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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mariana Spicacci Rigonati


‘O luto, antes de tudo, é uma experiência singular, onde cada sujeito irá senti-lo de uma forma e tempo diferentes. A maioria das pessoas entende o luto como um processo decorrente de uma ausência física, sendo a mais comum pela morte. Mas, para além da morte, o luto pode também ser sentido a partir de uma quebra ou mudança, como o luto por uma separação relacional, a perda de um emprego, um novo colégio e também uma mudança de estado ou país — esses então chamados de lutos não reconhecidos.

Neste texto abordarei o luto não reconhecido no contexto migratório e de refúgio, não apenas focando no enfoque da transitoriedade entre um país e outro, mas sim naquilo que se perde e se deixa ao chegar em um novo destino, muitas vezes de forma forçada, decorrente de questões políticas, migratórias ou religiosas.

O luto invisibilizado

No contexto migratório e de refúgio, o luto não reconhecido representa uma dimensão frequentemente invisibilizada da experiência de deslocamento forçado. Falamos de um tipo de perda que não recebe validação social adequada, deixando muitas vezes os migrantes, refugiados e apátridas sem o suporte necessário para elaborar suas perdas.

Dentro desse contexto, as perdas vivenciadas pelas pessoas vão muito além da dimensão do território físico. Não se perde apenas a casa, mas também as memórias ali construídas; não se perde somente o bairro, mas os vínculos com os vizinhos, as festas tradicionais e o senso de pertencimento. Perde-se o mundo presumido que cada sujeito constrói para si.

Da mesma forma, não se perde apenas o país de origem, mas o contato cotidiano com a língua materna, as redes de apoio tecidas ao longo de décadas, o reconhecimento e o status profissional, bem como as referências culturais que sustentam a identidade. No caso de pessoas refugiadas, soma-se com frequência a perda de entes queridos em contextos de violência, muitas vezes sem a possibilidade de despedida ou da realização de rituais funerários, aprofundando ainda mais o sofrimento vivido.

Por que esse luto não é reconhecido?

Diversas razões contribuem para a invisibilidade dessas perdas. A sociedade de acolhida muitas vezes marginaliza o migrante, não o deixando elaborar suas perdas, e espera que os mesmos demonstrem gratidão pela oportunidade recebida, o que inibe a expressão de tristeza, reclamações e até mesmo verbalização de saudades da terra de origem. Ainda existe também a invalidação caso essa pessoa não tenha tido uma perda física, e ainda mais caso ela tenha feito seu processo de deslocamento de forma voluntária e sem pressões de violência ou questões ambientais.

A barreira linguística dificulta a nomeação e comunicação das emoções complexas associadas ao luto, assim como dificulta que essas pessoas que migram tenham acesso à rede pública de forma legítima e assistida. Além disso, diferenças culturais nos rituais de luto podem tornar a expressão da dor incompreensível ou inadequada no novo contexto.

Outro ponto é que na maioria das vezes pessoas em deslocamento estão sob alerta, procurando imediatamente empregos, novas recolocações, buscando moradias e lutando pela sua sobrevivência em primeiro lugar. Não sobra tempo hábil ou até mesmo conhecimento necessário para que olhem para suas questões psicossociais, e até mesmo façam o reconhecimento interno de seu processo de elaboração.

Caminhos para o reconhecimento e cuidado

É fundamental criar espaços seguros onde migrantes e refugiados possam nomear e compartilhar suas perdas sem julgamento. Profissionais de saúde mental e serviços de acolhimento precisam desenvolver competência cultural para reconhecer as múltiplas formas de luto migratório.

Intervenções terapêuticas culturalmente sensíveis e acessíveis que respeitem os rituais e significados de origem, enquanto facilitam a construção de novos significados, são caminhos importantes. Grupos de apoio entre pares, onde pessoas com experiências similares possam validar mutuamente suas vivências, também são recursos valiosos.

A educação da sociedade de acolhida sobre as complexidades do processo migratório pode reduzir o estigma e criar ambientes mais acolhedores. Políticas públicas que reconheçam não apenas as necessidades materiais, mas também as dimensões emocionais e existenciais do deslocamento são essenciais.

Uma experiência prática

Posso citar aqui minha experiência prática na condução de grupos com imigrantes venezuelanos, acerca do luto. O grupo foi formado por homens e mulheres venezuelanos, em um total de 15 pessoas, residentes do bairro onde a OSC está localizada. Muitos deles relataram sentimentos de tristeza, isolamento social e dificuldades de integração, especialmente pela barreira linguística e pela limitação no acesso ao mercado de trabalho, assim como dificuldade de lidar com o luto pela transição da Venezuela para o Brasil.

O grupo configurou-se como um espaço de escuta e partilha sobre o luto, além de promover atividades artísticas, culturais e rodas de conversa. Tais iniciativas possibilitaram acolhimento, fortalecimento emocional e resgate do senso de pertencimento comunitário entre os participantes, através de dinâmicas, oficinas de arte e cultura, passeios pela cidade, trocas de saberes individuais e rodas de conversas. Todas as iniciativas foram construídas em conjunto com os participantes e também contaram com organizações parceiras para o financiamento.

A iniciativa mostrou-se eficaz para elaboração do luto em conjunto, assim como o fortalecimento comunitário entre os pares. Os participantes relataram sentir-se mais acolhidos, compreendidos e capazes de nomear suas perdas em um ambiente livre de julgamentos. A possibilidade de compartilhar suas histórias com pessoas que vivenciaram experiências similares criou um senso de pertencimento que havia sido perdido no processo migratório.

Considerações finais

Reconhecer o luto no contexto migratório e de refúgio é um ato de dignidade e humanidade. Significa validar que a construção de uma nova vida não apaga as perdas do passado, mas exige integrá-las em narrativas que permitam tanto honrar o que ficou quanto abrir-se para novas possibilidades. Apenas através desse reconhecimento é possível apoiar processos de reconstrução identitária genuínos e sustentáveis.

