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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O que é mais nobre para a alma: sofrer uma injustiça ou praticá-la?

Por Denis Cabrerizo Silva



No século V a.c. dizia Sócrates que é mais nobre para a alma sofrer uma injustiça do que proferir uma iniqüidade, injúria ou praticar um ato injusto; no Evangelho de São Marcos, asseverava Jesus que o que provém do âmbito externo não é o que faz o Homem impuro, mas o que lhe sai de dentro é o que lhe conspurca a alma.

Passados mais de 2000 anos da época em que viveram tais personalidades, o significado elíptico, o intuito de cada uma das mensagens – que são congruentes e professam a mesma filosofia – parece ter-se diluído nas relações sociais que compõem nosso cotidiano. Olvidou-se do verdadeiro sentido das mensagens aludidas e, pior, inverteram-se-lhes a lógica, de forma que hoje se afigura ser mais “vantajoso” incorrer em um ato injusto a fazer-se vítima dele. Porém, para efeito de análise deste pensamento e um verbero concludente aos hábitos atuais, faz-se preciso, antes, explanar com clareza o que tais mensagens professam.

Para os gregos antigos, à época do esplendor ateniense e das ciências a que se devotavam, o mundo, o universo (cosmos), era dotado e regido por uma razão natural que conferia uma lógica aos fenômenos naturais e uma dinâmica ao funcionamento desse todo; de forma que, através desta razão normativa, a cada parte desse mesmo cosmos imputava-se um lugar e uma função específicas, cujo equilíbrio e consonância com a lei natural asseguravam o bom funcionamento de todo nosso universo.

Fortemente associado a isto, cria-se também a necessidade de se estabelecer uma comunhão da alma do homem com o cosmos. Advogando a tese de que a alma era composta por diversas partes, fazia-se necessário demonstrar ou fornecer uma forma de equilíbrio interno da alma entre suas diversas partes. Isto para que se pudesse estabelecer uma comunhão mais ampla da alma com a ordem do todo.

Daí o porquê de que naquela sociedade tanto se cultivassem as ciências matemáticas, uma vez que seu objeto consistia na transcrição, bem como a explicação para o entendimento humano, dos fenômenos e das dinâmicas naturais, a fim de melhor se compreender a ordem do cosmos e, assim, “ligar-se” a ele, integrar-se nele, desvelando as funções e deveres específicos do indivíduo para com este universo.

A partir daí, despontava a noção clássica do “bom, belo e justo”, em que se designava com tais adjetivos aquele indivíduo cuja alma encontrava-se equilibrada e em conformidade com o todo; ou seja, em consonância com um universo racional naturalmente ordenado, (bom, belo e justo) e que, por conseguinte, se fizesse como um ser virtuoso, apartado de qualquer vício, honesto e saudável.

Assim, nesta linha de raciocínio, a quem perpetrasse uma injustiça ou levasse a efeito uma iniqüidade a alma achar-se-ia desequilibrada e, portanto, em dissonância com a ordem do cosmos; encontrando-se este ser num estado de enfermidade, necessitada de reparos, pois apartada das virtudes, da beleza, da benignidade.

Por conseguinte, a assertiva de que é melhor e mais nobre para a alma sofrer uma injustiça ou adversidade se coaduna com o pensamento grego.

E é com este sentido, que Jesus vale-se para professar sua máxima, de que aquele que se encontrar em desequilíbrio e desassociado da ordem do universo acha-se não somente enfermo, mas também com a alma a caminho de uma perdição eterna que o ausenta da comunhão com Deus.
Sócrates se funda num ser elevado, criador do universo, para afirmar, que haverá perdição da alma caso seu portador não se conduzisse em vida, em consonância com as leis do universo. E para isso deveria empreender o equilíbrio de sua alma, afastando-se de todo e qualquer vício.

Observa-se que, da mesma forma que nos tempos de Sócrates e de Jesus Cristo, o pensamento não foi bem compreendido ou seguido, haja vista que, modernamente, experimentamos atrozes sofrimentos advindos de atos violentos, extremamente desumanos e injustos, que atentam contra as mais comezinhas normas naturais universais.

Destarte, após rematar a leitura deste pequeno texto, espero que a indagação com a qual tal se inicia, o leitor consiga respondê-la, optando pela melhor alternativa e dessa forma condicionar a própria compostura, sem se esquecer de que não se deve almejar ser bom, belo e justo unicamente por capricho ou emulação; mas porque nada deve haver de pior do que condenar a própria alma à perdição eterna, em razão de se haver em desarmonia com a ordem racional de um ser onipotente e da distância leviana dos bons valores e das virtudes.

Em suma, sejais puros e não praticais qualquer injustiça. E como prêmio receberá o que mais almeja: receber aquilo que, primeiro, deu ao outro.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dúvida e Angústia

Por Denis Cabrerizo Silva




                   Desditosa caminhada nossa, pois, mesmo que desconheçamos onde, quando, ou como aportamos neste mundo, sabemos, no entanto, para qual fim seguiremos.

