da filanda (fábrica de tecidos), atividade comum naquela região do Trento.

Durante a emigração sul-tirolesa de 1875 para o Brasil, a família de Napoleone Visintainer e Anna Pianezzer emigrou juntamente com cinco filhos, entre os quais Amabile, que contava com 10 anos.

Vida nova em Vigolo, Santa Catarina

Para o grupo trentino foram assinaladas terras para colonizar na província, hoje Estado, de Santa Catarina, ao sul do Brasil, onde logo nasceram vilas que, tendo no centro Nova Trento, tomaram os nomes das terras deixadas : Vígolo, Bezenello, Valsugana etc.

Religiosamente, a região era confiada ao pároco de Brusque, região alemã, mas, em 1879, por causa da presença de imigrantes italianos, foi confiada aos padres jesuítas da Província Romana.

Amabile, tendo mais ou menos 12 anos, fez a Primeira Comunhão e começou a ler.

Logo depois de sua chegada, o Padre Augusto Servanzi, superior da Residência de Nova Trento, confiou a Amabile, de 15 anos, e a uma sua amiga a limpeza da Capela de São Jorge, a leitura do Catecismo da Igreja Católica às crianças e a visita aos doentes.

Durante dez anos, dos 15 aos 25, ela foi fiel ao mandato recebido do Padre Servanzi, embora em 1887, ano da morte da mãe, devesse acudir à família : pai e sete irmãos, dos quais três em tenra idade, porque nasceram no Brasil.

O hospitalzinho, o inicio de tudo

Em 1890, o Padre Marcello Rocchi, missionário da Residência de Nova Trento, transformou a assistência aos doentes em domicílio naquele tipo hospitalar, naturalmente nos limites do possível, confiando, a pedido do povo, o serviço a Amabile e à sua amiga.

Com a transferência de Amabile e da companheira da casa paterna à limitadíssima habitação (de quatro por seis metros), já batizada pelo povo ‘hospitalzinho’, e onde foi recolhida a primeira cancerosa, a 12 de julho de 1890, nasceu aquela que, nos planos da providência, devia se tornar a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.

O instituto começou na extrema pobreza, pelo que as primeiras irmãs, além do cuidado dos doentes e das órfãs e dos trabalhos na paróquia, para viver deviam trabalhar na roça, à meia, e na pequena indústria da seda, muito conhecida, segundo a tradição e a capacidade trentinas.

O instituto nasceu e permaneceu sob a direção dos padres da Companhia de Jesus : de 1890 a 1895, Padre Marcello Rocchi; de 1895 a 1921, Padre Luigi Maria Rossi; de 1921 em diante, Padre Giuseppe Gianella etc.

A primeira aprovação

O primeiro ato do Padre Rossi foi obter do bispo de Curitiba (PR) a aprovação do nascente instituto, em 25 de agosto de 1895, e regularizar a profissão dos votos a 7 de dezembro de 1895, quando Amabile tomou o nome religioso de Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus.

Quando, em 1903, Padre Rossi foi transferido de Nova Trento para a cidade de São Paulo (SP), quis constituir Madre Paulina superiora-geral das duas comunidades, Vígolo e Nova Trento, já com cerca de trinta religiosas.

No mesmo ano, Padre Rossi chamou Madre Paulina para São Paulo e lhe confiou a direção de um orfanato na colina do Ipiranga.

A dura prova de Madre Paulina em São Paulo

De 1903 a 1909, o instituto passou para São Paulo com novas fundações, quatro sob o governo de Madre Paulina.

Em 1909, Madre Paulina precisou afrontar uma prova que duraria até sua morte. Por artimanhas de uma irmã, secretária e assistente, e pela ingerência de uma benfeitora, a autoridade da fundadora foi, dia por dia, diminuída.

Em agosto de 1909, por ordem do arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, e com a aprovação do Padre Rossi, Madre Paulina não foi reeleita pelas irmãs, artificiosamente preparadas e convocadas para o capítulo-geral, que foi chamado o primeiro do Instituto.

