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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Quando o cuidador precisa de cuidados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Igor Precinoti


A notícia de que um familiar (pai, avô, marido) acabou de sofrer um Derrame cerebral é assustadora. O tempo de internação, o período na UTI, os riscos de infecção ou a pneumonia são somente algumas das angústias sofridas por quem está aflito pela vida do seu ente querido. Mas, quando se recebe a informação de que este ente vai receber alta do hospital, a sensação de alívio vem acompanhada de outras aflições. Será que ele vai andar? O que é esse tubinho no nariz? Como ele vai tomar banho? 

É assim que começa uma nova etapa na vida de muitas pessoas, a vida de cuidador. Aquele indivíduo que fica responsável em cuidar de um ente querido que, por um motivo ou outro, torna-se vulnerável e dependente de cuidados. Independente se a origem da dependência foi Derrame Cerebral, Alzheimer, acidente automobilístico, os pacientes com sequelas, muitas vezes, precisam de ajuda para as atividades simples como, por exemplo, escovar os dentes e cabe a um cuidador oferecer este tipo de cuidado.

Os cuidadores normalmente passam mais de 20 horas por semana ajudando seus entes queridos. Embora esta função possa ser profundamente gratificante, ela pode gerar consequências na saúde e na qualidade de vida do cuidador. Um relatório da Family Caregiver Alliance (uma organização de apoio aos cuidadores na Califórnia-EUA) constatou que de 40% a 70% dos cuidadores apresentam sintomas de depressão. 

Este problema ainda chama atenção pelo fato de que 41% dos cuidadores experimentaram a depressão até 3 anos após a morte de seu cônjuge com doença de Alzheimer ou outra forma de demência. Além disso, vale a pena destacar que a depressão em cuidadores é maior em mulheres em relação a homens.

É importante destacar que cuidar do próximo e ser cuidador não é a causa da depressão, mas sim a maneira com que este cuidado acontece. Muitas pessoas, na tentativa de dar o melhor de si ou por falta de apoio humano (familiares, amigos) ou ainda por falta de recursos financeiros, acabam se sobrecarregando e deixando de lado as suas próprias necessidades físicas e emocionais. Este sacrifício pessoal gera sentimentos inadequados como raiva, tristeza, exaustão, além de um grande sentimento de culpa justamente por ter estes sentimentos.

Os principais problemas que os cuidadores sofrem decorrentes do cuidado com pessoas com alta dependência são :

Privação do sono – muitas vezes, um idoso com Alzheimer troca a noite pelo dia, fica agitado impedindo que o cuidador tenha uma noite de sono adequada 

Menos tempo para socializar – As demandas com o familiar deixam o cuidador sem tempo ou energia para encontros sociais. 

Conflitos – Muitas pessoas que estão precisando de cuidados podem ficar agitadas, nervosas ou não aceitar seu estado de debilidade física e, por isso, acabam agredindo ou tratando mal o cuidador. 

Problemas de trabalho e dinheiro – Não poucos cuidadores precisam conciliar os cuidados domiciliares com as demandas de trabalho e os custos dos cuidados podem ser altos. 

Falta de apoio familiar – É comum os cuidadores se sentirem sós. Muitas vezes, os cuidados são direcionados a um único familiar ou, ainda, a escolha do cuidador entre os membros da família não leva em consideração as necessidades e vontades do familiar (por exemplo : ‘ele não tem filhos, então tem mais tempo para os cuidados’, ‘ela é a única mulher entre os filhos, portanto, tem mais jeito para cuidar’, ‘Ele mora sozinho, então tem mais espaço em casa’)

Falta de atenção à própria saúde – O cuidador, muitas vezes, deixa sua própria saúde em segundo plano. A preocupação constante em levar seu familiar ao médico, ao laboratório para fazer exames e a atenção em não se esquecer dos horários das medicações do ente querido fazem com que ele acabe deixando de lado suas próprias necessidades, se esquecendo de tomar seus próprios remédios, de fazer seus exames de rotina etc. 

Se você é um cuidador, fique atento aos primeiros sintais de depressão, como fadiga crônica, pensamentos negativos, insônia, choro fácil, ideações suicidas e, caso já esteja tendo alguns destes sintomas, procure ajuda de um profissional (médico ou psicólogo). E para evitar este problema vale a pena tomar as seguintes medidas :

– Dividir tarefas com outros membros da família

– Garantir um tempo para um sono adequado (Caso necessário, revesse os cuidados noturnos com outro familiar).

– Não seja orgulhoso nem tenha vergonha e aceite ajuda. Muitas vezes, o cuidador nega ajuda de voluntários ou de membros distantes da família

– Não tenha remorso ao reservar tempos de lazer. Muitos cuidadores não se sentem no direito de ter momentos de alegria quando seu ente querido está doente ou ‘preso na cama’.

