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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A caridade que transforma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Valadas,

presidente da Cáritas portuguesa 


Escreve o Papa Francisco : «A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia : sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão» (Mensagem para a Quaresma 2021).

A Rede Cáritas em Portugal tem vindo a consolidar um lema que quase usa como assinatura : Cáritas, o Amor que transforma. A Rede Internacional usa o Together we [Juntos é o lema da campanha mundial 2021-2024, um convite a que todos desempenhemos um papel ativo no cuidado da nossa Casa Comum e dos pobres, para tornar o nosso planeta um lugar melhor e mais saudável para as gerações atuais e futuras]. É uma forma de identificar em poucas palavras o pulsar da rede. Assumir que a caridade é uma das nossas forças, a ferramenta no agir e o exemplo na ação.

É olhar para a caridade como uma cultura estratégica e um processo de inspiração nos desafios do cuidar de problemas sociais cada vez mais complexos.

É procurar encontrar formas de autonomizar, inserir, inovar, incluir muito para lá do apoio pontual ou ocasional que «desatormenta», mas não cura.

É considerar que em comunidade todos podemos ser recurso e solução. Ninguém se salva sozinho, não há uma só receita e todos podemos ter o trunfo certo.

Quando jogava às escondidas, lembro-me de que o último podia salvar todos… Às vezes o mais pequenino chegava à partida e dizia : «(X) salva todos».  Já então era o «todos, todos, todos e cada um» que nos dias da Jornada Mundial da Juventude tanto nos inspiraram.

A comunhão fraterna que não quer deixar ninguém de fora tem de usar a caridade com todos os dons, vantagens e tesouros que temos, quer seja uma causa humanitária, uma campanha de emergência ou uma estratégia, iniciativa, missão ou ação para mudar as vidas dos mais vulneráveis, cuidar da Casa Comum ou confortar quem sofre.

A caridade não é uma ferramenta frágil, é um trunfo, que unido a uma escuta ativa, uma vigilância permanente e aos recursos de que dispusermos pode transformar vidas. Como refere o Papa Francisco, «a partir do ‘amor social’, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos» (Fratelli Tutti, 183).

Nos dias que correm, desvaloriza-se muito o sentido da caridade, mas na verdade é a caridade que salva. A caridade não desiste mesmo com a escassez e todas as tormentas. Se não conseguimos a solução ideal, tentaremos construir uma que nos permita o princípio do caminho para uma solução.

Cáritas é o amor que transforma. Como Francisco tem pedido incessantemente : «Não tenham medo.» Vamos lá então!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1005/a-caridade-que-transforma/

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Geraldo de Mori, SJ

 

‘Nos dias 9 e 10 de outubro, o papa Francisco abriu oficialmente o percurso que culminará no próximo Sínodo dos Bispos, em 2023. Ampliando o processo inaugurado nos sínodos anteriores, ele propôs um percurso que deverá implicar toda a Igreja nesta primeira etapa, que é denominada de ‘escuta’. De fato, no dia 17 de outubro, todas as dioceses do mundo deverão também abrir oficialmente seu processo sinodal. 

Qual a novidade desse percurso, para além da ampliação da escuta, uma vez que os sínodos da Família, da Juventude e da Amazônia já tinham auscultado as Igrejas locais através de inúmeras iniciativas? O que está em jogo nesta proposta, voltada aparentemente para uma dinâmica interna à própria Igreja, já que o tema em discussão é o da sinodalidade?

O papa Francisco assumiu o pontificado em um momento de grande crise no seio da Igreja. Falava-se então da necessidade de uma reforma, não só no exercício do pontificado e da Cúria Romana, mas também no modo de funcionamento da própria Igreja. O recente relatório sobre os abusos de menores na Igreja da França, mostra a urgência dessa reforma, que não pode, porém, circunscrever-se às instâncias decisórias, mas deve implicar todo o ‘povo fiel de Deus’, como insiste o papa. 

O Concílio Vaticano 2º, como dizem muitos de seus intérpretes, foi um evento fundamentalmente eclesiológico, ou seja, propôs para a Igreja uma releitura de sua identidade e missão em um mundo que se tornava ‘autônomo’. Mais que contrapor-se a esse mundo, vendo-se a si mesma como ‘sociedade perfeita’, pensada a partir do sacramento da ordem e dos ‘estados de perfeição’, o concílio revisitou a imagem da Igreja como ‘sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’ (LG n. 1), que se coloca a si mesma como servidora do Reino, pensada a partir do sacramento do batismo, que confere a todos os fiéis a mesma dignidade sacerdotal, profética e real.

O texto do Documento Preparatório, elaborado pela Secretaria Geral do Sínodo, inspirado no magistério de Francisco, propõe uma reflexão sobre os termos a partir dos quais é composto o tema do sínodo : comunhão, participação e missão. Esses termos são a chave de leitura para a própria ideia de sinodalidade, que ajuda a entender a reforma proposta pelo papa em seus textos e decisões. De fato, as metáforas da ‘Igreja em saída’ e da ‘Igreja hospital de campanha’, da Evangelii gaudium, indicam em que perspectiva deve ser pensada a missão. 

Por sua vez, os princípios que orientam a convivência social e o bem comum, na mesma exortação, a saber, o ‘tempo é superior ao espaço’ (EG 222-225); a ‘unidade prevalece sobre o conflito’ (EG 226-230); a ‘realidade é mais importante do que a ideia’ (EG 231-233); o ‘todo é superior à parte’ (234-237), e as ideias que orientam a amizade e o diálogo social na Fratelli tutti, mostram como entender a comunhão e a participação em perspectiva sinodal. Frente às inúmeras ‘sombras’ de um ‘mundo fechado’ (FT 9-55), a Igreja, pelo testemunho da comunhão, deve criar ‘pontes’ que aproximem as pessoas, promovendo a participação de todos os seus fiéis no serviço samaritano aos que estão à beira do caminho (FT 56-86).

