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domingo, 29 de outubro de 2023

A solidão ativa e produtiva em Deus, segundo um monge cartuxo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Vitor Roberto Pugliesi Marques


Desde os tempos bíblicos da Antiga Aliança, Deus revelou que Ele se faz encontrar no silêncio e no recolhimento. 

Logo após passar a fio de espada os profetas de Baal, o profeta Elias fugiu para o deserto a fim de salvar a sua vida, pois a rainha Jezabel prometera puni-lo com a morte pelo que fizera aos profetas pagãos (cf. 1Rs 19,1-3). Assim, ele se põe a caminhar por um longo período até o monte Horeb, o monte do Senhor para o povo judeu, para com Ele ter um colóquio. Diante do monte, o profeta Elias vê um vento impetuoso e violento, mas o Senhor não estava nele; vê o estremecer da terra, mas Deus aí não estava; vê um fogo abrasador acender-se, mas também no fogo Deus não se encontrava. Apenas quando veio, então, uma brisa leve é que Elias pôde ir ao encontro de Deus, pois nessa mansidão O encontrou (cf. 1Rs 19,11-13). Exemplos assim não se esgotam nas Sagradas Escrituras, e estão presente na vida de todos os servos fiéis do Senhor, passando pelos profetas até chegar a Nosso Senhor Jesus Cristo, homem do silêncio por excelência. 

Há quem possa pensar que bastaria exclusivamente a solidão passiva para criar a intimidade com Deus. É certo que toda graça vem unicamente de Deus, mas para que possamos nos divinizar necessitamos cooperar com a graça santificante que Deus coloca em nossa alma. Vai nos ensinar um monge cartuxo (optamos por não revelar o nome do escritor por essa ser uma tradição antiga dentro da Ordem Cartuxa) que a solidão que Deus deseja de nós é plenamente ativa e se dá em três etapas que são : a solidão do coração, a solidão da mente e a solidão da alma. Expliquemos cada uma dessas três etapas (cf. Antologia de autores cartuxos: itinerário de contemplação / Por um cartuxo. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 184).

Companhia de Deus

A solidão do coração consiste numa ‘vontade de desapego no próprio coração, que se conserva puro de imaginações e fantasias incontroladas, assim como dos próprios afetos e desejos para sentar-se espiritualmente aos pés de Cristo’ (idem). Quantos são os que se colocam, em seus quartos, para terem um momento a sós, mas, em vez de nutrirem a companhia de Deus, enchem-se de devaneios bobos e pensamentos despropositados! A solidão da mente, conforme o autor cartuxo, é, por sua vez, o ‘esforço da vontade para não perturbar nossos diálogos com Deus com pensamentos maus, vãos e inúteis’ (ibidem). É certo que manter-se em meditação e com foco é papel árduo até mesmo para os mais experimentados na oração, mas tendo o propósito de manter-se focado em Deus, nossa própria inteligência vai iluminando os modos de fazê-lo, iluminada certamente pela graça. Caso o demônio veja cumprir o seu papel de tentador, uma boa estratégia é trazer isso para Deus dizendo, por exemplo : ‘olha isso, Senhor, até mesmo o demônio vem em meu auxílio, mostrando-me com suas tentações de que preciso mais e mais de Sua graça. Dá-me ela nesse momento então’. Por fim, a solidão da alma é o ‘desapego do amor próprio, estar vigilante a respeito das próprias opiniões ou juízos demasiados pessoais’. Trata-se, em certa análise, da Via Unitiva da caminhada de santificação, onde o homem equipara a sua vontade à vontade de Deus em sua vida. 

Vemos, assim, que a solidão em Deus é altamente ativa da nossa parte. Agindo desse modo, pouco a pouco, sentiremos ‘diminuir em nós o peso da nossa natureza corrupta; logo chegaremos ao feliz esquecimento das coisas do mundo. E se esse exercício pode, de momento, ser austero, dá, no entanto, aos que a ele se aplicam o fruto de uma imensa paz, um fruto de salvação e consolação interior’ (ibidem). 

Que saibamos entender, tal como nos ensina as Sagradas Escrituras, que ‘[Deus] está no meio de nós, entretanto longe de nossa agitação’ (cf. Antologia de autores cartuxos: itinerário de contemplação / Por um cartuxo. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 187). E para O escutarmos, temos, de modo ativo, expiar o ruído que cerca a nossa alma.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2021/06/23/a-solidao-ativa-e-produtiva-em-deus-segundo-um-monge-cartuxo/


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Como os monges mais silenciosos do mundo encaram a própria morte

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Francisco Vêneto


Os cartuxos cavam as sepulturas que acolherão os corpos da comunidade, as quais não trazem identificação nenhuma. 

‘Pensar na própria morte é uma sábia recomendação da espiritualidade cristã desde os seus primórdios, pois, necessariamente, pensar na morte envolve pensar nesta vida e na futura. Poucos cristãos, porém, parecem praticar esta recomendação tão a fundo quanto os monges cartuxos.

O jornalista francês Nicolas Diat, diretor de coleção da prestigiosa editora Fayard, é autor de um livro excepcional sobre o fim da vida nos mosteiros, ‘Un temps pour mourir’, ou ‘Tempo para morrer’, lançado em francês pela mesma casa editorial. Diat, diga-se de passagem, também assina quatro livros em parceria com o cardeal Robert Sarah, ex-prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos : ‘Deus ou nada’ (2015), ‘A força do silêncio’ (2016), ‘A noite se aproxima e o dia já declinou’ (2019) e ‘Do profundo de nosso coração’, este último com a participação de ninguém menos que o Papa Emérito Bento XVI.

