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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Arcebispo Nassar: que o Advento ilumine o "calvário silencioso" do povo sírio

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Vatican News


‘Um ‘calvário sem fim’ que já dura há 12 anos e ‘mergulhou no silêncio’ o povo sírio, que há muito tempo grita de dor pelos sofrimentos que suporta por causa da guerra, seguida de uma crise econômica e de saúde desencadeada pela ‘bomba da pobreza’.

É o que denuncia o arcebispo maronita de Damasco, capital da Síria, dom Samir Nassar, em um testemunho enviado à AsiaNews por ocasião do Advento. ‘Um silêncio - continua o prelado - que fala muito do sofrimento no coração das pessoas’ esquecidas pela comunidade internacional, enquanto no país do Oriente Médio persistem focos de conflito e a perspectiva de uma invasão por terra pelo exército turco, com mais um fardo de dor, morte e destruição.

‘Colocando-nos à escuta deste silêncio - escreve o arcebispo - é possível ler nos rostos tristes e cansados das pessoas as razões para este desânimo’. O olhar ‘melancólico’ tomou o lugar da alegria de viver e ‘mostra todo o peso do sofrimento ligado a uma crise sem fim’.

Indiferença da comunidade mundial que ‘esqueceu a Síria’

O olhar ‘preocupado’ reflete ‘as muitas carências’ que afligem a vida diária, tais como ‘a falta de combustível, eletricidade, pão cotidiano, medicamentos, gás, diesel e daqueles que são forçados a ficar em filas de espera dias inteiros’ para obter os gêneros de necessidades básicas.

E novamente o ‘olhar incerto’ para um ‘futuro perdido’ por causa do bloqueio, das sanções e da indiferença da comunidade mundial que ‘esqueceu a Síria’. Preocupação ‘pela dispersão das famílias para os quatro cantos da terra’, pela diáspora dos cristãos e pelas contínuas migrações ‘mesmo que isso às vezes signifique morrer nas estradas do êxodo’.

Por fim, ‘a angústia’ causada pelo ‘colapso da moeda local, a inflação e o consequente aumento dos preços, a falta de trabalho e o desemprego crescente, a pobreza e os muitos sofrimentos que parecem não ter um fim previsível’.

‘Riscos catastróficos’ em vista do inverno

Enquanto isso, o Escritório para Assuntos Humanitários da ONU e o coordenador regional da ONU para as crises Muannad Hadi falam de ‘riscos catastróficos’ em vista do inverno, com temperaturas rígidas, neve e chuvas torrenciais, enquanto o plano de apoio permanece à espera.

‘Até hoje, alertam os especialistas da ONU, foram alcançados apenas 42% dos fundos necessários e ainda há muito a ser feito para aliviar o sofrimento de seis milhões de pessoas em risco.’

Entre os mais afetados estão os deslocados, os idosos, os doentes e as crianças com doenças graves, um total de seis milhões de pessoas, 2,5 milhões das quais estão no noroeste. Atualmente, a maioria da população não pode arcar com itens essenciais, como roupas quentes ou aquecimento, incluindo aqueles que vivem nos centros de acolhimento.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2022-11/siria-arcebispo-nassar-advento-calvario-silencioso-relatorio-ONU.html

domingo, 20 de novembro de 2022

Comunidade Shalom em Madagascar: um consolo para os pobres e para os jovens

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Mariangela Jaguraba,

da Vatican News


‘As missionárias da Comunidade Católica Shalom Vanda Santos, responsável da Comunidade Shalom em Madagascar, natural de Salvador (BA), e Magnaura Lima de Maria, natural da Parnaíba (PI), visitaram recentemente a Rádio Vaticano-Vatican News. Elas participaram do encontro da Comunidade Shalom, em Roma, pelos seus quarenta anos de fundação.

Durante os dias de encontro, a Comunidade Católica Shalom foi recebida em audiência pelo Papa Francisco, no Vaticano. Vanda e Magnaura também participaram do encontro com o Pontífice. Atualmente, as duas missionárias trabalham na cidade de Antsiranana, em Madagascar. Nesta entrevista, elas nos falam sobre o encontro com o Papa e sobre a experiência missionária que fazem nesse país.

‘O encontro foi um momento único desse encontro, um momento em que a comunidade celebra os seus quarenta anos. Esse momento foi como um momento de um novo, abrindo as portas para o novo que Deus quer para a Comunidade Shalom, para nós como missionários. Estando em Madagascar há 11 anos, eu levo comigo, no meu coração, o novo que Deus nos pede. Foi um encontro maravilhoso! Estar perto do Papa Francisco. Foi maravilhoso porque ele vai nos dando direcionamentos, direções, com a simplicidade que ele tem e consegue nos alcançar, falando dos pobres, dos mais necessitados e da nossa abertura para acolher os nossos irmãos necessitados. Portanto, um encontro para renovar em nós o ardor missionário, renovar em nós a esperança, abrir um novo tempo para a Comunidade. A cada cinco anos, nós temos um encontro com o Papa para renovar em nós a força da evangelização’, disse Vanda Santos.

‘Foi uma experiência de gratidão, de celebrarmos como comunidade os seus quarenta anos de fundação, de inspiração de Deus e também de nos encontrarmos com o Papa levando a ele todas as nossas experiências de fundação, experiências de ofertas de vida. O Papa também é um missionário. O Papa também não está na terra natal dele. O Papa tem a missão de conduzir a Igreja e ser guiado pelo Espírito. Assim, Deus nos dá essa graça de sermos missionários, e sermos missionários, hoje, onde estamos em Madagascar. O tema principal do nosso encontro e da celebração dos quarenta anos foi ‘Amigo de Deus, amigo dos pobres e amigo dos jovens’. Deus nos faz este consolo para os pobres, para os jovens. Para mim, é esta experiência de gratidão e louvor. Eu volto para a minha missão, em Madagascar, com o coração inflamado por desejar mais ainda ser ainda amiga de Deus, amiga dos pobres e dos jovens’, disse Magnaura.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-11/comunidade-shalom-madagascar-deus-consolo-pobres-jovens.html

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Dia Mundial dos Pobres: «Uma sadia provocação»

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Rita Valadas,

Presidente da Cáritas portuguessa


‘No horizonte do Dia Mundial dos Pobres, somos este ano provocados pelo Santo Padre a «refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual», somos naturalmente convocados a olhar o que fazemos. São tempos muito difíceis estes. A realidade do mundo, a nossa realidade social e a consciência do muito que está já a chegar, não nos sossega e não nos deixa distrair. Entre crises sucessivas, desastres naturais e sanitários, guerras, desinformação, riscos, angústia e fome, percebemos que temos de olhar a pobreza de uma forma ativa que envolva todos os recursos e conte com todas as pessoas, mesmo as mais vulneráveis. Todos temos trunfos que devem ser usados no apoio às vulnerabilidades e muitas vezes ousamos não os considerar.