A reflexão do Documento Preparatório propõe também uma leitura sobre o significado do termo sínodo, retomando o discurso do papa por ocasião dos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, no qual Francisco afirma que aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo já está tudo contido na palavra ‘sínodo’. Jesus se apresenta a si mesmo como ‘o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14,6) e os cristãos eram inicialmente conhecidos como ‘discípulos do caminho’ (At 9,2). A sinodalidade não se reduzia então a encontros, mas era o modo de viver e de operar da Igreja. Ela foi seu jeito habitual de proceder no primeiro milênio, sendo redescoberta pela Igreja católica no Concílio Vaticano 2º, mostrando como todos/as são chamados/as a aprender no caminhar juntos.

O Documento Preparatório propõe ainda duas cenas do Novo Testamento para entender a sinodalidade : a que põe em relação Jesus, a multidão e os apóstolos, que mostra como essa dinâmica deve manter-se viva ainda hoje na Igreja, onde todos/as devem assumir sua vocação batismal; e a que põe em relação Cornélio e Pedro (At 10), e indica como o caminhar juntos supõe a conversão de todos/as que estão no caminho.

No discurso que fez no dia 9 de outubro, no momento de reflexão sobre o início do processo sinodal, o papa recorda três ameaças ao processo sinodal : o formalismo, que faz com que o sínodo seja apenas um processo formal, sem impacto real na vida da Igreja; o intelectualismo, que converte o sínodo num ‘grupo de estudo’, sem implicar os processos eclesiais; o imobilismo, que impede a Igreja de assumir esse processo, preferindo continuar na ‘pastoral de manutenção’. 

Francisco também aponta as três oportunidades abertas pelo processo sinodal : a de caminhar, não ocasionalmente, mas estruturalmente na perspectiva sinodal; a de ser uma Igreja da escuta, aprendida na adoração, escutando os/as irmãos/ãs em suas esperanças e crises; a de ser uma Igreja da proximidade, que é o estilo de Deus, que se aproxima com atitude de compaixão e ternura, uma Igreja que não se afasta da vida, mas que ajuda a carregar as fragilidades e pobrezas de nosso tempo, curando as feridas e sanando os corações aquebrantados.

O papa Francisco afirma inúmeras vezes que o importante é ‘abrir processos’ e não ‘dominar’ as dinâmicas que eles vão tornando possíveis. Como ele disse na homilia de abertura do sínodo, no dia 10 de outubro, ‘trata-se de se colocar à escuta do Espírito’, para saber o que Ele diz à Igreja, discernindo qual Sua vontade para os que se dizem ‘discípulos do Caminho’ hoje. 

Oxalá esse percurso, para o qual todas as Igrejas particulares são convidadas, possa ser o semeadouro de ‘novos processos’, ajudando-as a um ‘caminhar juntos’, descobrindo qual o carisma de cada irmão/ã, numa real perspectiva sinodal, que as ajudem a eliminar o clericalismo, que tanto mal lhes tem feito, impedindo-as de serem a Igreja que brotou do lado aberto do Crucificado, na qual todos/as possuem a mesma dignidade e são chamados/as na edificação do Reino de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1544892/2021/10/para-uma-igreja-sinodal-comunhao-participacao-e-missao/

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Ethos e pandemia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Pedro Cunha Cruz,
Bispo diocesano da Campanha, MG


‘A ética, na sua definição mais elementar, significa ciência dos costumes ou modo habitual de proceder. É a reflexão sobre as ações humanas como tais. Ela visa sempre orientar o ser humano a agir segundo o bem. O bem constitui, por assim dizer, o seu foco objetivo. O bem que é capaz de dar sentido e valor à vida, na medida em que ele se torna o objeto do agir e da realização do sujeito. Parece uma ousadia em uma cultura marcada por uma forte autonomia do sujeito, repropor o tema do Ethos às consciências que buscam respostas e sobrevivência em um momento trágico e sem precedente da nossa história. Ser o sujeito e não o objeto do próprio destino sempre pareceu um plano ou sonho a ser atingido, como ideal de uma vida moral emancipada e emancipante. A sede de uma total subjetividade seria capaz de nos orientar na escolha do bem em uma sociedade líquida, ferida, insatisfeita e inquieta consigo mesma?

É a partir desta questão que deve emergir um Ethos futuro, pautado na redescoberta de nossa identidade aberta ao outro. No atual período de ‘clausura’ temos sentido a falta do outro que, mesmo estando fisicamente distante de nós, está sempre no horizonte do nosso pensamento, confirmando que somos ser para o outro. De fato, o homem é um ser de relação. O ser humano foi criado para o encontro com o outro e com o totalmente Outro. O encontro só é possível sob a condição de um estar de frente. Esse é o nosso Ethos; como bem enfatiza o Papa Francisco ao falar da cultura do encontro. Trata-se de uma ética do encontro livre e consciente, construída na relação interpessoal. É a ética da humanidade plena do ser humano que necessita, mais do que nunca, edificar o seu amanhã. Portanto, ela supõe a realização de uma construção moral capaz de revelar plenamente o ser humano e de ajudá-lo a realizar-se, como bem refletiu o célebre teólogo Romano Guardini.

Quando emerge no mundo de nossa consciência a exigência de uma melhor convivência humana, então surge uma nova ordem moral, um novo Ethos. Neste aflora não o domínio conflitivo sobre o outro, pautado no frenesi do ser mais ou ter mais; mas na força do encontro, da comunhão com o outro no despojamento do eu para o tu, tornando possível a vida humana como um viver juntos na busca de um mesmo ideal que transcende raças, línguas, nações e condição social.