De 1909 a 1918, Madre Paulina foi designada para Bragança Paulista (SP), como súdita, mas sempre tratada como ‘Veneranda Madre Fundadora’.

A nova superiora-geral, Madre Vicência Teodora da Imaculada Conceição, serviu-se dela não somente no governo mas também nas novas fundações e nas visitas canônicas, especialmente quando, depois de 1918, Madre Paulina foi chamada pela superiora-geral, com a permissão do Padre Rossi, para a casa-mãe em São Paulo.

Um exemplo de vida religiosa

Seja na vida de família, seja na vida religiosa, como fundadora, superiora-geral e súdita, Madre Paulina deu provas de intenso espírito religioso e de heroicas virtudes, sendo exemplo às religiosas no serviço aos doentes, às órfãs, aos idosos, na aceitação dos sofrimentos físicos causados pelo diabetes, em razão do qual precisou sofrer a amputação do braço direito. Morreu piamente no dia 9 de julho de 1942.

Em 31 de maio de 1967, seus restos mortais foram transladados do Cemitério Santíssimo Sacramento, em São Paulo, onde fora enterrada, para a casa-geral no Ipiranga, na mesma cidade.

Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em Florianópolis (SC), aos 18 de outubro de 1991. Pelo mesmo Sumo Pontífice, foi canonizada, em Roma, Itália, aos 19 de maio de 2002.

Sua festa litúrgica é no dia 9 de julho.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/santa-paulina-do-coracao-agonizante-de-jesus-2.html


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A paciência também é a base da Missão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Juan Sanchez Arenas,

Missionário Comboniano


‘A minha paróquia é dedicada a São João XXIII e fica na cidade de Chitima, no distrito de Cahora Bassa, na província e diocese de Tete, Moçambique. Partilho a comunidade com dois jovens moçambicanos, o padre Moisés e o Ronaldo, um comboniano que acabou de concluir os seus estudos de Teologia e está a realizar o seu serviço missionário.

Embora a paróquia seja grande, com cerca de 10 600 km2, os católicos representam apenas 2% dos seus cerca de 120 000 habitantes. A maioria da população é niúngue, mas há cada vez mais pessoas de outras partes de Moçambique e de outros países vizinhos, porque estamos num corredor que chega até ao Zimbabué. 

Sem desanimar

Embora os Missionários Combonianos tenham chegado a Chitima em 1966, está a ser difícil aderir ao Evangelho, mas não desanimamos. Quando cheguei, em Maio de 2021, ouvindo as comunidades e de acordo com o desejo do nosso bispo, reativamos um programa de evangelização com o objetivo de que todos os batizados entrem numa dinâmica missionária.

Nas zonas rurais, temos 20 comunidades cristãs e 18 grupos de oração com a perspectiva de se tornarem comunidades estáveis. Todos os fins-de-semana um dos sacerdotes permanece na paróquia central e o outro, acompanhado por um grupo de animadores leigos, visita rotativamente estas comunidades e grupos. Ao chegar, o padre confessa enquanto os animadores e a equipa de liturgia preparam as leituras, os cânticos e as danças da eucaristia. Após a celebração, as pessoas dividem-se em grupos de catequistas, jovens, casais, catecúmenos ou crianças da infância missionária para receber uma formação ministrada pelos animadores leigos.

Sempre que visito as zonas rurais, chego a casa exausto, mas muito satisfeito. As pessoas ficam felizes com a nossa presença e são muito generosas conosco. Além de nos darem de comer, regressamos sempre a casa com produtos do campo que nos oferecem. Os católicos de Chitima, organizados em oito núcleos, reúnem-se todas as terças-feiras para um momento de formação e oração. É outra forma de viver o espírito missionário. 

Pastoral de proximidade

Procuramos concretizar na nossa atividade pastoral uma Igreja que vai ao encontro das pessoas. Como missionários combonianos, encorajamos os leigos a assumir as suas responsabilidades, porque sabemos que a sua resposta garante o futuro da Igreja. No ano passado, tivemos 177 crismas e, neste ano, batizaremos 150 adolescentes e adultos. O desafio continua a ser a pastoral familiar : celebramos apenas uma dezena de casamentos por ano.