Em suma, o cuidador tem uma missão repleta de desafios físicos e emocionais. Embora seja uma demonstração de amor e dedicação aos entes queridos, o papel de cuidador também pode ter um impacto significativo na saúde mental e na qualidade de vida daqueles que assumem essa responsabilidade. Com medidas de apoio, solidariedade familiar e conscientização sobre os desafios enfrentados pelos cuidadores, pode ser criado um ambiente mais saudável e sustentável para aqueles que dedicam suas vidas ao cuidado dos outros.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/10/20/quando-o-cuidador-precisa-de-cuidados/

terça-feira, 13 de junho de 2023

Missa: o sacrifício perfeito

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Júlia A. Borges

 

‘‘Creio na Santa Igreja Católica’ – essa é a afirmação feita por nós, católicos, todas as vezes em que estamos na Missa, em frente ao altar. Essa verdade consta no Credo Apostólico, mas se a oração a ser feita advir do Credo Niceno-Constantinopolitano, a especificação é ainda maior : ‘Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados’. Em uma sentença : cremos verdadeiramente na fé que professamos, entretanto, ainda há alguns desacertos quanto ao núcleo central da nossa credulidade, quanto ao sacrifício perfeito, ou seja, quanto ao entendimento real da missa.

Trata-se de enxergar a clareza do que está a ocorrer naquele altar não como um evento ou um simples cultuar a Deus. É necessário, acima de qualquer coisa, compreender verdadeiramente a missa como sacrifício, o verdadeiro sacrifício de Cristo na Cruz. Presencia-se ali não um novo martírio, mas a confirmação, a sacramentalização daquela imolação ocorrida há dois mil anos.

Lutero e Calvino têm uma perspectiva diferente, chegando a abominar a Santa Missa, acreditando ocorrer ali um novo sacrifício e afirmam que tudo aquilo não é necessário fazer, uma vez que a imolação já fora oferecida e que os pecados já se encontram perdoados, como uma quitação judicial definitiva. De fato, a redenção ocorreu lá na Cruz, com Jesus Cristo, mas ela precisa ser apropriada como redenção subjetiva para o caminho de Santidade. Não é simplesmente um recibo que o cristão adquire de que nossos pecados foram justificados; mas um caminho legítimo na busca de ser verdadeiramente santo. Vale destacar que o  Concílio de Trento, por outro lado, respondeu a Lutero e Calvino dizendo que não há dois sacrifícios. Essa é a posição oficial da Igreja. Isso está declarado dogmaticamente. O Concílio de Trento (Sessão 22.ª) o diz : ‘Com efeito, uma só e mesma é a vítima [Una enim eademque est hostia], pois quem agora se oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que então se ofereceu na cruz; só o modo de oferecer é diferente.’

Posição católica

Ou seja, a posição católica é única : a vítima é a mesma, a Pessoa divina que se encarnou e que se ofereceu na Cruz, agora se oferece pelo ministério do sacerdote, do padre, no altar. ‘Só o modo de oferecer é diferente’ : na Missa, é sem derramamento de sangue. Essa é a posição dogmática da Igreja Católica.

É preciso ter a disposição para entender a importância da missa para além da remissão dos pecados; entender a fé para além da quitação e absolvição dos pecados. É preciso ir além. Afinal, se o objetivo é ser a imagem e semelhança de Cristo, é necessário muito além de puramente não cometer pecados, mas percorrer rumo à redenção verdadeira. É preciso algo além do que uma absolvição cartorial, mas uma transformação real da alma, ou seja, ela precisa amar e realizar obras divinas como os santos, e tal caminho passa pelos sacramentos, como a própria Eucaristia.

Pensar em Santa Teresa D`Ávila, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho ou São Francisco como exemplos de vida é uma tarefa muito árdua se não houver como auxílio maior o Espírito Santo de Deus. Se os referidos santos e todos os outros conseguiram alcançar a tão almejada sétima morada que Santa Teresa D`Ávila revela em seu livro sobre As sétimas moradas do Castelo Interior da Alma, estejam certos de que tal conquista não fora pelos próprios méritos ou por algum tipo de merecimento, ou ainda, porque simplesmente creram em Jesus e tinham fé. É um esvaziar-se de tal forma que nada mais há a não ser àquele que os criou. E tal atitude vai muito além de um único passo de arrependimento dos pecados.

Sim, é aí que o caminho da perfeição começa. É aceitando nossas máculas e buscando corrigi-las diariamente. Mas se o desejo é ser semelhante a Cristo, é necessário sermos diferentes do que somos e buscar, somente pela graça, a virtude da Santidade.’

Referências :

  • A Bíblia Sagrada. Tradução do Pe. Manuel de Matos Soares. Campinas: Ecclesiae, 2096p.
  • João Calvino, Institutio religionis christianæ, v. 2. Brunsvique: Schwetschke, 1869.
  • Padres apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995.
  • Padre Paulo Ricardo. A resposta Católica. São Paulo: Ecclesiae, 2013.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/06/11/missa-o-sacrificio-perfeito/

domingo, 10 de julho de 2022

O Papa Francisco divulga nova carta sobre liturgia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Cindy Wooden (Serviço Católico de Notícias)

Tradução : Ramón Lara

 

‘O ‘sentido de mistério’ e de temor que os católicos devem experimentar na Missa não é motivado pelo latim ou por elementos ‘criativos’ acrescentados à celebração, mas por uma consciência do sacrifício de Cristo e de sua presença real na Eucaristia, disse o Papa Francisco.

