Mostrando postagens com marcador piedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador piedade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O Dom da Piedade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf

 

‘Os dons do Espírito Santo refletem o amor, o grande e único dom, com cada um representando diferentes aspectos desse amor, como objeto visto de diversos ângulos. Para viver plenamente esses dons é necessário seguir o caminho de Jesus, acreditando no amor, cumprindo os mandamentos e praticando as bem-aventuranças; assim, desenvolvemos os dons do Espírito e crescemos em sabedoria e graça. Esse processo envolve meditação, oração e uma vivência concreta da presença de Deus em nossas vidas e na Igreja. Falaremos, então, do dom da piedade.

Precisamos dialogar com as pessoas que amamos. Com elas partilhamos nossas vidas e elas participam conosco de nossa história. É assim o dom da piedade: cultivar a relação amorosa com Deus de muitos modos, mas muito especialmente amando a Deus na oração. 

A oração expressa e ao mesmo tempo nutre a piedade, esse encontro amoroso com Deus em que partilhamos com Ele nossas vidas. Agradecemos por seus dons, seu amor, louvamos por sua obra na criação, na redenção da humanidade em seu Filho Jesus; agradecemos sua vida em nós pela ação do Espírito Santo. Pedimos também perdão por tê-lo amado tão pouco e suplicamos sua misericórdia para que possamos sempre mais na graça e no conhecimento de Cristo. 

A piedade nos leva a amar Jesus por si mesmo na Eucaristia, a amá-lo em nosso coração, a amá-lo nos irmãos, a amá-lo na comunidade de fé, a Igreja, ouvindo seus pastores, a amá-lo acolhendo e colocando em prática a sua Palavra como palavra de vida que vai iluminando e orientando nossas vidas com atitudes concretas de amor. 

Piedoso é quem, por amor, vive relacionamento com Deus em todos os modos como Ele se manifesta a nós e sente a alegria de partilhar com Ele sua vida confiando no seu amor que impulsiona a conhecê-lo e a amá-lo mais. O amor é também piedade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-dom-da-piedade.html


sexta-feira, 21 de julho de 2023

A Igreja ante as revelações particulares

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA


A Revelação pública oficial da Igreja terminou com o fim da geração dos Apóstolos. Depois, ocorrem apenas as chamadas ‘revelações particulares’ ou ‘privadas’ que não merecem fé divina, mas apenas humana. Detalhemos isso.

O Concílio Vaticano I assim declara : ‘Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus’ (Constituição Dogmática Sobre A Fé Católica, s. III, 24-4-1870, c. 1792).

Vê-se aí que o Magistério da Igreja é exercido de dois modos : o ordinário (= ensinamento cotidiano dos Bispos espalhados pelo mundo unidos ao Bispo de Roma, o Papa) e o extraordinário (= exercido bem mais raramente pelos Concílios Ecumênicos ou Gerais sob a supervisão do Papa ou pelo próprio Santo Padre quando, na função de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,31s), proclama um dogma ou uma definição ex cathedra (definitiva) em temas de fé e moral). Já os demais pronunciamentos do Romano Pontífice merecem religiosa submissão da vontade e da inteligência (cf. Concílio Vaticano II. Lumen Gentium, 25).

Aqui, perguntamos : e como ficam as revelações particulares? – ‘Elas não pertencem ao depósito da fé’ (Catecismo da Igreja Católica n. 67); por isso, o fiel é livre para nelas crer ou não. Afinal, ‘a Igreja não pode impor à crença dos fiéis nem o presumido fato de uma aparição, nem o teor da respectiva mensagem’ (Dom Estêvão Bettencourt, OSB. Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145). Mais : se o fiel quiser crer, será apenas com fé humana, não divina. Sim, assegura o renomado teólogo dominicano Antonio Royo Marín que ‘estão excluídas como objeto material da fé divina e católica as revelações privadas que algumas pessoas em particular podem receber (por exemplo, Santa Teresa), de forma que somente elas estão obrigadas a crer com fé divina, caso tenham, em virtude da luz profética [a iluminar apenas o receptor da mensagem – Nota nossa], certeza da origem divina das mesmas’ (A fé da Igreja: em que deve crer o cristão de hoje. 2ª ed. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 62). Por parte dos demais fiéis, a expressão fé só humana é o assentimento que se dá à revelação feita por uma pessoa digna de crédito (eu acredito porque foi X que falou, se fosse Y não acreditaria). Distingue-se da fé divina que está no plano sobrenatural. É um dom de Deus, e merece assentimento, pois é Ele mesmo quem nos fala por meio de sua Palavra transmitida, interpretada e chancelada pela Igreja (cf. idem, p. 45-60).