Quem tem tempo para morrer?

Em ‘Tempo para morrer’, Diat relata as visitas que fez a oito mosteiros masculinos contemplativos franceses para tentar entender como o monge cristão enfrenta o mistério da morte e que tipo de mensagem os mosteiros podem transmitir ao homem ocidental pós-moderno, tão despreparado para lidar com a morte em geral e com a própria morte em especial.

Entre as famílias monásticas mencionadas na obra aparece a dos cartuxos, monges de rígida vida de clausura, cuja ordem fundada por São Bruno há quase mil anos é conhecida como a mais austera e silenciosa da Igreja Católica.

Como os cartuxos encaram a própria morte

Numa passagem do livro que tem sido compartilhada por diversas páginas católicas, Diat afirma que ‘os cartuxos não têm medo de deixar este mundo’. Ele comenta, para exemplificar, que o cemitério dos mosteiros cartuxos fica em pleno claustro central, o que faz com que, todos os dias, desde o noviciado, a comunidade precise caminhar por ali a fim de chegar à igreja. Quando morre um cartuxo, prossegue o relato, toda a comunidade se reúne na cela do falecido para recolher o corpo e conduzi-lo em procissão até a igreja, em cujo coro os monges oram por sua alma ao lado do corpo deitado ao chão.

‘O verbo ‘enterrar’ assume todo o seu significado’

As sepulturas do cemitério são cavadas pelo próprios cartuxos e a elas são descidos os corpos presos apenas a uma simples tábua. Como o cemitério não é grande, os monges reacomodam com as próprias mãos os crânios e ossos das sepulturas mais antigas, a fim de abrir espaço para os corpos de quem faleceu mais recentemente. Diat acrescenta que, tradicionalmente, quem segura a cruz processional e a coloca ao pé da sepultura é o noviço que entrou por último no mosteiro, de modo que é ele quem vê de mais perto o corpo do falecido e o capuz baixado sobre a sua face – face que, aliás, conforme antigas diretrizes da cartuxa que remontam ao início do século XII, fica voltada para a igreja conventual. O noviço que portou a cruz processional tem ainda a oportunidade de observar com mais nitidez a tarefa dos quatro cartuxos a quem o prior escolheu para jogarem as pás de terra sobre o corpo do irmão falecido, gesto com o qual ‘o verbo ‘enterrar’ assume todo o seu significado’. A comunidade aguarda até que a sepultura seja toda preenchida de terra.

A passagem para a vida eterna deve ser celebrada

Nicolas Diat registra que, desde a fundação da ordem cartuxa, os dias de funeral são vividos como celebrações pela comunidade : caso sejam dias de jejum, o jejum é cancelado; caso sejam dias ordinários, os cartuxos almoçam juntos no refeitório em vez de sozinhos na própria cela, e, à noite, agora sim cada um na sua cela, fazem outra refeição completa em vez de jantarem frugalmente. Depois do sepultamento, eles se reúnem na sala capitular e ouvem do prior um sermão que recorda a vida do falecido. Segue-se então um tempo de recreação em que os próprios monges, normalmente observantes do silêncio absoluto, conversam sobre o irmão que acaba de partir para a eternidade. Eles também podem entrar na capela dos mortos para meditar sobre a própria morte junto aos ossos dos primeiros cartuxos, dos séculos XI e XII. A essa mesma capela, nos dias de caminhada ao ar livre, os monges se dirigem para rezar antes de rumarem às trilhas da montanha.

Túmulos sem nome

As sepulturas do cemitério cartuxo não trazem nome algum. De um lado, as cruzes finas e pretas de madeira indicam os túmulos de padres e religiosos, enquanto, do outro, cruzes de pedra apontam ‘a última morada terrena dos priores’. Tanto na vida quanto na morte, os cartuxos escolhem desaparecer completamente aos olhos do mundo – e, após a própria morte, também aos olhos dos próprios irmãos. É tamanho o anonimato que, ao passar do tempo, a comunidade acaba incapaz de informar com precisão qual é o túmulo de um determinado monge em seu cemitério. Os cartuxos, observa Diat, morrem sem deixar vestígios : ‘o esquecimento se segue imediatamente à morte’.

Dois relatos impactantes

O jornalista francês acrescenta dois relatos impactantes sobre o quanto os cartuxos se devotam a Deus a ponto de desaparecerem de modo praticamente absoluto aos olhos do mundo.

Diat escreve que, no século XIX, os monges de uma cartuxa cavavam uma cova quando acharam o corpo de um companheiro sepultado havia décadas, mas ainda perfeitamente preservado. Eles foram de imediato avisar ao prior, que, sem pestanejar, determinou : ‘Fechem a sepultura, cavem próximo dela e não contem sobre isto a ninguém’.

Antes ainda, no século XVII, começaram a contar-se milagres ocorridos junto ao túmulo de um irmão que morrera com fama de santidade e fora sepultado no cemitério da antiga cartuxa de Paris, local ocupado hoje pelos Jardins de Luxemburgo. O prior do mosteiro foi então até o local e ordenou ao falecido : ‘Em nome da santa obediência, eu te proíbo de fazer milagres’. Nicolas Diat finaliza : ‘Os fenômenos extraordinários cessaram imediatamente’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/01/03/como-os-monges-mais-silenciosos-do-mundo-encaram-a-propria-morte/

sábado, 8 de janeiro de 2022

Por acidente, monges cartuxos ajudaram a criar a indústria de perfumes

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Daniel R. Esparza 


‘Carthusia Perfumes é uma marca de perfumes exclusiva com sede em Capri, no Mar Tirreno. Em 1948, o então prior do mosteiro cartuxo de Saint Giacomo (o mais antigo de Capri, construído em 1371), descobriu algumas fórmulas de perfume antigas que haviam sido guardadas na biblioteca do mosteiro por séculos.

