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sábado, 5 de julho de 2025

O mundo anda depressa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS 


‘O mundo anda depressa e nós não podemos parar’, alertava São João Batista Scalabrini na segunda metade do século XIX e início do século XX. Com efeito, eram tempos de intensa atividade e turbulência devido aos efeitos, positivos e negativos, da Revolução Industrial. Há séculos, a filosofia, associada aos inventos científicos e tecnológicos, vinha sacudindo o torpor da era medieval. A razão e a técnica ganhavam a centralidade característica dos tempos modernos ou pós-modernos. Os passos da travessia humana sobre a face da terra experimentaram um salto sem precedentes, seja do ponto de vista da produção, produtividade e consumo, como do ponto de vista da velocidade das mudanças em curso.

Não sem razão, a existência de Scalabrini, quase toda ela, coincide com o ‘século do movimento’ (Peter Gay). Movimento de máquinas a vapor, como o trem, o carro, o navio… Mas também movimento de pessoas, tanto do campo para a cidade, quanto cruzando o oceano em direção às terras novas das Américas. A nova produção econômica, de caráter liberal e capitalista, necessitava transformar os camponeses em operários para o trabalho das fábricas incipientes. Mas precisava igualmente transformar parte deles em migrantes que pudessem engrossar o chamado ‘exército de reserva’, fator decisivo para o lucro como motor da acumulação de capital.

Mal podia imaginar, então, Scalabrini que a velocidade das mudanças chegasse ao grau tão vertiginoso que hoje nos atropela e, literalmente, nos deixa para trás. Os últimos 50 anos em particular, ou seja, desde as décadas de 1970-80, a revolução da informática, com sua tecnologia de ponta, vem apresentando uma avalanche de inovações que nos deixa aturdidos. E aqui não há como ignorar os paradoxos. Por um lado, a terra e o setor agrícola nunca produziu tantas toneladas de alimento como atualmente, de outro lado, o desperdício de alimentos e a fome jamais atingiram tantas pessoas. Hoje, ao redor de um bilhão de seres humanos em todo planeta sofrem de insegurança alimentar.

Depois, nunca houve tantos meios e tanta facilidade de comunicação nas relações humanas, seja em termos de comunicação familiar e interpessoal, seja quanto à comunicação social, política ou cultural. Ao mesmo tempo, porém, a sensação de solidão e de abandono nunca pareceu tão profunda e tão angustiante. As cidades e metrópoles se converteram em amontoados de indivíduos isolados, fechados em si mesmos. Cresce o fenômeno da ‘multidão solitária’, para usar a expressão de David Riesman, na pesquisa e obra homônima. Em especial nas megalópoles, multidão passa a rimar com solidão. As pessoas estão conectadas à distância, pela Internet, mas evitam o encontro cara-a-cara, olho-no-olho. Emoções e sentimentos acabam sendo dominados, e explorados financeiramente, pelas gigantescas redes de telecomunicação.

Vale o mesmo para o caso dos transportes, individuais e coletivos, terrestres e aéreos. Crescem as técnicas que os tornam, simultaneamente, mais modernos, mais velozes e mais confortáveis. As distâncias diminuem de forma nunca vista. Finalmente, ‘o mundo se converteu numa aldeia global’. Mas o acesso a tais meios de última geração, rápidos e confortáveis, torna-se um luxo de poucos. A grande maioria da população depende do transporte público, onde é maior a aglomeração e menores os investimentos. Daí a sensação de deslocar-se como ‘sardinhas em lata’. Mesmo para o transporte privado, quanto mais aumenta a sofisticação, a rapidez e o conforto do veículo, maior a probabilidade de ficar horas parado no trânsito infernal das grandes cidades. De forma paradoxal, técnicas de ponta paralisam os carros de luxo. Contra o que dizia Scalabrni, fica-se imobilizado num mundo que anda depressa.

Não seria difícil multiplicar os exemplos contraditórios dos avanços tecnológicos. Em lugar de favorecer maior tempo de lazer e de criatividade, a Internet, o telefone celular e agora a Inteligência Artificial (IA) parecem devorar todo nosso tempo. Entramos no vórtice avassalador de uma pressa doentia, patológica, onde não há tempo para afetos, laços e amizades presenciais ou duradouras. Mais do que nunca, somos atropelados pela noção de que ‘time is money’. Tornamo-nos marionetes da IA e dos poucos milionários ou bilionários que faturam alto com toda essa correria. Quem sabe atualmente, se estivesse vivo, Scalabrini diria que ‘o mundo anda demasiadamente depressa, por isso devemos parar para reencontrar a nós mesmos, ao outro e ao totalmente Outro! 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-mundo-anda-depressa/

sábado, 28 de dezembro de 2024

Como lidar com a depressão de fim de ano

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Licio de Araújo Vale

 

‘No final de ano, é muito comum que algumas pessoas não entrem no tão esperado ‘espírito natalino’. Nem sempre a festividade contagia o indivíduo, mas pelo contrário, sentimentos de ansiedade, solidão, tristeza, estresse e depressão podem vir à tona, e por sinal, são até mais comuns durante esta época. Se você se sente mais para baixo diante das festividades natalinas, e até mesmo com o ano novo, saiba que você não é o único, e há diversas explicações para isso.

