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quarta-feira, 2 de julho de 2025

A terra fecunda da formação monástica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Mauro-Giuseppe Lepori, O. Cist.,

Abade Geral

 

‘Visitei recentemente uma comunidade de monges, e durante a minha estadia pude participar de uma conversa comunitária. O assunto era a expressão muito original de um artista cristão. Conversava-se sobretudo sobre as imagens de suas obras, mas sobretudo alguns dias antes tínhamos visto um vídeo sobre ele, sobre sua caminhada humana e artística. O diálogo entre os irmãos foi muito profundo, pois cada um tinha-se deixado tocar, muito pessoalmente, pelo testemunho desse artista. No fim o abade disse que naquele ano, por causa da situação criada pela pandemia, eles tinham tido poucos momentos de formação estruturada, com convites de professores para cursos e sessões. Ele se preocupava com a formação permanente, justamente porque ao longo de anos isso tinha desenvolvido uma bela cultura de partilha, de diálogo, de escuta e de palavra.

Tomei ainda mais consciência que a formação monástica é viva e eficaz, quando encontra numa comunidade um campo trabalhado, um campo que se deixa trabalhar para acolher a semente, deixá-la germinar, crescer e dar fruto. Ou então, para usar uma outra imagem talvez mais expressiva no âmbito da formação, se a comunidade se dispõe a ser argila bem misturada, trabalhada com a água, com justa consistência, para permitir que o oleiro lhe dê a forma bela e útil, que lhe quer dar.

Em resumo, quando uma comunidade trabalha na sua própria conversão, quando se forma como comunidade filial e fraterna, quando é, como diz São Bento, um espaço de estabilidade obediente – quer dizer de silêncio, de escuta, na conversatio morum, num caminho de conversão de comunhão, que a torna viva, então tudo contribui para a sua formação, tudo se torna para ela e para cada membro que a compõe, ocasião para crescer, para aprofundar e se dilatar na forma perfeita de Cristo, o Filho bem-amado, que o Pai quer imprimir em nós, pelo dom do Espírito. Só uma comunidade que aceita ser um campo de construção pode tornar-se uma casa, uma morada e sobretudo um templo da presença de Deus. Sem isso, mesmo os melhores cursos e sessões, com os melhores mestres e professores, não conseguem formar e fazer crescer uma comunidade e seus membros.

Conheço comunidades pequenas e frágeis que não podem mais conseguir formadores externos e qualidade, mas que são tão unidas na humildade e no desejo de conversão, que cada migalha de verdade, de beleza vinda não importa de onde, nem de quem, se torna semente de formação e de edificação. Tudo nos forma se tivermos um coração humildemente aberto para a conversão, que a conversatio monástica e comunitária nos oferece e nos pede. Isto faz comunidades aonde se percebe o coração meditativo da Virgem Maria, vigilante para nada perder do acontecimento do Verbo-Esposo. Se falta esta atitude, uma comunidade pode dispor da formação mais abundante e refinada, sem que isso a forme verdadeiramente. A melhor semente fica estéril, se em vez de cair num campo lavrado, cair no mármore mais precioso e polido.

Para que qualquer formação seja fecunda, não se deve esquecer o humus, a terra. Quem não trabalha a terra, não terá frutos no tempo desejado. E aqui está a grande sabedoria da formação monástica : começa por baixo, para que mesmo que vem do alto, como a Palavra de Deus e o seu Espírito, possam achar acolhimento, abertura, quer dizer uma liberdade que pede e deseja, e que abre a porta quando o Verbo bate.

São Bento entendeu, na escola do Evangelho e dos Padres, que nada trabalha a terra melhor que a vida comunitária. Viver em comunidade torna a conversão verdadeiramente formadora. Sem um meio comunitário, que guia, cede-se à tentação, velha como o pecado original, de querer modelar-se com as próprias mãos. Mas as nossas mãos só fazem maquiagem, fazendo-nos olhar narcisisticamente ao espelho de nossas ambições e vaidades. Quando, pelo contrário, a nossa liberdade consente que a vida comunitária e a obediência nos trabalhem, para nos formar segundo o desígnio de Deus, então, lentamente, descobrimo-nos modelados, a partir do mais profundo de nós mesmos, para que o dom verdadeiro da nossa vida dê fruto.

Neste sentido, o tempo de pandemia foi uma grande provação para as comunidades monásticas. Por um lado, descobrimos, como toda a gente, os meios de formação partilhada à distância, que oferecem às comunidades mais frágeis novas oportunidades de formação. Mas esta oportunidade revela também um grande limite : favorece a comunicação formadora, mas não a comunhão formadora. A formação  on-line é excelente para nos informar, mas não consegue nos modelar. É como se aprendêssemos a teoria da olaria, mas sem sujar as mãos na argila. Mais ainda : é como se um oleiro mostrasse à argila os gestos que a modelam, mas sem a tocar. É preciso, então, que a argila encontre mãos que se encarreguem de a trabalhar. E aqui voltamos à necessidade de uma verdadeira conversatio comunitária, que aliás, se tornou particularmente sensível, quando o confinamento obrigou as comunidades monásticas a viverem numa verdadeira clausura.

Quando em 2020 fomos obrigados a fechar o Curso de Formação Monástica, que existia há 20 anos, durante um mês, na Casa generalícia cisterciense em Roma, nos perguntamos se não seria necessário substituí-lo por cursos on-line. Mas à parte a dificuldade prática de reunir virtualmente alunos espalhados desde a Ásia às Américas, foi evidente, para nós, que não podíamos reduzir este curso de formação a simples aulas. Faltaria a dimensão comunitária que permite aos professores começar logo a fazer germinar na vida real dos participantes, ensinando-lhes a dinâmica integral da formação monástica, que não é somente semente, mas também terra que acolhe, que não é só palavra, mas também coração que escuta para viver em comunhão.