Com a permissão do Papa Pio XII, o prior entrou em contato com um químico da região de Piemonte, na Itália, e juntos criaram o que era então o ‘menor laboratório de perfumes do mundo’. Até hoje, eles ainda fabricam seus perfumes à mão, seguindo estes antigos procedimentos monásticos.

Este trabalho delicado remonta ao século em que o mosteiro foi fundado. Alguns anos após o término do mosteiro, em 1380, o prior foi pego de surpresa com a notícia de que a rainha que doara o terreno do mosteiro, Giovanna de Angiò, iria até lá para uma visita oficial. O prior então correu para fazer um arranjo floral, com as flores mais bonitas da ilha, para recebê-la.

Quando a rainha foi embora, enquanto as flores eram jogadas fora, o prior notou que sua água (que não era trocada havia três dias) adquirira uma fragrância desconhecida para ele. Ele levou a água até um monge botânico, que estudou a fórmula. Essa água, segundo a história, tornou-se o primeiro perfume de Capri.

Além disso, outra lenda diz que foi um monge cartuxo em 1792 que fez um perfume como presente de casamento para um comerciante alemão : uma receita secreta para uma ‘água milagrosa’ (‘acqua miralibilis’) considerada boa tanto para uso interno quanto externo. Com a receita, este comerciante estabeleceu uma pequena fábrica em Colônia (Alemanha), vendendo a primeira ‘Água de Colônia’, Eau de Cologne.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2019/10/25/por-acidente-monges-cartuxos-ajudaram-a-criar-a-industria-de-perfumes/

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O Natal do silêncio e da oração

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Ricardo Perna, 

jornalista

 

Na clausura, tudo se faz de forma diferente


‘No Mosteiro da Cartuxa, em Évora, o Natal é diferente. Em silêncio e contemplação, os monges vivem este tempo de festa com tanto ou maior entusiasmo que as famílias que se reúnem. A FAMÍLIA CRISTÃ esteve lá, visitou a clausura e conta-lhe a história de um Natal diferente do habitual.

Se alguém lhe dissesse que os seus ingredientes de um Natal perfeito eram jejum, oração prolongada e silêncio, acharia estranho? Pois bem, era muito pouco provável que, de fato, alguém lhe dissesse isso, pois é possível que os únicos que utilizam esses ingredientes sejam monges e vivam em clausura no Mosteiro Cartuxa Scala Coeli, em Évora (e noutros mosteiros que a congregação tem em todo o mundo) e não têm contacto com ninguém.

Os monges da Cartuxa serão, provavelmente, os mais radicais na escolha da forma de passar o Natal. Jejum, oração e silêncio parecem estranhos a quem pensa no Natal como a festa da família, quando todos se reúnem à volta da mesa para festejar, ou vão juntos à Missa do Galo, que é uma celebração alegre e de ação de graças. Mas fazem todo o sentido. «Por ser, para nós, um dia de festa tão importante, pede-nos uma união maior com Deus e portanto passamo-lo em silêncio e oração. É uma vivência tão forte da liturgia e da união com Deus que não nos dá vontade de falar», diz-nos o Pe. Antão Lopez, superior da comunidade da Cartuxa, monge há 60 anos, 50 deles passados ali, em Évora.

Num mosteiro em que se divide o dia em três partes idênticas (oito horas cada) de descanso, oração ou leitura e trabalho, as festas maiores da Igreja são celebradas com ainda mais empenho e oração. Existem, na Cartuxa, três momentos comunitários : uma oração à meia-noite, missa pela manhã e oração de vésperas pela tarde. Comunitários, mas em silêncio, que o convívio entre os monges apenas acontece aos domingos, depois da missa dominical e durante o almoço.

No Natal, no entanto, o processo é ligeiramente diferente. O dia 24 é de jejum a pão e água, «em memória da morte de Nosso Senhor», como o é todas as sextas-feiras ou vésperas de dias santos. À noite, pelas 23 horas, começa a Missa do Galo, conforme é mais vulgarmente conhecida, e as orações prolongam-se por cerca de quatro horas, ao que se segue o descanso. No dia 25, segue a festa da celebração do nascimento de Jesus, mas sempre em silêncio, com as orações das horas intermédias a serem rezadas nas celas. «Temos muita liturgia, mas não temos convivência neste dia, a não ser com Deus», explica-nos o Pe. Antão.