A beleza, assim como a verdade, sempre engendra maravilhas e, quando se referem ao mistério de Deus, levam à adoração’, escreveu Francisco em uma carta apostólica ‘sobre a formação litúrgica do povo de Deus’.

Intitulada ‘Desiderio Desideravi’ (‘Desejo sinceramente’), a carta foi publicada em 29 de junho, festa dos Santos Pedro e Paulo. O título vem de Lucas 22,15 quando, antes da Última Ceia, Jesus diz a seus discípulos : ‘Desejei muito comer esta Páscoa convosco, antes que padeça’.

Na carta, o Papa Francisco insistiu que os católicos precisam entender melhor a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II e seu objetivo de promover a ‘celebração plena, consciente, ativa e frutífera’ da Missa.

Com esta carta, quero simplesmente convidar toda a Igreja a redescobrir, salvaguardar e viver a verdade e o poder da celebração cristã’, escreveu o Papa. ‘Quero que a beleza da celebração cristã e suas consequências necessárias para a vida da Igreja não sejam prejudicadas por uma compreensão superficial e escorçada de seu valor ou, pior ainda, por serem exploradas a serviço de alguma visão ideológica, não importa qual é a tonalidade.

A oração sacerdotal de Jesus na Última Ceia para que todos sejam um com cada uma de nossas visões em torno do pão partido, em torno do sacramento da misericórdia, o sinal da unidade, o vínculo da caridade’, disse Francisco.

Enquanto sua carta oferecia o que ele chamou de ‘meditação’ sobre o poder e a beleza da Missa, o Papa Francisco também reiterou sua convicção da necessidade de limitar as celebrações da liturgia de acordo com o rito em uso antes do Concílio Vaticano II.

Não podemos voltar àquela forma ritual que os padres conciliares, 'cum Petro et sub Petro', (com e sob Pedro) sentiram a necessidade de reformar, aprovando, sob a direção do Espírito Santo e seguindo sua consciência de pastores, os princípios dos quais nasceu a reforma’.

Os livros litúrgicos aprovados pelos ‘santos pontífices São Paulo VI e São João Paulo II’, disse, ‘garantiram a fidelidade da reforma do Concílio’.

Embora a Missa pós-Vaticano II seja celebrada em latim e em dezenas de línguas vernáculas, assinalou, é ‘uma e a mesma oração capaz de expressar a unidade da Igreja’.

‘Como já escrevi, pretendo que esta unidade seja restabelecida em toda a Igreja de rito romano’, disse, razão pela qual em 2021 promulgou ‘Traditionis Custodes’ (Guardiões da Tradição), limitando as celebrações da Missa segundo o rito usado antes do Concílio Vaticano II.

A maior parte da nova carta do papa concentrou-se em ajudar os católicos a aprender a reconhecer e se surpreender com o grande dom da Missa e da Eucaristia e como não é simplesmente uma ‘encenação’ ou ‘representação’ semanal da Última Ceia, mas realmente permite que as pessoas de todos os tempos e lugares para encontrar o Senhor crucificado e ressuscitado e comer seu corpo e beber seu sangue.

E, escreveu o Papa, é essencial reconhecer que a missa não pertence ao padre ou a qualquer adorador individual, mas a Cristo e sua Igreja.

A liturgia não diz ‘eu’, mas ‘nós’, e qualquer limitação na amplitude desse ‘nós’ é sempre demoníaca’, disse. ‘A liturgia não nos deixa sozinhos para buscar um suposto conhecimento individual do mistério de Deus. Pelo contrário, toma-nos pela mão, juntos, como uma assembleia, para nos levar ao fundo do mistério que a palavra e os sinais sacramentais nos revelam’.

Consistente com toda ação de Deus’, apontou o Papa, a liturgia leva as pessoas ao mistério usando ações e sinais simbólicos.

Francisco reconheceu que algumas pessoas afirmam que ao reformar a liturgia e permitir as celebrações da Missa no idioma da congregação local, de alguma forma, perdeu o que ‘significa a expressão vaga 'sentido de mistério'’.

Mas o mistério celebrado e comunicado, disse ele, não se trata de ‘um rito misterioso. É, pelo contrário, maravilhado pelo fato de que o plano salvífico de Deus foi revelado no ato pascal de Jesus’.

A liturgia usa ‘coisas que são exatamente o oposto das abstrações espirituais : pão, vinho, óleo, água, fragrâncias, fogo, cinzas, pedra, tecidos, cores, corpo, palavras, sons, silêncios, gestos, espaço, movimento, ação, ordem, tempo, luz’, disse. Essas coisas concretas proclamam que ‘toda a criação é uma manifestação do amor de Deus, e desde quando esse mesmo amor se manifestou em sua plenitude na cruz de Jesus, toda a criação foi atraída para ela’.

No entanto, escreveu o Papa Francisco, as palavras, gestos e símbolos a serem usados são apenas aqueles aprovados pela Igreja.

