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sábado, 28 de dezembro de 2024

Como lidar com a depressão de fim de ano

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Licio de Araújo Vale

 

‘No final de ano, é muito comum que algumas pessoas não entrem no tão esperado ‘espírito natalino’. Nem sempre a festividade contagia o indivíduo, mas pelo contrário, sentimentos de ansiedade, solidão, tristeza, estresse e depressão podem vir à tona, e por sinal, são até mais comuns durante esta época. Se você se sente mais para baixo diante das festividades natalinas, e até mesmo com o ano novo, saiba que você não é o único, e há diversas explicações para isso.

Frustração e angústia

Este é um momento que nos faz refletir sobre tudo aquilo que vivemos neste ano, e tudo aquilo que queremos para nós no ano seguinte. É comum que algumas pessoas reflitam sobre suas expectativas não realizadas, e criem novas para o futuro, muitas vezes até exageradas como uma forma de compensar tudo que não foi elaborado neste ano, mas este sofrimento pode vir muitas vezes acompanhado de uma estagnação, e isso pode se tornar um ciclo que se repete.  É importante que se olhe para trás e perceba que você se constituí com base em tudo que você fez até então, e tudo o que você não fez, também! Se perceba no hoje, e reflita ‘o que eu sou com base no que fui até então, e o que quero ser com base no que sou agora’. A melhor comparação que podemos fazer é com nosso eu do passado, use-o como motivação para se desenvolver, mas mantendo suas expectativas de acordo com a realidade, e reconhecendo seus limites e impasses, deixe de lado ‘projetos exagerados’, planeje apenas o que realmente te fará bem, e deixe de lado o passado, pois o mesmo existe para ser superado.

Solidão

Nas festividades do final de ano, podemos perceber cada vez mais um ‘complexo de período perfeito’. Cada vez mais vemos na TV, redes sociais e mídias no geral, imagens de famílias se reunindo no Natal, casais celebrando, pessoas cercadas de amigos na virada de ano, mas sabemos também que só são mostrados os lados bons nestas propagandas ou fotos de Instagram, e de forma exagerada e manipulada. É comum que tenhamos saudades de pessoas que já passaram tal época conosco, ou também o desejo de simplesmente ter alguém especial, mas devemos considerar que cabe a nós então, reavaliarmos de quem estamos nos cercando, de quem queremos estar próximos, o que podemos fazer para no ano seguinte estarmos mais satisfeitos. Usar estes sentimentos como motivação para um melhor desenvolvimento, e não se apegar a rótulos, de forma que possamos criar a nossa própria festividade, nossas próprias maneiras e tradições de comemoração, aproveitando os detalhes também por nós criados. Se você quiser que o Natal seja uma boa época para maratonar aqueles filmes que você ama, sozinho, não há problema nisso! Desde que lhe faça feliz.

Estes sentimentos de insatisfação, podem servir como uma ponte para nosso autoconhecimento, sendo ele um bom caminho para bem-estar e desenvolvimento pessoal. A psicoterapia também entra como uma ótima forma de se explorar, se permitir, e se amar! Não deixe de cuidar de si mesmo, reconheça o que te limita, e o que te motiva.

 Como lidar com a depressão nas festas de fim de ano?

Para quem sofreu alguma perda é normal sentir algum vazio nesta época do ano, para que isso não aconteça, é importante realizar algumas atitudes que aliviam esses sentimentos negativos, como :

  • Planejar uma viagem em família ou com amigos ao invés de passar o feriado sozinho em casa;
  • Não se sinta obrigado a nada! Caso algum evento ou situação esteja te fazendo mal, você tem todo o direito de ir embora;
  • Voluntariado : organize uma ação em que você distribui presentes às crianças carentes ou alimentos para ceia em comunidades pobres, a solidariedade é capaz de efeitos muito positivos tanto para quem faz quanto para quem recebe;
  • Participar da missa na Comunidade, rezar em casa, fazer a Leitura Orante, nos fazem reconectar com a Igreja e com o Senhor;
  • Entrar em contato com a natureza. Uma caminhada no parque ou na praia pode ser uma experiência positiva, capaz de aliviar a mente e gerar sensações de bem-estar.