Agir em rede é um imperativo e um desafio que a rede Cáritas tem tentado perseguir no âmbito local, diocesano, nacional e mundial. A pobreza ouve-se e vê-se se estamos próximos, mas numa crise distante também podemos fazer a diferença, se agirmos em rede. O olhar atento para o que se passa junto de nós (nas paróquias) e a atenção comprometida com os apelos de emergência para o que vai acontecendo no mundo.

Agir sobre as realidades sociais é uma missão tão complexa quanto maior é a complexidade dos problemas sociais que enfrentamos. Não há receitas prontas e a solução que é boa num território pode não o ser num território vizinho. Não há uma só pobreza, nem a pobreza é um fenómeno só do mundo do rendimento. A falta de saúde, o isolamento, as fragilidades do ensino e conhecimento, a pobreza digital e energética, todos os tipos de iliteracia configuram fragilidades que nos atiram para a pobreza.

Há um fenómeno de proteção que nos torna desatentos quando uma novidade se sobrepõe a outra. Uma crise faz normalmente esquecer a outra e isso não pode acontecer. Hoje, ainda temos de manter a proteção contra o contágio da pandemia, prevenir problemas e riscos na saúde e ir acompanhando os novos sinais. Este é o repto. Ouvir e cuidar, com a serenidade possível, os recursos que pudermos partilhar, manter a consciência do que se passa no mundo e não deixar de olhar para perto de nós.

«Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que cai», diz o papa. A guerra da Ucrânia fez brotar uma enorme onda solidária e espero que, de forma organizada, possa ser um caminho e não um acontecimento. Temos uma solidariedade abundante que não podemos deixar que se torne em desperdício. Não podemos, como se usa dizer, deixar ninguém para trás. Temos de pôr a render competências e talentos, reconfigurar a nossa ação para podermos agir com propósito, resultados e harmonia e, ainda, reafirmar os afetos com uma nova proximidade e o adequado distanciamento.

Com o Dia Mundial dos Pobres inicia-se também a campanha 10 Milhões de Estrelas – Um Gesto pela Paz. Uma iniciativa da Cáritas que, simbolicamente, se materializa na venda de uma pequena vela, mas que tem um significado muito maior do que isso. Mesmo gestos pequenos podem fazer a diferença. Francisco diz esperar que o Dia Mundial dos Pobres «seja uma sadia provocação». Vamos, então, fazê-lo juntos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/835/dia-mundial-dos-pobres-uma-sadia-provocacao/

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Cardeal Hollerich: uma Igreja pobre uma Igreja viva

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Andrea Monda e Roberto Cetera


‘Jean-Claude Hollerich, 64 anos, cardeal arcebispo de Luxemburgo, é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia e vice-presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, bem como Relator-geral para o Sínodo sobre a Sinodalidade. Com a abertura da fase continental do Sínodo sobre a Sinodalidade, aceitou de bom grado a oportunidade de conversar com L’Osservatore Romano sobre o andamento da mais difusa consulta da história da Igreja na Europa, e sobre os seus conteúdos. Encontramo-nos com ele na igreja paroquial em Roma da qual é titular, enquanto se entretém como um ‘bom pároco’ com as crianças da primeira comunhão. «A igreja não é este edifício - explica-lhes - igreja significa assembleia. A Igreja sois vós. Porque, como diz o Papa Francisco, sem os jovens não há igreja, pois Deus é jovem».  Depois, caminha na nossa direção e diz : «Estou realmente feliz por ser titular, não de uma das bonitas igrejas do centro histórico, mas desta paróquia de periferia; quando aqui venho redescubro a alegria de ser sacerdote no meio do povo».   

No mês passado, o cardeal Zuppi concedeu-nos uma longa entrevista sobre o Sínodo da Igreja Italiana, na qual, com muita honestidade, não escondeu o facto de a participação ter sido inferior ao esperado, tanto em quantidade como em qualidade. Qual é a sua visão sobre a atuação do Sínodo no panorama europeu? 

Sim, li aquela entrevista com grande interesse. Com igual honestidade, parece-me que as observações de Zuppi podem também se aplicar a outros países europeus, embora com as necessárias distinções entre um país e outro. Vedes, acredito que na Europa de hoje estamos a sofrer de uma patologia, isto é, não conseguimos enxergar claramente qual é a missão da Igreja.  Falamos sempre de estruturas, o que certamente não é um mal, porque as estruturas são importantes e certamente precisam de ser repensadas.  Mas não se fala o suficiente sobre a missão da Igreja. Que é anunciar o Evangelho. Anunciar, e sobretudo testemunhar, a morte e a ressurreição de Jesus o Cristo. Um testemunhar que o cristão deve interpretar principalmente através do seu compromisso no mundo para a salvaguarda da criação, para a justiça, para a paz.  O ensinamento do Papa Francisco é tudo e nada mais do que a explicação do Evangelho. Não é difícil de compreender isto. No mundo secularizado de hoje, o anúncio direto nem sempre é compreendido, mas o nosso testemunho sim.  Somos observados e avaliados no mundo pela forma como vivemos o Evangelho. É um pouco como os professores na escola : é certamente importante o que eles dizem, mas ainda mais importante é o que eles comunicam sobre si. No nosso caso, o que importa é a coerência com o Evangelho. Tomemos por exemplo a encíclica Laudato si’.  Muitos leram-na, inclusive entre os não-crentes, e entre quantos  não conhecem o Evangelho. E todos aqueles que a leram partilharam o seu valor, a sua importância, a sua urgência. Constatei isto diretamente nos meus contactos diários com políticos do parlamento  e da comissão europeia em Bruxelas. Todos leram, portanto, Laudato si’, e admiram-na.  E o mesmo se aplica a Fratelli tutti.  Ou seja, todos reconhecem a Papa Francisco a paternidade da proposta de um novo humanismo. Que muitas vezes propõe em solidão entre os grandes líderes mundiais.  Mas depois cabe a nós explicar que o humanismo de Francisco não é apenas uma proposta política, mas uma proclamação do Evangelho. Quem está fora da Igreja por vezes compreendem melhor o Evangelho do que os que estão dentro dela.  O Papa Francisco indicou assim esta forma de proclamar o Evangelho, que parte da realidade, aquela realidade que nos vê a todos como criaturas e filhos do mesmo Pai. Mas para responder à vossa pergunta inicial : em todos os países europeus nos sínodos falou-se muito de comunhão, de participação, mas muito pouco de missão. 