O mistério dramático e invisível da praga, da dor e da morte, de repente, uniu toda a humanidade em um só Ethos : o de pensar a vida como dom e compromisso, como o existir um para o outro, onde a regra suprema é o amor e a comunhão fraterna universal. Não avançar nesse itinerário, significa enveredar na planície da solidão, onde perderemos o ponto de referência existencial e o valor infinito da pessoa. Tal é o dinamismo racional da vida. ‘A tempestade nos mostra que não somos autossuficientes, que sozinhos afundamos. Por isso, devemos convidar Jesus a embarcar em nossas vidas. Com Ele a bordo, não naufragamos, porque esta é a força de Deus : transformar em bem tudo o que nos acontece, inclusive as coisas negativas. Com Deus, a vida jamais morre’ (Papa Francisco, Hora Santa. Vaticano, 27/03/2020).

Por fim, se não sairmos melhores depois deste mal que assola todo o mundo, sem nenhuma dose de pessimismo, confirmaremos a globalização da indiferença, pelo fato de não colocarmos mais o outro na dimensão relacional do nosso ser; mas também, por confirmarmos que desaprendemos a aprender as lições da nossa história. Prefiro acreditar, com otimismo e esperança, numa humanidade renovada e apontada para um novo destino pós-pandêmico. A vida voltará a florescer com toda força. O amor fará a vida vencer. E, assim, esperamos o surgimento de um novo Ethos, isto é, de um ser mais humanizado; onde todos se sentirão membros de uma só família.’


Fonte :

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A recepção da comunhão ao longo dos séculos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Dr. José Eduardo


A comunhão nunca foi tão acessível… e tão banalizada

‘Até o século XIX, os critérios para comungar eram doutrinalmente tão exigentes que, na prática, poucas pessoas comungavam.

Considerava-se que, para além de uma preparação que eu chamaria de negativa — o fiel não deveria ter consciência de nenhum pecado grave –, era necessária uma cuidadosa preparação positiva : jejum eucarístico desde a meia noite, asseio e modéstia pessoais muito mais salientados que o normal, oração fervorosa com a repetição de inúmeros atos de fé, esperança, adoração, humildade, caridade etc. No dia-a-dia, as pessoas comungavam raramente, somente depois de se confessarem e fora da Santa Missa.

Essa prática era tão consagrada, que Santa Teresa foi considerada suspeita de heresia porque desejava comungar todos os domingos.

A propósito, o Concílio de Trento deixou muito clara a distinção entre o rito da Santa Missa (com a comunhão do sacerdote) e o rito da Santa Comunhão dos fiéis, para salvar a Igreja do erro protestante de se considerar a Missa como somente uma Ceia e, portanto, a Comunhão como o momento essencial da ação litúrgica (e não a consagração).

Os santos sempre sofreram com essa dificuldade em receber o Santíssimo Sacramento, a tal ponto que a própria Santa Teresinha do Menino Jesus chegou a dizer que, quando chegasse ao céu, a primeira coisa que pediria a Deus seria a ‘comunhão diária’ para toda a Igreja.

De fato, ela morreu em 1897 e, em 1903, foi eleito o grande São Pio X, que, em 1905, escreveu o Decreto ‘Sacra Tridentina Synodos’, oferecendo a todos os fiéis a possibilidade de comungarem diariamente.

Isso foi uma grande graça! Um tremendo prodígio!

Contudo, a recepção diária não servia para afrouxar as exigências de uma preparação negativa e positiva para comungar. Antes, era instrumento para difusão de maior santidade na Igreja.

Aconteceu, porém, que, com o passar do tempo, a disciplina se foi afrouxando e, de uma condição em que o fiel se sentia ‘PROIBIDO DE COMUNGAR’, passou-se a uma condição em que os fiéis passaram a se sentir no ‘DIREITO DE COMUNGAR’ : bastaria não ter um pecado grave na consciência que já se sentiriam aptos para aceder ao ‘sacrum convivium’, sem maiores exigências.

Foi uma mudança de 180 graus, já foi uma queda!, mas ainda num quadro em que as pessoas se viam obrigadas a confessar, caso houvesse consciência de pecado mortal.

A situação foi se alterando, porém.

E, há algumas décadas, chegamos ao estado em que os fieis se sentem no ‘DEVER DE COMUNGAR’, como se a não recepção da comunhão fosse em si mesma um pecado. Esse dever, aliás, não é imputado apenas ao leigo, mas também à Igreja : parece que a única forma de inclusão é dar a comunhão, e ninguém possa ser privado desse sacramento, inclusive pelo próprio bem de sua alma. Não só o fiel teria o dever de comungar, mas o padre teria o dever de dar a comunhão a quem quer que seja!

Hoje, as pessoas se confessam de terem ido à Missa e não terem comungado; ou de não terem ido à Missa por não poderem comungar; ou de terem comungado em pecado grave com a intenção de depois se confessarem, porque se sentiam no dever de fazê-lo ou tinham ‘necessidade’… QUANTA CONFUSÃO DOUTRINAL E QUANTO SACRILÉGIO!

A doutrina da Igreja é clara, e não preciso aqui explicá-la. Para comungar, é preciso ter a consciência livre de qualquer pecado grave e estar fervorosamente em pelo menos uma hora de jejum e oração, aguardando a chegada do Senhor na alma!

Na práxis pastoral hodierna, não é que mudamos 180 graus, isso já é coisa do passado! Conseguimos a ‘proeza’ de ainda dar uma cambalhota para outros 180 graus, e parece-me que perdemos o caminho de volta.