Ah, e uma última dica muito importante! Ao medir os aspectos positivos e negativos de nossas vidas, devemos alimentar o otimismo e a esperança. Que a força da esperança encha o nosso presente, pois é a esperança que dá o sabor viver a vida!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2024-12/padre-licio-como-lidar-depressao-fim-ano.html

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

A depressão e o (re)encontro com o sentido da vida

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Talita Rodrigues

 

Vejo e percebo muitas pessoas vítimas da depressão. Pode-se dizer que a depressão tem sido o mau do século XXI e que é caracterizada como uma doença psiquiátrica crônica, que produz uma alteração de humor marcada pela tristeza profunda, pela desesperança e pela falta de sentido.

A depressão bate à porta de qualquer um, e comigo não foi diferente.

Após o término doloroso de um noivado, me vi mais uma vítima da tão temida depressão. Meus dias já não tinham mais cor, uma boa notícia não alterava meu humor e o sentimento de desesperança e falta de prazer se tornaram recorrentes. Meus dias se resumiam apenas em realizar as obrigações e sentir uma profunda tristeza.

Eu não sentia alegria, não sentia paz, não sentia amor e não sentia esperança.  Perdi minha fé, logo, perdi o sentido de viver.

Dentro da psicologia analítica, trabalhamos com a ‘falta’, e, como consequência, em como recuperar a nossa ‘alma’ perdida em algum momento de nossa história.

Alma’, como já escrevi em outros textos, significa tudo aquilo que nos torna completos, felizes e esperançosos. É a própria alma que nos dá o sentido de viver.

A necessidade de buscar pela minha alma perdida foi justamente o que me possibilitou saber sobre qual era o meu sentido de viver. O deserto – referindo-me a um contexto católico – é o que faz com que nos aproximemos de quem nós somos realmente. Foi no meu deserto, quando eu não conseguia sentir absolutamente nada, que encontrei Deus e me dei conta que só o Seu amor e Sua graça me bastavam. A partir de então, só então, fui feliz novamente.

Se você também está passando por um deserto e enxerga o mundo em uma escala de cinza, seja corajoso e busque por sua alma perdida. Com sua coragem, no meio do caminho, tenho certeza de que (re)encontrará o seu sentido de viver.’ 


Fonte  *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2019/07/01/a-depressao-e-o-reencontro-com-o-sentido-da-vida/

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Ensinamentos de uma mística medieval sobre depressão pós-parto

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Michael Rennier, sacerdote católico ordenado através da Provisão Pastoral para ex-clérigos episcopais que foi criado pelo Papa São João Paulo II


‘Conheci mães que tiveram depressão pós-parto. Elas ficaram tão deprimidas que, fisicamente, pareciam incapazes de cuidar dos filhos recém-nascidos.

Isso criava nelas um sentimento esmagador de fracasso. Além de sofrer de intensa depressão pós-parto, o que já é ruim, elas sofriam de uma sensação aguda de que não conseguiriam nunca cuidar dos filhos. Imagino que o fardo psicológico seja enorme.

Obviamente, não sou mãe, mas já estive deprimido antes. E houve dias em que mal conseguia cuidar de mim mesmo. Eu não conseguia nem imaginar ter que cuidar de outra pessoa durante aqueles momentos sombrios. É difícil explicar como é, mas é verdadeiramente debilitante. Mesmo que a depressão não seja uma lesão que possa ser vista de fora, é muito real. Ao mesmo tempo, uma pessoa que sofre de depressão não pode deixar de sentir que está decepcionando a si mesma e aos outros, o que aumenta a angústia.

Depressão pós-parto : uma doença antiga

A depressão pós-parto é grave e afeta cerca de 15% das mulheres em todo o mundo. A doença existe desde o início dos tempos.

Um amigo me contou recentemente sobre Margery Kempe, uma mulher inglesa que viveu na virada do século 15 e, aparentemente, teve depressão após o nascimento de seu primeiro filho.

Claro que um diagnóstico de depressão não existia na época. Mas temos pistas sobre a vida dela que nos levam a crer nisso.

Margery, mais tarde, se tornou conhecida por suas visões espirituais. Ela descreveu suas visões de Cristo no livro The Book of Margery Kempe. Nele, relata que, quando jovem, viveu uma vida bastante normal. Ela era de classe média, interessada em moda e se casou com John Kempe, um homem que a tratava com gentileza.