Daí ser oportuno lembrar que, quando não se opõe à fé católica, mas está em conformidade com ela, a Igreja – sem se comprometer diretamente com as narrativas dos videntes – permite que o conteúdo edificante das visões seja divulgado. Lê-se na Encíclica Pascendi Domini Gregis, VI, ‘Essas aparições ou revelações não foram aprovadas nem condenadas pela Santa Sé, foram apenas aceitas como merecedores de piedosa crença, com fé puramente humana, em vista da tradição de que gozam, também confirmadas por testemunhas e documentos idôneos’.

A título de conclusão, devemos deixar claro – por meio de dois estudiosos jesuítas – que, embora não se imponham à fé católica, muitas visões ocorridas ao longo da história, ‘podem ser indícios da piedade dos videntes, e podem ser muito úteis na edificação e na firmeza da fé do povo, podem ser providenciais, podem até ser e virem acompanhadas de milagres de Deus’ (Pe. Oscar G. Quevedo, SJ. Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003, p. 125). Mais : ‘Seria fruto de uma inteligência fechada para a verdade não colher as jóias destas minas de valores humanos’ (Pe. Afonso Rodrigues, SJ. Psicologia da Graça. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1995, p. 115). Embora jamais possam se impor à fé católica, não devem ser, sem mais, rejeitadas como se nelas nada de útil se pudesse transmitir, de modo privado, ao Povo de Deus.

Portanto, examinemos tudo e fiquemos com o que é bom (cf. 1Ts 5,21).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2020/08/09/a-igreja-ante-as-revelacoes-particulares/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Por que a Quaresma?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Prof. Felipe Aquino

‘Desde os primórdios do Cristianismo a Quaresma marcou para os cristãos um tempo de graça, oração, penitência e jejum, afim de obter a conversão. Ela nos faz lembrar as palavras do Mestre divino : ‘Se não fizerdes penitência, todos perecereis’ (Lc 13,3).

Esses quarenta dias que precedem a Semana Santa, são colocados pela Igreja para que cada um de nós se prepare para a maior de todas as Solenidades litúrgicas do ano, a Páscoa, a grande celebração da Ressurreição de Jesus, a vitória Dele e nossa sobre o Mal, sobre o pecado, sobre a morte e sobre o inferno.  

A celebração litúrgica não é mera lembrança do passado, algo que aconteceu com Jesus e passou, não. Jesus está presente na Liturgia. O Catecismo diz que : ‘Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção.’ (§1069). Isto é, pela Liturgia da Igreja Ele continua a nos salvar, especialmente pelos Sacramentos, e faz tornar presente a nossa redenção.

Mas, para que o cristão possa se beneficiar dessa celebração precisa estar preparado, com a alma purificada e o coração sedento de Deus. A Igreja recomenda sobretudo que vivamos aquilo que ela chama de ‘remédios contra o pecado’ (jejum, esmola e oração), que Jesus recomendou no Sermão da Montanha (Mt 6, 1-8) e que a Igreja nos coloca diante dos olhos logo na Quarta-feira de Cinzas, na abertura da Quaresma.

A meta da Quaresma é a expiação dos pecados; pois eles são a lepra da alma. Não existe nada pior do que o pecado para o homem, a Igreja e o mundo.

Todos os exercícios de piedade e de mortificação têm com objetivo de livrar-nos do pecado. O jejum fortalece o espírito e a vontade para que as paixões desordenadas, especialmente aquelas que se referem ao corpo (gula, luxúria, preguiça), não dominem a nossa vida e a nossa conduta. A esmola socorre o pobre necessitado e produz em nós o desapego e o despojamento dos bens terrenos; isto nos ajuda a vencer a ganância e o apego ao dinheiro. A oração fortalece a alma no combate contra o pecado. Jesus recomendou na noite de sua agonia : ‘Vigiai e orai, o espírito é forte mas a carne é fraca’. A Palavra de Deus nos ensina : ‘É boa a oração acompanhada do jejum e dar esmola vale mais do que juntar tesouros de ouro, porque a esmola livra da morte, e é a que apaga os pecados, e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna’ (Tb 12, 8-9).

A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados’(Eclo 3,33). ‘Encerra a esmola no seio do pobre, e ela rogará por ti para te livrar de todo o mal’ ( Eclo 29,15).

Jesus ensinou : ‘É necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo’ (Lc 18,1b); ‘Vigiai e orai para que não entreis em tentação’ (Mt 26,41a); ‘Pedi a se vos dará’ (Mt 7,7) . E São Paulo recomendou : ‘Orai sem cessar’ (I Ts 5,17).

Quaresma é pois tempo de rompimento total com o pecado. Alguns pensam que não têm pecado, se julgam irrepreensíveis, como aquele fariseu da parábola que desprezava o pobre publicano (Lc 18,10 ss); mas na verdade, muitas vezes não percebem os próprios pecados por causa de uma consciência mal formada que acaba encobrindo-os. Para não cairmos neste erro temos de comparar a nossa vida com aqueles que foram os modelos de santidade : Cristo e os Santos.’


