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sábado, 1 de março de 2025

Formação teológica e renovação monástica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pontificio Ateneo Sant'Anselmo, Roma
 

*Artigo de Dom Bernhard A. Eckerstorfer, OSB

Reitor do Ateneu Santo Anselmo, Roma


‘Lendo as novas publicações teológicas e monásticas, impressiona constatar que uma grande parte toca os desafios do nosso tempo. Não há dúvida de que estamos sendo confrontados com uma mudança, e até mesmo, para muitos, uma mudança para uma nova época. Como a Igreja no seu conjunto, também os mosteiros se esforçam por encontrar novos caminhos para o futuro. Esta procura é mesmo urgente quando a sobrevivência da comunidade depende disso. Nesta perspectiva a questão da formação para os beneditinos é de grande atualidade e por isso, explosiva. Mostra se, e como, a renovação monástica pode dar certo.

Este nº da AIM usa a palavra chave ‘hoje’ para apresentar a temática da formação. A formação monástica sempre se esforçou por transmitir a vida beneditina numa consciência desperta para a realidade de cada época. Houve, evidentemente, muitas vezes, um modelo único, considerado duradouro, pois os modelos de igreja e de sociedade também perduravam por várias gerações. Mas a nossa situação atual é muito confusa : em pleno meio de mudança de época, as coisas que antes eram evidentes, agora não o são mais; mas os novos paradigmas ainda não se impuseram, ninguém sabe como vai ser o futuro. Todos pressentimos que é preciso engajar-se em novos caminhos. Mas quais para chegar a novos horizontes?

Na situação atual estou convencido que a teologia é um fator decisivo para a formação dos beneditinos e para a nova orientação das nossas comunidades. Mas há que ter em conta outra coisa : o monaquismo poderá igualmente ter um papel importante na renovação da teologia. Como na vida política, social e cultural em que se constata uma desorientação, até mesmo uma ruptura com as antigas instituições e os modos de pensar, até então globalmente bem recebidos, há uma transição na Igreja e na teologia. Neste domínio a palavra ‘crise’ está em todas as bocas. A etimologia da palavra pode ter um papel revelador : crise significa discernimento, decisão, e exige mesmo as duas coisas.

Gostaria de tratar do assunto que me foi pedido em três pontos. Abordaria primeiro a iniciação monástica, seu sentido e formas. Fui Mestre de noviços durante doze anos, e ao longo desse tempo experimentei a necessidade de iniciações fundamentais. Depois gostaria de reler a prática monástica como um lugar teológico. Finalmente gostaria de apresentar o papel da universidade na renovação da vida monástica.

A formação monástica como processo teológico

Nos mosteiros constatamos que a transmissão da fé se faz essencialmente pela prática de um certo tipo de vida. Estando numa sociedade religiosa homogênea, seus pontos de vista, seus usos e costumes são considerados como evidentes – pois que são partilhados e sustentados pela maioria. A partir do momento que entramos num mundo pluralista, em que a fé é uma opção, como qualquer outra, é preciso refletir sobre os atos feitos até então de maneira automática, não para os perder, mas para os traduzir de outra maneira, para que sejam compreendidos no contexto atual.

Quando alguém entra no mosteiro, começa um processo de aprendizado complexo. Integrados nas práticas comunitárias, muitos elementos são conscientizados ao longo dos primeiros anos; conscientizados quer dizer pensados e, portanto, postos em questão. Este trabalho é importante para a pessoa se apropriar dos modos de fazer, que estão enraizados na comunidade. E é assim, que pela entrada de cada novo membro na comunidade, a vida monástica se renova, atualizada no processo de apropriação comunitária e individual, vivificado pelo sentimento de viver no hoje. Assim a vida monástica se mantém viva.

A introdução à vida beneditina é um processo teológico. O monaquismo sempre viu o monge como uma pessoa que procura a Deus, e isso exige um modo de pensar bem ajustado ao modo de vida. Para se ser teólogo, no primeiro sentido do termo, não precisa fazer um doutorado em teologia. São as pessoas espiritualmente competentes que levam uma vida ‘teológica’ e que aí introduzem os outros. Gostaria de ilustrar com um testemunho pessoal como a iniciação de base é essencial. Entrei no mosteiro com 29 anos, depois de longos estudos no meu país e no estrangeiro. O Abade e o mestre de noviços me disseram : ‘já tens um doutorado em teologia, o que poderemos ensinar-te ainda?’ Eles pensaram que poderia ajudar uma missa pontifical, sem dificuldade. Ora eu nunca fui coroinha, e nunca me ensinaram nada sobre cerimônias pontificais durante meu curso de teologia protestante, na América do Norte, estava bem mais atrapalhado e desajeitado do que meu co-noviço, que tinha vindo diretamente da escola monástica para o noviciado.

