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domingo, 8 de novembro de 2020

"Moradas da alma": as etapas da vida mística segundo Santa Teresa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo do Padre Denis Marie Chesquières


‘No final da sua viagem espiritual, Santa Teresa de Jesus escreveu o livro das Moradas, no qual compara a nossa alma – o lar de Deus – com um castelo. As primeiras moradas correspondem à entrada na vida espiritual e são o fundamento de todas as posteriores.

Santa Teresa de Jesus, também conhecida como Santa Teresa de Ávila, apoia-se principalmente em quatro citações bíblicas :

Na casa do meu Pai há muitas moradas’ (João 14,2) – esta passagem, segundo a santa, evoca o ‘castelo interior’.

Quem me ama guardará a minha palavra; meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos a nossa morada’ (João 14,23) – um resumo do itinerário espiritual que ela explica.

Minhas delícias estão nos filhos dos homens’ (Provérbios 8,31) – mostra que nós somos o paraíso de Deus.

Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’ (Gênesis 1,26) – a mostra de que fomos criados para amar como Deus ama, porque Deus é amor. A vontade de Deus é que nós nos amemos como Ele nos ama.

A primeira morada é o portal de entrada na vida espiritual

Nós o cruzamos mediante a decisão de buscar a Deus em nós, apoiando-nos n’Ele, já que a pior das misérias, para Santa Teresa de Jesus, é viver sem Deus e até imaginar que podemos fazer o bem sem Deus.

Os quatro frutos da primeira morada, que amadurecerão ao longo do nosso caminho espiritual, são a liberdade, a humildade, o desprendimento e, acima de tudo, a caridade, que é o fim e a culminação.

A segunda, terceira e quarta moradas permitirão aprofundar na vida espiritual entendida como caminho rumo a Deus, como busca de Deus e participação progressiva na vida divina.

Este dom é gratuito, mas temos que estar determinados a recebê-lo e fazer desse recebimento o centro da nossa vida, purificando, assim, o lugar de nós onde habita Deus.

É Deus quem nos faz passar de uma morada à outra, quando quer e da forma que quer.

A segunda morada diz respeito à purificação da nossa relação com o mundo

A arma utilizada para triunfar aqui é a fé em Cristo e a confiança na Sua vinda para nos libertar (cf. Gálatas 5,1).

A terceira morada está ligada ao esclarecimento da relação com nós mesmos

Corremos o risco de ser como aquele jovem rico que teve um bom começo, mas que termina todo triste.

O desafio desta terceira morada é reconhecer-nos como um ‘servo qualquer’, que recebe tudo de Deus.

A quarta morada aprofunda a nossa relação com Deus

Uma grande paz vai se instaurando progressivamente nas profundidades da nossa alma. A confiança, a humildade e a gratidão são realidades que vão sendo vividas cada vez mais profundamente.

A entrada na quinta morada marca uma transição

Não passamos da quarta à quinta da mesma forma que tínhamos passado da segunda à terceira ou da terceira à quarta.

Consideramos a nossa vida não tanto como um caminho rumo a Deus, mas experimentamos Deus vivendo em nós, como explica a frase de São Paulo : ‘Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim!’ (Gálatas 2,20).

O desejo de amar é mais intenso; ao receber uma vida nova, perdemos os nossos antigos pontos de referência e as nossas seguranças habituais.

A sexta morada consiste nos ‘compromissos espirituais’

Há uma alternância de sofrimentos ligados ao sentimento de ausência de Deus e a experiências muito profundas da presença de Cristo. Aqui intervém uma dilatação ainda mais profunda do coração e do desejo de Deus.

A arma utilizada aqui é sempre a volta à santa humanidade de Cristo : Jesus se une a nós em nossa debilidade humana para transformá-la, para revitalizar o nosso desejo de amar em comunhão com Ele.

A sétima morada, enfim, é o ponto de culminação definido pela união com Deus no ‘matrimônio espiritual’

Este matrimônio espiritual foi concedido a Santa Teresa de Jesus em 18 de novembro de 1572.

A união com Deus é uma participação profunda no desejo de Deus de salvar todas as pessoas.

Através do matrimônio espiritual, tudo fica transformado e se recebe um renovado desejo de viver assumindo a própria condição e os próprios compromissos terrenos de maneira ainda mais concreta e sem fugir da realidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2020/11/06/moradas-da-alma-as-etapas-da-vida-mistica-segundo-santa-teresa-de-avila/

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O Senhor dentro de mim, eu toda mergulhada nele

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
O 'Êxtase de Santa Teresa' ou a 'Transverberação de Santa Teresa' é uma escultura de Giancarlo Bernini

*Artigo de Gustavo Ribeiro

 

‘Não era uma espécie de visão : creio ser o que chamam de teologia mística. A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si. A vontade ama, a memória, a meu ver, está quase perdida, o intelecto não raciocina, contudo, não se perde; entretanto, torno a dizer, não age. Está como que admirado do muito que alcança’. (Vida, 10, 1b)


‘Já se tornou um clichê dizer que Teresa de Jesus ou de Ávila, como preferirem, é uma das grandes mulheres da Igreja. E digo isto sem nenhum desprezo ou demérito, mas para reforçar que Teresa é uma força, mas muitas outras mulheres o foram também naquele período, porém não apareceram como a reformadora do Carmelo por conta da cultura patriarcal que molda a cristandade daquele tempo.

Entre as mulheres que se destacaram pela mística está Teresa, e de sua figura e legado destaca-se a reforma do Carmelo. E por reforma se entende não somente a dimensão burocrática da organização e fundação de novos claustros, mas a abertura para a experiência de uma vida espiritual transformada, capaz de conduzir suas monjas pelas sendas de um castelo, a explorar suas moradas interiores, num trabalho espiritual incessante pessoal, não solitário.

Existe ao redor de Teresa uma desconfiança acentuada pela cultura patriarcal, que a vê como desajustada, num processo de patologização de sua experiência espiritual concreta e até, usando de um anacronismo, progressista.

Tereza é uma dessas figuras que escapou pelas fissuras que existem na cultura patriarcal... o que demonstra a sua força, sua coragem, sua vontade de transformar aquele cenário, mas é também algo que precisa estar sempre em consideração ao falarmos dessas mulheres que em determinadas épocas se sobressaíram, porque elas representam a reação contracultural a essa estrutura patriarcal que cerceia a participação feminina e que impede a construção de uma mística feminina própria, porque não permite que as mulheres se expressem e narrem suas vivências espirituais.     

