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domingo, 9 de abril de 2023

A mística e a ascese no tempo pascal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


‘Nesta Semana Santa de 2023, circulou entre meus amigos, em nossas redes sociais, essa passagem de Dom Luigi Giussani, sacerdote italiano fundador do movimento Comunhão e Libertação : ‘Se alguém entrar na Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado Santo, Páscoa, nestes quatro dias, sem olhar para o rosto de Cristo e nada mais, mas com a preocupação de seus pecados, da sua perfeição, de como deve meditar; acabará cansado, retomando seus dias como antes. Pelo contrário, olhar para o rosto de Cristo muda. Mas, para que Ele nos mude, é preciso encará-lo verdadeiramente, desejando o bem, desejando a Verdade : ‘Tudo sou capaz, Senhor, se estou contigo, tu és a minha força’. É um Tu que domina e não leis que devem ser respeitadas’ (É possível viver assim? São Paulo : Cia Ilimitada, 2008).

Minha esposa e eu ficamos particularmente impactados pela comparação dessa passagem com algumas exortações que costumamos ouvir para que nos esforcemos para participar das celebrações da Semana Santa ou para sermos, a partir dessa Páscoa, mais comprometidos com as boas obras e com a luta por uma sociedade mais justa. As duas exortações, para a participação litúrgica e para o compromisso com o bem dos irmãos, são justíssimas, não estamos fazendo aqui nenhuma objeção a elas. Porém, a passagem de Dom Giussani abre uma outra janela, descortina um outro modo de olhar o mundo e viver a fé.

As práticas ascéticas e a experiência mística

Nesse período, em função do décimo aniversário do pontificado de Francisco, li uma declaração do Papa que talvez ajude a entender melhor o que gostaria de mostrar. Numa entrevista ao padre jesuíta Antonio Spadaro, ele comenta que existe, na Companhia de Jesus, uma corrente que sublinha o ascetismo, o silêncio e a penitência, mas que ele, Bergoglio, se identifica mais com uma outra, mais mística. Ora, podemos nos perguntar, ascetismo e mística não estão intimamente ligados? Uma experiência mística não pressupõe uma prática ascética?

De fato, as duas coisas estão intimamente ligadas, como a carroça e os bois. Mas fica muito mais difícil avançar se os bois, colocados atrás, ‘empurrarem’ a carroça, ao invés de irem na frente, ‘puxando-a’. Existe uma deformação do ascetismo cristão que imagina que é a fidelidade às suas práticas que produz a experiência mística. Isso pode ser verdade num ascetismo estoico, de caráter disfarçadamente ateu, ou em algumas outras religiões. Mas, no cristianismo, é a própria experiência mística do encontro com Cristo que gera o desejo das práticas ascéticas, que se tornam respostas cheias de gratidão e de alegria Àquele que tanto nos amou primeiro.

O teólogo alemão Karl Rahner, no final do século passado, numa passagem famosa, declarou que os cristãos seriam ‘místicos’ ou seriam ‘nada’. Rahner não tinha dúvidas sobre o significado de suas palavras : o cristianismo só pode sobreviver enquanto encontro e relação de amor pessoal entre Cristo e o fiel. A afirmação, contudo, se empobrece quando é interpretada simplesmente como condenação ao moralismo e ao formalismo que invadiram muitas vezes a mentalidade cristã moderna. Sem dúvida, a mística supera essa mentalidade redutiva – mas essa superação é uma decorrência da primazia do amor. Quem quer interpretar a mística apenas como negação do formalismo e do moralismo não avança, pois sua riqueza está no amor. E isso não é fácil de entender numa sociedade como a nossa, onde se fala muito no amor, mas se tem muita dificuldade em vivê-lo realmente.

A contemplação do Cristo sofredor

Fomos acostumados a uma cultura imagética que valoriza as representações do Cristo sofredor e dos santos em êxtases supostamente místicos, mas que a nossos olhos contemporâneos parecem mais maneirismos que estados contemplativos. Essas imagens são acompanhadas por práticas devocionais onde predomina a subjetividade dos fiéis e não a objetividade do amor de Deus. Frequentemente, não são nem consideradas práticas ascéticas, pois estão mais centradas na exploração das emoções da pessoa do que num real cultivo da contemplação e da oração.

A experiência mística cristã é o encontro entre duas subjetividades – a do fiel e a de Cristo, que se torna presente de forma misteriosa, mas real. Como toda experiência afetiva, é moldada pela sensibilidade e pela emotividade de cada um. Existem os mais devocionais, aos quais agradam as imagens e o ambiente barroco do catolicismo da Contrarreforma, existem os mais contemplativos, que preferem o estilo dos ícones orientais e a austeridade das primeiras basílicas cristãs. Cristo não deixa de ir ao encontro das pessoas, sejam quais forem seus temperamentos e suas preferências.

Contudo, nesse tempo pascal, pode ser perigosa uma contemplação do Cristo sofredor e de suas dores como catarse para nossos próprios sofrimentos ou motivação para o empenho moral – e não como ocasião para perceber o Seu amor por nós. Uma ‘estética do sofrimento’ afasta frequentemente as pessoas da Igreja. Corresponde, muitas vezes, a um certo moralismo pelagiano, um desejo até arrogante de ‘estar à altura’ do sacrifício de Cristo por nós (sobre esse tema, vale a pena ler Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, GE 47ss).

A justa contemplação mística do amor de Cristo por nós, ao invés disso, cria uma alegre gratidão, um desejo humilde de corresponder ao amor recebido. Não omite os sofrimentos de Cristo ou mesmo os nossos, mas permite que a misericórdia a tudo cubra e até mesmo as dores se tornem sinais de amor e beleza. Então, a participação na liturgia se torna verdadeiramente a bela celebração do Amor e o compromisso com os irmãos, particularmente com os que mais sofrem, se torna aquela conformação natural do coração do amante ao coração do Amado… E compreendemos melhor porque ‘seu fardo é leve e seu jugo, suave’ (Mt 11, 28-30).’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/04/09/a-mistica-e-a-ascese-no-tempo-pascal/

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Ensinamentos de uma mística medieval sobre depressão pós-parto

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Michael Rennier, sacerdote católico ordenado através da Provisão Pastoral para ex-clérigos episcopais que foi criado pelo Papa São João Paulo II


‘Conheci mães que tiveram depressão pós-parto. Elas ficaram tão deprimidas que, fisicamente, pareciam incapazes de cuidar dos filhos recém-nascidos.

