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quarta-feira, 29 de junho de 2022

'O sínodo pode se tornar um órgão deliberativo', diz teólogo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Padre Agenor Brighenti é membro da comissão teológica do Sínodo sobre a sinodalidade


*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Padre Agenor Brighenti é um dos membros da comissão teológica do Sínodo da Sinodalidade, sendo o único brasileiro a integrar a lista. Teólogo de renome, foi perito teológico das conferências de Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). Doutor em teologia pela Universidade de Louvain (Bélgica), atua como professor do Instituto Teológico de Santa Catarina e da Universidade Pontifícia do México.

No sínodo, cuja conclusão está marcada para 2023, ele foca sua reflexão teológica a partir de uma perspectiva pastoral e social. Autor de vários livros sobre a temática, também lançou, recentemente, um estudo sobre o novo perfil do clero, fruto de um trabalho de campo que contou com a participação de teólogos e cientistas sociais. O pesquisador identifica uma tendência, em relação ao clero brasileiro, de ‘um deslocamento do profético para o terapêutico e do ético para o estético na esfera da experiência religiosa’, alinhando-se à visão de ‘clericalismo’, pontuada pelo Papa Francisco.

Durante o colóquio, concedido gentilmente ao Dom Total, o estudioso explicou a proposta da atual assembleia e quais avanços ela propõe.

Dom Total : Por que convocar um sínodo sobre a sinodalidade?

Pe. Agenor Brighenti : Porque a sinodalidade, embora tenha sido resgatada pelo Vaticano II, é uma questão pendente. Tivemos nas três décadas que precederam o atual pontificado um processo de involução eclesial, em relação à renovação do Vaticano II. O concílio colocou as bases de um exercício da sinodalidade, num sentido mais profundo, com a eclesiologia do povo de Deus, mas desenvolveu sobretudo a questão da colegialidade episcopal, Christus Dominus, etc. Não houve tempo para situar a colegialidade episcopal no seio da sinodalidade eclesial. E isso ficou uma tarefa pendente na recepção do concílio. A Igreja na América Latina, a partir de Medellín, deu passos substanciosos nessa perspectiva. E avançou muito na recepção do Concílio Vaticano II, sobretudo na concepção da eclesiogênese. A Igreja, que por ser comunhão e comunidade, precisa alicerçar-se sobre a experiência concreta de comunidade, das comunidades eclesiais de base. E as comunidades eclesiais de base Medellín chama de ‘células iniciais de estruturação eclesial’. Sendo assim, podemos dizer que a definição das CEB’s é a definição de sinodalidade. As pequenas comunidades são a célula inicial da sinodalidade eclesial. Se não há exercício concreto da igreja-comunhão/igreja-comunidade, não há sinodalidade. E é por isso que esse sínodo é celebrado de baixo para cima, a partir da igreja local e de suas comunidades, para depois ir ascendendo aos demais âmbitos eclesiais; ou seja : sempre a partir de experiências reais, porque a fé cristã e eclesial e deve estar alicerçada na interação das pessoas com Deus e de Deus com as pessoas. Não há igreja se não há exercício concreto da comunhão no seio das igrejas locais.

Dom Total : O Papa, quando criou a comissão teológica do sínodo, resolveu contar com muitos estudiosos latino-americanos, como no caso do senhor, do Rafael Luciani, entre outros. É um sinal que o pontífice atual reconhece que a igreja latino-americana tem muito a contribuir com esse processo?

Pe. Agenor Brighenti : Às vezes, na Europa, se fala de ‘sinodalidade made in America Latina’. Porque a América Latina tem uma tradição longa de exercício da sinodalidade eclesial. Primeiro, a partir da sinodalidade entre os bispos, da colegialidade episcopal. O Concílio Episcopal Latino-Americano, depois a Conferência do Rio de Janeiro, Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. Então, é um caminhar de longa data. Começou com a Ação Católica, inclusive. Os bispos se reuniram no país e no Continente em torno das questões levantadas pela Ação Católica, as quais desembocaram na renovação do Concílio Vaticano II. Mas o mais significativo na América Latina tem sido justamente o caminhar da Igreja a partir do que Puebla conceitua como comunhão e participação. A partir das experiências concretas e dos processos eclesiais alicerçados nas comunidades eclesiais inseridas profeticamente na sociedade. É uma longa tradição, difícil e conflitiva tanto a nível interno quanto externo. Também do ponto de vista político houve muitos problemas porque esta sempre foi uma igreja profética e transformadora. Havia o medo que surgisse uma igreja popular, sem o magistério, sem autoridade da Igreja, porque estávamos diante de duas eclesiologias bastante distintas. A Igreja pré-conciliar, concebida como uma sociedade perfeita, que se confunde somente com a hierarquia, e o Concílio Vaticano II, que coloca na base da experiência eclesial o batismo. Como diz o Papa Francisco na Querida Amazônia, na Igreja existe e deve ser implementada, cada vez mais, uma cultura eclesial fundamentalmente laical. Porque é do batismo que derivam todos os ministérios, inclusive os ministérios ordenados. E o mais importante, a meu ver, que tem ocorrido na América Latina, é uma intensificação desse movimento sinodal. Primeiro pelo Sínodo da Amazônia, que foi já um sínodo bastante parecido com o atual, porque também foi um sínodo celebrado debaixo para cima. Com o envolvimento das 120 dioceses da região, a partir da participação direta de 70 mil pessoas, e da qual participaram não somente bispos, mas todos os segmentos do povo de Deus, de modo particular o laicado e as mulheres que foram muito protagonistas desse Sínodo da Amazônia. Tudo isso resultou na formação da CEAMA (Conferência Eclesial da Amazônia), um organismo que aglutina toda a igreja da região, e não se trata de um organismo episcopal, mas eclesial. E isso inspirou o Papa Francisco a não celebrar uma VI Conferência Episcopal Latino-Americana, mas a fazer em vez disso, a primeira Assembleia Eclesial, que teve como objetivo central recordar Aparecida, resgatando o Vaticano II e a tradição eclesial latino-americana. Esses dois acontecimentos influenciaram o perfil do atual Sínodo dos Bispos, que agora deixou de ser um 'Sínodo dos bispos’, para se tornar um ‘Sínodo da Igreja’. A Igreja inteira, desde as igrejas locais, é convocada a fazer da sinodalidade o centro do modo de ser e de agir da Igreja, seu modus vivendi e seu modus operandi.