Certamente as dificuldades verificadas nos sínodos dos vários países foram influenciadas por uma certa defesa instintiva do próprio status por parte do clero e por outro lado por uma  atitude persistente de delegação dos leigos.

O conceito de sinodalidade foi introduzido pelo Papa Paulo vi como um requisito de colegialidade, de comunhão entre os bispos.  O Concílio Vaticano ii tinha a necessidade preliminar de completar o que tinha ficado por acabar com o Concílio Vaticano i, cujo foco estava inteiramente na figura e nas prerrogativas do pontífice romano. Assim, o esforço da assembleia foi, antes de mais, definir o papel do bispo. Mas a Lumen gentium introduziu pela primeira vez o conceito de ‘povo de Deus a caminho’ e da Igreja como ‘templo do Espírito Santo’, e tornou explícito o ‘sacerdócio universal’ que diz respeito a todos os batizados.   Então penso que estas intuições gigantescas dos padres conciliares ainda não foram suficientemente desenvolvidas.  Mas concordo plenamente com o Papa Francisco quando diz que são necessários cem anos para implementar um concílio. Passaram apenas 60... não estamos atrasados (diz isto com uma risada de coração ndr)!  Mas, brincadeiras à parte, devemos estar cientes de que o sacerdócio batismal nada tira ao sacerdócio ministerial. Pelo contrário, todos nós sacerdotes devemos compreender que não há sacerdócio ministerial sem um sacerdócio universal dos cristãos, pois dele tem origem.   Estou bem ciente de que a dificuldade de assimilar um conceito, no fundo tão elementar, é impedida por uma formação sacerdotal que ainda se mantém sobre uma «diversidade ontológica» que não existe. Os teólogos devem começar a trabalhar sobre isto e fornecer definições mais certas em torno do tema do caráter e da graça sacramental. Mas sobretudo, os bispos devem colocar as mãos a sério e profundamente na formação dos futuros sacerdotes.  Ainda hoje temos seminários que defino «tridentinos liberalizados».  Não devemos dar mais passos rumo à «liberalidade», mas empreender o caminho da «radicalidade».  A formação deve consistir em ser capaz de viver hoje o Evangelho de uma forma radical.

Também neste aspeto, olhemos para o Papa Francisco : na Europa ouvimos muitas vezes que Francisco é um Papa liberal.  O Papa Francisco não é liberal :  é radical.  Ele vive a radicalidade do Evangelho. É o paradigma integral não só da sua missão, mas da sua vida, porque interiorizou a radicalidade do Evangelho.  Pensai na sua radicalidade na misericórdia, e também na proclamação do Reino de Deus.  Vedes, não se pode manter um jovem separado do mundo, numa vida de tipo monástico durante seis anos e depois queixar-se que ele acaba por pressupor uma própria diversidade.   Também neste caso não é um problema - repito - de estruturas, mas, de missão. Precisamos de compreender, ou melhor, de recompreender, o que significa ser pastores hoje.  Assim como todos nos devemos perguntar o que significa ser cristãos hoje.   Esta é a questão.  E esta pergunta é também a marca deste pontificado : aceitar a inadequação de uma pastoral filha de épocas já passadas e repensar a missão. Uma escolha que tem difíceis e corajosas implicações teológicas.

E a atitude de delegação dos leigos?

Acho que, tanto devido aos resultados deste Sínodo como à redução das vocações, o equilíbrio entre leigos e clero será muito diferente no futuro do que o atual.  No entanto, existe um obstáculo ao desenvolvimento de um diálogo construtivo que deve ser removido primeiro. Refiro-me ao facto de que o confronto gira frequentemente apenas em volta do tema do «poder».  O sínodo alemão, por exemplo, é muito influenciado por este tópico.   Penso que limitar o confronto intra-eclesial à questão do poder é profundamente errado. Tanto da parte daqueles que «contestam» o poder, como da parte de quantos «defendem» o poder.  A sinodalidade vai muito além do discurso sobre o poder.  Se as pessoas perceberem a autoridade do bispo ou pároco como «poder», bem, então temos um problema. Pois somos ordenados para um ministério, para um serviço.  Autoridade não é poder. 

Vossa Eminência fala de uma inadequação da pastoral em relação aos tempos. Por quê? Em que tempos vivemos?

É muito interessante o que Zuppi diz na entrevista concedida a vós, quando tratais o tema da mudança antropológica.   E concordo com ele que este é o tema que mais precisa de nos interpelar.  Vedes, a minha geração já experimentou e está a experimentar mudanças que nenhuma geração experimentou antes. Eu diria que as maiores desde a invenção da roda. Com a diferença de que hoje tudo muda com uma velocidade inaudita há apenas algumas décadas.  É impressionante como, por exemplo, um rapaz de 15 anos já é radicalmente diferente de um rapaz de 20. Hoje nem sequer o podemos imaginar, mas haverá transformações antropológicas muito grandes. Sabendo que o homem só pode influenciar parcialmente a própria evolução. A questão que levantastes, e que precisa de ser mais desenvolvida, é que não estamos a falar de antropologia cultural, mas de mudanças que também dizem respeito à esfera biológica, natural.

E portanto também a pastoral deveria dar-se conta...

Não quero parecer tranchant, mas com muita franqueza, a nossa pastoral  fala a um homem que já não existe. Devemos ser capazes de proclamar o Evangelho, e fazer compreender o Evangelho, ao homem de hoje que, na sua maioria, o ignora. Isto implica uma grande abertura da nossa parte, e também uma disponibilidade - embora firmes no Evangelho - para nos deixarmos transformar também nós. 

Quando falamos de mudanças antropológicas, o pensamento corre em primeiro lugar para o da relação homem-mulher. A maior mudança. Já Paulo vi tinha-a prefigurada.