Quando se medita o primeiro capítulo da Regra de São Bento, sobre os diversos gêneros de monges, percebemos que a verdadeira diferença entre os dois bons modelos de monges, os cenobitas e os anacoretas, e os dois maus modelos, os sarabaítas e os giróvagos, está na escolha, ou na rejeição de se deixar formar por alguém, que não sou eu. Os cenobitas e os anacoretas confiam o desejo de plenitude de vida e de santidade nas mãos de Deus e de uma comunidade guiada por uma Regra e um abade; os sarabaítas e os giróvagos seguem a tendência individualista, que temos desde o pecado original, de não confiar a formação às mãos de um outro. Todos são barro destinado a ter uma bela e útil forma, mas os primeiros permitem que Deus e a comunidade os modelem, enquanto que os outros se deixam levar, tomando a forma, sem forma, da inclinação em que escorregam. Os primeiros confiam o seu desejo de vida e de alegria a um caminho que o realiza; os outros confundem o desejo profundo do coração com a tendência dos instintos e deixam-se guiar pelas próprias tendências, que não levam a lado nenhum. Pois a tendência dos instintos é um desejo deteriorado, que se fecha sobre si mesmo, renunciando ao infinito para o qual deveria estar tendido.

A formação monástica, como toda a formação humana e cristã, é um assunto sério, seu objetivo não é a perfeição do saber, incluindo o saber como fazer, mas a plenitude da vida, para a qual fomos criados pelo Pai, resgatados pelo Filho e animados pelo Espírito; plenitude para a qual nos é dado o Corpo do Cristo, que é a Igreja, até à pertença imediata à comunidade, que nos foi dada, para que a forma de Jesus se torne a substância da nossa vida em todas as suas relações.’ 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/120

sexta-feira, 13 de junho de 2025

A formação dos beneditinos e das beneditinas na Coreia do Sul

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Irmã Marie-Enosh Cho, OSB
Prioresa de Busan, Coreia do Sul
 

I- Formação inicial e noviciado

‘Cada Congregação faz seu próprio programa de formação para o período inicial. A formação é sobre a oração, o estudo, o trabalho, a vida comunitária : pode haver seminários, ou sessões para melhor compreender a natureza humana.

Entre a entrada na comunidade e a primeira profissão passam, em geral, quatro anos para as mulheres (um ano de aspirantado, um ano de postulantado, dois anos de noviciado) e dois ou três anos e meio para os homens.

Certas Congregações têm suas aulas sobre espiritualidade, catequese e teologia na formação inicial; outras enviam os candidatos/as para o Instituto de teologia de uma outra Congregação religiosa ou diocesana. Durante esta formação insiste-se na vida de oração, na educação, na experiência da vida religiosa.

- Cursos : Bíblia, teologia dogmática, liturgia, espiritualidade, psicologia, doutrina social da Igreja, regra de São Bento, constituições, estatutos, usos e costumes da Congregação, psicologia, ecologia, inglês, latim, música litúrgica, órgão.

- Seminários sobre compreender-se a si mesmo, (auto conhecimento), as relações, a comunicação.

- Acompanhamento espiritual regular e ajuda psicológica, se necessária.

- Experiência temporária de apostolado. 

II- Juvenato

1- Duração

. Mulheres : 5 a 6 anos

. Homens : 3 a 7 anos

2- Conteúdo da formação

Para as mulheres :

– orientação espiritual com a Mestra das professas temporárias : reuniões e retiros regulares;

– ‘Segundo noviciado’ de um ano antes dos votos perpétuos : trabalho e estudos; retiro inaciano de 30 dias;

– reuniões regulares de jovens professas no seio de cada Congregação;

– formações diversas sobre as missões de apostolado;

– trabalho no seio da Congregação e / ou missões apostólicas para a Igreja;

– experiência da missão e estudo de inglês para as futuras missionárias;

– encontros regionais mensais para as professas temporárias.

Para os homens :

– estudos de filosofia e de teologia em vista do sacerdócio. Os monges que não são destinados a ser padres estudam também a teologia e outras matérias necessárias para a missão apostólica;

– participação em seminários de psicologia espiritual para a compreensão de si mesmo (autoconhecimento);

– aconselhamento individual ou em grupo;

 – participação em missões e obras apostólicas.

Para os homens :

– estudos de filosofia e de teologia em vista do sacerdócio. Os monges que não são destinados a ser padres estudam também a teologia e outras matérias necessárias para a missão apostólica;

– participação em seminários de psicologia espiritual para a compreensão de si mesmo (autoconhecimento);

– aconselhamento individual ou em grupo;

 – participação em missões e obras apostólicas. 

3- Programas de formação intercongregacionais

Reuniões anuais para jovens professos das ordens beneditinas coreanas.

Conferências internacionais para os jovens professos de cada congregação.

III- Formação contínua

1- Programas de formação contínua organizados independentemente por cada Congregação

Para as mulheres :

– participação em programas de formação contínua propostos cada ano e também sobre a doutrina da Igreja, a renovação da vida religiosa, o conhecimento da natureza humana;

– participação em programas de formação contínua organizados pelas Congregações;

– retiro de 30 dias por ocasião de 10, 25 e 40 anos de profissão religiosa;

– participação no programa de formação para uma renovação, seis a doze meses antes, ou depois do jubileu de prata (25 anos);

– seminários de formação para as irmãs (mais velhas);

– peregrinação ao estrangeiro.

Para os homens :

– participação nas formações e seminários previstos no seio da Congregação;

– peregrinação ao estrangeiro.

2- Participação em cursos

Estes cursos sobre o crescimento pessoal, o meio-dia da vida, a responsabilidade pelos movimentos são propostos pelo Instituto de Teologia e o Instituto de Formação e organizados pela associação dos superiores maiores. 

IV- Seminários e Encontros para Responsáveis de Formação

1- Preparação destinada aos formadores que assumem a formação inicial ou contínua.

Depois da profissão perpétua, cursos sobre teologia, Escritura, Monaquismo, Regra de São Bento, Psicologia espiritual etc.

Cursos de formação de formadores na Coreia ou no estrangeiro.

Formação para o acompanhamento espiritual : a associação dos superiores maiores anima um estágio de um ano. 