Fonte :

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Deus sempre vai atrás de sua alma, mesmo que você se afaste dele


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 JESUS,HANDS,HEAVEN
*Artigo de Cláudio de Castro,
escritor


‘Quando eu era criança, minha mãe me levou para conhecer uma de suas grandes amigas, a Beata Maria Romero Meneses. 

Eram tantos os milagres ao redor desta religiosa salesiana que milhares de pessoas a procuravam na Costa Rica para obter conselhos e pedir uma ajuda do céu.  

Ela enviava todos os devotos ao sacrário, aos pés de Jesus Sacramentado e os pedia confiança plena em Maria Auxiliadora. 

Lembro que, naquela tarde, havia centenas de pessoas esperando para falar com ela. Eu era uma criança e já tinham me contado que a irmã Maria não caminhava, flutuava. Coisas do povo… Eu, em minha inocência, ao vê-la passar me joguei ao chão para olhar debaixo de seu hábito e tentar constatar se ela estava mesmo flutuando. 

Enfim, os escritos de irmã Maria comovem a alma e nos levam ao Amor dos Amores. Ajudam-nos a encontrar um Deus misericordioso e justo, apaixonado pela humanidade. Veja o que ela nos deixou : 

‘Quando Jesus ama uma alma, quando coloca nela seus olhos e seu coração, não há nada nem ninguém, no céu ou na terra, nem nos infernos, que seja capaz de arrebatá-la.’

‘Toda vez que alguém tenta fechar a porta do amor para a alma escolhida por Deus, não faz outra coisa que motivar o Altíssimo para que Ele leve a cabo sua obra admirável e gloriosa… Se nos dissipamos, Ele sabe ir atrás de nossas almas e sabe fazer chegar até o mais profundo dela a sua voz dulcíssima, que nos faz voltar a seus braços.’

‘De tal maneira é o amor de Deus, de tal maneira é firme, que ninguém pode arrebatar a obra em que ele colocou seu selo próprio’. 

Confesso que a frase : ‘Ele sabe ir atrás de nossas almas’ me deixa emocionado. Já aconteceu tantas vezes comigo… Tenho certeza que também aconteceu com você. Eu me afasto de Deus através dos meus pecados e logo Ele me lembra de sua presença amorosa : ‘Estou te esperando, Claudio’.

Aí eu faço uma boa confissão sacramental e volto para seu lado, caminho em sua presença.

Encanta-me saber que Deus é meu Pai, nosso Pai. 

Deus te abençoe!


Fonte :

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Piedade de Minas


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O sentimento a ser cultivado é o de piedade, para superar a indiferença causada pela ganância sem limites. 
O sentimento a ser cultivado é o de piedade, para superar
a indiferença causada pela ganância sem limites.

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Piedade de Minas! Seja esse grito um clamor por compaixão, pela indignação sagrada que gera a coragem necessária à concretização de um sonho : fazer surgir um Estado diferente, livre de crimes praticados contra seus próprios filhos e o meio ambiente. É a partir desse clamor que cada pessoa poderá enxergar melhor o que acontece em tantos lugares, especialmente no Coração de Minas, a Serra da Piedade, com quase 1700 metros de altitude, reunindo incontestável beleza arquitetônica, cultural, religiosa, paisagística e ambiental, e inadmitir qualquer pretensão gananciosa de mineradoras, com a devida oposição técnico-científica e legal.

Equipes de resgate recuperam o corpo de uma das vítimas do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho 

No entorno desse lugar sagrado, está ocorrendo o que não poderia acontecer, com perdas e prejuízos incalculáveis para todo o povo mineiro. Essa situação precisa ser mudada, o que requer corajosa lucidez das competências judiciárias, ação destemida de instâncias governamentais e legislativas. A audaciosa determinação para corrigir descompassos, iluminada pelo clamor ‘Piedade de Minas’, pode conduzir o Estado a novos horizontes. O passo primeiro rumo à mudança é identificar, responsabilizar e punir quem provoca tragédias humanas e ambientais, fazendo valer a lei. Urgente também é uma configuração sócio-política e econômica voltada para a promoção do bem de toda a sociedade, com atenção especial aos que já sofreram graves perdas provocadas pela agressiva exploração da natureza.

Para isso, todos os segmentos da sociedade devem se unir e formar única voz, exigindo mudanças nos procedimentos da atividade minerária. No Brasil e, particularmente, em Minas Gerais, é preciso parar tudo o que está comprovadamente errado e promover recomeços, a partir de um horizonte humanitário. Esse parâmetro garante a salvaguarda do meio ambiente, o indispensável equilíbrio que assegura bem-estar social e a proteção do planeta – a Casa Comum. A referência central deve ser, em todos os campos – ciência, técnica, economia – o respeito irrestrito ao ser humano e às demais criaturas.

