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sábado, 19 de julho de 2025

Abertura ao mundo - Desafios para os cristãos e para os consagrados num mundo agitado[1]

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Italo de Sandre

 

«O Senhor disse : ‘Eu vi, eu vi a miséria do meu povo no Egito. Ouvi o seu grito diante dos seus opressores; sim, eu conheço as suas angústias’.» (Êxodo 3, 7)

 1.Ver e ouvir para conhecer : os cristãos deviam saber que aí estão os primeiros passos de toda a obra de misericórdia e que, mutatis mutandis, é também o que se encontra no coração do trabalho das ciências sociais. Um primeiro problema, uma questão nem sempre resolvida na Igreja de hoje, estar verdadeiramente disponível e agindo para ver, escutar, conhecer a realidade da vida das pessoas e das sociedades, e não somente o que está bem e o que queremos que seja; e isto, sem ter medo de ser posto em questão. A observação sociológica não propõe uma ideologia da sociedade (como certos meios católicos, mesmo de primeiro plano, dizem ou deixam entender), mas procura contribuir para «ver» as coisas o melhor possível na sua complexidade, recorrendo a métodos fiáveis (repetíveis) e válidos (capazes de representar a realidade estudada) de modo transparente, submetido a um controle e às críticas. É neste espírito que, para dar um exemplo, nos anos 1990, os institutos religiosos masculinos e femininos do nordeste da Itália lançavam simultaneamente com o Observatório sócio-religioso da Conferência episcopal de Três Venécias, um «Observatório da vida consagrada», que publicou, entre outros, uma investigação sobre «Os jovens e a vida consagrada. Uma outra via», num volume coletivo. As representações que os jovens se faziam dos religiosos e dos padres eram já sem encanto, em tensão com os aspectos mais institucionais da vida dos consagrados, sobretudo dos padres («Eles têm a resposta antes que se lhe tenha posto as questões»). Mas mesmo este período de atenção e de abertura no mundo dos religiosos rapidamente é encerrado. Um outro exemplo. Recentemente, para preparar o congresso eclesial da Aquileia (nordeste de Itália), em 2012, os bispos das Três Venécias pediram ao Observatório sócio-religioso da Conferência episcopal das Três Venécias (OSReT [2]) um importante e complexo inquérito sócio-religioso, cujos resultados, muito interessantes tanto quanto as críticas, foram apresentados e discutidos de modo comprometido por numerosos responsáveis da pastoral diocesana, mas os bispos não acharam bem publicá-lo numa obra, nem o levaram em consideração  nas suas conclusões finais. Muitos católicos, bispos, religiosos, leigos estimam «saberem já» e que não tem mais necessidade de outras «complicações sociológicas». Nos nossos dias, pelo contrário, um Papa como o cardeal Bergoglio quis que antes e entre as sessões do sínodo sobre o casamento e a família se escutasse todas as Igrejas e todos aqueles que quisessem contribuir com o seu próprio testemunho de vida. É uma decisão inédita, importante, mais talvez como método do que pelo seu conteúdo, que corresponde aos resultados produzidos. Quem sabe quando e quem quererá retomar esta decisão e dar assim todo o seu valor à experiência de fé e de vida que é feita na consciência dos fiéis. Complexidades das experiências que não se pode descartar sem fazer violência tanto às pessoas como à inteligência da realidade. Pessoalmente, estimo que mesmo as comunidades monásticas deveriam constituir, nos seus diversos países, pequenos grupos de investigadores e de monges, de monjas (ou, mais geralmente, de religiosos e religiosas) para conhecer e compreender a sua realidade em curso de mudanças.

2. Desde há algum tempo, diversos estudos demonstraram que entre mãe/pai e filhos sobrevêm um importante desmoronamento intergeracional dos valores nos quais se crê (por exemplo : a verdade dos Evangelhos, Cristo) e práticas, sobretudo no domínio moral em geral, e em particular no da afetividade-sexualidade. A imagem da Igreja era já muito problemática por causa das suas mensagens de austeridade, e não é de se duvidar que a simpatia pessoal da qual é alvo o Papa Francisco seja também devida como simpatia e uma confiança generalizada para com a Igreja-instituição. A religiosidade procura vias que impliquem uma presença reduzida da Igreja («um pouco de Igreja»), mas – no momento – não «sem Igreja». Observe-se a afluência a certos santuários ou lugares de culto particulares, frequentados não somente por pessoas inativas e pouco instruídas, segundo os velhos cânones da piedade popular, mas por pessoas ativas e instruídas que procuram uma via pessoal de relação de fé-confiança em meios diversamente acolhedores.

A atitude das mulheres não difere muito mais da dos homens. E mesmo, entre as mulheres, quanto mais aumenta o nível de instrução mais aumentam as tomadas de posição críticas para com o catolicismo e a Igreja. O que implica que a transmissão tradicional da fé pelas mulheres não pode mais ser considerada como garantida. A presença ativa, mais madura e mais crítica das mulheres, consagradas e leigas, exige uma reflexão dialógica e uma implicação profunda e comum. Do mesmo modo, o sentido tradicional do «serviço» deve ser inteligentemente revisitado em toda a sua amplitude, para mulheres e homens. 

3. A centralidade do sujeito como indivíduo, pelo menos no Ocidente, conduziu as pessoas a sentirem-se e a pretenderem-se autônomas face-a-face com as instituições, sociais, civis e religiosas (mas não econômicas, o mercado incitando os consumidores de mil e uma formas). As tecnologias da comunicação fizeram explodir este fenômeno. O amadurecimento das pessoas opera-se através de um percurso mais longo e incerto, favorecido por um prolongamento dos percursos escolares, e tornado menos diretivo por numerosas ocasiões e infinitas aspirações tornadas possíveis. Cada vez mais, as vocações à vida consagrada emergem elas mesmas numa idade em que a pessoa já adquiriu uma personalidade madura, menos (ou mais dificilmente) diretamente adaptável ao estilo dos institutos em que ela entra, tornando mais complexa a identificação e a organização da vida comum. A unidade da vida pessoal, mesmo para um monge ou uma monja, não é assim tão simples, nem se encontra pela observação de papeis e de gestos.