Esta convivência mais comunitária surge apenas dia 26. «No dia 26 é como se fosse domingo. Comemos juntos ao almoço e ficamos durante a tarde em convívio até ao lanche, que também partilhamos em conjunto, ao contrário dos domingos normais», conta o Pe. Antão. Um processo que deixa espantados os noviços, e as próprias famílias dos monges, que «reclamam» destas regras, comenta o Pe. Antão, divertido. «Os noviços estranham, mas quando nos sintonizamos com a nossa oração, eles compreendem e faz sentido. Já as nossas mães reclamam muito (risos)», confidencia o sacerdote espanhol, que conta que nesta altura do ano não há visitas nem comunicações. «Nós renunciamos à nossa família de sangue, e não os visitamos, são eles quem nos visita. Este é um dos maiores sacrifícios que os jovens que entram na Cartuxa sentem, e na altura do Natal mais um pouco. O Natal vive-se na Cartuxa em família. Dia 24 estamos em família em oração, dia 25 gostamos de estar em silêncio a falar com Deus, e 26 estamos juntos, mas sem a família de sangue. Até procuramos evitar que venham nesta altura, vêm mais no verão, até porque seria complicado ter aqui todas as famílias, e nós não queremos ‘perder’ esse tempo, já que queremos estar em oração. Mas sabemos que é doloroso, por outro lado, passar esse tempo sem eles», diz.

Um isolamento nem sempre isolado por causa da fé das pessoas

O Mosteiro da Cartuxa não está aberto a visitas. Se por um lado é essencial que assim seja, para preservar o isolamento em que os monges resolveram viver, por outro é uma pena que não se possa sentir a paz e o silêncio retemperador que ali se vive, conforme testemunhou a reportagem da FAMÍLIA CRISTÃ. Os corredores vazios e o silêncio que penetra no espírito elevam a alma. Cheios deste espírito de Deus, os monges nem precisam de trocar prendas no Natal. A oração é o presente de Deus e o convívio, o presente que oferecem uns aos outros os cinco monges que ali vivem. «Não trocamos prendas, somos comunistas (risos). Temos na cela apenas o que precisamos, e não temos nada para dar a ninguém. Entre nós não somos sequer ‘proprietários da bengala que usamos’, diz a nossa Regra de vida, e por isso o convívio e a conversa é o presente que trocamos uns com os outros», conta o Pe. Antão.

Mas isso não significa que o Natal não seja marcado por gestos externos. «No dia de Natal enfeitamos mais a igreja e temos um presépio grande», conta o Pe. Antão, que recorda um monge português, antigo jogador do Sporting, que, «por ser negro, colocava Baltazar, o Rei Mago negro, sempre à frente dos outros dois». «Fazemos um grande presépio e vamos avançando os Reis Magos um pouco cada dia. Só no dia 6 de janeiro é que são colocados frente ao Menino Jesus», diz o sacerdote e monge.

Este isolamento dos monges da Cartuxa não significa um corte com o mundo de fora. Seria impossível, a avaliar pela quantidade de telefonemas, cartas e pedidos que recebem. O Pe. Antão celebra semanalmente uma missa numa capela do mosteiro que está fora da clausura e que tem sempre «cerca de 30 carros parados à porta», com amigos, vizinhos e pessoas que vêm de longe porque «gostam da simplicidade de uma missa toda rezada».

De fora vêm também muitas prendas na altura do Natal. «Doces, comidas, oferecem-nos até demais para nós. Recebemos muito porque os amigos se lembram de nós», reconhece o superior do mosteiro da Cartuxa. Prendas, mas intenções de oração também. «Como superior, que atende também o telefone, esse é um assunto para mim comovente. Ao contrário de outros mosteiros da Cartuxa, aqui há muita religiosidade popular e muito pedido de oração, por telefone, carta ou e-mail. Pedem que reze pelo filho que tem o casamento em crise, ou o marido que está a morrer, nem se identificam, por vezes. Rezamos por todas as intenções que nos são pedidas, nas várias missas que temos. E algumas pessoas ligam-nos mais tarde a falar sobre o que sucedeu e como a graça foi atingida. Tínhamos um padre de Lisboa que nos encomendava muitas intenções da sua paróquia, e depois ligava-nos sempre a dizer como tinham corrido as coisas», diz o Pe. Antão, que acrescenta que «não precisamos do feedback, porque sabemos que Deus nos escuta, mas é sempre agradável receber essas notícias». No Natal, não há intenções especiais. «São as mesmas de todo o ano. Mas ligam-nos muitas vezes para desejar um Feliz Natal», conta.

Em silêncio e contemplação, o Natal tem um sabor tão igual para estes monges como para as famílias que se reúnem em festa ruidosa. O Deus Menino nasce para todos, e cada um vive essa festa ao seu jeito particular. E você que nos lê, como escolhe viver o seu Natal?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2014/12/23/o-natal-do-silencio-e-da-oracao/

https://pt.aleteia.org/2014/12/23/o-natal-do-silencio-e-da-oracao/2/

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Piadas católicas : o absoluto silêncio dos monges

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 

 *Artigo da Redação da Aleteia


‘Um jovem acomodado, mas insatisfeito com o seu mundinho fútil e desregrado, decidiu largar tudo e entrar num mosteiro de intensa vida contemplativa e rígido silêncio absoluto.

 No primeiro dia, o prior lhe explicou uma das regras disciplinares mais importantes da comunidade : ele não poderia falar absolutamente nada, com ninguém – só com Deus. Haveria unicamente uma exceção : de 10 em 10 anos, ele poderia comunicar-se com o prior durante um máximo de 10 segundos.

 Passados 10 anos de completo silêncio, o prior indicou que o monge poderia falar com ele durante 10 segundos. O monge então comentou :

 Padre, tenho fome’.

 Exortado a oferecer o jejum em sacrifício a Deus, ele retomou os estudos e o trabalho em silêncio absoluto.

 Passados outros 10 anos de silêncio profundo e inquebrantável, o prior voltou a indicar ao monge que ele poderia falar durante mais 10 segundos. O monge disse então :

 Padre, tenho frio’.