Entretanto, tudo mudou com o nascimento de seu primeiro filho. Ela se lembra que, durante a gravidez, experimentou ‘uma grande doença corporal, pela qual perdeu a razão por muito tempo…’ Ela continua dizendo que ‘teve ataques graves da doença até o nascimento da criança’. O parto a deixou tão fraca que ela pensou que não conseguiria sobreviver. Mas ela acabou se recuperando muito bem e parecia estar bem fisicamente. Entretanto, é aí que sua história fica fora de controle.

Pensamentos depressivos

Margery sempre teve uma definição depressiva de si mesma. Pensava que merecia morrer e ir para o inferno por causa de pecados secretos não confessados. Após o nascimento de seu filho, seu estado mental deteriorou-se rapidamente. Ela diz sobre si mesma : ‘esta criatura enlouqueceu e ficou surpreendentemente perturbada e atormentada por espíritos por meio ano, oito semanas e dias estranhos’.

Ela teve uma visão do diabo, que lhe disse para abandonar sua fé, família, amigos, esperança no céu e autoestima. Embora nunca tenha tentado o suicídio, ou pelo menos nunca tenha dito isso, ela começou a mutilar o corpo, rasgando a pele perto do coração com as unhas.

Olhando para a descrição de sua experiência, é difícil dizer se ela sofreu de depressão pós-parto clínica ou, talvez, a ainda mais rara e pior psicose pós-parto. É claro, porém, que a gravidez desencadeou algo nela.

Como superar a depressão pós-parto

A depressão, em minha experiência, deve ser tratada de duas maneiras simultâneas. A primeira é com a ajuda de profissionais médicos, que podem dispensar medicamentos adequados e aconselhar sobre nutrição e terapia profissional. Margery não tinha nenhum desses recursos. Então, ela ficou com apenas o segundo caminho, que é mais pessoal.

Este caminho trata de como a pessoa reage ao viver com depressão. Para alguns, há períodos em que a vida inevitavelmente para. Mas, na maioria das vezes, é possível viver funcionalmente com a depressão – e há maneiras de controlá-la e até mesmo de se mover lentamente em direção à recuperação.

Após o início de sua depressão, Margery nunca recuperou sua saúde mental anterior. Ela tinha um relacionamento físico estranho com o marido, chorava com muita frequência e continuava a ter visões místicas. Mas ela teve mais filhos e uma vida familiar feliz. Como conseguiu? Assumindo algumas atitudes e valorizando valores e virtudes, como :

1. Autoconhecimento

Margery fez um exame de toda a sua vida e foi ao padre da sua paróquia para se confessar. Ela havia evitado a confissão, pensando que, ‘enquanto ela estava com boa saúde, ela não precisava confessar.’

É útil desenvolver um autoconhecimento preciso. Principalmente porque a depressão conta mentiras. A honestidade é o primeiro passo para a cura.

2. Honestidade emocional

A honestidade se estende a reconhecer e aceitar a maneira como você se sente. Margery estava mais do que disposta a expressar suas emoções. Nem todos a apoiava, mas ela não se desculpava. Quando ela estava lutando, não escondia.

3. Amor de Deus

Os vizinhos de Margery gostavam de fofocar sobre ela. Frequentemente, as pessoas não entendem a depressão e consideram pessoas como ela preguiçosas ou irracionais. Nessas horas, ela sempre se lembrava do amor de Deus, que nunca vacila.

4. Amizade

Em vez de absorver a negatividade daqueles que fofocavam sobre ela, a mística buscava o consolo e os conselhos dos amigos sábios e pacientes. Ela, ‘falava com muitos anacoretas’. Anacoretas, como sua amiga Julian de Norwich, eram mulheres que dedicaram suas vidas à sabedoria espiritual e à oração.

Esses são exatamente o tipo de amigos de que uma pessoa deprimida precisa. É uma doença que isola, mas estar constantemente sozinho torna tudo ainda pior.

5. Caridade

Margery ditou um livro para compartilhar sua experiência. Ao longo dos séculos, este livro foi muito útil para outras pessoas que se encontravam em situações semelhantes. O apoio mútuo e a empatia são fundamentais.