A complexa crise na relação entre ser humano e meio ambiente deve ser superada. Minas Gerais clama pelo fim da exploração cega de seus recursos, na voz de todos. Essa mudança é a única possibilidade capaz de reverter o acelerado processo que está fazendo o ‘Estado Diamante’ tornar-se um mar de lamas que destrói vidas, mata belezas, enlutando o povo.

Combater a idolatria do dinheiro, que cega pessoas diante das reais necessidades humanas e naturais, seduzindo mentes e corações, é um desafio a ser assumido por todos. Essa idolatria sustenta atitudes patológicas que transformam contextos sociais em verdadeiras sucursais do inferno. O Papa Francisco, constantemente, alerta sobre a configuração de uma economia ‘sem rosto’, descompromissada com objetivos verdadeiramente humanos. A religiosidade mineira, na força da fé cristã, não cederá espaço a esses novos ídolos que têm desconsiderado o valor da vida.

O sentimento a ser cultivado é o de piedade, para superar a indiferença causada pela ganância sem limites. O luto do povo mineiro cobre todos, indicando que é hora de ousar e efetivar mudanças para que não ocorram novas tragédias. Minas não pode ser a mesma. Sobre os alicerces de sua rica história, a partir do exercício da cidadania, de modo condizente com os nobres valores de seu povo, o Estado deve iniciar um novo ciclo para a sua história. Tenham todos Piedade de Minas!’


Fonte :  

segunda-feira, 5 de março de 2018

A humildade de Jesus e o orgulho dos cristãos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Ser humilde significa não dar para si uma importância maior que a que realmente se tem.
*Artigo de Felipe Magalhães Francisco,
teólogo
  