Isso criava nelas um sentimento esmagador de fracasso. Além de sofrer de intensa depressão pós-parto, o que já é ruim, elas sofriam de uma sensação aguda de que não conseguiriam nunca cuidar dos filhos. Imagino que o fardo psicológico seja enorme.

Obviamente, não sou mãe, mas já estive deprimido antes. E houve dias em que mal conseguia cuidar de mim mesmo. Eu não conseguia nem imaginar ter que cuidar de outra pessoa durante aqueles momentos sombrios. É difícil explicar como é, mas é verdadeiramente debilitante. Mesmo que a depressão não seja uma lesão que possa ser vista de fora, é muito real. Ao mesmo tempo, uma pessoa que sofre de depressão não pode deixar de sentir que está decepcionando a si mesma e aos outros, o que aumenta a angústia.

Depressão pós-parto : uma doença antiga

A depressão pós-parto é grave e afeta cerca de 15% das mulheres em todo o mundo. A doença existe desde o início dos tempos.

Um amigo me contou recentemente sobre Margery Kempe, uma mulher inglesa que viveu na virada do século 15 e, aparentemente, teve depressão após o nascimento de seu primeiro filho.

Claro que um diagnóstico de depressão não existia na época. Mas temos pistas sobre a vida dela que nos levam a crer nisso.

Margery, mais tarde, se tornou conhecida por suas visões espirituais. Ela descreveu suas visões de Cristo no livro The Book of Margery Kempe. Nele, relata que, quando jovem, viveu uma vida bastante normal. Ela era de classe média, interessada em moda e se casou com John Kempe, um homem que a tratava com gentileza.

Entretanto, tudo mudou com o nascimento de seu primeiro filho. Ela se lembra que, durante a gravidez, experimentou ‘uma grande doença corporal, pela qual perdeu a razão por muito tempo…’ Ela continua dizendo que ‘teve ataques graves da doença até o nascimento da criança’. O parto a deixou tão fraca que ela pensou que não conseguiria sobreviver. Mas ela acabou se recuperando muito bem e parecia estar bem fisicamente. Entretanto, é aí que sua história fica fora de controle.

Pensamentos depressivos

Margery sempre teve uma definição depressiva de si mesma. Pensava que merecia morrer e ir para o inferno por causa de pecados secretos não confessados. Após o nascimento de seu filho, seu estado mental deteriorou-se rapidamente. Ela diz sobre si mesma : ‘esta criatura enlouqueceu e ficou surpreendentemente perturbada e atormentada por espíritos por meio ano, oito semanas e dias estranhos’.

Ela teve uma visão do diabo, que lhe disse para abandonar sua fé, família, amigos, esperança no céu e autoestima. Embora nunca tenha tentado o suicídio, ou pelo menos nunca tenha dito isso, ela começou a mutilar o corpo, rasgando a pele perto do coração com as unhas.

Olhando para a descrição de sua experiência, é difícil dizer se ela sofreu de depressão pós-parto clínica ou, talvez, a ainda mais rara e pior psicose pós-parto. É claro, porém, que a gravidez desencadeou algo nela.

Como superar a depressão pós-parto

A depressão, em minha experiência, deve ser tratada de duas maneiras simultâneas. A primeira é com a ajuda de profissionais médicos, que podem dispensar medicamentos adequados e aconselhar sobre nutrição e terapia profissional. Margery não tinha nenhum desses recursos. Então, ela ficou com apenas o segundo caminho, que é mais pessoal.

Este caminho trata de como a pessoa reage ao viver com depressão. Para alguns, há períodos em que a vida inevitavelmente para. Mas, na maioria das vezes, é possível viver funcionalmente com a depressão – e há maneiras de controlá-la e até mesmo de se mover lentamente em direção à recuperação.

Após o início de sua depressão, Margery nunca recuperou sua saúde mental anterior. Ela tinha um relacionamento físico estranho com o marido, chorava com muita frequência e continuava a ter visões místicas. Mas ela teve mais filhos e uma vida familiar feliz. Como conseguiu? Assumindo algumas atitudes e valorizando valores e virtudes, como :

1. Autoconhecimento

Margery fez um exame de toda a sua vida e foi ao padre da sua paróquia para se confessar. Ela havia evitado a confissão, pensando que, ‘enquanto ela estava com boa saúde, ela não precisava confessar.’

É útil desenvolver um autoconhecimento preciso. Principalmente porque a depressão conta mentiras. A honestidade é o primeiro passo para a cura.

2. Honestidade emocional

A honestidade se estende a reconhecer e aceitar a maneira como você se sente. Margery estava mais do que disposta a expressar suas emoções. Nem todos a apoiava, mas ela não se desculpava. Quando ela estava lutando, não escondia.

3. Amor de Deus

Os vizinhos de Margery gostavam de fofocar sobre ela. Frequentemente, as pessoas não entendem a depressão e consideram pessoas como ela preguiçosas ou irracionais. Nessas horas, ela sempre se lembrava do amor de Deus, que nunca vacila.

4. Amizade

Em vez de absorver a negatividade daqueles que fofocavam sobre ela, a mística buscava o consolo e os conselhos dos amigos sábios e pacientes. Ela, ‘falava com muitos anacoretas’. Anacoretas, como sua amiga Julian de Norwich, eram mulheres que dedicaram suas vidas à sabedoria espiritual e à oração.

Esses são exatamente o tipo de amigos de que uma pessoa deprimida precisa. É uma doença que isola, mas estar constantemente sozinho torna tudo ainda pior.

5. Caridade

Margery ditou um livro para compartilhar sua experiência. Ao longo dos séculos, este livro foi muito útil para outras pessoas que se encontravam em situações semelhantes. O apoio mútuo e a empatia são fundamentais.