O trabalho com populações migrantes e refugiadas exige de nós, profissionais e sociedade de acolhida, um compromisso ético com a escuta atenta, o respeito às diferenças culturais e a criação de espaços onde todas as formas de luto possam ser validadas e elaboradas. Somente assim construiremos uma sociedade verdadeiramente inclusiva e acolhedora.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-luto-nao-reconhecido-no-contexto-migratorio-e-de-refugio/

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O sentido liturgico do Dia de Finados

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Adenildo Godoy Barbosa

 

Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá. Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, porque tudo isso já passou· (Ap 21,4). 

‘Por que então a liturgia cristã interessou-se pelos mortos também fora da missa? Por que a Igreja dedicou um dia exclusivo à lembrança dos finados? Você acha válido rezar pelos falecidos? Como você se prepara para viver o momento de sua morte? Por que o ser humano preocupa-se tanto em marcar com sinais exteriores a morte de pessoas queridas?

1. História

O Cristianismo nasceu embebido pela vida, morte e ressurreição de Jesus, o Cristo Senhor. O ápice da vida do filho de Deus foi sentir em sua carne a frieza da morte. Sem dúvida, ao doar amorosamente sua vida na cruz, Jesus viveu em sua própria carne a experiência da morte. Ele morreu realmente. Mas a Graça de Deus, confirmando a mensagem e o testemunho de vida de Jesus, o ressuscitou dos mortos e garantiu assim, a todos os fiéis que nele depositam suas esperanças, a possibilidade de transcender também a fase finita da vida e alcançar a plenitude da personalidade e potencialidades humanas, na realidade de fé que chamamos de Vida Eterna.

Desde muito cedo o Cristianismo celebrou os fiéis que morreram unidos à sua comunidade de fé. Os mártires eram venerados nos locais de seu martírio e as primeiras construções genuinamente cristãs foram monumentos em homenagem a estes heróis da fé. Além disso, as perseguições imperiais obrigavam os cristãos a refugiarem em catacumbas para celebração dos exercícios litúrgicos. E as catacumbas nada mais eram que os primeiros cemitérios cristãos.

Os mais antigos sacramentários romanos atestam o uso de missas pelos defuntos. O costume de rezar pelos mortos em celebrações específicas parece ter surgido pelo fato de que não era possível realizar exéquias dos cristãos no momento da morte, tamanho o medo da perseguição pagã. Assim, dias depois do fato, geralmente uma semana ou mesmo trinta dias, a comunidade reunia-se para as devidas homenagens ao falecido e aos familiares.

Nos mosteiros irlandeses, no século VII, já encontramos rolos com os nomes de monges falecidos, que circulavam entre as comunidades, numa rústica forma de comunicação orante entre os religiosos. Para estes falecidos era sempre dedicado algum ofício religioso solene. Dessa tradição surgiram as necrologias, lista de nomes lidas nos ofícios e os obtuários, lembrando serviços fundados ou obras de misericórdia dos defuntos em suas datas. Passou-se claramente das menções globais aos nomes individuais.

Nos séculos IX e X, no auge do período carolíngio, já é possível encontrar o costume de anotar nomes de falecidos para oferecimento de missas, mas ainda mantém-se a vinculação com o nome de vivos, que faziam suas ofertas generosas para a comunidade cristã. Os ‘libri memoriales’ (Livros Memoriais) carolingianos continham de 15.000 a 40.000 nomes a serem lembrados. Durante as Eucaristias chegava-se a enumerar de 40 a 50 nomes por dia!

Mas foi em Cluny, o renomado Mosteiro francês, que começou a surgir uma explicação da oração pelos mortos. À Igreja Peregrina nos caminhos da história unia-se a Igreja Triunfante (os santos e santas) e à igreja Padecente (aqueles que mesmo mortos ainda não tinham alcançado a plenitude da Ressurreição). Esta união entre santos e pecadores, chamada de comunhão dos santos, já fazia parte da tradição cristã e foi teologicamente elaborada pelo mestre da escolástica, Santo Tomás de Aquino, nos seguintes termos :

Assim como no corpo natural a atividade de um membro se subordina ao bem estar de todo o corpo, também no corpo espiritual que é a Igreja, acontece o mesmo. E porque todos os fiéis são um só corpo, o bem de um comunica-se ao outro.

Tudo indica que foi no século X que, a partir do mosteiro do Cluny, instituiu-se a comemoração dos mortos para o dia 2 de novembro, em íntimo contato com a festa de todos os santos. A Festa dos Mortos será rapidamente celebrada em todo mundo cristão. Trata-se hoje de um dos feriados mais universais do nosso planeta.

2. Sentido da celebração de Finados

No dia de Finados, não festejamos a morte. Seria uma ignorância e uma contradição. Celebramos sim, nossa fé na ressurreição e a esperança do encontro na morada que Jesus nos preparou, no seio amoroso de Deus. A comemoração dos fiéis defuntos é uma oportunidade ímpar para agradecer a Deus pela existência daqueles que nos precederam e, de certa forma, participaram da construção de nossa própria história.

O gesto mais comum em Finados é a visita ao cemitério, a participação na Eucaristia e as devoções próprias de cada cultura, como acender velas, oferecer flores e enfeitar os túmulos dos falecidos. Em todos estes gestos antropologicamente enraizados no ser humano transparece a consciência que temos de nossa finitude e da necessidade absoluta de apego ao Divino para a manutenção da esperança em glorificação da existência.