Viva a Sagrada Comunhão diária!, mas recebida com as devidas disposições, com aquele espírito sintetizado pelo Apóstolo das Gentes : ‘aquele que comunga sem distinguir o corpo do Senhor, comunga a sua própria condenação. Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos’ (1Cor 11,29-30).

Não seria essa banalidade com que tratamos a Sacratíssima Eucaristia a razão de tanta falta de firmeza na fé, de tanta apostasia, de tanta irreligião, de tanto abandono de Deus e de sua Lei?…’


Fonte :

sábado, 29 de junho de 2019

Sugestões para o Clero chinês respeitando a liberdade de consciência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea Tornielli,
jornalista e escritor
  


‘Absoluto respeito pela liberdade de consciência de cada um, proximidade e compreensão pela situação que vivem atualmente as comunidades católicas, sugestões para escolhas de opções concretas que permitam ao clero chinês de se registrar sem deixar de lado o que a Igreja Católica sempre acreditou sobre a comunhão com o Sucessor de Pedro. Este é conteúdo da Nota da Santa Sé sobre as Orientações Pastorais para os Bispos e os sacerdotes da República Popular da China.

O documento foi criado a partir das muitas perguntas que chegaram ao Vaticano por parte do Clero da China. Qual o comportamento adequado diante do pedido urgente de se inscrever segundo o que é estabelecido por lei pelas autoridades políticas? O que fazer com o dilema de consciência representado por alguns textos problemáticos aos quais com frequência é solicitada a assinatura?

Diante destes quesitos a Santa Sé responde sobretudo reafirmando um princípio geral fundamental : deve ser respeitada a liberdade de consciência e, portanto, ninguém pode ser obrigado a dar um passo que não tem intenção de realizá-lo.

A assinatura do Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação dos Bispos de setembro de 2018, deu início a um novo caminho nas relações sino-vaticanas e levou ao primeiro importante resultado da plena comunhão de todos os bispos chineses com o Papa. Mas nem todas as dificuldades foram resolvidas : o Acordo representa, com efeito, apenas o início de um percurso. Uma das dificuldades atuais refere-se ao pedido dirigido aos sacerdotes e bispos de se registrarem oficialmente junto às autoridades, como prescrito pela lei chinesa. Apesar do compromisso de querer encontrar uma solução aceitável e compartilhada, em várias regiões da República Popular da China são propostos aos sacerdotes textos a serem assinados não conformes à doutrina católica, que criam compreensíveis dificuldades de consciência, nos casos em que pedem para aceitar o princípio de independência, autonomia, e autogestão da Igreja na China.

A situação atual é bem diferente à dos anos Cinquenta, quando houve uma tentativa de criar uma Igreja nacional chinesa separada de Roma. Hoje, graças ao Acordo Provisório, as autoridades de Pequim reconhecem o papel peculiar do Bispo de Roma na escolha dos candidatos ao episcopado e portanto a sua autoridade de Pastor da Igreja Universal. A Santa Sé continua trabalhando, para que todas as declarações, solicitadas durante o registro, sejam de acordo não apenas com as leis chinesas, mas também com a doutrina católica e, portanto, aceitáveis para Bispos e sacerdotes.

Considerando a situação particular que vivem as comunidades cristãs do país, na espera de superar definitivamente o problema, a Santa Sé sugere, portanto, uma possível modalidade concreta para permitir à pessoa que se encontra em dúvida, mas intencionada a se registrar, de resolver as suas reservas.

Trata-se de uma sugestão introduzida no sulco inaugurado pela Carta aos Católicos da China publicada em maio de 2007 por Bento XVI. Naquele texto Papa Ratzinger reconhecia que ‘em numerosos casos concretos, aliás quase sempre, no procedimento de reconhecimento intervêm organismos que obrigam as pessoas envolvidas a assumir posições, a realizar gestos e a assumir compromissos que são contrários aos ditames da sua consciência de católicos’. E acrescentava : ‘Por isso, compreendo como nestas diversas condições e circunstâncias seja difícil determinar a escolha correta a ser feita. Por este motivo a Santa Sé, depois de ter reafirmado os princípios, deixa a decisão a cada Bispo que, ouvido o seu presbitério, tem melhores condições de conhecer a situação local, de medir as concretas possibilidades de escolha e de avaliar eventuais consequências dentro da comunidade diocesana’. Portanto, já doze anos atrás o Papa mostrava compreensão e, de fato, autorizava cada um dos Bispos a decidir pensando em primeiro lugar ao bem das suas respectivas comunidades.

Hoje a Santa Sé realiza uma ulterior etapa de caráter pastoral no caminho empreendido em um contexto objetivamente diferente do passado. Com as Orientações Pastorais agora publicadas, sugere-se a possibilidade de que os Bispos e os sacerdotes peçam, no momento da inscrição, o acréscimo de uma frase escrita, onde se afirma que independência, autonomia e autogestão da Igreja sejam entendidos sem deixar de lado a doutrina católica. Isto é, como independência política, autonomia administrativa e autogestão pastoral, as mesmas que vivem todas as Igrejas locais do mundo. Caso não seja permitido acrescentar a frase escrita, ao Bispo ou sacerdote que pretende se registrar sugere-se a oportunidade de fazer este esclarecimento ao menos verbalmente, possivelmente na presença de uma testemunha. E também pede-se para que informe imediatamente o próprio Bispo sobre sua inscrição e as circunstâncias com que foi realizada. Ao contrário, quem não quer se registrar nestas condições, não deve ser submetido a indevidas pressões.