Sim. Humanae Vitae é um texto maravilhoso. É realmente uma pena que só tenha ficado na história por causa do julgamento sobre os contracetivos. Pensai por exemplo na ideia que propõe do amor esponsal como uma imagem do Deus Trino. Quando ensinei no Japão sobre estes temas, desenhava um triângulo explicativo cujos vértices eram :  sexualidade,  dom da vida e  amor esponsal.  Hoje, as coisas no mundo mudaram radicalmente. Antes, a sexualidade e o dom da vida eram separados, e agora também sexualidade e  afetividade. Muitos jovens vivem a sexualidade de uma forma totalmente separada da afetividade. E não inventaram isto sozinhos, mas aprenderam-no com o mundo adulto. O matrimónio - não apenas o  sacramental - é uma prática que caiu em desuso em grande parte da Europa. E o mesmo se aplica à transmissão da herança; as pessoas na Europa podem agora viver sem a herança cultural dos pais. Cada geração é praticamente um novo começo. E o distanciamento nas idades dado por uma população cada vez mais idosa dificulta ainda mais esta transmissão.

Cardeal Hollerich, permanecendo neste argumento, há a questão da adaptação da pastoral a estas mudanças antropológicas.

Certamente. E é precisamente a necessidade pastoral que tem suscitado uma reflexão sobre   o tema dos géneros que  suscitou algumas críticas. Há uma suposição que me inspirou.  Procuro, por quanto me é possível nas dificuldades do meu papel, manter uma relação pessoal viva com os jovens. Porque antes de ser cardeal sou um sacerdote; um pastor.  E vejo constantemente que os jovens deixam de considerar o Evangelho, se tiverem a impressão de que estamos a discriminar. Para os jovens de hoje, o valor mais elevado é a não discriminação. Não só a do género, mas também étnica, de proveniência, de classe social. Sobre a discriminação zangam-se mesmo! Há algumas semanas conheci uma jovem de vinte anos que me disse : «Quero deixar a Igreja, porque ela não acolhe casais homossexuais», e eu perguntei-lhe : «Sentes-te discriminada porque és homossexual?» e ela respondeu : «Não, não! Não sou lésbica, mas a minha melhor amiga é. Conheço o seu sofrimento, e não quero fazer parte daqueles que a julgam».  Isto fez-me refletir muito. 

Mas, cardeal, as igrejas protestantes que adotam uma abordagem mais liberal e abençoam casais homossexuais, não parece que encontrem uma maior apreciação entre os jovens...

Claro que não.  Porque isso não é suficiente.  Precisamos de uma mudança de paradigma cultural mais profunda, e de uma conversão de espírito. Não se trata de um problema de direito canónico, normas ou estruturas.   Foi o que o Papa disse à Igreja alemã. «Estai atentos a não começar pelas estruturas; começai antes pela vida do povo de Deus, pela missão, pela evangelização».  Anunciar o Evangelho hoje significa proclamar a alegria da vida em Deus, encontrar o sentido da vida em Jesus Cristo. O que não é uma frase feita, porque devemos ser capazes de comunicar que viver no seguimento de Cristo significa viver bem, significa desfrutar a vida. Somos chamados a anunciar uma boa notícia, não um conjunto de normas ou proibições. 

Onde a boa notícia é o kerigma original...

Sim, é claro.  Vedes a pós-modernidade, tal como o racionalismo que a precedeu, debate contra um limite insuperável.  Que é a perceção angustiante da finitude humana. Quanto mais cresce a capacidade intelectual e cognitiva do homem, mais resulta  evidente a sua incapacidade de responder à pergunta que o acompanha - racional mas também inconscientemente – por toda a sua existência : «por que a vida acaba?», «por que este meu ‘eu’, que ninguém mais conhece na sua profundidade, está destinado a morrer?». O movimento astuto da civilização de consumo na qual vivemos é esconder e exorcizar a questão, com o engano do mito da eterna juventude. Assim, a «nova evangelização» hoje é mostrar uma hóstia elevada dizendo «quem como deste pão nunca morre».  Uma ética do amor - e da misericórdia - é portanto sucedânea à revelação que «já não se morre».   Devemos gritar nas praças e  dos terraços «já não se morre»! E se não o gritarmos, limitando-nos a propor uma ética do bom viver, não podemos então queixar-nos de que já não há crentes!  Acreditar na vida eterna, no entanto, significa acreditar que a vida eterna já está aqui, agora.  E que como tal deve ser vivida, e desfrutada. Estou muito assustado neste sentido por uma crescente conceção funcionalista da vida, pela qual, se não funcionar, deita-se fora. Fiquei aterrorizado ao ver nos Países Baixos a extensão da prática da eutanásia até aos doentes psicológicos.  Isto também é o resultado da ideologia consumista penetrante : antes, se a  televisão se avariasse, levava-a ao reparador, e os  sapatos ao sapateiro; hoje deitamos-os fora. E querem fazer o mesmo com a vida, se esta não «funcionar», se se tornar um fardo para a sociedade, deitam-no fora.  O mesmo se aplica ao início da vida : preocupa-me ouvir no Parlamento Europeu aqueles que invocam a atribuição do status de direito «‘fundamental’ ao aborto, porque se é um direito fundamental então é um direito absoluto e por isso já não admite uma recusa de consciência.   Isto também é absurdo.  Lembremo-nos sempre que a vida, mesmo que limitada, é bela».

Assim, começar de novo a partir de um túmulo vazio numa manhã de Domingo de Primavera em Jerusalém.

Claro que sim. Essa é a boa notícia! E quero acrescentar : todos são chamados a isso. Ninguém excluído : também os divorciados casados de novo, os homossexuais, todos. O Reino de Deus não é um clube exclusivo. Abre as suas portas a todos, sem discriminação. A todos!  Por vezes há debates na Igreja sobre a acessibilidade destes grupos ao Reino de Deus. E isto cria uma perceção de exclusão entre alguns do povo de Deus. Eles sentem-se excluídos e isto não é correto! Não se trata de sutilezas teológicas ou dissertações éticas : aqui é simplesmente uma questão de afirmar que a mensagem de Cristo é para todos!

No entanto, existe objetivamente um problema teológico. O senhor mesmo já o referiu em entrevistas anteriores, apelando a um repensamento da doutrina.