Frustração e angústia

Este é um momento que nos faz refletir sobre tudo aquilo que vivemos neste ano, e tudo aquilo que queremos para nós no ano seguinte. É comum que algumas pessoas reflitam sobre suas expectativas não realizadas, e criem novas para o futuro, muitas vezes até exageradas como uma forma de compensar tudo que não foi elaborado neste ano, mas este sofrimento pode vir muitas vezes acompanhado de uma estagnação, e isso pode se tornar um ciclo que se repete.  É importante que se olhe para trás e perceba que você se constituí com base em tudo que você fez até então, e tudo o que você não fez, também! Se perceba no hoje, e reflita ‘o que eu sou com base no que fui até então, e o que quero ser com base no que sou agora’. A melhor comparação que podemos fazer é com nosso eu do passado, use-o como motivação para se desenvolver, mas mantendo suas expectativas de acordo com a realidade, e reconhecendo seus limites e impasses, deixe de lado ‘projetos exagerados’, planeje apenas o que realmente te fará bem, e deixe de lado o passado, pois o mesmo existe para ser superado.

Solidão

Nas festividades do final de ano, podemos perceber cada vez mais um ‘complexo de período perfeito’. Cada vez mais vemos na TV, redes sociais e mídias no geral, imagens de famílias se reunindo no Natal, casais celebrando, pessoas cercadas de amigos na virada de ano, mas sabemos também que só são mostrados os lados bons nestas propagandas ou fotos de Instagram, e de forma exagerada e manipulada. É comum que tenhamos saudades de pessoas que já passaram tal época conosco, ou também o desejo de simplesmente ter alguém especial, mas devemos considerar que cabe a nós então, reavaliarmos de quem estamos nos cercando, de quem queremos estar próximos, o que podemos fazer para no ano seguinte estarmos mais satisfeitos. Usar estes sentimentos como motivação para um melhor desenvolvimento, e não se apegar a rótulos, de forma que possamos criar a nossa própria festividade, nossas próprias maneiras e tradições de comemoração, aproveitando os detalhes também por nós criados. Se você quiser que o Natal seja uma boa época para maratonar aqueles filmes que você ama, sozinho, não há problema nisso! Desde que lhe faça feliz.

Estes sentimentos de insatisfação, podem servir como uma ponte para nosso autoconhecimento, sendo ele um bom caminho para bem-estar e desenvolvimento pessoal. A psicoterapia também entra como uma ótima forma de se explorar, se permitir, e se amar! Não deixe de cuidar de si mesmo, reconheça o que te limita, e o que te motiva.

 Como lidar com a depressão nas festas de fim de ano?

Para quem sofreu alguma perda é normal sentir algum vazio nesta época do ano, para que isso não aconteça, é importante realizar algumas atitudes que aliviam esses sentimentos negativos, como :

  • Planejar uma viagem em família ou com amigos ao invés de passar o feriado sozinho em casa;
  • Não se sinta obrigado a nada! Caso algum evento ou situação esteja te fazendo mal, você tem todo o direito de ir embora;
  • Voluntariado : organize uma ação em que você distribui presentes às crianças carentes ou alimentos para ceia em comunidades pobres, a solidariedade é capaz de efeitos muito positivos tanto para quem faz quanto para quem recebe;
  • Participar da missa na Comunidade, rezar em casa, fazer a Leitura Orante, nos fazem reconectar com a Igreja e com o Senhor;
  • Entrar em contato com a natureza. Uma caminhada no parque ou na praia pode ser uma experiência positiva, capaz de aliviar a mente e gerar sensações de bem-estar.

Ah, e uma última dica muito importante! Ao medir os aspectos positivos e negativos de nossas vidas, devemos alimentar o otimismo e a esperança. Que a força da esperança encha o nosso presente, pois é a esperança que dá o sabor viver a vida!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2024-12/padre-licio-como-lidar-depressao-fim-ano.html

sábado, 28 de setembro de 2024

Evangelizando superamos a solidão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Thales Maciel Pereira


A evangelização na Igreja decorre da missão messiânica de Jesus, pois Ele foi constituído pelo Pai como o evangelizador por excelência. De fato, toda a vida de Cristo pode ser interpretada a partir da noção de evangelização. Ele, desde sua concepção até sua glorificação no mistério pascal, viveu para evangelizar os pobres, isto é, para comunicar uma boa notícia de salvação. Qual boa notícia é essa?

Suponhamos uma pessoa que sucumbisse a um terreno movediço. Imaginemos sua angústia ao tentar voltar integralmente à superfície. Tal pessoa, abandonada à própria sorte, certamente malograria em seu intento de autossalvação. Dali não sairia sem uma mão amiga que se lhe oferecesse como auxílio necessário. Assim é a evangelização, assim é a vida de Cristo.

Quando estamos sós, não conseguimos conferir sentido às nossas próprias vidas. Nós, seres de relação, necessitamos da interação e dos relacionamentos com os outros seres humanos para mantermo-nos nesta vida. No horizonte espiritual, também ocorre a mesma coisa : precisamos de uma presença amiga para que sejamos mantidos no horizonte da vida.