Acendemos velas para lembrar que essa luz segue iluminando-nos, em nossos corações. Veneramos seus exemplos e imitamos sua fé (Hb 13,7). Enfeitamos as sepulturas com flores, símbolo da ressurreição. Nossos mortos são plantados como sementes, regadas com nossas lágrimas, e florescem ressuscitados no jardim do Senhor.

Além disso, ao recordar a vida de um ente querido, nós próprios deparamo-nos com a realidade da morte em nossa vida e pesamos nossos comportamentos pessoais e sociais. A presença da limitação e fraqueza da vida permite-nos ser mais humildes na consideração da validade de nossa vida. Não há como ficar insensível diante da finitude da carne humana!

3. Sentido Teológico de Finados : a certeza da Ressurreição

Nossa fé cristã é a fé no Ressuscitado. Esta certeza de fé elimina de nós toda e qualquer idéia de renascimento ou reencarnação. Somos únicos desde a concepção, durante a vida e após a morte. A razão de nossa fé na Ressurreição é a experiência radical de Jesus. Ele foi Ressuscitado pelo Pai (At 2, 22s), numa atitude amorosa que confirmou toda a obra realizada pelo homem de Nazaré em favor dos mais oprimidos e marginalizados.

O fundamento teológico para a nossa compreensão de fé em torno da vida que começa na morte está na Ressurreição de Jesus Cristo. É São Paulo que diz : ‘Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé, e nós ainda estaríamos em nossos pecados’ (1Cor 15, 17).

Nós cremos na ressurreição como um momento de transcedência de nossa realidade finita para uma realidade infinita ao lado de Deus. Na Ressurreição nossa vida é transformada. Assim como acontece com a semente que, ao ser lançada na terra, morre e desta morte nasce a nova vida, cremos que também nós vamos ressuscitar e assumir uma nova vida. Nós cremos que a nossa vida terrestre é uma preparação para a verdadeira e definitiva vida. Temos uma única oportunidade de viver no mundo e nos preparar para a eternidade.

O próprio Jesus viveu apenas uma única vida humana, iniciada no momento de sua concepção no seio virginal de Maria e consumada na cruz, quando exausto e sem forças, Jesus entrega sua vida nas mãos do Pai (Jo 19,30). Mas, como já dissemos, Deus não permitiu ao Cristo permanecer preso nas cadeias da morte, mas o fez receber vida nova, ressuscitando-o e reafirmando assim o valor da vida justa sobre os poderes nefastos de uma sociedade marcada pela cultura de morte.

Mas, Ele ressuscitou. O corpo físico de Jesus foi transformado em um corpo glorioso, que não ocupa mais espaço, não envelhece mais com o tempo e não morre mais. Este Cristo vivo e ressuscitado está na Eucaristia, está nos sacrários de nossas igrejas e está também na comunidade cristã, já que Ele disse : ‘Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei presente’ (Mt 18,20) ou então : ‘Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos’ (Mt 28, 20). Nada pode nos separar do amor de Cristo.

Já a teologia de oração pelos mortos alicerça-se na noção tradicional de purgatório, momento de expiação dos erros passados e de contemplação da face gloriosa de Deus. A teologia atual não aboliu, com se pensa, a noção de purgatório. Obviamente, a idéia de um fogo devorador que aflige atemporalmente os homens e mulheres que falecem afastados de Deus recebe hoje um tratamento mais aceitável. O purgatório seria a própria percepção de não realização da missão confiada por Deus a cada um de nós. Ao deparar-nos com a imensa distância entre o ideal sonhado por Deus e o real vivido, o ser humano sofre por ter sido tão leniente. Imediatamente, entretanto, contempla a glória de Deus e nela mergulha. Rezar pelos mortos significa ajudá-los a tomar consciência de que estão afastados do ideal de Deus.

4. Celebrando o dia de Finados

As celebrações litúrgicas do dia de hoje são comedidas e cercadas de um clima de saudade e tristeza. São comuns as missas rezadas nos cemitérios, onde um ou outro grupo pastoral pode estar presente para acolher as pessoas mais sensibilizadas.

Nas igrejas e capelas reze-se pelos fiéis defuntos que participaram da história da comunidade, mas evite-se enumerar nomes ou dar destaques a algum falecido. Mantenha a sobriedade dos cantos e respeite-se o silêncio com marca da celebração.

Entretanto, evite-se o clima de luto nas celebrações. Vale a pena recordar que a celebração de Finados marca a esperança cristã na Ressurreição e deve ser iluminada por aquela alegria que marca a fé cristã.

Para os celebrantes, atenção nas homilias. O Mistério da Ressurreição deve ser o centro da reflexão, aproveitando para refletir bem as palavras do Evangelho e esclarecendo o real sentido da morte para o cristão, numa catequese que contemple toda a eliminação de idéias estranhas tão espalhadas pela mentalidade do povo católico brasileiro.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://comshalom.org/o-sentido-liturgico-do-dia-de-finados/

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Abrindo espaço para a dor no Tempo da Páscoa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Michael Rennier,

sacerdote católico ordenado através da Provisão Pastoral para ex-clérigos episcopais que foi criado pelo Papa São João Paulo II

 

‘A dor chega até nós nos momentos mais estranhos. Em um dia como a Páscoa, o mundo transborda de vida nova. No hemisfério norte, de onde escrevo, os dias estão ficando mais longos e o ar mais quente. No nosso quintal, a magnólia está em plena floração e os jacintos perfumam o jardim. As meninas correm freneticamente com seus vestidos amarelos, procurando ovos enfiados nas árvores. Na missa, o Aleluia volta a ser cantado e a homilia é sobre a Ressurreição.

Mesmo em meio a toda essa alegria, pode surgir um pensamento, uma dor, porque esta Páscoa não é como as Páscoas que passaram, e a próxima também será diferente. A vida muda e com essa mudança vem a perda. Talvez haja um assento vazio em sua mesa de jantar hoje que não estava vazio no ano passado.

