Por Eliana
Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo
de Antonella Palermo
‘No
Malauí, um dos países africanos mais pobres e esquecidos do mundo, há uma
pequena Bérgamo. Uma das cidades italianas mais atingida pelo coronavírus. Rita
Milesi, nasceu em Bérgamo, há 77 anos e está no Malauí desde 1974. Ela conta
que perdeu três amigos de Bérgamo que lhe enviavam apoio através das adoções a
distância das suas crianças. Explica que ‘em alguns vilarejos há alguns
focos da doença, mas estão bastante isolados. A impressão é que as pessoas
ainda não entenderam realmente a seriedade disso. Enquanto isso, fizemos 5000
máscaras e aqui todos os funcionários do Centro sãos obrigados a usá-las’.
Rita fundou no país o Alleluya Care Center, onde são assistidas
crianças órfãs e desnutridas. É uma leiga voluntária, mora sozinha, uma mulher com grande tenacidade
e alegria interior e muito amável e simpática que mesmo por telefone, transmite
a vontade de ir até o Malauí para conhecê-la pessoalmente.
A África, um sonho
antigo
Agora
todos a chamam de ‘Mãe Rita’. Antes da longa aventura africana, Rita
trabalhou por mais de dez anos em algumas estruturas públicas em Bergamo e
Milão como enfermeira e educadora em uma creche. O amor pelas crianças sempre a
caracterizou, desde que estudava na escola primária. Em 1974 decidiu partir
para as missões através do Celim (Centro de Leigos Italianos para as Missões).
Trabalhou dez anos em um hospital no Malauí como enfermeira na pediatria. Foi
uma das primeiras missionárias leigas a chegar nestas montanhas. Na época era
difusa a cólera, a malária, e muitos casos de lepra e nos anos Oitenta
começaram os casos de AIDS, tudo sem medicamentos adequados e insuficientes. ‘Fazíamos
as vacinas debaixo de um pé de manga – conta - acudindo os poucos órfãos que
chegavam de seis vilarejos no hospital, em uma pequena estrutura cedida pelo
bispo. Em 2002 o hospital diocesano fechou por falta de fundos. Morei em uma
cabana por nove meses. Depois fui ao Brasil onde fiquei pouco tempo e à Costa
do Marfim por três anos. Estava procurando o meu centro. Enfim descobri que o
meu coração ficara no Malauí’.
Crianças sozinhas
encontradas até sob arbustos
Hoje
Rita vive em Mangochi, no sul do Malauí, onde reestruturou e fundou o Alleluya
Care Center, depois de ter vendido os bens que herdara de seus pais. ‘Os
primeiros anos foram felizes, todas as nossas esperanças, todo o nosso amor,
todas as nossas jovens energias lançadas no cuidado de crianças órfãs ou
abandonadas, doentes e desnutridas. Não vamos à procura dos pobres porque eles
estão fora de nossa casa. Os próprios familiares os trazem até nós. Ou os
encontramos nos lugares mais impensáveis, à beira dos caminhos ou debaixo de
arbustos. Nós cuidamos dessas crianças, e quando elas atingem a idade de três
anos, as devolvemos aos seus parentes, se forem encontrados. Todos os meses –
ela conta - vamos ver como eles estão, levando roupas e remédios. Se não
encontramos ninguém mesmo, através dos serviços sociais, fazemos adoções às
famílias interessadas. Em Bérgamo temos um, em Gênova outro, na Austrália temos
cinco’.
A história de Bakhita,
parecia um coelho sob as plantas
Rita
já salvou 2.500 crianças em todos esses anos. Recorda o caso de Bakhita. ‘Nós
a encontramos debaixo de um pé de banana. Corria o risco de ser morta porque
parecia um coelho. Aos seis meses a levei para a Itália para uma operação no
coração. Agora tem vinte anos, mora em Bérgamo, e nestes dias saiu do hospital
depois de mais uma cirurgia. Mas pelo menos cresceu em um ambiente protegido –
explica Rita – e tem uma família que adora, apesar das cicatrizes físicas. Uma
outra história é a de um menino encontrado na rua, estava na calçada.
Calculamos que tinha dois anos e pesava 4 quilos. Cuidamos dele e agora está
muito bem e feliz, mas não sabemos quem é a mãe. Nós estamos entre Malauí e
Moçambique, talvez ela tenha fugido para lá. Já fiz todas as assinalações, mas
até agora não apareceu ninguém. Cuidaremos dele, aqui no Malauí já
conseguimos adotar cinco crianças’.
Fui pobre, amo os
pobres
Em
2017, Rita conseguiu abrir uma creche para estas crianças sem pais. ‘Eu não
queria fazer uma escola só para eles - esclarece - porque as crianças têm que
interagir. Cheguei a ter 200 crianças e 50 órfãos. Infelizmente, aqui a
mortalidade precoce é generalizada. As mães, devido à fome, são anêmicas, por
isso quando dão à luz muitas delas morrem’, explica. ‘Acontece com
frequência que homens e mulheres adoecem e morram de AIDS, deixando os seus
filhos com os avós, que em muitos casos têm enormes dificuldades em cuidar
deles, porque eles próprios devem ser cuidados. Nós estamos entre os pobres.
Mas eu amo os pobres. Fui pobre e amo os pobres. E eu rezo sempre pelo Papa
Francisco, que ama tanto os pobres. Eu gostaria muito de conhecê-lo, abraçá-lo,
chorar com ele’.
Que o novo Presidente
dê justiça e reconciliação.
Alguns
dias atrás foram feitas as eleições presidenciais no país que elegeram o líder
da oposição Lazarus Chakwera. ‘Temos realmente que agradecer ao Espírito
Santo que ajudou estas pessoas’, disse Rita sobre a eleição, ‘muitos estavam
cansados de serem enganados. O novo presidente não quer as separações
norte, sul e centro. Todos, católicos, muçulmanos e protestantes, devem
colaborar. Quer que todos nós sejamos Malauianos. Ele quer mais igualdade, paz
e reconciliação. Acredito que ajudará também os pobres’.
Apelo aos jovens para
prosseguir o trabalho de Rita
‘Depois
de criar estas crianças, as separações dão tristeza, as lágrimas descem
abundantes’, diz Rita, enquanto nos envia as fotos desta preciosa obra, ‘mas
devo deixá-los voltar aos seus povoados, quando for possível, porque essa é a
sua realidade, as suas origens, o seu povo. Devemos ajudar estas
crianças. Eles querem viver. Se Deus nos colocou aqui, há uma razão, que
devemos dar esperança’. Como a senhora lida com a solidão? ‘Muitas vezes
a solidão toma conta de mim, mas eu digo : Mãe, Pai, dai-me a sua fé, a sua
esperança e a sua caridade’. E concluiu com um convite aos jovens : ‘Não
tenham medo, se forem iluminados pelo espírito, doem-se com coragem, porém com
segurança. Força.’’
Fonte : *Artigo na íntegra https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-07/bergamo-malaui-historia-leiga-missionaria.html