Portanto, se você sofre de depressão pós-parto, é importante deixar claro : você não é um fracasso. Você é e será uma mãe maravilhosa. Margery é um belo exemplo de mãe que, embora sua vida não tenha sido fácil, proporcionou uma enorme alegria, sabedoria e amor para sua família e para o mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/24/ensinamentos-de-uma-mistica-medieval-sobre-depressao-pos-parto/

terça-feira, 8 de junho de 2021

“Cartas da Trapa”, um verdadeiro itinerário de santidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

‘Maria Gabriela Sagheddu é uma monja trapista italiana da primeira metade do século XX. Nasceu, no dia 17 de março de 1914, em Dorgali, na Itália, e faleceu, em 23 de abril de 1939, no mosteiro trapista de Grottaferrata, na própria Itália. Tinha apenas 25 anos, mas – como Santa Teresinha do Menino Jesus, a carmelita de Lisieux, na França do século XIX –, galgou a perfeição para a qual Cristo nos convida (cf. Mt 5,48). Eis que, agora, o público de língua portuguesa tem a oportunidade de conhecer melhor essa monja, por meio de seus próprios escritos que formam um verdadeiro itinerário de santidade, com a publicação do livro ‘Cartas da Trapa : vida e correspondências de Maria Gabriela Sagheddu, monja trapista do século XX’. Obra da Cultor de Livros, traduzida pelo Ir. Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld na Diocese de Limeira (SP), que lhe acrescentou a introdução e elucidativas notas de rodapé.

Maria Sagheddu, este é seu nome de Batismo, foi uma menina um tanto incomum à sua época e ao seu povoado, pois, naquela ardorosa população católica, era bastante arredia às práticas religiosas, não obstante a insistência de sua mãe para que ela fosse à Missa e se envolvesse num dos apostolados de então. As orações de sua mãe, assim como todas as nossas preces, não foram, todavia, em vão. Aos 17 anos, preparou-se para receber o sacramento da Crisma e, aos 18, ingressou na Ação Católica atraída por seus grandes ideais, ou seja, a Eucaristia, o apostolado e o heroísmo cristão. Era bonita e, por isso, atraía os rapazes da vila em que morava; recebeu muitas propostas de namoro e casamento, mas as recusou, pois sentia-se chamada por Deus a doar-lhe a vida. Contudo, não sabia como fazer isso por desconhecer, em seus detalhes, as formas de vida consagrada, mas Dom Basílio Meloni, piedoso pároco de Dorgali, a orientou e enviou, por fim, com o pleno consentimento da jovem, ao mosteiro trapista de Grottaferrata ou de Grota, como era conhecido.

Vocação

Maria estava plenamente convicta de sua vocação. A própria mãe é quem nos conta sobre o último encontro entre elas antes da partida para a Trapa : ‘Recordo que no dia em que ela partiu, eu chorava enquanto me despedia. Maria me perguntou a razão do meu pranto e me disse : ‘Porque choras, não és nem digna de ter uma filha monja’. Então, eu lhe disse : ‘Fica com Deus e que Ele te ajude’. Conformei-me e dizia : ‘Prefiro que Deus a leve para o céu do que ela volte para a casa. Só uma prima a acompanhou até o trem para levar-lhe uma pequena mala, pois o padre Meloni não queria que fosse muita gente se despedir dela’ (Cartas da Trapa, p. 28). Chegou a Grottaferrata em 30 de setembro de 1935. Tinha apenas 21 anos, mas era interiormente madura para saber que quem coloca a mão no arado com Cristo não deve olhar para trás (cf. Lc 9,62).

Em poucos dias, apaixonou-se pela vida trapista. E, aqui, para que os leitores não se percam, desejo expor, de acordo com o próprio livro recém-lançado, o que é, afinal, a Ordem Cisterciense da Estrita Observância ou Trapista. ‘Trata-se de uma Ordem Contemplativa que segue a Regra de São Bento escrita, no século VI, na Itália. Traz ela uma forma de viver o Evangelho à luz da sabedoria monástica antiga e é caracterizada pela oração comum e individual, bem como pelo trabalho manual e a leitura orante da Palavra de Deus (a Lectio Divina)’. 

No entanto, essa Regra é seguida de acordo com a interpretação dela feita, no século XII, pelos santos Roberto, Alberico e Estêvão, fundadores de um novo mosteiro em um local isolado chamado de Cister. A intenção desses santos era voltar à pureza e à simplicidade da Santa Regra, aspectos que eles julgavam ter sido deixados de lado no decorrer dos tempos. No século XVII, Armand Jean le Bouthillier de Rancé, abade do mosteiro cisterciense de Nôtre-Dame de la Trappe (daí o nome trapista), foi responsável por uma nova reforma que visava voltar à origem austera das raízes de Cister. Teve sucesso, de modo que, no século XIX, o Papa Leão XIII aprovou a reforma, então solidificada, como uma nova Ordem religiosa na Igreja : Cistercienses da Estrita Observância ou, de modo popular, trapistas’. 

Vida na Trapa

A vida na Trapa é dirigida totalmente à experiência do Deus vivo. É, portanto, contemplativa. Chamado(a) por Deus, o (a) trapista se consagra a buscá-Lo, de modo integral, seguindo a Cristo, sob a Regra de São Bento, e a um Abade (ou Abadessa) em uma comunidade estável, na caridade fraterna na qual todos os bens são compartilhados. Afastado(a) do mundo, o (a) trapista purifica seu coração mediante a Palavra de Deus, a oração e uma ascese (do grego áskesis : exercício) libertadora que o (a) faz humilde e obediente à semelhança de Cristo. Fiel ao capítulo 4 da Regra de São Bento, a recomendar que nada anteponha ao amor de Cristo, o dia a dia da Trapa se desenvolve no equilíbrio entre o Oficio Divino, a vida de oração pessoal e a fraterna, o trabalho manual e o estudo. O estilo de vida é sóbrio e simples, como se nota, por exemplo, na Carta 8 em que Gabriela descreve à mãe como é um dia no seu mosteiro de Grottaferrata. Ao lado desse clima penitente, reina uma existência fraterna, trabalhadora e escondida do mundo, mas aberta ao amor de Cristo e à alegre ação transformadora do seu Espírito’. 