Dom Total : Instaurar uma igreja mais sinodal é o programa de governo do Papa Francisco. Vemos isso desde a Evangelii Gaudium, o documento que mostrou, já em 2013, que ele caminhava nessa direção…

Pe. Agenor Brighenti : O Karl Rahner, que foi um dos pilares da reflexão teológica do Vaticano II, diz que a principal mudança do concílio foi resgatar a catolicidade da igreja presente em cada igreja local. Em cada diocese está a igreja toda, ainda que não seja toda a igreja, porque a igreja é uma comunhão de Igrejas. Isso significa que a igreja de Roma é uma das igrejas que pertence a essa comunhão de igrejas. Claro, ela não é mais uma porque preside a comunhão e a unidade entre essa diversidade de igrejas. Consequentemente, o bispo de Roma é situado dentro do colégio episcopal e é um primus inter paris, um primeiro entre outros. E isso ficou muito evidente no Sínodo da Amazônia quando o Papa votou juntamente com a assembleia. No Concílio Vaticano II, não deixaram o Papa ser membro da assembleia, ele foi uma espécie de moderador sobre a assembleia. No sínodo agora, da Igreja, o Papa Francisco tem se situado como um membro da igreja, como bispo de Roma. E é nessa condição que ele preside a unidade das Igrejas. Com isso, o pontífice está colocando em prática essa eclesiologia do primeiro milênio da Igreja. Foi no segundo milênio que perdemos o exercício da sinodalidade. No primeiro milênio, a Igreja foi regida pelos sínodos diocesanos, os concílios regionais, provinciais e ecumênicos. Os próprios ministérios da Igreja não eram ministérios monárquicos. A Igreja, durante séculos, teve uma equipe de bispos à frente das igrejas locais, bem como uma equipe de presbíteros e diáconos, dos diversos ministérios que surgiram na Igreja. Então, esse exercício sinodal no primeiro milênio se perdeu no segundo. E o Concílio Vaticano II, num retorno às suas fontes bíblicas e patrísticas, resgata esse perfil da Igreja que nunca deveria ter saído de cena. Ainda sofremos muito as consequências de um milênio de uma igreja hierárquica, com relações verticais, instituições rígidas e centralizadoras, com uma concentração do poder na Cúria Romana, a partir do século XVI. E o Papa Francisco, desmontando aquela figura imperial do papa, e também já resgatou a função da Cúria romana, que não é um organismo de controle, nem uma estrutura intermediária entre o papa e as conferências episcopais, mas uma instância de apoio, de serviço às conferências episcopais nacionais. Portanto, estamos colocando em prática um poder na Igreja que é um poder de serviço, não um poder centralizador, potestas, que gera dependência, mas um poder que gera autonomia. Se não há autonomia, não há responsabilidade. E na Igreja somos todos corresponsáveis pelo batismo E o sínodo quer implementar essa eclesiologia da primeira hora da igreja. Não é invenção do Vaticano II, mas um retorno às fontes bíblicas e patrísticas.

Dom Total : Sabemos que, em âmbito oriental, o sínodo é um organismo de governo. Diferente do catolicismo ocidental, onde ele é um órgão consultivo. Será que há a possibilidade que, um dia, também em âmbito ocidental, o sínodo se torne um espaço de decisão como acontece no cristianismo oriental?

Pe. Agenor Brighenti : O Sínodo dos bispos nasceu com essa vocação, com essa finalidade. Inclusive o Papa João 23 acreditava piamente que, com o Concílio Vaticano II, chegar-se-ia à plena unidade com a igreja oriental. Porque tudo o que a igreja oriental pede, na verdade, é um exercício diferente do primado. Na Igreja Primitiva, que foi regida pelos cinco patriarcados, o Bispo de Roma era um dos patriarcas, uma das instâncias que evocavam a unidade das igrejas, Então, um sínodo universal - ou um concílio universal - é expressão dessa unidade das igrejas. E no caso do Oriente, o sínodo tem uma função de gerenciamento, de administração das igrejas, uma instância não só consultiva, mas deliberativa, decisória. E o Sínodo dos bispos nasceu com essa vocação. Não está proposta do sínodo, que nasceu no Vaticano II, que ele deveria ser consultivo. Tanto que o cardeal Aloísio Lorscheider, num dos últimos sínodos que ele participou, disse, à imprensa, de maneira muito contundente, que ‘o sínodo dos bispos nasceu para ser deliberativo, passou a funcionar como consultivo, e não passava de decorativo’. E o Papa Francisco está caminhando para fazer do sínodo uma instância deliberativa. No Sínodo da Amazônia, por exemplo, houve votação de todas as matérias e, pela primeira vez, foi produzido um documento final votado pela assembleia. Ele é um documento oficial do Sínodo da Amazônia. Tanto que se está trabalhando, depois do sínodo, em diversas comissões, implementando as decisões do sínodo da Amazônia, e muitas delas vêm do documento final. Então se assumiu o documento final como um documento oficial do sínodo. Isso, de alguma maneira, é já torná-lo deliberativo. Segmentos da Cúria Romana tiveram dificuldade de acolher essa novidade. [...] Nesse sentido, esse atual sínodo certamente vai promover um aperfeiçoamento desse organismo para que ele possa cada vez mais ser expressão de uma instância não simplesmente consultiva, mas deliberativa, de modo que essa seja a extensão do primado, do governo da unidade das igrejas que o papa exerce por meio de seu ministério petrino.

Dom Total : A respeito dessa mudança de ‘Sínodo dos bispos’ para ‘Sínodo da Igreja’. O que a gente pode esperar? Mais leigos convocados para os sínodos? Como ficam os padres sinodais nessa história? Teremos, dessa forma, ‘leigos sinodais’ com poder de voto? É essa a expectativa?

Pe. Agenor Brighenti : Já para esse sínodo de agora, sobre a sinodalidade, vai participar por ofício uma mulher, que está ligada a um dicastério da Cúria Romana, numa função que, historicamente dá a ela poder de voto (Irmã Nathalie Becquart). E não haverá nenhum empecilho para que ela, de fato, exerça sua função e tenha direito de voto, agora, no sínodo da sinodalidade. É a porta aberta para que haja uma efetiva participação dos leigos e leigas, religiosos e religiosas, não somente dos ordenados. Uma efetiva participação no processo de escuta, discernimento e de tomada de decisão. Não há exercício da sinodalidade, em sentido pleno na Igreja, no sensus fidelium, se os leigos e leigas não tiverem a prerrogativa de poder votar, porque isso é um reconhecimento àquilo que diz o Concílio Vaticano II, de que há uma radical igualdade e dignidade em todos os ministérios. E os ministros ordenados se assentam sobre o batismo, que é a base laical da igreja. Então, certamente, a Episcopalis Communio, essa constituição que já reformou o sínodo dos bispos, e certamente haverá um outro texto mais sintonizado com a reforma da Cúria Romana, que também vai repensar a figura do sínodo talvez a partir da prática atual, sendo celebrado sempre de baixo para cima. Começando pelas igrejas locais, depois indo para o âmbito nacional, continental e universal. Dessa forma a perspectiva é que não somente os ditos ‘padres sinodais’ votem, mas também os membros das assembleias nos mais diversos âmbitos eclesiais, de modo que possam ser escutados, discernir e decidir de acordo com aquilo que aconteceu no primeiro milênio da Igreja. Havia aquela máxima, nos primórdios : ‘O que concerne a todos deve ser discernido e decidido por todos’. E o documento preparatório do atual sínodo retoma esse princípio. Certamente, a tendência é fazer disso uma prerrogativa jurídica, porque se essas práticas não se tornam decisões jurídicas, se não se tornam reforma das estruturas da Igreja, aí não muda nada. Existe mudança, realmente, quando muda a estrutura. E, nesse particular, há uma distância que precisa ser corrigida e adaptada à nova teologia que está agora sendo implementada, que é a teologia da Igreja, a teologia da primeira hora do cristianismo.