Vivemos numa zona onde persiste a poligamia e o casamento cristão não é fácil. Precisamos de ser pacientes. Não nos esquecemos da ação social e levamos adiante alguns projetos. Pratico a radioestesia e conheço bem as técnicas para detectar cursos de água no subsolo. Quando dispomos de meios economicos, fazemos perfurações e construímos poços em zonas carentes de água. Também apoiamos os mais necessitados com pequenas ajudas e colaboramos na construção de capelas. 

Neste momento, pretendemos construir uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Sagrado Coração em Chitima.

Vivi a minha missão em muitos lugares e estou impressionado por, aos 75 anos, ainda viver com tanta alegria e entusiasmo. Vejo todos os dias como o Evangelho é uma Boa Nova que ajuda as pessoas a crescer, a criar fraternidade e lhes dá força quando atravessam situações complicadas. Vale a pena anunciá-lo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/1505/a-paciencia-tambem-e-a-base-da-missao/

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Madre Anna Maria Cànopi

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Irmã Maria Madalena Magni, OSB



`A ilha San Giulio é um montículo rochoso que emerge das águas de um dos lagos mais sugestivos do norte de Itália junto ao Alpes. No seu centro encontra-se uma antiga basílica edificada em honra do evangelizador desta terra : o padre grego Jules, morto – segundo a tradição – entre o fim do século 4º e o princípio do 5º, após ter edificado a sua centésima igreja.


A história despontou neste lugar, ao longo dos séculos, a sua marca majestosa, sem nunca conseguir apagar a graça e o encantamento produzidos pela sua beleza solitária. As águas atraentes e tão sedosas do lago conservaram uma espécie de clausura natural que não deixou de seduzir um grupo de monjas chamadas pelo bispo da época a tornarem-se guardiãs da herança de fé do santo evangelizador bem como da procura – nesses tempos atribulados e difíceis – de um lugar adaptado a uma vida de oração. É assim que a 11 outubro de 1973 começou a história da Abadia beneditina «Mater Ecclesia ».


A 21 março de 2019, dia do Transitus de São Bento, as irmãs em torno, com todo o seu afeto, do leito de Madre Anna Maria Cànopi, prodigaram-lhe o seu último adeus, ela que durante tanto tempo, quarenta e cinco anos, foi, pela graça, a Madre toda cheia de sabedoria e guia da comunidade. Ao longo do tempo, tinha sido uma personalidade amada e reconhecida por milhares de pessoas de todas as origens e camadas sociais. Nos dias que precederam o seu funeral deu-se conta das pessoas de lugares extremamente diversos, aproximando-se com grande emoção da urna da Madre para o último adeus…


Madre Anna Maria nasceu a 24 abril 1931 num bairro próximo de Pavia, no seio de uma família numerosa de agricultores na qual reinava um autêntico amor cristão, muito simples, mas expresso em profundas relações de afeto. Os seus irmãos e irmãs, vendo a sua compleição delicada, depressa compreendendo que não era da mesma constituição física que eles, decidiram então, de comum acordo com os seus pais, fazerem-na prosseguir os estudos. Provações familiares – não esqueçamos que eram os cruéis anos da guerra – não a pouparam, fazendo-a conhecer o sofrimento. Além disso, durante os estudos, teve que suportar o afastamento do lar, fazendo rapidamente experimentar a solidão da cidade, e abriu-a ainda mais a uma profunda ligação ao Único que pode preencher o coração humano… Além da frequência dos estudos universitários, paralelamente, tornou-se assistente social, comprometendo-se generosamente no serviço aos mais desprotegidos. Escreveu a este propósito: «Sentia uma imensa compaixão para com todas estas pobres pessoas, e porque me dava conta que tinham acima de tudo necessidade de salvação, senti-me cada vez mais atraída não tanto a fazer qualquer coisa de material por eles, mas a oferecer-me a mim mesma, toda inteira, na oração, unindo-me ao sacrifício redentor de Jesus, que só ele pode renovar o interior dos corações.» (Uma vida para amar, Interlinea, Novara 2012, p. 27).