                   Com a sentença acima, da qual me baseio para principiar esta breve análise, gostaria de introduzir uma pequena reflexão no que concerne os mistérios de nossa existência intramundana. Desde os primórdios da raça humana, uma de suas atribuições mais peculiares e de inegável importância – e inclusive uma das características que a distingue das demais formas de vida que caminham ou já caminharam sobre a terra - tem consistido na perquirição sobre a morte e de suas implicações. Com o intuito de mitigar as dores excruciantes advindas com o fim da vida e conferir sentido a uma existência que, necessariamente,  há ter um desfecho trágico, as sociedades humanas não se furtaram de utulizar toda sorte de artifícios, como a elaboração dos mitos e as diversificadas religiões, para atulhar o vazio deixado pela dúvida do que há depois deste lado e assim justificar ou legitimar uma forma de comportamento ético ou racional. Com isso criaram-se inumeráveis crenças na continuidade da vida após o desterro, que, falaciosas ou não, abrandaram, ao menos, a sensação atordoante de que um dia se deixará de existir.

                  Não obstante, com o afluir das inovações no campo tecnológico e com a ascensão da razão e seu uso instrumental, utilizando o termo de um grande pensador e sociólogo alemão, Max Weber ( 1864-1920), procedeu-se ao que se pode denominar, sem exageros e titubeios, “desencantamento do mundo”, em que todo este sistema vigoroso de crenças,  fábulas, estórias mágicas e sobrenaturais, cujas funções remetiam-se a explanação dos fenômenos testemunhados pelo Homem, são sufocadas em detrimento do domínio da razão e da Ciência, como novas formas de explicação racional destes mesmos fenômenos. Todavia, a despeito de todos os avanços científicos e tecnológicos alcançados pelo Homem que sobrepujam os desafios e obstáculos outrora tomados como inatacáveis segundo o seu parecer, um efeito desmedido de alcance, talvez, ainda desconhecido, súbito se interpôs à sua febricitante realidade: o mundo e em igual medida a humanidade defenestraram-se de sua mágica, de seu encantamento enternecedor.
                       Se nos tempos pretéritos, nos quais a fé, a crença e a imaginação assenhoravam-se dos meandros da existência individual e social humanas, havia   um suplício esperançoso pela vida e o descanso eternos e post mortem,  na modernidade e, especificamente, em nossa contemporaneidade, tal clamor esvaneceu-se a ponto crítico, defronte às realizações magnificentíssimas do processo racional e científico que a fé no impossível,  no inexeqüível, na mágica da vida, depurou-se de todos os seus sentidos essenciais, findando por tornar-se uma simples palavra infecunda e inócua. E pior, ao passo que nos tempos de outrora à indagação “por que e para que sofrer ou existir” despontava uma resposta amenizadora, ainda que claudicante ou infensa à realidade, nos tempos de agora encontramo-nos reduzidos a uma angústia incomensurável e arrebatadora em virtude, por um lado, de não mais acreditarmos na crença e, por outro, de não acharmos, segundo os novos meios, uma resposta satisfatória ao mesmo perquirir persistente. Em suma, agora  deparamo-nos reduzidos em nossa aterradora impotência, face ao desalento de uma razão e de uma Ciência insuficientes para atender-nos no que tange à solução dos mistérios da existência;  no que diz respeito a factibilidade de fazer menos torturante, a angústia de existir, isto é, a angústia gerida da necessidade de se ter certeza de que se acertou na escolha e da necessidade de que sempre se terá que optar, a todo instante que permeia nossa existência, entre decidir se a vida vale a pena ser vivida ou que talvez seja melhor arrefecê-la finalmente. Assim, desprovidos da crença e da fé, lançados a nós mesmos, não nos resta senão reelaborar-nos a todo o momento.
                     Destarte, ao se debruçar sobre a proclamação que principia este pequeno monólogo, aqui não se tenciona maldizer toda a Ciência e a Razão humanas, porquanto tenham estas contribuído enormemente com primores tais ao desatino da humanidade, que hoje se encontra ela em todo seu esplendor de facilidades materiais mundanas e outros avanços inestimáveis à consecução e preservação de sua saúde; mas, antes, o que se intenta levar a efeito aqui é compelir você, caro leitor, a nunca se furtar do sonho, da mágica, da imaginação e, principalmente, da fé de que há um sentido para a vida, um porquê, uma finalidade transcendente que, senão explicada pela Ciência, pode ainda preencher este vazio que corresponde ao absurdo de existir.
                     Portanto, a fim de rematar, sem mais devaneios, esta análise e esta reflexão, eis um pequeno trecho que, não obstante seus mais de quatrocentos anos, fez-se, indizivelmente, adequado a sua época e ainda o é, a nossos tempos, no que se refere à mencionada angústia da existência:
Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas

Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,

Ou insurgir-nos contra um mar de provações

E em luta pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais.