‘Na piedade católica, muito se repete um mantra-oração : Jesus, manso e humilde de coração, fazei de nosso coração semelhante ao vosso. Tal prática de piedade, tão comum em rezas do terço e momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento, tem inspiração bíblica. A humildade de Jesus é um convite a ser assumido por cada discípulo e discípula : ‘[...] aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração’ (Mt 11,29). A palavra humildade ganhou um uso recorrente, em nossa semântica cotidiana, de simplicidade. Fala-se que os pobres são humildes; que os sem estudo são humildes. Esse uso tem sua razão de ser, quando ampliamos o alcance interpretativo de tal palavra.
Humildade e humilhação são duas palavras muito próximas, etimologicamente. Ambas estão intimamente ligadas a húmus, terra, chão. Os empobrecidos e empobrecidas, então, estão nessa situação de humildade-humilhação : rebaixados em sua dignidade, estão ao chão. Para além desse lugar usual possível, para a palavra humildade, interessa-nos, aqui, refletir a partir de outro lugar, que também se radica no contexto etimológico da palavra : húmus. Curiosamente, também a palavra homem, do latim homo, pertence à mesma família da palavra húmus. Para um cristão, a associação com a narrativa bíblica do Gênesis é inevitável. Do barro, do chão, Deus modela Adão, que, literalmente, significa o terroso.
Tornar-se humildade, nesse contexto, corresponde a assumir uma virtude. Esse é o ponto de partida, aliás, da espiritualidade quaresmal. Na quarta-feira de cinzas, celebração em que é dada a largada para o caminho de conversão em preparação à Páscoa, católicos e católicas são marcados, em suas frontes, com cinza, enquanto são exortados : ‘Lembra-te que és pó, e que ao pó hás de voltar’, em clara referência bíblica. Bonita a dimensão simbólica de tudo isso : ao assumir o caminho de converter-se, isto é, de voltar para Deus numa mudança de mentalidade, é preciso perceber qual lugar ocupamos na vida, diante de nós mesmos, dos outros e de Deus. Ser humilde significa, então, não dar para si uma importância maior que a que realmente se tem. Não se trata de modéstia, definitivamente, mas de reconhecer a si mesmo, num processo profundamente espiritual, de dar-se o valor que realmente se tem.
Importante a associação com a palavra húmus : no pó, a identificação de nossa pertença à criação. Da terra, essa mãe-sustento, nasce nossa participação em igualdade de importância com todo o mundo criado. Nem mais nem menos importantes. Recordar de nossa pertença ao chão, ao pó, isto é, ser humilde, é assumir nosso lugar no mundo, em relação a ele e a tudo o que nele contém. Viver a humildade corresponde, então, a viver não se colocando em posição superior a nada nem a ninguém, mas no mesmo nível. É preciso que não nos esqueçamos do que significa o pecado : arrancar nosso rosto humano para buscar assumir um lugar que não nos pertence, que é o de querer ser como deuses. Em outras palavras : o pecado é a nossa desumanização, o nosso esquecimento-negação de que somos terra.
Jesus, que para os cristãos e cristãs é o paradigma da humanização, ensina-nos o que é verdadeiramente assumir um lugar existencial que transparece humildade. Não se colocou superior a ninguém, mas, ao contrário, rebaixou-se ao ponto de poder elevar quem também estava ao chão. É o que faz na ocasião em que a mulher iria ser apedrejada, quando acusada de adultério : Jesus vai ao chão e, lá, no lugar dos humilhados, põe-se a escrever na terra. Os acusadores, mesmo confrontados com os próprios pecados, são incapazes de se curvarem numa postura humilde (cf. Jo 8,1-11). Essa narrativa exemplifica toda uma postura de vida, assumida por Jesus.
Ela manifesta, aliás, toda a teologia da kénosis. Jesus não se apega à sua condição divina, mas se esvazia para assumir a condição de servo. Humilhou-se ao ponto de assumir a morte de cruz, para prestar um serviço à humanidade (cf. Fl 2,5-8). Assumindo a vida humana, o Filho de Deus participa de nossa condição terrosa. E é de lá, da terra, do chão, que nos eleva à condição de filhos e filhas de Deus; que nos possibilita sermos elevados à participação na santidade divina, por pura graça. Quando a santidade divina visita o mais íntimo e profundo de nós, alcançando-nos desde a terra, na encarnação do Filho de Deus, somos chamados a assumir nossa dignidade, reconhecendo o que verdadeiramente somos e o que, por graça, somos chamados e levados a ser : plenamente humanos.
Diante de tudo isso, deveria causar estranheza o fato de que cristãos e cristãs cedam ao orgulho. Há uma terrível e real tentação, dentro e fora das igrejas, de que cristãos e cristãs se comportem como se fossem melhores que outras pessoas, inclusive melhor que aqueles e aquelas com as quais lida na vida comunitária. Cristãos e cristãs devem ser melhores para os outros e, jamais, pretenderem-se melhor que os outros. A vaidade cristã só nos afasta do Reino, porque desfigura o lugar propriamente cristão que é o do serviço. ‘Entre vocês não deve ser assim : ao contrário, aquele dentre vós quiser ser grande, seja o servidor [...]’ (Mc 10,43) é um imperativo colocado por Jesus a cada discípulo e discípula : aos passos do Mestre, estamos no mundo para servir e não para ocupar lugares de importância que sequer temos direito. 
 Assumir a humildade tal como a do coração de Jesus é tarefa espiritual necessária, se queremos nos assumir como cristãos e cristãs, discípulos e discípulas de Jesus. A humildade é virtude necessária e irrenunciável àqueles e àquelas que pretendem ser fiéis à missão dada por Jesus, de anunciadores e promotores do Reino de Deus. Descer ao chão, para lá tocar as situações de humilhação, de indignidade, de pecado é atitude urgente para aqueles que querem ser sinal fecundo do Reino. A religião cristã não é aquela composta pelo puros e santamente afastados : mas daqueles que, imersos na terra do mundo, irradiam humanidade, escrevendo ao chão, para solidarizar-se com quem precisa ser tocado pela libertação própria do Reino de Deus. Percorrer o caminho da humildade é compreender que, fora do chão, lugar concreto onde a vida se dá, não há salvação.’


Fonte :

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Qual a origem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Resultado de imagem para sacré coeur de jésus
*Artigo do Professor Felipe de Aquino


‘A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito antiga; os Padres da Igreja já falavam dela; tudo brota daquele Coração ‘manso e humilde’ que por nós foi transpassado pela lança do soldado Longuinho, na Cruz do Calvário. Dele saiu sangue e água, símbolos do Batismo e da Eucaristia, e também da Igreja, Esposa de Cristo, que nasce do lado aberto do novo Adão, como Eva nasceu do lado aberto do primeiro.

Após uma fase de eclipse, esta devoção ganhou novo impulso após as visões de Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), difundidas por seu confessor São Claude de la Colombière (1673-1675). Era uma época difícil, onde havia uma heresia chamada Jansenismo, de Jansen, que pregava um cristianismo triste, onde poucos se salvavam, onde se disseminava um medo de receber Jesus eucarístico, etc.

Para eliminar essa tristeza Jesus mostrou seu Coração humano e misericordioso a Santa Margarida, como tábua de salvação para todos os pecadores que nele confiassem.