Tendo compreendido que para dar Jesus aos homens teria de se consagrar inteiramente a ele, no silêncio e oração contínua, começou a amadurecer no seu interior a vocação monástica, e foi assim que entrou a 9 julho 1960 na Abadia de São Pedro e São Paulo, em Viboldone, nos arredores de Milão. Entre os sacrifícios e renúncias que mais lhe custaram, foi a interrupção de um começo de carreira literária promissor. Com efeito, alguns dos seus poemas haviam já atraído da atenção dos críticos. Bem depressa, no entanto, o Senhor devolveu-lhe largamente o que ela deixara por ele. As circunstâncias concretas puseram-lhe a pena nas mãos, pena que se torna desde essa época instrumento privilegiado do testemunho da sua fé: desde os primeiros trabalhos de revisão literária da nova tradução da Bíblia italiana, até à redação da Via Sacra no Coliseu, em 1993, desejada por João Paulo II – foi a primeira mulher chamada a uma tal iniciativa. Madre Cànopi, dotada de um estilo simples e claro, atravessada por um grande fôlego poético, chega assim a uma notoriedade em que nunca havia verdadeiramente pensado. Despontou uma obra consequente, feita de uma centena de livros traduzidos em várias línguas. Estes livros foram o fruto da sua lectio divina sobre a Palavra de Deus, ou também do ensinamento monástico, como por exemplo a obra «Mansidão, caminho de paz», que se revelou um sucesso inesperado, mesmo junto do público laico. Esta grande atividade literária era evidentemente fruto de todas as suas horas de oração, de retiros dados às irmãs, durante os diferentes períodos da sua vida monástica, e sobretudo de um imenso desejo de ajudar qualquer um a aproximar-se da Palavra de Deus.


Se o contexto envolvente dos começos da aventura deixava pressagiar uma espécie de vida semi-eremítica, na realidade, o germe da vida monástica caído entre as pedras floresceu com abundância, e floresceu para lá de toda a esperança. A pobreza que vivíamos era alegre, e deixava-nos tudo esperar da parte do Senhor. A oração do coro era a nossa principal atividade, acompanhada do trabalho manual, assim como da hospitalidade. Com efeito, desde os começos, numerosas foram as pessoas que desejaram partilhar a liturgia, a escuta da Palavra, e pôr-se na escola da orientação espiritual plena de amor da nossa Madre Anna Maria. Bem depressa, chegaram novas irmãs, e tivemos que resolver a espinhosa questão da restauração dos edifícios doravante demasiado obsoletos. O crescimento não parava, e fomos, se se pode exprimir assim, literalmente obrigadas a aceitar a proposta de fundar um priorado em Saint Oyen, no coração dos Alpes, depois um outro em Fossano no Piemonte. Cedo, estávamos igualmente em medida de enviar irmãs para ajudar outros mosteiros que necessitavam de ajuda. Atualmente, a nossa comunidade é composta de aproximadamente setenta monjas, provindas de outros países europeus e igualmente de outros continentes: América do Norte, América do Sul, África. Temos em comum o desejo de viver o Evangelho no seio da fraternidade monástica, a fim de reunir na oração o coração de cada irmão.


Na certeza que, segundo o ensinamento do nosso Pai São Bento, o mosteiro deve ser «casa de Deus», temos igualmente acolhido entre nós monjas que se encontravam em Roma para estudos, e que não podiam ir aos seus países de origem durante o tempo das suas férias. Isto abriu-nos o coração à riqueza do monaquismo vivido em culturas diferentes. Nasceram aí amizades duradouras… Aconteceu até que uma monja budista em particular se ligou de amizade com a nossa Madre. Esta atitude de grande abertura para com aqueles que se hospedavam entre nós ou nos escreviam, por exemplo missionários, ajudou-nos sempre a sentir «em casa » em todos os países do mundo, certas de que com a oração podíamos estar presentes em todo o mundo, lá onde outra ajuda humana seria impossível. Quando, a 11 outubro de 1980, Madre Teresa de Calcutá visitou a nossa diocese de Novara, foi pedido a Madre Anna Maria que lhe escrevesse uma carta em nome de todas as irmãs contemplativas de clausura. Neste texto de tonalidade profética, a Madre escreveu: «A tensão que te habita, o desejo ardente de universalidade que te faz ultrapassar todas as fronteiras, mantem-me toda imóvel sob a cruz para unir-me à única fonte que vence o ódio e consegue reunir o que está dividido.»