Isso parece tão verossímil a ponto de Joseph Ratzinger, o saudoso Papa Bento XVI, indicar que o medo mais radical do ser humano é o da solidão. Segundo ele, ‘A criança perderá o seu medo no momento em que uma mão se oferecer para guiá-la e uma voz falar com ela; no momento, portanto, em que a criança viver a experiência da presença de um ser humano amoroso. Mesmo aquele que estiver em companhia de um morto deixará de sentir um assomo de medo quando houver alguém junto dele, de modo que sinta sua presença. Na superação do medo se revela a sua natureza mais intrínseca, ou seja, o medo da solidão, que é o medo de um ser que só pode viver junto dos outros. O medo essencial do ser humano não pode ser superado pelos argumentos da razão e sim pela presença de alguém que ama’ (Introdução ao cristianismo, 221).

Assim, evangelizar significa comunicar uma notícia muito boa : você não está sozinho. A solidão radical do ser humano é superada mediante a abertura do coração a Deus e às pessoas que estão ao nosso redor para que nos completemos e nos compreendamos como seres de relação.

A salvação, portanto, não é uma realidade própria de indivíduos isolados e autocentrados, mas, fruto de uma relação íntima de comunhão entre a vida humana e a vida divina.

Evangelizar é superar a solidão. Ser evangelizador é participar da missão de Jesus, é proclamar – com a boca e com a vida – que sozinhos nada podemos, mas que, juntos, avançamos no aprofundamento da vida e no melhoramento do mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/evangelizando-superamos-a-solidao.html


domingo, 29 de outubro de 2023

A solidão ativa e produtiva em Deus, segundo um monge cartuxo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vitor Roberto Pugliesi Marques


Desde os tempos bíblicos da Antiga Aliança, Deus revelou que Ele se faz encontrar no silêncio e no recolhimento. 

Logo após passar a fio de espada os profetas de Baal, o profeta Elias fugiu para o deserto a fim de salvar a sua vida, pois a rainha Jezabel prometera puni-lo com a morte pelo que fizera aos profetas pagãos (cf. 1Rs 19,1-3). Assim, ele se põe a caminhar por um longo período até o monte Horeb, o monte do Senhor para o povo judeu, para com Ele ter um colóquio. Diante do monte, o profeta Elias vê um vento impetuoso e violento, mas o Senhor não estava nele; vê o estremecer da terra, mas Deus aí não estava; vê um fogo abrasador acender-se, mas também no fogo Deus não se encontrava. Apenas quando veio, então, uma brisa leve é que Elias pôde ir ao encontro de Deus, pois nessa mansidão O encontrou (cf. 1Rs 19,11-13). Exemplos assim não se esgotam nas Sagradas Escrituras, e estão presente na vida de todos os servos fiéis do Senhor, passando pelos profetas até chegar a Nosso Senhor Jesus Cristo, homem do silêncio por excelência. 

Há quem possa pensar que bastaria exclusivamente a solidão passiva para criar a intimidade com Deus. É certo que toda graça vem unicamente de Deus, mas para que possamos nos divinizar necessitamos cooperar com a graça santificante que Deus coloca em nossa alma. Vai nos ensinar um monge cartuxo (optamos por não revelar o nome do escritor por essa ser uma tradição antiga dentro da Ordem Cartuxa) que a solidão que Deus deseja de nós é plenamente ativa e se dá em três etapas que são : a solidão do coração, a solidão da mente e a solidão da alma. Expliquemos cada uma dessas três etapas (cf. Antologia de autores cartuxos: itinerário de contemplação / Por um cartuxo. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 184).

Companhia de Deus

A solidão do coração consiste numa ‘vontade de desapego no próprio coração, que se conserva puro de imaginações e fantasias incontroladas, assim como dos próprios afetos e desejos para sentar-se espiritualmente aos pés de Cristo’ (idem). Quantos são os que se colocam, em seus quartos, para terem um momento a sós, mas, em vez de nutrirem a companhia de Deus, enchem-se de devaneios bobos e pensamentos despropositados! A solidão da mente, conforme o autor cartuxo, é, por sua vez, o ‘esforço da vontade para não perturbar nossos diálogos com Deus com pensamentos maus, vãos e inúteis’ (ibidem). É certo que manter-se em meditação e com foco é papel árduo até mesmo para os mais experimentados na oração, mas tendo o propósito de manter-se focado em Deus, nossa própria inteligência vai iluminando os modos de fazê-lo, iluminada certamente pela graça. Caso o demônio veja cumprir o seu papel de tentador, uma boa estratégia é trazer isso para Deus dizendo, por exemplo : ‘olha isso, Senhor, até mesmo o demônio vem em meu auxílio, mostrando-me com suas tentações de que preciso mais e mais de Sua graça. Dá-me ela nesse momento então’. Por fim, a solidão da alma é o ‘desapego do amor próprio, estar vigilante a respeito das próprias opiniões ou juízos demasiados pessoais’. Trata-se, em certa análise, da Via Unitiva da caminhada de santificação, onde o homem equipara a sua vontade à vontade de Deus em sua vida. 

Vemos, assim, que a solidão em Deus é altamente ativa da nossa parte. Agindo desse modo, pouco a pouco, sentiremos ‘diminuir em nós o peso da nossa natureza corrupta; logo chegaremos ao feliz esquecimento das coisas do mundo. E se esse exercício pode, de momento, ser austero, dá, no entanto, aos que a ele se aplicam o fruto de uma imensa paz, um fruto de salvação e consolação interior’ (ibidem). 