Meu mosteiro superestimou a importância dos meus estudos universitários para a vida monástica; por outro lado subestimou a necessidade de uma iniciação monástica para um jovem teólogo. Esta iniciação faz-se por osmose. Em todos os mosteiros há irmãos e irmãs que vivem sua vida monástica fielmente há anos. Estão espiritualmente bem modelados, e tornam-se modelos para a geração seguinte, mais pelo que são, do que pelo que fazem, mais pelo seu ser do que pelos seus discursos. Quando penso nos meus primeiros anos monásticos, foram eles os meus mestres, incluindo o abade e o mestre de noviços, de quem já falei, que não se consideravam grandes teólogos.

É evidente que tive de aprender a minha nova identidade; tive de entendê-la refletindo. Durante o noviciado foi-me dada a oportunidade de ler, entre outras obras de base, uma boa parte das obras do meu novo padroeiro São Bernardo de Claraval. Foi uma nova experiência de aprendizado. Pude saborear a leitura sem estar sob a pressão de valorizar o que tinha lido em provas ou deveres acadêmicos. Aprender a ler os grandes textos do monaquismo e da história da espiritualidade não foi fácil nem evidente. Foi uma bênção que logo após o noviciado fui enviado para Santo Anselmo por dois anos, ali onde já mais de 100 de meus irmãos tinham estudado durante decênios. O Credo do nosso abade na época era : ‘Cada um dos irmãos deveria ter a possibilidade, se quiser, de passar pelo menos um semestre em Santo Anselmo’.

Em Roma encontrei uma teologia nova para mim. De repente vi-me a rezar e a comer com os professores e os estudantes. Eis um semestre em Santo Anselmo, o segredo da formação dos beneditinos. O modo de viver e o modo de pensar interpenetram-se. No entanto, a reflexão teológica sobre a vida beneditina estava no primeiro plano. Acedi a essa reflexão por meio de alguns cursos, porém mais ainda pela atenção pessoal de teólogos beneditinos que me ajudaram a integrar minha formação teológica antecedente na vida monástica. É, justamente, esta mistura entre um estilo concreto de vida e uma compreensão mais profunda que caracteriza a vida monástica. Esta junção não pode resistir às exigências da vida atual, separar-se em diferentes setores sem ligação uns com os outros.

Pouco antes de minha profissão solene passei por uma crise. Outros modos de vida me atraíram e tive a impressão que os meus quatro anos de monge eram uma experiência que tinha chegado ao fim. Olhando para trás, tomei consciência que minha decisão de me engajar pela profissão monástica se deveu, em grande parte, à reflexão teológica, que pude fazer sobre meu novo gênero de vida, incluindo os contatos que fiz com o monaquismo mundial, sobretudo durante meus dois anos em Santo Anselmo.

O exercício concreto da prática monástica

O germe de uma renovação beneditina está nas práticas monásticas que é preciso redescobrir, compreender de novo e pôr em prática de modo atualizado. A formação monástica não serve para nada, quando pressupõe demais. Nada é evidente quando temos de lidar com jovens nas nossas comunidades. Partamos do mais elementar : as experiências que nos parecem banais na vida cotidiana devem ser repensadas. Que atitudes ter? Quais são os ritmos e as estruturas que nos dão estabilidade? Convém não só imitar o gênero de vida monástico, mas de o compreender a partir do interior, e – por consequência – pô-lo em questão, e mudá-lo; até mesmo transformá-lo. Para isso é preciso pôr em ação uma mistagogia das práticas monásticas, para desenvolver os elementos fundamentais na sua rica tradição – mas também transferi-los para o mundo contemporâneo : stabilitas e conversatio, a pequena cela monástica e o grande recinto claustral, a leitura e a autodisciplina, a solidão e a comunidade etc.