O que talvez espante em Teresa é que a sua mística é bastante encarnada e o corpo é o grande protagonista dessa experiência. Tereza sente na carne a experiência mística que faz e é nela que a santa experimenta a vinda do Senhor. Teresa apresenta inclusive a experiência mística como algo muito íntimo : ‘quando interiormente me figurava estar junto de Cristo, ou até mesmo lendo, ocorria-me de repente tal sentimento da presença de Deus, que de algum podia duvidar que o Senhor estivesse dentro de mim, e eu, toda mergulhada nele’ (Vida, 10,1).

O modo como a doutora narra suas experiências surpreende, porque naquele período histórico uma mulher não podia expressar-se livremente, muito menos atribuir termos com conotações quase sexuais. Teresa rompe muitas barreiras ao mesmo tempo, porque a mística e a expressão dela passa pelo corpo, porque ele é o lugar por excelência da experiência mística, e não existe experiência desencarnada.

Segundo Julia Kristeva, ‘os êxtases de Teresa são, desde o início e sem distinção, palavras, imagens e sensações físicas, espírito e carne, ou melhor, carne e espírito : ‘o corpo não fica sem participar do jogo, e até muito’’.

E é assim que Bernini retrata Teresa em sua obra Transverberação de Santa Teresa, uma mulher flechada por uma seta de fogo em posição de aparente gozo físico. Porque em Teresa a experiência de encontro com Deus é romântica, no sentido de entrega total ao Amado em suas delícias.

O Deus distante, ‘totalmente outro’, na espiritualidade teresiana é alteridade experimentável, se deixa encontrar e experimentar, inclusive de maneira física, ou melhor, carnal, orgástica. Fruto das experiências ética, estética e extática que Teresa faz de Deus.

Algo que impressiona na reformadora do Carmelo é que suas experiências pessoais são profundamente comunitárias e, talvez, universais. Porque ela não faz caso delas, em aprisioná-las em uma narrativa autorreferente, ensimesmada, mas as transforma em relatos pedagógicos de experiências alcançáveis ao seu ver. Ela relata às suas irmãs, vocativo que ela repete com frequência em suas obras o vivido, o fruto da experiência, porque quer que elas também trilhem os mesmos caminhos e experimentem, que alcancem favorável graça do Amado, a ponto de experimentá-lo em suas entranhas, como ela o faz.  

A experiência mística de Teresa surge da oração. E é sobre a oração que a reformadora do Carmelo refere-se em suas obras, mesmo em Fundações, ao tratar da fundação dos mosteiros, é sobre a oração que a doutora da Igreja busca fundamentar sua necessidade de tais empreendimentos. E a oração para Teresa é Deus mostrando a alma sua amizade, sua total filantropia.

Teresa viveu uma espiritualidade totalmente atrelada à humanidade de Jesus, porque caminhar por esta senda permitia a ela a compreensão de estar no mundo de forma concreta e a não buscar fugir dele nem a ele se assimilar. E ela só pode olhar para um único modelo, Cristo : ‘não somos anjos, temos corpo. Queremos passar por anjos enquanto estamos na terra, e tão engolfados nela como eu estava, é desatino. Em geral, nossos pensamentos carecem de apoio. Às vezes, a alma sai de si; outras anda tão cheia de Deus a ponto de dispensar alguma coisa criada para se recolher. Isto, porém, não é comum. Quando não se pode ter tranquilidade, no meio dos negócios, perseguições, sofrimentos e em tempo de securas, Cristo é o melhor amigo. Olhando-o feito homem, vemos suas fraquezas e tormentos, e permanecemos em sua companhia. Adquirindo o hábito, é muito fácil encontrá-lo junto a nós’ (Vida, 22,10).

Não podemos afirmar que Teresa possuía uma devoção nominal ao Coração de Jesus, mesmo que esta devoção tenha surgido no século 13 no Mosteiro Cisterciense de Helfta, com Santa Gertrudes, porém só ganhou notoriedade litúrgica com São João Eudes, que escreveu a primeira liturgia ao Sagrado Coração de Jesus, no século 17. O fato é que mesmo não nomeando suas experiências a partir dessa devoção, a reformadora do Carmelo viveu em sua espiritualidade. As idas e vindas de Teresa nos mosteiros e os longos anos de deserto espiritual, são aplacadas pela experiência do aconchego no Senhor, atendendo ao que o Mestre anunciava : ‘venham a mim todos vocês que estão cansados e carregados de fardos... e encontrem descanso’ (cf. Mt 11,28-30).

A misericórdia de Deus se manifesta na vida de Teresa de forma a ajudá-la a enfrentar os inúmeros desafios que surgiram em sua busca incessante em trazer a vida monástica à verdadeira experiência do Amado.

Teresa hoje, mais que nunca, deve brilhar para nós como testemunho da gratuita misericórdia de Deus e da busca espiritual que devemos realizar ao deixando-nos acolher pelo Coração de Jesus e nele encontrar morada.

No mundo da dispersão, a figura de uma monja talvez nos ajude a encontrar e experimentar o essencial da vivência da fé, o amor de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1474420/2020/10/o-senhor-dentro-de-mim-eu-toda-mergulhada-nele/


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Teresa D'Ávila : oração e contemplação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Teresa D’Ávila, com seus escritos “Castelo Interior” e “Caminho de Perfeição”, ofertou ao mundo sua própria experiência de vida contemplativa e, pela literatura, seu lado místico imorredouro.
 *Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘No dia 15 de outubro recorda-se na Igreja uma mulher totalmente voltada à contemplação e ao absoluto de Deus que, como Maria, escolheu a melhor parte e não lhe será tirada. Trata-se de Santa Teresa de Jesus, religiosa carmelita espanhola (1515-1582), que marcou uma época, sobretudo por sua talentosa sabedoria e inteligência, identificada e configurada com Jesus de Nazaré, levando uma vida de oração, oferecendo um dadivoso e restaurador banho de fé à humanidade, legado espiritual de graças e bênçãos para a nossa civilização cristã. Igualmente, consciente de que a oração é o bem maior e a porta de entrada para a perfeição, exatamente quando o mundo se alargava através das grandes navegações, conquistas e descobertas humanas, é que surge Santa Teresa como dádiva, dom e graça de Deus.
Teresa D’Ávila, uma criatura humana exemplar, descomunal e atemporal, bem que pode ressoar, hoje, na vida dos cristãos como um verdadeiro milagre do inefável mistério de amor. Não tenho dúvida alguma de tratar-se de uma mulher fortemente movida pelo Espírito de Deus. É assim que percebo o interior de nossa Irmã D’Ávila, nas suas surpreendentes aventuras pelo misterioso caminho do mundo interior, tendo por base o Livro Sagrado : ‘Como a corça que suspira pelas águas da torrente, assim minha alma suspira por vós, Senhor. Minha alma tem sede do Deus vivo’. Ela é considerada fundadora dos Carmelitas Descalços, juntamente com São João da Cruz, aquele da célebre frase, a saber : ‘No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor’.
Teresa D’Ávila, com seus escritos ‘Castelo Interior’ e ‘Caminho de Perfeição’, ofertou ao mundo sua própria experiência de vida contemplativa e, pela literatura, seu lado místico imorredouro. Como soube ela colocar diante dos olhos, na mente e no coração o Deus grande, glorioso e esplêndido, sendo a razão do seu viver, indicando-nos o caminho da transcendência e da benevolência divina. A seu exemplo, fixemos nosso olhar no mistério a envolver, no sentido mais profundo, a suma felicidade : ‘Nada te perturbe. Nada te amedronte. Tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. A quem tem Deus nada falta. Só Deus basta!’. Assim seja!’