Santa Margarida Maria Alacoque foi uma freira que nunca transpôs os muros do seu convento das visitandinas de Paray-le-Monial da Ordem da Visitação de Santa Maria, instituição religiosa fundada por São Francisco de Sales (1567-1622) e Santa Joana de Chantal (1572-1641), morrendo antes de completar 45 anos, em 17 de outubro de 1690, sendo canonizada em 1920, pelo papa Bento XV. Recolhida, em profunda oração, pela porta do tabernáculo saiu uma espécie de vapor que foi se transformando na figura de homem que se encaminhou até ela e ali na sua presença abriu a túnica que lhe cobria o peito, lhe mostrando o coração em chamas inextinguível e lhe disse :

Eis aqui o coração que tanto amou os homens e pelos quais e tão mal correspondido pelo menos tu, filha minha, chora pelos que me ofendem, geme pelos que não querem orar, imola-te pelos que renegam e blasfemam contra o meu santo nome. Prometo-te na grandeza do meu amor que abençoarei os lares que neles me hospedem, que os que comungarem durante nove primeiras sextas-feiras seguidas, não morrerão sem receber os sacramentos da penitência e da Eucaristia.’

Depois de 150 anos de enormes dificuldades impostas especialmente pelos jansenistas e o terror da Revolução Francesa, em 1856, Pio IX instituiu a festa litúrgica do Sagrado Coração de Jesus, propondo, segundo a recomendação dos santos, a consagração do mundo ao Coração de Jesus. Duzentos anos depois que Santa Margarida pediu ao Rei Luís XIV a consagração da França ao Coração de Jesus, o grande presidente do Equador, Gabriel Garcia Moreno, consagrou seu país em 1873, ao Coração de Jesus.

Vários Papas incentivarem esta devoção através de encíclicas. Atualmente a festa do Sagrado Coração na sexta-feira após a festa de Corpus Cristi. Leão XIII na ‘Annum Sacrum’ (1899), deixou-nos a Oração para consagração ao Sagrado Coração. Pio XI na ‘Miserentissimus Redemptor’ (1928); Pio XII na ‘Haurietis aquas’ (1956); João Paulo II na ‘Redemptor Hominis’ (1979) e Bento XVI em carta ao Pe. Kolvenbach Geral da Comapanhia de Jesus, falaram da importância dessa devoção. Em 1872, Pio IX concedeu indulgências especiais aos que portassem o escapulário com a imagem do Sagrado Coração.

A piedade ligada ao Coração de Jesus está em união com a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Muitos santos recomendaram esta devoção : São João Eudes, Santa Margarida Maria Alacoque, São Luís Grignion de Montfort, Santa Catarina Labouré e São Maximiliano Kolbe.


Numerosas foram às promessas do Sagrado Coração de Jesus sendo as mais admiráveis as seguintes :

1. Eu lhes darei todas as graças necessárias ao seu estado de vida.

2. Eu farei reinar a paz em suas famílias.

3. Eu os consolarei em todas as suas aflições.

4. Serei seu refúgio seguro durante a vida e sobretudo na morte.

5. Derramarei muitíssimas bênçãos sobre todas as suas empresas.

6. Os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia.

7. As almas tíbias se tornarão fervorosas.

8. As almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição.

9. Abençoarei Eu mesmo as casas onde a imagem do meu Coração estiver exposta e venerada.

10. Darei aos sacerdotes o dom de abrandar os corações mais endurecidos.

11. As pessoas que propagarem esta devoção terão os seus nomes escritos no meu Coração e dele nunca serão apagados.

12. No excesso da misericórdia do meu amor todo poderoso darei a graça da perseverança final aos que comungarem na primeira sexta feira de nove meses seguidos.’

           
Fonte :


terça-feira, 6 de junho de 2017

As pulsações do Sagrado Coração de Jesus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Equipe Christo Nihil Praeponere 

‘Anunciado por todos os profetas e ansiado por todas as nações, é no Sagrado Coração de Jesus que se resume a história dos homens e onde se encontra a ‘fonte de toda consolação’. Dele, coração humano e divino, brotam mananciais de água viva para a humanidade inteira, conforme prometeu Isaías : ‘Com alegria tirareis água nas fontes do Salvador’ (Is 12, 3), e conforme Ele mesmo revelou à samaritana : ‘Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz : ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva’ (Jo 4, 10).
  
O culto ao coração de Nosso Senhor, no entanto, nem sempre foi compreendido da forma correta dentro da Igreja. Há quem se incomode com a ideia de adorar um ‘órgão humano’ – mesmo que seja o de Jesus –, como se tal ato fosse um exagero ou ferisse a honra devida somente a Deus. Outros chegam a vislumbrar a beleza dessa devoção, mas, por não saberem o que ela significa, acabam não lhe dando muita importância e, muitas vezes, chegam a agir com certo desprezo para com ele, considerando o culto ao Sagrado Coração quase como uma ‘superstição’.