Dom Total : Inclusive muitos historiadores atribuem as várias crises que ocorreram no segundo milênio da história da igreja à crise da própria sinodalidade. Então, a gente demonstrou, olhando para a História da Igreja, que quanto menos sinodalidade, mais clericalismo. É isso?

Pe. Agenor Brighenti : Sem dúvida, porque, no segundo milênio, a eclesiologia que vai se estabelecer é aquilo que o Padre Yves Congar diz como é uma ‘hierarquiologia’, reduzindo a Igreja à hierarquia. Tanto que a eclesiologia pré-conciliar dizia com todas as letras (Mystici Corporis Christi) : o clero é o polo ativo, fonte de toda a iniciativa e de todo o poder, enquanto que os leigos são o polo passivo : a quem cabe obedecer docilmente ao clero. A Igreja, então, de acordo com essa visão, é composta por dois gêneros de cristãos : clero e leigos. E o concílio tem outra eclesiologia, resgatando as fontes, ou seja, há um único gênero de cristãos, que são os batizados. Portanto, não é o binômio ‘clero e leigos’ : isso não é a Igreja de Jesus Cristo. O binômio é comunidade e ministérios. Uma comunidade toda ela ministerial. Isso é o cristianismo. Então, evidente que historicamente essa eclesiologia do corpo místico de Cristo, vista como comunidade perfeita, perdeu de vista essa característica de todo o primeiro milênio e por circunstâncias diversas. E isso muito mais por influência de poderes temporais, por ligação a certas instâncias político-econômico-sociais, que por fruto de discernimentos e decisões do ponto de vista teológico. Então foram, às vezes, influência de um poder temporal que é copiado, e entra na igreja de maneira desavisada, para depois receber um sentido teológico. Quando, na realidade, é muito daquilo que o Papa Francisco fala : mundanismo. Esse mundanismo, com critérios pouco evangélicos, que pautam estruturas e realidades da Igreja. Por isso, é necessária uma conversão pastoral da Igreja, e que tudo esteja pautado como a constituição de reforma da Cúria Romana coloca : que tudo seja pautado pela evangelização. Esse é o objetivo, para isso que a Igreja existe. Tudo deve estar em função disso : as iniciativas, as estruturas, para que de fato sobressaia uma igreja povo de Deus, composta por todos os batizados e orientada pelo sensus fidelium.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1582517/2022/06/o-sinodo-pode-se-tornar-um-orgao-deliberativo-diz-teologo/

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O sínodo de Francisco quer acabar com a hierarquia católica?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Sem dúvida, algum vídeo ou texto de ‘influencer católico’, demonizando o sínodo da sinodalidade que está em curso, caiu, de repente, na sua timeline. E você, que lê agora este texto, talvez tenha se deixado levar por muitas dessas interpretações infundadas a respeito de uma das assembleias eclesiais mais importantes da história. Curiosamente, o sínodo que reforça o conceito de catolicidade assusta tanto. Mas por quê?

Bom, deixa eu adivinhar. Algum jovem mediano, que aprendeu recentemente a fumar charuto, e conseguiu emplacar um canal no youtube, te convenceu que o Papa quer acabar com a hierarquia da Igreja, não é mesmo? Ou que o sínodo - que para catolicismo nada mais é que um organismo consultivo - terá o peso de uma reforma canônica? Sinto te dizer que talvez a fumaça do Romeu e Julieta Wide Churchill causou um estrago enorme à mente desse cidadão que está te doutrinando - se é isso que essa pessoa está fumando mesmo.

Para início de conversa, a sinodalidade não é uma invenção de Francisco, mas, para o cristianismo, é um modus vivendi et operandi, um modo de viver e de atuar da própria Igreja, não simplesmente um organismo burocrático que se limita a debater e documentar alguns assuntos.

Aliás, o sínodo surge num contexto no qual a própria igreja, enquanto instituição, começa a se estruturar. Não por acaso, o cristão em si é tido, por alguns padres da Igreja, como um ‘ser sinodal’.

Quem vai dizer isso, de maneira mais precisa, é Inácio de Antioquia (30 - 107 d.C). Ele vai afirmar, num escrito do II, antes mesmo do surgimento de ‘núcleos sinodais’ diocesanos e metropolitanos, que se estruturarão somente no século III, que os membros da comunidade cristã eram, por natureza, σύνοδοι - do grego sinodoi, companheiros de caminho/viagem.

Por isso, o Concílio Vaticano II, evocando a própria sinodalidade, embora não a mencione claramente, vai reforçar que a instituição é formada pelo ‘povo santo de Deus’, fazendo ruir o conceito medieval de societas perfecta, que vê somente na hierarquia um modelo quase ‘celeste e infalível’ de organização.

Em meados do século II, mais ou menos, já existia uma preocupação, entre os primeiros cristãos, de atuar na colegialidade. Sem contar que, nessa mesma época, colegialidade e sinodalidade surgem como conceitos praticamente inseparáveis.

Os bispos, nos primeiros séculos, se reúnem em assembleia para discutir questões importantes para a vida da comunidade. E algumas fontes antigas atestam que, em alguns casos, a própria plebs (o povo de Deus, no caso) é convidada a auxiliar nesse discernimento, a depender do assunto. Ou seja, se convocava um sínodo para evitar rachaduras num corpo eclesial formado por presbíteros, diáconos e leigos, os quais, juntos, eram considerados guardiães dessa harmonia por causa do batismo que os congregava.

Cipriano de Cartago (200 - 258 d.C) vai dizer, inclusive, ‘que da mesma forma que nada deve feito nihil sine consilio vestro - (sem o conselho dos presbíteros e diáconos) et sine consensu plebis (nem sem o consenso do povo), deve-se levar em consideração que o episcopatus unus est cuius a singulis in solidum pars tenetur (O episcopado é uno, cada parte do qual é mantido por cada um para o todo)’.