Esta autonomia da pessoa, sentida e pretendida, colocou o corpo no centro. O corpo, não mais considerado como qualquer coisa de negativo, a esconder, desvalorizado em relação ao «espírito», está pelo contrário estreitamente ligado ao espírito-razão num sentido ativo e positivo. A sociedade de consumo atrai a fazer experiências, a experimentar os cinco sentidos nas ocasiões mais variadas. Assim, não se compra mais uma coisa somente para possui-la, para utilizá-la, mas quer-se poder viver com ela uma experiência emocional, física, individual ou com outras pessoas.

Os corpos-espíritos têm uma sexualidade e papeis de gênero que são transformadas em parte (e não é justo focar tudo sobre a homossexualidade, como fizeram recentemente na Itália ideologias opostas). As desigualdades tradicionais homem-mulher não são mais aceitas, em nenhum meio de vida como em sociedade. As discussões e confrontos (mesmo certas manifestações políticas de rua), que emergem no enquadramento do debate levantado pelo recente sínodo, mostraram que mesmo no seio da hierarquia e entre os «fiéis» católicos, existem diferenças por vezes radicais na maneira de pensar, de governar, de viver o seu corpo e o seu gênero. Corpos-gêneros que concernem também os consagrados, mulheres e homens, padres e religiosos, cuja escolha de uma vida virginal, celibatária não foi tematizada pelo sínodo (ou talvez não se quis fazê-lo). Dado que, na vida concreta, eles estão em interação com leigos homens e mulheres, cuja percepção do corpo e do gênero se constrói diferentemente, isto provoca problemas na elaboração das relações e da educação na Igreja e na sociedade. Nas relações entre institutos religiosos e sociedade, entre mulheres-homens consagrados e mulheres-homens leigos, o modo como cada um se exprime como pessoa abrange dimensões não-verbais e nas quais a corporeidade é em todo o caso central, como riqueza ou fraqueza na vida, na comunicação e no estar acompanhado, na ajuda dada e/ou a necessidade de ser ajudado. 

4. Em toda a sociedade, os estilos de vida (maneiras de estar, de pensar, de crer, de agir, de ser em relação) tornam-se uma realidade central, constituem um medium fundamental de comunicação verbal e não-verbal dos valores pessoais através das práticas da vida. A importância dos estilos de vida provém da personalização daquilo em que se crê e do que se pensa na vida cotidiana. É preciso ter em conta o fato de que, na realidade atual, aqueles que que se dizem católicos adotam efetivamente entre eles estilos de vida extremamente diversificados, e mesmo opostos (de fato, um bom número dos que se dizem católicos não observam nem a moral social nem a moral ensinada pela Igreja em matéria afetiva e sexual; têm opções políticas diferentes, etc.). O que torna necessários, sobretudo no domínio religioso, um olhar realista e um discernimento dialógico sério sobre a vida cotidiana, a fim de se responsabilizar mutuamente e não somente de repreender «os outros», tendo bem em conta o fato de que o declínio crescente da religiosidade da Igreja se faz acompanhar de uma busca de sentido frequentemente confusa mas bem presente, em todo o caso entre os jovens. Certos teólogos definiram de modo simplista estes jovens como : «as primeiras gerações de descrentes», «pequenos ateus» em crescimento, o que levou involuntariamente um grande número deles, mesmo entre os padres e os religiosos, a dizer que nada mais há a fazer. Esta perspectiva não ilumina suficientemente o problema da existência de uma nova espiritualidade (não necessariamente anti-religiosa) que vale a pena viver e exprimir; uma espiritualidade a estudar, a compreender e com a qual é preciso dialogar. Um grande número de pessoas já deixaram a Igreja porque ela as ignorava neste percurso. 

5. Quando me recordo das reflexões que fazíamos nos anos 1990, acho atual o convite paradoxal dirigido aos institutos religiosos femininos  e masculinos, não somente de «sair», como o Papa Francisco os incita a fazer, mas também e mesmo em primeiro a abrir, de um modo apropriado mas concreto, não somente os «museus», mas também as portas dos espaços da sua vida cotidiana, para que um maior número conheça os estilos de vida, humana e cristã e não somente identitária, das comunidades consagradas (o back office, e não somente o front office; o interior da casa e não somente a fachada), que elas apreciem a humanidade, a proximidade. Proximidade também nessa transparência de que devem ser testemunhas. Proximidade igualmente entre institutos religiosos, entre mosteiros, entre comunidades que deveriam partilhar antes de tudo as suas experiências e o seu testemunho de vida, tanto contemplativa como ativa. Talvez haja aí formas de cooperação desejáveis, se não necessárias. Estas eram impensáveis no passado, devido a um cuidado de salvaguardar a identidade de cada instituto, que primava pelo testemunho da escolha da vida religiosa e monástica, se não e só da vida cristã (como não pode ser de outra forma em certas sociedades).

Esta necessidade é ainda reenforçada (pelo menos no Ocidente) pela diminuição ou a extinção das vocações, pelo envelhecimento e a redução numérica de muitas comunidades, que conduzem à retroação  previsível da parábola do tempo para algumas comunidades ou famílias religiosas, e em todo o caso a uma vida reduzida no seu seio. 