Um ponto essencialíssimo é aprender uma nova maneira de ler. É impossível a nível mundial, prever o impacto da revolução digital nas nossas civilizações e a mudança que isso terá na sociedade. Pode dar novas possibilidades ao monaquismo. Mas não fechemos os olhos ao fato que ela impõe uma realidade estranha ao espírito beneditino. Os media baseiam-se em mensagens concisas, com sinais e abreviações que são atuais enquanto duram e cujo acesso é temporário. A abertura numérica ao mundo não combina com o processo refletido e a redação laboriosa de escritos cuidadosamente construídos, nem com a cultura livresca tradicional, mas será que os mosteiros podem passar sem os meios digitais?

Na lectio os jovens irmãos adquirem não só conhecimentos religiosos, mas também competência teológica : poder passar uma hora, ou pelo menos meia hora exclusivamente para ler, cada dia, e isto durante meses e anos! Na meditatio a leitura sedimenta-se e torna-se sabedoria. Sapientia vem de sapere, que se pode traduzir por ‘saborear’. É o fundamento da oratio. Mas quanta paciência e perseverança são precisas para chegar lá, e justamente no nosso mundo tão capaz tecnologicamente! O ensino no noviciado deve encorajar a leitura de textos teológicos, que deverão depois ser discutidos. Nesta partilha não se trata de dizer logo o que eu acho, mas ‘que diz o autor?’ o que significa ter compreendido bem o texto.

A formação monástica deve permitir uma compreensão mais profunda da realidade e estabelecer o laço entre a leitura constante de pedaços do texto e um experiência de leitura holística. Vejamos se nossos mosteiros são viáveis : a biblioteca é ainda um lugar de vida, ou é um armazenamento, ou no melhor dos casos uma sala de exposição de um passado de uma procura viva de Deus? Uma missão teológica do monaquismo hoje não seria fazer renascer a cultura da leitura? Não seria a primeira vez que os mosteiros seriam vetores, transmissores de civilização.

Do mosteiro à universidade e vice-versa

Hoje, mais do que no passado, constatamos que os candidatos precisam de uma iniciação à fé. O monge forma-se exercitando-se a saborear a leitura e a descobrir nela todo um universo de significado religioso. Um professor de teologia experimentado, de uma universidade do Estado me dizia um dia : ‘os que fizeram um noviciado estudam de maneira diferente’. Mas eu devo dizer que, pelo menos conforme minha experiência na Europa Central, alguns dos que entram nos nossos mosteiros têm aversão à teologia universitária. Isso vem, provavelmente, por causa de uma diminuição científica, quando a teologia é estudada como uma ciência sem ligação com a fé vivida. Mas por outro lado, revela também a falta de consciência do que a teologia acadêmica pode e deve fazer para os nossos mosteiros.

O ensino e a pesquisa teológicos na universidade, em diálogo com as outras disciplinas, oferece um quadro próprio para a prática e a reflexão acima descritas. Depois de ter passado vinte anos no meu mosteiro na Áustria, reencontro em Santo Anselmo a liberdade oferecida pelo quadro acadêmico, no qual os estudos são prioritários, mas não separados da vida espiritual. Assim os estudantes podem consagrar-se a uma especialização em filosofia, teologia e/ou liturgia fazendo frutificar as outras coisas que os atraem. A crise do Corona mostrou como a missão educativa pode ser realizada por meio das novas tecnologias. Continuamos com o ensino direto, que integra uma discussão pessoal no lugar e faz valorizar a cidade de Roma, e nela da Igreja universal, como experiência teológica. No entanto, alargamos sempre mais nossas possibilidades ‘on line’ para abrir para as pessoas que não podem vir para a Cidade Eterna uma participação no ensino e na pesquisa de Santo Anselmo.

Não devemos subestimar o trabalho de colegas religiosos, ou faculdades de Estado que contribuem para vivificar e tornar plausível nossa existência beneditina. Conforme posso observar, as novas fundações monásticas vão juntamente com uma reelaboração teológica, enraizando-se nas fontes do monaquismo; como havia previsto o Vaticano II, uma volta às fontes, junto com a procura de modalidades adaptadas às condições atuais (aggiornamento). A teologia científica pode, neste domínio, dar uma grande contribuição. A fé vivida, tal como se expressa nas práticas monásticas, necessita de uma reflexão crítica e da apresentação da rica Tradição neste nosso tempo. Isto protegerá os nossos mosteiros de se fecharem no unilateralismo, no devocionismo e nas ideologias de todo o tipo.