No Concílio de Cartago de 254, liderado por Cipriano, para resolver a reinserção dos lapsos, ou seja, daqueles que haviam negado Jesus no período da perseguição, a própria comunidade foi consultada pelos bispos sobre como proceder nesse caso. Uma vez excomungados, esses ‘traidores da fé’, poderiam, por meio de um caminho penitencial, retornar à comunhão eclesial? Nesse caso, os leigos também precisavam dar seu próprio parecer, uma vez que seriam eles a conviver, lado a lado, com os ‘desertores’. E é esse padre da Igreja quem vai dizer, na sua Epístola 14 :

Desde o princípio do meu episcopado propus-me nada fazer por iniciativa própria sem o vosso parecer e o consenso do nosso povo’.

Ou seja, mesmo assim, nem os padres da Igreja nem o Papa Francisco, no ato de convocar o sínodo, disseram que a hierarquia estaria com os dias contados nem ‘menos hierarquizada’ se passasse a contar com o apoio, por meio da consulta, do resto da comunidade. Até porque, desde os primeiros séculos, quem convoca o sínodo é a autoridade local/metropolitana. É o próprio pontífice quem vai dizer, em muitas ocasiões, que ‘o sínodo não é um parlamento’, mas um espaço de escuta, e do qual podem sair ‘alguns diagnósticos’.

Fizemos só uma introdução. No próximo artigo, traremos outros dados históricos sobre o sínodo na história da Igreja, focando no surgimento dos concílios e, posteriormente, dos sínodos régios. Fique ligado.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1577067/2022/05/o-sinodo-de-francisco-quer-acabar-com-a-hierarquia-catolica/


terça-feira, 1 de março de 2022

A história da sinodalidade é mais antiga do que você pensa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Bispos no Concílio de Nicéia, que decretou que os bispos deveriam realizar sínodos duas vezes por ano

*Artigo do Padre John W. O'Malley, SJ

 

‘Apesar de toda a sua proeminência no jargão da Igreja nos dias de hoje, o termo sinodalidade não tem uma longa história; é um neologismo cunhado apenas cerca de 20 anos atrás. Não é de admirar, então, que os católicos fiquem intrigados com isso e com o apelo do Papa Francisco por uma Igreja mais sinodal. A perplexidade é especialmente mais aguda nos Estados Unidos, onde até recentemente foi dada pouca atenção à sinodalidade. No entanto, é uma questão urgente, vital para o bem-estar da Igreja hoje.

A definição de sinodal como ‘relativo a um sínodo’ é uma referência que fornece pouca ajuda. O termo sínodo é em si apenas um pouco mais familiar e, na medida em que tem significado para os católicos, evoca a imagem do Sínodo dos Bispos criado pelo Papa São Paulo VI em setembro de 1965, quando o Concílio Vaticano II estava chegando ao fim. Embora relacionado com a instituição tradicional, o Sínodo dos Bispos modificou muito um aspecto crucial da instituição original, como explicarei mais adiante.

Devemos começar, portanto, fazendo a pergunta básica : O que é um sínodo? Até a criação do Sínodo dos Bispos, a resposta à pergunta era simples : um sínodo era um concílio; as palavras eram sinônimas, e a primeira era a palavra derivada do grego, enquanto a outra derivada do latim. Na igreja ocidental, as duas palavras eram usadas de forma intercambiável. O Concílio de Trento, por exemplo, referiu-se a si mesmo como ‘este santo sínodo’, e as edições oficiais das atas do Vaticano II (cerca de 53 volumes) são intituladas como ‘atas sinodais do concílio ecumênico Vaticano II’ (acta synodalia).

Mas o que é um concílio? A palavra é familiar; o que isso implica que seja entendida. Se examinarmos a história dos 21 concílios que os católicos consideram ecumênicos (em toda a Igreja) e as centenas e centenas de concílios locais, a resposta que surge é clara : um concílio é uma reunião, principalmente de bispos, juntos em nome de Cristo para a toma de decisões obrigatórias para a Igreja.

Cada palavra nessa definição é importante, começando com ‘reunião’. Um concílio é uma reunião na qual as negociações devem ser realizadas. Não é uma sociedade de debates nem mesmo uma reunião para celebrar as glórias da Igreja. Um concílio entra em ação.

‘Principalmente dos bispos’

E quanto a ‘principalmente dos bispos’? Em todos os concílios, os bispos estiveram presentes e tiveram o voto decisivo, mas outras figuras desempenharam papéis importantes. Afinal, não foi um clérigo, mas o imperador Constantino quem convocou o primeiro concílio ecumênico em Nicéia em 325 e estabeleceu a agenda principal dele. O concílio se reuniu em seu palácio, e o imperador serviu efetivamente como presidente honorário do conselho. Quando o Papa Inocêncio III convocou o Quarto Concílio de Latrão em 1215, ele ordenou que o imperador, todos os reis, duques e vários outros participassem pessoalmente ou por meio de um vigário. Além dessas pessoas seculares, cerca de 800 abades compareceram, superando os bispos em dois para um.

No Concílio de Trento, chefes de Estado enviaram seus emissários, alguns dos quais eram leigos. Os enviados tiveram o privilégio de se dirigir ao conselho quando apresentaram suas credenciais e, de outra forma, influenciaram os procedimentos do conselho nos bastidores. A certa altura, até os enviados luteranos foram admitidos e autorizados a defender seu caso. A presença de ‘observadores’ não católicos no Vaticano II é bem conhecida. Embora sua influência seja difícil de medir, certamente foi operativa.

Finalmente, uma vez que os teólogos surgiram no século 13 como uma classe de professores distinta dos bispos, invariavelmente participaram e foram indispensáveis na formulação dos decretos dos concílios. Quase 500 foram oficialmente acreditados no Vaticano II. Esse número foi grandemente aumentado pelos teólogos do concílio que serviram como conselheiros pessoais de bispos individuais.

‘Reunidos em nome de Cristo’

Que dizer de ‘reunidos em nome de Cristo’? Esta é a fonte da autoridade de um concílio (isto é, de um sínodo). Os bispos sabiam que ‘onde dois ou três’ estavam reunidos, Cristo estava no meio deles. Além disso, os bispos tinham uma base mais específica nas Escrituras para a autoridade de um concílio : o chamado Concílio de Jerusalém (Atos 15). Naquela reunião importante, os ‘apóstolos e anciãos’ decidiram não impor a circuncisão e ritos judaicos semelhantes aos convertidos não-judeus, e assim abriram o caminho para que um maior número de gentios se convertesse.