Portanto, se você sofre de depressão pós-parto, é importante deixar claro : você não é um fracasso. Você é e será uma mãe maravilhosa. Margery é um belo exemplo de mãe que, embora sua vida não tenha sido fácil, proporcionou uma enorme alegria, sabedoria e amor para sua família e para o mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/24/ensinamentos-de-uma-mistica-medieval-sobre-depressao-pos-parto/

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Os poderosos conselhos de 3 monges para vencer a acídia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Marzena Wilkanowicz-Devoud,

jornalista

 

‘A acídia, um estranho estado de espírito, uma espécie de tristeza e melancolia atingiu os primeiros monges cristãos, aqueles que escolheram refugiar-se no deserto para viver mais intensamente, na solidão ou em pequenas comunidades, o seu ideal de perfeição espiritual. 

Esses homens às vezes eram tocados por um desconforto que os deixava ao mesmo tempo preocupados, insatisfeitos, tristes e cansados. O mal chamado pela Igreja de acídia é, portanto, aquilo que hoje conhecemos como ansiedade e depressão. 

Este mal poderia, então, assumir diferentes formas : irritação com os irmãos e a vida monástica, falta de concentração na leitura e na oração, grande fadiga, fome e sono repentinos, desejo de novidades, desejo incontrolável de estar em outro lugar. O ‘demônio da acídia, também chamado de demônio do meio-dia, é o mais pesado de todos os demônios’, avisa Evagrio Pôntico, um monge do século IV que vivia no deserto egípcio. Ele explicou : 

Ele ataca o monge por volta da quarta hora e o rodeia até por volta da oitava. Começa dando-lhe a impressão de que o sol está muito lento em seu curso, ou mesmo imóvel, e que o dia é de cinquenta horas. Em seguida, ele o exorta a olhar sem parar pela janela, o joga para fora de sua cela para examinar o sol e ver se a hora oitava se aproxima, finalmente o exorta a lançar os olhos por todos os lados, esperando a visita de um irmão. Ele o faz odiar seu lugar, seu modo de vida, o trabalho das mãos; ele sugere a ele que não há mais amor entre os irmãos, que ele não pode contar com nenhum…’ 

De fato, a acídia é uma espécie de torpor que paralisa a fé e deve ser combatido. Sim, mas como? Algumas ideias vêm destes três grandes monges que lutaram contra a acídia :

1. Santo Antônio, o Grande

Ascético e embriagado de Deus, como muitos anacoretas nos primeiros séculos do cristianismo, Santo Antônio, o Grande retirou-se no deserto para encontrar no silêncio e na solidão as condições ideais de união com Deus. Assim como Cristo, foi no deserto que testou sua fé. Apesar da sensação de esgotamento psíquico, até mesmo de loucura que o acometeu, decidiu resistir às visões impostas por Satanás : ‘Vi todas as redes do demônio instaladas na terra’.

Este último se esforça para distraí-lo de suas orações, instando-o a renunciar em espírito ao jejum a que se vincula e, em um sonho, chafurdar na gula… Ele, então, entende que o ascetismo nunca deve ser considerado como um fim em si. A salvação vem de Deus. Como ele explica, dando este conselho valioso : 

Guarda o que te mando : aonde quer que você vá, tenha sempre Deus diante de seus olhos; faça o que fizer, tenha o testemunho das Sagradas Escrituras; e onde quer que você esteja, não se mova facilmente. Guarde essas três coisas e você será salvo’.

2. São Pedro Damião

O monge eremita Pedro Damião dedicou-se desde muito jovem à oração, ao ascetismo e ao estudo das Sagradas Escrituras, tanto à contemplação como à pregação. 

Em suas numerosas obras que o tornaram doutor da Igreja, São Pedro Damião insiste em certas manifestações do mal. Surpreendido pela sonolência durante a leitura, descreve este ‘inevitável peso das pálpebras a que nem mesmo um santo de grande temperamento resiste’. Para ele, o remédio encontra-se na caridade que leva à verdadeira alegria :

Que a esperança os conduza à alegria! Que a caridade desperte seu entusiasmo! E que nesta embriaguez a tua alma se esqueça que está a sofrer, para florescer caminhando para o que contempla dentro de si’. 