2- Formação contínua dos responsáveis de formação

Os formadores reúnem-se cada ano : fazem o programa das reuniões e organizam as sessões sobre os assuntos escolhidos.

As reuniões de formadores são muito ativas na associação (formação inicial, formação contínua, vida religiosa e idade avançada…)

Participação em encontros internacionais de formadores organizadas pela Confederação Beneditina. 

V- Formação dos Superiores

A Associação dos Superiores Maiores organiza Conferências e reuniões para os superiores e superioras beneditinos.

Os superiores das congregações reúnem-se também para ouvir conferências, ou falar sobre um assunto determinado.

Os superiores das pequenas comunidades beneditinas reúnem-se cada ano para sua própria formação e para falarem de seu cargo e de sua responsabilidade.

Há também reuniões para os celeireiros (as). 

Informações suplementares sobre formação dos beneditinos coreanos

As Ordens beneditinas presentes na Coreia pertencem às Congregações dos Beneditinos de St Otilien ou de Tutzing (Alemanha), irmãs Olivetanas (Suíça), irmãos Olivetanos (Itália). Estas Congregações – com exceção da dos irmãos Olivetanos que se instalaram na Coreia do Sul nos anos 1980 – todas começaram na China ou na Coreia do Norte, país agora sob regime comunista. As comunidades que viveram expatriações, exílios e prisões por parte dos governos comunistas, foram para a Coreia do Sul.

Os beneditinos coreanos cresceram e encontraram estabilidade; podem dar testemunho da espiritualidade beneditina na Igreja católica coreana e servem a Igreja em diversos ministérios apostólicos.

As Beneditinas de Tutzing e as Olivetanas não são de clausura e assumem ministérios apostólicos; formam um grande grupo, com centenas de membros. O que distingue a vida das irmãs beneditinas coreanas é que têm ministérios apostólicos e vivem em pequenas comunidades.

Mesmo se o número de vocações diminuiu muito na Coreia, nos últimos 20 anos, ainda é muito grande em relação a outros países, e é provável que isto se deva ao esforço pela formação inicial e aos estudos. A Coreia era um país de missão; a catequese, a teologia, a Escritura, a Espiritualidade foram consideradas primordiais para a formação inicial e o aprofundamento do espírito cristão; tudo isto influenciou favoravelmente a aprendizagem e a compreensão dos princípios fundamentais da vida consagrada.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

sábado, 7 de junho de 2025

Experientia, uma experiência de formação contínua - Parte 1

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Dom Eamon Fitzgerald, OCSO

Abade Geral 

‘Uma coisa que aprecio neste programa é o modo como ele surgiu. Fui, de fato, espectador interessado e testemunha de sua gênesis, desde o Capítulo Geral de 2014. E, para mim, ele parece-se com a parábola do grão de mostarda do Evangelho.

Quando da reunião da Comissão Central no fim do Capítulo Geral de 2014, a Irmã Marie Mouris do Mosteiro Val d’Igny, foi eleita Secretária Central para a Formação. Seu primeiro trabalho foi informar-se sobre o que tinha sido dito no Capítulo a respeito da formação e também sobre as necessidades das comunidades neste assunto. Para ter dados de primeira mão, ela escreveu aos abades e abadessas da Ordem para perguntar quais as necessidades e desejos, e também para saber se eles podiam indicar membros disponíveis nas suas casas, dispostos a ajudar as comunidades que precisam. Entre as respostas havia uma sugestão de uma carta circular, que pudesse ser difundida para partilhar informações sobre o que se faz, em matéria de formação, tanto nas Regiões, como nas comunidades : sessões, cursos ou outros seminários. A sugestão foi logo posta em prática e a Newsletter já circula regularmente entre as secretarias da formação na Ordem e até mais amplamente. Esta iniciativa é muito apreciada. Permite uma partilha de informações, estimula a reflexão e encoraja a comunicação, assim como a relação entre as secretarias, promovendo ao mesmo tempo a colaboração entre elas.

Ir. Marie escuta; pensa também rapidamente. Durante o ano de 2015 ela perguntou : ‘Como podemos fazer as Regiões refletirem sobre a intuição que apareceu no Capítulo de 2014 sobre a formação? A intuição a que ela se referia, tinha sido expressa em forma de pergunta por um dos Membros do Capítulo : ‘Como podemos promover uma formação mística integral’? Ir Marie conseguiu convencer 7 abades ou abadessas a escreverem sobre este tema a partir de suas experiências. Deste trabalho surgiu uma pequena Coletânea, que foi calorosamente recebida.

O nosso Programa de Formação (Ratio Institutionis) fala da comunidade como ‘formadora’. Esta afirmação, aliada à convicção pessoal de Ir. Marie, assim como à experiência de certas Reuniões regionais, levou a pensar que seria bom imaginar uma proposta simples de formação permanente dos irmãos e das irmãs de todas as idades. Isto nos daria ocasião de voltar, juntos, às nossas raízes cistercienses, de aprofundar a nossa identidade, de encorajar o estudo individual e a lectio.

A Comissão Central se reuniu em 2016 e encorajou esta ideia quando discutiram o projeto de Ir. Marie, e aconselharam a procurar uma pessoa capaz, a nível de competência e de experiência, para supervisionar tal projeto. A Comissão sugeriu o P. Michael Casey de Tarrawarra e, generosamente, ele aceitou. Foi formado um grupo que trabalhou sob sua orientação, e juntos, elaboraram o programa. Ir. Marie, no Capítulo Geral de 2017, apresentou detalhadamente o conteúdo, e também o método. Os Membros do Capítulo votaram seu apoio e encorajamento a favor do programa, como excelente para ser apresentado às comunidades da Ordem.

