Mostrando postagens com marcador Vaticano II. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vaticano II. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fulton Sheen e a missão como responsabilidade de toda a Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo com informações da Agencia Fides


‘Há episódios do Concílio Vaticano II que permanecem nas margens da memória conciliar, embora ajudem a compreender algumas de suas intuições mais profundas. Um deles envolve o bispo estadunidense Fulton J. Sheen, cuja participação na elaboração do decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, contribuiu para ampliar a própria pergunta sobre o que significa fazer missão. Entre os quase 2.500 bispos que participaram das quatro sessões conciliares, entre 1962 e 1965, Sheen foi membro da Comissão para as Missões e o único representante dos Estados Unidos a permanecer nessa comissão durante todo o Concílio.

Sua presença em Roma também se inscrevia numa relação pessoal com João XXIII. Antes mesmo da abertura do Concílio, Sheen havia percebido que algo novo estava se formando na Igreja. Em 1959, durante uma peregrinação a Lourdes, chamou sua atenção a multidão de peregrinos simples e pobres. ‘Eis a Igreja dos pobres’, teria dito a um companheiro, expressão que antecipava uma preocupação que levaria posteriormente à assembleia conciliar. O vínculo com o Papa Roncalli era igualmente significativo : como diretor nacional da Pontifícia Obra para a Propagação da Fé, Sheen encontrava-se anualmente com João XXIII, que lhe confidenciou, antes do anúncio público, sua decisão de convocar o Concílio.

A pergunta que mudou o foco da missão 

A contribuição mais expressiva de Sheen apareceu durante o debate sobre o esquema que daria origem ao decreto Ad Gentes. Em 9 de novembro de 1964, depois de numerosas críticas à primeira versão do texto, o bispo propôs uma mudança aparentemente simples, mas teologicamente significativa. Em vez de perguntar ‘O que são as missões?’, sugeriu perguntar : ‘Onde estão as missões?’

A mudança de perspectiva colocava em questão uma concepção geográfica da missão. Para Sheen, não bastava identificar como missionários os territórios classificados como ‘não cristãos’. Havia também dioceses extremamente pobres, com escassez dramática de sacerdotes, que necessitavam da solidariedade de toda a Igreja, embora não fossem oficialmente consideradas territórios de missão. Ele recordava bispos que lhe pediam ajuda vindos de regiões nas quais havia apenas poucos sacerdotes para áreas imensas. A questão, portanto, deixava de ser apenas administrativa : pode uma Igreja necessitada ser considerada menos missionária simplesmente porque não se encontra dentro de uma determinada categoria jurídica?

Nesse raciocínio aparece uma das ideias mais fecundas de sua intervenção : a missão não deveria ser compreendida como uma tarefa de uma parte da Igreja em benefício de outra, mas como uma responsabilidade comum. Sheen contestava divisões excessivamente rígidas entre ‘Igrejas novas’ e ‘Igrejas antigas’. Para ele, a Igreja é um único Corpo de Cristo, cujos membros dependem uns dos outros. Por isso, defendia mecanismos de coordenação que permitissem responder às diferentes necessidades missionárias presentes no mundo.

Uma Igreja que não pode esquecer os pobres 

A questão da pobreza ocupava um lugar central nessa visão. Quando um dos padres conciliares propôs retirar do texto as referências à pobreza, Sheen defendeu justamente o contrário. Recorreu à imagem do globo terrestre para mostrar a concentração geográfica das desigualdades e apontou para a realidade de África, Ásia e América Latina.

Mas seu argumento ia além de uma análise econômica. A experiência de suas viagens pela América Latina e pela África havia transformado sua maneira de compreender a pobreza. Ele próprio escreveria posteriormente que começara a pensar menos no ‘problema da pobreza’ e mais nos pobres. A distinção é importante : deslocar o olhar de uma questão abstrata para rostos concretos significa reconhecer que a missão cristã acontece no encontro com pessoas e comunidades concretas.

Foi nesse contexto que Sheen formulou uma das frases mais marcantes associadas à sua participação no Vaticano II : ‘Como a castidade foi o fruto do Concílio de Trento e a obediência o fruto do Concílio Vaticano I, assim o espírito de pobreza seja o fruto deste Concílio Vaticano II.’ E acrescentou : ‘Somente uma Igreja ferida pela pobreza pode converter um mundo cético.’

A expressão ‘Igreja ferida pela pobreza’ contém uma inversão interessante. A pobreza deixa de ser apenas uma realidade diante da qual a Igreja exerce caridade e passa a interrogar a própria Igreja. Não se trata simplesmente de uma Igreja que ajuda os pobres, mas de uma Igreja que permite que a realidade dos pobres transforme suas prioridades, sua sensibilidade e sua maneira de cumprir a missão.