3. São Romualdo

São Romualdo de Ravenna admitiu sofrer de acídia. O mal se manifestou nele particularmente durante o aprendizado mecânico dos Salmos. Diante da rebelião do corpo contra os constrangimentos da vida monástica a que estava submetido, ele repetiu que não era necessário ceder, mas, ao contrário, aumentar vigílias, orações e jejuns. 

Para ele, o monge trabalhador deve lembrar que não há outro descanso além do descanso eterno. Visto que as horas da manhã são aquelas em que a acídia ocorre com mais frequência, eles devem então estar ocupados com a oração.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/04/23/os-poderosos-conselhos-de-3-monges-para-vencer-a-acidia/

quarta-feira, 25 de abril de 2018

8 grandes santos que tiveram depressão, mas nunca se renderam a ela

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 LONELY MAN,BEACH

‘Até mesmo santos da estatura moral da Madre Teresa de Calcutá, admirada por crentes e descrentes, dão testemunho de ter sofrido algo que soa surpreendente e talvez chocante para quem acha que os santos viveram numa bolha de perfeição à parte das cotidianidades que afetam os seres humanos ‘comuns’ : o conceito da ‘noite escura da alma’.

A mais famosa abordagem do tema e do termo é, provavelmente, a do místico espanhol São João da Cruz, reconhecido como nada menos que Doutor da Igreja. Ele descreve essa profunda espécie de crise espiritual na jornada rumo à união com Deus em seu célebre poema intitulado, precisamente, ‘La noche oscura del alma’ (século XVI).

É fato que Deus permite, e com frequência, a drástica provação da aridez espiritual, da completa falta de fervor sensível, da dúvida espessa a respeito da Sua existência, da revolta perante os injustíssimos reveses da vida, do desespero diante da tragédia ou mesmo da rotina que, dias depois de dias, meses depois de meses, se reveste daquela insuportável e amorfa ausência de sentido.

Se o próprio Cristo experimentou o drama do silêncio do Pai na mais negra de todas as noites, a ponto de Lhe suplicar que afastasse d’Ele esse cálice durante a Sua oração no Jardim das Oliveiras, à espera da Paixão, por que presumir que Deus fosse poupar-nos de experimentar a dúvida radical? Por que imaginar que Ele nos privasse da oportunidade de escolher, livre e voluntariamente, abraçar a fé ou rejeitá-la, confiar n’Ele ou refutá-Lo, purificar o amor ou mantê-lo morno, frágil, apoiado em incentivos cômodos e débeis?

Nem a vocação à vida religiosa isenta um cristão da provação espiritual.

É claro que nem sempre essa provação é propriamente a doença física e psíquica que hoje conhecemos como depressão. No entanto, há santos que, pelos sintomas descritos por eles próprios ou por outros biógrafos, muito provavelmente enfrentaram esse quadro que atualmente é visto como ‘o mal do século’.

Alguns dos santos que possivelmente enfrentaram a depressão :

1 – Santo Agostinho - Século IV


Pois é! Uma das mais icônicas e sublimes figuras representativas da intensidade da conversão cristã e do poder extraordinário da graça santificante; uma das personalidades mais admiradas da história da civilização ocidental, inclusive por não católicos e até por não cristãos : até ele enfrentou, muito provavelmente, os altos e baixos dos neurotransmissores e a instabilidade psíquica e física que hoje a medicina denomina depressão.

Sua mãe, Santa Mônica, suportou com paciência quase inacreditável a imprevisibilidade do filho brilhante, mas de temperamento terrível. Agostinho procurava com intensa sinceridade a verdade e o sentido da existência, mas, em suas andanças desnorteadas e segundo os seus próprios termos, ele a buscava na aparência das coisas criadas, nas volúpias e prazeres dos sentidos, longe de Deus e cada vez mais longe de si mesmo. ‘Eis que estavas dentro de mim, mas eu estava fora, e fora Te buscava, e nas coisas formosas que criaste, deforme eu me lançava’, declarará ele nas ‘Confissões’, obra-prima da espiritualidade não apenas cristã, mas universal.

A teimosia da graça, porém, foi mais irredutível ainda que a dele mesmo, e, encontrando canal nas ‘indesanimáveis’ orações de sua mãe e na admirável influência do grande bispo Santo Ambrósio, levou o rebelde e angustiado Agostinho a finalmente se render a Deus e acolher o batismo. Mais ainda : ele se consagrou a Deus e chegou também ele a ser bispo.