Fonte :


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Mulher que encantou o mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


Santa Teresa de Jesus, religiosa carmelita espanhola (1515-1582), marcou uma época, sobretudo, por sua talentosa sabedoria e inteligência, identificada e configurada com Jesus de Nazaré. Por uma vida de oração e por oferecer um dadivoso e restaurador banho à humanidade, legado espiritual com marcas de graças e bênçãos para a nossa civilização cristã. Igualmente, consciente de que a oração é o bem maior e a porta de entrada para a perfeição, bem como todo progresso na vida espiritual, exatamente quando o mundo se alargava através das grandes navegações, conquistas e descobertas.

Teresa D’Ávila, uma criatura humana exemplar, referencial, descomunal e atemporal, bem que pode ressoar, hoje, na vida dos cristãos como um verdadeiro milagre do inefável mistério de Deus. Não tenho dúvida alguma de tratar-se de uma mulher fortemente motivada pelo Espírito de Deus. É assim que percebo o interior de nossa Irmã D’Ávila, nas suas surpreendentes aventuras pelo misterioso caminho do mundo interior, tendo por base o Livro Sagrado : ‘Como a corça que suspira pelas águas da torrente, assim minha alma suspira por vós, Senhor. Minha alma tem sede do Deus vivo’ (cf. Sl 42, 1). Ela é considerada fundadora dos Carmelitas Descalços, juntamente com São João da Cruz, aquele da célebre frase, a saber : ‘No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor’.

Com seus escritos, ‘Castelo Interior’ e ‘Caminho da Perfeição’, deixando marcas inconfundíveis, precisamente numa época em que se dedicou à tarefa exigente de fundar e edificar casas de carmelitas reformadas, demonstrando força e vigor intelectual, testemunho apostólico e, já nessa época, com a consciência de uma Igreja santa e pecadora sempre necessitada de conversão, Teresa D’Ávila voltou seu espírito à oração, ofereceu ao mundo sua experiência de vida contemplativa e mística e teve diante dos olhos o absoluto de Deus, presenteando a humanidade com sua indelével marca e legado : ‘Nada te perturbe. Nada te amedronte. Tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. A quem tem Deus nada falta. Só Deus basta!’.

Suas belíssimas reflexões, além de encantadoras, asseguram-nos, por bondade de Deus, que temos tudo o que precisamos às mãos para realizar os propósitos divinos, quando afirma que ‘o Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras, olha mais o amor com que são feitas’. Santa Teresa também nos indaga sobre a superficialidade de nossos sentimentos, dizendo-nos : ‘O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo’. O essencial para Santa Teresa foi a misericórdia de Deus. Aqui cabe uma fervorosa súplica ao bom Deus, para que a humanidade saiba se valer da reformadora, colocando-a como referência para o nosso tempo tão conturbado. Assim seja!’


Fonte :

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Que nos diz Santa Teresa depois do V Centenário?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito


Frei Patrício Sciadini, OCD, explica as cinco mensagens que nunca podemos esquecer, sem correr o risco de nos tornar ‘robôs’ espirituais

A musica cessou. A festa terminou. A vida continua, mais rica ou mais pobre, depois de ter celebrado em tantas maneiras os 500 anos do nascimento de Santa Teresa d’Ávila? Muitas foram as mensagens bonitas tiradas dos seus escritos, muitos livros foram publicados sobre sua doutrina, sua personalidade humana, espiritual e mística. Os seus ensinamentos foram transmitidos com todos os meios de comunicação. Sem dúvida Teresa no céu deve estar feliz em ver tantas celebrações nos 5 continentes e em todas as línguas. Mas acredito que isto não constitui a felicidade dos santos no céu, que vivem em ‘eterna contemplação do face a face de Deus e intercedem por nós’. A missão dos santos, como costumava dizer a mais nobre filha de Teresa, Teresa do Menino Jesus, começa no céu onde ela, a pequena Teresa não queria ficar de braços cruzados, mas importunar Deus em favor de todos os missionários do mundo.

Teresa d’Ávila deixa cada vez mais a sua marca indelével nas almas que buscam, não um Deus distante, mas sim um Deus próximo, um Deus não ‘legalista’, mas um Deus misericordioso.  Dizem os estudiosos que a palavra misericórdia e termos afins recorrem nos escritos teresianos mais de 600 vezes. Aliás, ficou famosa a frase que ela escreveu como ‘prefácio’ à sua autobiografia, ‘cantarei as misericórdias do Senhor’. Em um e em outro lugar ela diz com verdade acertada : ‘me cansarei antes eu de ofender a Deus, que ele de me perdoar’. E ainda : ‘Deus doura os nossos pecados para que os outros, não os vejam e assim possamos fazer um pouco de bem’. Esta mulher, que soube dar uma volta por cima na mentalidade do seu tempo, que queria relegar as mulheres ‘à cozinha, fiando e tecendo, dando filhos, cuidando da casa, ou sendo freiras às vezes sem vocação, enchendo conventos e esvaziando o coração de amor e de afeto’.

Teresa não se dá por vencida. Ela toma consciência lentamente de sua missão humana, religiosa, seja no Carmelo da Encarnação antes, e depois como fundadora do Carmelo de São José, e na mesma Igreja. Não se forma nos bancos de universidade e nem de escola, não leem muitíssimos livros, mas os que leem são escolhidos a dedo, e faz que os autores se tornem seus mestres, como era o caso de Santo Agostinho que, com suas confissões, influenciam a sua visão de Deus. Sejam os livros de Pedro de Alcântara ou de Francisco de Osuna, e mais tarde o magistério oral de João da Cruz e do Padre Graciano. Teresa está atenta especialmente ao seu divino Mestre interior, Jesus, que um dia para consolá-la quando os teólogos e doutores, apavorados diante do povo que quer conhecer a bíblia, encontra uma solução : proibir a leitura da bíblia em espanhol, especialmente às mulheres. Nesta crise e revolta de Teresa, Jesus lhe diz : ‘tranqüila, eles - os teólogos, biblistas e todos os intelectuais – não me poderão amarra as mãos. Dar-te-ei um livro vivo, que sou eu mesmo!