Que saibamos entender, tal como nos ensina as Sagradas Escrituras, que ‘[Deus] está no meio de nós, entretanto longe de nossa agitação’ (cf. Antologia de autores cartuxos: itinerário de contemplação / Por um cartuxo. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 187). E para O escutarmos, temos, de modo ativo, expiar o ruído que cerca a nossa alma.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2021/06/23/a-solidao-ativa-e-produtiva-em-deus-segundo-um-monge-cartuxo/


terça-feira, 22 de agosto de 2023

A solidão da fé

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Manuel Augusto Lopes Ferreira,

Missionário Comboniano 


Proponho como título para a reflexão deste mês a expressão «a solidão da fé», que li recentemente e me impressionou. A frase pertence a um grande pensador cristão do século XX (Romano Guardini) e foi dita em 1950, como profecia da secularização que se anunciava na Europa e do dissolver-se de qualquer influência cristã na cultura e sociedade europeia. «A solidão da fé será tremenda» diante deste retirar-se da fé cristã para a vida e consciência individual.

A solidão está a ser, efetivamente, tremenda, mas temos de a assumir como discípulos-missionários, nesta hora de repensarmos a missão. E causa sofrimento, como vemos na admissão de tantos cristãos, mais ou menos idosos, a ressentirem-se por terem feito tudo para transmitir a fé e educar no caminho cristão os seus filhos e a comprovarem o abandono a que os mesmos deitaram a fé. Como vemos na incapacidade, que sentimos todos, para encontrar as palavras adequadas para falarmos da fé e testemunharmos o Evangelho; é mais fácil adequarmos as nossas atitudes (respeito, diálogo, afeto) do que encontrar palavras convincentes e esclarecedoras. Ou na solidão que experimentamos, agora no pós-covid, ao olharmos ao redor e nos reencontrarmos sozinhos nas celebrações, em igrejas vazias, em comunidades reduzidas de número e de vitalidade.

Este sofrimento e esta solidão são transversais e não se verificam só entre os leigos. Os sacerdotes também se sentem sozinhos, descontentes talvez com os fiéis, mas também com os seus bispos, a sofrerem as consequências desta nuvem de suspeição que paira sobre eles por causa dos casos de abuso no exercício do ministério. Os bispos também sofrem solidão, nas dificuldades do relacionamento com os sacerdotes ou na incapacidade de se colocarem em sintonia com os percursos do atual pontificado. Se a situação dos abusos veio dificultar o relacionamento dos bispos com os sacerdotes (já não são só pais e pastores, irmãos maiores, mas gestores que têm de aplicar políticas de tolerância zero), as dinâmicas do pontificado e do magistério do Papa Francisco vieram colocar sob pressão o ministério episcopal (se o papa fala diariamente sobre tudo e para todos, que mais podem dizer os bispos senão ecoar as opiniões do papa?!).

Sentimo-nos todos, de uma forma ou de outra, invadidos por este sentimento de solidão, de orfandade espiritual, porque a Igreja que temos (a nossa comunidade, paróquia ou diocese...) não corresponde às nossas expectativas : os nossos sonhos desvanecem-se e o que vemos à nossa volta (parece que) não nos corresponde ou pertence. Sentimos o peso da ausência, mais do que a alegria da presença... do que temos e vivemos.

Trata-se de uma sensação que já o Senhor Jesus detectou nos primeiros discípulos, ao falar do sentir-se órfãos, diante da perspectiva da sua ausência (não vos deixarei órfãos!). Cristo promete a consolação de um guia interior, o Espírito Santo, cuja vinda acabamos de celebrar no Pentecostes : uma promessa que é também para nós hoje, no dom de um Espírito capaz de abater a barreira da solidão e abrir-nos a uma renovada compreensão da vida e da missão cristã.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/998/a-solidao-da-fe/

sábado, 23 de outubro de 2021

Padre, sua vida também importa!

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Eliseu Donisete de Paiva Gomes,

da Arquidiocese de Mariana, MG


‘Desde 2015 no Brasil, por iniciativa do CVV (Centro de Valorização da Vida), da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) em conjunto com o CFM (Conselho Federal de Medicina), iniciou-se uma campanha de prevenção ao suicídio, que recebeu o nome de ‘Setembro Amarelo’, justamente porque o dia 10 do referido mês é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), recolhidos no ano de 2012, aproximadamente 800 mil pessoas cometem suicídio anualmente. É sem dúvida uma estatística muita assustadora, que atinge pessoas de todas as idades, gênero, classe social, cor, crentes, ateus, padres, freiras, etc. Estima-se que no mundo a cada 40 segundos alguém comete suicídio. No Brasil são 10 mil suicídios por ano, uma média de 27 brasileiros por dia, ou seja, a cada hora, uma pessoa tira sua vida no país.

Nesse cenário é preciso também falar sobre o suicídio na vida sacerdotal, que nos últimos anos tem aumentado de forma bastante expressiva. No Brasil entre os anos de 2017 e 2018 foram 20 padres que tiraram a própria vida, e desde que a pandemia começou já se tem notícias que no país 7 padres cometeram suicídio. Vários são os questionamentos que vão surgindo como forma de encontrar respostas para esse triste e preocupante cenário.