 O Papa Francisco recorda frequentemente a necessidade de a teologia se originar e desenvolver a partir da experiência humana, e não continuar a ser fruto apenas da elaboração académica. Muitos dos nossos irmãos e irmãs dizem-nos que seja qual for a origem e causa da sua orientação sexual, certamente não a escolheram. Não são «maçãs estragadas». São também fruto da criação. E em Bereshit lemos que em cada passo da criação Deus está satisfeito com a sua obra, dizendo «...e viu que era coisa boa». Dito isto, quero ser claro : não penso que haja espaço para um matrimónio sacramental entre pessoas do mesmo sexo, porque não há uma finalidade procriadora que o caraterize, mas isso não significa que a  relação afetiva não tenha valor algum. 

No entanto, os bispos belgas pronunciaram-se a favor da possibilidade de abençoar estas uniões.

Francamente, a questão não me parece decisiva. Se nos cingirmos à etimologia do ‘bem-dizer’, pensai  que Deus poderia alguma vez ‘dizer-mal’ de duas pessoas que se amam? Eu estaria mais interessado em discutir outros aspetos do problema. Por exemplo : o que está a impulsionar o vistoso crescimento da orientação homossexual na sociedade? Ou por que a percentagem de homossexuais nas instituições eclesiásticas é mais elevada do que na sociedade civil?

Cardeal Hollerich, Vossa Eminência é o presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia. Estamos a viver um momento dramático. Após quase 80 anos, a guerra voltou a aparecer na Europa. Por incrível que pareça, a ameaça nuclear nunca como antes de hoje se tornou atual.  Perante isto, a presença ativa da Europa política promotora eficaz de paz parece fraca, débil, não escutada.

Temos de fazer a paz. Promover a paz entre as nações é como fazer a paz entre homens : deve haver sempre um compromisso entre as respetivas razões presumidas. Todos devem procurar identificar-se com as razões dos outros, mesmo que não as partilhem. E a partir daí, encontrar um compromisso.  Caso contrário, podemos ter uma trégua do conflito armado, mas não uma verdadeira paz.  A história ensina-nos que os conflitos latentes mais cedo ou mais tarde explodem em guerras.  Este também era um conflito que se arrastava há muito tempo, mas ninguém queria realmente trabalhar pela paz. Dito isto, confirmo o que dizeis : a Europa política é muito fraca.  É assim porque a prioridade política da Europa é manter os seus países constituintes, que são muito diferentes uns dos outros, unidos às suas instituições, especialmente após o alargamento a 27.   Claro que, concentrando-se mais na dinâmica interna, enfraquece a sua projeção externa, o seu protagonismo político.  Mas os líderes europeus devem compreender que o equilíbrio não é alcançado ad intra, mas ad extra, através de políticas de confrontação e proposta original com outras potências.  E isto constitui hoje um grave vulnus nos equilíbrios mundiais porque a Europa tem a inspiração para a paz no seu adn. Acho que também as forças que se  inspiram no popularismo devem comprometer-se a redefinir a sua identidade. Atualmente, o léxico europeu comum ‘popular’ é identificado com ‘conservador’, e isto não é bom. Portanto, é necessário especificar ‘popular’ na tradição dos democratas-cristãos, que tanto significado tiveram em muitos países europeus. Ou seja, recuperar esse perfil ‘social’ dos populares que o liberalismo de certo modo obscureceu. Também porque o popularismo é o único antídoto sério para o populismo.

Mas o populismo parece ainda estar a aumentar em muitos países europeus.

Onde o populismo ganha, enfrenta o desafio do governo. O problema com o populismo é que ele fornece respostas simplificadas às questões cada vez mais complicadas colocadas pelo mundo de hoje.  Pensai, por exemplo, nas receitas soberanistas propostas a um mundo que, ao contrário, está cada vez mais inextricavelmente ligado.  Preocupo-me com o que poderá acontecer caso os populistas falhem o desafio do governo.  Iriam culpar irrevogavelmente outras pessoas : migrantes, refugiados, Bruxelas. Exacerbando ainda mais as tensões sociais. E não há absolutamente necessidade disso.

Mas acredita que as derivas autoritárias, ou como se diz hoje em dia, autocratas, ainda podem ter lugar na Europa?

Não sei. Espero que não. Mas acredito que todos devemos começar a pensar sobre as condições da democracia. Pensamos até agora que a democracia era a única forma política possível no Ocidente. Mas até no Ocidente podemos sentir alguns rangidos. Temos de pensar no que significa ser um país democrático, um continente democrático, hoje. Espera-nos um inverno rigoroso, no qual muitos sofrerão de frio, pobreza, desemprego : será um teste à resiliência da democracia.  Até agora a democracia era sustentada através do bem-estar da maioria, hoje isso não é suficiente. É fácil ser amigos e democratas no rico almoço de domingo, mais complicado no dia do jejum.

Uma última questão. Como imagina a Igreja na Europa daqui a 20 anos?

Será muito menor. A maioria dos europeus não conhecerá Deus nem o seu Evangelho. Menor, mas também mais viva. Creio que esta redução em números é, no plano de Deus, necessária para ganhar um novo impulso. Nalgumas partes do norte da Europa será predominantemente uma igreja de migrantes; os ricos autóctones  são os primeiros a abandonar o barco, porque o Evangelho choca com os seus interesses. O  desejo do Papa Francisco é este : uma igreja pobre, uma igreja viva.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-10/cardeal-hollerich-igreja-pobre-viva-entrevista.html

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Hinder: Iêmen, periferia esquecida do mundo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Deborah Castellano Lubov


‘A emergência humanitária no Iêmen, que está fazendo milhões de pessoas passar fome, foi lembrada pelo Papa em muitas ocasiões, mas esquecida pelo mundo e por aqueles que estão cansados de ouvir falar sobre o conflito. A consideração está no centro de uma entrevista ao Vatican News concedida pelo bispo Paul Hinder, que ocupou o cargo de Vigário Apostólico da Península Arábica por mais de uma década, e cuja demissão por causa do limite de idade foi aceita pelo Papa no domingo 1º de maio. Os números do país são trágicos : de uma população de 31,9 milhões de pessoas, 23,4 milhões necessitam de assistência humanitária, de acordo com a ONU. 17,4 milhões, ou mais da metade do total, estão em grave insegurança alimentar, e 2,2 milhões de crianças correm perigo de vida.