O clima de solidão e silêncio permite que floresça, junto com a lembrança de Deus, a oração pura e contínua. Pela hospitalidade, aberta a todos sem distinção, a Trapa reparte o fruto de sua contemplação e de seu trabalho. Sua missão no Corpo místico de Cristo, que é a Igreja (cf. 1Cor 12,12-21; Cl 1,24), se dá pela entrega do monge (da monja) a Deus na fidelidade à vida monástica. Seu apostolado consiste em manter um coração orante e purificado, pois nele se encontram todas as alegrias e tristezas da humanidade. Não realiza trabalhos pastorais externos com o povo, mas o acolhe na hospedaria do mosteiro. Este é sinal da transcendência de Deus entre os homens. É uma antevisão da comunhão com Deus, em Cristo, na eternidade’ (Cartas da Trapa, p. 14-15).

Vida santa no mosteiro

Na Trapa, Maria Sagheddu teve como mestra a Madre Pia Gullini, monja com mente aberta aos problemas de seu tempo e de profunda vivência da vida monástica nos moldes cistercienses. De mestra e discípula, tornar-se-ão grandes amigas unidas por dois pontos comuns especiais : o desejo da vida santa no mosteiro em demanda das coisas do alto (cf. Cl 3,1-2) e o anseio pela unidade dos cristãos, tão desejada por Cristo (cf. Jo 17,20-23). Sim, logo depois do noviciado, no qual recebe o nome de Gabriela, a jovem monja vinda de Dorgali se oferece, com autorização da madre, como vítima expiatória pela unidade, conforme, décadas depois, o Concílio Vaticano II (1962-1965) deixará muito claro no seu Decreto Unitatis Redintegratio (A Reintegração da Unidade). 

Contudo, ser vítima expiatória é sofrer com Nosso Senhor por uma causa nobre na sua Igreja. É a própria Irmã Maria Gabriela quem nos assegura : ‘Agora, entendi, verdadeiramente, que o ser vítima não consiste em fazer grandes coisas, mas, sim, no sacrifício total do próprio eu’ (Cartas da Trapa, p. 52). De modo mais explícito, lemos na introdução do livro o seguinte : ‘Ser vítima é se oferecer como reparação dos pecados dos outros, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi a Vítima Expiatória por excelência (cf. Rm 3,25; Hb 2,17; 1Jo 2,2). A alma pede com admirável coragem sobrenatural aridez espiritual e desolação, nas quais parece afundar nas mais horríveis trevas, sem qualquer consolo sensível relacionado a Deus, especialmente na oração; pede doenças ou mesmo a morte, por meio da aceitação de contratempos. E contrariedades, mal-entendidos, acidentes, humilhações e abusos são permitidos por Deus para reparar e evitar a punição aos pecadores que devem pagar e responder por suas injustas queixas. No caso de nossa monja, o oferecimento da vida foi pela Unidade dos Cristãos’ (Cartas da Trapa, p. 17). 

Especial graça divina

Uma missão sublime a das vítimas expiatórias na Igreja. Só por uma especial graça divina podem se oferecer e levar avante, com verdadeira alegria, tal oferecimento, como fez Gabriela. Aliás, sua vida ofertada a Deus em favor da humanidade é expressa em diversas correspondências que dirige à sua querida mãe. Eis dois belos exemplos : ‘Se o Senhor nos oferece a oportunidade de sofrer por amor a Ele, devemos ser felizes e aceitá-la com gratidão. Se pensarmos nos sofrimentos de Jesus desde o seu nascimento em um presépio deitado sobre palhas grosseiras, como o contemplamos nestes dias, na sua fuga para o Egito, nas humilhações sofridas em sua pregação e em todos os sofrimentos de sua paixão até derramar seu sangue por nós o que nos parecerão os nossos sofrimentos? Vamos, portanto, nos animar a sofrer, se quisermos desfrutar da pátria celestial. Eu não peço ao Senhor que me liberte do sofrimento, mas que me dê força a fim de sofrer por amor a Ele tudo o que Ele deseja enviar-me; espero que a senhora faça o mesmo’ (Cartas da Trapa, p. 96-97). Depois : ‘Estou feliz ao poder sofrer algo por amor de Jesus. Minha alegria aumenta quando penso que se aproxima o momento das verdadeiras bodas. Como a senhora sabe, o Senhor sempre me favoreceu com graças especiais, mas agora, com esta doença, me deu a maior graça de todas. Abandonei-me totalmente nas mãos do Senhor e ganhei muito. Sinto que amo meu Esposo de todo o coração, mas gostaria de amá-lo ainda mais. Queria amá-lo por aqueles que não o amam, por aqueles que o desprezam, por aqueles que o ofendem; em suma, meu desejo não é outro senão amar. As pessoas do mundo dizem que nós somos egoístas porque nos isolamos em um mosteiro e pensamos apenas em nós mesmas. É falso. Nós vivemos uma vida de contínuo sacrifício até a imolação pela salvação das almas. […] Não há felicidade maior do que poder sofrer algo por amor de Jesus e pela salvação das almas. A senhora também seja feliz, minha mãe, e agradeça ao Senhor esta grande graça que nos deu : à senhora e a mim’ (Cartas da Trapa, p. 149-150).

As três grandes etapas da vida mística

Recomendo que ‘Cartas da Trapa’ seja lido por todas as pessoas que buscam ou já vivem a sua vocação, uma vez que a Beata Maria Gabriela Sagheddu percorre, em suas correspondências cotidianas, simples e despretensiosas, como é próprio das almas santas, as três grandes etapas da vida mística : a purgativa, a iluminativa e a unitiva. Nesta última, como descrevem os grandes místicos, à moda do amor humano, a alma se faz uma só com o divino Esposo e anseia pelas núpcias. Nossa monja, por exemplo, escreve : ‘O rei do céu e da terra, o Deus do universo quer tomar como esposa uma miserável e indigna criatura como sou eu. Sim, eu pobre criatura me tornarei rainha porque Ele assim o quer. Não poderia desejar uma festa mais bela para minha consagração ao Senhor. A senhora, minha mãe, deve se sentir muito afortunada porque o Senhor se dignou escolher uma esposa em sua família. Agradeça muito ao Senhor por essa predileção pela senhora e por este grande dom que deu a mim’ (Cartas da Trapa, p. 114).