O Concílio de Jerusalém é a pedra angular para a afirmação de que os sínodos são a forma mais antiga de governo da Igreja, mas essa afirmação é validada ainda mais pelo surgimento já no século II de numerosos sínodos em todo o mundo romano. Só nesse século, temos evidências de pelo menos 50 dessas reuniões na Palestina, no norte da África, na Gália e em outros lugares.

Daquele momento em diante, os sínodos tornaram-se uma característica padrão da vida da Igreja. Houve no mínimo 400 sínodos entre o segundo e o sétimo século. O Concílio de Nicéia havia de fato decretado que os bispos deveriam realizar sínodos duas vezes por ano, e o Concílio de Trento, como parte de sua reforma do episcopado, ordenou que cada bispo realizasse um sínodo anualmente em sua diocese. Ao longo dos séculos, o ritmo variou, mas se manteve forte. No século 19, os sínodos diminuíram após a definição do primado papal no Concílio Vaticano I (1869-1870), mas nunca desapareceram completamente. Uma das primeiras coisas que o futuro Papa João XXIII fez quando se tornou patriarca de Veneza foi convocar um sínodo diocesano.

Os sínodos são essencialmente um modo colegial de governança. Os bispos trabalham em conjunto com outros bispos e, às vezes, com seu clero e até com outros.

E o modo hierárquico, com o qual, de fato, estamos mais familiarizados? Esse modo também teve uma origem venerável precoce. No início do século II, os bispos surgiram como supervisores, guardiões e líderes de seus rebanhos em suas cidades e alegaram que eram sucessores dos apóstolos. Embora os bispos percebessem que tinham que trabalhar com seus presbíteros, bispos e oficiais leigos para serem eficazes, eles ainda mantinham suas responsabilidades de liderança. Quase desde o início, portanto, o governo da Igreja tinha dois modos – hierárquico e colegial. Às vezes eram companheiros estranhos, mas ao longo dos séculos conseguiram trabalhar juntos apesar de numerosos e constantes confrontos.

O modo hierárquico ganhou força quando, nos séculos IV e V, o bispo de Roma começou a fazer reivindicações efetivas de supervisão geral sobre a igreja maior. O surgimento dessas alegações indicava que outro nível de hierarquia da Igreja havia se estabelecido. Isso era verdade principalmente no Ocidente. Após o século 11, as reivindicações papais tornaram-se mais decisivas, e os papas começaram a assumir o direito exclusivo de convocar concílios.

‘Tomar decisões obrigatórias para a Igreja’

O que significa, então, ‘tomar decisões obrigatórias para a igreja’? As decisões de um concílio, seja local ou de toda a Igreja, seja em relação à doutrina ou disciplina, desde os primeiros tempos foram tomadas como finais, embora não necessariamente irrevogáveis. Até mesmo os conselhos locais têm desfrutado dessa autoridade para sua própria área. Os bispos podem tomar suas decisões sem recorrer a Roma, embora, é claro, estejam em comunhão com a Santa Sé.

Em casos raros, as decisões dos conselhos locais sobre questões doutrinárias foram tomadas como obrigatórias para toda a Igreja. Os exemplos mais marcantes a esse respeito são as decisões dos concílios do norte da África nos séculos IV e V sobre as heresias do donatismo e do pelagianismo.

No entanto, a instituição que o Papa Paulo VI criou com o Sínodo dos Bispos não era um órgão decisório, mas consultivo. Por si só, o Sínodo dos Bispos pode fazer recomendações ao papa, mas não pode tomar decisões vinculantes. O Papa Paulo pretendia que o Sínodo dos Bispos implementasse o decreto do Vaticano II sobre a colegialidade, e até certo ponto o fez. Mas eliminou um elemento tradicional e crucial na definição da palavra.

‘O dia de hoje’

Isso nos traz ao presente e ao Papa Francisco. Embora seja o primeiro papa em 50 anos a não ter participado do Vaticano II, ele aprecia profundamente o Concílio e o alcance transformador de seus decretos, como demonstrou inequivocamente quando era arcebispo de Buenos Aires. Dois aspectos do concílio pertinentes à sinodalidade que ele particularmente encarnou são a descrição do concílio da Igreja como ‘o povo de Deus’ e sua ampla insistência em um modo colegiado de governança da Igreja. Sua declaração de assinatura a esse respeito ocorre no terceiro capítulo da ‘Lumen Gentium’, que descreve a relação colegial entre os bispos e o papa. Mas em outros documentos, o concílio sustentava o ideal de uma relação colegial entre o bispo e seus padres, e entre os padres e seu povo.

O Papa Francisco também está profundamente convencido de que o povo de Deus tem uma compreensão profunda da fé e da prática da Igreja – e, portanto, o povo deve ser ouvido. Esta não é uma ideia peculiar a Francisco, mas é um exemplo da herança católica, bem expressa na frase latina sensus fidelium, talvez mais bem traduzida em português como ‘o sentido da fé do fiel’. A insistência do Papa Francisco sobre isso é possivelmente influenciada pelo influente ensaio de Saint John Henry Newman ‘On Consulting the Faithful in Matters of Doctrine’.

Com isso, temos a base essencial para entender o que é sinodalidade e por que o papa está promovendo avidamente uma Igreja mais sinodal. A sinodalidade é o renascimento da mais antiga tradição de governança da Igreja e, portanto, o renascimento do papa é em si totalmente tradicional.

Como todo avivamento, no entanto, este é modificado pelas condições em que é revivido. Os avivamentos nunca reproduzem perfeitamente o artigo original. Por mais que tentassem, os arquitetos do século XIX não conseguiram replicar perfeitamente a arquitetura gótica do século XIII. A modificação mais dramática hoje da sinodalidade é a inclusão de tirar o fôlego do que o Papa Francisco propõe.

No passado, os participantes dos sínodos eram restritos a um pequeno número, não importa quão variado fosse o estado de vida dos participantes. Hoje, o Papa Francisco quer que todos os membros da Igreja expressem sua fé e suas esperanças e desejos para a Igreja. Os documentos preparatórios para o sínodo em toda a Igreja preveem a inclusão de não-católicos e não-cristãos. Nunca houve um exercício de colegialidade com um convite tão desqualificado e inclusivo.

Francisco claramente pretende que o processo sinodal seja um ato de colegialidade, mas o manual oficial do processo, o Vademecum, indica que deve ser uma consulta massiva no modo do Sínodo dos Bispos. Mesmo que o Papa Francisco pretenda que os resultados do processo sejam de alguma forma vinculativos para a Igreja – como as decisões dos sínodos foram até 1965 –não abdicará das responsabilidades de seu cargo. Devemos lembrar que na tradição de colegialidade praticada na Igreja ocidental desde o século 11, a voz do papa tem sido um elemento essencial no processo colegial. Os papas não são simples executores das determinações dos sínodos.