A dor de Maria

Eu me pergunto que tristeza permaneceu no coração de Maria, mesmo quando ela se alegrou com o milagre da Páscoa? Seu filho estava vivo, sim, mas ela ainda havia testemunhado sua morte horrível apenas três dias antes. Não consigo imaginar que ela tenha processado o choque e estivesse imediatamente pronta para esquecê-lo. Ela, claro, foi capaz de vê-lo novamente, mas os entes queridos que você e eu perdemos ainda estão longe de nossos olhos. Temos fé de que os veremos um dia no céu, mas esse dia não é hoje. E assim a celebração se confunde com o luto.

Logo após um funeral, sempre há uma enorme demonstração de apoio. Chegam cartões e flores, telefonemas consoladores e companhia. É bem entendido que, se alguém perdeu um ente querido, precisa de um pouco de folga do trabalho e não estará no seu eu normal e feliz. Depois de cerca de uma ou duas semanas, porém, há uma expectativa de que é hora de começar a vida. Um limite de tempo foi atingido e qualquer tentativa de falar sobre a dor ou mesmo continuar processando-a emocionalmente em silêncio é considerada estranha ou um sinal de que algo está errado. As mensagens de apoio desaparecem à medida que todos voltam aos negócios normalmente.

Vivendo o luto

O luto é único e não pode haver uma expectativa definida de como uma pessoa deve enfrentá-lo. Somos todos diferentes e, à medida que uma perda persiste, ela afeta a todos nós de maneiras diferentes. O que significa carregar essa dor pelo resto da vida, sentir realmente a ausência de uma pessoa que foi para o túmulo? Não é saudável guardar essas memórias, permitir-se sentir a dor disso? É mórbido reconhecer isso? Parece-me que não é nada mórbido e todos nós precisamos continuar, pelo menos de alguma forma, a lamentar nossos mortos.

A intensidade da dor pode diminuir com o tempo, mas não vai embora totalmente e não devemos esperar que ela desapareça. Na verdade, a dor está conectada ao amor. Continuar a sentir a ferida da perda é sinal de que o vínculo de amor ainda está intacto, de que a morte não o superou. Simplesmente não convém ignorar a dor e não deve haver a obrigação de encobri-la ou fingir que não existe. Além disso, realmente não existem regras sobre como lamentar adequadamente. Você lida com isso do seu jeito e no seu próprio ritmo.

Direi, porém, que em minha experiência como padre, passando tempo com famílias enlutadas, há três pontos importantes a serem enfatizados :

Você não tem que seguir em frente

Não existe um cronograma segundo o qual você precise parar de sofrer. A dor pode diminuir. Pode levar algum tempo ou muito tempo. É verdade que a vida não pode parar totalmente quando alguém morre, e precisamos continuar buscando felicidade e alegria. Entretanto, é possível fazer isso no contexto do sofrimento que continua. Você pode nunca seguir em frente inteiramente.

Você não tem que viver em negação

Muitas vezes, não sabemos como enfrentar nossa tristeza e acabamos em negação ou proferindo clichês. Esta é uma solução rápida que, na verdade, não corrige nada. Ao sofrer, é importante se expressar honestamente e não entorpecer a dor.

Você não precisa dizer ‘pelo menos …’

Não vale a pena dizer : ‘Pelo menos ele está em um lugar melhor agora’ ou ‘Pelo menos ele viveu uma vida plena.’ Pode parecer melhor agarrar o lado bom, mas na verdade isso não é nada mais do que um instinto protetor para entorpecer a dor, para se afastar de seu impacto. Isso é compreensível, mas para sofrer de maneira saudável, devemos reconhecer a perda e não pular para uma falsa racionalização.

Enfim, na Páscoa de todos os dias, a morte e a vida estão abraçadas na totalidade da experiência humana. Não podemos ter um sem o outro. Se quisermos celebrar a vida, também reconheceremos a realidade da morte. O luto sempre estará conosco, mas lembre-se, é um sinal de amor. Talvez por isso chegue até nós nos momentos mais estranhos, porque o amor é sempre uma surpresa.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/04/05/abrindo-espaco-para-a-dor-no-tempo-da-pascoa/

sábado, 31 de outubro de 2020

Luto e Covid-19: como se despedir na ausência de ritos?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

*Artigo de Camila Marçal,

psicóloga 


‘Desde o início de 2020, o mundo vive uma grande crise sanitária, provocada pela Covid-19. As diretrizes para minimização dos riscos da pandemia contemplam recomendação sobre uso de máscaras e higienização até orientações que variam entre distanciamento social e isolamento completo, dependendo de variáveis como grupo de risco, profissão, sintomas, entre outros. 

A iminência da morte associada às mudanças no nosso modo de viver e relacionar impactam direta e indiretamente na nossa saúde mental. Se no início da pandemia, o risco do vírus era uma abstração, ele se torna cada vez mais concreto através das contaminações e mortes que se intensificam e se aproximam da nossa realidade.

Cada um de nós, a seu modo, está reagindo a essas mudanças. Da negação ao pânico. Da compaixão à indiferença. Medos, dúvidas e incertezas. A imprevisibilidade da vida bateu à nossa porta. Estamos vivendo um processo de luto compartilhado. Chamamos por luto todo o processo que envolve a elaboração do impacto de mudanças ou morte de alguém, passando desde a aceitação da perda, vivência da dor, adaptação à ausência/mudança até a reconstrução da relação e novos direcionamentos. 

Por ser provocador de tanta angústia, em todos os tempos e culturas, o ser humano criou formas e rituais coletivos para vivenciar o luto : velórios, enterros, missas, homenagens, entre outros. Precisamos de simbolismos que nos ajudem a elaborar as mudanças e perdas existenciais.