O bispo : não apenas para uma diocese 

O texto final de Ad Gentes, aprovado por ampla maioria, incorporou diversos elementos que convergiam com as preocupações apresentadas por Sheen : a responsabilidade da Igreja para com os pobres, a necessidade de coordenação da atividade missionária e uma compreensão ampla da responsabilidade episcopal. O decreto afirma que o bispo não é consagrado apenas para uma determinada diocese, mas também para a salvação do mundo inteiro.

A mesma lógica apareceu em sua participação na elaboração de Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal. Sheen defendia que os seminaristas tivessem contato direto com doentes, pobres, não católicos, católicos afastados da fé, presos e trabalhadores, além de passarem períodos nas missões com falta de pessoal. A intenção era fazer com que a formação pastoral não permanecesse restrita ao ambiente protegido do seminário, mas colocasse o futuro sacerdote em contato com as periferias humanas e eclesiais.

Sheen também apoiou vigorosamente o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, e interveio em favor de uma reflexão mais ampla sobre a contribuição das mulheres na vida da sociedade. No debate sobre Gaudium et Spes, valorizou especialmente a afirmação da dignidade e da liberdade da pessoa humana e sua relação inseparável com a salvação. Ao mesmo tempo, advertia que a abertura da Igreja ao mundo não deveria significar nem isolamento nem submissão aos critérios do próprio mundo.

A difícil palavra ‘mundo’ 

É justamente aqui que aparece uma das chaves para compreender o pensamento de Sheen sobre o período posterior ao Concílio. Ele não interpretava a abertura ao mundo como uma capitulação. Ao contrário, considerava que a Igreja deveria estar presente no mundo, dialogar com ele e reconhecer os sinais de verdade presentes nas diferentes culturas, mas sem perder a capacidade de discernimento.

Em suas conferências posteriores, Sheen identificou boa parte das tensões pós-conciliares numa confusão em torno da própria palavra ‘mundo’. De um lado, está o mundo como criação de Deus, realidade humana que a Igreja é chamada a amar e servir. De outro, está o ‘mundo’ no sentido bíblico de uma organização da existência fechada a Deus. Confundir essas duas realidades poderia, segundo ele, fazer com que a abertura se transformasse em assimilação.

Por isso, sua compreensão da renovação conciliar pode ser resumida não como rejeição nem como aceitação indiscriminada do mundo, mas como discernimento. Sheen recorria à antiga imagem dos semina Verbi, os ‘sementes do Verbo’ presentes nas culturas e nos contextos humanos. A tarefa da Igreja seria reconhecer essas sementes, ajudá-las a crescer e, ao mesmo tempo, distinguir o trigo do joio.

Uma intuição que permanece atual 

Vista a partir de hoje, a contribuição de Fulton Sheen para a reflexão conciliar sobre a missão ganha força justamente porque desloca a questão de fronteiras geográficas para uma pergunta muito mais abrangente : onde a Igreja é chamada a ser missionária?

A resposta que emerge de suas intervenções não se limita aos territórios tradicionalmente classificados como missionários. A missão está também onde há pobreza, falta de sacerdotes, afastamento da fé, sofrimento, exclusão e necessidade de esperança. Está nas dioceses e nas comunidades, mas também na formação dos futuros sacerdotes, no apostolado dos leigos, no diálogo com a cultura e na capacidade da Igreja de reconhecer aquilo que Deus já semeou no coração da humanidade.

É nesse sentido que a figura de Sheen ajuda a reler Ad Gentes : a missão não é um setor especializado da vida eclesial, delegado a alguns organismos ou regiões do mundo. Ela pertence à própria natureza da Igreja. E, para o bispo, essa responsabilidade ultrapassa os limites de sua diocese. A missão começa onde existe alguém a quem a Igreja é chamada a levar a luz da Palavra e o amor de Deus — inclusive quando esse alguém está muito mais perto do que as antigas fronteiras missionárias permitiam perceber.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-09/beatificacao-fulton-sheen-estadunidense-concilio-vaticano-ii.html

 

domingo, 12 de julho de 2026

Dei Verbum: a constituição dogmática sobre a divina revelação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Lino Rampazzo


‘No artigo anterior foi apresentado o grande acontecimento do Concílio Vaticano II, que transcorreu de 1962 até 1965. Lembramos que o Papa Leão XIV, no mês de janeiro deste ano, iniciou um ciclo de catequeses intitulado ‘O Concílio Vaticano II através de seus documentos’. O primeiro desses documentos a ser apresentado foi a Constituição dogmática Dei Verbum (a Palavra de Deus) sobre a revelação divina, que ressalta a relação entre Escritura e tradição, a inspiração bíblica, a importância da Palavra de Deus e o incentivo à leitura da Bíblia. 

O Papa, na catequese do dia 14 de janeiro, enfatizou a revelação divina como um diálogo de amor e amizade entre Deus e a humanidade, destacando Cristo como a plenitude dessa revelação e a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja.

Neste sentido, a Constituição dogmática Dei Verbum ressalta que Deus não transmite apenas ideias, mas busca uma aliança, tratando os seres humanos como amigos e revelando-se em Cristo. 