Creio que no fim deste centenário, Teresa nos repete simplesmente cinco mensagens que nunca podemos esquecer, sem correr o risco de nos tornar ‘robôs’ espirituais e esvaziar a nossa humanidade :

1.       O ser humano não pode ser nunca descartável. Deve ser amado. Deus o criou à sua imagem e semelhança e tem feito dele a sua morada preferida, o seu ‘castelo interior’, onde ele mora não como escravo, mas como rei e príncipe. Esta consciência do ser humano templo e amigo de Deus, é fundamental sempre, mas especialmente neste mundo onde nós descartamos e vemos o outro como inimigo que deve ser eliminado e não amado.  As intuições teresianas, às vezes mal interpretadas pelos psicanalistas e os psicólogos, que veem o ser humano como ‘cobaia’ para ser estudado, tem uma força única na antropologia e na mística. Devemos ler e reler o livro ‘Castelo interior’, como autêntica auto-biografia de Teresa, e por ela deixar-nos tomar pela mão e conduzir-nos de morada em morada, até à morada central, onde habita o Rei, Jesus, ‘sua Majestade’.


2.      Sem dialogar com Deus não há felicidade. Tem-se escrito muito sobre a oração teresiana como uma belíssima história de amizade entre nós e Deus. Teresa vê a oração não como um repetir ‘orações que não têm fim’, mas como um íntimo diálogo silencioso, um estar face a face com aquele que sabemos que nos ama. Esteja claro que Teresa não é contra a oração vocal. Aliás a aprecia   desde que ela tenha três pequenas qualidades: saber com quem se fala, o que se diz e como se diz. ‘O simples movimentar dos lábios isto não chamo de oração’, nos adverte a orante Teresa. Sem ofender ninguém e com a esperança de não ser mal interpretado, eu diria que hoje se reza demais e se reza mal. Há uma indigestão de orações que em lugar de dar-nos liberdade no amor, nos escravizam. Teresa não busca na oração a sua satisfação pessoal, mas sim a glória de Deus e, por amor a Deus, é capaz de rezar sem nada sentir, e passar tranquilamente 19 anos de aridez interior, mas sendo fiel ao seu tempo de oração. Hoje redescobrir a oração é um caminho que deve ser percorrido na simplicidade e compreendendo que ‘a oração não consiste em muito pensar, mas sim em muito amar.’


3.      A santidade não consiste nas penitências, mas nas virtudes. Teresa não é amiga das muitas penitências e mortificações. Ela sabe por experiência que estas coisas não ajudam a ter uma autêntica experiência de Deus. Ela quer ver as virtudes, especialmente quatro virtudes que eram raras nos tempos de Teresa e são raras hoje : o amor a Deus, o amor fraterno, o desapego das coisas e a humildade. Sobre estas quatro colunas Teresa vai construindo toda a sua doutrina e a sua vida espiritual. O novo Carmelo que ela gera junto a João da Cruz não é feito das penitências e de negação de si mesmo, mas sim de uma nova descoberta do amor, vivido na simplicidade da vida. Admira-se pelas penitências de Pedro de Alcântara, que nem dormia e nem comia, e cuja aparência era como de raízes de árvores. Teresa não apresentava este santo e amigo como modelo nem para as monjas e nem para os frades. Teresa queria ver em cada monja e frade, e toda pessoa, bem unidas ‘Marta e Maria’, a vida ativa de disponibilidade e vida de oração e contemplação. Os livros de Teresa, depois de 500 anos, são livros de espiritualidade equilibrada, serena e tranqüila, e, como ela dizia, ‘sem bobeiras’.


4.      Uma Igreja em caminho.  Um dos nomes mais belos que a história tem dado a Teresa é a ‘andarilha’, a caminhante, a peregrina. Hoje nós ficamos espantados quando tentamos de ver como esta monja de clausura caminhou sem parar para difundir o evangelho, fazer fundações de Carmelos, anunciar com sua vida, a sua doutrina e experiência de Deus. Ela tem usado todos os meios à sua disposição no tempo. Tem mudado a Igreja com seu silêncio, com sua vida, sendo fermento de uma vida nova de oração, de humanidade, de amor. Teresa é uma revolucionária que sabe encontrar o caminho certo, as palavras certas, para mostrar que não se pode colocar ‘vinho novo em odres velhos, senão corremos o risco de perder tudo’. Amar a Igreja e caminhar ao ritmo da Igreja. Avançar o passo quando a Igreja é lenta e frear o passo para esperar que a Igreja chegue. Uma harmonia que as vezes nos falta hoje.


As lições de Teresa são sempre válidas porque são evangélicas, humanas e espirituais. É uma mestra que não passa de moda porque não diz coisa contingente do momento, mas verdades que são sempre verdades : Deus, homem, oração, Igreja, verdade. Serão sempre atuais. O que posso dizer depois da celebração dos 500 anos de nascimento de Teresa? Leiamos os seus escritos e seremos mais humanos e mais divinos! 


Fonte  :


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Santa Teresa : monja de clausura pelos caminhos de Espanha

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito

‘O V Centenário do nascimento de Santa Teresa d’Ávila, fundadora das carmelitas descalças e dos carmelitas descalços, coloca em discussão tanto nossa maneira de pensar como de viver. Hoje gostaria de evidenciar um aspecto do momento atual, onde a Igreja, mãe e mestra, se encontra com uma certa dificuldade e que Teresa pode oferecer uma luz e um caminho novo e corajoso : a clausura. O que nós entendemos quando falamos de monjas de clausura ou de Carmelitas Descalças, fundadas por Santa Teresa d’Ávila, naquela manhã quente e esplendida do 14 de agosto de 1562? A fundação de São José foi preparada no silêncio, às escondidas. O povo de Ávila acordou com as badaladas do sino do pequenino mosteiro e ficou assustado, preocupado por ter que manter economicamente um outro mosteiro e outras monjas. Tentou-se todo o possível para fechar o mosteiro, mas não teve jeito. O bispo Dom Álvaro estava de acordo e especialmente Teresa era uma ‘cabeça dura’, que não desanimava diante de coisas deste tipo. 