Dizer que rematamos com um sono a angústia

E as mil pelejas naturais herança do homem:

Morrer para dormir... é uma consumação

Que bem merece e desejamos com fervor.

Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:

Pois quando livres do tumulto da existência,

No repouso da morte o sonho que tenhamos

Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita

Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.

Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,

O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,

Toda a lancinação do mal-prezado amor,

A insolência oficial, as dilações da lei,

Os duetos que dos nulos têm de suportar

O mérito paciente, quem o sofreria,

Quando alcançasse a mais perfeita quitação

Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,

Gemendo e suando sob a vida fatigante,

Se o receio de alguma coisa após a morte,

–Essa região desconhecida cujas raias

Jamais viajante algum atravessou de volta –

Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?

O pensamento assim nos acovarda, e assim

É que se cobre a tez normal da decisão

Com o tom pálido e enfermo da melancolia;

E desde que nos prendam tais cogitações,

Empresas de alto escopo e que bem alto planam

Desviam-se de rumo e cessam até mesmo

De se chamar ação (...).

(Hamlet, William Shakespeare)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sofrimento e Renovação

Por Denis Cabrerizo Silva




Desde que era pequeno, nutro a sensação de que os livros sempre contêm algo que pode nos servir como um ensinamento prático. Pois bem, lendo, em casa, um romance russo de nome “O Idiota”, do grande escritor Fiódor Dostoievski (1821-1881) - que, a despeito de sua remota publicação, em 1868, em certos aspectos ainda apresenta uma leitura mordaz das relações humanas que compõe o nosso cotidiano -, após um tempo debruçado nas páginas densas desta inebriante narração, súbito novos pensamentos começam a nascer e a desabrochar, absorvendo-me numa série de reflexões ininterruptas.  Primeiro, começo a pensar nos sofrimentos austeros que acompanham as personagens e que, de certa forma, refletem a realidade de muitas pessoas. Tipos psicológicos que sempre afiguram estar ofendidos, humilhados pelas condições de vida que lhe são impostas, com a vaidade e o orgulho imensamente feridos por requintes alheios de ironia e desprezo e para quem a felicidade se apresenta como uma ilusão ou como um estado que parece não valer a pena  ser alcançado após tantas atribulações. 
            Tendo isto em mente e retornando à frase que introduz este pequeno texto, creio poder dizer que o ensinamento que este livro, muito aprazível, nos transmite reveste-se de uma análise aguda das relações sociais de nossos tempos: com o passar das épocas, findamos por nos tornar, assim como os personagens “dostoievsknianos”, seres ressentidos, feridos moralmente, a quem a felicidade do outro constitui-nos uma ofensa, a quem a vida não mais pode ser do que uma seqüência de sofrimentos e os sentidos desvalorizam-se, perdem seus porquês; em suma, seres que parecem habitar o subterrâneo da existência e da humanidade. E talvez deva-se a isto uma das causas da desmoralização que experimentamos, do comportamento violento e inadmissível dos novos homens, tão descontrolados do século XXI,  esmerados em  produzir tantas tristezas, incompreensão e dor.
            Assim, como no romance mencionado acima e como nos propõe o seu autor, ainda quase 150 anos antes, talvez hoje o que nos falta seja o ato de nos “idiotizarmo-nos”, isto é, deixarmos de lado, nem que seja por um pouco, a ganância, a avareza, a inveja, o ressentimento, a necessidade de outrem para existir, ou numa palavra: a necessidade de encontrar-se ofendido para subsistir; e, por outro lado, talvez nos falte também recuperar os valores humanos, como a magnanimidade, a prudência, a inocência mesma; e assim erigir uma renovação humana que passe a nos privar - nós, Homens – dos sofrimentos e dos subterrâneos da mera constituição psicológica de cada um. Desta forma, quem sabe, não poderemos elevar a humanidade para redimir-se de seus erros e atos arbitrários que tanto nos tem vilipendiado? Quem sabe não poderemos libertar a humanidade de suas limitações constrangedoras e falsas que nos tem assolado desde há muito?  E, quem sabe, assim, na simplicidade, não conquistemos a verdadeira felicidade na renovação dos Homens, finalmente apartados de seus pesares e finalmente desimpedidos para dar as mãos para uma nova fase da humanidade, em que não mais existirão vencedores e perdedores, triunfadores e humilhados, ofensores e ofendidos, mas unicamente irmãos, unidos pela pureza, pela natureza e pela condição igualitária de seres altivos, mas sinceros e não mais sofredores e vingativos. Amigos, suplantemos o ressentimento e demos as mãos para um novo mundo renovado no AMOR!