É evidente a origem do documento : um olhar realista sobre a situação existente e sobre as dificuldades ainda presentes, a intenção de ajudar os que se encontram na dúvida respeitando sempre a consciência de cada um na consciência dos sofrimentos vividos, a vontade de contribuir à unidade dos católicos chineses e de favorecer o exercício público do ministério episcopal e sacerdotal para o bem dos fiéis : de fato, a clandestinidade, como escrevia Bento XVI na sua Carta, ‘não pertence à normalidade da vida da Igreja’ também nas linhas desta última Nota da Santa Sé percebe-se a lei suprema da ‘salus animarum’, a salvação das almas, e a intenção de cooperar pela unidade das comunidades católicas chinesas, segundo um olhar evangélico que manifesta proximidade e compreensão pelo que viveram e estão vivendo os fiéis na China. Na sua mensagem de 26 de setembro de 2018 aos católicos chineses Papa Francisco tinha expressado ‘sentimentos de gratidão ao Senhor e de sincera admiração – que é a admiração de toda a Igreja Católica – pelo dom da vossa fidelidade, da constância na provação, da arraigada confiança na Providência de Deus, mesmo quando certos acontecimentos se revelaram particularmente adversos e difíceis’.

Por fim, deve-se dizer com clareza : não há ingenuidade nas Orientações pastorais. A Santa Sé, segundo a Nota, é consciente dos limites e das ‘pressões intimidatórias’ que sofrem muitos católicos chineses, mas quer demonstrar que se pode olhar adiante e caminhar sem se desviar dos princípios fundamentais da comunhão eclesial. É a solicitude do Papa que permite ancorar estas Orientações na esperança cristã seguindo o Espírito que leva a Igreja a escrever uma página nova.’

Fonte :

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Santíssima Trindade, mistério de comunhão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Eliano Luiz Gonçalves, 
Vigário da Paróquia Cristo Rei, 
Diocese de Lorena (SP)

‘Ao iniciarmos essa reflexão acerca da Santíssima Trindade (Pai Criador, Filho Redentor e Espírito Santo Santificador), como mistério de comunhão, precisamos ter presente o conceito da relação perene de amor, que estabelece e sustenta essa comunhão. Tendo por referência esta relação, partimos do pressuposto de que a divina comunhão se apresenta como o modelo ideal da sociedade humana, da Igreja e de toda a comunidade humana e religiosa.

A Trindade é o sentido e a missão da Igreja, sacramento da unidade do gênero humano. Unidade da Trindade, pois, a Igreja é reunida pela unidade da Trindade! Essa relação de amor, em vista da vivência da comunhão, revela-se para nós como fundamento e estímulo da prática da caridade fraterna e do apostolado. ‘Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou…’ (Gn 1, 27-28a). Já que o ser humano foi criado à imagem e semelhança divina, ou seja, criado à imagem e semelhança do Amor, tendo por fundamento e exigência essa verdade da Sagrada Escritura, devemos corresponder a essa participação na comunhão da Trindade com atitudes de transbordamento de amor.

Superar as divisões, competições e as demais concupiscências humanas, que a sociedade vigente constantemente apresenta como padrão de comportamento e meta de vida, constitui o grande desafio do homem na atualidade. Trilhar um dinâmico caminho de conversão e arrependimento que o coloque numa permanente atitude de abertura amorosa é uma necessidade vital. A comunhão exige uma saudável e madura relação entre as individualidades de cada pessoa, pois a comunhão na verdade não significa aniquilamento da individualidade, mas enriquecimento dela à luz do amor verdadeiro que harmoniza e equilibra as diferenças. Quando a pessoa busca se auto afirmar no egoísmo e individualismo, tendo o outro como mero instrumento dos seus interesses ou algo descartável, não existe comunhão, mas exploração e instrumentalização do outro. A comunhão tem por base a liberdade e a complementariedade, onde brota o chamado a viver a doação de si mesmo e o acolhimento do outro numa mútua relação.

O mistério trinitário não é uma teoria de termos complexos, um enigma ou uma mera formalidade teológica, mas plenitude de vida. Não se entende a Trindade, porque é difícil imaginar como é possível amar tanto e doar-se na totalidade. O Deus-Amor é único e, ao mesmo tempo, trino, na medida em que isso é necessário para a perfeita comunhão de vida.

A comunhão plena de vida é o objetivo e a meta para onde tudo se encaminha. Para viver a dinâmica santificante da comunhão, não basta fazer parte de um grupo de pessoas que vivem conjuntamente, nem mesmo ter os mesmos objetivos, pois, mesmo assim, os interesses ainda podem ser individualistas. A vivência da comunhão, cujo modelo é a Trindade Santa, exige amar como Jesus ama, um amor de gratuidade e doação. O mandato de Cristo é nítido para todos os que anseiam pela comunhão verdadeira : ‘… Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (Jo 13, 34-35). Nesta dimensão, encontramos também a missão evangelizadora da Igreja em um dos seus fundamentos mais importantes que é o amor. A comunhão é concreta, deixando de ser verbalização quando o compromisso prático do amor é concreto e transformador.

A comunhão entre as Pessoas da Santíssima Trindade é comunicada ao homem pelo dom do Espírito Santo, que estabelece a Nova e Eterna Aliança. Anteriormente, tínhamos a afirmação : ‘Sereis o meu povo, e Eu, o vosso Deus’ (Jr 30,22); agora, temos a plenitude da graça : ‘… conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. Se alguém me ama, guardará a minha Palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada’ (Jo 14, 20.23). Temos claramente, aqui, o princípio base de que a relação entre nós e Jesus manifesta e continua as relações trinitárias.