Quando nós falamos hoje de clausura entendemos monjas contemplativas que decidem separarem-se do mundo, para viver uma maior intimidade com Deus, e que querem abraçar, com a oração, todas as necessidades da Igreja e serem uma presença viva, atuante, dentro da comunidade, não pelas formas de apostolado, nem pelas obras, mas sim pela oração e uma  intensa vida espiritual. Se fala de clausura papal. Não podem sair a não ser por determinados motivos e normas. E se obrigam a uma vida de sacrifício, de distância do mundo e etc dos etceteras. Tudo bem. Nada contra isto. Mas como Teresa soube ‘administrar tudo isto’, como ela e suas monjas souberam viver a clausura naquele tempo? E como deveria ser vivida hoje?

Não é caso de perder-nos em estéreis discussões sobre isto, tanto mais que eu não sou monja de clausura, mas sim ver como Teresa amou intensamente a clausura como ‘recanto de solidão’ para estar na escuta de Deus e viver, como dizia o seu filho e mestre espiritual João da Cruz, ‘a solidão sonora e música silenciosa’. Mas ao mesmo tempo o seu zelo pela missionaridade a levou muitíssima vezes a ‘sair da clausura’ para levar a presença de Cristo e do Carmelo no coração das cidades. Isto podemos comprová-lo olhando ‘o entusiasmo e uma certa ânsia de fundar mosteiros a toque de caixa’, em 20 anos, isto é de 1562 ao 1582. Teresa fundou quase 20 mosteiros de monjas e 13 de frades. Um ritmo impressionante, uma atividade que poderíamos chamar ‘frenética’, e projetou um Carmelo em Madri, mesmo que nunca conseguiu realizar.

Às vezes Teresa tinha que sair da clausura para consolar princesas depressivas ou jovens princesas como a de Alba de Tormes, que estava prestes a dar a luz, que queria a presença da madre Teresa. Ela chegará mais tarde para morrer em Alba de Tormes. Foi convidada a sair da clausura pelos Superiores sem motivos sérios, e hoje diríamos inúteis, mas Teresa é obediente e se coloca em caminho, com dificuldades e vai. Sabe como se relacionar com bispos e convencê-los a aceitar e apoiar as fundações, como a de Burgos e de Sevilha.

 A clausura de Teresa foi muitas vezes as ruas e as viagens, ou o seu ‘Carmelo itinerante’, em carruagem, onde nunca faltava o famoso sino, para chamar e marcar os horários das orações, do silêncio, da recreação. E convidava aos cocheiros a fazer silêncio e, se obedeciam, dava para eles uma boa porção de comida. Viveu a clausura com uma certa ‘elasticidade e liberdade interior’ e se sentiu bem. Mais tarde, depois de sua morte, vieram superiores, como o Padre Doria, que amará mais a lei que a pessoa humana. A clausura para Teresa não é mais importante que a missão, e nem a pessoa humana. Ela era uma mulher livre e a sua liberdade a viveu a com uma atenção às leis, à obediência à Igreja, mas também às necessidades do seu tempo.

O que diria Teresa de Ávila da clausura de hoje? Vamos deixar para um próximo artigo, que o meu espaço terminou. Mas creio que é necessário ter uma visão de clausura, de contemplação, que seja ao mesmo tempo um estilo de vida, com normas jurídicas, mas com uma visão do que diz Jesus : ‘não é o homem que é feito para os sábado, mas o sábado para o homem’. Nasce sem dúvida uma nova reflexão sobre este tema tão importante ao se colocar em discussão, a clausura. Mas será que se rompe a clausura só saindo do mosteiro? Creio que os meios de comunicação, se não bem usados, são um meio não para conservar o silêncio e solidão, para uma maior intimidade com Deus, mas para fazer entrar o mundo e a ‘mundanização’ nos conventos de clausura e nos corações dos contemplativos e dos consagrados.

Teresa de Ávila teria bem usado os meios de comunicação de hoje, seja a internet, WatsApp, twiter, como a seu tempo soube bem usar  a comunicação mediante livros, cartas e encontros, e como ‘andarilha de Deus’, pelos caminhos da Espanha e comunicou o evangelho e a oração com todos os meios e forças  e capacidade, que Deus lhe deu. Teresa é a cantora da liberdade sadia, forte, divina e humana. Soube voar e bem, de um lado ao outro, para anunciar o seu amor a Jesus e à Igreja, na escuta de Deus e da Igreja. Podemos estar em ‘clausura’ e ter o coração como um aeroporto ou rodoviária, de vai e vem. E podemos ir pelo mundo com o coração cheio de Deus e viver um ‘clausura de amor’, onde o mundo não pode perturbar-nos. ‘Onde está o teu tesouro aí está o teu coração’’.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/santa-teresa-monja-de-clausura-pelos-caminhos-de-espanha
  

quarta-feira, 18 de março de 2015

Uma nova Santa Teresa D´Avila visita o Papa Francisco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito

‘O Papa Francisco continua a surpreender a todos e a todas com sua profundidade e com suas intuições, que são sem dúvida obra do Espírito Santo e não só da inteligência ou da ‘criatividade’, para suscitar interesse. Acredito muito no que João da Cruz chama de ‘iluminações e vozes interiores do Espírito Santo’. Creio no que Teresa d Ávila diz muitas vezes que o Senhor lhe falava na oração e lhe dizia o que ela devia fazer sem desanimar. Já em vários momentos o Papa Francisco tem falado de Santa Teresa de Ávila, fazendo referência a esta mulher extraordinária,  seja falando da vida religiosa - ‘uma santa triste é uma triste Santa’- ou falando de oração.

O Papa aceitou com alegria a ideia do Padre Geral do Carmelo, Padre Savério Cannistrá, de convidar o Carmelo e o mundo a uma ‘hora de oração’ no dia 26 de março, V Centenário do nascimento de Teresa, que aconteceu no dia 28 de março de 1515. E o Papa deu também a intenção desta oração, ‘a paz’, e preparou um pequeno texto convidativo, muito interessante. É belo e consolador para mim, carmelita descalço, ver esta iniciativa do Carmelo apoiada pelo Papa Francisco. E ainda estou convencido que em várias ocasiões o Papa irá fazer referência a esta mulher extraordinária, não só no que refere à espiritualidade, mas também para que as mulheres ‘tenham mais espaço na mesma Igreja’. Teresa foi conquistando o seu espaço não com uma revolução estéril e gritos de praça, mas sim pela sua vida de oração, pela sua capacidade de diálogo, de escuta dos teólogos, mas também com sua humildade que é capaz de destruir os muros  da auto suficiência e do machismo do mundo  social e da Igreja do séc. XVI. Teresa não desanima e diz o que pensa e o que ela sabe por experiência : ‘eu falo só do que sei, só do que tenho experiência!