O bispo nascido na Suíça, e que fez 80 anos há uma semana e supervisionou a primeira viagem de um Papa à Península Arábica em 2019 com a histórica primeira missa celebrada para seus fiéis em cerca de 1.400 anos, discute seja dos frutos dessa viagem seja da fase atual no Iêmen, onde a trégua acordada no início de abril está prestes a expirar sem nenhuma certeza para o futuro :

Dom Paul Hinder, mesmo que todas as partes em conflito no Iêmen tenham concordado com uma trégua de dois meses, que está prestes a expirar, qual é a situação no Iêmen?

Espero que a trégua seja o início de negociações sérias, pois tenho a impressão de que as partes estão um pouco cansadas da guerra e perceberam que ela não pode ser vencida no terreno. Eles têm que encontrar outra maneira, e esperamos que funcione. Mas as negociações não resolvem todos os problemas. Temos que considerar como reconciliar as diferentes facções dentro do país para que não haja bolsões de resistência que possam retomar o fogo a qualquer momento. Esse é outro problema.

Muitos interesses estão alimentando esta guerra. A comunidade internacional está em silêncio sobre o Iêmen. O Papa fez vários apelos. Por que esta questão está ausente da mídia? De uma perspectiva internacional, o que pode ser feito além do fornecimento de ajuda humanitária?

Acho que isso tem em parte a ver com a inflação da informação e o fato de que as pessoas estão simplesmente cansadas de ouvir as mesmas notícias repetidas vezes. Internacionalmente, o Iêmen tem sido discutido no Conselho de Segurança da ONU e na Assembleia Geral da ONU, mas relativamente pouco tem acontecido. A missão especial da ONU também fez o seu melhor, mas, no final, houve poucos resultados. Quem é responsável por isto é muito difícil de dizer. Naturalmente, há vários protagonistas : a Arábia Saudita com seus aliados. Existe o Irã. Existem questões internas : tribais, interesses políticos, interesses econômicos. Em termos teológicos, também temos que levar em conta o diabo que está sempre presente para ser um causador de problemas. Isto me faz refletir mais sobre a importância do poder da oração, como Jesus nos disse. Sabemos como rezar.

O que pode ser feito para ajudar a emergência alimentar e a desnutrição que afetam o país?

Eu vejo principalmente dois aspectos. Um deles é tentar estabelecer corredores de transporte seguros para que os alimentos e a ajuda possam ser levados para os lugares e regiões críticas.   Em segundo lugar - isto talvez seja igualmente, se não mais importante - assim que houver um cessar-fogo mais longo e, se possível, uma paz subsequente, o país precisa voltar à produção. Há possibilidades. O Iêmen é um país pobre, mas há possibilidades de produzir alimentos dentro e para o país. Entretanto, uma guerra contínua coloca toda a produção interna em risco, como aconteceu aqui no Iêmen e também na Ucrânia. No Iêmen tem sido assim há anos. Temo que agora com a guerra na Ucrânia a situação se torne ainda mais grave, pois sabemos que a Ucrânia é um dos principais produtores de grãos e indiretamente de alimentos para diferentes partes do mundo. E o que acontecerá se eles não puderem plantar as sementes e prosseguir com a produção por causa da guerra?

Qual é o valor dos apelos do Papa por guerras esquecidas, como os que ele fez pelo Iêmen? Existe uma forma de continuar a trégua ou o que deve ocorre quando ela expirar?

A voz do Papa é ouvida, mas agora estas guerras esquecidas são de pouco interesse. O Iêmen está para muitos realmente na periferia do mundo, ainda que estrategicamente seja um lugar importante. As pessoas só pensam no Iêmen quando o Canal de Suez está bloqueado e os suprimentos da Ásia e da África não circulam mais como antes. Depois eles ficam assustados. Há uma população de mais de 30 milhões de pessoas sofrendo em um país antigo e belo. Em outras partes do mundo, isto é muitas vezes esquecido porque outros conflitos estão mais próximos do coração das pessoas e também da mídia. Eu mesmo falei com o Santo Padre sobre o comércio de armas e como reduzir este potencial de conflito e violência. Ele deve ser escutado e as pessoas devem segui-lo. Também estou profundamente convencido de que há pessoas na Ucrânia que se beneficiam de toda a produção de armas. Muitos não estão nem mesmo particularmente interessados no verdadeiro propósito da guerra. Esta é a tragédia de toda a história humana.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-05/hinder-iemen-periferia-esquecida-do-mundo.html

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os cristãos pobres, os pobres cristãos

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

 

‘Quem nunca ouviu falar sobre os ‘cristãos pobres da igreja primitiva’? Pois é. Essa interpretação em relação aos primeiros seguidores de Cristo é um tema recorrente em parte da historiografia que trata do tema. É certo que, no cristianismo primitivo, os adeptos da ‘seita’— como era vista pelo Império Romano — não gozavam de privilégios até o início do século IV. E chegaram a ser perseguidos por alguns imperadores da época, que os chamavam de supersticiosos, ateus e traidores do judaísmo.

Sabemos que a caridade é um valor constitutivo do cristianismo desde os seus primórdios. São vários os adeptos da religião que incentivam a prática, seguindo o ensinamento do seu fundador, Jesus Cristo. No entanto, é necessário analisar, com atenção, como as várias comunidades cristãs se estruturavam até a chamada ‘fase constantiniana’, que começa em 313 d.C. E compreender como esses grupos assistiam os mais pobres nas várias províncias do império. Dessa forma, não cairemos naquele anacronismo e romantismo históricos que conduzem as várias interpretações feitas sobre o cristianismo antigo.

Em cada comunidade cristã, as obras de caridade eram administradas das maneiras mais distintas possíveis. Portanto, não podemos afirmar que existia uma política assistencialista padronizada. Não nos esqueçamos que, nos Atos dos Apóstolos, livro bíblico que descreve como acontecia a distribuição de bens entre os seguidores de Cristo, o foco está na comunidade de Jerusalém.

A forma como os cristãos se organizavam naquele território específico não correspondia ao modelo adotado pelos cristãos do Egito, por exemplo. Além disso, o próprio conceito de pobreza, no decorrer desse período, passou por várias elaborações teológicas — sem contar que, em algumas comunidades, é difícil falar de um grupo constituído majoritariamente por pobres, como comumente se pensa.

Os autores cristãos, nos dois primeiros séculos, falavam bastante sobre o valor da partilha e da esmola, embora não questionassem, em muitos escritos, sobretudo em âmbito ocidental, a estratificação social. Prova disso é a normalidade com a qual, no texto Traditio Apostolica, do século II, é tratado o escravo de um patrão cristão. ‘Se é um escravo de um fiel, e o patrão o permite, pode escutar a Palavra’, diz o trecho.