Contra essa visão completamente distorcida das coisas, o Papa Pio XII escreveu, em 1956, a riquíssima encíclica Haurietis Aquas, exatamente ‘sobre o culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus’. Neste documento, Sua Santidade adverte que este culto não deve a sua origem a revelações privadas, nem apareceu de improviso na Igreja, mas simplesmente confirma as verdades sobre a vida de Cristo e o seu imenso amor para com os homens. ‘Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida Santa Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica[1].

Mas, qual é, afinal, a doutrina católica a respeito do culto ao Sagrado Coração de Jesus?

Em primeiro lugar, a Igreja ensina que esse culto consiste em uma verdadeira adoração. A razão disso está na doutrina da ‘união hipostática’ de Cristo : ‘Uma vez que Deus Verbo se encarnou, a carne de Cristo é adorada não por si mesma, mas porque o Verbo de Deus está unido a ela segundo a hipóstase[2]. Assim, pois, comenta Santo Tomás de Aquino, ‘adorar a carne de Cristo nada mais é do que adorar o Verbo de Deus encarnado, assim como adorar a roupa do rei nada mais é do que adorar o rei que a veste[3]. É por isso que quem reza a Ladainha do Sagrado Coração recorda que esse órgão de Cristo está ‘unido substancialmente ao Verbo de Deus’ e que nele ‘habita toda a plenitude da divindade’. Os católicos, portanto, não só podem, como devem, adorar o Sagrado Coração de Jesus, sem nenhum temor ou escrúpulo.

Agora, por que tanta ênfase no coração de Cristo? Por que não adorar outro órgão qualquer de Nosso Senhor, como o cérebro, ou os Seus outros membros feridos pelos agudos cravos da Cruz? A resposta está em que, mais do que qualquer outro membro do seu corpo – diz o Papa Pio XII –, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano [4].

Os católicos adoram o Coração de Jesus porque a fé cristã é, acima de tudo, a ‘religião do amor’. Na verdade, não existe nenhuma virtude maior do que a caridade (cf. 1 Cor 13, 13); nenhum mandamento maior do que o amor (cf. Mt 22, 34-40); nada tão importante quando o fato de que ‘Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna’ (Jo 3, 16).

Além disso, cremos que Deus, assumindo um coração verdadeiramente humano, sujeitou-se livremente a experimentar os sentimentos mais comuns da vida de qualquer pessoa, tais como o amor e a alegria, a tristeza e o temor etc [5]. O Papa Pio XII confirma que ‘o coração de Cristo (…) sem dúvida deve ter palpitado de amor e de outros afetos sensíveis[6].

Por isso, convém ‘meditar as pulsações do seu coração’ [7], a fim de que também os nossos corações possam, com suas batidas, tributar um hino de louvor a Deus.

O Coração de Jesus ‘pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima ‘Fiat’[8].

O Coração de Jesus pulsou de amor quando se perdeu de seus pais e, tomado por um zelo que O consumia, aninhou-se no templo e tratou de cuidar das coisas de Seu Pai (cf. Lc 2, 49).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando trabalhou na carpintaria de Nazaré, rodeado por São José, Seu pai adotivo, e por Sua santíssima mãe, a qual O nutria e O via crescer ‘em estatura, graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens’ (Lc 2, 52).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando sentiu compaixão das multidões que O cercavam (cf. Mc 8, 2), quando deu vista aos cegos, quando curou os enfermos e quando ressuscitou os mortos.

O Coração de Jesus pulsou de amor e admiração, quando viu a grande fé daquele soldado romano, cujas palavras são repetidas todos os dias na Santa Missa : Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva (cf. Mt 8, 8).

O Coração de Jesus pulsou de amor e de santa ira, quando expulsou os cambistas e vendilhões do templo, ordenando que não fizessem da casa de Seu Pai uma casa de comércio (cf. Mt 21, 13).

O Coração de Jesus pulsou de amor e de alegria, quando instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, deixando a Si mesmo como alimento para todos os que O haviam de seguir, até o fim dos tempos.

O Coração de Jesus pulsou de amor, de tristeza e de temor, quando rezou no Horto das Oliveiras, implorando misericórdia e suando gotas de sangue pela humanidade pecadora (cf. Mt 26, 38; Mc 14, 33).

O Coração de Jesus pulsou disparadamente quando Se entregou na Cruz, palpitando ‘mais pela força do amor do que pela violência dos algozes [9].

O Coração de Jesus pulsou de amor e misericórdia, quando acolheu no Céu o bom ladrão (cf. Lc 23, 43) e perdoou os Seus carrascos do crime que cometeram (cf. Lc 23, 34).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando entregou Maria Santíssima aos cuidados de Seu discípulo amado, designando-a mãe de toda a Igreja (cf. Jo 19, 25-27).