Na audiência geral do dia 11 de março o Papa surpreendeu, especialmente a mim, fazendo referência ao V Centenário do nascimento de Santa Teresa, dirigindo-se aos jovens, aos enfermos e aos recém casados. Eis as suas palavras : ‘um pensamento especial ofereço aos jovens, aos enfermos, aos recém casados. Neste mês lembramos o V Centenário do nascimento em Ávila de Santa Teresa de Jesus. O seu vigor espiritual estimule a vocês, queridos jovens, a testemunhar com alegria  a fé na vossa vida; a sua confiança  em Cristo Salvador sustente vocês, queridos enfermos, nos momentos de maior desencorajamento; e o seu infatigável apostolado convide vocês, recém casados, a colocar no centro Cristo na vossa casa conjugal!

Sem dúvida esta visão da mensagem de Santa Teresa de Ávila, vista com os olhos do Papa Francisco, tem um sabor de novidade e é necessário saber acolher estas palavras para fazer que Teresa não seja mais a mística e a santa longe da vida do povo, mas no coração do povo. É uma santa amiga, que viveu a sua realidade com entusiasmo e com amor.

Teresa morreu com 67 anos de idade, velha para o seu tempo, mas a sua mensagem tem um valor atual, porque os santos não envelhecem. E todos, especialmente os jovens, podem contemplar em Teresa o ‘vigor espiritual’. Ela sempre, mesmo na última etapa de sua vida, na sua viagem de Burgos para Ávila, manifestou um grande entusiasmo e vigor espiritual e onde passava deixava a sua palavra de amor , de estímulo  e de fé. Deu testemunho de fé forte e corajosa.

Teresa de Ávila nunca teve uma saúde de ferro. Sempre experimentou a fragilidade do seu corpo, mas não desanimou. Doente, enferma, encontrava a coragem para oferecer as enfermidades a Deus como oração. Ela tinha grande confiança em Jesus em quem fixava os seus olhos, especialmente no Cristo chagado pelo sofrimento da paixão. Era muito devota do Cristo crucifixo e atado a coluna.

As enfermidades, as doenças, não são uma ‘maldição de Deus’, mas um dom e uma graça do amor do Senhor que nos convida a participar da força redentora da paixão  de Jesus.

Pode suscitar uma certa maravilha que o Papa convide os recém casados a olharem a Teresa de Ávila  e colocar  Cristo no centro da própria casa  conjugal. Me vem em mente o que Teresa diz, falando dos seus mosteiros : ‘colocarei numa porta a São José, na outra a Virgem Maria e no centro  Jesus, e tudo irá bem’. Bela esta imagem! Que todos recém casados, recordando os ensinamentos de Teresa de Ávila, se lembrem do seu  infatigável apostolado e coloquem no centro da vida e da  casa  a Jesus,  e  tudo dará certo. Esta leitura com os olhos do Papa Francisco sobre o V Centenário de Santa Teresa nos dá uma nova dimensão de sua mensagem, não só para a vida religiosa e contemplativa, mas também para os jovens, os doentes e os recém casados. Que possamos aproveitar de tudo isto através de uma nova leitura dos escritos da grande  Doutora da Igreja, que continua a nos surpreender com sua  vida e experiência de Deus e que nos convida a beber da Água viva que é Cristo.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/uma-nova-santa-teresa-d-avila-visita-o-papa-francisco

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Santa Teresa : uma religiosa inquieta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Frei Patrício Sciadini, OCD,
Provincial dos carmelitas descalços no Egito

‘Estamos celebrando o V centenário do nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-1582) e é uma grande graça de Deus que este ano se celebre também, por desejo do Papa Francisco, o ano da Vida Consagrada. Teresa teria exultado de alegria diante da carta que o Papa tem enviado a todos os consagrados e consagradas do mundo. Uma carta que abre o coração dos que olham o passado com gratidão, vivem com paixão o presente, sabe ver novos horizontes diante de si e tem no coração um grande amor pela Igreja. Hoje em dia o Papa tenta com todos os meios de ‘acordar-nos’ do nosso sono de mediocridade que nos impede de viver com entusiasmo renovado a nossa fidelidade à missão que nos é confiada. E preciso abrir os olhos e colocar os óculos das bem-aventuranças para ver que uma nova vida consagrada está surgindo com nova modalidade e com uma força que nem sempre sabemos acolher nos nossos corações endurecidos.

Numa série de reflexões que quero escrever para Zenit sobre Santa Teresa de Ávila, gostaria de tocar vários temas que fazem desta mulher uma pessoa de qualidades raras e que soube de verdade colocar a frutificar os talentos que recebeu de Deus. Não foi enterrá-los, mas os fez frutificar, indo contra todas as correntes de seu tempo. Não teve medo. E sabemos como nos momentos mais difíceis de sua vida, quando também a ela as noites, os desertos e os medos a torturavam por dentro, diante das dificuldades para realizar a obra das fundações dos Carmelos, normalmente sentia a voz do Senhor que lhe dizia : ‘por que você tem medo, de que tem medo? Te deixei alguma vez sozinha? Os teus negócios são os meus negócios. Não tenhas medo!’ Estas palavras lhe infundiam uma coragem nova e era capaz de enfrentar numa maneira ‘feminina e teresiana’ qualquer pessoa. Sabia entrar na amizade e sabia falar de Deus e dos projetos de Deus com uma força única, que mesmo os mais adversos inimigos não podiam resistir-lhe.

Trazia dentro dela uma inquietação dos buscadores de Deus. Quem busca de verdade o rosto de Deus e o seu amor sabe que nunca o poderá encontrar  totalmente. Trazia no seu coração a mesma inquietação de Santo Agostinho e repete nos seus escritos a famosa frase : ‘criaste o nosso coração para ti e ele anda inquieto até que não descanse em ti.’ Aliás, sabemos que as Confissões de Santo Agostinho são uma  força para sua conversão pessoal. Teresa adverte no mais íntimo de si mesma um desejo que  a ‘persegue com uma doce violência’ desde sua infância : ‘quero ver a Deus!’ Este será  o seu  impulso constante ao longo dos seus 67 anos de vida. O desejo de ver a Deus  a leva  a dar-se totalmente a ele. Ela mesma escreverá : ‘Deus se dá totalmente a quem totalmente a ele se doa.’ Fará esta bela experiência de ser tomada, invadida pela força  do Espírito Santo de Deus.