6. A propósito da Igreja em geral, pode-se retomar por um instante o tema aflorado do «serviço». Mais uma vez as palavras e os atos do Papa – que não raro são fortemente criticados – parecem hoje orientar-nos para um serviço verídico e efetivo mais do que um reforço da autoridade : vir concretamente em ajuda aos que são fracos, pobres, marginais, aos que conhecem o sofrimento e também àqueles que saíram de um quadro de vida «regular». «A autoridade», no sentido institucional, religioso, moral, é habitualmente compreendido como uma forma legítima do poder de ordenar, de obrigar os outros a fazer o que pessoalmente a autoridade estima como justo e bom de realizar, ações comuns e estruturas que funcionem exclusivamente de cima para baixo, por meio de ordens, regras, deveres. Na realidade, uma tal forma de poder não é a única; ela tem tendência a ser rígida e a não ser submissa com pouco ou nenhum controle. De um ponto de vista sociológico, parece que se recorre naturalmente ao expediente retórico que consiste em associar a priori a um tal modelo vertical o termo de «serviço», e que pode não ser percebido como tal pelos outros. De fato, nos nossos dias, a partir de todas as observações feitas até agora, uma tal legitimação é posta em causa, evidente na esfera civil, menos gritante mas também muito presente no mundo religioso, como as investigações o demonstraram. Ora, quando a autoridade não é nem reconhecida como legítima (e não usufrui mais do consentimento-confiança) nem apreciada, o que ela faz é interpretado e eventualmente acolhido com um outro olhar. O fato de ela «servir», de realizar atos e pronunciar palavras que «servem» a vida das pessoas e das comunidades, será de fato interpretado pelas pessoas interessadas. A autoridade deve ser reconhecida com uma nova frescura, numa relação que não é mais de alto para baixo, de comando-obediência, como no passado, mas numa relação de respeito e de não-humilhação, de escuta recíproca e de diálogo sobre as necessidades e as expectativas, as possibilidades e os limites. Entre o autoritarismo e a autoridade, é atual, por exemplo, a competência que será valorizada (os leigos conhecem bem domínios tanto ou mais «competentes» que os religiosos), a empatia, a convicção de que a capacidade de trabalhar e de caminhar em conjunto é uma riqueza. O serviço deveria ser melhor reconhecível como tal, dar razão da sua própria validade, sem o vestuário da não autenticidade. 

7. Tudo o que dissemos até aqui subentende uma linha vermelha, uma maneira de pensar as coisas e as pessoas que é bom qualificar de «pensamento complexo». Ao longo do século XX as ciências cultivaram um sentido metódico, sistemático da complexidade do conhecimento e da vida, e chegou-se à maturidade neste domínio essencialmente no momento em que se procurou analisar com novos instrumentos precisamente as sociedades, as pessoas, o nosso mundo e o universo como sistema. O próprio Papa Francisco – mesmo que numa linguagem teológica e pastoral – exprimiu-o implicitamente à sua maneira na sua primeira exortação apostólica, onde nos dá contínuos exemplos nos seus discursos pronunciados nos Estados Unidos, na África, na sua Laudato sì, nas suas exortações pós-sinodais, nas conferências de imprensa dialogadas que dá durante as suas viagens, e cada vez mais. Falar de complexidade significa não ser redutor, simplista, e não fazer resumos, do gênero do que apenas se retem aquilo que nos convem. Isto significa saber refletir sobre as implicações de toda a ação levada a cabo. Isto quer dizer : querer mostrar como a ordem e a desordem, o bem e o mal, o justo e o injusto são imbricados entre si; que é preciso saber olhar as coisas com realismo, e designar aquilo sobre o qual é preciso exercer um discernimento para poder de seguida projetar e fazer juntos algo de melhor; que saibamos reconhecer também os limites e os conflitos a fim de construir pontes. Compreender que o todo é mais do que as partes que o constituem, mas que – quando, por exemplo, se trata de pessoas, de famílias, de sociedades – paradoxalmente o todo é ainda menos do que a soma das suas partes, porque cada pessoa e cada família vale por si mesma, para lá dos valores do grupo em que inserem. Um todo (por exemplo, uma família, uma comunidade religiosa, uma Igreja) tem o seu próprio DNA, o seu próprio «código-fonte», que está também presente em cada uma das partes do todo (tal é a concepção cristã da pessoa). A complexidade atual das experiências religiosas é o fruto – como tentamos dizer – de mutações ligadas e de um enorme alcance : a centralidade absoluta : a) do sujeito, da autonomia das escolhas que formam as pessoas; b) das inovações tecnológicas para uso dos indivíduos como massas que têm também direta e indiretamente levado; c) à inédita mobilidade de milhares e milhares de pessoas, e logo; d) à existência simultânea de uma grande pluralidade de experiências e de instituições religiosas, e sempre mais submetidas à aceitação ou à recusa da parte dos indivíduos.

Se se preferir manter uma visão redutora, ter-se-à a impressão de estar em segurança, mas inevitavelmente se se fechará; não se escutará, mas também não se será escutado.’

  

[1] Intervenção no Capítulo Geral da Congregação Subiaco-Monte Cassino de setembro 2016. Italo de Sandre é professor de sociologia na universidade de Pádua. Ensina «sociologia e religião» na faculdade de teologia da Trivenécia e no Instituto de liturgia pastoral de Pádua. Faz parte do comitê científico do ORSeT, Observatório sócio-religioso da Trivenécia. Nos últimos anos, as suas investigações têm sido sobretudo orientadas pelos problemas fundamentais da ação social, em particular as implicações analíticas dos processos de solidariedade e de comunicação, e as transformações dos códigos simbólicos no enquadramento de um pluralismo cultural, moral e religioso crescente.

[2] OSReT: Osservatorio Socio-Reliogioso Triveneto. Centro de investigação fundado em 1989 sob forma de associação entre as dioceses das Três Venécias, e órgão da Conferência episcopal. Cf.: https://www.osret.it/it/pagina.php/100. [Nota do editor] 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/120

domingo, 18 de dezembro de 2022

Natal Cristão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

‘O Natal cristão de verdade, sim, no Menino Jesus que vamos encontrar na manjedoura, na mensagem que percorre o mundo, aquele que o infinito imutável e irrevogável nos manifestou em Jesus de Nazaré, que desceu do céu, que, segundo Afonso Maria de Ligório, ‘desceu das estrelas’. Ele quer de nós a sua centralidade, num visível e favorável ambiente, com as marcas da simplicidade, da modéstia e do comedimento, no amor ao próximo, começando com o mais próximo.

Que o Natal, verdadeiramente cristão, encontre eco em nós, não deixando espaço para aquela profética palavra de João Batista na sua pregação : ‘raça de víboras’ (cf. Mt 3, 7ss). Lugar, sim, para que o anúncio, incômodo e provocador de João Batista, deixe clara a necessidade de contrariar a realidade contraditória vivenciada por ele, na acolhida do seu clamor, naquilo que causa enorme prejuízo à íntegra mensagem por ele proclamada, dizendo não à indiferença.