Este olhar todo dirigido para reunir a realidade de cada um, para dar uma nova esperança a cada homem, fez-nos profundamente sentir o coração da nossa sociedade tão doente de egoísmo, de desilusões, de solidões aflitivas e dolorosas. A Madre Anna Maria partilhava conosco, com uma grande sensibilidade, o peso de sofrimento e de dor que tantas pessoas vinham depositar cotidianamente no seu coração maternal, recebendo em retorno o reconforto de uma escuta cheia de amor. Nem os prisioneiros eram excluídos: segundo as suas próprias palavras, visitava-os espiritualmente todas as manhãs, antes de imergir na oração do coro, movida por um intenso desejo de acolher no seu coração todos os homens para apresentá-los ao Senhor. Durante muitos anos, manteve uma correspondência epistolar com certos detidos.


É a procura incessante, sem tréguas, do coração humilde, que sustenta a fidelidade de Madre Cànopi, hora a hora, dia após dia, neste testemunho amante de fidelidade à vida monástica. A Madre Anna Maria amava profundamente, naturalmente, a vida, como o bem mais precioso, o que lhe conferia um particular dom de intercessão junto de casais à espera de um filho. Nunca se sentiu «uma personagem excepcional», nunca adotou a atitude de uma «grande mestra », mas o seu comportamento constituía um eloquente testemunho. Uma indomável vontade acompanhou-a até aos últimos dias da existência terrestre. Estava sempre pronta a oferecer uma palavra a quem lhe solicitasse um conselho, e a agradecer a todos quantos, ao longo dos anos, haviam sustentado o crescimento da comunidade. Dotada pela natureza de dons excepcionais de inteligência e sensibilidade, purificadas pelo contato constante com o Senhor e a sua Palavra, abordava cada pessoa com a maior naturalidade, sabendo simplificar os problemas que lhe eram submetidos, fazendo partilhar a sua imensa compaixão, uma incrível capacidade para sofrer com os que sofrem, a alegrar-se com os que se alegram… Acima de tudo, foi uma mulher de paz, esquecida de si mesma, capaz de perdoar, ou melhor ainda, incapaz de se sentir ofendida. A sua divisa, Humiliter amanter, exprime aquilo que viveu. Apontou também à comunidade uma diretiva expressa na invocação Funda nos in pace: estabelece-nos nesta paz que é o próprio Cristo, nosso único amor e desejo.


À medida que com o tempo declinavam as suas forças físicas, parecia que, pelo contrário, acrescia a sua capacidade de acolher e oferecer com doçura cada despojamento vivido, até se tornar toda inteira oração. Tinha sempre entre os dedos o terço do santo Rosário, e não deixava nunca de seguir com a mais viva atenção a liturgia a partir do seu leito de doente.


Soube igualmente gerir com humildade e sabedoria a sua sucessão, participando da nomeação da abadessa que, após ela, teria a assumir cargo tão delicado. Tudo isto nos permitiu viver uma profunda continuidade na nossa história, e nos obriga a ir em frente sem ressentimentos estéreis sobre o passado.