É uma mulher inquieta, busca sempre algo mais. Traz dentro de si a insatisfação dos místicos, sabe que não podem se acomodar a uma vida tranqüila, onde é amada e respeitada, como na casa paterna e como no Mosteiro da Encarnação. Procura algo mais e por isso, na sua inquietação, ela resolve dar ‘novo vigor ao Carmelo’ que vivia um cansaço e uma estagnação que provocava uma vida  burguesa e sem sentido. Mas como fazer isto?

No mosteiro carmelitano da Encarnação, onde viviam 180 monjas, ela pensa como realizar uma pequena comunidade à imitação do colégio de Cristo, 13 monjas, onde deve reinar o amor a Deus, o amor ao próximo, o desapego de todas as coisas, e embora Teresa a coloque por último, a virtude da humildade que para ela é o fundamento de todo o edifício. Nesta inquietação Teresa dá vida ao mosteiro de São José. É genial na sua ‘geografia do mosteiro’ : no meio está Jesus, numa porta a Virgem Maria e na outra São José, e assim não podemos ter medo de nada.

Mas qual é o segredo da pequena comunidade teresiana? É o amor. E o diz e repete em todas as maneiras e tons : poucas como somos, todas devem se amar, todas devem se ajudar, todas devem se estimar, promover. Teresa, na sua comunidade, queria como coração a oração silenciosa. Duas horas por dia, e depois a ‘verificação’ da qualidade da oração na recreação comunitária. Esta monja que sabe que não lhe é possível ir ‘às periferias’ para anunciar o evangelho, desde os seus mosteiros aconselha a todas as suas monjas e frades a irem às periferias através da oração pela Igreja e pelos teólogos e pregadores do evangelho, que devem ser preparados, para resistir aos ataques do mal.

Uma inquietação profética que leva Teresa a ser andarilha pelas terras de Espanha, fundando  mosteiros de monjas, conventos de frades, porque onde tem uma casa de oração se tem a certeza da presença de Deus. É a maneira que ela encontrou com fidelidade ao seu carisma de contemplativa, de ser criativa diante de um mundo que ‘está em chamas  por causa das heresias  que dividem a Igreja.’

 A próxima vez  falaremos da oração de Teresa. Eis um texto de Teresa :

Talvez pergunteis por que insisto tanto nisso, dizendo que devemos ajudar os que são melhores que nós. Explico : porque creio que não entendeis bem o quanto deveis ao Senhor por terdes sido trazidas para um lugar tão longe de negócios, situações perigosas e relações com o mundo, uma enorme graça. O mesmo não ocorre com aqueles de quem falei, nem é bom que ocorra, muito menos nesta época, pois a eles cabe animar os fracos e encorajar os pequenos : o que seria dos soldados sem comandantes!

Estes devem viver entre os homens e tratar com eles, estar nos palácios e, algumas vezes, conformar-se exteriormente com o que exigem as pessoas do mundo. Pensais, filhas minhas, que é preciso pouco para tratar com o mundo e nele viver, para cuidar de negócios do mundo e adaptar-se, como eu já disse, às conversas do mundo, sendo ao mesmo tempo estranho ao mundo e inimigo seu, vivendo nele como exilado, não sendo, enfim, um ser humano, mas um anjo?

Porque, se não agirem assim, sequer vão merecer o nome de comandantes; nem permita o Senhor que saiam de suas celas nessas condições, pois provocarão mais danos do que benefícios. Este não é o momento de se perceberem imperfeições em pessoas que devem ensinar (Caminho  de Perfeição 3,3).


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/santa-teresa-uma-religiosa-inquieta

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Santa Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Bento XVI, Papa Emérito

‘Durante as Catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e de mulheres da Idade Média, tive a oportunidade de meditar também sobre alguns Santos e Santas que foram proclamados Doutores da Igreja pela sua doutrina eminente. Hoje gostaria de começar uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E começo com uma Santa que representa um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos : Santa Teresa de Ávila [de Jesus].

Nasce em Ávila, na Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Na autobiografia ela menciona alguns pormenores da sua infância : o nascimento de ‘pais virtuosos e tementes a Deus’, numa família numerosa, com nove irmãos e três irmãs. Ainda menina, com menos de 9 anos, tem a ocasião de ler as vidas de alguns mártires que lhe inspiram o desejo do martírio, a tal ponto que improvisa uma breve fuga de casa para morrer mártir e subir ao Céu (cf. Vida 1, 4); ‘Quero ver Deus’, diz a pequena aos pais. Alguns anos depois, Teresa falará de suas leituras da infância e afirmará que nelas descobriu a verdade, que resume com dois princípios fundamentais : por um lado, ‘o facto de que tudo o que pertence ao mundo daqui, passa’; por outro, que só Deus é ‘para sempre’, tema que retorna na celebérrima poesia ‘Nada te turbe / nada te espante; / tudo passa. Deus não muda; / a paciência obtém tudo; / quem possui Deus / nada lhe falta / só Deus basta!’. Tendo ficado órfã de mãe com doze anos, pede à Virgem Santissima que lhe seja mãe (cf. Vida 1, 7).

Se na adolescência a leitura de livros profanos a tinha levado às distracções de uma vida mundana, a experiência como aluna das monjas agostinianas de Santa Maria das Graças de Ávila e a leitura de livros espirituais, sobretudo clássicos de espiritualidade franciscana, ensinam-lhe o recolhimento e a oração. Com vinte anos entra no mosteiro carmelita da Encarnação, ainda em Ávila; na vida religiosa assume o nome de Teresa de Jesus. Três anos depois adoece gravemente, a ponto de ficar 4 dias de coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Até na luta contra as próprias doenças a Santa vê o combate contra as fraquezas e as resistências à chamada de Deus : ‘Eu desejava viver — escreve — porque entendia bem que não estava a viver, mas sim a lutar com uma sombra de morte, e não tinha alguém que me desse vida, e nem eu a podia tomar, e Aquele que ma podia dar tinha razão de não me socorrer, dado que muitas vezes me dirigira para Ele, e eu O tinha abandonado’ (Vida 8, 2). Em 1543 perde a proximidade dos familiares : o pai falece e todos os seus irmãos emigram, um após o outro, para a América. Na Quaresma de 1554, com 39 anos, Teresa chega ao ápice da luta contra as próprias debilidades. A descoberta da imagem de ‘um Cristo muito chagado’ marca profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A Santa, que nesse período encontra profunda consonância com o Santo Agostinho das Confissões, assim descreve o dia decisivo da sua experiência mística : ‘Acontece... que de repente tive a sensação da presença de Deus, que de nenhum modo eu podia duvidar que estava dentro de mim, e que eu estava totalmente absorvida nele’ (Vida 10, 1).