Notória é a necessidade de um cristianismo longe da indiferença, que tanto mal fez e continua fazendo, mas um cristianismo com Cristo; repetindo: ele no centro, porque a ‘vida eterna que estava no Pai se manifestou’ na comunidade dos batizados, na disposição de preparar o caminho do Senhor. Nosso tempo, mais do que nunca, requer dos corações encascalhados, pelas ilusórias vantagens do mundo, que se neutralizem a insensibilidade e a indiferença, na confiança de um ‘Deus que é luz e nele não há vestígio de trevas’ (1 Jo 1, 1-5).

No mistério da encarnação, temos resposta infinitamente maior e superior a qualquer indagação que se possa ser sugerida pelas criaturas humanas. Deus mesmo, pelo Filho, mergulha na nossa vida finita, passageira e relativa; mergulha na nossa miséria. Pensemos, pois, no Deus que, sendo infinito e absoluto, sofre junto conosco e com toda a humanidade, num amor ilimitado. É a redenção em nosso meio, como diz São João : ‘De tal modo Deus amou o mundo, que, por ele, entregou seu Filho único’ (Jo 3, 16).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1596087

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Ser cristão, por Johan Konings

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Élio Gasda,

teólogo

 

‘Tempos difíceis. Ignorância, tristezas e decepções, pandemias e guerras, desigualdades e miséria, fome e desemprego, chacinas em favelas. Banalização da vida e da justiça. Em tempos obscuros é fundamental que o cristão restaure a fé, a esperança e, acima de tudo, o amor. Amor e Fidelidade!

O que é ser cristão? Respostas são diversas : ser batizado e fazer parte de uma igreja. Frequentar cultos e assistir missa. Seguir normas morais. Ajudar o próximo. São práticas que identificam o cristão. Algumas revelam certa proximidade com Cristo. Será mesmo?

Cristão é o que crê que Jesus é o Cristo! ‘Sem a fé no Cristo, ninguém pode ser chamado de cristão’. Portanto, ser cristão só se é cristão, hoje e sempre, a partir de Jesus de Nazaré. Nele, Deus se revela e se dá a conhecer (Jo 1,18; 14,8-9). Fé é adesão e opção comprometida por uma pessoa e sua proposta de vida.

Jesus Cristo é a proposta de Deus para a humanidade. Ele nos apresenta o Reino. Para ser cristão não basta o batismo ou assistir missa, isso é ‘cristandade’. É necessária uma opção consciente e integral pelo Cristo, pois, quando Jesus fala é Deus quem fala. O que Jesus faz, Deus quem o faz. Ouvir, contemplar e ter fé em Jesus Cristo que caminha com a comunidade, é a forma de conhecer a Deus. ‘O Verbo se fez carne, e habitou entre nós...cheio de graça e de verdade’ (Jo 1, 14).

O amor ao próximo é a identidade do ser cristão. A esperança cristã está na obra de Jesus, no amor que Ele nos ensinou, ‘amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei’ (Jo 13,34). Quem não ama seu irmão permanece na morte. O amor que reside nas atitudes práticas do cotidiano revela aqueles que são seguidores de Jesus. Quando abrimos mão do egoísmo, Jesus se revela em nós. Nos inspira a buscar uma sociedade justa e fraterna. Nos tornamos verdadeiros discípulos. Deus conosco - Emanuel - se humaniza para permanecer no meio de nós.

Muitos cristãos não entendem que o Reino de Deus já está acontecendo, o que fica evidente no amor de Cristo pela humanidade. Ele permanece entre nós em Espírito. ‘Ele permanece conosco também no dom messiânico que ele nos deixa, a ‘paz’, porém, não como o mundo a concebe (14,27)’. Só se tem paz na presença da Trindade Santa. ‘Tendo Cristo por centro e luz, certamente haverá unidade e comunhão...’ e o encontro com os mais pobres e vulneráveis. Paz fruto da caridade.

‘Na caridade fraterna, Deus e ‘o Cordeiro’ moram conosco. A cidade de Deus não é uma grandeza de ficção científica, nem uma cristandade sociologicamente organizada. Ela é uma realidade interior, atuante em nós e, naturalmente, produzindo também modificações no mundo em que vivemos. Ela é obra do Espírito de Deus que nos impele’.

O caminho que nos impulsiona deve se apoiar no Evangelho. É preciso reconhecer e seguir Cristo e servi-lo na assistência de todo aquele que também Nele sofre. A Igreja não está a serviço de um Estado ou de um sistema, ela não oprime, e sua esperança não se baseia no progresso e desenvolvimento tecnológico, mas na esperança que anuncia o amor de Deus.

‘Se o amor é o que supera tudo, importa que entendamos a partir da fonte que é Deus. Mais que amar a Deus e ao próximo é deixar-se amar por Deus; mais fundamental que conhecer a Deus é ser conhecido por Ele (1Coe 13,12; Gl4,9). Experimentar a própria vida como dom que se recebe é uma dimensão fundamental do ser cristão consciente’.

Para ser cristão é preciso retornar à raiz da fé. ‘Devemos reaprender o que é crer como cristão : não dizer ‘Amém’ a doutrinas incompreensíveis, mas aderir, cheios de confiança, ao homem de Nazaré no qual Deus se dá a conhecer’. Deus está no meio de nós. Os fiéis são a morada de Deus. Isto Basta.

Johan Konings (1941-2022) com sua gentileza, sotaque inconfundível, sentido de humor e sorriso fácil e acolhedor foi esse cristão, morada divina que caminhou com Jesus no meio da história. Viveu com liberdade a fé, a esperança e o amor dos filhos de Deus.

Konings, sonhador de um projeto de sociedade pautado no humanismo cristão, continue inspirando gerações de teólogos, exegetas, universitários, políticos e jesuítas. Obrigado, companheiro!