Os protocolos de segurança exigidos durante o período de pandemia, além de mudar a nossa forma de viver, mudaram também a nossa forma de morrer. Pessoas diagnosticadas com o vírus são imediatamente isoladas. Velórios foram suspensos. Enterros rápidos e com quantidade limitada de pessoas. Protocolos fúnebres que causam mais incômodos que alívio. Cerimônias religiosas proibidas. Ausência de abraços e conforto adequado e muito mais.

O desamparo existencial dos enlutados está escancarado. Não bastasse a dor da morte, soma-se a ela a dor do ‘não saber’, do não poder se despedir e de não poder receber conforto. ‘Ela foi, mas eu não vi. Não sei como ela estava. Não segurei sua mão. Foi por telefone que soubemos. Foi tudo tão rápido. Às vezes parece que é mentira. Não dá pra acreditar. E se eu pegar esse vírus também? Parece que as pessoas estão com medo de mim’.

A despeito de toda a compreensão racional sobre nossa finitude, a experiência da morte de alguém que amamos dói absurdamente. Ela toca em algo que nos define : não nos fazemos sozinhos. Somos marcados por nossas relações e a vida ganha significado à partir dos nossos afetos. 

A morte se torna, portanto, um evento traumático para os enlutados, abalando as certezas sobre a vida e gerando grandes angústias. Essas dores, profundamente humanas, precisam ser acolhidas e compreendidas tanto no seu aspecto singular quanto comunitário.

A vivência coletiva dos ritos finais são importantes para a concretização e elaboração das perdas, pois criam um espaço de comunhão, cumplicidade e conexão que ajudam na ressignificação daquela experiência, além de serem uma oportunidade de receber afeto, homenagear, despedir, fazer reparações e até mesmo reconciliações com o ente querido. 

A impossibilidade da vivência coletiva dos rituais de despedida, sobretudo nas mortes repentinas, pode impactar de maneira muito negativa as pessoas enlutadas. Deixam a sensação de algo em aberto, já que etapas do processo de construção de sentido são suprimidas, podendo dificultar a elaboração do luto e até mesmo desencadear dificuldades futuras, tais como medos, fobias, ansiedades, depressão, em decorrência do não acolhimento das emoções e angústias despertadas nos enlutados.

O luto não é uma doença, ele é uma resposta natural a um evento traumático da vida. Permita-se viver seu luto. Nesse contexto, da necessidade humana de dar sentido à (cada) morte e da impossibilidade da realização dos rituais fúnebres tradicionais por conta da pandemia, pense formas alternativas de rituais (individuais e coletivos) que te ajude na concretização da experiência da perda e na troca de afetos. 

Expresse sua dor. Ouça seus medos. Converse. Faça encontros pra lembrar. Se reúnam para contar histórias. Escreva cartas. Diários. Veja fotos. Chore. Lembre mais. Das músicas, dos cheiros, dos encontros. Faça uma homenagem. Peça desculpas. Conte como você se sente. Construa caixas de memória. Sinta tudo o que tiver de sentir. Não se isole. Se for necessário, peça ajuda! Estamos órfãos dos nossos ritos, mas não da nossa humanidade. Eu sinto muito!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1479994/2020/10/luto-e-covid-19-como-se-despedir-na-ausencia-de-ritos/

terça-feira, 7 de julho de 2020

O luto e a dor humana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

Why “It is better to go to the house of mourning.” – Targuman

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

Há um clamor silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto das famílias de vítimas da Covid-19 


‘O mundo acompanha, pelos meios de comunicação, a dor do luto sofrida, anonimamente, por uma grande multidão, revelando, de maneira desconcertante, o sofrimento humano, provocado pela pandemia da Covid-19. Muitas famílias sequer tiveram a oportunidade para se despedir de seus entes queridos. Uma dor sem bálsamo, um peso necessário ante as exigências para a prevenção de novas contaminações. Há, pois, um clamor silencioso, mas ensurdecedor, que vem do luto dessas famílias. Esse clamor deve sensibilizar a sociedade, para que seja adotada a lógica da compaixão solidária, capaz de aliviar a dor dos enlutados e de promover a aprendizagem de um novo jeito de viver. 

É preocupante a indiferença em relação ao luto vivido pelo outro. Essa indiferença, entre tantas outras, aumenta ainda mais o risco de um colapso humanitário. A insensibilidade para a dor do outro, que é irmão, impede a construção de um tempo novo para a humanidade, pois leva à banalização da vida – um dom precioso. Sua preciosidade deve ser tratada com ternura, nobre reverência e sempre a partir de gestos solidários entre as pessoas. É nessa perspectiva da solidariedade que se deve, inclusive, lidar com as muitas perdas que fazem parte da vida. No caminho oposto – o da indiferença – é ainda mais difícil passar pelo luto, não somente aquele provocado pela morte, mas também pelo fim de ciclos. Cegamente, muitas vezes, as pessoas não aceitam nem a perda daquilo que, na verdade, constitui oferta para o bem de todos. Em vez da consolação, essas pessoas cultivam a revolta. 

O luto é inevitável nas circunstâncias da vida humana, mas pesa muito mais aquele que se origina nas irresponsabilidades, a exemplo do que é imposto pela atual pandemia. O luto torna-se especialmente pesado quando não é vivido adequadamente, pois não se alcança a sua fecundidade dolorosa, a força de redenção que surge nos limites próprios da condição humana. Não se pode tratar o luto com indiferença. Trata-se de experiência a ser vivida considerando a singularidade de sua dor, a consolação que se recebe das pessoas próximas, a oportunidade para aprendizados e qualificação da própria existência, alcançando sentidos profundos sobre o dom da vida. 