Quais os principais fatores que têm contribuído para o suicídio na vida sacerdotal? 

Estresse profissional

Uma pesquisa realizada em 2008 pela ISMA-BR (International Stress Management Association), voltada ao desenvolvimento da prevenção e do tratamento de stress no mundo, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais estressantes da atualidade. Nessa pesquisa, além de padres e religiosos, foram entrevistados profissionais de diversas áreas, dando destaque para os agentes de segurança pública, empresários e motoristas de ônibus, que comumente são profissões tidas como muito estressantes. Mas entre todas as profissões, os sacerdotes são os que mais experimentam o estresse profissional. Na pesquisa dos 1,6 mil padres e freiras entrevistados, 28% deles, quase 500, se sentiam ‘emocionalmente exaustos’.

O sacerdote é visto por muitos como se fosse um ‘super-homem’, e que por isso, tem que estar 24 horas disponível para atender a todas as solicitações da comunidade da qual ele foi constituído pároco e pastor. Mas no dia a dia da missão sacerdotal, ele precisa ser mais do que pastor, porque as demandas são tão variadas, que passam a exigir dele aptidões que estão para além da formação que recebeu no processo formativo.

 Na comunidade paroquial o sacerdote vai ter que lidar com construções e reformas de capelas, administração financeira e contábil, cuidar e zelar por todo o patrimônio paroquial, muitas vezes terá que atuar como psicólogo na orientação dos fiéis, em outros momentos terá que resolver conflitos entre membros das pastorais e lidar com problemas sociais, além é claro, da administração dos Sacramentos, reuniões e formações pastorais. Tudo isso, faz com que o sacerdote, com essa sobrecarga de trabalho, não tenha tempo para cuidar de si, da sua vida espiritual, da saúde mental, do seu lazer e descanso, e em pouco tempo, vai entrar num processo de estresse, esgotamento e desmotivação. 

Depressão  

Outro fator que pode desencadear o suicídio é a depressão. Em todo o mundo, aproximadamente 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofrem com esse transtorno. E o sacerdote, que também é gente, é ser humano, está sujeito a desenvolver esse transtorno mental. Depressão não é ausência ou falta de Deus. Se fosse assim, os padres nunca teriam esse transtorno. Inclusive muitos homens e mulheres de fé que o mundo já viu, tiveram lutas fortes contra a depressão, como por exemplo, São Francisco de Sales e Santa Terezinha do Menino Jesus. No caso específico do sacerdote, a depressão ocorre sobretudo por causa do isolamento, da falta de convivência com os demais presbíteros, não se sentir valorizado e nem realizado no ministério, dependência e conflitos afetivos, desequilíbrio emocional, entre outros. Se o sacerdote não procura ajuda, não dá o grito de socorro diante dessas situações, poderá entrar num quadro de depressão, e consequentemente até chegar ao suicídio.

Cobrança excessiva

O tempo de formação até o sacerdócio ministerial, em se tratando das dioceses, dura aproximadamente oito anos, sendo um ano de Propedêutico, três anos de Filosofia e quatro anos de Teologia. Esse longo tempo vai ajudá-lo a se preparar acadêmica, espiritual e humanamente para estar à frente de uma comunidade paroquial. No entanto, isso não dá ao sacerdote poderes especiais, como se ele tivesse uma varinha de condão, para resolver todos os problemas da comunidade. Muitas vezes a ideia que transparece no meio do povo é que o padre é incansável, e isso é uma grande mentira. Assim como qualquer pessoa, o sacerdote se cansa, tem as suas crises, experimenta dores, enfermidades, sofrimentos, chora, fica triste, tem suas alegrias e realizações. Não se pode esquecer que antes de ser padre, ele é um ser humano. Nesse sentido, os fiéis precisam entender que quando as cobranças se tornam excessivas, elas de nada ajudam. Ao contrário, vão contribuir para gerar um maior desgaste na vida dos sacerdotes.

O que pode ser feito para ajudar os sacerdotes?

O primeiro passo é que cada sacerdote não se esqueça de cuidar de si mesmo. Como diz o ditado popular : ‘Quem gosta da gente somos nós mesmos’. E aqui entra uma importante iniciativa em muitas dioceses, a chamada Pastoral Presbiteral, que visa proporcionar encontros, momentos de formação, partilha e convivência entre os presbíteros, auxiliando-os nesse cuidado permanente da saúde mental. 

Um segundo passo é o envolvimento da própria comunidade eclesial que deve sentir-se responsável no processo de cuidado dos seus sacerdotes. Não é apenas rezar por eles, mas ser presença afetiva, amiga e carinhosa, de forma que esse cuidado proporcione ao sacerdote uma vida mais saudável que o fortaleça na sua vocação e missão. O padre cuida, mas também precisa ser cuidado.  

Um último passo é o cuidado dos bispos com os seus sacerdotes. E deve ser um cuidado paternal, afinal o bispo é pai, e como tal precisa estar atento e ser próximo dos seus filhos sacerdotes, sobretudo quando estes estão passando por situações mais delicadas e de fragilidades na saúde mental.