‘Não é nos templos de pedra que Deus habita, mas no coração de quem ama e vive seu amor na prática. ‘Onde o amor e a caridade, Deus aí está’’.

‘A Palavra de Deus é uma palavra de Amor e Fidelidade’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1579504/2022/05/ser-cristao-por-johan-konings/

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os cristãos pobres, os pobres cristãos

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

 

‘Quem nunca ouviu falar sobre os ‘cristãos pobres da igreja primitiva’? Pois é. Essa interpretação em relação aos primeiros seguidores de Cristo é um tema recorrente em parte da historiografia que trata do tema. É certo que, no cristianismo primitivo, os adeptos da ‘seita’— como era vista pelo Império Romano — não gozavam de privilégios até o início do século IV. E chegaram a ser perseguidos por alguns imperadores da época, que os chamavam de supersticiosos, ateus e traidores do judaísmo.

Sabemos que a caridade é um valor constitutivo do cristianismo desde os seus primórdios. São vários os adeptos da religião que incentivam a prática, seguindo o ensinamento do seu fundador, Jesus Cristo. No entanto, é necessário analisar, com atenção, como as várias comunidades cristãs se estruturavam até a chamada ‘fase constantiniana’, que começa em 313 d.C. E compreender como esses grupos assistiam os mais pobres nas várias províncias do império. Dessa forma, não cairemos naquele anacronismo e romantismo históricos que conduzem as várias interpretações feitas sobre o cristianismo antigo.

Em cada comunidade cristã, as obras de caridade eram administradas das maneiras mais distintas possíveis. Portanto, não podemos afirmar que existia uma política assistencialista padronizada. Não nos esqueçamos que, nos Atos dos Apóstolos, livro bíblico que descreve como acontecia a distribuição de bens entre os seguidores de Cristo, o foco está na comunidade de Jerusalém.

A forma como os cristãos se organizavam naquele território específico não correspondia ao modelo adotado pelos cristãos do Egito, por exemplo. Além disso, o próprio conceito de pobreza, no decorrer desse período, passou por várias elaborações teológicas — sem contar que, em algumas comunidades, é difícil falar de um grupo constituído majoritariamente por pobres, como comumente se pensa.

Os autores cristãos, nos dois primeiros séculos, falavam bastante sobre o valor da partilha e da esmola, embora não questionassem, em muitos escritos, sobretudo em âmbito ocidental, a estratificação social. Prova disso é a normalidade com a qual, no texto Traditio Apostolica, do século II, é tratado o escravo de um patrão cristão. ‘Se é um escravo de um fiel, e o patrão o permite, pode escutar a Palavra’, diz o trecho.

É a partir do século IV que observamos um certo desconforto diante dessas diferenças. Basílio de Cesaréia, um dos mais importantes teólogos dessa fase, chegou a dizer que ‘a divisão entre ricos e pobres era fruto do pecado’.

Os pobres e o império romano

Os primeiros cristãos não foram perseguidos diretamente por causa do acreditavam, haja vista que o império não se importava com a crença de seus súditos. Existia até uma certa tolerância em relação às várias manifestações religiosas, desde que elas não fossem um empecilho para o ordenamento social.

A partir do momento em que os seguidores de Jesus Cristo se recusam a prestar culto ao imperador — gesto considerado um ato cívico por excelência —, eles passaram a ser vistos como subversivos. Não se prostrar diante de César significava desrespeitar as instituições e renunciar à própria cidadania romana. E isso foi um fator preponderante para a promulgação de éditos que ordenavam as mais sangrentas perseguições aos cristãos.

Além disso, o fato de eles comumente se tratarem como ‘irmãos’ em suas reuniões, colocando todos no mesmo patamar, atraiu ainda mais o desprezo coletivo. Era um escândalo para a sociedade romana. Inadmissível que um escravo, por exemplo, desprovido de qualquer reconhecimento por parte do Império, se equiparasse a um cidadão.

Outro fator a ser levado em consideração é que, já no século II, o Império Romano começa a apresentar sinais de enfraquecimento, como relata o historiador inglês Peter Brown. Por conta disso — explica Brown — a quantidade de pobres e necessitados do território aumentou significativamente nessa fase.

Numa sociedade completamente fastosa e dada à ostentação, o pobre era tratado com certo desprezo pela alta nobreza. Parte da literatura romana pagã chega a considerá-lo, inclusive, ‘miserável e preguiçoso’. E nada mais.

Não existia uma reflexão sobre a miséria, nem uma política de enfrentamento do problema. A promoção de espetáculos, bem como a distribuição de grãos, nada mais eram que iniciativas ‘populistas’ do imperador. Alguns ricos, por sua vez, se tornavam benfeitores público, os euergetes, com o intuito de ganhar prestígio entre os membros da aristocracia romana. E é nesse cenário que o trabalho dos cristãos começa a se destacar.

Os ‘descartáveis’

Com a publicação da Constituição Antonina (212 d.C), do Imperador Caracala, a cidadania romana passou a ser concedida a todos os súditos do império, com exceção dos peregrinos chamados deditícios, que provinham de regiões conquistadas por Roma que não aceitavam pacificamente a invasão. Sem a ‘carteira de identidade’ romana, essas pessoas não podiam ter acesso a todos os benefícios.

E são os seguidores de Cristo que, nesse período, atendem a essas populações. A maioria dos pobres assistidos pelos cristãos eram imigrantes. Os estrangeiros compunham ‘a categoria mais miserável entre os pobres’, classificados assim pela mentalidade dominante, que tendia a valorizar somente seus próprios conterrâneos.

O ensinamento cristão não se enquadrava na concepção pagã de comunidade civil. E realiza uma revolução na medida em que passa a transcender o próprio sentido da benfeitoria. A doação, vista simplesmente como um ato de justiça e benevolência, inclusive por outras religiões monoteístas, se torna caridade, um ato de amor dispensado a quem se faz próximo, não somente ao compatriota. Alguns teólogos primitivos diziam que onde existisse um rico cristão era inconcebível que alguém passasse fome.

Todos eram pobres?