Assim é o luto cristão, caminho experiencial terapêutico que se distingue por estar fundamentado na esperança. Essa experiência no contexto da fé cristã é convite a vislumbrar, para além da separação terrena, o reencontro com Deus. Os cristãos consideram seus falecidos não como pobres mortos – eles são os que nos precedem e nos esperam diante de Deus. A morte provoca uma separação muitas vezes desconcertante. Há os que ficam extremamente desconsolados e até deixam de enxergar sentido na vida. O luto cristão se assenta na certeza da vida pós-morte. Assim, reorienta o viver de enlutados, ajuda a permear o coração com recordações consoladoras dos que morreram. E, mesmo na impossibilidade do contato, na invisibilidade, continua forte a presença de quem parte, ajudando a superar tristezas e angústias dos que ficam. 

A fé cristã leva à certeza da vida eterna, conquistada com Jesus – Filho de Deus. Sua morte e ressurreição abriram as portas da vida que nunca passa. A morte é um trânsito pascal, significação luminosa que devolve a certeza de uma vitória definitiva. Essa certeza, se cultivada, ameniza a sensação de fracasso que a perda e a partida sempre trazem. A dor da morte impõe sempre o luto, alguns ainda mais dolorosos, sobretudo por circunstâncias incompreensíveis à racionalidade humana. O cristão também sente o trauma da morte biológica, com as suas angústias e sofrimentos, mas deve deixar-se orientar sempre por uma luz amorosa : a vitória da vida sobre a morte, bálsamo para a dor humana. No caminho indicado por essa luminosidade, os que professam a fé em Jesus devem se comprometer com a vida, zelar por ela em todas as suas etapas. Isto inclui saber sobre a tarefa cristã de se dedicar aos enlutados, sensibilizar-se ante a dor do próximo, que é irmão, tratando-a com o bálsamo da consolação e da solidariedade. 

Neste contexto contemporâneo de tantas feridas, de corações tomados pela dor, é urgente que cada pessoa busque ser presença solidária, compartilhando palavras que devolvam a esperança. Trata-se de cumprir missão paraclética, isto é, consoladora, responsabilidade de todos – uns cuidando dos outros, unidos, para levar luz aos momentos de luto e aliviar a dor humana.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/artigo/8902/2020/07/o-luto-e-a-dor-humana/


domingo, 22 de março de 2020

Pandemia na Itália, os sacerdotes que deram suas vidas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Cruzes
*Artigo de Amedeo Lomonaco e Silvonei José,
jornalistas
   

Pelo menos 30 padres morreram na Itália devido à pandemia de Covid-19, pelo menos 16 vítimas são da diocese de Bergamo. Párocos, formadores, homens dedicados ao seu ministério, das suas vidas emerge a parte da Igreja que Francisco ama, aquela que tem o cheiro das suas ovelhas e partilha as suas condições e o seu destino.


‘Entre as pessoas positivas ao coronavírus há também muitos padres. Alguns estão em isolamento, outros em cuidados intensivos. Pelo menos trinta morreram, nestes dias, por causa de complicações relacionadas à pandemia. Especialmente neste momento dramático, os sacerdotes continuam a sua missão ao lado do povo. A eles, no dia 15 de março passado, durante o Angelus, foi a gratidão do Papa Francisco. Naquela ocasião, o Papa agradeceu ‘a todos os sacerdotes, a criatividade dos sacerdotes’. ‘Sacerdotes que pensam mil maneiras para estar perto do povo, para que o povo não se sinta abandonado’.  No dia 13 de março, durante a Missa na casa de Santa Marta, o Papa rezou para que ‘o Espírito Santo dê aos pastores a capacidade e o discernimento pastoral’. ‘Que o povo de Deus - disse Francisco - se sinta acompanhado pelos pastores e pelo conforto da Palavra de Deus’.

A Diocese de Bergamo em luto

Só na diocese de Bergamo, cidade gravemente afetada pela pandemia de Covid-19, pelo menos 16 padres morreram devido a consequências ou complicações relacionadas ao coronavírus. Monsenhor Tarcisio Ferrari foi, durante mais de 30 anos, pároco da igreja de Sant'Alessandro da Cruz em Bérgamo. ‘Dos muitos anos passados nesta paróquia - recordava com emoção recentemente - trago no meu coração a alegria da ordenação de cinco sacerdotes e de ter ajudado tanta gente pobre e necessitada. Depois a generosidade do povo, tendo encontrado tantas famílias e vivido muitos eventos e celebrações nesta maravilhosa paróquia’. O pe. Mariano Carrara estava doente há algum tempo mas, apesar da sua doença, não tinha interrompido o seu precioso trabalho a serviço da comunidade de Urgnano. Após um agravamento de suas condições de saúde, ele deu positivo ao coronavírus e morreu após hospitalização no hospital ‘Papa João XXIII’. Monsenhor Achille Bellotti, como novo sacerdote, foi capelão entre os emigrantes na Bélgica. Um tema, o das migrações, que se entrelaçou ao longo do seu ministério pastoral. ‘Há alguns elementos - recorda o Escritório dos Migrantes da diocese de Bérgamo - que distinguem as pessoas que vêm do mundo rural : concretude e determinação, mas também serenidade interior. Padre Achille absorveu este alimento da família’.

Padre Tarcisio Casali celebrou a Missa até alguns dias antes de sua morte. ‘Sou um padre - escrevera por ocasião do 50º aniversário de sacerdócio - que viveu desde o início do Concílio Vaticano II. Foram anos inesquecíveis, cheios de entusiasmo e esperança, porque na Igreja iniciava a surgir um dia de luz esplêndida. Era apenas a aurora, mas já se podia tocar os primeiros raios do sol nascente’. Padre Silvano Sirtoli nasceu em Bergamo, em 1960. ‘Sua vida - recorda pe. Mario Carminati, vigário episcopal para as atividades econômicas, seu companheiro de ordenação - foi um Evangelho vivido deixando uma grande marca em toda parte’. Padre Giancarlo Nava exerceu seu ministério no Paraguai durante vários anos. Neste país, onde iniciou uma escola de formação para agricultores, também sofreu ameaças por denunciar a pragas da corrupção e do tráfico de drogas e armas.