 Convidado a abraçar de coração a abnegação e a disciplina da vontade, o monge retomou o seu intensamente silencioso trabalho e estudo.

 Mais 10 anos se passaram e, conforme a tradição, o prior chamou o monge para lhe falar durante os 10 segundos autorizados para aquela década. E o monge declarou :

 Padre, eu desisto!

 O prior balançou a cabeça e respondeu :

Eu sabia que isso acabaria acontecendo. Nos últimos 30 anos, só ouvi você reclamar!

 * * *

 Piadas à parte, a vocação à vida contemplativa pode mesmo parecer ‘absurda’ para muita gente em nossa sociedade doente de barulho e caos. Não é, certamente, uma vocação comum – mas sabemos que ‘o Espírito sopra onde quer’, e entender um pouco mais dessa vocação misteriosa e intrigante pode nos revelar maravilhas sobre o chamado de Deus à alma. Uma das ordens religiosas que mais prezam o silêncio contemplativo é a dos cartuxos, cujos mil anos de existência continuam despertando assombro e fascínio :

 Cartuxos: a fascinante ordem religiosa mais austera e silenciosa do mundo 


Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2018/02/22/piadas-catolicas-o-absoluto-silencio-dos-monges/?fbclid=IwAR3WFSUVWS9IOVRScpmoQ_-_ULGziaaNTyrg8YPH2a-OMFjaePxWdu_Isl8

 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Clausura cartuxa : uma vocação que estarrece e choca o mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Não é possível, sem a ajuda de uma graça especial, procurar definir o espírito de uma das grandes Ordens da Igreja, cujos interesses são os interesses de Deus. Nenhum homem está à altura de falar sobre eles – e a tarefa se torna ainda mais difícil quando essa Ordem é contemplativa, fiel há nove séculos à sua clausura rigorosa. A sua vida secreta, para se revelar, precisa de uma resposta interior. Para falar da vocação cartuxa, seria preciso, acima de tudo, tê-la seguido até à perfeição : e é com vergonha de ter feito tão pouco que escrevemos estas linhas.

Por mais que se pretenda exprimir a intenção que anima a vida dos cartuxos e das suas religiosas, devemos fazê-lo nos termos mais simples. As nossas almas são esposas de Jesus Cristo se respondemos ao seu chamado : o nosso ideal é fazê-lo e viver unicamente em união com Ele. Esforçamo-nos por atingir este fim pela vida sacramental e litúrgica, pela oração, pela obediência, pela mortificação e pelo esquecimento de nós próprios, na solidão e segundo os costumes da Ordem cartuxa. Sabemos e sentimos, na medida em que Deus o quer, que Ele está desejoso de completar sem demora esta união dos espíritos e dos corações, desde que afastemos os obstáculos. Estes obstáculos reduzem-se a um : o apego a nós próprios, de que só o amor divino pode libertar-nos.

Esta definição é certamente elementar : muitos estranharão encontrar nela tão pouca doutrina e tão poucas características específicas. Contudo, esta simplicidade é necessária : é a primeira característica da espiritualidade cartuxa, e lamentamos ter de explicar estas palavras, pois não acrescentaremos nada à sua substância e receamos até enfraquecê-las com o comentário.

Os monges e as religiosas cartuxas, ocupados em servir a Deus nos seus eremitérios, nunca formaram uma escola nem se agruparam à volta do nome de um mestre : não têm nenhum autor célebre cuja obra fixe as linhas do seu desenvolvimento espiritual e lhe dê a forma que há de ser depois imitada. Mas não é só pela sobriedade das formulações teóricas que parece ter ficado reservado um lugar para um impulso silencioso do espírito; a virgindade é uma característica essencial da espiritualidade cartuxa : tudo, nesta Ordem, protege a vida espontânea da alma e a reserva para Deus.

É este o sentido da solidão, a que nós observamos, e que tanto impressiona os estranhos. Abandonamo-nos a Deus e é unicamente d’Ele que nos esforçamos por viver. Esta solidão, no seu aspecto social, é de resto suavizada pela regra :   entre nós relações de família; estamos unidos uns aos outros por uma profunda amizade, como irmãos e irmãs da mesma ordem. No entanto, estas relações e esta amizade só têm sentido na medida em que nos podem ajudar na fidelidade à solidão, medindo-a pelas nossas forças e pondo-a à prova para que ela não perca o seu caráter sobrenatural. Estar só, em certo sentido, é morrer para o homem : é por isso que, muitas vezes, depois de o terem tentado, alguns o consideram um empreendimento desumano. Contudo, a alma foi feita para Deus, e qualquer outro objeto fecha o coração e o espírito dentro de limites que o asfixiam. Privá-la da solidão, como o mundo parece atualmente determinado a fazer, é fazer-lhe uma violência que, com mais propriedade, se pode chamar desumana. A solidão com Deus é um ideal a que todas as almas devem tender : o claustro apenas o atinge num movimento mais decidido e mais direto. Na verdade, não há outra companhia além de Deus : o coração que não a descobriu passará ainda por muitas provas e só no caso de se conservar leal é que atingirá essa evidência, não com tristeza resignada, mas com profundo júbilo.

