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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O Apocalipse não é para dar medo, mas gerar confiança inabalável na Providência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da Aleteia


Ao comentar sobre o livro bíblico do Apocalipse, o professor Felipe Aquino observou que essa complexa obra escrita por São João Evangelista não pretende assustar os cristãos, mas, justamente ao contrário, incutir neles uma confiança inabalável na Providência Divina, em particular durante os tempos mais difíceis.

No fim do século I, como recorda o professor, a situação dos cristãos no Império Romano era cada vez mais dura por causa da perseguição implacável que os imperadores romanos promoveram – principalmente a partir de Nero, no ano 64. Quando São João escreveu o Apocalipse, ele estava exilado na ilha grega de Patmos justamente por causa da perseguição de outro imperador romano, Domiciano (81-96). Nesse contexto, muitos cristãos, desalentados e apavorados com as ameaças de tortura e de morte, abandonavam a fé e aderiam às práticas pagãs.

O livro do Apocalipse, ou Revelação, visava encorajar os fiéis : trata-se, basicamente, do livro da esperança cristã ou da confiança inabalável no Senhor Jesus e nas suas promessas de vitória, conforme enfatiza o prof. Felipe. É uma obra que anuncia a vitória do Bem sobre o mal, do Reino de Cristo sobre o reino do mal.

O Apocalipse trata da revisão de vida das sete comunidades da Ásia Menor, às quais São João escreve em estilo sapiencial e pastoral, e das coisas que devem acontecer depois – esta, aliás, é a parte ‘apocalíptica’ propriamente dita, ou seja, aquela que revela, sob formas simbólicas, o que acontecerá em relação com a luta entre Jesus Cristo e Satanás, envolvendo a queda dos agentes do mal e o triunfo do Reino de Jesus.

As calamidades apresentadas no livro não podem ser interpretadas ao pé da letra, mas como representações das aflições sobre a terra, a serem vencidas para se desfrutar das alegrias do céu. As tribulações desta vida foram cuidadosamente previstas pela Sabedoria de Deus dentro de um plano harmonioso que só entendemos muito parcialmente. O Apocalipse incute consolação e encorajamento aos cristãos não apenas do século I, mas de todos os tempos, porque as aflições desta vida fazem parte da luta vitoriosa do Bem sobre o mal.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2020/06/30/o-apocalipse-nao-e-para-dar-medo-mas-gerar-confianca-inabalavel-na-providencia/

sexta-feira, 21 de julho de 2023

A Igreja ante as revelações particulares

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA


A Revelação pública oficial da Igreja terminou com o fim da geração dos Apóstolos. Depois, ocorrem apenas as chamadas ‘revelações particulares’ ou ‘privadas’ que não merecem fé divina, mas apenas humana. Detalhemos isso.

O Concílio Vaticano I assim declara : ‘Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus’ (Constituição Dogmática Sobre A Fé Católica, s. III, 24-4-1870, c. 1792).

Vê-se aí que o Magistério da Igreja é exercido de dois modos : o ordinário (= ensinamento cotidiano dos Bispos espalhados pelo mundo unidos ao Bispo de Roma, o Papa) e o extraordinário (= exercido bem mais raramente pelos Concílios Ecumênicos ou Gerais sob a supervisão do Papa ou pelo próprio Santo Padre quando, na função de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,31s), proclama um dogma ou uma definição ex cathedra (definitiva) em temas de fé e moral). Já os demais pronunciamentos do Romano Pontífice merecem religiosa submissão da vontade e da inteligência (cf. Concílio Vaticano II. Lumen Gentium, 25).

Aqui, perguntamos : e como ficam as revelações particulares? – ‘Elas não pertencem ao depósito da fé’ (Catecismo da Igreja Católica n. 67); por isso, o fiel é livre para nelas crer ou não. Afinal, ‘a Igreja não pode impor à crença dos fiéis nem o presumido fato de uma aparição, nem o teor da respectiva mensagem’ (Dom Estêvão Bettencourt, OSB. Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145). Mais : se o fiel quiser crer, será apenas com fé humana, não divina. Sim, assegura o renomado teólogo dominicano Antonio Royo Marín que ‘estão excluídas como objeto material da fé divina e católica as revelações privadas que algumas pessoas em particular podem receber (por exemplo, Santa Teresa), de forma que somente elas estão obrigadas a crer com fé divina, caso tenham, em virtude da luz profética [a iluminar apenas o receptor da mensagem – Nota nossa], certeza da origem divina das mesmas’ (A fé da Igreja: em que deve crer o cristão de hoje. 2ª ed. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 62). Por parte dos demais fiéis, a expressão fé só humana é o assentimento que se dá à revelação feita por uma pessoa digna de crédito (eu acredito porque foi X que falou, se fosse Y não acreditaria). Distingue-se da fé divina que está no plano sobrenatural. É um dom de Deus, e merece assentimento, pois é Ele mesmo quem nos fala por meio de sua Palavra transmitida, interpretada e chancelada pela Igreja (cf. idem, p. 45-60).