Os mosteiros ricos de sua tradição monástica têm muito a dizer ao mundo universitário de hoje. O decano da faculdade de teologia de uma universidade do Estado declarou recentemente, que lamenta que a teologia universitária não apareça na sociedade e na cultura de hoje. Vemos que o mundo leigo está interessado no testemunho vivido da fé (no testemunho de uma fé viva). Quando se pratica a teologia como uma forma inspirada pela experiência da fé e a expressão de uma liturgia viva, então as outras disciplinas (acadêmicas) começam a interessar-se e até as pessoas que estão à procura de alternativas convincentes. Ao menos para a Europa Central, posso testemunhar que para além de todas as crises que afetam atualmente a Igreja e seu trabalho pastoral tradicional, do qual os mosteiros não estão excluídos, o interesse pela vida beneditina é grande e constante, tanto nos que creem, como nos céticos. Encontram nos mosteiros a realização de suas aspirações por uma ‘vida alternativa’ e gostariam de se inspirar na riqueza e na força espiritual das antigas tradições. Isto deveria nos encorajar em nossos mosteiros a ajustar nosso tipo de vida beneditina com uma maneira de pensar adequada, desde o noviciado até aos altos níveis de formação religiosa. O monaquismo poderia assim contribuir para uma teologia renovada, no seio de uma Igreja missionária, que, segundo o Papa Francisco não deveria contar só com os especialistas das universidades de teologia e os burocratas da organização eclesial.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/119

domingo, 3 de dezembro de 2023

Reflexão: Advento, tempo de renovação e de esperança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Primeiro domingo do Advento 

*Artigo do Monsenhor André Sampaio de Oliveira,

doutor em Direito Canônico 


Ressoa na Liturgia da Igreja o convite a anunciar a feliz notícia : ‘Deus vem!’ Duas palavras apenas anunciam a todos os corações a esperança que renova a vida do homem e lhe abre horizontes de uma vida em plenitude. Duas palavras apenas são luz que ilumina o nosso caminho, que aquece os nossos corações e nos abre ao amor de Deus e ao nosso próximo. ‘O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos’ (1 Tes 3,12).Advento, em latim ‘Adventus’, significa ‘vinda’. Em que consiste, então, a vinda do Senhor? Será que esta vinda também nos envolve e responsabiliza?

Caminhar em Tempo de Advento é olhar para o nascimento de Cristo, há mais de dois mil anos; é apontar para a Sua última vinda gloriosa; mas é também estarmos vigilantes e atentos às Suas vindas, no hoje das nossas vidas.

Preparar o Natal é olhar para a vinda de Cristo. Ele já veio. Nasceu num lugar concreto, num país concreto e transformou a nossa história e a nossa vida. Naquela pequena povoação da Judeia, em Belém, nasceu Jesus, filho de Maria, e esse Menino iniciou um caminho do qual todos nós somos herdeiros. Olhar para esse acontecimento que marca a história é sermos introduzidos na história da Salvação, no projeto de Deus que vem até nós, de uma forma muito especial, em Seu Filho Jesus.

No Advento também preparamos a última vinda do Senhor. Ele há-de vir na Sua Glória, no final dos tempos. O Advento é um tempo favorável para a redescoberta de uma esperança não vaga nem ilusória, mas certa e confiável, porque está ‘ancorada’ em Cristo, Deus feito homem, rochedo da nossa salvação. Com esta confiança construímos, agora, o nosso presente e olhamos para o futuro com olhos de esperança, com os olhos de Deus.

Tempo de vigilância e oração

Mas ‘Deus vem!’. Ele vem agora, no hoje das nossas vidas. Advento é, por isso, tempo de vigilância e de oração, tempo de perceber e experimentar a presença de Deus, a sua visita constante às nossas vidas. Deus vem agora a nós de muitas maneiras, através dos acontecimentos e das pessoas. Seja, pois, este tempo um estímulo para estarmos com os olhos e os corações bem abertos, vigilantes e atentos à descoberta da presença de Deus nas nossas vidas, na Igreja e na Sociedade, na família, no trabalho, na escola, na dor e na alegria.

Veio, virá e vem sempre. Não é um simples movimento constante de aproximação, mas revela-nos quem é Deus : um Deus que continuamente se aproxima do homem, o resgata e recria. Não é um Deus ausente e desinteressado da nossa vida, mas é um Pai que vela por nós, com amor e carinho. O advento será, assim, um tempo para reconhecermos Deus tão próximo, que nos impele a agir, a reagir, a dar resposta ao Seu amor, a saborear a alegria da nossa filiação divina.