Sejamos claros aqui : cada aspecto da celebração deve ser cuidadosamente cuidado (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestimentas, canto, música) e cada rubrica deve ser observada’, escreveu. Caso contrário, o celebrante ou os ministros correm o risco de ‘roubar da assembleia o que lhe é devido; ou seja, o mistério pascal celebrado de acordo com o rito que a Igreja estabelece’.

O Papa Francisco disse que ‘a não aceitação da reforma litúrgica’ do Vaticano II, bem como ‘uma compreensão superficial dela, nos distrai da obrigação de encontrar respostas para a pergunta que volto a repetir : como podemos crescer em nossa capacidade de viver plenamente a ação litúrgica? Como continuamos nos deixando maravilhar com o que acontece na celebração sob nossos olhos?’

Precisamos de uma formação litúrgica séria e dinâmica’, apontou.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1583238/2022/07/o-papa-francisco-divulga-nova-carta-sobre-liturgia/

domingo, 12 de dezembro de 2021

O valor da Santa Missa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Na pandemia, vimos o ateísmo prático mostrar suas afiadas garras, fora e – infelizmente – também dentro da Igreja, contra a Santa Missa bem como contra os demais sacramentos. De passagem, perguntemos : quantos doentes, por exemplo, se foram deste mundo sem a Unção dos Enfermos? Quem responderá pelo pecado desse descuido para com essas almas? Se é que, em meio ao materialismo reinante, ainda se pensa nas almas…

Como quer que seja, oferecemos, hoje, aos irmãos e às irmãs na fé uma reflexão sobre a Eucaristia. Elaborada por Dionísio, o Cartuxo († 1471), intitula-se ‘O alimento dos fracos’. Ei-la : ‘Para chegar a estar convenientemente concentrado, considera com devoção quem é Aquele que se dá a ti no altar, pobre e vil pecador mil vezes digno do inferno. Ele é um Deus de infinita majestade, onipotente e terrível : ‘Ele olha para a terra e a faz tremer, toca as montanhas e elas fumegam’ (Sl 103,32). ‘Leva escrito um nome em seu manto e em sua coxa : Rei dos reis e Senhor dos senhores’ (Ap 19,16). Esse nosso Deus desce diariamente pela nossa causa, miseráveis; mais ainda, com tanta humildade que não há ninguém tão vil a quem Ele não desça, contanto que o homem o queira. Vem com tanta paciência que está disposto a perdoar até mesmo o mais perverso de seus inimigos, se este quer se reconciliar com Ele. Vem com tanto amor que está disposto a abrasar também a pessoa mais fria do mundo, contanto que ela o deseje’.

Vem com tanta liberalidade que não há ninguém tão pobre que Ele não esteja pronto a enriquecer. Vem com tanta doçura, que deseja saciar até os mais famintos com o seu alimento verdadeiro. Vem com tanta luz, que não há ninguém tão cego que não queira iluminar. Vem com tanta santidade, que não há ninguém tão impuro ou indolente que ele não possa purificar e mover à devoção.’

Procura ter presente essas e outras reflexões, dia e noite em todas as tuas ações e exercícios, a fim de conservar limpa para tal hóspede a cela do teu coração. Todos os teus salmos e orações faze-os como ação de graças, depois de ter recebido esse dom e outros inumeráveis benefícios ou para preparar-te a fim de recebê-Lo dignamente. Toda a vida se gaste em honrar a esse hóspede que tão frequentemente se honra de vir a ti, aspirando sempre àquele feliz momento em que o Deus infinito se digna a rebaixar-se e a unir-se a ti, a partir do momento em que toda a tua felicidade consiste unicamente nisso. Teme sempre que aproximando-te d’Ele indignamente não te menospreze e se cumpra, assim, o que está escrito nos salmos : ‘Que a sua mesa ante eles se converta em um laço e sua abundância em armadilha!’ (Sl 68,23)’ (Contra detestabilem cordis inordinationem in Dei laudibus, art. XXIV. Opera omnia, t. 40, pp. 247-248, apud Um cartuxo. Antologia de autores cartuxos : itinerário de contemplação. São Paulo : Cultor de Livros, 2020, p. 336-337). 

Afinal, a Eucaristia antecipa, já neste mundo passageiro, o Banquete celeste, conforme se lê na obra de outro monge cartuxo que se mantem anônimo. Diz ele : ‘A Eucaristia é promessa, penhor da união final. É, na fé, um pregustar do último banquete, onde o pão do céu já não será dado ao homem sob o véu do sacramento, mas no esplendor da luz do Cordeiro. Jesus nos ensinou a pensar no céu como um banquete, onde ele mesmo passará de um comensal a outro para servi-lo (cf. Lc 12,37). E o alimento que dará a comer será ele mesmo’ (A Missa, mistério nupcial. 2ª ed. Juiz de Fora : Subiaco, 2019, p. 97).