Assim, embora o apelo do Papa Francisco seja totalmente tradicional, é radicalmente novo na amplitude que prevê. Isso não deve nos escandalizar, mas nos energizar. Estamos iniciando um grande projeto, e nossa responsabilidade pelo seu sucesso é tão grande quanto o próprio projeto. Nós nos animamos trabalhando sob a égide de um versículo do Evangelho de Mateus : ‘E Jesus lhes disse : Portanto, todo mestre da lei, bem esclarecido quanto ao Reino dos céus, é semelhante a um pai de família que sabe tirar do seu tesouro coisas novas e coisas velhas. O profeta não é honrado pelos seus’ (13,52).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1566413/2022/02/a-historia-da-sinodalidade-e-mais-antiga-do-que-voce-pensa/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Os bobos da corte da Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
'Buffone di Corte', de Cesare Augusto Detti

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘O sínodo sobre a sinodalidade, que o Papa Francisco convocou, é a 'prova de fogo'. Através de uma assembleia única, que envolve representantes da Igreja no mundo todo (clero, religiosos e laicado), o pontífice conseguirá averiguar se seu espírito de reforma conseguiu chegar aos centros e às periferias.

Embora o santo padre tenha focado numa 'reforma da Cúria Romana', a verdade é que a sua intenção era fazê-la urbi et orbi - de Roma para o mundo - desde o início. Do contrário, não faria sentido falar de uma ‘reforma do coração’ ou promover uma revolução pastoral a partir das estruturas.

A ideia, na verdade, foi concebida universalmente. É mais uma tentativa de abater o clericalismo enraizado nas paróquias, nas comunidades e nas dioceses que, na visão de Francisco, é a raiz de todos os males. E não estamos falando só de padres que instrumentalizam a batina, mas também de leigos clericalizados, que se sentem os 'alfandegários da fé'.

Mas o que impediria o sucesso desse sínodo? Existe uma maioria esmagadora contrária a esse projeto? A verdade é que não. No entanto, existe uma minoria, muito barulhenta, que consegue ocupar os espaços virtuais para compartilhar suas ideias toscas sobre uma realidade que sequer dominam.

São os bobos da corte da Igreja, que fazem piruetas nas redes sociais para agradar seu público alienado. Se sentem os príncipes da Igreja, através de suas posturas soberbas e discursos pedantes, mas não passam de bufões de um império católico caricaturado. Em vez de roupas coloridas, são os efeitos visuais e o grande investimento em aparato técnico para a produção de vídeos (de)formativos que conseguem maquiar muito bem a ignorância.

O problema é que tentam frear um Papa o qual ninguém consegue parar mais. De maneira excepcional, Francisco já colhe os frutos da sua ousadia, à revelia de todas essas investidas para acabar com seu pontificado. O sínodo é a coroação de algo que já deu certo. O choro é livre. O riso também (no nosso caso).

Os próximos três anos, tempo de duração desse sínodo, serão cruciais - tanto para a Igreja quanto para os católicos em geral.

Francisco aposta muito nessa assembleia e acredita que ela será um meio para movimentar a Igreja, de modo que ela possa refletir sobre como vem sendo aplicado o Concílio Vaticano II, para além das ideologias ou das interpretações 'partidárias'. E quem ainda estiver querendo 'anular' o concílio vai ter que decidir : ou se une a Roma de vez ou vai ter que procurar uma outra instituição fora da Igreja Católica.

Francisco realiza uma 'revolução institucional' que dificilmente seus sucessores conseguirão impedir. O papel do Papa, do bispo, do padre e dos leigos é revisto. E não é uma revolução, no melhor sentido da palavra, que visa acabar com a hierarquia, mas impulsiona cada membro da Igreja a viver da forma mais coerente possível, segundo o que é próprio da sua função. Enxergar um cargo na perspectiva do serviço, não do status.

A Igreja sequer foi concebida como uma monarquia. Isso é resquício da Idade Média, que via no poder régio a forma de governo perfeita. Era a mentalidade da época e não podemos insistir nesse anacronismo.

O Concílio Vaticano II, ao reforçar a eclesiologia do povo de Deus, retorna à própria essência do catolicismo, das primeiras comunidades cristãs, da fé popular que sustentou gerações. Em outras palavras, foi uma tentativa de romper com aquele mundanismo institucional que transformou os padres em 'micromangements', os bispos em príncipes e o Papa num monarca, que antepunha essa função a de vigário de Cristo.

Mas, pelo jeito, esse é o modelo ideal de Igreja na cabeça dos bobos da corte. Muita 'teologia' e pouca caridade. Muita estética e falta de experiência concreta com o sagrado. Muito latim, mas pouco Jesus Cristo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1554673/2021/12/os-bobos-da-corte-da-igreja/

sábado, 6 de novembro de 2021

As mentiras sobre o sínodo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Com certeza, você deve ter ouvido o boato de que o papa Francisco, com o sínodo da sinodalidade, quer acabar com a hierarquia. Ou que, daqui para frente, o próprio papado deixará de existir. Esses e outros absurdos são compartilhados, em looping, por grupos católicos que, como diz o próprio sumo pontífice, ‘acreditam estar salvando a Igreja dela mesma’.

Começa, mais uma vez, uma campanha difamatória contra o sínodo. Como fizeram com o Sínodo da Amazônia, em 2019, mais cedo ou mais tarde inventarão uma ‘pachamama’ como símbolo de uma nova cruzada.

A ideia é confundir as pessoas, convencendo-as de que, na verdade, tais interpretações apocalípticas não passam de ‘esclarecimentos’, de um ‘alerta’ para os fieis. E é sob a égide desse slogan que muitos influencers católicos conseguem propagar suas fake news. Por causa do espaço de fala que conquistaram, sobretudo nas arenas virtuais, sabem que até seus devaneios serão facilmente absorvidos quase como verdades de fé. Eles se sentem os guardiães do depositum fidei, por assim dizer.

Trava-se uma batalha não só contra o papa, mas contra um modelo de Igreja, proposto por um concílio. É ingênuo pensar que queiram atingir, simplesmente, o pontífice argentino. Como a intenção é transformar o catolicismo numa religião que se limite a atender aos interesses de certos grupos, Francisco se torna uma ameaça para eles. E nem preciso dizer o quanto tem sido rentável promover um falso resgate da ‘tradição’, com T minúsculo.

Sendo assim, o sínodo que está curso coloca em risco esse projeto de poder. Com os lugares de fala ampliados, a pastoralidade passa a ser o fio condutor dessa reforma a qual, iniciada na cúria romana, agora se estende para o resto da instituição.