Padre Giuseppe Berardelli era arcipreste em Casnigo. A sua saudação foi sempre a mesma : ‘Paz e bem’. Quando a sua saúde se deteriorou, ele recusou um respirador para dá-lo àqueles que eram mais jovens. Padre Giosuè Torquati nasceu em Bérgamo em 1938. Sacerdote dehoniano, foi chamado por todos de ‘Mago da alegria’ porque animava espectáculos com truques em oratórios, paróquias, escolas e lares para idosos. Dizia que o Senhor ‘não queria salgueiros chorões’. Padre Umberto Tombini exerceu em particular o seu ministério sacerdotal na cidade de Zogno. Estas foram suas palavras dirigidas à sua comunidade alguns anos atrás : ‘Tenho muitos rostos no meu coração, dificilmente os esquecerei. Agradeço ao Senhor por me dado a oportunidade de conhecer todos vocês que me deram tanto carinho’.

Padre Gaetano Burini, após a ordenação, iniciou o seu ministério sacerdotal em 1962, em Peia. ‘Eu era muito animado pelos sermões dialogados - disse, recordando o tempo em que era pároco em Urgano -, que eu fazia durante a missa dominical dos jovens. Dois ou mais rapazes e uma jovem vinham ao presbitério e comunicavam em voz alta os sentimentos que as leituras bíblicas suscitavam neles’.  Padre Remo Luiselli tinha iniciado uma comunidade de reabilitação para toxicodependentes em Ghisalba em 1989. Em 1993 ele foi atacado por alguns jovens na casa paroquial. ‘Foi uma ação punitiva’, disse ele, ‘porque naqueles anos eu tinha conseguido enviar 43 jovens toxicodependentes para uma comunidade de reabilitação e isso foi contra os interesses sujos de alguém’. Durante quarenta anos, pe. Piero Paganessi foi o ponto de referência para os habitantes do Comonte em Seriate. Ele também era conhecido por seu compromisso com a Associação ‘Operadores da Paz’, que vem trabalhando na Índia desde 1992 para ajudar pessoas carentes no estado de Andra Pradesh.

Padre Enzo Zoppetti foi ordenado sacerdote em 1955. Foi primeiro coadjutor da paróquia de Camerata Cornello, depois pároco de Cantoni d'Oneta (1959-76) e depois de Rosciano. Mesmo na velhice, até quando a sua saúde o permitiu, ele ajudou várias paróquias. Monsenhor Francesco Perico dedicou o seu ministério em particular aos jovens. Muitos destes, agora idosos, lembram-se dele com muito carinho nas redes sociais. Padre Adriano Locatelli, no último dia primeiro de março, nos primeiros dias de restrições para combater a emergência ligada ao Coronavirus, concelebrou a Missa transmitida através do Facebook para a sua comunidade. Padre Guglielmo Micheli foi, entre outras coisas, diretor da Casa do Estudante em Bergamo de 1968 a 1997 e assistente eclesiático da Associação St. Guido de Anderlecht de 1993 a 2001.

As vítimas da diocese de Parma

A diocese de Parma também paga um alto preço. São seis os sacerdotes que morreram. Padre Giorgio Bocchi, pároco de Coltaro, e pe. Pietro Montali tinham 89 anos de idade. Um dos sacerdotes mais jovens que morreu por causa da pandemia é padre Andrea Avanzini, que morreu aos 55 anos de idade. As outras três vítimas da diocese de Parma são pe. Fermo Fanfoni, pároco de Mezzano Inferiore, pe. Giuseppe Fadani, da paróquia de Carignano, e pe. Franco Minardi, pároco de Ozzano Taro e ex-diretor da Cáritas diocesana.

Sacerdotes que morreram na diocese de Cremona

Na diocese de Cremona morreram quatro sacerdotes, também por causa da Covid-19. Padre Albino Aglio foi ordenado em 1949. Realizou seus primeiros anos de ministério como ‘sacerdote do Oratório’. Monsenhor Vincenzo Rini era padre e jornalista. Durante muitos anos dirigiu o semanário diocesano ‘La Vita Cattolica’. Foi também presidente da Agência de Imprensa Sir e da Federação Italiana dos Semanários Católicos (Fisc). Por causa de complicações ligadas ao coronavirus morreram dois cânones honorários da Catedral de Cremona : monsenhor Giuseppe Aresi, ordenado em 1953, e monsenhor Mario Cavalleri, o sacerdote mais velho da diocese. Ele tinha 104 anos de idade.

Na arquidiocese de Milão morreram três sacerdotes

Também a arquidiocese de Milão chora a morte de sacerdotes. O primeiro padre ambrosiano vítima do vírus é padre Marco Barbetta, 82 anos, capelão do Politécnico, diretor espiritual de muitos jovens. Ainda em Milão, depois de dias de luta nos cuidados intensivos, morreu padre Luigi Giussani, 70 anos, vigário da popular paróquia milanesa de São Protaso, homônimo do fundador de Comunhão e da Libertação. No dia da Solenidade de São José, chegou a notícia da morte de padre Ezio Bisiello, por muito tempo pároco de Ronco Briantino.

Primeira vítima no sul

O primeiro sacerdote do sul da Itália que faleceu após o teste positivo para coronavírus pertencia à diocese de Salerno-Campagna-Acerno. Era o pároco de Caggiano, padre Alessandro Brignone, que morreu aos 45 anos de idade. ‘Quantos funerais - recorda o seu confrade pe. Luigi Pierri – ele acompanhou! E agora nada de funeral para ele. Acompanhemo-lo pelo menos com a nossa fraterna e grata oração’.’