‘Deus vem!’. Para compreendermos o significado profundo destas palavras podemos olhar para aquela pessoa, graças à qual se realizou, de modo único, singular, a vinda do Senhor : a Virgem Maria. ‘Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher’ (Gl 4,4).

Seja Maria, Mãe do Deus que vem, a caminhar connosco neste Tempo de Advento, rumo à grande celebração do nascimento de Cristo. Seja a Mãe de Deus modelo para cada um de nós. Modelo para aqueles que esperam a vinda do Salvador com alegria, modelo para aqueles que se sabem frágeis e necessitados de Deus, mas, ao mesmo tempo, responsáveis, colaboradores e comprometidos na Sua obra. Maria foi colaboradora nessa ação de Deus, aceitando ser a Mãe do Seu próprio Filho : ela deu ao mundo Cristo Jesus, o Emanuel, Deus connosco. Com ela podemos também nós dar Cristo ao mundo de hoje; podemos viver n’Ele e anunciá-l’O, através dos nossos gestos, visitas, trabalhos e palavras, na vida de todos os dias.

Para viver de maneira mais autêntica e frutuosa este período de Advento, coloquemos o nosso olhar em Maria Santíssima, a Virgem do Parto, e Ela será caminho para o Menino Deus. Quando Deus bateu à porta da sua vida jovem, ela recebeu-o com fé e com amor. Agora é Deus quem bate à porta do nosso coração. Não tenhamos medo e deixemos que Deus penetre e enriqueça a nossa vida com os dons do Seu Amor.

Seja esta a nossa oração : ‘Vinde Senhor Jesus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-12/reflexao-advento-tempo-renovacao-esperanca.html


sexta-feira, 25 de março de 2022

Uma vocação com propósito: a nova realidade das religiosas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Religiosas rezam durante a Missa de abertura da Vigília Nacional de Oração pela Vida na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, em 23 de janeiro de 2020

*Artigo da Irmã Laura Teresa Downing,

das Servas do Imaculado Coração de Maria, Pensilvania (USA)

Tradução  : Ramón Lara


‘Quando paro um momento para pensar realmente sobre o fato de ser uma irmã religiosa, sou atingida por uma sensação de admiração. Como uma católica de berço nascida no início dos anos 1980 nos subúrbios de Washington, D.C., que tinha um casamento dos sonhos planejado aos 8 anos de idade, se tornou uma irmã do Imaculado Coração de Maria?

Minha jornada começou em uma família católica irlandesa. Meus irmãos e eu passávamos os dias alternando entre aulas de catecismo, reuniões de escoteiros, aulas de dança irlandesa e treinos de futebol. Além de nossa tia Peg, uma Irmã de Misericórdia, nossas infâncias foram em grande parte desprovidas de ‘freiras’. Ainda assim, os filmes ‘Mudança de Hábito’ eram um marco em nossas noites de cinema em família, e às vezes me pergunto se esse foi um sinal que inicialmente perdi.

Meu primeiro indício de uma vocação religiosa ocorreu quando estava na quinta série, o único ano em que frequentei a escola católica. Estava caminhando para o recreio e vi minha diretora – uma irmã que tentei evitar por causa de minhas muitas transgressões às regras do uniforme – vindo em minha direção, e de repente tive a sensação de que seria ‘como ela’ um dia.

Meu discernimento vocacional começou a sério quando me matriculei no Colégio da Imaculada (agora Universidade Imaculada) na Pensilvânia. Naquela época, havia cerca de 50 irmãs do Imaculado Coração de Maria na faculdade, e fui cativada por sua alegria e pelo que passei a chamar de ‘santa normalidade’. Essas mulheres obviamente em oração torciam nos jogos de basquete, riam ruidosamente no refeitório e chamavam os bois pelos nomes. Descobri que meu fascínio pelas irmãs deu lugar a sonhar acordado em se tornar uma.

Mas foi uma viagem missionária a Callao, Peru, que selou o acordo vocacional. Durante meu tempo trabalhando em uma escola para meninas e fazendo evangelismo na comunidade vizinha, estava com irmãs que muitas vezes falavam de sua vocação dentro de uma comunidade. Na época, eu me perguntava se algum dia teria um senso tão específico de propósito e missão. Mas agora eu tenho isso, e isso me ajuda a me encaixar em uma comunidade que é predominantemente composta por irmãs da idade dos meus pais ou mais velhas.