Peçamos, nessa Solenidade da Santíssima Trindade, o dom da comunhão. O dom é graça de Deus, força do alto que atua rompendo as barreiras e divisões, tendo em vista transformar os muros em pontes. Deixemos que o Espírito Santo nos convença e impulsione nas decisões e atitudes que fecundam, fazem florescer e frutificar a comunhão na Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Conscientes que o amor vivido e continuamente experimentado em nosso meio testemunha ao mundo a salvação e a paz, estabelecendo e construindo o Reino de Deus entre nós. Que o Deus da esperança vos cumule de todo bem e, abençoando-vos, faça acontecer em vós e por meio de vós, a comunhão que revela a face redentora e salvífica de Cristo Jesus! Amém!’

           
Fonte :
  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Todos os Santos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘A festa do dia de Todos-os-Santos é celebrada em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não. A Igreja Católica celebra a Festum omnium sanctorum a 1 de novembro, seguido do dia dos fiéis defuntos a 2 de novembro.

Segundo o ensinamento da Igreja, a intenção catequética desta celebração que tem lugar em todo o mundo, ressalta o chamamento de Cristo a cada pessoa para o seguir e ser santo, à imagem de Deus, a imagem em que foi originalmente criada e para a qual deve continuar a caminhar em amor. Isto não só faz ver que existem santos vivos (não apenas os do passado) e que cada pessoa o pode ser, mas sobretudo faz entender que são inúmeros os potenciais santos que não são conhecidos, mas que da mesma forma que os canonizados igualmente vêem Deus face a face, têm plena felicidade e intercedem por nós. O Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da ‘vocação universal à santidade’, tema renovado com grande ênfase no Segundo Concílio do Vaticano.

Nesta celebração, o povo católico é conduzido à contemplação do que, por exemplo, dizia o Cardeal Beato John Henry Newman : ‘não somos simplesmente pessoas imperfeitas em necessidade de melhoramentos, mas sim rebeldes pecadores que devem render-se, aceitando a vida com Deus, e realizar isso é a santidade aos olhos de Deus’.

A comunhão com os santos : «Não é só por causa do seu exemplo que veneramos a memória dos bem-aventurados, mas ainda mais para que a união de toda a Igreja no Espírito aumente com o exercício da caridade fraterna. Pois, assim como a comunhão cristã entre os cristãos ainda peregrinos nos aproxima mais de Cristo, assim também a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem procedem, como de fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do Povo de Deus».

“«A Cristo, nós O adoramos, porque Ele é o Filho de Deus;
quanto aos mártires, nós os amamos como a discípulos e imitadores do Senhor; e isso é justo, por causa da sua devoção incomparável para com o seu Rei e Mestre.
Assim nós possamos também ser seus companheiros e condiscípulos!»”
              Martyrum sancti Polycarpi 17, 3: SC 10bis, 232 (FUNK 1, 336).


Quando a Igreja, no ciclo anual, faz memória dos mártires e dos outros santos, «proclama o mistério pascal» realizado naqueles homens e mulheres que «sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados, propõe aos fiéis os seus exemplos, que a todos atraem ao Pai por Cristo, e implora, pelos seus méritos, os benefícios de Deus».

«Os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade». Todos são chamados à santidade: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48) :

«Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que Cristo as dá, a fim de que [...] obedecendo em tudo à vontade do Pai, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos»’.
  

Fonte :

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ao longo do caminho da comunhão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Propomos o artigo ‘Ao longo do caminho da comunhão’, publicado no L'Osservatore Romano, que trata do diálogo entre os católicos com a Federação Luterana Mundial e os luteranos europeus. Seu autor, Matthias Türk, é Assistente para a Seção Ocidental do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

‘Há pouco mais de 50 anos, em 4 de dezembro de 1965, quatro dias antes do final do Vaticano II, o Beato Papa Paulo VI celebra a Liturgia da palavra com os Observadores não católicos que haviam participado do Concílio, na Basílica São Paulo fora-dos-muros. Tratava-se do primeiro Ofício Divino celebrado como momento de oração comum na presença de um Pontífice. Em seu discurso, o Papa Paulo VI dirige-se aos observadores como ‘irmãos e amigos em Cristo’. A eles e aos presentes, expressou a sua gratidão, afirmando : ‘A vossa partida gera em nós uma solicitude que não conhecíamos antes do Concílio e que agora nos entristece; gostaríamos de vê-los sempre entre nós!’.

Na linha deste primeiro serviço ecumênico de um Papa, que se inscrevia dentro da grande reviravolta ecumênica da Igreja Católica iniciada com o Concílio Vaticano II, a atitude de fundo manifestada naquele momento foi reconfirmado ao longo do tempo por numerosos encontros ecumênicos : não afrouxamos mais o aperto de mão que, então, nós damos. Vale a pena recordar, sempre, que aquilo que une os cristãos é maior do que aquilo que os divide.

Um novo sinal da crescente comunhão entre católicos e luteranos foi a oração comum e o encontro entre católicos e luteranos no contexto da visita pastoral do Papa Francisco à comunidade evangélica-luterana de Roma, na tarde do domingo 15 de novembro de 2015. Francisco é o terceiro Pontífice a realizar uma visita à paróquia luterana de Roma. Em março de 2010, o Papa Bento XVI havia ali celebrado Vésperas ecumênicas e, em 1983, por ocasião do 500º aniversário de nascimento de Martinho Lutero, São João Paulo II havia visitado a Igreja de Cristo para um momento de oração comum. O Secretário Geral da Federação Luterana Mundial, Rev. Martin Junge, em um comentário divulgado em vista da comemoração da Reforma em 2017, falou da visita do Papa Francisco como um encorajamento dirigido aos fiéis católicos e luteranos para que prossigam o caminho ‘do conflito à comunhão’, como diz o título do documento da Comissão luterano-católica para a unidade, preparado para a comemoração comum da Reforma : ‘Foi bonito observar que o Papa  exortava tanto os fiéis católicos quanto os fieis luteranos, a considerar o serviço aos pobres como a missão mais importante. Na oração comum, Cristo, aquele se serve, se manifestará como o centro desta unidade. Esta é a promessa’.