Daí ser oportuno lembrar que, quando não se opõe à fé católica, mas está em conformidade com ela, a Igreja – sem se comprometer diretamente com as narrativas dos videntes – permite que o conteúdo edificante das visões seja divulgado. Lê-se na Encíclica Pascendi Domini Gregis, VI, ‘Essas aparições ou revelações não foram aprovadas nem condenadas pela Santa Sé, foram apenas aceitas como merecedores de piedosa crença, com fé puramente humana, em vista da tradição de que gozam, também confirmadas por testemunhas e documentos idôneos’.

A título de conclusão, devemos deixar claro – por meio de dois estudiosos jesuítas – que, embora não se imponham à fé católica, muitas visões ocorridas ao longo da história, ‘podem ser indícios da piedade dos videntes, e podem ser muito úteis na edificação e na firmeza da fé do povo, podem ser providenciais, podem até ser e virem acompanhadas de milagres de Deus’ (Pe. Oscar G. Quevedo, SJ. Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003, p. 125). Mais : ‘Seria fruto de uma inteligência fechada para a verdade não colher as jóias destas minas de valores humanos’ (Pe. Afonso Rodrigues, SJ. Psicologia da Graça. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1995, p. 115). Embora jamais possam se impor à fé católica, não devem ser, sem mais, rejeitadas como se nelas nada de útil se pudesse transmitir, de modo privado, ao Povo de Deus.

Portanto, examinemos tudo e fiquemos com o que é bom (cf. 1Ts 5,21).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2020/08/09/a-igreja-ante-as-revelacoes-particulares/

quinta-feira, 23 de junho de 2022

História: lugar da revelação de Deus

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


‘Disse ainda : ‘Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó’ (Êxodo 3,6a).

Esse versículo se encontra no conhecido texto sobre a sarça ardente, quando Moisés recebe o chamado para ser o libertador do povo de Israel da terra do Egito. Essa denominação, por sua vez, será muito recorrente ao longo de todo texto bíblico e será uma das principais maneiras pela qual o povo de Israel falará a respeito de Deus.

Tal caracterização da divindade se mostra muito interessante, uma vez que agora o Deus deste povo, Israel, não é visto como uma divindade distante, mas uma divindade que se implica na história e, mais ainda, é conhecida pelos seus atos feitos na história do seu povo.

Se nós compararmos tal discurso a respeito de Deus com, por exemplo, os discursos feitos sobre os deuses gregos, perceberemos uma grande diferença. Enquanto esses vivem em um mundo próprio, o Olimpo, onde têm suas festas, seus conflitos etc, vindo à Terra somente para alguma aventura, ou interferindo das alturas nas ações dos seres humanos, o Deus apresentado nas páginas do texto bíblico se revela em outra perspectiva, como alguém que, vendo o sofrimento do seu povo, decide se importar com ele e caminhar ao seu lado.

Nessa perspectiva, a história não é vista como somente uma grande peça de teatro escrita para ser observada por entes divinos, ou como um seriado interativo, no qual é possível fazer as decisões que determinada personagem tomará, influenciando, assim, o enredo final da série. Muito pelo contrário, o próprio Deus se implica nessa história, fazendo dela também a sua própria, criando em si um espaço para que ela ocorra. Em outras palavras, como nos diz Moltmann, a história acontece no próprio Deus.

Essa compreensão de um Deus que caminha com seu povo e se faz presente na história, no entanto, parece que não faz tanto sucesso hoje em dia em diversos ambientes que se dizem cristãos. Em tais ambientes, o que comumente se escuta é a respeito de um Deus que vive no céu, cercado de miríades e miríades de anjos, sendo constantemente adorado e distribuindo bençãos ou maldições, de acordo com o que o departamento de Contabilidade Celestial lhe informa nos balancetes mensais.

Prega-se um Deus que não se importa com o sofrimento humano, que não se implica neles, que não sofre, não chora, não ri. Em outras palavras, um Deus impassível, incapaz de sentir algo, porque, como diriam os gregos, tal sentir causaria alterações na divindade que, por excelência, se quiser ser perfeita, não pode sofrer nenhuma alteração.

No entanto, ao se fazer isso, tais igrejas não pregam o Deus anunciado no texto bíblico : um Deus que sofre e caminha com seu povo, estando atento ao seu sofrimento, padecendo, por amor e reconciliando toda a criação Consigo mesmo.

Esse Deus, desde as páginas do Antigo Testamento é aquele que ouve o clamor dos que sofrem por causa de líderes cruéis, que sabe o quanto tais pessoas sofrem e, por isso, vem em auxílio delas.

A igreja atual precisa resgatar o anúncio desse Deus que se implica na história, que é contra a injustiça, que sofre com os que sofrem, que, em Jesus, se mostra como aquele que é contrário a toda forma de violência e toda forma de exploração.

A luta por justiça, igualdade social, ausência de discriminação deve ser também a causa de toda pessoa que se diz cristã. Do contrário, ao invés de sermos luzes no mundo, deixaremos ainda mais densa a escuridão que insiste em avançar sobre ele.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1581946/2022/06/historia-lugar-da-revelacao-de-deus/