Atualmente, moro com 27 irmãs, e temos entre 40 e 80 anos. Às vezes, a diferença de idade pode ser difícil, e não apenas porque todo mundo me pede para resolver seus problemas de tecnologia. Mas pode ser mais difícil para as irmãs mais velhas : que tem que ouvir músicas diferentes soando através das paredes do meu quarto e o fato de eu dizer ‘doce’ com mais frequência do que elas gostariam, mas o fato de que minha experiência vocacional agora é tão rara representa um achado para a comunidade.

As irmãs mais velhas pensam nas coisas vivificantes que eu não experimento, mas que faziam parte da comunidade quando eram jovens : os grandes grupos com os quais se formaram, uma camaradagem nascida de muitas irmãs amigas da mesma idade. Às vezes eu gostaria de ter essas coisas também, mas nunca esperei. Esses momentos são facilitados por uma rápida chamada de vídeo ou mensagem de texto com alguém da minha geração.

A verdade é que nossa realidade como religiosas mudou e continua mudando. Não podemos tentar recriar a vida religiosa das décadas de 1950 e 1960 para preencher nossas fileiras e equipar nossas instituições. A vida religiosa de uma pessoa é agora permeada pela intencionalidade : a escolha de entrar, a decisão de permanecer, o discernimento de ministérios e missões. Nada pode ser dado como garantido, então há uma profunda gratidão pelo que está acontecendo e um entusiasmo pelo que está por vir. É importante lembrar disso porque podemos facilmente e com muita frequência nos distrairmos com histórias sobre o envelhecimento de nossas comunidades religiosas.

A verdade é que coisas maravilhosas estão acontecendo em nossas comunidades religiosas, porque Deus não terminou conosco. No meu dia a dia como religiosa, continuo sendo inspirada pela alegria e santa normalidade das irmãs com quem vivo, mesmo que sempre me peçam para consertar a televisão.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1570613/2022/03/uma-vocacao-com-proposito-a-nova-realidade-das-religiosas/

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2015

‘Amados irmãos e irmãs,

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado : ‘Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro’ (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença : encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.

Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.

A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.

Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.


1. ‘Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros’ (1 Cor 12, 26) : A Igreja.

Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa ‘tem a haver com Ele’ (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos : o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro. ‘Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria’ (1 Cor 12, 26).

A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas : o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar : rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.


2. ‘Onde está o teu irmão?’ (Gn 4, 9) : As paróquias e as comunidades

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?

Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções.

Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja : ‘Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas’ (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).

Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.

Esta missão é o paciente testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!


3. ‘Fortalecei os vossos corações’ (Tg 5, 8) : Cada um dos fiéis

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?

Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.

Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.

E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo : ‘Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso’ (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/fortalecei-os-vossos-coracoes

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Santa Teresa : uma religiosa inquieta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito

‘Estamos celebrando o V centenário do nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-1582) e é uma grande graça de Deus que este ano se celebre também, por desejo do Papa Francisco, o ano da Vida Consagrada. Teresa teria exultado de alegria diante da carta que o Papa tem enviado a todos os consagrados e consagradas do mundo. Uma carta que abre o coração dos que olham o passado com gratidão, vivem com paixão o presente, sabe ver novos horizontes diante de si e tem no coração um grande amor pela Igreja. Hoje em dia o Papa tenta com todos os meios de ‘acordar-nos’ do nosso sono de mediocridade que nos impede de viver com entusiasmo renovado a nossa fidelidade à missão que nos é confiada. E preciso abrir os olhos e colocar os óculos das bem-aventuranças para ver que uma nova vida consagrada está surgindo com nova modalidade e com uma força que nem sempre sabemos acolher nos nossos corações endurecidos.