Também o Pároco da Igreja de Cristo, Jens-Martin Kruse, apreciou tal visita como fonte de encorajamento e renovado impulso para seguir no caminho em direção à unidade da Igreja. Em tal ocasião, o Papa Francisco sublinhou : ‘Esta é também a vocação e a missão ecumênica de católicos e luteranos e de todos os cristão s: um compromisso comum no serviço da caridade, sobretudo pelos menores e mais pobres, torna crível a nossa pertença a Cristo. De outra forma, ela permanece marcada pelas divisões e pelos conflitos entre as Igrejas e entre os fiéis’.

Numerosos delegados ecumênicos tomaram parte também às consultas da 14a Assembleia Geral Ordinária dos Bispos, realizada no Vaticano em outubro passado sobre o tema ‘Vocação e missão da família na Igreja’. Cinquenta anos de diálogo entre luteranos e católicos e de testemunho comum deveriam sensibilizar ambas as tradições em fazer com que suas discussões teológicas levem em consideração as exigências das famílias. Em seu discurso como delegado ecumênico, o Bispo de Ndanganeni Petrus Phaswana, da Igreja Evangélica Luterana da África do Sul e membro do Conselho diretivo da Federação Luterana Mundial, afirmou que as Igrejas deveriam apoiar as famílias na superação de suas dificuldades cotidianas. E as famílias deveriam viver sua fé junto às pessoas próximas, dando um testemunho comum por meio de uma partilha da vida espiritual e prática.

Em 2015, avançaram os preparativos para os 500° aniversário da Reforma. Neste contexto, Martin Junge convidou as Igrejas a aprofundar a questão do significado de ser libertados pela graça de Deus. Na carta enviada às comunidades evangélico-luteranas, que evidencia também a abertura ecumênica da comemoração da Reforma, Junge recorda que ‘na realidade, já estamos no meio do Ano da Reforma’, fazendo alusão a uma série de eventos regionais e internacionais já realizados. Ele exorta as Igrejas a participar, em todo o mundo, às diversas iniciativas que culminarão em 2017 : ‘Reflitam junto à outras Igrejas e parceiros sobre o que significa ser libertados pela graça de Deus e, respondendo juntos ao apelo de Jesus Cristo, levantem no mundo sinais de seu serviço e de seu amor’. ‘Libertados pela graça de Deus’ é o tema escolhido pela Federação Luterana Mundial quer para o Ano da Reforma como para sua 12ª Assembleia Plenária prevista para Namíbia, também em 2017.

Durante uma conferência realizada nos Estados Unidos sobre o tema ‘Do conflito à comunhão : um testemunho profético em um mundo fragmentado’, Junge observou que as reflexões comuns da Comissão luterano-católica para a unidade sobre a história e sobre a teologia da Reforma do século XVI, contribuiu consideravelmente para transformar as relações entre luteranos e católicos em um testemunho comum no mundo. ‘Seria muito otimista pensar, que o compromisso assumido pelos fiéis católicos e luteranos de deixar para trás todos os conflitos e de criar um nível mais profundo de comunhão, possa representar uma poderosa visão, esperança e promessa para pessoas que, de outra forma, experimentam somente destruição e violência?’, perguntou-se Jungue, que depois sublinhou, positivamente, que o Ano da Reforma 2017 não será uma celebração triunfalista: ‘Uma comemoração da Reforma sem a profunda lamentação do Corpo de Cristo dividido em diversas comunidades e famílias, e sem a admissão de uma cega orientação de interesses políticos, seria um erro histórico’.

No mês de janeiro deste ano, a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, com uma carta comum, convidaram as Igrejas membro luteranas e as Conferências Episcopais católicas a usar, adaptando às várias exigências regionais e locais, um texto elaborado conjuntamente como ‘Projeto para celebrações litúrgicas comuns no Ano da Reforma’. Esta proposta de liturgia é pensada para a atual fase do caminho, do conflito à comunhão, de luteranos e católicos. Ele oferece a possibilidade quer de olhar para o passado com gratidão, como para reconhecer as próprias culpas; ao mesmo tempo, convida a voltar o olhar para o futuro, para que católicos e luteranos se comprometam em dar juntos testemunho de sua fé e a prosseguir em seu caminho comum.

A comemoração ecumênica do 500° aniversário da Reforma reflete, portanto, na sua estrutura litúrgica, os temas do agradecimento, do arrependimento, do testemunho comum e do esforço comum, assim como foram elaborados no documento ‘Do conflito à comunhão’. Nos seus traços característicos, estas celebrações ecumênicas refletem também a realidade da vida cristã: chamados pela Palavra de Deus, os homens são enviados e dar um testemunho comum e a prestar um serviço comum.

A Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica pretendem convidar seus parceiros ecumênicos de todo o mundo para um grande evento ecumênico que terá lugar em 31 de outubro de 2016 em Lund, na Suécia, cidade natal da Federação Luterana Mundial, colocando assim em evidência, no início da comemoração da Reforma, os resultados obtidos pelo diálogo luterano-católico. Em 2017, também o diálogo internacional entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica terá um motivo a ser festejado : poderá olhar, de fato, para os seus cinquenta anos de existência. A mensagem que luteranos e católicos desejam lançar para o Ano da Reforma é o seu empenho comum em deixar os conflitos para trás e escrever, como próximo capítulo da sua história, o de uma profunda comunhão. Em tal modo, a comemoração da Reforma pode tornar-se um novo passo audaz e profético, confirmando a vontade comum em superar definitivamente os conflitos do passado, para que as nossas mãos, as nossas mentes e os nossos corações se abram e acolham, como dom de Deus, a comunhão entre nossas tradições de fé.

