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sábado, 15 de novembro de 2025

Um buraco na parede

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Laurence Freeman, OSB


Um excerto de Laurence Freeman OSB, ‘O Labirinto’, JESUS O MESTRE INTERIOR (Nova Iorque: Continuum, 2000), pp. 231-32


‘Para abraçarmos a eternidade da plenitude do ser (o ‘EU SOU’ de Deus), devemos primeiro encarar a dura realidade da impermanência e do vazio. A tentação é sempre reduzir a intensidade, rebaixar a consciência a um nível inferior, até mesmo adormecer. Buda alertou contra obscurecer a mente nesta ou em qualquer outra etapa da jornada com substâncias intoxicantes ou sedativas, estimulantes ou depressoras. Jesus exortou a todos a permanecerem plenamente conscientes.

Estejam alertas e vigilantes. Vocês não sabem quando chegará o momento… Portanto, vigiem, pois vocês não sabem quando o dono da casa voltará. Se for à tarde ou à meia-noite, ao cantar do galo ou ao amanhecer, se ele vier de repente, não os encontrará dormindo. O que eu digo a vocês, digo a todos : Vigiem! (Mc 13:33-37)

Na carta aos Efésios, Paulo afirma que esse estado de vigília conduz aos ‘poderes espirituais da sabedoria e da visão’ e, posteriormente, à gnose, ao conhecimento espiritual. Mas mesmo com a fé mais forte, a dolorosa sensação de separação não se dissipa imediatamente, mesmo quando a sabedoria começa a brilhar. A parede do ego pode parecer um obstáculo intransponível, um beco sem saída que não nos deixa para onde fugir. Contudo, como nos lembra a Ressurreição, o que parece ser o fim, na verdade, não o é. Ao confrontarmos nosso egoísmo arraigado e reconhecermos sua lenta decadência, a meditação nos ajuda a verificar nossa própria ressurreição em nossa experiência.

A lei da natureza inferior, do karma, e o domínio do ego limitador reinam até que uma brecha na parede se abra. Primeiro, um tijolo é removido, como por uma mão invisível, e vislumbramos uma perspectiva que transcende tudo o que havíamos imaginado ou sido capazes de compreender. É uma experiência, e ainda assim, é conhecida de uma maneira completamente diferente de tudo o que já experimentamos. Não somos mais os meros indivíduos que pensávamos ser. A vida mudou irreversivelmente. Vivemos e, no entanto, como São Paulo, já não vivemos mais.

Eu sou porque não sou.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/leitura-semanal/um-buraco-na-parede/

quarta-feira, 2 de julho de 2025

A terra fecunda da formação monástica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Mauro-Giuseppe Lepori, O. Cist.,

Abade Geral

 

‘Visitei recentemente uma comunidade de monges, e durante a minha estadia pude participar de uma conversa comunitária. O assunto era a expressão muito original de um artista cristão. Conversava-se sobretudo sobre as imagens de suas obras, mas sobretudo alguns dias antes tínhamos visto um vídeo sobre ele, sobre sua caminhada humana e artística. O diálogo entre os irmãos foi muito profundo, pois cada um tinha-se deixado tocar, muito pessoalmente, pelo testemunho desse artista. No fim o abade disse que naquele ano, por causa da situação criada pela pandemia, eles tinham tido poucos momentos de formação estruturada, com convites de professores para cursos e sessões. Ele se preocupava com a formação permanente, justamente porque ao longo de anos isso tinha desenvolvido uma bela cultura de partilha, de diálogo, de escuta e de palavra.

Tomei ainda mais consciência que a formação monástica é viva e eficaz, quando encontra numa comunidade um campo trabalhado, um campo que se deixa trabalhar para acolher a semente, deixá-la germinar, crescer e dar fruto. Ou então, para usar uma outra imagem talvez mais expressiva no âmbito da formação, se a comunidade se dispõe a ser argila bem misturada, trabalhada com a água, com justa consistência, para permitir que o oleiro lhe dê a forma bela e útil, que lhe quer dar.