Numa série de reflexões que quero escrever para Zenit sobre Santa Teresa de Ávila, gostaria de tocar vários temas que fazem desta mulher uma pessoa de qualidades raras e que soube de verdade colocar a frutificar os talentos que recebeu de Deus. Não foi enterrá-los, mas os fez frutificar, indo contra todas as correntes de seu tempo. Não teve medo. E sabemos como nos momentos mais difíceis de sua vida, quando também a ela as noites, os desertos e os medos a torturavam por dentro, diante das dificuldades para realizar a obra das fundações dos Carmelos, normalmente sentia a voz do Senhor que lhe dizia : ‘por que você tem medo, de que tem medo? Te deixei alguma vez sozinha? Os teus negócios são os meus negócios. Não tenhas medo!’ Estas palavras lhe infundiam uma coragem nova e era capaz de enfrentar numa maneira ‘feminina e teresiana’ qualquer pessoa. Sabia entrar na amizade e sabia falar de Deus e dos projetos de Deus com uma força única, que mesmo os mais adversos inimigos não podiam resistir-lhe.

Trazia dentro dela uma inquietação dos buscadores de Deus. Quem busca de verdade o rosto de Deus e o seu amor sabe que nunca o poderá encontrar  totalmente. Trazia no seu coração a mesma inquietação de Santo Agostinho e repete nos seus escritos a famosa frase : ‘criaste o nosso coração para ti e ele anda inquieto até que não descanse em ti.’ Aliás, sabemos que as Confissões de Santo Agostinho são uma  força para sua conversão pessoal. Teresa adverte no mais íntimo de si mesma um desejo que  a ‘persegue com uma doce violência’ desde sua infância : ‘quero ver a Deus!’ Este será  o seu  impulso constante ao longo dos seus 67 anos de vida. O desejo de ver a Deus  a leva  a dar-se totalmente a ele. Ela mesma escreverá : ‘Deus se dá totalmente a quem totalmente a ele se doa.’ Fará esta bela experiência de ser tomada, invadida pela força  do Espírito Santo de Deus.

É uma mulher inquieta, busca sempre algo mais. Traz dentro de si a insatisfação dos místicos, sabe que não podem se acomodar a uma vida tranqüila, onde é amada e respeitada, como na casa paterna e como no Mosteiro da Encarnação. Procura algo mais e por isso, na sua inquietação, ela resolve dar ‘novo vigor ao Carmelo’ que vivia um cansaço e uma estagnação que provocava uma vida  burguesa e sem sentido. Mas como fazer isto?

No mosteiro carmelitano da Encarnação, onde viviam 180 monjas, ela pensa como realizar uma pequena comunidade à imitação do colégio de Cristo, 13 monjas, onde deve reinar o amor a Deus, o amor ao próximo, o desapego de todas as coisas, e embora Teresa a coloque por último, a virtude da humildade que para ela é o fundamento de todo o edifício. Nesta inquietação Teresa dá vida ao mosteiro de São José. É genial na sua ‘geografia do mosteiro’ : no meio está Jesus, numa porta a Virgem Maria e na outra São José, e assim não podemos ter medo de nada.

Mas qual é o segredo da pequena comunidade teresiana? É o amor. E o diz e repete em todas as maneiras e tons : poucas como somos, todas devem se amar, todas devem se ajudar, todas devem se estimar, promover. Teresa, na sua comunidade, queria como coração a oração silenciosa. Duas horas por dia, e depois a ‘verificação’ da qualidade da oração na recreação comunitária. Esta monja que sabe que não lhe é possível ir ‘às periferias’ para anunciar o evangelho, desde os seus mosteiros aconselha a todas as suas monjas e frades a irem às periferias através da oração pela Igreja e pelos teólogos e pregadores do evangelho, que devem ser preparados, para resistir aos ataques do mal.

Uma inquietação profética que leva Teresa a ser andarilha pelas terras de Espanha, fundando  mosteiros de monjas, conventos de frades, porque onde tem uma casa de oração se tem a certeza da presença de Deus. É a maneira que ela encontrou com fidelidade ao seu carisma de contemplativa, de ser criativa diante de um mundo que ‘está em chamas  por causa das heresias  que dividem a Igreja.’

 A próxima vez  falaremos da oração de Teresa. Eis um texto de Teresa :

Talvez pergunteis por que insisto tanto nisso, dizendo que devemos ajudar os que são melhores que nós. Explico : porque creio que não entendeis bem o quanto deveis ao Senhor por terdes sido trazidas para um lugar tão longe de negócios, situações perigosas e relações com o mundo, uma enorme graça. O mesmo não ocorre com aqueles de quem falei, nem é bom que ocorra, muito menos nesta época, pois a eles cabe animar os fracos e encorajar os pequenos : o que seria dos soldados sem comandantes!