Registro, pois, meus votos de grande difusão a essa obra, que é o primeiro volume da coleção ‘Grandes Místicas Cistercienses’ da Cultor de Livros. Cumprimento também os revisores de ‘Cartas da Trapa’ : Madre Liliana Schiano Moriello, O.C.S.O. Ir. Vinicius Hernandes Barbosa, O. Cist. e Vitor Roberto Pugliesi Marques, OSB obl. Deus os cumule de bênçãos e graças para continuarem o seu importante trabalho pela difusão dessas mulheres que muito honram a nossa Ordem Cisterciense, da comum ou da estrita observância.

Que Maria Gabriela Sagheddu, beatificada pelo Papa São João Paulo II, em 25 de janeiro de 1983, rogue a Deus por nós. Amém!

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/08/cartas-da-trapa-um-verdadeiro-itinerario-de-santidade/

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A experiência dos místicos pode ajudar a atravessar a pandemia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Enquanto místicos abraçaram o isolamento e o sofrimento voluntariamente, somos jogados a estes pela Covid. 

*Artigo de Kaya Oakes,

jornalista e escritora


‘Uma mulher está sentada em uma pequena sala, ao lado de uma igreja. Naquela sala, não há muito que possa fazer além de contemplar e orar. Existem dois pequenos orifícios esculpidos nas paredes. Um fica de frente para o lado de fora, e as pessoas se aproximam para pedir conselhos e orações; o outro está voltado para dentro, para o altar. Através desta janela pode receber as bênçãos e a Eucaristia. Essa mulher nunca vai sair desta sala até morrer. Os tijolos foram colocados para selar o espaço – o que faz dela uma anacoreta, uma espécie de eremita religiosa.

Não sabemos muito sobre como passa seus dias, exceto pelos escritos que deixa para outros. Extremamente imaginativa e às vezes alucinatória, sua lembrança das visões que teve durante uma doença em sua vida anterior, intitulada Revelações sobre o Amor Divino, sobreviverá à era medieval como o livro mais antigo existente escrito por uma mulher em língua inglesa. Não sabemos seu nome verdadeiro ou como ela veio a receber o nome da cidade onde morava. Não sabemos por que escolheu essa cidade, exceto que as mulheres tinham poucas opções sobre suas vidas em sua época. Para nós, ela é conhecida como Julian de Norwich, uma solitária buscadora de Deus, que viveu uma era de doença e medo. Também é a chave para a compreensão das experiências místicas que muitas pessoas experimentaram durante nossa era atual de enfermidades e medo.

A mística, amplamente definida, é a experiência transcendente de um encontro com Deus. Para místicos católicos como Julian, Hildegard von Bingen, Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, isso assume a forma de uma visão. Para outros, é semelhante a uma ‘voz mansa e delicada’, um momento de encontro com o inefável que se torna transformador para suas vidas espirituais.

Desde que a Covid-19 eliminou muitas das distrações com as quais normalmente ocuparíamos nossos dias e nos forçou a desacelerar o ritmo de vida, um interesse renovado pela prática contemplativa fez com que mais pessoas tivessem tempo para se abrir a experiências místicas. Essas experiências podem incluir uma nova apreciação pelos encontros com a natureza, ouvir músicas favoritas de novas maneiras e conversas mais profundas e honestas com os entes queridos. Nesses momentos, às vezes experimentamos o que os cristãos celtas chamam de sensação de que estamos em ‘lugares estreitos’, onde o véu entre nossas vidas físicas e terrenas, e algo maior do que nós mesmos, é momentaneamente retirado.

Kevin Johnson, co-apresentador do podcast Encountering silence, diz que a mística é algo que vai além de uma única experiência e é ‘apenas uma peça do quebra-cabeça’ da prática de meditação e contemplação ao longo da vida. Para místicos como Julian, a escrita que emerge desses encontros é uma espécie de literatura visionária, uma tentativa de ‘colocar palavras em algo que é inefável’. E sabemos que a mística não é tão incomum, uma vez que não se limita à tradição cristã. Existem registros de experiências místicas que vão desde o momento de iluminação do Buda sob a árvore Bodhi à cabala judaica e à poesia de místicos muçulmanos sufis como Rumi. Para os cristãos, no entanto, nossa compreensão da mística está enraizada nas práticas ascéticas dos monges que fugiram da sociedade para mergulhar no silêncio.

Na igreja primitiva, os Padres e Mães do Deserto experimentaram a mística por meio da contemplação, a prática silenciosa da meditação. Esses ammas e abbas também se retiraram da sociedade para se submeterem ao que meu diretor espiritual às vezes chama de experimento psicológico. O que acontece se uma pessoa dedica toda a sua atenção, anseios e horas de vigília não ao mundo material, mas a Deus? No Apophthegmata patrum, os ditos dos Padres do Deserto, encontramos uma história de um eremita dos anos 300, ele disse que a contemplação e a mística envolvem apenas alguns passos. ‘Tome cuidado para ficar em silêncio. Esvazie sua mente. Preste atenção à sua meditação no temor de Deus, esteja você descansando ou trabalhando’.

Evágrio Pôntico, um dos primeiros monges a registrar os ditos dos Padres do Deserto e mais tarde ele próprio um pai do deserto, ensinou que a mística exigia uma prática tripla de purgação, iluminação e unificação. Na linguagem comum, isso significa que, para ter essa experiência mística de encontro com Deus, os indivíduos devem primeiro se esvaziar das distrações e, em seguida, estar abertos à iluminação; só então a pessoa pode alcançar aquela unidade elusiva com Deus ou janela para a eternidade. Como disse Evágrio : ‘Um homem acorrentado não pode correr. Nem pode a mente que está escravizada à paixão ver o lugar da oração e o encontro espiritual’.