Lendo tais passagens de profundos autores espirituais, como não ter, no coração, o desejo de participar da Santa Missa e, em estado de graça, receber – até diariamente, se possível –, Nosso Senhor, com seu corpo, sangue, alma e divindade, na hóstia consagrada e de adorá-Lo, sempre mais, no Santíssimo Sacramento?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/12/12/o-valor-da-santa-missa/

domingo, 29 de novembro de 2020

Por que é tão importante fazer silêncio na missa?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Gelsomino Del Guercio


A eficácia espiritual da missa pode depender do seu silêncio

 

‘Nem todo mundo acompanha a missa com atenção. Às vezes, o padre é obrigado a interromper a liturgia para reprovar as conversas entre os fiéis. Esta chamada de atenção não é acidental, porque o silêncio durante a missa tem uma importância acima de tudo teológica. Descubramos o porquê.

 

Silêncio sagrado 

O silêncio na igreja durante o culto sagrado – explica à Aleteia o liturgista Pe. Enrico Finotti – é uma questão primordial, porque dele depende, em boa medida, a eficácia espiritual da ação litúrgica.’

 

No entanto, não considero oportuno intervir nas situações concretas, pois se supõe que cada sacerdote vai se comportar de maneira adequada em circunstâncias às vezes difíceis’, acrescenta.

 

À escuta de Deus 

Em sentido geral, explica o sacerdote, podem ser indicadas algumas pautas. Primeiramente, ‘o clima de silêncio interior e exterior é próprio de cada celebração litúrgica. De fato, trata-se de preparar a alma para escutar Deus, que fala ao seu povo; de elevar-lhe louvores com alegria e receber da sua misericórdia as maravilhas da graça, que são os sacramentos’.

 

A majestade do Pai 

Em segundo lugar, observa o Pe. Enrico, ‘Deus não pode jamais ser reduzido ao nosso nível. Ele permanece sempre permeado pelo fulgor da sua transcendência. Ainda que, com a Encarnação, o Filho unigênito tenha vindo habitar entre nós e tenha permanecido conosco como amigos, Ele não desviou o olhar da majestade divina do Pai, a quem demonstra uma absoluta obediência adoradora’.

 

Os 3 tipos de silêncio 

Sobre esta base teológica, a Igreja prevê mais de um tipo de silêncio : ‘O silêncio preparatório para uma celebração (para os ministros na sacristia e para os fiéis na nave); o silêncio ritual para realizar juntos os gestos e pronunciar as orações estabelecidas, mas também para interiorizar os conteúdos da Palavra proclamada e dos sinais santos presentes nos mistérios sagrados; e o silêncio posterior à celebração, para não dispersar imediatamente a intensidade do recolhimento interior’.

 

A importância do templo 

Para distinguir o ambiente de silêncio do da conversação e do encontro fraterno, ‘a arquitetura eclesiástica clássica outorga primeiro o vestíbulo da igreja e mais adentro o templo, que é o lugar de mediação e de passagem entre o culto do templo e o tumulto do mundo’.

 

No templo, a devoção do coração e o encontro adorador com Deus se traduz nessa ‘sóbria exaltação do Espírito’ que invade os fiéis no êxodo da assembleia santa, onde recebem a Palavra que salva e o Pão da vida eterna: uma fraternidade regenerada, que do lugar santo se expande para o mundo.

 

Educar os fiéis 

Infelizmente, constata o Pe. Enrico, ‘no contexto atual, o silêncio não é valorizado e se torna difícil colocá-lo em prática, inclusive na igreja, e a educação para o silêncio litúrgico deve ser retomada com constância e determinação’.

 

De fato, não existem alternativas : sem silêncio interior e exterior, qualquer tentativa de reflexão, de devoção e de contemplação se extingue ao nascer – adverte. De fato, não é possível considerar suficiente para o crescimento na fé uma celebração litúrgica só formal e exterior. Não podemos honrar Deus somente com palavras, sem uma adequada correspondência do coração.’

 

Fé e paciência 

Para concluir, o liturgista convida a não se surpreender pelas ‘dificuldades que o silêncio pode encontrar inclusive em seu próprio lugar, a igreja, e na ação mais santa, a liturgia’.

 

Não podemos desanimar. Trabalhemos com confiança, sustentados pela fé, para que, com paciência e gradualmente, o povo cristão alcance novamente essa maturidade religiosa de tempos melhores. Isso não será fruto de imposições formais, mas exigência de uma oração convencida e de uma fé viva.’’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2015/02/25/por-que-e-tao-importante-fazer-silencio-na-missa/

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A recepção da comunhão ao longo dos séculos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Dr. José Eduardo


A comunhão nunca foi tão acessível… e tão banalizada

‘Até o século XIX, os critérios para comungar eram doutrinalmente tão exigentes que, na prática, poucas pessoas comungavam.

Considerava-se que, para além de uma preparação que eu chamaria de negativa — o fiel não deveria ter consciência de nenhum pecado grave –, era necessária uma cuidadosa preparação positiva : jejum eucarístico desde a meia noite, asseio e modéstia pessoais muito mais salientados que o normal, oração fervorosa com a repetição de inúmeros atos de fé, esperança, adoração, humildade, caridade etc. No dia-a-dia, as pessoas comungavam raramente, somente depois de se confessarem e fora da Santa Missa.

Essa prática era tão consagrada, que Santa Teresa foi considerada suspeita de heresia porque desejava comungar todos os domingos.