O programa chama-se EXPERIENTIA. Visa permitir aos monges e monjas de hoje refletirem sobre a sua experiência da vida monástica, e confrontá-la com textos escolhidos na tradição cisterciense e monástica. Desta maneira, a longa experiência destilada pela nossa tradição, poderá iluminar a nossa experiência atual, e encorajar, motivar e orientar a nossa maneira de viver a graça cisterciense no mundo contemporâneo. Nove campos de experiência foram definidos, que correspondem a aspectos importantes da vida humana e monástica. Eis alguns : ‘o caminho percorrido’, ‘o desejo libertado dos desejos’, ‘a comunidade’, ‘a oração’, ou ainda a ‘diminuição’. Como os títulos sugerem claramente, este programa não diz respeito somente aos monges e monjas mais dotados para o estudo, os universitários, ou os intelectuais entre nós, mas está concebido para os monges e monjas comuns. No fundo, o programa visa encorajar a reflexão sobre a experiência humana autêntica, e leva a perguntar-se como vivê-la bem, como monges e monjas que pertencem a esta tradição particular de vida evangélica, que se expressa na Regra de São Bento e na tradição cisterciense.

Quero aqui dizer minha gratidão ao P. Michael e aos membros do grupo que elaboraram o programa, assim como àqueles que tiveram um papel na sua realização. É um projeto da Ordem, tanto na sua concepção, como na sua realização. É fruto de simplicidade, sem pretensões. Nasceu de um espírito de escuta atenta, alimentou-se com o amor pelo nosso carisma cisterciense, vivido em toda a sua diversidade pelo mundo, e com a inteligência, clareza do objetivo e competência. Recomendo-o calorosamente a todas as comunidades da Ordem. Possa Experientia encontrar hospitalidade, ser acolhida, nos nossos mosteiros, não somente como algo mais para as nossas bibliotecas e arquivos, mas como um bom instrumento de trabalho, que nos permitirá viver nossas vidas no mundo de hoje, com serenidade e ardor, na comunhão do amor do Cristo. Possa este programa nos conduzir juntos à vida eterna!’

 

[1] Prefácio ao Volume 1 da Experientia, disponível no site da OCSO: https://www.ocso.org/formation/experientia. Cortesia de Dom Eamon Fitzgerald.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

sábado, 1 de março de 2025

Formação teológica e renovação monástica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pontificio Ateneo Sant'Anselmo, Roma
 

*Artigo de Dom Bernhard A. Eckerstorfer, OSB

Reitor do Ateneu Santo Anselmo, Roma


‘Lendo as novas publicações teológicas e monásticas, impressiona constatar que uma grande parte toca os desafios do nosso tempo. Não há dúvida de que estamos sendo confrontados com uma mudança, e até mesmo, para muitos, uma mudança para uma nova época. Como a Igreja no seu conjunto, também os mosteiros se esforçam por encontrar novos caminhos para o futuro. Esta procura é mesmo urgente quando a sobrevivência da comunidade depende disso. Nesta perspectiva a questão da formação para os beneditinos é de grande atualidade e por isso, explosiva. Mostra se, e como, a renovação monástica pode dar certo.

Este nº da AIM usa a palavra chave ‘hoje’ para apresentar a temática da formação. A formação monástica sempre se esforçou por transmitir a vida beneditina numa consciência desperta para a realidade de cada época. Houve, evidentemente, muitas vezes, um modelo único, considerado duradouro, pois os modelos de igreja e de sociedade também perduravam por várias gerações. Mas a nossa situação atual é muito confusa : em pleno meio de mudança de época, as coisas que antes eram evidentes, agora não o são mais; mas os novos paradigmas ainda não se impuseram, ninguém sabe como vai ser o futuro. Todos pressentimos que é preciso engajar-se em novos caminhos. Mas quais para chegar a novos horizontes?

Na situação atual estou convencido que a teologia é um fator decisivo para a formação dos beneditinos e para a nova orientação das nossas comunidades. Mas há que ter em conta outra coisa : o monaquismo poderá igualmente ter um papel importante na renovação da teologia. Como na vida política, social e cultural em que se constata uma desorientação, até mesmo uma ruptura com as antigas instituições e os modos de pensar, até então globalmente bem recebidos, há uma transição na Igreja e na teologia. Neste domínio a palavra ‘crise’ está em todas as bocas. A etimologia da palavra pode ter um papel revelador : crise significa discernimento, decisão, e exige mesmo as duas coisas.

Gostaria de tratar do assunto que me foi pedido em três pontos. Abordaria primeiro a iniciação monástica, seu sentido e formas. Fui Mestre de noviços durante doze anos, e ao longo desse tempo experimentei a necessidade de iniciações fundamentais. Depois gostaria de reler a prática monástica como um lugar teológico. Finalmente gostaria de apresentar o papel da universidade na renovação da vida monástica.

A formação monástica como processo teológico

Nos mosteiros constatamos que a transmissão da fé se faz essencialmente pela prática de um certo tipo de vida. Estando numa sociedade religiosa homogênea, seus pontos de vista, seus usos e costumes são considerados como evidentes – pois que são partilhados e sustentados pela maioria. A partir do momento que entramos num mundo pluralista, em que a fé é uma opção, como qualquer outra, é preciso refletir sobre os atos feitos até então de maneira automática, não para os perder, mas para os traduzir de outra maneira, para que sejam compreendidos no contexto atual.

Quando alguém entra no mosteiro, começa um processo de aprendizado complexo. Integrados nas práticas comunitárias, muitos elementos são conscientizados ao longo dos primeiros anos; conscientizados quer dizer pensados e, portanto, postos em questão. Este trabalho é importante para a pessoa se apropriar dos modos de fazer, que estão enraizados na comunidade. E é assim, que pela entrada de cada novo membro na comunidade, a vida monástica se renova, atualizada no processo de apropriação comunitária e individual, vivificado pelo sentimento de viver no hoje. Assim a vida monástica se mantém viva.

A introdução à vida beneditina é um processo teológico. O monaquismo sempre viu o monge como uma pessoa que procura a Deus, e isso exige um modo de pensar bem ajustado ao modo de vida. Para se ser teólogo, no primeiro sentido do termo, não precisa fazer um doutorado em teologia. São as pessoas espiritualmente competentes que levam uma vida ‘teológica’ e que aí introduzem os outros. Gostaria de ilustrar com um testemunho pessoal como a iniciação de base é essencial. Entrei no mosteiro com 29 anos, depois de longos estudos no meu país e no estrangeiro. O Abade e o mestre de noviços me disseram : ‘já tens um doutorado em teologia, o que poderemos ensinar-te ainda?’ Eles pensaram que poderia ajudar uma missa pontifical, sem dificuldade. Ora eu nunca fui coroinha, e nunca me ensinaram nada sobre cerimônias pontificais durante meu curso de teologia protestante, na América do Norte, estava bem mais atrapalhado e desajeitado do que meu co-noviço, que tinha vindo diretamente da escola monástica para o noviciado.