As fontes em relação ao cristianismo primitivo são bastante escassas. Porém, as informações às quais temos acesso nos permitem individuar como algumas das principais comunidades cristãs atendiam aos mais necessitados.

No Octavius, de Minúcio Félix, escrito no século II, os cristãos de Roma são classificados como ‘pessoas desprovidas de bens’. O livro, de teor alegórico, mostra o diálogo entre um cristão e um pagão sobre a religiosidade autêntica. O personagem pagão Cecilio Natalis se refere assim aos seguidores de Cristo : ‘Muitos de vocês são necessitados, passam frio e suportam a fadiga e a fome’.

Alguém pode pensar, com base nesse texto : ‘Aí está a confirmação de que todos os cristãos eram pobres’. Não é bem assim. A primeira coisa que precisamos ter em mente é que o texto se ambienta na cidade de Roma e narra o estilo de vida dos cristãos daquele local específico.

No caso de Alexandria, uma das cidades mais ricas do Império, a situação já é outra. O teólogo grego Clemente, que viveu parte de sua vida nessa cidade egípcia (por isto é chamado de Clemente de Alexandria), questiona, no discurso Quis dives salvetur, se a riqueza não seria um impedimento para a salvação. É o primeiro texto a se debruçar sobre o tema. Ele o escreveu pensando na adesão em massa, ao cristianismo, de muitos alexandrinos ricos. Diz que há espaço para eles no céu, desde que comprometam a administrar a riqueza segundo os moldes do cristianismo.

Algumas comunidades cristãs mantinham uma ‘caixa comum’ ou ‘fundo de caridade’, onde principalmente os ricos batizados deveriam destinar parte de seus ganhos para quem mais precisava. Jerusalém e Cartago, por exemplo, adotaram esse sistema. Em outras cidades, a administração desses recursos, destinados aos mais pobres, funcionava de outra forma.

Na Apologia de Aristides, outro texto cristão dessa época, está escrito, em outras palavras, que é impossível dissociar a religião nascente da prática da caridade. Na Didaché, do sec. I, considerado o primeiro catecismo cristão, dar as costas ao indigente era uma ofensa à fé que se professava.

Os três primeiros séculos do cristianismo foram marcados por esse debate em torno da riqueza. O questionamento era se o acúmulo de bens não seria uma incoerência frente ao discurso de despojamento propagado por Jesus Cristo. Na maioria dos casos, foi visto dessa forma. Quanto menos o indivíduo tivesse, mais estaria perto de Deus.

Porém, apesar das divergências relativas à definição de uma postura que correspondesse melhor aos valores evangélicos, tanto os escritores do Oriente quanto os do Ocidente não negligenciaram, em nenhum momento, a essência da mensagem cristã. A ideia de se criar uma rede de solidariedade, encabeçada pelos batizados, era, para eles, o grande diferencial — o que melhor os distinguiam dos demais. Também afirmavam que é próprio do cristão assumir uma atitude de desapego em relação aos bens. Do contrário, acabariam por macular a doutrina em que o amor devia ter a primeira e a última palavra.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://estadodaarte.estadao.com.br/cristaos-pobres-mirticeli/

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Órfão cristão fugiu do Afeganistão aos 8 anos e depois salvou família perseguida

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo de Francisco Vêneto, 

jornalista


‘Ali Ehsani tem 38 anos e é advogado. Mora na Itália desde os 13 anos, quando chegou sozinho ao país europeu como refugiado após seus pais serem assassinados e sua casa ser destruída no Afeganistão – só porque a família era cristã.

Afegãos cristãos, diga-se de passagem, são uma raridade. O Afeganistão inteiro contava com cerca de 200 cristãos até a retomada do poder pelos talibãs em 15 de agosto de 2021. Agora que o grupo fanático detém o poder no país, o número certamente se reduziu mais ainda. A única igreja católica de todo o território afegão está fechada : ficava na embaixada italiana em Cabul e o pároco responsável foi obrigado a deixar o país durante a desocupação norte-americana, finalizada em 31 de agosto.

O próprio Ali só tomou consciência de que fazia parte da minoria cristã quando, aos 8 anos de idade, um colega muçulmano na escola o questionou sobre o fato de seu pai não frequentar a mesquita.

Ele relatou este episódio à Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja (Aid to the Church in Need) que Sofre :

‘Voltei para casa e perguntei ao meu pai. E ele me perguntou : quem te disse isso? Meu pai me explicou que eu não devia dizer para ninguém que éramos cristãos. Ele me contou que os cristãos iam à igreja, mas não me disse muito mais do que isso, porque tinha medo que eu falasse da nossa fé e nos descobrissem’.

Mas os rumores correram. Não demorou para que o pai de Ali Ehsani fosse preso. Também não demorou para que, após a prisão do pai, chegasse a vez também da mãe. Certo dia, o menino chegou da escola e não a encontrou mais. Naquele mesmo dia, ele sequer encontrou a própria casa : os talibãs a tinham destruído.

Órfão cristão fugiu do Afeganistão aos 8 anos

Seu irmão Mohammed, 16, e ele, 8, não tiveram alternativa : precisaram fugir do Afeganistão sem absolutamente nada nem ninguém.

‘Foi uma viagem que durou cinco anos e que eu conto no livro ‘Stanotte guardiamo le stelle’ (‘Hoje à noite olhamos para as estrelas’, em livre tradução do italiano – a obra não conta ainda com versão em português). Foi uma viagem dramática pelo Afeganistão, Paquistão, Irã, Turquia, Grécia até chegar à Itália. Meu irmão morreu na viagem’.

A precária embarcação em que tentavam chegar da Turquia à costa grega naufragou e o irmão mais velho não conseguiu se agarrar a nada – ao contrário de Ali, que só sobreviveu porque se agarrou a um galão de combustível. Ele pensou naquela hora : ‘Se Jesus existe, Ele vai me salvar de morrer afogado’.

O menino tinha 11 anos quando ficou sozinho no mundo. Meses depois, quando conseguiu chegar à Itália, decidiu estudar para ajudar as pessoas que, assim como ele, já tinham sofrido excessivamente na vida.