A propósito, o Concílio de Trento deixou muito clara a distinção entre o rito da Santa Missa (com a comunhão do sacerdote) e o rito da Santa Comunhão dos fiéis, para salvar a Igreja do erro protestante de se considerar a Missa como somente uma Ceia e, portanto, a Comunhão como o momento essencial da ação litúrgica (e não a consagração).

Os santos sempre sofreram com essa dificuldade em receber o Santíssimo Sacramento, a tal ponto que a própria Santa Teresinha do Menino Jesus chegou a dizer que, quando chegasse ao céu, a primeira coisa que pediria a Deus seria a ‘comunhão diária’ para toda a Igreja.

De fato, ela morreu em 1897 e, em 1903, foi eleito o grande São Pio X, que, em 1905, escreveu o Decreto ‘Sacra Tridentina Synodos’, oferecendo a todos os fiéis a possibilidade de comungarem diariamente.

Isso foi uma grande graça! Um tremendo prodígio!

Contudo, a recepção diária não servia para afrouxar as exigências de uma preparação negativa e positiva para comungar. Antes, era instrumento para difusão de maior santidade na Igreja.

Aconteceu, porém, que, com o passar do tempo, a disciplina se foi afrouxando e, de uma condição em que o fiel se sentia ‘PROIBIDO DE COMUNGAR’, passou-se a uma condição em que os fiéis passaram a se sentir no ‘DIREITO DE COMUNGAR’ : bastaria não ter um pecado grave na consciência que já se sentiriam aptos para aceder ao ‘sacrum convivium’, sem maiores exigências.

Foi uma mudança de 180 graus, já foi uma queda!, mas ainda num quadro em que as pessoas se viam obrigadas a confessar, caso houvesse consciência de pecado mortal.

A situação foi se alterando, porém.

E, há algumas décadas, chegamos ao estado em que os fieis se sentem no ‘DEVER DE COMUNGAR’, como se a não recepção da comunhão fosse em si mesma um pecado. Esse dever, aliás, não é imputado apenas ao leigo, mas também à Igreja : parece que a única forma de inclusão é dar a comunhão, e ninguém possa ser privado desse sacramento, inclusive pelo próprio bem de sua alma. Não só o fiel teria o dever de comungar, mas o padre teria o dever de dar a comunhão a quem quer que seja!

Hoje, as pessoas se confessam de terem ido à Missa e não terem comungado; ou de não terem ido à Missa por não poderem comungar; ou de terem comungado em pecado grave com a intenção de depois se confessarem, porque se sentiam no dever de fazê-lo ou tinham ‘necessidade’… QUANTA CONFUSÃO DOUTRINAL E QUANTO SACRILÉGIO!

A doutrina da Igreja é clara, e não preciso aqui explicá-la. Para comungar, é preciso ter a consciência livre de qualquer pecado grave e estar fervorosamente em pelo menos uma hora de jejum e oração, aguardando a chegada do Senhor na alma!

Na práxis pastoral hodierna, não é que mudamos 180 graus, isso já é coisa do passado! Conseguimos a ‘proeza’ de ainda dar uma cambalhota para outros 180 graus, e parece-me que perdemos o caminho de volta.

Viva a Sagrada Comunhão diária!, mas recebida com as devidas disposições, com aquele espírito sintetizado pelo Apóstolo das Gentes : ‘aquele que comunga sem distinguir o corpo do Senhor, comunga a sua própria condenação. Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos’ (1Cor 11,29-30).

Não seria essa banalidade com que tratamos a Sacratíssima Eucaristia a razão de tanta falta de firmeza na fé, de tanta apostasia, de tanta irreligião, de tanto abandono de Deus e de sua Lei?…’


Fonte :

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O mito sobre as catacumbas


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Catacumba de Priscilla, em Roma.
Catacumba de Priscilla, em Roma

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé


‘Um dia li em uma rede social : ‘Pelo jeito, voltaremos ao período das catacumbas’. E é muito comum que as pessoas associem os primeiros cristãos a esses cemitérios subterrâneos, ativos entre os séculos II e V e redescobertos só no século XVI. Primeiro entendamos o que são essas galerias repletas de sepulturas para depois desfazermos alguns mitos.

Antes de mais nada, devemos salientar que a descoberta desses lugares emblemáticos revolucionou o estudo a respeito da história dos primeiros cristãos. Como muitos sabem, foi possível conhecer grande parte da iconografia cristã e alguns costumes dos primeiros seguidores de Cristo através das várias inscrições deixadas nas paredes dessas galerias. As figuras do bom pastor, do ‘orante’, do monograma de Cristo e do peixe podem ser vistas ainda hoje pelos visitantes.

O ‘R.I.P’, por exemplo, sigla bastante propagada hoje nas redes sociais, significa ‘Descanse em paz’, Requiescant in pace em latim. Tal saudação foi encontrada pela primeira vez em uma lápide cristã do século IV.  E como não falar das invocações ‘Paule et Petre petite…’, voltadas aos mártires mais importantes da cristandade, as quais atestam que os cristãos do século III já acreditavam na comunhão e na intercessão dos santos?