Madre Anna Maria foi e permanece um imenso dom que o Senhor fez à sua Igreja, em particular ao mundo monástico. Reasseguradas pela promessa que ela mesma nos fez de permanecer sempre conosco, desejamos vivamente dar graças, continuando a viver tudo o que ela nos transmitiu, no seu ser inteiro. Somente assim poderemos, o mais dignamente possível, ser e permanecer suas filhas espirituais.`



Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/118



quinta-feira, 13 de abril de 2023

Formar as novas gerações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Irmã Sarah Laker,

Missionária Comboniana 


O Egito é o meu primeiro país de missão. Fiz os meus primeiros votos em 2019 como missionária comboniana e vim para o Egito para estudar árabe, a língua em que agora comunico. Embora este país do Norte de África seja muito diferente do meu país natal, o Uganda, adaptei-me gradualmente e sinto-me em casa entre os meus novos irmãos e irmãs. Nós, Irmãs Missionárias Combonianas, realizamos trabalho pastoral com os católicos que vivem neste país de maioria muçulmana e temos também compromissos no campo da saúde. Contudo, a nossa principal missão é na área da educação, especialmente em Assuã e no Cairo, onde me encontro.

Atualmente, somos seis irmãs em Helwan, um subúrbio localizado a cerca de 25 quilometros a sul da capital egípcia. Para a congregação, é um lugar de grande valor histórico porque a comunidade foi fundada no dia 1 de Agosto de 1888, apenas alguns anos após a morte de São Daniel Comboni. Aqui trabalho como professora de Inglês na escola primária feminina Sagrada Família. Do outro lado da rua está a escola dos rapazes com o mesmo nome, dirigida pelos Missionários Combonianos. 

Trabalho educativo

O dia começa muito cedo para nós. Às seis horas da manhã, já estamos na capela para a oração. A partir daí, começa a pressa, pois gostamos de chegar antes das alunas, mas muitas vezes isso não é possível. Como muitos pais começam a trabalhar muito cedo, e por vezes longe daqui, preferem deixar as suas filhas na escola para não enfrentarem o trânsito caótico do Cairo. Isto obriga-nos a chegar a tempo para que as meninas não fiquem sozinhas. Apesar do horário apertado, todas as manhãs, um pouco antes das oito horas, os professores e as freiras temos uma pequena reunião. Estamos convencidos de que o diálogo entre nós é importante para prosseguirmos com este serviço na educação.

A experiência na escola feminina de Helwan é muito enriquecedora e ajuda-me a viver apaixonadamente a minha vocação missionária. Sinto-me tocada pelo acolhimento das raparigas, que não hesitam em expressar o seu afeto com um abraço ou um sorriso.

Um aspecto interessante da nossa missão na escola de Helwan é a presença de raparigas cristãs e muçulmanas que estudam juntas como boas amigas. É bom ver como algumas famílias muçulmanas apreciam o nosso trabalho e escolhem enviar as suas filhas para uma escola cristã. É assim que vivemos a fraternidade, aquilo a que outros chamam diálogo inter-religioso, com simplicidade e espontaneidade todos os dias. Para mim, este é um verdadeiro testemunho do Evangelho. Jesus sempre insistiu no mandamento do amor, e é isso que procuramos e tentamos pôr em prática nesta escola.

Estou convencida de que a nossa missão educacional em Helwan é importante e tem impacto nas raparigas e nas suas famílias. Estamos a contribuir com o nosso testemunho para criar unidade num mundo dividido e isso dá-me grande alegria e sustenta-me no meu trabalho diário.’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/935/formar-as-novas-geracoes/

sábado, 26 de novembro de 2022

Uma vida ao serviço dos mais pobres

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo da Redação da Além-Mar


José Ambrosoli nasceu a 25 de Julho de 1923 em Como, no Norte da Itália. Depois do ensino secundário, José inscreveu-se na Faculdade Médico-Cirúrgica da Universidade de Milão, mas teve de interromper os seus estudos por causa da Segunda Guerra Mundial.

Após o armistício de 8 de Setembro de 1943 [Armistício de Cassibile, mais propriamente a rendição incondicional da Itália], arriscando a sua vida, comprometeu-se a ajudar um grande número de judeus, ex-militares e desertores da República Italiana, destinados aos campos de concentração nazis, a procurar refúgio na Suíça. As autoridades da República de Salò alistaram-no e enviaram-no com outros estudantes de Medicina para a Alemanha para o campo de treino em Heuberg (Estugarda). Durante este tempo, amadureceu a sua vocação missionária.