É a partir do século IV que observamos um certo desconforto diante dessas diferenças. Basílio de Cesaréia, um dos mais importantes teólogos dessa fase, chegou a dizer que ‘a divisão entre ricos e pobres era fruto do pecado’.

Os pobres e o império romano

Os primeiros cristãos não foram perseguidos diretamente por causa do acreditavam, haja vista que o império não se importava com a crença de seus súditos. Existia até uma certa tolerância em relação às várias manifestações religiosas, desde que elas não fossem um empecilho para o ordenamento social.

A partir do momento em que os seguidores de Jesus Cristo se recusam a prestar culto ao imperador — gesto considerado um ato cívico por excelência —, eles passaram a ser vistos como subversivos. Não se prostrar diante de César significava desrespeitar as instituições e renunciar à própria cidadania romana. E isso foi um fator preponderante para a promulgação de éditos que ordenavam as mais sangrentas perseguições aos cristãos.

Além disso, o fato de eles comumente se tratarem como ‘irmãos’ em suas reuniões, colocando todos no mesmo patamar, atraiu ainda mais o desprezo coletivo. Era um escândalo para a sociedade romana. Inadmissível que um escravo, por exemplo, desprovido de qualquer reconhecimento por parte do Império, se equiparasse a um cidadão.

Outro fator a ser levado em consideração é que, já no século II, o Império Romano começa a apresentar sinais de enfraquecimento, como relata o historiador inglês Peter Brown. Por conta disso — explica Brown — a quantidade de pobres e necessitados do território aumentou significativamente nessa fase.

Numa sociedade completamente fastosa e dada à ostentação, o pobre era tratado com certo desprezo pela alta nobreza. Parte da literatura romana pagã chega a considerá-lo, inclusive, ‘miserável e preguiçoso’. E nada mais.

Não existia uma reflexão sobre a miséria, nem uma política de enfrentamento do problema. A promoção de espetáculos, bem como a distribuição de grãos, nada mais eram que iniciativas ‘populistas’ do imperador. Alguns ricos, por sua vez, se tornavam benfeitores público, os euergetes, com o intuito de ganhar prestígio entre os membros da aristocracia romana. E é nesse cenário que o trabalho dos cristãos começa a se destacar.

Os ‘descartáveis’

Com a publicação da Constituição Antonina (212 d.C), do Imperador Caracala, a cidadania romana passou a ser concedida a todos os súditos do império, com exceção dos peregrinos chamados deditícios, que provinham de regiões conquistadas por Roma que não aceitavam pacificamente a invasão. Sem a ‘carteira de identidade’ romana, essas pessoas não podiam ter acesso a todos os benefícios.

E são os seguidores de Cristo que, nesse período, atendem a essas populações. A maioria dos pobres assistidos pelos cristãos eram imigrantes. Os estrangeiros compunham ‘a categoria mais miserável entre os pobres’, classificados assim pela mentalidade dominante, que tendia a valorizar somente seus próprios conterrâneos.

O ensinamento cristão não se enquadrava na concepção pagã de comunidade civil. E realiza uma revolução na medida em que passa a transcender o próprio sentido da benfeitoria. A doação, vista simplesmente como um ato de justiça e benevolência, inclusive por outras religiões monoteístas, se torna caridade, um ato de amor dispensado a quem se faz próximo, não somente ao compatriota. Alguns teólogos primitivos diziam que onde existisse um rico cristão era inconcebível que alguém passasse fome.

Todos eram pobres?

As fontes em relação ao cristianismo primitivo são bastante escassas. Porém, as informações às quais temos acesso nos permitem individuar como algumas das principais comunidades cristãs atendiam aos mais necessitados.

No Octavius, de Minúcio Félix, escrito no século II, os cristãos de Roma são classificados como ‘pessoas desprovidas de bens’. O livro, de teor alegórico, mostra o diálogo entre um cristão e um pagão sobre a religiosidade autêntica. O personagem pagão Cecilio Natalis se refere assim aos seguidores de Cristo : ‘Muitos de vocês são necessitados, passam frio e suportam a fadiga e a fome’.

Alguém pode pensar, com base nesse texto : ‘Aí está a confirmação de que todos os cristãos eram pobres’. Não é bem assim. A primeira coisa que precisamos ter em mente é que o texto se ambienta na cidade de Roma e narra o estilo de vida dos cristãos daquele local específico.

No caso de Alexandria, uma das cidades mais ricas do Império, a situação já é outra. O teólogo grego Clemente, que viveu parte de sua vida nessa cidade egípcia (por isto é chamado de Clemente de Alexandria), questiona, no discurso Quis dives salvetur, se a riqueza não seria um impedimento para a salvação. É o primeiro texto a se debruçar sobre o tema. Ele o escreveu pensando na adesão em massa, ao cristianismo, de muitos alexandrinos ricos. Diz que há espaço para eles no céu, desde que comprometam a administrar a riqueza segundo os moldes do cristianismo.

Algumas comunidades cristãs mantinham uma ‘caixa comum’ ou ‘fundo de caridade’, onde principalmente os ricos batizados deveriam destinar parte de seus ganhos para quem mais precisava. Jerusalém e Cartago, por exemplo, adotaram esse sistema. Em outras cidades, a administração desses recursos, destinados aos mais pobres, funcionava de outra forma.

Na Apologia de Aristides, outro texto cristão dessa época, está escrito, em outras palavras, que é impossível dissociar a religião nascente da prática da caridade. Na Didaché, do sec. I, considerado o primeiro catecismo cristão, dar as costas ao indigente era uma ofensa à fé que se professava.

Os três primeiros séculos do cristianismo foram marcados por esse debate em torno da riqueza. O questionamento era se o acúmulo de bens não seria uma incoerência frente ao discurso de despojamento propagado por Jesus Cristo. Na maioria dos casos, foi visto dessa forma. Quanto menos o indivíduo tivesse, mais estaria perto de Deus.