Paralelamente ao amadurecimento da sua interioridade, a Santa começa a desenvolver de modo concreto o ideal de reforma da Ordem carmelita : em 1562 funda em Ávila, com o apoio do Bispo da cidade, D. Alvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e pouco depois recebe também a aprovação do Superior-Geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes continua as fundações de novos Carmelos, 17 no total. É fundamental o encontro com São João da Cruz com quem, em 1568, constitui em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento de Carmelitas descalços. Em 1580 obtém de Roma a erecção a Província autónoma para os seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem religiosa dos Carmelitas descalços. Teresa termina a sua vida terrena precisamente enquanto está empenhada na tarefa de fundação. Com efeito em 1582, depois de ter constituído o Carmelo de Burgos e enquanto voltava para Ávila, falece na noite de 15 de Outubro em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas expressões : ‘No fim, morro como filha da Igreja’ e ‘Meu Esposo, chegou a hora de nos vermos’. Uma existência consumida na Espanha, mas despendida pela Igreja inteira. Beatificata pelo Papa Paulo V em 1614 e canonizada em 1622 por Gregório XV, é proclamada ‘Doutora da Igreja’ pelo Servo de Deus Paulo VI em 1970.

Teresa de Jesus não tinha uma formação académica, mas sempre valorizou os ensinamentos de teólogos, letrados e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve àquilo que pessoalmente vivera ou vira na experiência do próximo (cf. Prólogo ao Caminho de Perfeição), isto é, a partir da experiência. Teresa consegue manter relações de amizade espiritual com muitos santos, em especial com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, alimenta-se com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerónimo, São Gregório Magno e Santo Agostinho. Entre as suas principais obras deve-se recordar sobretudo a autobiografia, intitulada Livro da vida, ao qual ela chama Livro das Misericórdias do Senhor. Composta no Carmelo de Ávila em 1565, discorre sobre o percurso biográfico e espiritual, escrito como afirma a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do ‘Mestre dos espirituais’, São João de Ávila. A finalidade é evidenciar a presença e a acção de Deus misericordioso na sua vida : por isso, a obra cita com frequência o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura que fascina, porque a Santa não só narra, mas mostra que revive a profunda experiência da sua relação com Deus. Em 1566, Teresa escreve o Caminho de Perfeição, por ela chamado Admoestações e conselhos que Teresa dá de Jesus às suas monjas. Destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José em Ávila. Teresa propõe-lhes um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais preciosos, o comentário ao Pai-Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o Castelo interior, escrito em 1577, em plena maturidade. Trata-se de uma releitura do próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, de uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a acção do Espírito Santo. Teresa inspira-se na estrutura de um castelo com sete quartos, como imagem da interioridade do homem, introduzindo ao mesmo tempo o símbolo do bicho da seda que renasce como borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A Santa inspira-se na Sagrada Escritura, em particular no Cântico dos Cânticos, para o símbolo final dos ‘dois Esposos’, que lhe permite descrever no sétimo quarto o ápice da vida cristã nos seus quatro aspectos : trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua obra de fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o Livro das fundações, escrito de 1573 a 1582, em que fala da vida do grupo religioso nascente. Como na autobiografia, a narração visa frisar sobretudo a acção de Deus na obra de fundação dos novos mosteiros.

Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e minuciosa espiritualidade teresiana. Gostaria de mencionar alguns pontos essenciais. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base de toda a vida cristã e humana : em especial, o desapego dos bens, ou pobreza evangélica, e isto diz respeito a todos nós; o amor mútuo como elemento básico da vida comunitária e social; a humildade como amor à verdade; a determinação como fruto da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer as virtudes humanas : a afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria e cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com as grandes figuras bíblicas e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela sente-se em sintonia sobretudo com a esposa do Cântico dos Cânticos e com o apóstolo Paulo, mas também com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico.

Depois, a Santa realça como a oração é essencial; orar, diz, ‘significa frequentar com amizade, porque frequentamos face a face Aquele que sabemos que nos ama’ (Vida 8, 5). A idéia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás de Aquino dá da caridade teologal, como ‘amicitia quaedam hominis ad Deum’, um tipo de amizade do homem com Deus, que foi o primeiro a oferecer a sua amizade ao homem; a iniciativa vem de Deus (cf. Summa Theologiae II-II, 23, 1). A oração é vida e desenvolve-se gradualmente com o crescimento da vida cristã : começa com a prece vocal, passa pela interiorização mediante a meditação e o recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e a Santíssima Trindade. Obviamente, não se trata de um desenvolvimento em que subir os degraus mais altos quer dizer deixar o precedente tipo de oração, mas é antes um aprofundar-se gradual da relação com Deus que envolve toda a vida. Mais do que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira ‘mistagogia’ : ao leitor das suas obras ensina a rezar, orando ela mesma com ele; com efeito, frequentemente interrompe a narração ou a exposição para irromper em oração.

Outro tema amado pela Santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Com efeito, para Teresa a vida cristã é relação pessoal com Jesus, que culmina na união com Ele pela graça, amor e imitação. Daqui a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, pela vida de cada crente e como centro da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja : manifesta um ‘sensus Ecclesiae’ vivo diante dos episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem carmelita com a intenção de melhor servir e defender a ‘Santa Igreja Católica Romana’, disposta a dar a vida por ela (cf. Vida 33, 5).

Um último aspecto essencial da doutrina teresiana, que gostaria de frisar, é a perfeição, como aspiração de toda a vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma idéia muito clara da ‘plenitude’ de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do Castelo interior, no último ‘quarto’, Teresa descreve tal plenitude realizada na morada da Trindade, na união a Cristo através do mistério da sua humanidade.

Caros irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Na nossa sociedade, muitas vezes carente de valores espirituais, Santa Teresa ensina-nos a ser testemunhas indefessas de Deus, da sua presença e acção, ensina-nos a sentir realmente esta sede de Deus que existe na profundidade do nosso coração, este desejo de ver Deus, de O procurar, de dialogar com Ele e de ser seu amigo. Esta é a amizade necessária para todos nós e que devemos buscar de novo, dia após dia. O exemplo desta Santa, profundamente contemplativa e eficaz nas suas obras, leve-nos também a nós a dedicar cada dia o justo tempo à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho para procurar Deus, para O ver, para encontrar a sua amizade e assim a vida verdadeira; porque realmente muitos de nós deveriam dizer : ‘Não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida’. Por isso, o tempo da oração não é perdido, é tempo em que se abre o caminho da vida, para aprender de Deus um amor ardente a Ele, à sua Igreja, e uma caridade concreta para com os nossos irmãos. Obrigado!’

 (6 de fevereiro de 2011)

Fonte  :
Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.