Finalmente, no Céu, ‘o seu coração sacratíssimo nunca deixou nem deixará de palpitar com imperturbável e plácida pulsação [10], já que a aliança que firmou com a Sua Igreja é irrevogável e o Seu amor para com ela é eterno, como Ele mesmo tinha prometido : ‘Esta é a aliança que farei com a casa de Israel a partir daquele dia – oráculo do Senhor, colocarei a minha lei no seu coração, vou gravá-la em seu coração; serei o Deus deles, e eles, o meu povo’ (Jr 31, 33).

Por todas essas pulsações do Sagrado Coração de Jesus, que também nós vivamos a nossa vida como um completo e constante ato de amor a Ele. Peçamos-Lhe a graça de imitar o Seu manso e humilde coração (cf. Mt 11, 29) e que, assim como o Seu, também os nossos se convertam em uma ‘fornalha ardente de caridade’.

Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós!

           
Fonte :

  1. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), IV, n. 52.
  2. São João Damasceno, De Fide Orthodoxa, IV, 3 (PG 94, 1105).
  3. Suma Teológica, III, q. 25, a. 2.
  4. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), I, n. 12.
  5. Cf. Suma Teológica, III, q. 15.
  6. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), II, 22.
  7. Ibid., II, 28.
  8. Ibid., III, 30.
  9. Ibid., III, 38.
  10. Ibid., II, 28.

sábado, 5 de novembro de 2016

Um lápis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Resultado de imagem para teresa calcuta
*Artigo de Padre Fernando Domingues,
Missionário Comboniano


‘Era sempre a última, na fila da comunhão.

Naquela semana, calhava-me ir celebrar a missa todos os dias, de manhã bem cedo, à casa das irmãs, que ficava ali perto da nossa igreja; quinze minutos a pé, pelas ruelas do bairro-de-lata onde elas moravam. Era ali que um bom grupo de jovens se preparavam para dedicarem a vida, como ela, ao serviço dos mais pobres entre os pobres.

Passaram uns anos bons, mas ficou-me bem gravada na memória aquela figura de mulher pequenina, com a cara onde não cabia nem mais uma ruga. Madre Teresa, vestida com o seu sari branco com bordo azul, sentava-se no chão, ao fundo da capela, do lado direito da porta. Na altura da comunhão, ela era sempre a última na fila.

A celebração era de manhã cedo, mas antes de eu começar a missa, já elas tinham feito uma hora de adoração. Depois, algumas delas dedicavam-se aos órfãos, doentes e velhinhos abandonados que cuidavam ali mesmo em casa; outras saíam a visitar os pobres e os doentes nas barracas daquela zona.

Quando um dia perguntei a um grupo daquelas jovens se não era um pouco exagerado tanto tempo de oração todos os dias, logo de manhã, responderam-me com uma frase que a Madre Teresa gostava de dizer : «Para sabermos reconhecer Jesus nos pobres da rua, precisamos de encontrá-Lo antes, na oração

Gostei que o Papa Francisco decidisse canonizar a Madre Teresa na Praça de São Pedro, em Roma, com grande solenidade. Na manhã do domingo, 5 de Setembro, uma multidão imensa enchia por completo a praça e ainda ficou muita gente a assistir de fora. Havia delegações e grupos vindos de todo o mundo. Teresa, a última da fila, tornou-se agora modelo para todos os cristãos que queiram viver com autenticidade a misericórdia de Deus, e partilhá-la com os outros.

Quando, um dia, alguém lhe disse que ela estava a tornar-se uma pessoa importante, respondeu : «Sou apenas um lápis nas mãos de Deus, Ele que escreva o que quiser.»

Não foi um caminho fácil. Não lhe faltaram problemas e situações terríveis a enfrentar. Mas impressiona saber que Teresa viveu muitos anos na «noite escura» (uma expressão de São João da Cruz). Trata-se, penso eu, da experiência de quem viveu tempos de grande entusiasmo espiritual onde a «comunicação com Jesus» é clara, abundante, cheia de alegria, e depois toda essa relação com Deus mergulha nas trevas, como se a pessoa entrasse numa «noite escura» : a presença de Deus acredita-se, mas não se sente, no diálogo, parece que Deus ficou mudo, e aquele entusiasmo que dava tanta alegria e que motivava tanto parece que secou. Uma experiência muito dura para quem faz do encontro com Deus o centro da própria vida. A Madre Teresa contou que viveu assim a maior parte da sua vida!

De onde lhe vinha a força e aquela alegria que irradiava sempre? É que ela não vivia para receber algo de Deus, mas apenas para ser aquele pequeno lápis nas Suas mãos.

Pelo visto Deus escreveu muito! E continua a escrever.’


Fonte :