Porém, apesar das divergências relativas à definição de uma postura que correspondesse melhor aos valores evangélicos, tanto os escritores do Oriente quanto os do Ocidente não negligenciaram, em nenhum momento, a essência da mensagem cristã. A ideia de se criar uma rede de solidariedade, encabeçada pelos batizados, era, para eles, o grande diferencial — o que melhor os distinguiam dos demais. Também afirmavam que é próprio do cristão assumir uma atitude de desapego em relação aos bens. Do contrário, acabariam por macular a doutrina em que o amor devia ter a primeira e a última palavra.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://estadodaarte.estadao.com.br/cristaos-pobres-mirticeli/

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Mulheres cristãs no Paquistão enfrentam discriminação e pobreza

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Fundação AIS


‘A vida dos cristãos no Paquistão não é fácil. Como membros de uma minoria religiosa, frequentemente são vítimas de discriminação e exclusão social. A maioria dos cristãos pertence às classes mais pobres da sociedade. Muitos deles não possuem apoio jurídico e são ignorados pelas forças da lei e da ordem quando tentam defender seus direitos humanos. Para as mulheres cristãs então, essa vulnerabilidade é ainda maior e mais perigosa. Os relatos públicos de abuso sexual e casamentos forçados são cada vez mais numerosos, e o número real de casos é provavelmente ainda maior.

A fundação pontifícia ACN – Ajuda à Igreja que Sofre está apoiando um programa que visa capacitar jovens mulheres cristãs que vivem nessas circunstâncias extremamente difíceis. Muitas das jovens envolvidas no programa são estudantes ou domésticas nas áreas suburbanas de uma grande cidade paquistanesa.  Por preocupação com a segurança das jovens ou mesmo dos parceiros locais da ACN, a fundação de caridade não está revelando os nomes verdadeiros ou localidades, mas, no entanto, irá compartilhar algumas histórias dessas mulheres cristãs do Paquistão.

Uma das jovens, ‘Samia’, vive no norte do Paquistão com seus pais e quatro irmãos. O pai dela é operário e a mãe dela é dona de casa. ‘Como pertenço a uma família cristã, meus pais sempre me alertaram para nunca falar sobre diferenças religiosas com outras pessoas. Eles nos ensinaram a simplesmente suportar qualquer tipo de discriminação, uma vez que não temos influência, dado que estamos vivendo em um país muçulmano. Tenho medo de ser discriminada pelas leis; somos uma minoria e não temos apoio no Paquistão. Vivemos com ansiedade e pressão constante. Acreditamos que se tentarmos defender nossos direitos, seremos acusados de blasfêmia como já ocorreu no passado’, explica.

‘Graças ao meu envolvimento no programa de avanço das mulheres promovido pela ACN, estou mais fortalecida em minha fé. O programa nos ajuda a estar mais conscientes de nossas responsabilidades e nossos direitos. Eles estão nos encorajando a nos mantermos fortes e a lutar contra a discriminação e a conversão forçada, assédio e violência e a defender nossos direitos’, diz Samia, que tem 20 anos. O programa me encorajou a ‘trabalhar duro, para que nossa comunidade possa ter um futuro melhor’.

Outra jovem envolvida no programa, ‘Ashia’, é filha de um varredor de rua e ganha apenas 10.000 rúpias (cerca de 310 Reais) por mês. ‘Quando fui para a universidade, sofri muitos atos de discriminação por parte dos meus professores e colegas, e não conseguia me concentrar nos estudos’, explica Ashia, de 17 anos. Ela compartilhou suas dificuldades com uma amiga, que a encorajou a se envolver no programa da ACN. ‘Eu ouvi as sessões de aconselhamento e eles me deram uma nova esperança de poder lidar com minhas circunstâncias. Prometi a mim mesma que não lhes daria outra oportunidade de destruir meu futuro. Vou estudar muito e mostrar às pessoas que o Senhor está sempre conosco, que Ele nos dá força, nos guia e nos protege’, conclui.

Outro caso típico é o de ‘Shazia’. Como muitas jovens cristãs, esta jovem de 19 anos tinha grandes sonhos. O pai dela, um motorista de riquixá (meio de transporte em que uma pessoa puxa uma carroça de duas rodas com um ou dois passageiros), era a única pessoa que sustentava a família. Com muito esforço por parte de sua família, ela conseguiu estudar engenharia de software na universidade. Mas devido à crise financeira ela teve que abandonar seus estudos em seu segundo ano. ‘Comecei a trabalhar em uma fábrica para ajudar meu pai a sustentar a família. Eu ganhava entre oito e dez mil rúpias paquistanesas por mês (cerca de 300 Reais). Achei que esse era o meu destino e esse seria o meu futuro’, lembra. Até ser apresentada ao programa de apoio e avaliação profissional apoiado pela ACN. ‘Isso acendeu a centelha de esperança de que era possível fazer algo diferente em nossas vidas e conseguir trazer mudanças positivas, para tantos jovens desesperados como eu. A palestra motivacional me inspirou muito, e percebi que a educação é a única ferramenta e a chave para o sucesso. Tudo é possível se nos comprometermos de todo coração e enfrentarmos as dificuldades da vida com coragem’, diz Shazia agora.

Uma das participantes mais jovens do programa é ‘Nasreen’, com apenas 15 anos. Ela estava no nono ano de um curso de escola estadual quando a pandemia destruiu sua vida. Seu pai trabalha como diarista e o confinamento trouxe problemas financeiros, incluindo as taxas escolares ou o custo das aulas online na internet. O resultado de tudo isso foi que Nasreen não podia mais pagar seus estudos. Ela era a única mulher cristã na classe e teve de deixar as aulas online. ‘Fiquei muito magoada e chateada, mas não pude falar sobre isso com meus pais porque eles já estavam sofrendo muito por conta da situação financeira difícil da família’, lembra. ‘Não foi a primeira vez. Meus colegas me submetiam a constante discriminação e preconceito por causa de nossa religião. Eu estava completamente perdida e desesperada por causa do que estava acontecendo comigo’, explica Nasreen. ‘Então eu conheci a equipe que estava executando o programa da ACN e que estava oferecendo uma sessão para um grupo de meninas como eu. Eles nos explicaram que a formação era vital para poder crescer pessoal e espiritualmente’, diz.

O apoio moral e o incentivo que os cursos proporcionam são absolutamente essenciais para ajudar essas jovens mulheres cristãs, que muitas vezes se sentem sobrecarregadas e abandonadas diante de seu destino aparente.  ‘Sou muito grata à ACN por ter sido a fonte de uma mudança tão grande na minha vida. Por enquanto, a chama de fé e esperança está iluminando meu caminho e não vou deixá-la ser extinta por qualquer tipo de discriminação’, diz Nasreen.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/06/28/mulheres-cristas-no-paquistao-enfrentam-discriminacao-e-pobreza/