Em resumo, quando uma comunidade trabalha na sua própria conversão, quando se forma como comunidade filial e fraterna, quando é, como diz São Bento, um espaço de estabilidade obediente – quer dizer de silêncio, de escuta, na conversatio morum, num caminho de conversão de comunhão, que a torna viva, então tudo contribui para a sua formação, tudo se torna para ela e para cada membro que a compõe, ocasião para crescer, para aprofundar e se dilatar na forma perfeita de Cristo, o Filho bem-amado, que o Pai quer imprimir em nós, pelo dom do Espírito. Só uma comunidade que aceita ser um campo de construção pode tornar-se uma casa, uma morada e sobretudo um templo da presença de Deus. Sem isso, mesmo os melhores cursos e sessões, com os melhores mestres e professores, não conseguem formar e fazer crescer uma comunidade e seus membros.

Conheço comunidades pequenas e frágeis que não podem mais conseguir formadores externos e qualidade, mas que são tão unidas na humildade e no desejo de conversão, que cada migalha de verdade, de beleza vinda não importa de onde, nem de quem, se torna semente de formação e de edificação. Tudo nos forma se tivermos um coração humildemente aberto para a conversão, que a conversatio monástica e comunitária nos oferece e nos pede. Isto faz comunidades aonde se percebe o coração meditativo da Virgem Maria, vigilante para nada perder do acontecimento do Verbo-Esposo. Se falta esta atitude, uma comunidade pode dispor da formação mais abundante e refinada, sem que isso a forme verdadeiramente. A melhor semente fica estéril, se em vez de cair num campo lavrado, cair no mármore mais precioso e polido.

Para que qualquer formação seja fecunda, não se deve esquecer o humus, a terra. Quem não trabalha a terra, não terá frutos no tempo desejado. E aqui está a grande sabedoria da formação monástica : começa por baixo, para que mesmo que vem do alto, como a Palavra de Deus e o seu Espírito, possam achar acolhimento, abertura, quer dizer uma liberdade que pede e deseja, e que abre a porta quando o Verbo bate.

São Bento entendeu, na escola do Evangelho e dos Padres, que nada trabalha a terra melhor que a vida comunitária. Viver em comunidade torna a conversão verdadeiramente formadora. Sem um meio comunitário, que guia, cede-se à tentação, velha como o pecado original, de querer modelar-se com as próprias mãos. Mas as nossas mãos só fazem maquiagem, fazendo-nos olhar narcisisticamente ao espelho de nossas ambições e vaidades. Quando, pelo contrário, a nossa liberdade consente que a vida comunitária e a obediência nos trabalhem, para nos formar segundo o desígnio de Deus, então, lentamente, descobrimo-nos modelados, a partir do mais profundo de nós mesmos, para que o dom verdadeiro da nossa vida dê fruto.

Neste sentido, o tempo de pandemia foi uma grande provação para as comunidades monásticas. Por um lado, descobrimos, como toda a gente, os meios de formação partilhada à distância, que oferecem às comunidades mais frágeis novas oportunidades de formação. Mas esta oportunidade revela também um grande limite : favorece a comunicação formadora, mas não a comunhão formadora. A formação  on-line é excelente para nos informar, mas não consegue nos modelar. É como se aprendêssemos a teoria da olaria, mas sem sujar as mãos na argila. Mais ainda : é como se um oleiro mostrasse à argila os gestos que a modelam, mas sem a tocar. É preciso, então, que a argila encontre mãos que se encarreguem de a trabalhar. E aqui voltamos à necessidade de uma verdadeira conversatio comunitária, que aliás, se tornou particularmente sensível, quando o confinamento obrigou as comunidades monásticas a viverem numa verdadeira clausura.

Quando em 2020 fomos obrigados a fechar o Curso de Formação Monástica, que existia há 20 anos, durante um mês, na Casa generalícia cisterciense em Roma, nos perguntamos se não seria necessário substituí-lo por cursos on-line. Mas à parte a dificuldade prática de reunir virtualmente alunos espalhados desde a Ásia às Américas, foi evidente, para nós, que não podíamos reduzir este curso de formação a simples aulas. Faltaria a dimensão comunitária que permite aos professores começar logo a fazer germinar na vida real dos participantes, ensinando-lhes a dinâmica integral da formação monástica, que não é somente semente, mas também terra que acolhe, que não é só palavra, mas também coração que escuta para viver em comunhão.