Em 2015, o diálogo ecumênico a nível teológico pode dar significativos passos em frente. Depois de numerosos documentos comuns, sinal de uma convergência crescida ao longo dos últimos decênios, o diálogo teológico luterano-católico concentrou-se recentemente no tema da comunhão eclesial. Depois do acordo de fundo sobre questões pertinentes à doutrina da justificação, perguntou-se qual mais profunda comunhão entre católicos e luteranos seja necessária e profunda. No momento, baseada nos resultados já obtidos, a Comissão luterano-católica para a unidade está refletindo em como dar maior ênfase na questão da comunhão eclesial, pois nela se fundamenta a comunhão no mistério eclesial e na vida sacramental, como também a comunhão eucarística. Neste contexto, o diálogo luterano-católico a nível internacional está se ocupando do tema daquilo que, partindo do fundamento comum do batismo, já une luteranos e católicos.

A mesma temática está na ordem do dia das consultas entre o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comunidade das Igrejas Protestantes da Europa. Também neste caso, se está trabalhando em um relatório comum. Todos estes estudos ainda requerem tempo. Todavia, eles já mostram a considerável contribuição que o diálogo luterano-católico está levando à questão da unidade da Igreja.

Também o diálogo nacional luterano-católico na Finlândia está se dedicando a este tema, tratando a questão da comunhão eclesial no contexto mais específico da comunhão sacramental da Igreja e da compreensão sacramental do ministério do bispo, do sacerdote e do diácono. A natureza decididamente positiva das relações entre a Igreja Católica e a Comunidade Evangélica-luterana da Finlândia, encontra expressão também na peregrinação ecumênica realizada anualmente a Roma por uma delegação finlandesa por ocasião da Festa de Santo Henrique, Padroeiro da Finlândia, tradição esta, que em 2015, viu seu 30° ano de existência.

Nos Estados Unidos, a Conferência Episcopal Católica e a Comunidade Eclesial evangélico-luterana da América publicaram, em 30 de outubro de 2015, uma declaração comum intitulada ‘Declaration on the Way : Church, Ministry and Eucharist’ em vista do 50° aniversário do diálogo nacional e internacional das duas Igrejas. O documento pretende dar um impulso ao prosseguimento do caminho comum para a plena e visível unidade. Ele contém os consensos aos quais luteranos e católicos chegaram até o momento, apresentando 32 ‘declarações de acordo’ sobre questões que não são mais fontes de divisões. O texto oferece possíveis percursos para o trabalho futuro. Ao mesmo tempo, os parceiros estadunidenses convidaram o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Federação Luterana Mundial para iniciarem um processo de reflexão sobre as divergências que permanecem.  A ‘Declaration on the Way : Church, Ministry and Eucharist’ deseja ser uma resposta à proposta feita pelo Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, de produzir, após a declaração comum sobre a doutrina da justificação de 1990, uma declaração comum sobre Igreja, ministério e Eucaristia, dado que tais conteúdos não podem ser tratados separadamente no diálogo teológico-ecumênico. De tal modo, será possível discutir as falsas expectativas que auspiciam uma comunhão eucarística sem antes um necessário consenso sobre Igreja e sobre ministério.

O grupo de trabalho internacional luterano-católico ‘Grupo de Farfa Sabina’, entregou ao Papa Francisco no ano passado uma cópia em língua inglesa de seu relatório Communion of Churches and Petrine Ministry, Lutheran-Catholic Convergences. As amplas convergências se referem, em particular, à teologia de comunhão e à eclesiologia como fundamentos para uma interpretação comum do ministério petrino na Igreja.

Sobre o tema da Reforma de um ponto de vista ecumênico manifestou-se também o grupo de trabalho ecumênico de teólogos católicos e protestantes da Alemanha. A este propósito, já em 2014 havia sido publicado o livro intitulado Reforma 1517-2017, no qual eram apresentados de maneira conjunta os desenrolar histórico da Reforma.

Até agora, no esforço feito na promoção da unidade dos cristãos, havia prevalecido uma linha que buscava, antes de tudo, esclarecer os pontos controversos, para poder, enfim, compartilhar aquilo que nos é comum. Diferente é a linha que se está seguindo agora, sempre caminho nos ambientes ecumênicos e que é seguida pelo próprio Papa Francisco. Esta consiste em evidenciar, em primeiro lugar, aquilo que nos une para depois tratar, em um clima de respeito fraterno, os temas controvertidos. O resultado surpreendente desta mudança de perspectiva é que precisamente as diferenças existentes na doutrina se revelam frequentemente como um necessário corretivo e como um enriquecimento das respectivas posições e não exclusivamente como erros ou heresias. Compreender os legítimos objetivos da Reforma do século XVI de maneira positiva, como importante enriquecimento da teologia e como renovação da vida da Igreja no sentido de uma ecclesia semper reformanda, constitui um dos aspectos centrais do texto ‘Do conflito à comunhão. Comemoração luterano-católica comum da Reforma no ano de 2017’. Um precedente resultado que exemplifica esta linha foi já citado na declaração comum sobre a doutrina da justificação, assinada em 1999 pela Igreja Católica e pela Federação Luterana Mundial. Neste espírito, católicos e luteranos podem seguir juntos rumo ao Ano da Reforma de 2017, em uma sempre mais profunda comunhão ecumênica.’’


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