Missas e perseguições

A indústria do cinema, baseada nas primeiras cartilhas da história do cristianismo, retrata que os primeiros cristãos, no período das perseguições, se escondiam nas catacumbas e lá realizavam suas celebrações litúrgicas. E tais afirmações entraram em cheio no imaginário popular.

Há uma confusão enorme a respeito dessa interpretação, pois as catacumbas, para início de conversa, eram locais públicos para o sepultamento dos mortos, chamadas posteriormente de coemeterium (cemitério - dormitório) pelos primeiros cristãos. Alguns desses terrenos eram de propriedade privada e funcionavam com o aval do império. Seguindo um costume da época, os mortos deveriam ser enterrados fora dos muros da cidade. Daí a origem do nome ‘Basílica de São Paulo fora dos muros’, a igreja onde foram depositados os restos mortais do apóstolo Paulo, que fica localizada em Roma.

Sendo assim, é no mínimo impensável que um cristão se escondesse em um lugar que era conhecido por todos. O que podemos dizer é que era um local de peregrinação, uma vez que os primeiros mártires foram sepultados e, consequentemente, cultuados nesses lugares. Só em São Calisto, estima-se que centenas de cristãos tenham sido enterrados, dentre os quais 9 papas.

Já em relação aos cultos religiosos, eles eram realizados sobretudo nas casas dos primeiros cristãos, as chamadas domus ecclesiae. Alguns desses lugares foram doados à Igreja e, por conseguinte, preservaram o nome de seus proprietários, como o caso da Basílica de São Clemente, em Roma, cujo dono era Clemente.

Não há fontes que atestem que os cristãos celebravam missas nas catacumbas. No entanto, sabe-se que eles celebravam o refrigerium, uma prática de origem pagã que consistia na realização de um banquete em honra ao morto. E daqui nasce a confusão de que, nas catacumbas, os cristãos celebrassem o banquete da Eucaristia. Na famosa catacumba de São Sebastião, por exemplo, havia um espaço reservado para isso. No local, foram encontradas várias inscrições At Paulum et Petrum refrigeravi, uma vez que os corpos dos dois apóstolos teriam sido transportados provisoriamente para lá.

É interessante confrontarmos os mitos que criamos com os estudos mais recentes a respeito da história do cristianismo. Ao contrário do que muitos pensam, o interesse pelas fontes nos leva a viver uma fé mais enraizada e menos ‘espetacularizada’. A melhor propaganda do cristão é seu testemunho, não o proselitismo do ‘vale-tudo’, repleto de informações infundadas. Sigamos em frente na busca e no amor pela verdade.


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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Papa critica modos individualistas da celebração da missa


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos acontece no Vaticano até a sexta-feira, 15.
Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos acontece no Vaticano (Vatican Media)



Falando na antessala da Sala Paulo VI aos cerca de 80 participantes do encontro, que incluem 22 cardeais, 8 arcebispos e 11 bispos, além de funcionários e consultores, o Pontífice enfatizou que a liturgia é a epifania da comunhão eclesial. Para melhorar sua qualidade, é preciso mudar o coração, evitar cair em estéreis polarizações ideológicas e cultivar a formação permanente do clero e dos leigos. A mistagogia – afirmou – é um caminho idôneo para entrar no mistério da liturgia.

Os primeiros passos de um caminho

O Papa começou recordando a instituição da Congregação para o Culto Divino por Paulo VI, em 8 de maio de 1969, com o objetivo ‘de dar forma à renovação desejada pelo Vaticano II’. A tradição orante da Igreja, de fato, ‘tinha necessidade de expressões renovadas, sem perder nada de sua riqueza milenar, antes pelo contrário, redescobrindo os tesouros das origens’.

Francisco recordou então os primeiros passos de um caminho, ‘sobre o qual prosseguir com sábia constância’, citando a promulgação do 'Moto ProprioMysterii paschalis sobre o  Calendário Romano e o Ano Litúrgico e a importante Constituição Apostólica Missale Romanum,  com a qual o Santo Papa promulgou o Missal Romano. No mesmo ano, recordou, veio à luz ‘Ordo Missae e vários outros Ordo, entre os quais, o do Batismo das crianças, do Matrimônio e das Exéquias’. 

Sabemos - disse o Pontífice - que não basta mudar os livros litúrgicos para melhorar a qualidade da liturgia. Somente isto seria um engano. Para que a vida seja verdadeiramente um louvor agradável a Deus, é preciso de fato mudar o coração’, e para esta conversão que ‘é orientada a celebração cristã, que é um encontro da vida com o 'Deus dos vivos.'’

Colaboração entre a Sé Apostólica e as Conferências Episcopais

Também hoje este é o objetivo do trabalho exercido pela Congregação do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, voltado a ‘ajudar o Papa a exercer o seu ministério em benefício da Igreja em oração espalhada por toda a terra’. E na ‘comunhão eclesial, atuam tanto a Sé Apostólica como as Conferências Episcopais, em espírito de cooperação, diálogo e sinodalidade’ :

‘A Santa Sé, de fato, não substitui os bispos, mas colabora com eles para servir, na riqueza das várias línguas e culturas, a vocação orante da Igreja no mundo. Nesta linha colocou-se o Motu proprio Magnum principium (3 de setembro de 2017), com o qual eu quis favorecer, entre outras coisas, a necessidade de uma ‘constante cooperação, plena de confiança recíproca, vigilante e criativa, entre as Conferências Episcopais e o Dicastério da Sé Apostólica que exerce a missão de promover a sagrada liturgia’.