Para as pessoas contemporâneas, Johnson descreve a mística como ‘um outro nível de realidade que se abre’ quando as pessoas aprendem a sentar-se silenciosamente e orar. ‘Trata-se de estar. Não é nada novo. Não é extraordinário’. Johnson diz que o filósofo Martin Buber se referiu a esse estado como engajamento corporificado, deixando as palavras, ideias e experiências que passam por nossas mentes sumirem para que possamos estar abertos para algo mais profundo.

Mas uma das coisas que aprendemos com Julian é que às vezes a experiência do vazio e do silêncio vem de fora de nós, não de dentro. Julian viveu vários ciclos da peste e, a certa altura, desejou adoecer para poder se identificar com Cristo sofredor. Mas quando a doença veio, ela também teve uma visão de Cristo revelando que o sofrimento não é necessariamente o melhor caminho para a unidade com Deus. Na visão de Julian, Cristo assume nosso sofrimento e une seu próprio sofrimento ao nosso para nos dar liberdade. Unidade com Deus não é sobre o sofrimento em si, mas sobre aceitar que Deus ainda está presente em nosso sofrimento. Em sua visão do mundo nas mãos de Deus como uma avelã, Julian explica que esse entendimento ‘dura e sempre estará presente, pois Deus ama dessa forma’. É por isso que ela também é capaz de nos dizer repetidamente que, apesar de tudo o que estamos passando, ‘tudo ficará bem’. O profundo consolo em meio ao caos e à dor que ela experimentou pode ressoar de maneiras inesperadas para muitos de nós que nos sentimos cada vez mais isolados hoje.

Desde o início da pandemia, percebi como minha cidade normalmente barulhenta se tornou silenciosa. Eu moro a uma rua perto de uma rodovia e, em um dia normal, carros e caminhões teriam começado a vibrar e buzinar minha consciência desde as 5 da manhã. Atualmente, os sons são apenas ocasionais, como o assobio de um trabalhador colocando seus pneus na estrada. Alguns de nós trabalhamos em casa, somos anacoretas amarrados às nossas conexões Wi-Fi, onde não damos atenção ao mundo exterior como Julian, mas por janelas virtuais que nos levam aos quartos de outras pessoas, onde ficam olhando para dentro de nossos quartos, celas monásticas sobre celas monásticas, multiplicando-se e dividindo-se à medida que efetuamos login e logoff.

O extenso experimento psicológico de nossa própria era não terminará da mesma forma que os anos de peste de Julian, uma vez que a ciência e a medicina avançaram muito além do que poderia ter imaginado; e assim a ciência e a medicina encontrarão, podemos esperar, um tratamento eficaz para o vírus ou uma vacina. Mas ainda estamos vendo as mortes se acumularem, temendo os efeitos de longo prazo para a saúde, a devastação econômica, a profunda solidão e os problemas de saúde mental global que permanecerão muito depois que o vírus for vencido.

Muitos de nós, que somos diretores espirituais, fomos questionados sobre onde Deus está nesta pandemia, mas também ouvimos relatos de Deus se manifestando de maneiras inesperadas, de pessoas experimentando encontros surpreendentes com o divino na ausência da oração física coletiva. Como as garantias de nossas vidas passadas, como existiam há menos de um ano, foram continuamente eliminadas, o que resta é nossa capacidade de viver no momento presente sozinhas. Para pessoas com inclinação religiosa, isso significa que podemos estar nos aproximando de Deus com a simples consciência de que nada é garantido.

Entender que não estamos no controle é, de certa forma, o que nos une a Cristo, o que Julian acabou entendendo. ‘Precisamos cair’, diz a mística em suas Revelações, ‘pois se não caíssemos, não saberíamos quão fracos e miseráveis somos de nós mesmos, nem deveríamos conhecer tão plenamente o amor maravilhoso de nosso Criador’.

Como a mística é tão difícil de explicar, sua definição está constantemente sendo debatida e, portanto, pode ser difícil para alguns acreditar que experiências místicas podem ocorrer até mesmo na era moderna. Afinal, muito do que os místicos descrevem soa como doença mental aos nossos ouvidos modernos, e hoje temos disponíveis tratamentos eficazes de saúde mental. A tendência norte-americana pragmática de explicar tudo significa que as experiências religiosas podem ser mais facilmente descartadas como distrações momentâneas ou voos da fantasia. A mercantilização da ‘atenção plena’ em aplicativos e linguagem corporativa significa que a contemplação também é algo a ser comprado e vendido em vez de experimentado, e as práticas da ‘nova era’ como cartas de tarô e cristais que recentemente experimentaram um renascimento da popularidade também podem ser mercantilizadas.

Mas a mística anglo-católica eduardiana de Evelyn Underhill, uma pacifista britânica que viveu as duas guerras mundiais, diz que a mística vivida em tempos difíceis deve ser uma experiência vivida, não é para ser analisada em excesso. ‘Onde o filósofo adivinha e argumenta’, ela escreve em The complete christian mystic, ‘o místico vive e olha; e fala, consequentemente, a linguagem desconcertante da experiência em primeira mão, não é uma dialética clara das escolas’. Isso é vividamente mostrado nas Revelações de Julian, onde a linguagem que usa para transmitir os sofrimentos de Cristo e seu próprio sofrimento e doença às vezes é totalmente sangrenta, mas a linguagem usada para descrever a transcendência, o amor e a recuperação, é igualmente vívida.

Todos nós estamos encontrando nossas próprias maneiras de contemplar. Desde o início da pandemia, um amigo meu começa todos os dias procurando pessoas que morreram de Covid e orando por elas pelo nome. Mergulhei nas narrativas de médicos e pacientes, nos relatos profundos em primeira pessoa da vida em uma unidade de terapia intensiva, tentando desvendar que tipo de sofrimento esse vírus é capaz de desencadear, tentando me aproximar do que aquele sofrimento pode ser uma forma de contemplar onde Deus encontrar a Deus nesse ambiente.