A nova Constituição de reforma da Cúria Romana, que será publicada no fim do ano, prevê, justamente, que a Congregação para a Evangelização dos Povos, dicastério vaticano responsável pela atividade missionária da Igreja, passe a ser considerado o mais importante, substituindo a Congregação para a Doutrina da Fé. O ex-Santo Ofício antes estava no topo desse organograma. Com a mudança, ocupará o segundo lugar.

Fica evidente que a ideia é tanto promover uma nova evangelização na Europa quanto motivar o ardor das realidades mais novas, como no caso da América Latina. Porém, é bom salientar que Francisco não quer ‘latinizar’ o resto da Igreja, embora considere a grande contribuição que o novo continente pode oferecer ao resto da instituição.

A ideia é colocar o catolicismo numa nova dinâmica frente aos desafios do presente. Só que, para isso, todos os católicos precisam se mobilizar. Dessa forma, o sínodo é visto como um meio para se chegar à consolidação desse projeto. Como, a partir das mais distintas realidades, é possível pensar numa confissão cristã que dialoga com os vários setores da sociedade? Como fazer com que essa mensagem chegue aos areópagos da atualidade?

Quem ler o Documento de Aparecida (2007), a carta magna do atual pontificado, conseguirá intuir a que se propõe esse sínodo. Tudo parte do ‘ver, julgar e agir’. E tal método só será eficaz se forem criados espaços concretos de escuta. Graças ao sínodo sobre a sinodalidade isso será possível.

Francisco é pragmático. E o seu ‘jesuitismo’ o impulsiona a ser cada vez mais assim. Seguindo a pedagogia própria dos inacianos, ele sabe que o discernimento que se desvincula da realidade é estéril. Há uma preocupação latente de que o cristianismo não seja algo abstrato, mas algo encarnado na vida.

E é justamente isso que os ritualistas, apegados a um modelo monárquico de Igreja, não conseguem entender. Francisco não quer destruir o papado ou destituir o colégio de cardeais com esse sínodo. Mas quer mostrar, também para os seus colaboradores, que os títulos correspondem a um serviço, não a um privilégio. É ministério, não um cargo com plano de carreira dentro de uma organização. E a ‘conversão sinodal’ só poderá acontecer quando as autoridades, por primeiro, estiverem dispostos a acompanhar, não simplesmente a delegar. E quando os leigos, nesse processo, também sejam reconhecido como parte integrante de um corpo, não como simples receptores da mensagem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1548825/2021/11/as-mentiras-sobre-o-sinodo/

domingo, 31 de outubro de 2021

Um sínodo sobre o quê?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mirticeli Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Tem sido uma dúvida recorrente nas redes sociais. Muitas pessoas, ‘instruídas’ por quem não sabe sequer como funciona o sínodo, têm feito análises mirabolantes sobre a assembleia. Como a moda agora é transformar qualquer tema do pontificado de Francisco em enredo digno de Apocalipse, cabe a nós, que acompanhamos essa realidade de perto, refutar as teses do youtuber católico de turno.

Por trás da ‘indignação’ em relação ao sínodo que está em curso, vemos o ódio gratuito a um pontífice que está à frente de projeto eclesial ousado, cuja bandeira é retornar à essência do cristianismo. E isso não agrada em nada aos clericalistas, sejam eles padres ou leigos.

Apegados ao modelo de igreja monárquica, não aceitam a visão eclesiológica do Concílio Vaticano II. É ‘pesado demais’, para eles, considerar que a instituição é ‘povo de Deus’, e não se restringe somente à sua hierarquia. Esquecem que, na igreja pré-conciliar que eles tanto incensam e evocam, fazer pouco caso das decisões do pontífice romano, através de discursos e ações, não passaria despercebido aos olhos do Santo Ofício. Mas do jeito que esse povo é, pode até ser que exista um culto à Inquisição, regado a ‘releituras’ da história. Nunca se sabe.

E não deixa de ser interessante - e até contraditório - o fenômeno. A descentralização do papado sempre fez parte do debate dos progressistas, mas parece que são justamente os fundamentalistas a la derecha que querem libertar o catolicismo do papado, na atualidade.

Se dermos uma volta pelos ‘centros da alta cultura católica’, principalmente no Brasil, a impressão é que o ultramontanismo papista ficou para trás. E a ‘questão religiosa’, semelhante à que foi posta nos tempos da proclamação da República, promove uma romanização das práticas. A diferença é que, desta vez, não é estritamente necessário contar o papa como promotor dessa empreitada. Os luteranos do século 16 perdem feio para os antipapistas da atualidade. São os adeptos do Roma a la carte. Romanos, sim. Com Roma, não exatamente.

De um lado, os pró-reformas, que acompanham os apelos do presente, junto com o romano pontífice e grande parte do colégio cardinalício; do outro, os ritualistas, também conhecidos como ‘católicos de confraria’, que criaram uma espécie de dress-code da fé, no qual sequer o papa ‘é digno’ de se encaixar.

Trocando em miúdos, o sínodo sobre a sinodalidade trata da própria Igreja. Há quem diga que é uma ‘assembleia conciliar’ justamente por isso. Como ocorreu no último concílio ecumênico da história, é hora de a Igreja Católica fazer as contas novamente, porque os desafios de hoje são outros. E não são todas as instituições nem todos os papas que estão dispostos a trilhar esse caminho.

Se observamos bem, é um sínodo que sequer trata de um tema específico, mas foca simplesmente na sinodalidade, uma instituição que é muito mais antiga do que imaginamos. O cristianismo oriental que o diga. Tanto para a ortodoxia quanto para o catolicismo oriental (ainda que em menor proporção, por causa da submissão a Roma), o sínodo é palco de decisões, não um órgão simplesmente consultivo, como observamos na igreja latina.

No Ocidente, por exemplo, havia sínodos diocesanos, cujos primeiros registros são datados do século 6. E até o bispo de Roma, antes da instauração do Conclave, no século 12, era eleito por aclamação popular, da mesma forma que outros bispos da cristandade.

A ideia de Francisco nem é repropor esse tipo de estrutura, mas de refletir como as dioceses e os próprios leigos poderão, de alguma maneira, participar mais ativamente das decisões, como já aconteceu no passado.

Os sínodos diocesanos poderão ser reativados em vista da pastoral, contemplando as realidades locais? Grupos de representantes das conferências episcopais serão convocados a Roma, para participar de consultas públicas? Mais mulheres ocuparão posições de destaque em outros lugares, não só em Roma?