O voto – disse o Papa – é ‘de prosseguir no caminho da mútua colaboração, conscientes das responsabilidades envolvidas pela comunhão eclesial, na qual a unidade e a variedade encontram harmonia. É um problema de harmonia’.

Estéreis polarizações

Aqui também está inserido o desafio da formação - observa o Santo Padre - sublinhando que ‘a liturgia é vida que forma, não uma ideia a ser aprendida’. A este propósito – acrescentou - é útil recordar que ‘a realidade é mais importante do que a ideia’ :

‘E é bom por isso, na liturgia como em outros âmbitos da vida eclesial, não acabar em estéreis polarizações ideológicas que nascem muitas vezes quando, considerando as próprias ideias válidas para todos os contextos, chega-se a assumir uma atitude de perene dialética em relação a quem não as compartilha. Assim, começando quem sabe pelo desejo de reagir a algumas inseguranças do contexto atual, corre-se o risco de voltar-se a um passado que não existe mais ou de fugir para um futuro presumido como tal. O ponto de partida, pelo contrário, é reconhecer a realidade da sagrada liturgia, tesouro vivo que não pode ser reduzido a gostos, receitas e correntes, mas deve ser acolhido com docilidade e promovido com amor, enquanto alimento insubstituível para o crescimento orgânico do Povo de Deus’.

A liturgia não é ‘o campo do faça-você-mesmo’ – alerta o Pontífice – ‘mas a epifania da comunhão eclesial’ :

‘Portanto, nas orações e nos gestos ressoa o ‘nós’ e não o ‘eu’; a comunidade real, não o sujeito ideal. Quando se recordam nostalgicamente tendências passadas ou se querem impor novas, corre-se o risco de antepor a parte ao todo, o eu ao Povo de Deus, o abstrato ao concreto, a ideologia à comunhão, e na raiz, o mundano ao espiritual’.

Formação litúrgica do Povo de Deus

‘A formação litúrgica do Povo de Deus’ é o tema desta Assembleia Plenária, e ‘a tarefa que nos espera – diz Francisco - é ‘essencialmente difundir entre o povo de Deus, o esplendor do mistério vivo do Senhor, que se manifesta na liturgia’ :

‘Falar da formação litúrgica do Povo de Deus significa antes de tudo tomar consciência do papel insubstituível que a liturgia desempenha na Igreja e para a Igreja. E pode ajudar concretamente o povo de Deus a interiorizar melhor a oração da Igreja, a amá-la como experiência de encontro com o Senhor e com os irmãos e, diante disso, redescobrir nela o conteúdo e observar seus ritos’.

Sendo a liturgia ‘uma experiência voltada à conversão da vida pela assimilação do modo de pensar e de comportar-se do Senhor - observa - a formação litúrgica não pode limitar-se simplesmente em oferecer conhecimentos - isso é errado -, mesmo necessários, sobre os livros litúrgicos, e tampouco tutelar o cumprimento das disciplinas rituais’. Mas para que a liturgia possa cumprir sua função formativa e transformadora, enfatiza o Papa, ‘é necessário que os pastores e leigos sejam introduzidos a compreender dela o significado e a linguagem simbólica, incluindo a arte, o canto e a música a serviço do mistério celebrado’.

Mistagogia, caminho idôneo para entrar no mistério da liturgia

O próprio Catecismo da Igreja Católica – recorda Francisco - adota o caminho mistagógico para ilustrar a liturgia, valorizando nela a oração e os sinais :

‘A mistagogia : eis um caminho idôneo para entrar no mistério da liturgia, no encontro vivo com o Senhor crucificado e ressuscitado. Mistagogia significa descobrir a vida nova que no Povo de Deus recebemos mediante os Sacramentos, e redescobrir continuamente a beleza de renová-la’.

Formação permanente

A formação permanente do clero e dos leigos, especialmente aqueles envolvidos nos ministérios ao serviço da liturgia, foi outro aspecto destacado pelo Santo Padre em seu pronunciamento :

‘As responsabilidades educativas são compartilhadas, mesmo que cada diocese esteja mais envolvida na fase operativa. A reflexão de vocês vai ajudar o Dicastério a amadurecer linhas e diretrizes para oferecer, no espírito de serviço, a quem - Conferências Episcopais, dioceses, institutos de formação, revistas - tem a responsabilidade de cuidar e acompanhar a formação litúrgica do Povo de Deus’.

Queridos irmãos e irmãs - foi a exortação final do Pontífice – ‘todos somos chamados a aprofundar e reavivar a nossa formação litúrgica’,  e diante de vocês está esta grande e bela tarefa : ‘trabalhar para que o povo de Deus redescubra a beleza de encontrar o Senhor na celebração de seus mistérios, e encontrando-o, tenha vida em seu nome (...). E peço a vocês para reservarem a mim sempre um lugar - amplo - em suas orações’.’


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