Meu mosteiro superestimou a importância dos meus estudos universitários para a vida monástica; por outro lado subestimou a necessidade de uma iniciação monástica para um jovem teólogo. Esta iniciação faz-se por osmose. Em todos os mosteiros há irmãos e irmãs que vivem sua vida monástica fielmente há anos. Estão espiritualmente bem modelados, e tornam-se modelos para a geração seguinte, mais pelo que são, do que pelo que fazem, mais pelo seu ser do que pelos seus discursos. Quando penso nos meus primeiros anos monásticos, foram eles os meus mestres, incluindo o abade e o mestre de noviços, de quem já falei, que não se consideravam grandes teólogos.

É evidente que tive de aprender a minha nova identidade; tive de entendê-la refletindo. Durante o noviciado foi-me dada a oportunidade de ler, entre outras obras de base, uma boa parte das obras do meu novo padroeiro São Bernardo de Claraval. Foi uma nova experiência de aprendizado. Pude saborear a leitura sem estar sob a pressão de valorizar o que tinha lido em provas ou deveres acadêmicos. Aprender a ler os grandes textos do monaquismo e da história da espiritualidade não foi fácil nem evidente. Foi uma bênção que logo após o noviciado fui enviado para Santo Anselmo por dois anos, ali onde já mais de 100 de meus irmãos tinham estudado durante decênios. O Credo do nosso abade na época era : ‘Cada um dos irmãos deveria ter a possibilidade, se quiser, de passar pelo menos um semestre em Santo Anselmo’.

Em Roma encontrei uma teologia nova para mim. De repente vi-me a rezar e a comer com os professores e os estudantes. Eis um semestre em Santo Anselmo, o segredo da formação dos beneditinos. O modo de viver e o modo de pensar interpenetram-se. No entanto, a reflexão teológica sobre a vida beneditina estava no primeiro plano. Acedi a essa reflexão por meio de alguns cursos, porém mais ainda pela atenção pessoal de teólogos beneditinos que me ajudaram a integrar minha formação teológica antecedente na vida monástica. É, justamente, esta mistura entre um estilo concreto de vida e uma compreensão mais profunda que caracteriza a vida monástica. Esta junção não pode resistir às exigências da vida atual, separar-se em diferentes setores sem ligação uns com os outros.

Pouco antes de minha profissão solene passei por uma crise. Outros modos de vida me atraíram e tive a impressão que os meus quatro anos de monge eram uma experiência que tinha chegado ao fim. Olhando para trás, tomei consciência que minha decisão de me engajar pela profissão monástica se deveu, em grande parte, à reflexão teológica, que pude fazer sobre meu novo gênero de vida, incluindo os contatos que fiz com o monaquismo mundial, sobretudo durante meus dois anos em Santo Anselmo.

O exercício concreto da prática monástica

O germe de uma renovação beneditina está nas práticas monásticas que é preciso redescobrir, compreender de novo e pôr em prática de modo atualizado. A formação monástica não serve para nada, quando pressupõe demais. Nada é evidente quando temos de lidar com jovens nas nossas comunidades. Partamos do mais elementar : as experiências que nos parecem banais na vida cotidiana devem ser repensadas. Que atitudes ter? Quais são os ritmos e as estruturas que nos dão estabilidade? Convém não só imitar o gênero de vida monástico, mas de o compreender a partir do interior, e – por consequência – pô-lo em questão, e mudá-lo; até mesmo transformá-lo. Para isso é preciso pôr em ação uma mistagogia das práticas monásticas, para desenvolver os elementos fundamentais na sua rica tradição – mas também transferi-los para o mundo contemporâneo : stabilitas e conversatio, a pequena cela monástica e o grande recinto claustral, a leitura e a autodisciplina, a solidão e a comunidade etc.

Um ponto essencialíssimo é aprender uma nova maneira de ler. É impossível a nível mundial, prever o impacto da revolução digital nas nossas civilizações e a mudança que isso terá na sociedade. Pode dar novas possibilidades ao monaquismo. Mas não fechemos os olhos ao fato que ela impõe uma realidade estranha ao espírito beneditino. Os media baseiam-se em mensagens concisas, com sinais e abreviações que são atuais enquanto duram e cujo acesso é temporário. A abertura numérica ao mundo não combina com o processo refletido e a redação laboriosa de escritos cuidadosamente construídos, nem com a cultura livresca tradicional, mas será que os mosteiros podem passar sem os meios digitais?

Na lectio os jovens irmãos adquirem não só conhecimentos religiosos, mas também competência teológica : poder passar uma hora, ou pelo menos meia hora exclusivamente para ler, cada dia, e isto durante meses e anos! Na meditatio a leitura sedimenta-se e torna-se sabedoria. Sapientia vem de sapere, que se pode traduzir por ‘saborear’. É o fundamento da oratio. Mas quanta paciência e perseverança são precisas para chegar lá, e justamente no nosso mundo tão capaz tecnologicamente! O ensino no noviciado deve encorajar a leitura de textos teológicos, que deverão depois ser discutidos. Nesta partilha não se trata de dizer logo o que eu acho, mas ‘que diz o autor?’ o que significa ter compreendido bem o texto.

A formação monástica deve permitir uma compreensão mais profunda da realidade e estabelecer o laço entre a leitura constante de pedaços do texto e um experiência de leitura holística. Vejamos se nossos mosteiros são viáveis : a biblioteca é ainda um lugar de vida, ou é um armazenamento, ou no melhor dos casos uma sala de exposição de um passado de uma procura viva de Deus? Uma missão teológica do monaquismo hoje não seria fazer renascer a cultura da leitura? Não seria a primeira vez que os mosteiros seriam vetores, transmissores de civilização.