Depois que a mãe morreu, no entanto, e durante os mais de quarenta anos que a isto se seguiram, a sua personalidade poderosa ainda se manifestaria com frequência na propensão à raiva implacável e à depressão severa. Santo Agostinho se levantava desses abismos por meio da oração, do sacrifício e do trabalho. Ocupar-se foi um grande remédio, tanto nas muitas responsabilidades de bispo quanto nas muitas horas de reflexão, estudo e oração que o transformaram em grande defensor da doutrina da Igreja.

2 – Santa Flora de Beaulieu - Século XIV

Sta Flora de Beaulieu

Ela teve uma infância normal, mas, quando seus pais começaram a buscar marido para ela, se recusou e anunciou que ia dedicar a vida a Deus entrando num convento. No entanto, essa decisão, tomada num contexto turbulento, desencadeou uma fase intensa e prolongada de depressão que afetava de tal modo o seu comportamento que mesmo para as outras irmãs era uma provação conviver com ela. Com a graça de Deus, o tempo e a ajuda de um confessor compreensivo, Flora fez grande progresso espiritual precisamente por causa do desafio da depressão, que ela enfrentou com empenho.

3 – Santo Inácio de Loyola - Século XVI


A personalidade poderosa do grande santo fundador dos padres jesuítas também era dada a sentimentos de profunda inquietação e sofrimento. O senso de certeza e convicção que ele demonstra em sua autobiografia (escrita em terceira pessoa) não vieram com facilidade. Depois de se converter, Inácio teve de lutar contra um feroz período de escrupulosidade, termo que, na ascese cristã, se refere à tentação de sentir-se sempre em grave pecado por cada mínima falha pessoal no cumprimento de deveres e na vivência das virtudes. Essa provação veio seguida de uma depressão tão séria que ele chegou a pensar em suicídio. Deus o retirou do abismo de trevas e sofrimento interior inspirando-lhe grandes coisas a realizar na vida em nome de Cristo e da Sua Igreja.

O próprio Inácio define como ‘desolação’ a experiência que enfrentou em seus exercícios espirituais : um estado de grande inquietação, irritabilidade, desconforto, insegurança quanto a si mesmo e às próprias decisões, dúvidas assustadoras, grande dificuldade de perseverar nas boas intenções. De acordo com Inácio, Deus não causa a desolação, mas a permite para nos ‘abalar’ como pecadores e nos chamar à conversão.

A partir da sua experiência, Santo Inácio dá três conselhos para reagir à desolação : não desistir nem alterar uma boa resolução anterior; intensificar a conversa com Deus, a meditação e as boas ações; e perseverar com paciência, pois a provação é estritamente limitada por Deus, que dará o alívio no momento oportuno. Ele descobriu, em suma, que a depressão pode ser um grande desafio espiritual e uma ótima oportunidade de crescimento.

Estes conselhos continuam perfeitamente válidos, mas, hoje, é de importância crucial acrescentar um quarto conselho : procurar a ajuda médica adequada. Os avanços da medicina deixam claro que, na maioria dos quadros verdadeiramente depressivos, a medicação psiquiátrica é indispensável para reequilibrar os neurotransmissores, pois se trata de uma doença propriamente dita e não apenas de uma ‘fase de tristeza’. O tratamento da depressão clínica tem duas vertentes interdependentes : o trabalho interior pessoal, que pode ser acompanhado por um bom psicólogo ou orientador qualificado, e o trabalho da medicina, acompanhado por um psiquiatra sério e bem atualizado.

4 – Santa Joana Francisca de Chantal - Século XVI


Durante oito anos, ela viveu feliz o seu casamento com o Barão de Chantal. Mas, quando o marido morreu, seu sogro, vaidoso e teimoso, forçou Joana e seus três filhos a irem morar com ele, provocando uma rotina de contínuos dissabores, duras provas de paciência e depressão. Em vez de se escorar na vitimização, como infelizmente é comum desde sempre e até hoje, Santa Joana fez a escolha de manter a alegria e de responder às crueldades do sogro com caridade e compreensão.

