quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Geraldo de Mori, SJ

 

‘Nos dias 9 e 10 de outubro, o papa Francisco abriu oficialmente o percurso que culminará no próximo Sínodo dos Bispos, em 2023. Ampliando o processo inaugurado nos sínodos anteriores, ele propôs um percurso que deverá implicar toda a Igreja nesta primeira etapa, que é denominada de ‘escuta’. De fato, no dia 17 de outubro, todas as dioceses do mundo deverão também abrir oficialmente seu processo sinodal. 

Qual a novidade desse percurso, para além da ampliação da escuta, uma vez que os sínodos da Família, da Juventude e da Amazônia já tinham auscultado as Igrejas locais através de inúmeras iniciativas? O que está em jogo nesta proposta, voltada aparentemente para uma dinâmica interna à própria Igreja, já que o tema em discussão é o da sinodalidade?

O papa Francisco assumiu o pontificado em um momento de grande crise no seio da Igreja. Falava-se então da necessidade de uma reforma, não só no exercício do pontificado e da Cúria Romana, mas também no modo de funcionamento da própria Igreja. O recente relatório sobre os abusos de menores na Igreja da França, mostra a urgência dessa reforma, que não pode, porém, circunscrever-se às instâncias decisórias, mas deve implicar todo o ‘povo fiel de Deus’, como insiste o papa. 

O Concílio Vaticano 2º, como dizem muitos de seus intérpretes, foi um evento fundamentalmente eclesiológico, ou seja, propôs para a Igreja uma releitura de sua identidade e missão em um mundo que se tornava ‘autônomo’. Mais que contrapor-se a esse mundo, vendo-se a si mesma como ‘sociedade perfeita’, pensada a partir do sacramento da ordem e dos ‘estados de perfeição’, o concílio revisitou a imagem da Igreja como ‘sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’ (LG n. 1), que se coloca a si mesma como servidora do Reino, pensada a partir do sacramento do batismo, que confere a todos os fiéis a mesma dignidade sacerdotal, profética e real.

O texto do Documento Preparatório, elaborado pela Secretaria Geral do Sínodo, inspirado no magistério de Francisco, propõe uma reflexão sobre os termos a partir dos quais é composto o tema do sínodo : comunhão, participação e missão. Esses termos são a chave de leitura para a própria ideia de sinodalidade, que ajuda a entender a reforma proposta pelo papa em seus textos e decisões. De fato, as metáforas da ‘Igreja em saída’ e da ‘Igreja hospital de campanha’, da Evangelii gaudium, indicam em que perspectiva deve ser pensada a missão. 

Por sua vez, os princípios que orientam a convivência social e o bem comum, na mesma exortação, a saber, o ‘tempo é superior ao espaço’ (EG 222-225); a ‘unidade prevalece sobre o conflito’ (EG 226-230); a ‘realidade é mais importante do que a ideia’ (EG 231-233); o ‘todo é superior à parte’ (234-237), e as ideias que orientam a amizade e o diálogo social na Fratelli tutti, mostram como entender a comunhão e a participação em perspectiva sinodal. Frente às inúmeras ‘sombras’ de um ‘mundo fechado’ (FT 9-55), a Igreja, pelo testemunho da comunhão, deve criar ‘pontes’ que aproximem as pessoas, promovendo a participação de todos os seus fiéis no serviço samaritano aos que estão à beira do caminho (FT 56-86).

A reflexão do Documento Preparatório propõe também uma leitura sobre o significado do termo sínodo, retomando o discurso do papa por ocasião dos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, no qual Francisco afirma que aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo já está tudo contido na palavra ‘sínodo’. Jesus se apresenta a si mesmo como ‘o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14,6) e os cristãos eram inicialmente conhecidos como ‘discípulos do caminho’ (At 9,2). A sinodalidade não se reduzia então a encontros, mas era o modo de viver e de operar da Igreja. Ela foi seu jeito habitual de proceder no primeiro milênio, sendo redescoberta pela Igreja católica no Concílio Vaticano 2º, mostrando como todos/as são chamados/as a aprender no caminhar juntos.

O Documento Preparatório propõe ainda duas cenas do Novo Testamento para entender a sinodalidade : a que põe em relação Jesus, a multidão e os apóstolos, que mostra como essa dinâmica deve manter-se viva ainda hoje na Igreja, onde todos/as devem assumir sua vocação batismal; e a que põe em relação Cornélio e Pedro (At 10), e indica como o caminhar juntos supõe a conversão de todos/as que estão no caminho.

No discurso que fez no dia 9 de outubro, no momento de reflexão sobre o início do processo sinodal, o papa recorda três ameaças ao processo sinodal : o formalismo, que faz com que o sínodo seja apenas um processo formal, sem impacto real na vida da Igreja; o intelectualismo, que converte o sínodo num ‘grupo de estudo’, sem implicar os processos eclesiais; o imobilismo, que impede a Igreja de assumir esse processo, preferindo continuar na ‘pastoral de manutenção’. 

Francisco também aponta as três oportunidades abertas pelo processo sinodal : a de caminhar, não ocasionalmente, mas estruturalmente na perspectiva sinodal; a de ser uma Igreja da escuta, aprendida na adoração, escutando os/as irmãos/ãs em suas esperanças e crises; a de ser uma Igreja da proximidade, que é o estilo de Deus, que se aproxima com atitude de compaixão e ternura, uma Igreja que não se afasta da vida, mas que ajuda a carregar as fragilidades e pobrezas de nosso tempo, curando as feridas e sanando os corações aquebrantados.

O papa Francisco afirma inúmeras vezes que o importante é ‘abrir processos’ e não ‘dominar’ as dinâmicas que eles vão tornando possíveis. Como ele disse na homilia de abertura do sínodo, no dia 10 de outubro, ‘trata-se de se colocar à escuta do Espírito’, para saber o que Ele diz à Igreja, discernindo qual Sua vontade para os que se dizem ‘discípulos do Caminho’ hoje. 

Oxalá esse percurso, para o qual todas as Igrejas particulares são convidadas, possa ser o semeadouro de ‘novos processos’, ajudando-as a um ‘caminhar juntos’, descobrindo qual o carisma de cada irmão/ã, numa real perspectiva sinodal, que as ajudem a eliminar o clericalismo, que tanto mal lhes tem feito, impedindo-as de serem a Igreja que brotou do lado aberto do Crucificado, na qual todos/as possuem a mesma dignidade e são chamados/as na edificação do Reino de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1544892/2021/10/para-uma-igreja-sinodal-comunhao-participacao-e-missao/

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