Do mosteiro à universidade e vice-versa

Hoje, mais do que no passado, constatamos que os candidatos precisam de uma iniciação à fé. O monge forma-se exercitando-se a saborear a leitura e a descobrir nela todo um universo de significado religioso. Um professor de teologia experimentado, de uma universidade do Estado me dizia um dia : ‘os que fizeram um noviciado estudam de maneira diferente’. Mas eu devo dizer que, pelo menos conforme minha experiência na Europa Central, alguns dos que entram nos nossos mosteiros têm aversão à teologia universitária. Isso vem, provavelmente, por causa de uma diminuição científica, quando a teologia é estudada como uma ciência sem ligação com a fé vivida. Mas por outro lado, revela também a falta de consciência do que a teologia acadêmica pode e deve fazer para os nossos mosteiros.

O ensino e a pesquisa teológicos na universidade, em diálogo com as outras disciplinas, oferece um quadro próprio para a prática e a reflexão acima descritas. Depois de ter passado vinte anos no meu mosteiro na Áustria, reencontro em Santo Anselmo a liberdade oferecida pelo quadro acadêmico, no qual os estudos são prioritários, mas não separados da vida espiritual. Assim os estudantes podem consagrar-se a uma especialização em filosofia, teologia e/ou liturgia fazendo frutificar as outras coisas que os atraem. A crise do Corona mostrou como a missão educativa pode ser realizada por meio das novas tecnologias. Continuamos com o ensino direto, que integra uma discussão pessoal no lugar e faz valorizar a cidade de Roma, e nela da Igreja universal, como experiência teológica. No entanto, alargamos sempre mais nossas possibilidades ‘on line’ para abrir para as pessoas que não podem vir para a Cidade Eterna uma participação no ensino e na pesquisa de Santo Anselmo.

Não devemos subestimar o trabalho de colegas religiosos, ou faculdades de Estado que contribuem para vivificar e tornar plausível nossa existência beneditina. Conforme posso observar, as novas fundações monásticas vão juntamente com uma reelaboração teológica, enraizando-se nas fontes do monaquismo; como havia previsto o Vaticano II, uma volta às fontes, junto com a procura de modalidades adaptadas às condições atuais (aggiornamento). A teologia científica pode, neste domínio, dar uma grande contribuição. A fé vivida, tal como se expressa nas práticas monásticas, necessita de uma reflexão crítica e da apresentação da rica Tradição neste nosso tempo. Isto protegerá os nossos mosteiros de se fecharem no unilateralismo, no devocionismo e nas ideologias de todo o tipo.

Os mosteiros ricos de sua tradição monástica têm muito a dizer ao mundo universitário de hoje. O decano da faculdade de teologia de uma universidade do Estado declarou recentemente, que lamenta que a teologia universitária não apareça na sociedade e na cultura de hoje. Vemos que o mundo leigo está interessado no testemunho vivido da fé (no testemunho de uma fé viva). Quando se pratica a teologia como uma forma inspirada pela experiência da fé e a expressão de uma liturgia viva, então as outras disciplinas (acadêmicas) começam a interessar-se e até as pessoas que estão à procura de alternativas convincentes. Ao menos para a Europa Central, posso testemunhar que para além de todas as crises que afetam atualmente a Igreja e seu trabalho pastoral tradicional, do qual os mosteiros não estão excluídos, o interesse pela vida beneditina é grande e constante, tanto nos que creem, como nos céticos. Encontram nos mosteiros a realização de suas aspirações por uma ‘vida alternativa’ e gostariam de se inspirar na riqueza e na força espiritual das antigas tradições. Isto deveria nos encorajar em nossos mosteiros a ajustar nosso tipo de vida beneditina com uma maneira de pensar adequada, desde o noviciado até aos altos níveis de formação religiosa. O monaquismo poderia assim contribuir para uma teologia renovada, no seio de uma Igreja missionária, que, segundo o Papa Francisco não deveria contar só com os especialistas das universidades de teologia e os burocratas da organização eclesial.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

“Precisamos de uma formação litúrgica séria e vital”

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Irmão Patrick Prétot, OSB

Abadia de la Pierre qui Vire (França)

 

‘A carta Desiderio desideravi do Papa Francisco, publicada em Roma em 29 de junho de 2022, é um ato importante deste pontificado em termos de liturgia [1]. É certo que ela parece tratar de uma questão específica, a saber, ‘a formação litúrgica do Povo de Deus’, mas, na realidade, ela aborda a questão litúrgica hoje, pois é apresentada pouco mais de 50 anos após a reforma geral solicitada pela Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II (4 de dezembro de 1963). Sem pretender oferecer um comentário detalhado sobre o texto, o objetivo aqui é introduzir sua leitura, destacando algumas das questões em jogo nesse documento magisterial. Em um cenário de mudanças aceleradas, Desiderio desideravi desvia o foco dos debates ruins em que a Igreja parece ter ficado presa desde a reforma solicitada pelo Concílio Vaticano II [2]. O papa reposiciona a reflexão, por um lado, sobre a formação e, por outro, sobre uma dupla questão à qual ele atribui grande importância.

Por um lado, ele está questionando a capacidade do homem moderno de entrar em um processo simbólico e, portanto, no universo relacional no qual a liturgia cristã se baseia. A publicação, em 17 de julho de 2024, de uma carta ‘sobre o papel da literatura na formação’ é um documento no qual a preocupação do Papa Francisco com a ‘capacidade simbólica’ do homem contemporâneo [3] é expressa com força especial. Na liturgia, a questão é se, e se sim, como a vida litúrgica de hoje pode oferecer um caminho de encontro com Deus.