Mesmo depois de estabelecer uma cordial e santa amizade com o grande bispo São Francisco de Sales e de trabalhar com ele na criação de uma ordem religiosa para mulheres de mais idade, Joana continuava experimentando momentos de grande sofrimento e injusto julgamento – e continuava, também, a responder com alegria, trabalho esforçado e espírito voltado a Deus.

A propósito, São Francisco de Sales tem um relevante conselho para quem sofre dessa provação :

‘Refresque-se com músicas espirituais, que muitas vezes provocaram o demônio a cessar as suas artimanhas, como no caso de Saul, cujo espírito maligno se afastou dele quando Davi tocou sua harpa perante o rei. Também é útil trabalhar ativamente, e com toda a variedade possível, de modo a desviar a mente da causa de sua tristeza’.

5 – São Noel Chabanel - Século XVII

 São Noel Chabanel

Padre jesuíta, mártir norte-americano, trabalhou entre os índios huron com São Charles Garnier. Os missionários, no geral, desenvolvem grande empatia por aqueles a quem evangelizam; no entanto, não foi o caso do pe. Noel : ele sentia repugnância pelos índios e pelos seus costumes, além de imensa dificuldade para aprender a sua língua, completamente diferente de qualquer idioma europeu, sem falar nos brutais desafios que a vida em ambiente quase selvagem envolvia. Todo esse conjunto de provações gerou nele um sentimento duradouro de sufocamento espiritual. Como ele respondeu? Fazendo um voto solene de jamais desistir nem abandonar a sua missão. E esse voto ele manteve até o dia do seu martírio.

6 – Santa Elizabeth Ann Seton - Século XVIII

ELIZABETH

A primeira santa nascida em solo estadunidense sofria com a contínua sensação de solidão e melancolia, tão profunda que ela pensou várias vezes em se matar. Ela teve muitos problemas em sua vida, especialmente relacionados à sua família. Leituras, música e o mar a ajudaram a ser mais alegre. Quando se converteu, a Eucaristia e a caridade passaram a ser sua grande força diária!

7 – São João Maria Vianney - Século XIX

Cura d'Ars

Conhecido como o Cura D’Ars, ele é um dos sacerdotes mais queridos da história da Igreja, modelo de pároco zeloso e de pastor que superou as muitas e graves limitações intelectuais próprias para guiar as almas com maestria pelo caminho da vida de graça. Apesar de todo o bem que fazia, ele não conseguia enxergar a própria relevância diante de Deus e convivia persistentemente com um forte complexo de inutilidade pessoal, sintoma da depressão que o acompanhou durante toda a vida.

Nos momentos mais difíceis, ele recorria ao Senhor e, apesar do sofrimento, renovava a determinação de perseverar no seu trabalho com confiança, fé e amor a Deus e ao próximo.

8 – Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Século XX

 

A santa carmelita descalça que havia nascido judia e crescido ateia sofreu com a depressão durante longo período. Chegou a escrever :

‘Encontrei-me gradualmente em profundo desespero. Eu não podia atravessar a rua sem querer que um carro me atropelasse e eu não saísse viva dali’.

Desde antes de se converter, principalmente nas muitas ocasiões em que foi desprezada e humilhada por ser mulher e de origem judia, Edith sofreu intensamente a depressão. Intelectual, filósofa, discípula e até assistente de Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia, ela finalmente encontrou em Deus a Verdade que tanto buscava, a partir da leitura da obra de Santa Teresa de Jesus. Abraçou então a graça com tamanha sede que dela arrancava as forças para lidar não apenas com os seus dolorosos sofrimentos interiores, mas também com as trevas mortíferas do nazismo.

Edith Stein, que adotou no convento carmelita o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz após se converter e se consagrar a Deus radicalmente, foi capaz de perseverar até o martírio, mantendo a lucidez, a fé, a esperança e o amor inclusive na prisão e na execução a que foi submetida covardemente no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Esse final de vida terrena parece particularmente deprimente? Pois ele é, mesmo. No entanto, como tudo nesta vida tem mais do que apenas um lado, ela enfrentou esse cenário extremo com a serenidade e a paz de espírito de quem aprendeu a lidar com os altos e baixos da depressão, enxergando além do imediato e abraçando uma vida que não acaba porque é eterna – e que é capaz de brilhar até mesmo nas trevas mais densas da morte num campo de concentração.’


Fonte :