Ali Ehsani cumpriu a promessa que tinha feito a si mesmo e se formou advogado.

Já adulto, conheceu outra rara família cristã que vivia no Afeganistão e passou a manter contato com eles por meio da internet, chegando a transmitir-lhes a Santa Missa ao vivo pelo celular. Um dia, porém, mesmo com o volume baixo, os vizinhos da família ouviram e a denunciaram.

O pai foi preso e nunca mais se soube do seu destino. A família se escondeu aterrorizada durante semanas, enquanto Ehsani coordenava a sua retirada do Afeganistão com auxílio de autoridades vaticanas e italianas. Assim como ele, aqueles refugiados também acabaram conseguindo chegar à Itália e recomeçar a vida. Ali Ehsani relata que, em sua primeira Missa, não paravam de chorar de emoção.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/09/20/orfao-cristao-fugiu-do-afeganistao-aos-8-anos-e-agora-ajuda-a-salvar-familia-perseguida/

quarta-feira, 14 de abril de 2021

A decisão de amar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


‘A mensagem de Jesus é bem conhecida por todos que se dizem cristãos e que, em algum momento, leram os evangelhos. Ainda que muitas vezes não praticada, dificilmente alguém diria desconhecê-la. Ou seja, qualquer um que se professa cristão, ao ser perguntado sobre a mensagem de Jesus, tende a falar que esta trata do amor – ao próximo e a Deus. Desse modo, o seguimento à vontade divina envolve, necessariamente, uma atitude de amor frente ao mundo.

Contudo, mesmo sabendo e recitando isso, percebe-se que não são tantos assim os que estão dispostos a esse seguimento, o que se verifica tomando como prova nossa própria nação. Segundo o último censo, cerca de 80% dos brasileiros se nomeiam cristãos. Entretanto, somos um dos países de maior desigualdade social no mundo. Ora, tendo uma maioria declaradamente cristã, o Brasil não deveria ser um lugar onde os princípios do Reino seriam marca distintiva do viver de sua população? Sendo composto majoritariamente por seguidores e seguidoras de Jesus, não deveria ser um exemplo para o mundo de como é viver os princípios ensinados pelo Mestre?

Em outras palavras, ter uma população que se denomina majoritariamente cristã e, ao mesmo tempo, ser um país exemplo daquilo que Jesus não pregou – e, muito menos, viveria – é forte indício da distinção e separação abissal entre essa suposta profissão de fé e o seguimento real do Cristo.

Com isso em mente, pergunta-se : por que, afinal de contas o conhecimento da mensagem evangélica não se converte em prática? A meu ver, uma possível resposta está no fato de que amor não se dá pelo conhecimento dogmático ou, muito menos, doutrinal de determinada religião. Por mais que possamos, através de uma pedagogia do amor, mostrar como deve ser a sociedade desejada pela mensagem de Jesus, amar é sempre decisão que parte do indivíduo na direção do outro.

Essa decisão, por sua vez, não tem como ser forçada. Não há como obrigar alguém a amar o outro, assim como não há como amar por ele. Nesse sentido, a exigência de seguimento de Jesus demanda uma escolha que deve ser tomada por cada pessoa, individualmente.

Quando lemos nos Evangelhos o chamado de Jesus aos seus discípulos, o máximo que ele fez foi convidar : ‘Segue-me’. A decisão de abandonar tudo e seguir partiu de cada um dos que o ouviram. Em nenhum momento houve chantagem, coerção, proselitismo, vingança pelo não seguimento. Ainda que os discípulos, em certa ocasião, tenham quisto atear fogo celeste, consumindo todos aqueles que não quiseram seguir a mensagem evangélica, Jesus os repreendeu afirmando que não sabiam sobre o espírito que os animava.

Assim, o seguimento de Jesus, que é o seguimento do amor – o que implica em buscar, na medida do possível, fazer sempre o bem ao próximo –, rompe com toda lógica meramente discursiva e condena todo discurso amoroso que não se mostra em atos.

Entre dizer que devemos amar uns aos outros e, efetivamente, amarmos uns aos outros é que se encontra o desafio do seguimento de Jesus. Só se aprende a amar amando e tal decisão é sempre individual, que ninguém pode tomar por mim. Ficar no campo do discurso, obviamente, é bem mais fácil. Porém, o que Jesus ordena a seus discípulos e discípulas é amar por meio de ações concretas que visam o bem da humanidade. E isso, necessariamente, demanda uma decisão da nossa parte.

Será que estamos dispostos a ouvir esse chamado ao seguimento do Senhor hoje?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1508906/2021/04/a-decisao-de-amar/

domingo, 3 de janeiro de 2021

O mistério inevitável da vida

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo do Padre Carlos Padilla Esteban

 

‘O protagonista do filme ‘O médico’ perguntava ao seu professor se este não se desanimava ao perceber quão pouco sabia do homem e da vida, ao contemplar o mistério do universo. Ele respondeu com simplicidade : ‘O mundo seria cinza e entediante se não existisse o mistério. É surpreendente saber que é mais o que ignoro que o que conheço’.

Mas é fato que o homem de hoje perdeu o gosto pelo mistério. Ele já não gosta do desconhecido e quer conhecer tudo. Porque dentro de nós há um desejo de infinito, de possuir o que não temos, de desvelar os mistérios, rasgar o véu e conhecer toda a verdade.

Gostaríamos de que a vida não tivesse mistérios por desvelar, queremos saber tudo. Não somente o mistério da vida, mas o das pessoas. Não gostamos de que nos escondam nada. Perguntamos e perguntamos. Porque nos julgamos no direito de estar a par de tudo. Queremos saber o que acontece em todos os lugares. Os mistérios nos confundem.

Queremos dar razões do que acontece e encontrar sempre respostas corretas, adequadas, que nos deixem satisfeitos. Que um raciocínio lógico e claro dê explicações da vida. Não queremos perder a verdade. Não gostamos das sombras nem da escuridão.

As crianças, quando completam 3 ou 4 anos, começam a fazer muitas perguntas. Querem saber tudo e não admitem um ‘não’ como resposta. São exploradoras, buscadoras e querem respostas que revelem o mistério da vida.