A vida cartuxa também se define pela sua atividade interior : esta Ordem é, dentro da Igreja, a que mais totalmente se dedica à contemplação. Esta palavra parece ter uma singular virtude, que fascina uns e inquieta outros. Criticou-se já o seu emprego, de resto antiquíssimo : não é verdade que há homens incapazes de ‘ver’, de ‘contemplar’ interiormente seja o que for, por mais zelosos e religiosos que possam ser? Devemos responder, em nossa opinião, que esta palavra foi escolhida providencialmente para designar a atitude de uma alma-esposa, ainda que ela esteja longe de estar inundada de luz. Os espíritos que amam a verdade divina a contemplam, e esse ato deve ser o único que a alma bem-aventurada fará no céu. Mas esse aprendizado, aqui na terra, se faz no meio do sofrimento e das trevas da fé : é por isso mesmo que ela é sacrifício, purificação eficaz e testemunho insigne de caridade. Pode-se contemplar nas tribulações e na aridez, no trabalho e nos cuidados com o próximo, e até mesmo nas tentações e nas distrações involuntárias; a única coisa que importa é que a alma se mantenha voltada para o Senhor invisível e opere de acordo com esse olhar. A experiência do amor deve levá-la a entender o valor que ela dá à contemplação do seu objeto, tanto nas trevas como na luz, e o puro pressentimento da visão que anima a sua fidelidade : na verdade, é-se contemplativo na medida em que se ama.

Que este esforço pode ser coroado já nesta vida por uma perfeita união com o Esposo, acreditamos firmemente, pois, na verdade, nada se interpõe entre Deus e a alma. Mas essa união é, por sua natureza, secreta : ela implica o respeito do silêncio em que o Espírito a prepara e mantém.

O segredo é, de resto, uma das características de toda a vida cartuxa : monges e freiras encontram nele o fresco refúgio em que germinam as flores eternas. Como passamos na igreja uma parte das horas noturnas, esforçamo-nos por santificar por meio da oração o coração da noite; assim, a nossa existência, longe dos olhares do mundo, imita a vida oculta do Senhor, a que Ele viveu no seio de Maria e durante os trinta anos que prepararam a salvação do mundo. Abandonando uma sociedade em que cada um, como é natural, procura aparecer, os cartuxos e as religiosas cartuxas esforçam-se por desaparecer, esperando que a verdade aceite esta prova. Um dos patronos da nossa Ordem, cujo nome vem incluído na nossa fórmula de profissão, é João, o Precursor, o profeta solitário que procura apagar-se para que brilhe aos olhos de todos a luz do Verbo.

O papel da mulher, em particular o da virgem, como já foi observado mais de uma vez, compreende de século para século uma viva afirmação de pudor : ela sente a si própria como um véu que protege essas reservas sagradas que se devem conservar puras, para que nunca sequem na terra as fontes da vida e da beleza; isto é verdadeiro num sentido muito especial para as virgens enclausuradas e consagradas, que se cobrem com um véu à imitação de Maria, para guardar e alimentar dentro de si a vida divina. É por isso que as nossas monjas não parecem ter-se ligado à nossa Ordem por mero acaso, mas sim por uma disposição providencial, para que o espírito desta mesma Ordem fosse claramente manifestado nas suas características essenciais e para que a nossa resposta à mesma vocação fosse para nós um mútuo encorajamento, uma confirmação recíproca da graça comum pela qual nos sentimos gratos para sempre.

Não se poderá esconder, num esboço do ideal cartuxo, a presença constante da cruz : abandonar o mundo é doloroso para o coração; a solidão, por mais preciosa que seja por si, é um sacrifício quotidiano para a nossa natureza pecadora; a obediência, a pobreza, por mais sabiamente proporcionadas que estejam com as forças humanas, não podem ser aceitas e vividas sem uma agonia da vontade própria. Se o entusiasmo do amor não acende na alma uma fagulha de heroísmo, não se aceitarão por muito tempo estes deveres de padre cartuxo ou de irmão converso, nem os de esposa ou de mãe espiritual. Eles pressupõem que foi ouvido o chamamento de Cristo : ‘Se alguém me ama, tome a sua cruz e siga-me’. Não há verdadeira vida interior sem uma paciência infinita, e, se a vida do convento não é uma vida interior, é um cativeiro singularmente infeliz. A graça não há de faltar a quem quiser ouvir esse chamamento, mas, se não houver uma fidelidade quotidiana, toda a graça será estéril e perdida.

As dádivas mais puras do Espírito, os dons da fé, da intuição e da união, que são alegria, têm, contudo, necessidade da solidão, do silêncio e da cruz : a sua realidade se desvanece numa vida demasiado cômoda, assim como numa expressão demasiado fácil. A reclusão austera e os sofrimentos que comporta são bem-vindos para o contemplativo : quando lhe faltam, a alma tem a consciência de que perde um amparo precioso e que lhe seria prejudicial ver-se privada dela durante muito tempo.

Não insistiremos mais sobre este aspecto da nossa vida : a vida cartuxa é uma escola de paciência. Exercida em união com Cristo, na submissão à regra e na fidelidade à solidão, a paciência purifica a alma, vai gastando lentamente o amor-próprio e nos obriga a entregarmo-nos a Deus. O nosso Ministro Geral, D. Inocêncio Le Masson († 1703), diz que a cartuxa é ainda uma escola de caridade (no estilo do seu século, ‘uma academia de caridade’) : este ponto é, de fato, o centro da nossa comunidade religiosa, o seu princípio e o seu fim. Os sacrifícios de que acabamos de falar, o abandono e a renúncia, têm como única razão de ser a caridade que manifestam, como vem declarado nos nossos Estatutos.