E como a pandemia se sobrepôs com notícias de mais mortes de negros americanos, com notícias da destrutividade e do horror que parecem galopantes e abrangentes em nosso país, foi bom lembrar que Julian nos diz que em tempos como este, ‘muitos acontecimentos parecem tão ruins para nós e as pessoas sofrem males tão terríveis que não parece que algum bem virá deles’. Mas quando nos concentramos nisso, ‘não podemos encontrar paz na abençoada contemplação de Deus’, ao passo que Deus está constantemente nos empurrando de volta para sentir seu amor. ‘Preste atenção a isso agora, com fidelidade e confiança’, Deus diz a Julian, ‘e no final dos tempos você realmente verá na plenitude da alegria’.

O poeta e teólogo David Russell Mosley tem lido literatura mística durante a pandemia e recentemente voltou ao trabalho de Julian. Mosley, que cresceu em uma igreja cristã não denominacional e se tornou católico na faculdade, encontrou o trabalho dos místicos por meio dos estudos do cristianismo celta e se sentiu ‘imediatamente atraído por eles’, disse. Sua própria espiritualidade sempre incluiu momentos de ‘sentimento intenso’, e descobrir a mística cristã, que o ajudou a entender que os místicos ‘realmente codificaram as coisas que eu experimentei e foram além’. A pandemia deu-lhe a oportunidade de retomar algumas práticas monásticas em casa com a família e de reformular o tempo em casa como um período de reflexão espiritual.

Julian, diz, deu o exemplo de alguém que ‘escolheu entrar em si mesma’, enquanto a maioria de nós fomos forçados a uma vida de contemplação por causa das ordens de ficar em casa. Mosley descreve ter encontrado Julian e ficar ‘fascinado’ por sua visão do mundo, particularmente por sua visão do mundo nas mãos de Deus como uma avelã. O teólogo chama as imagens de Julian de uma visão escatológica de um mundo melhor do que aquele em que vivemos no momento, ‘uma esperança de que um dia Cristo retorne e não haverá mais doenças, tristezas, racismo’. Em um momento difícil, especialmente em uma pandemia, lembretes da inevitabilidade da morte podem fazer a vida parecer sem sentido; mas de acordo com Mosley, o trabalho de Julian é um lembrete de que mesmo a morte ‘não é o fim da história’. Ler o trabalho dela ofereceu uma sensação de esperança.

Uma parte da visão de mundo de Julian é aquela sensação de unidade e conexão que é comum à experiência mística. ‘Deus nos amou antes de nos criar’, escreve, ‘e seu amor nunca diminuiu e nunca diminuirá’. Contemplação e experiências místicas, de acordo com Johnson, são uma forma de descobrir ‘um outro dentro de nós’, que é ‘a base de Deus e do meu próximo. Somos todos feitos dessa mesma alteridade’.

As experiências místicas e as práticas contemplativas, diz Johnson, nos ajudam a desconectar de nossos egos e a nos reconectarmos com a parte selvagem de nós mesmos que está profundamente entrelaçada com o mundo natural e humano. Em outras palavras, ajudam a alcançar o mesmo amor avassalador que Julian experimentou, mesmo em tempos de peste e guerra. Para um místico, esse amor avassalador é o que conhecem como Deus.

Por causa dessa pandemia, muitos de nós temos ficado em casa meses a fio, sem fim à vista. A segurança de minha comunidade supera minha própria liberdade de movimento, e eu aceito isso como uma forma de amor ao próximo. Vivo com esse isolamento como será a maneira como as coisas ficarão por algum tempo. Minhas aulas de outono serão online, a célula monástica do meu minúsculo escritório em casa se tornou uma sala de aula e um laboratório de redação, as janelas do Zoom no meu laptop um portal para o mundo de outras pessoas.

Isso também é mística, a ideia de que o tempo é elástico, de que criamos as coisas sem saber como serão recebidas ou quem as receberá, que a própria criação é o tempo do encontro com a graça. Mas, como imergir nas visões de Julian, essa sensação de não saber pode nos libertar para entender que estamos vivendo nas mãos de Deus, no tempo do kairós.

Por falta de atenção’, escreveu Evelyn Underhill, ‘mil formas de beleza nos escapam todos os dias’. Da mesma forma, mil visões de unidade com os outros nos escapam neste tempo de separação, até que as percebamos tremeluzindo, bem no limite de nossa visão.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1493205/2021/01/a-experiencia-dos-misticos-pode-ajudar-a-atravessar-a-pandemia/

domingo, 8 de novembro de 2020

"Moradas da alma": as etapas da vida mística segundo Santa Teresa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo do Padre Denis Marie Chesquières


‘No final da sua viagem espiritual, Santa Teresa de Jesus escreveu o livro das Moradas, no qual compara a nossa alma – o lar de Deus – com um castelo. As primeiras moradas correspondem à entrada na vida espiritual e são o fundamento de todas as posteriores.

Santa Teresa de Jesus, também conhecida como Santa Teresa de Ávila, apoia-se principalmente em quatro citações bíblicas :

Na casa do meu Pai há muitas moradas’ (João 14,2) – esta passagem, segundo a santa, evoca o ‘castelo interior’.

Quem me ama guardará a minha palavra; meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos a nossa morada’ (João 14,23) – um resumo do itinerário espiritual que ela explica.

Minhas delícias estão nos filhos dos homens’ (Provérbios 8,31) – mostra que nós somos o paraíso de Deus.

Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’ (Gênesis 1,26) – a mostra de que fomos criados para amar como Deus ama, porque Deus é amor. A vontade de Deus é que nós nos amemos como Ele nos ama.

A primeira morada é o portal de entrada na vida espiritual

Nós o cruzamos mediante a decisão de buscar a Deus em nós, apoiando-nos n’Ele, já que a pior das misérias, para Santa Teresa de Jesus, é viver sem Deus e até imaginar que podemos fazer o bem sem Deus.

Os quatro frutos da primeira morada, que amadurecerão ao longo do nosso caminho espiritual, são a liberdade, a humildade, o desprendimento e, acima de tudo, a caridade, que é o fim e a culminação.