Todos nós temos uma criança de 3 ou 4 anos em nosso interior, uma criança que se pergunta mil porquês e que gostaria de obter mil respostas. O oculto tem de ser exposto à luz do sol. Assim, não haverá dúvidas e saberemos o que fazer em cada momento.

Mas assim já não nos surpreendemos. É como se nada pudesse despertar nossa capacidade de assombro. Já sabemos tudo e nada nos chama a atenção.

Sendo sinceros, temos de reconhecer que muitas perguntas não têm resposta em nosso coração. Não sabemos tudo porque isso é impossível.

Mas o cristão não tem medo quando contempla o universo e entende que não abrange o infinito. Não é nossa meta desvelar todos os mistérios. Nosso fim é caminhar rumo ao céu, rumo ao infinito, e saber que lá descansaremos para sempre. Enquanto isso, caminharemos seguro em Deus, ainda que não saibamos tudo.

O Pe. Kentenich dizia : ‘O momento atual requer pessoas que tenham paz interior, que sejam provadas interior e exteriormente, muito acima da incerteza e da dúvida. Mas que recebam da união santa com Deus a força necessária para imprimir o rosto de Cristo na época’.

A incerteza e a dúvida são parte da nossa equipagem. Não podemos prescindir do que desconhecemos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/01/01/o-misterio-inevitavel-da-vida/

terça-feira, 7 de julho de 2020

O luto e a dor humana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

Why “It is better to go to the house of mourning.” – Targuman

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

Há um clamor silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto das famílias de vítimas da Covid-19 


‘O mundo acompanha, pelos meios de comunicação, a dor do luto sofrida, anonimamente, por uma grande multidão, revelando, de maneira desconcertante, o sofrimento humano, provocado pela pandemia da Covid-19. Muitas famílias sequer tiveram a oportunidade para se despedir de seus entes queridos. Uma dor sem bálsamo, um peso necessário ante as exigências para a prevenção de novas contaminações. Há, pois, um clamor silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto dessas famílias. Esse clamor deve sensibilizar a sociedade, para que seja adotada a lógica da compaixão solidária, capaz de aliviar a dor dos enlutados e de promover a aprendizagem de um novo jeito de viver. 

É preocupante a indiferença em relação ao luto vivido pelo outro. Essa indiferença, entre tantas outras, aumenta ainda mais o risco de um colapso humanitário. A insensibilidade para a dor do outro, que é irmão, impede a construção de um tempo novo para a humanidade, pois leva à banalização da vida – um dom precioso. Sua preciosidade deve ser tratada com ternura, nobre reverência e sempre a partir de gestos solidários entre as pessoas. É nessa perspectiva da solidariedade que se deve, inclusive, lidar com as muitas perdas que fazem parte da vida. No caminho oposto – o da indiferença – é ainda mais difícil passar pelo luto, não somente aquele provocado pela morte, mas também pelo fim de ciclos. Cegamente, muitas vezes, as pessoas não aceitam nem a perda daquilo que, na verdade, constitui oferta para o bem de todos. Em vez da consolação, essas pessoas cultivam a revolta. 

O luto é inevitável nas circunstâncias da vida humana, mas pesa muito mais aquele que se origina nas irresponsabilidades, a exemplo do que é imposto pela atual pandemia. O luto torna-se especialmente pesado quando não é vivido adequadamente, pois não se alcança a sua fecundidade dolorosa, a força de redenção que surge nos limites próprios da condição humana. Não se pode tratar o luto com indiferença. Trata-se de experiência a ser vivida considerando a singularidade de sua dor, a consolação que se recebe das pessoas próximas, a oportunidade para aprendizados e qualificação da própria existência, alcançando sentidos profundos sobre o dom da vida. 

Assim é o luto cristão, caminho experiencial terapêutico que se distingue por estar fundamentado na esperança. Essa experiência no contexto da fé cristã é convite a vislumbrar, para além da separação terrena, o reencontro com Deus. Os cristãos consideram seus falecidos não como pobres mortos – eles são os que nos precedem e nos esperam diante de Deus. A morte provoca uma separação muitas vezes desconcertante. Há os que ficam extremamente desconsolados e até deixam de enxergar sentido na vida. O luto cristão se assenta na certeza da vida pós-morte. Assim, reorienta o viver de enlutados, ajuda a permear o coração com recordações consoladoras dos que morreram. E, mesmo na impossibilidade do contato, na invisibilidade, continua forte a presença de quem parte, ajudando a superar tristezas e angústias dos que ficam. 

A fé cristã leva à certeza da vida eterna, conquistada com Jesus – Filho de Deus. Sua morte e ressurreição abriram as portas da vida que nunca passa. A morte é um trânsito pascal, significação luminosa que devolve a certeza de uma vitória definitiva. Essa certeza, se cultivada, ameniza a sensação de fracasso que a perda e a partida sempre trazem. A dor da morte impõe sempre o luto, alguns ainda mais dolorosos, sobretudo por circunstâncias incompreensíveis à racionalidade humana. O cristão também sente o trauma da morte biológica, com as suas angústias e sofrimentos, mas deve deixar-se orientar sempre por uma luz amorosa : a vitória da vida sobre a morte, bálsamo para a dor humana. No caminho indicado por essa luminosidade, os que professam a fé em Jesus devem se comprometer com a vida, zelar por ela em todas as suas etapas. Isto inclui saber sobre a tarefa cristã de se dedicar aos enlutados, sensibilizar-se ante a dor do próximo, que é irmão, tratando-a com o bálsamo da consolação e da solidariedade. 

Neste contexto contemporâneo de tantas feridas, de corações tomados pela dor, é urgente que cada pessoa busque ser presença solidária, compartilhando palavras que devolvam a esperança. Trata-se de cumprir missão paraclética, isto é, consoladora, responsabilidade de todos – uns cuidando dos outros, unidos, para levar luz aos momentos de luto e aliviar a dor humana.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/8902/2020/07/o-luto-e-a-dor-humana/