Estes devem viver entre os homens e tratar com eles, estar nos palácios e, algumas vezes, conformar-se exteriormente com o que exigem as pessoas do mundo. Pensais, filhas minhas, que é preciso pouco para tratar com o mundo e nele viver, para cuidar de negócios do mundo e adaptar-se, como eu já disse, às conversas do mundo, sendo ao mesmo tempo estranho ao mundo e inimigo seu, vivendo nele como exilado, não sendo, enfim, um ser humano, mas um anjo?

Porque, se não agirem assim, sequer vão merecer o nome de comandantes; nem permita o Senhor que saiam de suas celas nessas condições, pois provocarão mais danos do que benefícios. Este não é o momento de se perceberem imperfeições em pessoas que devem ensinar (Caminho  de Perfeição 3,3).


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/santa-teresa-uma-religiosa-inquieta

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sofrimento e Renovação

Por Denis Cabrerizo Silva




Desde que era pequeno, nutro a sensação de que os livros sempre contêm algo que pode nos servir como um ensinamento prático. Pois bem, lendo, em casa, um romance russo de nome “O Idiota”, do grande escritor Fiódor Dostoievski (1821-1881) - que, a despeito de sua remota publicação, em 1868, em certos aspectos ainda apresenta uma leitura mordaz das relações humanas que compõe o nosso cotidiano -, após um tempo debruçado nas páginas densas desta inebriante narração, súbito novos pensamentos começam a nascer e a desabrochar, absorvendo-me numa série de reflexões ininterruptas.  Primeiro, começo a pensar nos sofrimentos austeros que acompanham as personagens e que, de certa forma, refletem a realidade de muitas pessoas. Tipos psicológicos que sempre afiguram estar ofendidos, humilhados pelas condições de vida que lhe são impostas, com a vaidade e o orgulho imensamente feridos por requintes alheios de ironia e desprezo e para quem a felicidade se apresenta como uma ilusão ou como um estado que parece não valer a pena  ser alcançado após tantas atribulações. 
            Tendo isto em mente e retornando à frase que introduz este pequeno texto, creio poder dizer que o ensinamento que este livro, muito aprazível, nos transmite reveste-se de uma análise aguda das relações sociais de nossos tempos: com o passar das épocas, findamos por nos tornar, assim como os personagens “dostoievsknianos”, seres ressentidos, feridos moralmente, a quem a felicidade do outro constitui-nos uma ofensa, a quem a vida não mais pode ser do que uma seqüência de sofrimentos e os sentidos desvalorizam-se, perdem seus porquês; em suma, seres que parecem habitar o subterrâneo da existência e da humanidade. E talvez deva-se a isto uma das causas da desmoralização que experimentamos, do comportamento violento e inadmissível dos novos homens, tão descontrolados do século XXI,  esmerados em  produzir tantas tristezas, incompreensão e dor.
            Assim, como no romance mencionado acima e como nos propõe o seu autor, ainda quase 150 anos antes, talvez hoje o que nos falta seja o ato de nos “idiotizarmo-nos”, isto é, deixarmos de lado, nem que seja por um pouco, a ganância, a avareza, a inveja, o ressentimento, a necessidade de outrem para existir, ou numa palavra: a necessidade de encontrar-se ofendido para subsistir; e, por outro lado, talvez nos falte também recuperar os valores humanos, como a magnanimidade, a prudência, a inocência mesma; e assim erigir uma renovação humana que passe a nos privar - nós, Homens – dos sofrimentos e dos subterrâneos da mera constituição psicológica de cada um. Desta forma, quem sabe, não poderemos elevar a humanidade para redimir-se de seus erros e atos arbitrários que tanto nos tem vilipendiado? Quem sabe não poderemos libertar a humanidade de suas limitações constrangedoras e falsas que nos tem assolado desde há muito?  E, quem sabe, assim, na simplicidade, não conquistemos a verdadeira felicidade na renovação dos Homens, finalmente apartados de seus pesares e finalmente desimpedidos para dar as mãos para uma nova fase da humanidade, em que não mais existirão vencedores e perdedores, triunfadores e humilhados, ofensores e ofendidos, mas unicamente irmãos, unidos pela pureza, pela natureza e pela condição igualitária de seres altivos, mas sinceros e não mais sofredores e vingativos. Amigos, suplantemos o ressentimento e demos as mãos para um novo mundo renovado no AMOR!