Assim como Jesus, que foi enviado pelo Pai, e deseja que nenhum daqueles que lhe foram confiados se percam (cf. Jo 6,39), o bispo, o presbitério e o povo, devem fazer o mesmo a fim de que nenhum sacerdote perca a sua vida por falta de cuidado, atenção e amor. Padre, a sua vida também importa!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1544623/2021/10/padre-sua-vida-tambem-importa/

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

No perigo, na solidão: deixar-se abraçar por Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo do Padre Carlos Padilla Esteban


‘Na vida, a generosidade exige renúncia. Renúncia ao próprio desejo, à possessão, a ter tudo, à paz constante, ao descanso permanente, aos meus planos. Amar é renunciar. O amor que não renuncia seca, morre.

O amor que cresce a partir da morte ao próprio eu é um amor fecundo, grande, próprio de um coração que se dilatou, que se tornou enorme no caminho. Um coração capaz de entregar a vida no silêncio, sem buscar aplausos ou reconhecimento. É um coração assim que queremos : um coração livre e pleno.

Santo Inácio rezava :Tomai, Senhor, e recebei / Toda a minha liberdade, a minha memória também. / O meu entendimento e toda a minha vontade / Tudo o que tenho e possuo, vós me destes com amor. / Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo. / Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade. / Dai-me somente, o vosso amor, vossa graça. / Isto me basta, nada mais quero pedir.

Decisões

Em nosso coração são tomadas as decisões mais importantes, e ninguém pode interferir nelas. Decisões nas quais nos entregamos e abandonamos totalmente. Lá, na solidão da alma, nós abraçamos Deus. Lá onde ninguém mais pode entrar, porque é nossa intimidade mais profunda e cálida.

E queremos que o nosso coração seja um lar para Cristo. Nesse lar de paz, poderíamos descobrir seu querer e estar dispostos, assim, a entregar tudo, a renunciar a tudo.

Diante do desconhecido, diante do que não controlamos, temos de olhar para Deus, confiar nele, abandonar-nos em suas mãos, sabendo que Ele nos conduz a um porto seguro.

Na verdade, nossa santidade repercute nos que nos cercam. Somos membros do Corpo místico de Cristo. O bem que fazemos é um bem para os outros. O mal que provocamos é uma ausência de bem.

Nosso amor pode ajudar outras pessoas a amar mais, a amar melhor, a amar mais santamente. ‘O verdadeiro amor é aquele que não diz ‘é suficiente’. A medida do amor é amar sem medidas. Nossa relação mútua deve nos submergir cada vez mais profundamente nesta medida sem medidas, no eterno, no Deus infinito.’

Ato de abandono

Uma vida que ama e é capaz de não dizer jamais ‘Isso é suficiente’ é a vida à qual aspiramos. Uma vida entregue nas mãos de Deus. É o abandono no meio do perigo. Quando nem tudo está garantido, quando nossa vida não está totalmente sob controle. É natural ter medo do futuro, da morte, da cruz. Não é natural viver sem medo.

Ninguém vive sem medo, a não ser por uma graça especial, por um dom sobrenatural, por uma união profunda do seu coração com o coração de Cristo na cruz. Os mártires suportaram o martírio não por falta de medo, mas porque receberam uma graça especial de Deus.

Nós não vivemos sem medo, mas sempre podemos entregar esse medo a Deus para que Ele nos liberte. O medo está na alma e pode nos impedir de avançar.

Hoje somos conscientes dos nossos medos. Sabemos quantas coisas existem em nossa vida que nos inquietam. O futuro, a crise, o medo de doenças : entreguemos tudo isso a Deus, para que Ele sustente nossa vida e nos dê sua paz em meio às tempestades.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2020/12/27/no-perigo-na-solidao-deixar-se-abracar-por-deus/

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A solidão da Quaresma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Robert McTeigue, SJ


‘De todas as dores que Jesus sofreu em sua paixão, qual lhe doeu mais? Eu suspeito que foi a dor no seu coração e na sua alma. Há limites para a dor física. Pode-se desmaiar e assim distanciar-se um pouco da dor. Mas a dor psíquica (isto é, dor de coração e alma) pode ser sem socorro e imensurável. Pode demorar, e a raiva, permanecer por muito tempo após o doloroso acontecimento. A dor psíquica pode infiltrar-se na profundidade da alma e encontrar lugares ocultos para atormentar, alimentar-se e crescer. A dor do coração e da alma pode fazer nascer o isolamento e o desespero.

Revendo os relatos bíblicos da noite de Quinta-feira Santa até Sexta-feira Santa, vejo que a dor psíquica que causou maior sofrimento em Jesus foi a solidão. Em Mateus 26, vemos que seus amigos mais próximos, após prometerem que permaneceriam fiéis até a morte, não ficaram acordados com ele no jardim das Oliveiras, apesar de Jesus ter suplicado várias vezes. Judas o traiu com um beijo, e os outros apóstolos fugiram quando as autoridades chegaram. Certamente Jesus sofreu terrível solidão, permanentemente abandonado por seus amigos e rodeado por aqueles que o odiavam.

Após sua prisão, Jesus se apresentou sem advogado, nenhum aliado, nem mesmo um amigo para assumir a sua causa perante o Sinédrio (a mais alta Corte de Justiça na antiga Jerusalém). Mais uma vez, Jesus está sozinho, separado de qualquer um que possa ter reivindicado a amá-lo. Certamente o coração de Jesus, o coração do amor perfeito, sofreu terrível solidão naquele momento.