Quando se medita o primeiro capítulo da Regra de São Bento, sobre os diversos gêneros de monges, percebemos que a verdadeira diferença entre os dois bons modelos de monges, os cenobitas e os anacoretas, e os dois maus modelos, os sarabaítas e os giróvagos, está na escolha, ou na rejeição de se deixar formar por alguém, que não sou eu. Os cenobitas e os anacoretas confiam o desejo de plenitude de vida e de santidade nas mãos de Deus e de uma comunidade guiada por uma Regra e um abade; os sarabaítas e os giróvagos seguem a tendência individualista, que temos desde o pecado original, de não confiar a formação às mãos de um outro. Todos são barro destinado a ter uma bela e útil forma, mas os primeiros permitem que Deus e a comunidade os modelem, enquanto que os outros se deixam levar, tomando a forma, sem forma, da inclinação em que escorregam. Os primeiros confiam o seu desejo de vida e de alegria a um caminho que o realiza; os outros confundem o desejo profundo do coração com a tendência dos instintos e deixam-se guiar pelas próprias tendências, que não levam a lado nenhum. Pois a tendência dos instintos é um desejo deteriorado, que se fecha sobre si mesmo, renunciando ao infinito para o qual deveria estar tendido.

A formação monástica, como toda a formação humana e cristã, é um assunto sério, seu objetivo não é a perfeição do saber, incluindo o saber como fazer, mas a plenitude da vida, para a qual fomos criados pelo Pai, resgatados pelo Filho e animados pelo Espírito; plenitude para a qual nos é dado o Corpo do Cristo, que é a Igreja, até à pertença imediata à comunidade, que nos foi dada, para que a forma de Jesus se torne a substância da nossa vida em todas as suas relações.’ 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/120

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Todos os Santos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘A festa do dia de Todos-os-Santos é celebrada em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não. A Igreja Católica celebra a Festum omnium sanctorum a 1 de novembro, seguido do dia dos fiéis defuntos a 2 de novembro.

Segundo o ensinamento da Igreja, a intenção catequética desta celebração que tem lugar em todo o mundo, ressalta o chamamento de Cristo a cada pessoa para o seguir e ser santo, à imagem de Deus, a imagem em que foi originalmente criada e para a qual deve continuar a caminhar em amor. Isto não só faz ver que existem santos vivos (não apenas os do passado) e que cada pessoa o pode ser, mas sobretudo faz entender que são inúmeros os potenciais santos que não são conhecidos, mas que da mesma forma que os canonizados igualmente vêem Deus face a face, têm plena felicidade e intercedem por nós. O Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da ‘vocação universal à santidade’, tema renovado com grande ênfase no Segundo Concílio do Vaticano.

Nesta celebração, o povo católico é conduzido à contemplação do que, por exemplo, dizia o Cardeal Beato John Henry Newman : ‘não somos simplesmente pessoas imperfeitas em necessidade de melhoramentos, mas sim rebeldes pecadores que devem render-se, aceitando a vida com Deus, e realizar isso é a santidade aos olhos de Deus’.

A comunhão com os santos : «Não é só por causa do seu exemplo que veneramos a memória dos bem-aventurados, mas ainda mais para que a união de toda a Igreja no Espírito aumente com o exercício da caridade fraterna. Pois, assim como a comunhão cristã entre os cristãos ainda peregrinos nos aproxima mais de Cristo, assim também a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem procedem, como de fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do Povo de Deus».

“«A Cristo, nós O adoramos, porque Ele é o Filho de Deus;
quanto aos mártires, nós os amamos como a discípulos e imitadores do Senhor; e isso é justo, por causa da sua devoção incomparável para com o seu Rei e Mestre.
Assim nós possamos também ser seus companheiros e condiscípulos!»”
              Martyrum sancti Polycarpi 17, 3: SC 10bis, 232 (FUNK 1, 336).


Quando a Igreja, no ciclo anual, faz memória dos mártires e dos outros santos, «proclama o mistério pascal» realizado naqueles homens e mulheres que «sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados, propõe aos fiéis os seus exemplos, que a todos atraem ao Pai por Cristo, e implora, pelos seus méritos, os benefícios de Deus».

«Os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade». Todos são chamados à santidade: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48) :

«Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que Cristo as dá, a fim de que [...] obedecendo em tudo à vontade do Pai, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos»’.
  

Fonte :