A única coisa que se faz nos nossos conventos é amar a Cristo com todas as nossas forças: sabemos que a abundância deste divino amor nos será dada se formos fiéis e se derramará sobre todas as almas que dele necessitarem. Não há um único cartuxo que não se considere, neste sentido, missionário; não há nenhuma virgem cartuxa que não tenha o sentimento da sua maternidade espiritual e não possa dizer com Cristo : ‘O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, me enviou a sarar os contritos de coração, a anunciar aos cativos a redenção e aos cegos a vista, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição’ (Lc 4, 18-19).

O ofício divino e o canto coral são a expressão do amor que a própria Igreja, Esposa de Cristo, nos põe na boca, encarregando-nos oficialmente das suas declarações, dos seus juramentos e dos seus louvores. A caridade que deve ser a vida do claustro se manifesta, por outro lado, entre os membros do mesmo mosteiro tanto por um esforço contínuo de delicadeza e de compreensão quanto pela comunhão dos corações saciados na mesma fonte. Este ideal nem sempre é atingido na sua perfeição : no entanto, é realizado de modo mais constante do que o mundo julga, e a fraternidade monástica, sóbria de expressão, alimentada de silêncio, é um amparo precioso para a alma na sua peregrinação interior.

Parece-nos, muitas vezes, que as pessoas do século, entre as quais se fala de amor e de amizade, poderiam tirar proveito da experiência das nossas comunidades : na verdade, nenhuma afeição pode perdurar se não for garantida por uma vontade quotidiana e pela prática da renúncia, que lhe permite encarar de boa vontade todas as dificuldades; nenhum amor poderá viver se não estiver pronto a sacrificar até as suas próprias alegrias. Quem não reconhece estas verdades não sabe amar como se ama na cartuxa – e não acreditamos que saiba amar em qualquer outro lugar.

Inocêncio Le Masson, que faz da cartuxa ‘uma academia de caridade’, vê também nela o que parecerá talvez ainda mais estranho : ‘uma academia de liberdade’. Basta, no entanto, ter a experiência de um noviciado cartuxo para saber que a primeira impressão é a que está reduzida no salmo 123 : ‘O laço foi quebrado e nós ficamos livres’. O espaço interior, na verdade, é infinitamente mais vasto que aquele que nos rodeia : o que mantém o homem cativo é o amor ansioso pelos bens transitórios, a ambição estreita, a preocupação paralisante com o que os homens podem dizer ou pensar de nós; numa palavra, o amor-próprio em todos os seus aspectos. A resolução sincera de acabarmos com as suas exigências, de passarmos a tratar-nos com sábio desprezo, com justa ironia, é comparável ao levantar de um peso sob o qual mal podia bater o coração. Os votos não fazem mais do que romper as amarras. O caminho da liberdade não é o dos êxitos exteriores : pelo contrário, desce até ao mais secreto da alma, até ao fundo divino em que o espírito está atento à verdade que nos liberta (Jo 8, 32). Esta liberdade se desenvolve; é como uma descoberta sempre nova, à medida que cresce a intimidade com Deus, à medida que ela reconhece a sua presença imediata e lhe permite viver nela.

Deus é mais amável do que se pensa e mais fácil de conhecer do que se julga. Amá-lo e conhecê-lo são duas graças intimamente ligadas : não se faz nenhum progresso no amor que não torne mais firme a certeza em que se baseia o equilíbrio e o voo do espírito. Amar e contemplar na solidão cartuxa leva a alma a esquecer-se cada vez mais de si própria, até que a transparência do espelho interior permita que Deus se reproduza e repouse nela completamente. Terá sido então cumprido o grande mandamento : ‘Dai a Deus o que é de Deus’; isto é tudo. As perguntas e as respostas se baseiam num cântico único de louvor, a união é consumada em silêncio para além das nossas medidas; a esposa pertence ao esposo : a liberdade foi conquistada.

Possa o Espírito ser ouvido melhor! Que os corações generosos sigam Jesus sem medo do deserto! E que os que ousaram fazer este esboço do ideal cartuxo, ajudados pelas orações dos seus leitores, possam vivê-lo mais fielmente, para a sua própria salvação e de todas as almas. ‘Venite et bibite, amici : inebriamini, carissimi!’ – ‘Vinde, amigos, e bebei na fonte, embriagai-vos, caríssimos!’ (Ct 5, 1).’

           
Fonte :

Extraído de ‘Intimidade com Deus’, por um cartuxo anônimo, via blog A Grande Guerra

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Cartuxos : a fascinante ordem religiosa mais austera e silenciosa do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Carthusian at La Grande Chartreuse, creating a habit for a new ...
Monge Cartuxo


‘Numa passagem do seu livro ‘A Estrela dos Reis Magos’, o educador brasileiro Julio Cesar de Mello e Souza, muito mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, comenta que há na cidade espanhola de Burgos um pequeno mosteiro cartuxo em cuja igreja expõe-se uma imagem do fundador, São Bruno, aclamada como obra de rara perfeição. Quem observa a imagem tem a impressão de estar em frente a uma figura viva.

Conta-se que, certa vez, um viajante visitou a igreja e, ao dar de rosto com aquela admirável imagem de São Bruno, foi incapaz de conter a admiração :

– É perfeita! Só falta falar!

– Engana-se o senhor – respondeu, respeitoso, o monge que o guiava – Esta imagem é perfeita precisamente porque não fala.

A inspirada e singela anedota evoca um dos traços mais marcantes e fascinantes do monge cartuxo.