Em Lucas 22, lemos que Jesus olhou para Pedro justamente na hora em que Pedro o negou, mesmo Jesus sabendo que ele faria isso – assim como Jesus havia previsto. Certamente não era nenhum consolo para Jesus, apenas que ele estava certo sobre a negação de Pedro.

Em João 19, lemos que Jesus lamenta na cruz, ‘tenho sede’. Não é difícil imaginar que sua sede não seja somente de água, mas de amor, de compaixão e de almas.

Mais pungente de tudo, talvez, encontra-se quando lemos em Marcos 15 Jesus clamando na cruz, seu coração trespassado pela dor do abandono, uma dor tão grande que ele se sente abandonado até mesmo por Deus. Certamente uma dor que não é exclusivamente uma dor física, mas uma dor verdadeira e penetrante de coração e alma.

Por que eu menciono tudo isso? Eu poderia partir das palavras acima e fazer um pedido urgente a caminhar com Jesus nesta Quaresma em sua solidão, sua sede de amor e almas, como rezamos nas estações da cruz ou diante do Santíssimo Sacramento. Tais práticas são sempre louváveis, especialmente durante a Quaresma, mas eu falo da solidão de Jesus com um objetivo diferente.

Sabemos que Jesus sofredor pode ser encontrado em nosso vizinho (Mt. 25, 40). Os santos sempre nos pediram para executar as obras corporais e espirituais de misericórdia para com o próximo por amor a Cristo sofredor. Tais obras são sempre importantes – especialmente durante a Quaresma.

Minha preocupação aqui é alertar para o fato doloroso que facilmente negligenciamos o vizinho mais próximo no qual podemos encontrar Jesus, e que é nós mesmos. A solidão que é inevitável neste mundo caído aflige Jesus em seu coração e alma quando ele habita em nós.

Cada um de nós sente a ferida da solidão de vez em quando; alguns sofrem de solidão por uma temporada; e parece que algumas pobres almas são afligidas pela solidão como uma ferida que se recusa a curar. O que uma agraciada e frutuosa Quaresma seria se vivêssemos a liberdade e generosidade necessárias para encontrar e amar Jesus compassivamente sofrendo dentro de nós, como nós passamos por nossa própria paixão da solidão.

Por que estamos sós? Porque nós somos incompletos – feitos para amizade, amor e plenitude. Mesmo a nossa melhor forma humana seria solitária, pois há um buraco na forma de Deus em nossos corações que não pode ser preenchido nesta vida.

Estamos sós porque a nossa cultura está doente, ensina-nos a amar as coisas e usar as pessoas, nos tornando ídolos de criaturas e objetos na esperança de seduzir nossa solidão. Nossa cultura nos exorta a ser canibais sexuais, alimentando-se de carne humana, enquanto nega-se à alma humana que tem sido feita divinamente para o verdadeiro amor.

Estamos sós porque podemos ter afastado o amor ou bloqueado fora de nós o amor. E nós podemos ser solitários apenas por circunstâncias – vivendo em separação ou alienação, não por nossa escolha.
  
E dentro dessa vida solitária que todos nós enfrentamos, podemos encontrar o Jesus compassivo, o Homem das Dores, esperando por nós. A Quaresma é um tempo privilegiado para promover a liberdade e bondade necessárias para ir ao encontro de Jesus, que se partiu para atender às nossas necessidades. Vamos olhar para Ele e ter com Ele, começando com a dor da solidão dos nossos próprios corações. Vamos agradecer-Lhe por enfrentar sem reservas ou lamentar as nossas necessidades, dores e incompletudes. Através da nossa oração podemos lembrá-Lo que Ele não está sozinho em nós; ao fazer isso, podemos enxergar que nós também não estamos sozinhos. Tal graça surpreendente pode se tornar uma fonte de resistência e esperança, para que fiquemos com Jesus em seu sofrimento, para que possamos regozijar com Ele em sua vitória.’


Fonte :

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A triste ideia de que podemos ser felizes sozinhos


 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 “Eu me basto sozinho”
*Artigo de Vinicius Branquinho,
psicólogo e mestre em educação


Há uma ideia difundida aos quatro ventos de que a felicidade é possível para todos de forma indiscriminada e de que ela é alcançável individualmente. A propagação desta forma de pensar tem uma boa intenção por detrás, de que todos podem ser felizes, que não importa muito o que os outros fazem a você ou como anda suas relações, a felicidade é um caminho individual que com algum esforço e sem ajuda nenhuma você chega lá, só que isso acaba se tornando uma armadilha.

Este ideal se revela no modo de viver de muitas pessoas, e aparenta ser um reflexo e uma defesa das relações desastrosas e inconstantes que todos lidam atualmente, uma justificativa que encarna a falta de comprometimento que as relações encerram. Os jargões mais utilizados são aqueles que dizem : ‘eu não preciso do outro para ser feliz’ ou ainda ‘eu me basto sozinho (a)’.