Por outro lado, o Papa denuncia incansavelmente duas tendências profundamente arraigadas que ele descreve como ‘o veneno do mundanismo espiritual’ : o ‘neopelagianismo’, que tende a enfatizar o trabalho do homem com o risco de transformar a liturgia em uma performance ritual, e o ‘neognosticismo’, que tende a reduzir a liturgia a um conhecimento destinado a uma elite. Nesse ponto, o Papa traz para a Igreja os reflexos do mundo latino-americano, que leva muito a sério os recursos da piedade popular. O treinamento litúrgico que Francisco pretende promover não tem como objetivo principal criar ‘conhecedores’, ou mesmo especialistas em liturgia, mas prestar realmente atenção ao que a liturgia nos dá a experimentar. Poderíamos dizer que é uma questão de formar o ser interior por meio da celebração  e na celebração.

A liturgia : uma preocupação constante do magistério da Igreja

A partir do século XVII, mas especialmente no século XIX e início do século XX, a ciência histórica entrou no campo da liturgia.  Essa abordagem histórica demonstrou amplamente que as práticas aceitas têm uma história e que as instituições mudaram muito, às vezes radicalmente, ao longo do tempo. Com base nisso, não podemos mais falar, de um ponto de vista histórico, de uma continuidade formal entre a Última Ceia de Jesus e a missa, seja a de São Paulo VI ou a de São Pio V. Essa consciência, que hoje muitas vezes não existe, nos levou a reconsiderar a relevância dos legados que herdamos.  E foi nessa linha que, entre 1951 e 1956, o Papa Pio XII decidiu por uma grande reforma da Semana Santa, um passo decisivo para a renovação litúrgica. Mas é claro que a dinâmica de aggiornamento do Vaticano II levaria a um grande projeto de reforma que seria realizado nos anos seguintes ao Concílio. Com um conhecimento muito amplo das fontes, esse trabalho deveria seguir um princípio duplo : um ‘reabastecimento da tradição’ por meio de um retorno a práticas antigas esquecidas (por exemplo, a oração dos fiéis) e uma abertura para inovações de acordo com as necessidades de nosso tempo (por exemplo, o uso de línguas vernáculas). Desse ponto de vista, muitas das ‘inovações’ do Missal de 1970 foram inspiradas e justificadas por práticas antigas, muitas vezes da antiguidade cristã. Esse projeto se beneficiou da atenção constante e vigilante, do apoio e até mesmo do compromisso direto de Paulo VI. Em uma catequese em 19 de novembro de 1969, pouco antes da implementação do novo Missal Romano, ele declarou que a reforma era ‘um ato de obediência’ (ao Concílio) e ‘um passo adiante em sua autêntica tradição’. [4]

Apesar dessas afirmações, no entanto, constatamos uma rejeição dessa reforma, essencialmente realizada sob a autoridade do Papa Paulo VI. O debate foi relançado várias vezes, sem que se vislumbrasse um resultado possível. Está além do escopo deste artigo reconstituir a complexa história da rejeição do aggiornamento litúrgico desde o Vaticano II até o motu proprio Traditionis custodes (16 de julho de 2021), que pôs fim ao regime introduzido por Bento XVI (motu proprio Summorum pontificum, 7 de julho de 2007).

Esse último procurou resolver a oposição à reforma introduzindo um regime duplo para a liturgia : a ‘forma ordinária’, de acordo com os livros litúrgicos revisados, e a ‘forma extraordinária’, de acordo com os livros litúrgicos anteriores à reforma.

As aproximações de linguagem nessa área complexa foram, e ainda são, muito frequentes, com o risco de multiplicar os debates irrefletidos. Falar do ‘Rito Tridentino’ ou do ‘Rito Tradicional’ é contrário ao pensamento de Bento XVI. Ao mesmo tempo em que autorizou amplamente o uso de livros litúrgicos anteriores à reforma, Bento XVI especificou que não é ‘apropriado’ falar de ‘dois ritos’. Além disso, ele afirmou que ‘o Missal publicado por Paulo VI (...) é e obviamente continua sendo a forma normal - a forma ordinária - da liturgia eucarística’, pedindo que ‘em princípio, a celebração de acordo com os novos livros não pode ser excluída’.

Depois de consultar os bispos, Francisco pôs fim a esse regime declarando : ‘Os livros litúrgicos promulgados pelos Santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, de acordo com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano’ (Traditionis custodes, art. 1). Em Desiderio desideravi, como guardião da unidade da Igreja, ele explica mais uma vez sua posição, pedindo que uma compreensão ‘superficial’ e ‘redutora’ do valor da liturgia ou ‘sua instrumentalização a serviço de uma visão ideológica’ não desfigure a celebração da liturgia, que é o ‘sinal da unidade’ e o ‘vínculo da caridade’ (nº 16). Ele resume seu convite a todos em uma frase : ‘A não aceitação da reforma, bem como uma compreensão superficial dela, nos distrai da tarefa de encontrar respostas para a pergunta que repito : como podemos crescer em nossa capacidade de viver plenamente a ação litúrgica? (nº 31) [5]. E, para remediar esses obstáculos, ele propõe dois caminhos, que podemos esperar que contribuam para superar a ferida da Igreja em relação à sua vida litúrgica.

Prestar atenção à liturgia

A ideia é ‘permitir que nos surpreendamos com o que está acontecendo diante de nossos olhos na celebração’ (nº 31). Em um mundo que constantemente captura os sentidos de várias maneiras, a atenção à ação litúrgica tornou-se frágil. Os muitos debates e até mesmo conflitos sobre hinos ou gestos são sintomáticos dessa dificuldade de entrar profundamente na liturgia como um lugar de encontro com o mistério de um Deus que vem ao homem para salvá-lo.

Essa exigência de atenção se baseia na novidade permanente desse encontro. Na liturgia, a repetição de palavras e gestos serve a essa novidade. Para aqueles que estão dispostos a entrar nessa aparente repetição, por exemplo, na oração dos salmos, a novidade vem na forma de uma prontidão para acolher o grande diálogo entre Deus e a humanidade. Pois é o Espírito de Deus que faz novas todas as coisas.