A Cartuxa

A Ordem dos Cartuxos, também conhecida como Ordem de São Bruno, foi fundada em 15 de agosto de 1084, solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. É uma ordem religiosa católica semi-eremítica de clausura monástica e orientação puramente contemplativa : daí o silêncio absoluto como característica dessa vocação particularmente austera.


O nome

O nome peculiar, ‘cartuxos’, vem da região onde os primeiros monges da ordem se instalaram : uma montanha ao norte de Grenoble Chartreuse, na comuna francesa de Saint-Pierre-de-Chartreuse, em Isère. O nome francês ‘Chartreuse’ era traduzido ao latim medieval como ‘Cartusia’, e daí derivam, em português, as palavras ‘Cartuxa’, para indicar tanto a ordem quanto cada um dos seus mosteiros, e ‘cartuxos’, o termo que se refere aos monges. A ‘Grande Cartuxa’ (‘Grande Chartreuse’, que se vê na foto abaixo) é a casa-mãe da ordem, situada na mesma região francesa da fundação.

 Quanto ao nome ‘Ordem de São Bruno’, ele vem, evidentemente, do nome do santo fundador.



O governo cartuxo

Assim com a Ordem de Cister (dos monges cistercienses, fundada por São Bernardo de Claraval), a Cartuxa é umas das primeiras ordens centralizadas da história da Igreja. Ela é governada pelo Capítulo Geral, uma assembleia que se reúne a cada dois anos. Cada mosteiro tem o seu prior, que é o superior da casa, eleito durante o Capítulo Geral. O prior pode ser mantido ou afastado do cargo conforme cumpra ou não os seus deveres satisfatoriamente, o que torna o governo da cartuxa um dos mais flexíveis e equilibrados de que se tem notícia entre instituições humanas de qualquer época e natureza.


A vocação cartuxa

Os cartuxos conciliam a vida comunitária com a própria vida contemplativa, transcorrendo os seus dias, semanas, meses e anos em silêncio absoluto. Eles, que praticam rígida abstinência e fazem frequentes jejuns, trabalham, estudam e oram, devotando a maior parte de todos os dias à adoração.

Os cartuxos formam a comunidade religiosa comumente apontada como a que professa a maior austeridade dentre todas as ordens religiosas católicas no tocante ao exigente modo de vida. Ao longo dos seus mil anos de existência, a cartuxa sempre manteve um estrito e profundo espírito de pobreza e abnegação, meios que servem aos monges e monjas cartuxos para buscarem a maior intimidade com Deus na oração e na contemplação, livres ao máximo de todo apego material e mundano.

Seu lema, que resume o espírito da vocação cartuxa, é eloquente :

‘Stat Crux dum volvitur orbis’

O que significa? ‘A Cruz permanece em pé enquanto o mundo dá voltas’.


A cartuxa em Portugal e no Brasil 

Entre as cartuxas que existem mundo afora, há uma no Brasil, a de Nossa Senhora Medianeira, em Ivorá, no Rio Grande do Sul, e uma em Évora, Portugal, que você pode ‘visitar’ no seguinte vídeo de 3 minutos produzido pela revista Expresso em janeiro de 2007 :’

            
Fonte :

segunda-feira, 6 de março de 2017

O silêncio do coração

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

lanspergio-002
*Artigo de Dom Lanspergio, cartuxo (1488 – † 1539)


Eis a regra que se deveria observar : todos os vossos esforços devem levar o vosso coração a estar sempre, continuamente em silêncio e em uma solidão perpétua, de modo que a vossa mente permaneça livre de tudo aquilo que Deus não acolheria e que impediria de levar o vosso coração para o alto, em direção a Ele. Também o vosso espírito deve ser puro, simples e despojado de todo pensamento, de toda coisa sensível, de formas, de imagens, de modo a acalmar e livremente servir somente a Deus, aderir somente a Ele.

O vosso coração deve ser livre de todo desejo sensível ao amor a qualquer criatura, de modo que o amor por cada criatura seja somente em Deus e por Deus.

Assim, se deveria ter como objetivo manter o próprio coração diretamente voltado para Deus, ao qual somente se une. Portanto, é necessário não pensar em nada, não falar de nada, não apegar-se a nada, não desejar nada e não preocupar-se com nada, exceto Deus e aquilo que vos atrai a Ele, e tudo isso por Deus.

Para isso não é necessário abandonar as ocupações externas, que se precisa desempenhar por obediência, por caridade ou por necessidade, porque estas se fazem por Deus.

Mas o espírito deve ser tão absorvido por estas operações a fim de não nos distrair do diálogo com Deus na solidão e no silêncio interior.


Fonte :


domingo, 6 de outubro de 2013

São Bruno

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)

 

Oração atribuida a São Bruno 

‘Tu, que és meu Senhor,
Tu, cuja vontade prefere à minha.
Não me é possível contentar-me com palavras
ao apresentar-te minha oração.
Escuta meu grito que te suplica
como um imenso clamor… 

Tu, de quem me constituis servo :
Te rogo-te com insistência,
até merecer atingir teu favor.
Pois não almejo um bem da terra;
não peço mais do que o que devo pedir :
só a Ti…

Tem piedade de mim!
E como imensa é tua misericórdia
e grande meu pecado, tem piedade de mim imensamente
em proporção à tua misericórdia. 
Então poderei cantar teus louvores,
contemplando-te, Senhor.
Te bendirei com uma bênção
que perdurará ao longo dos séculos;
te louvarei com o louvor e a contemplação,
neste mundo e no outro,
como Maria, de quem nos diz o Evangelho,
que escolheu a parte melhor.
Amém.’
Fonte :