As relações humanas

É compreensível o sentimento que perpassa este pensamento, as relações humanas beiram ao descartável, uma relação de objeto com objeto e não de pessoa para com pessoa, premissa que o Papa Francisco defende desde o início de seu magistério. A palavra pessoa em sua etimologia, ou seja, na sua origem, significa ‘ser para’, pessoa é aquele que é para o outro e não somente para si mesmo. O amor próprio se tornou a grande meta de cada indivíduo, como se fosse sinônimo de alegria constante, o que esqueceram de contar que o amor com o qual me amo é produto e condição do amor com o qual me sinto e me senti amado.

‘Longe de se referir apenas as relações amorosas, precisamos do outro para ser feliz.’

Realmente, não há a necessidade de se casar, ou de namorar, mas é preciso que na vida se encontre sentido, que em última instância só a relação humana genuína proporciona. No contato com amigos, família, no trabalho, na escola ou universidade, o indivíduo precisa de encontros constantes para o bem viver. O homem e a mulher são seres relacionais, que se constituem socialmente e que precisam de contato para uma alegria verdadeira.

Inclusive os monges que escolhem viver uma vida mais silenciosa o fazem em comunidades. As relações humanas dão sentido à existência e a maneira de me relacionar comigo mesmo tem relação intrínseca de como se configuram os relacionamentos interpessoais que estou envolto, a premissa dita há muito tempo ‘amar para ser amado’ atribuída a São Francisco de Assis é validada psicologicamente e tem uma defesa científica por detrás.

Um ‘nós’

Isso porque na própria subjetividade existe um ‘nós’, e a individualidade que é perpassada pelo outro, se constitui em relação, desde que nascemos até ao morrer nos tornamos seres humanos pelo contato, não existe vida humana fora do aspecto social e o afeto é o laço que constitui e amarra positivamente cada sujeito ao outro. Ser sozinho, portanto, é uma contradição sem fim, porque o verbo ser exige que o outro também seja em mim. E todas as relações humanas estarão orientadas por valores positivos se a relação fundamental do homem, a sua relação com o amor, estiver ordenada.

‘Buscar ser feliz sozinho se assemelha mais a um grito de socorro para que existam relações frutíferas para cada sujeito, relações verdadeiramente humanas que tenham como pano de fundo o compromisso de que fazer o outro feliz é que trará a tão sonhada felicidade, que é mais um processo do que um produto.’

A alegria pede compartilhamento, e ao mesmo tempo é compartilhar que traz alegria, nesta contradição constante entre solidão e partilha que caminha o sujeito atualmente, que a solidão seja apenas um momento de refletir e amadurecer, que seja um instante ímpar de um encontro consigo mesmo e com um Outro maior que produz e dá sentido à vida humana e a partir disso se voltar para o outro alguém melhor

Igreja, uma vida de comunidade

Fica evidente que todos precisam de amigos, vida social e partilha, a Igreja centrada em uma vida de comunidade pode ser esse espaço de encontro e de compartilhar as alegrias e dores da vida.

‘Dividir o tempo, a atenção, o cuidado, faz diferença em tempos individualistas de busca constante de uma felicidade particular que nunca chega, isso porque é sempre idealizada e como a maioria das idealizações, também não está de acordo com a realidade.’

Que possamos colocar em prática isso no cotidiano, para que as relações sejam verdadeiras e humanas, que promovam a alegria que somente a cultura do encontro propicia.’


Fonte :

quarta-feira, 6 de março de 2019

O bem-estar do silêncio e da solidão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo do Padre José Antonio Pagola



Nem sequer no nosso próprio lar, invadido pela televisão e cenário de múltiplas tensões, é fácil encontrar o sossego e o recolhimento indispensáveis para nos encontrarmos conosco mesmo ou para descansarmos alegremente diante de Deus.

Pois bem, precisamente, nestes momentos em que necessitamos mais do que nunca de lugares de silêncio, recolhimento e orações, nós crentes, mantemos frequentemente os nossos templos e igrejas fechados uma boa parte do dia.

Esquecemos o que é pararmos, interromper por uns minutos a nossa pressa, libertar-nos por alguns instantes das nossas tensões e deixar-nos penetrar pelo silêncio e a calma de um lugar sagrado. Muitos homens e mulheres ficariam surpreendidos ao descobrir que, com frequência, basta parar e ficar em silêncio por algum tempo, para acalmar o espírito e recuperar a lucidez e a paz.

Quanto precisamos, os homens e mulheres de hoje, encontrar esse silêncio que nos ajude a entrar em contato com nós mesmos para recuperar a nossa liberdade e resgatar de novo toda a nossa energia interior.

Acostumados ao barulho e à agitação, não suspeitamos do bem-estar do silêncio e da solidão. Ávidos por notícias, imagens e impressões, esquecemo-nos de que só nos alimenta e enriquece verdadeiramente aquilo que somos capazes de ouvir no mais profundo do nosso ser.

Sem esse silêncio interior, não se pode escutar Deus, reconhecer a sua presença na nossa vida e crescer a partir de dentro como seres humanos e como crentes. De acordo com Jesus, a pessoa «retira o bem a partir da bondade que está no seu coração». O bem não brota de nós espontaneamente. Temos que o cultivar e fazer crescer no fundo do coração. Muitas pessoas começariam a transformar as suas vidas se pudessem parar para escutar todo o bem que Deus desperta no silêncio dos seus corações.’


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