Após a guerra, retomou os seus estudos médicos e formou-se em 1949. Ingressou nos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Fez os seus primeiros votos e foi ordenado sacerdote a 17 de Dezembro de 1955. Partiu para África um mês e meio depois. Na missão de Kalongo fundou o hospital que serviu como médico-cirurgião por mais de trinta anos.

Médico da caridade

Em Kalongo, José contribuiu com o seu trabalho incansável para levar a pleno florescimento as obras de saúde da missão. Com o seu trabalho desenvolve o centro de saúde de Kalongo e consegue que seja declarado hospital. A estrutura é grande e funcional : 350 camas e 30 pavilhões. Também inicia uma escola para preparar obstetras e enfermeiras. Mais tarde, associou também o hospital de Kalongo aos centros que podiam atender os doentes de lepra.

O serviço do P.e José, realizado com tenacidade e fortaleza, foi constantemente inspirado por uma frase sua que o definiu e o fez entrar no coração de todos os que eram tratados por ele com total dedicação, infinita ternura e competência : «Deus é amor e eu sou seu servo para o povo sofredor.» O P.e José caracterizava-se pela sua grande hospitalidade e generosidade, foi para todos os que o encontravam a boa notícia do Deus Pai misericordioso.

Em 1984, os médicos detectaram-lhe uma insuficiência renal significativa e aconselharam-no a não voltar a África ou, no máximo, a dedicar-se apenas a tarefas administrativas e a abster-se de fazer trabalho que ocasionasse um grande desgaste físico, nomeadamente realizar operações.

Entretanto, a guerra civil, que varreu o Norte do Uganda, causou bastante problema ao P.e José. Os soldados do Norte, enfurecidos pela derrota, procuravam pessoas do Sul para vingar-se. O hospital estava cheio de ugandeses do Sul que tinham procurado refúgio. Mais de uma vez, o missionário teve de enfrentar soldados armados no portão do hospital, pois queriam entrar à procura de «inimigos escondidos».

Em Janeiro de 1986, o novo regime de Yoweri Kaguta Museveni instalou-se em Campala. Após alguns meses de relativa calma, os soldados acholis reorganizaram-se e lançaram um movimento guerrilheiro. Em Janeiro de 1987, o exército, incapaz de resistir à situação de assédio constante por parte dos guerrilheiros, forçou todo o pessoal de Kalongo a abandonar a missão.

Os missionários foram para a cidade de Lira. A única preocupação do P.e José era encontrar um novo lugar para a escola de parteiras, para que as alunas não perdessem o ano letivo. Depois de um mês de esforços e dificuldades intermináveis, a escola estabeleceu-se na missão de Angal, na região ugandesa do Nilo Ocidental.

A saúde do P.e José, já minada por graves insuficiências renais, agravou-se em resultado destes enormes esforços e sacrifícios. Quando regressou a Lira, no início de Março de 1987, para organizar a transferência das alunas e das religiosas responsáveis pela escola, adoeceu com insuficiência renal aguda.

Colaborou em tudo para se preparar e partir ao encontro de Deus. Coube ao P.e Marchetti, seu companheiro, colher as suas últimas palavras no dia 27 de Março de 1987 : «Senhor, faça-se a tua vontade – depois como um suspiro – mesmo que fosse uma centena de vezes.»

Beatificação

O P.e José foi beatificado no dia 20 deste mês de Novembro (a cerimónia foi adiada dois anos por causa da pandemia), na paróquia de Kolongo, lugar onde viveu e trabalhou como missionário. No dia 28 de Novembro de 2019, o Papa Francisco tinha autorizado a Congregação para as Causas dos Santos da Santa Sé a publicar os decretos relativos a três milagres, de entre os quais o milagre atribuído à intercessão do novo beato: uma senhora com um tumor maligno foi curada miraculosamente no hospital de Kalongo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1594553