Maravilhar-se com a beleza do Mistério Pascal

O Papa Francisco desenvolve esse caminho de atenção convidando-nos a nos maravilharmos como ‘uma parte essencial do ato litúrgico’ e como ‘uma experiência do poder do símbolo’ (nº 26). Entretanto, essa não é uma abordagem estética : a beleza não combina necessariamente com a riqueza ou a profusão de meios, uma tentação frequente que corre o risco de alinhar as celebrações com as modas de uma sociedade do espetáculo. Nessa linha, o Papa denuncia os dois excessos que impedem que a beleza na liturgia alcance a verdade. Por um lado, ter prazer ‘apenas em cuidar da formalidade externa de um rito’ ou contentar-se ‘com a observância escrupulosa das rubricas’. Por outro lado, há ‘a atitude oposta, que confunde simplicidade com banalidade desleixada, essencialidade com superficialidade ignorante, ou a concretude da ação ritual com um exasperante funcionalismo prático’ (n° 22).

Na realidade, trata-se de maravilhar-se com a beleza da Encarnação e do Mistério Pascal que salva toda a humanidade, a beleza do dom de Deus, porque ‘os esforços para melhorar a qualidade da celebração, embora louváveis, não são suficientes, nem o apelo a uma maior interioridade’. Ainda precisamos acolher a revelação do mistério cristão : ‘O encontro com Deus não é fruto de uma busca interior individual, mas um acontecimento dado’ (nº 24).

Uma formação ‘séria’

O segundo caminho é o da formação : ‘Temos necessidade de uma formação litúrgica séria e vital’ (nº 31). E nesta frase, é preciso sublinhar os adjetivos que qualificam este projeto de formação.

Para colocar-se opostamente os slogans e convicções infundadas, sério se opõe ao diletantismo tão frequente em uma sociedade do Zap. A formação litúrgica requer um esforço contínuo apoiado em trabalhos de qualidade. Assim, só podemos enfatizar a importância de publicações e de periódicos sabendo que as opções nesse campo são diversas e, algumas, opostas. Diante do que se apresenta como um verdadeiro emaranhado de opiniões, a formação em liturgia requer a aquisição de algumas bússolas para não permanecer na confusão e poder entrar numa escuta comunitária, pois não podemos discernir sozinhos.

Uma formação ‘vital’

Para o adjetivo ‘vital’, Francisco nos traz uma marca específica, que ele desenvolveu na carta apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), que propõe um verdadeiro tratado de vida espiritual para o nosso tempo. Ele também nos convida a não nos fecharmos na busca de uma atuação ritual, esquecendo a missão e a vida de caridade. Os pilares da vida cristã não podem ser separados : martyria (proclamar o Evangelho e dar testemunho), diakonia (serviço, especialmente aos pobres e aos pequenos) e leiturgeia (o culto prestado a Deus). Contra a tentação de transformar a liturgia em um meio de evasão, ele nos recorda que a liturgia oferece um caminho, o da vida do Espírito, sem o qual o testemunho se perde na propaganda e a caridade no ativismo.

Falar de ‘formação vital’ é, portanto, vislumbrar uma experiência espiritual. Dizer que somos formados ‘pela liturgia’ significa que esta não é um serviço que avaliamos com critérios subjetivos (o ambiente, a ‘beleza’, os cantos, etc.), mas um caminho de conversão. Enquanto distingue a formação ‘para’ a liturgia (para conhecê-la) e a formação ‘pela’ liturgia (deixar-se formar por ela), ele deixa claro que, se a formação ‘pela’ liturgia é ‘funcional’, a formação ‘para’ a liturgia é a seus olhos ‘essencial’ (nº 34). A prioridade dada a uma pesquisa de ambiente e de uma preocupação para ‘fazer algo’ conduz ao esquecimento deste aspecto ainda essencial : nós somos ‘feitos cristãos’ pela própria liturgia.

Esta realidade se manifesta, antes de tudo, nos sacramentos da Iniciação Cristã seguramente. Mas também dizendo juntos ‘Pai Nosso’, que os fiéis se unem ao Filho de Deus que reza ao Pai do céu. É dizendo juntos ‘Eu creio’, que os fiéis se tornam confessores da fé diante do mundo e por ele. É aclamando ‘mistério da fé’ durante a anamnese que os fiéis confessam a glória do Ressuscitado. É ainda respondendo ‘Amém’ durante a Comunhão que eles ratificam sua vocação de membros do Corpo de Cristo.

Conclusão

Finalmente, o convite a conjugar inseparavelmente formação ‘para’ e formação ‘pela’ liturgia manifesta quanto a atenção (e não o julgamento) deveria ser a atitude primordial. Mas, trata-se de tornar-se atento a um mistério invisível que se percebe através de sinais visíveis. Num mundo de hipercomunicação (onde, no entanto, a relação verdadeira é tão frágil e mesmo tão difícil), surge o convite a manter-se longe da vontade de manipular a liturgia, para transmitir uma mensagem, suscitar uma adesão ou cultivar convicções. Porque se trata, acima de tudo, de comungar desta vida divina que nos é comunicada pela celebração dos mistérios.’

 

[1] PAPA FRANCISCO, Carta Apostólica Desiderio Desideravi, 29 de junho de 2022; utilizamos a versão online disponível no site do Vaticano.

[2] Cf. Pio X, Motu proprio Abhinc duos annos, 23 de outubro de 1913, que exprimia esta necessidade não hesitando em falar da necessidade de ‘limpar’ a ‘sujidade’ que se tinha instalado no edifício litúrgico herdado do passado.

[3] PAPA FRANCISCO, Carta sobre o papel da literatura na formação, 17 de julho de 2024.

[4] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Vicesimus quintus annus para o 25º aniversário da Constituição Conciliar sobre a Liturgia, 4 de dezembro de 1988, nº 4, que elogia o fruto de um ‘trabalho considerável e desinteressado de um grande número de peritos e pastores de todas as partes do mundo’ e, sobretudo, de um funcionamento ‘estritamente tradicional’.

[5] Desiderio desideravi é útil para todos. A falta de formação continua a ser flagrante, mesmo entre aqueles que se referem à reforma do Vaticano II. Os princípios aqui expostos permitem abordar em profundidade a grande questão litúrgica, como fator de unidade e não de divisão (Nota do Editor).

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/127