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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Luto : a superação das perdas


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Diante de uma perda, por maior que ela seja, nunca se deve pensar que a própria vida acabou.
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Luto, é uma palavra que para muitos soa como desagradável e indesejável, contudo ela representa um processo muito importante em nossas vidas. Essa rejeição tem a ver com a sua estrita ligação com a morte de pessoa querida, mas não é bem assim. O luto é um processo psicofísico e espiritual, pois nos atinge a mente, o corpo e o espírito, ocorrendo depois de qualquer perda que sofremos na vida. Ele não depende de nossa vontade, pois acontece sempre, e espontaneamente, após tais experiências negativas. O que depende da nossa vontade é a forma como lidamos com ele, o que permitimos que ele faça conosco.

Certamente muitos leitores vão reagir a essa afirmação, retrucando que nada se pode fazer com os sentimentos que nos sobrevêm, quando passamos por perdas significativas em nossas vidas. Sem dúvida os sentimentos são praticamente autônomos, surgindo e muitas vezes nos manipulando, ao seu bel prazer. Todavia, se não podemos controlar seu advento, podemos sim, tomar suas rédeas, direcionando melhor as reações que eles nos provocam. Não tenho como impedir a raiva que me envolve quando me fazem algo muito ruim, mas agredir fisicamente a pessoa que me irritou, ou simplesmente ignorá-la, é uma decisão somente minha, e com algum treino posso controlá-la.

No espaço de um artigo, não é possível passar por todos os caminhos que surgem quando perdas nos acontecem. Mas conhecer certas características fundamentais do processo de luto já nos ajudar a reduzir, e muito, os sofrimentos que as perdas nos acarretam. Para conhecer mais sobre esse processo, sugerimos a leitura de um livro que escrevi, e em breve será lançado pela editora Vozes, intitulado : ‘Luto, como viver para superá-lo’.  Mas, até que ele venha a público, dou algumas informações que acredito importantes.

Aqui falarei sobre as perdas. Talvez, num outro artigo possa falar sobre o processo em si, da elaboração do luto. Porém o conhecimento de alguns aspectos importantes das perdas, certamente ajudará, e muito, a superar o luto que as seguem. É verdade que ninguém gosta de perder, nem bens materiais, nem relacionamentos afetivos, nem cargos, e muito menos pessoas queridas. Mas se nos dermos conta de que vivemos num mundo espaciotemporal, entenderemos que nele nada, absolutamente nada, é ‘para sempre’. A impermanência de tudo e de todos, é uma realidade indiscutível. Algumas coisas ou pessoas nos parecem ‘nossas para sempre’, simplesmente porque conseguimos conservá-las por um tempo prolongado. Mas, se olharmos com atenção, refletindo com isenção, descobriremos que essa é a realidade. A começar por mim mesmo. Se hoje sou um adulto, a criança que fui já não existe mais, apenas suas recordações. E mesmo assim, nem todas, pois de muitas coisas já nos esquecemos. Memórias se apagam e se perdem nas brumas do tempo. Até as células que formam nosso corpo de criança, todas elas vão sendo substituídas por novas, fazendo com que nem o nosso próprio corpo, nem partes dele, o tenhamos depois de alguns anos. Sete, segundo alguns pesquisadores. Em outras palavras, a cada sete anos nosso corpo físico morre, e um novo corpo se forma substituindo o anterior. Nada acontecendo de forma abrupta e imediata, mas num processo longo, contínuo e inexorável.

Da mesma forma, nossos bens materiais, nossos cargos e títulos, nossos relacionamentos, nossas ideias, crenças, amores e dores, o tempo leva tudo. Disse o poeta romano Ovídio, em sua obra ‘Metamorfoses’ publicada no ano 8 d.C. : ‘Tempus edax rerum’ – O tempo, (esse) devorador das coisas. O que pensamos que fica ‘para sempre’, são aquelas coisas que durarão mais do que nós mesmos. O poético ‘amor eterno’ é como disse Vinicius de Moraes : ‘que seja eterno enquanto dure’. Viúvos que dizem seu amor ter sido para sempre, o fazem porque quem amavam morreu antes dele. Não é cinismo nem pessimismo, é apenas a realidade. Uma realidade que é nossa aliada, que nos ajuda quando a assimilamos -- ainda que dolorosamente como um parto -- a não pensar que nossos sofrimentos, nossa dor pela perda de alguém, irá durar para sempre. Também ela irá acabar, exceto quando trabalhamos muito para preservá-la. Há quem prolongue seu período de luto por bem mais que dois anos, geralmente o tempo de duração de um luto profundo. Exatamente como uma ferida, que nunca cicatriza se seu portador continuamente a reabre, cutucando-a, refazendo-a, impedindo que o processo natural de cicatrização ocorra. Se ela parar de reativá-la, em pouco tempo estará cicatrizada. Poderá restar a marca, mas certamente não haverá a ferida a incomodar e a agravar-se por estar sendo reavivada artificialmente. Sendo bem cuidada, toda ferida sara com um mínimo de cicatriz. Assim, também a saudade de um pessoa querida. Se não a reativarmos continuamente, ela deixará de ser uma lembrança dolorosa para ser, quem sabe, e em muitos casos, uma saudade gostosa.

Portanto, diante de uma perda, por maior que ela seja, nunca se deve pensar que a própria vida acabou. Dê tempo ao tempo, não se apegue aos bens perdidos, nem à pessoa que se foi, ou às lembranças incômodas; tampouco ao péssimo sentimento de culpa, e que se tem de sofrer pelas perdas ocorridas. E viva, pois a vida é um dom maravilhoso que não se deve desperdiçar.’


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