Ainda não sabemos, na prática, quais serão as medidas propostas. Mas é certo que Francisco quer, sim, transformar a Igreja numa instituição que caminhe junto. E Roma, em primeiro lugar, seria a promotora dessa sinodalidade. Por isso, justamente, a reforma começa aqui. E o sínodo, por assim dizer, é uma extensão dessa reforma.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1547735/2021/10/um-sinodo-sobre-o-que/

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Geraldo de Mori, SJ

 

‘Nos dias 9 e 10 de outubro, o papa Francisco abriu oficialmente o percurso que culminará no próximo Sínodo dos Bispos, em 2023. Ampliando o processo inaugurado nos sínodos anteriores, ele propôs um percurso que deverá implicar toda a Igreja nesta primeira etapa, que é denominada de ‘escuta’. De fato, no dia 17 de outubro, todas as dioceses do mundo deverão também abrir oficialmente seu processo sinodal. 

Qual a novidade desse percurso, para além da ampliação da escuta, uma vez que os sínodos da Família, da Juventude e da Amazônia já tinham auscultado as Igrejas locais através de inúmeras iniciativas? O que está em jogo nesta proposta, voltada aparentemente para uma dinâmica interna à própria Igreja, já que o tema em discussão é o da sinodalidade?

O papa Francisco assumiu o pontificado em um momento de grande crise no seio da Igreja. Falava-se então da necessidade de uma reforma, não só no exercício do pontificado e da Cúria Romana, mas também no modo de funcionamento da própria Igreja. O recente relatório sobre os abusos de menores na Igreja da França, mostra a urgência dessa reforma, que não pode, porém, circunscrever-se às instâncias decisórias, mas deve implicar todo o ‘povo fiel de Deus’, como insiste o papa. 

O Concílio Vaticano 2º, como dizem muitos de seus intérpretes, foi um evento fundamentalmente eclesiológico, ou seja, propôs para a Igreja uma releitura de sua identidade e missão em um mundo que se tornava ‘autônomo’. Mais que contrapor-se a esse mundo, vendo-se a si mesma como ‘sociedade perfeita’, pensada a partir do sacramento da ordem e dos ‘estados de perfeição’, o concílio revisitou a imagem da Igreja como ‘sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’ (LG n. 1), que se coloca a si mesma como servidora do Reino, pensada a partir do sacramento do batismo, que confere a todos os fiéis a mesma dignidade sacerdotal, profética e real.

O texto do Documento Preparatório, elaborado pela Secretaria Geral do Sínodo, inspirado no magistério de Francisco, propõe uma reflexão sobre os termos a partir dos quais é composto o tema do sínodo : comunhão, participação e missão. Esses termos são a chave de leitura para a própria ideia de sinodalidade, que ajuda a entender a reforma proposta pelo papa em seus textos e decisões. De fato, as metáforas da ‘Igreja em saída’ e da ‘Igreja hospital de campanha’, da Evangelii gaudium, indicam em que perspectiva deve ser pensada a missão. 

Por sua vez, os princípios que orientam a convivência social e o bem comum, na mesma exortação, a saber, o ‘tempo é superior ao espaço’ (EG 222-225); a ‘unidade prevalece sobre o conflito’ (EG 226-230); a ‘realidade é mais importante do que a ideia’ (EG 231-233); o ‘todo é superior à parte’ (234-237), e as ideias que orientam a amizade e o diálogo social na Fratelli tutti, mostram como entender a comunhão e a participação em perspectiva sinodal. Frente às inúmeras ‘sombras’ de um ‘mundo fechado’ (FT 9-55), a Igreja, pelo testemunho da comunhão, deve criar ‘pontes’ que aproximem as pessoas, promovendo a participação de todos os seus fiéis no serviço samaritano aos que estão à beira do caminho (FT 56-86).

A reflexão do Documento Preparatório propõe também uma leitura sobre o significado do termo sínodo, retomando o discurso do papa por ocasião dos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, no qual Francisco afirma que aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo já está tudo contido na palavra ‘sínodo’. Jesus se apresenta a si mesmo como ‘o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14,6) e os cristãos eram inicialmente conhecidos como ‘discípulos do caminho’ (At 9,2). A sinodalidade não se reduzia então a encontros, mas era o modo de viver e de operar da Igreja. Ela foi seu jeito habitual de proceder no primeiro milênio, sendo redescoberta pela Igreja católica no Concílio Vaticano 2º, mostrando como todos/as são chamados/as a aprender no caminhar juntos.

O Documento Preparatório propõe ainda duas cenas do Novo Testamento para entender a sinodalidade : a que põe em relação Jesus, a multidão e os apóstolos, que mostra como essa dinâmica deve manter-se viva ainda hoje na Igreja, onde todos/as devem assumir sua vocação batismal; e a que põe em relação Cornélio e Pedro (At 10), e indica como o caminhar juntos supõe a conversão de todos/as que estão no caminho.

No discurso que fez no dia 9 de outubro, no momento de reflexão sobre o início do processo sinodal, o papa recorda três ameaças ao processo sinodal : o formalismo, que faz com que o sínodo seja apenas um processo formal, sem impacto real na vida da Igreja; o intelectualismo, que converte o sínodo num ‘grupo de estudo’, sem implicar os processos eclesiais; o imobilismo, que impede a Igreja de assumir esse processo, preferindo continuar na ‘pastoral de manutenção’. 

Francisco também aponta as três oportunidades abertas pelo processo sinodal : a de caminhar, não ocasionalmente, mas estruturalmente na perspectiva sinodal; a de ser uma Igreja da escuta, aprendida na adoração, escutando os/as irmãos/ãs em suas esperanças e crises; a de ser uma Igreja da proximidade, que é o estilo de Deus, que se aproxima com atitude de compaixão e ternura, uma Igreja que não se afasta da vida, mas que ajuda a carregar as fragilidades e pobrezas de nosso tempo, curando as feridas e sanando os corações aquebrantados.

O papa Francisco afirma inúmeras vezes que o importante é ‘abrir processos’ e não ‘dominar’ as dinâmicas que eles vão tornando possíveis. Como ele disse na homilia de abertura do sínodo, no dia 10 de outubro, ‘trata-se de se colocar à escuta do Espírito’, para saber o que Ele diz à Igreja, discernindo qual Sua vontade para os que se dizem ‘discípulos do Caminho’ hoje. 

Oxalá esse percurso, para o qual todas as Igrejas particulares são convidadas, possa ser o semeadouro de ‘novos processos’, ajudando-as a um ‘caminhar juntos’, descobrindo qual o carisma de cada irmão/ã, numa real perspectiva sinodal, que as ajudem a eliminar o clericalismo, que tanto mal lhes tem feito, impedindo-as de serem a Igreja que brotou do lado aberto do Crucificado, na qual todos/as possuem a mesma dignidade e são chamados/as na edificação do Reino de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1544892/2021/10/para-uma-igreja-sinodal-comunhao-participacao-e-missao/