A segunda, terceira e quarta moradas permitirão aprofundar na vida espiritual entendida como caminho rumo a Deus, como busca de Deus e participação progressiva na vida divina.

Este dom é gratuito, mas temos que estar determinados a recebê-lo e fazer desse recebimento o centro da nossa vida, purificando, assim, o lugar de nós onde habita Deus.

É Deus quem nos faz passar de uma morada à outra, quando quer e da forma que quer.

A segunda morada diz respeito à purificação da nossa relação com o mundo

A arma utilizada para triunfar aqui é a fé em Cristo e a confiança na Sua vinda para nos libertar (cf. Gálatas 5,1).

A terceira morada está ligada ao esclarecimento da relação com nós mesmos

Corremos o risco de ser como aquele jovem rico que teve um bom começo, mas que termina todo triste.

O desafio desta terceira morada é reconhecer-nos como um ‘servo qualquer’, que recebe tudo de Deus.

A quarta morada aprofunda a nossa relação com Deus

Uma grande paz vai se instaurando progressivamente nas profundidades da nossa alma. A confiança, a humildade e a gratidão são realidades que vão sendo vividas cada vez mais profundamente.

A entrada na quinta morada marca uma transição

Não passamos da quarta à quinta da mesma forma que tínhamos passado da segunda à terceira ou da terceira à quarta.

Consideramos a nossa vida não tanto como um caminho rumo a Deus, mas experimentamos Deus vivendo em nós, como explica a frase de São Paulo : ‘Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim!’ (Gálatas 2,20).

O desejo de amar é mais intenso; ao receber uma vida nova, perdemos os nossos antigos pontos de referência e as nossas seguranças habituais.

A sexta morada consiste nos ‘compromissos espirituais’

Há uma alternância de sofrimentos ligados ao sentimento de ausência de Deus e a experiências muito profundas da presença de Cristo. Aqui intervém uma dilatação ainda mais profunda do coração e do desejo de Deus.

A arma utilizada aqui é sempre a volta à santa humanidade de Cristo : Jesus se une a nós em nossa debilidade humana para transformá-la, para revitalizar o nosso desejo de amar em comunhão com Ele.

A sétima morada, enfim, é o ponto de culminação definido pela união com Deus no ‘matrimônio espiritual’

Este matrimônio espiritual foi concedido a Santa Teresa de Jesus em 18 de novembro de 1572.

A união com Deus é uma participação profunda no desejo de Deus de salvar todas as pessoas.

Através do matrimônio espiritual, tudo fica transformado e se recebe um renovado desejo de viver assumindo a própria condição e os próprios compromissos terrenos de maneira ainda mais concreta e sem fugir da realidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2020/11/06/moradas-da-alma-as-etapas-da-vida-mistica-segundo-santa-teresa-de-avila/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Um monge da Armênia, novo doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

‘O Papa Francisco aprovou a proposta da Congregação para as Causas dos Santos de declarar doutor da Igreja universal, o sacerdote e monge São Gregório de Narek, ilustre pela sua doutrina, seus escritos e a sua sabedoria mística.

...O novo doutor da Igreja universal nasceu em Andzevatsik (então Armênia, agora Turquia) por volta do ano 950 e morreu em Narek pelo ano 1005.

Desde cedo seu tio materno o tomou sob a sua proteção, Ananias o Filósofo, que era abade de Narek. Lá, foi instruído no conhecimento das Escrituras, se distinguiu pelo seu rigor ascético e pelo seu espírito de oração. Gregório passou toda a sua vida dentro dos muros do mosteiro.

Depois de ser ordenado sacerdote virou o formador dos noviços que desejavam entrar na vida monástica. Sua fama de santidade e sabedoria transcendeu as paredes de Narek, passou aos mosteiros vizinhos e se tornou, sem buscar isso, um reformador de monges.

Eram tempos de relativa calma, tempos de criatividade, antes de que as invasões mongóis e turcas mudassem a Armênia para sempre. Estas terras experimentaram nessa época um renascimento da sua literatura, pintura, arquitetura e teologia, dos quais Gregório foi uma figura central. A sua obra poética-literária de peso foi o ‘Livro de Orações’. Os seus mais de vinte mil versos foram compostos em pouco mais de três anos. Ele mesmo pensou neste texto como o seu testamento.

O mosteiro de Narek foi destruído durante a Primeira Guerra Mundial, por causa do chamado holocausto armênio realizado pelas tropas otomanas. Esta fato especialmente trágido consistiu na deportação forçada e extermínio de um número desconhecido de civis, calculado aproximadamente entre um milhão e meio e dois milhões de pessoas por parte do governo dos Jovens Turcos no Império Otomano de 1915 até 1923.

O genocídio armênio foi caracterizado por sua brutalidade e uso de marchas forçadas sob condições extremas, o que geralmente levaram à morte muitos dos deportados.

No ano passado, o primeiro-ministro, Erdogan, expressou suas condolências aos descendentes das vítimas deste massacre, um gesto apreciado pelo papa Francisco durante sua viagem à Turquia.

Na coletiva de imprensa, durante o voo de regresso a Roma, o Santo Padre disse : ‘Nesta viagem tive contatos com os armênios. No ano passado o governo turco teve um gesto : o então primeiro ministro, Erdogan, escreveu uma carta sobre a lembrança deste episódio; uma carta que alguns consideraram muito fraca, mas que era – a meu ver – um gesto, não sei se grande ou pequeno, de estender a mão. E isso é sempre positivo. E posso estender uma mão, estendendo-a mais ou menos, esperando para ver o que me diz o outro para não colocar-me em apuros. Isso foi o que fez, então, o primeiro ministro’. ‘No próximo ano haverá muitos atos comemorativos deste centenário, mas esperamos que se chegue por um caminho de pequenos gestos, de pequenos passos de aproximação’, acrescentou.

Para recordar o aniversário do genocídio dos armênios, o Papa argentino vai presidir uma celebração no próximo dia 12 de abril, na Basílica de São Pedro.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/um-monge-da-armenia-novo-doutor-da-igreja