Eis, pois, como se expressa o número 2 desse documento : ‘Em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1 Tm 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele’. 

Podemos, a esse respeito, citar o seguinte texto do Evangelho de João : ‘Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai’ (15,15).

Comentando essa passagem do quarto Evangelho, Santo Agostinho insiste sobre a perspectiva da graça, a única que nos pode tornar amigos de Deus no seu Filho (cf. Comentário ao Evangelho de João, homilia 86). 

Nessa ótica, o Papa afirma que a primeira atitude a cultivar é a escuta, para que a Palavra divina possa penetrar as nossas mentes e corações; ao mesmo tempo somos chamados a falar com Deus não para lhe comunicar o que Ele já sabe, mas para nos revelarmos a nós mesmos. Isso significa que, diante da Palavra de Deus, a primeira atitude não é falar, mas ouvir. Deus toma a iniciativa de se comunicar com a humanidade, por isso, quando lemos a Bíblia, participamos da liturgia ou meditamos a Palavra devemos abrir a mente e o coração para acolher o que Deus quer nos dizer.

A expressão ‘para que a Palavra divina possa penetrar as nossas mentes e corações’ recorda que a Palavra de Deus não é apenas uma informação a ser estudada, mas uma mensagem viva que transforma a pessoa. Como diz a Carta aos Hebreus, a Palavra de Deus é ‘viva e eficaz’ (4,12).

‘Somos chamados a falar com Deus’ significa que depois de ouvir vem a resposta. A oração cristã é um diálogo : Deus fala e o ser humano responde. Não basta apenas escutar, é necessário entrar em conversa com Deus.

‘Não para lhe comunicar o que Ele já sabe’, pois Deus conhece tudo. Ele conhece nossos pensamentos, necessidades, alegrias e sofrimentos antes mesmo que os expressemos, portanto, a oração não serve para informar Deus sobre algo que Ele desconhece.

‘Mas para nos revelarmos a nós mesmos’ : aqui está o ponto mais original e profundo da frase. Quando falamos com Deus, acabamos descobrindo quem realmente somos. Ao colocar diante de Deus nossos sentimentos, dúvidas, medos, pecados, esperanças e projetos passamos a enxergar nossa própria realidade com mais clareza. A oração torna-se um caminho de autoconhecimento.

Santo Agostinho expressava algo semelhante quando dizia que o encontro com Deus ajuda o ser humano a encontrar a verdade sobre si mesmo.

A reflexões deste artigo não têm a pretensão de apresentar toda a riqueza da Constituição dogmática Dei Verbum; trata-se apenas de um estímulo para analisá-lo, considerando também a facilidade de encontrá-lo integralmente na internet. Pode ser, inclusive, um primeiro passo para valorizar a riqueza espiritual dos documentos do Concílio Vaticano II.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/dei-verbum-a-constituicao-dogmatica-sobre-a-divina-revelacao.html


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“Dei Verbum”, padre Girolami: o Papa lembra que Deus se revela na história

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Eugenio Bonanata


‘A primazia da história, a leitura dos textos sagrados, a relação de amizade com o Senhor, a oração. São numerosos os temas abordados pela constituição dogmática Dei Verbum que o Papa Leão XIV colocou no centro da catequese da audiência geral da quarta-feira, na Sala Paulo VI, no âmbito do novo ciclo dedicado à redescoberta dos documentos do Concílio Vaticano II.  ‘A Dei Verbum esclarece qual é o significado e a maneira pela qual Deus se revela aos homens’, afirma padre Maurizio Girolami, presidente da Associação Bíblica Italiana. E ‘é significativo – acrescenta – que o Papa tenha querido começar justamente pela introdução deste documento, onde se define o diálogo entre Deus e os homens como um diálogo que ocorre em uma relação de amizade’.

Uma longa gestação

‘Deus se revela em primeiro lugar através de palavras autênticas’, acrescenta padre Girolami, lembrando como, a esse respeito, o Papa destacou ‘a diferença’ entre a palavra e a conversa de circunstância, bem como a importância de se dedicar à oração. ‘Deus se revela também através de eventos intimamente relacionados’, sublinha o sacerdote, que convida a considerar a longa gestação que teve a Dei Verbum, texto aprovado em 18 de novembro de 1965, poucas semanas antes do encerramento da assembleia, em 8 de dezembro. ‘Na verdade, porém, foi um dos primeiros textos a ser apresentado pela comissão preparatória’.

O contexto histórico-cultural

Qual é o motivo desse longo processo? ‘Os padres conciliares – explica o sacerdote – precisavam chegar a um acordo sobre como entender a revelação cristã : se apenas como palavras, verdades reveladas, ou se, como ensina a Sagrada Escritura, havia uma história a ser acolhida, composta tanto de palavras quanto de eventos’. O contexto cultural, teológico e filosófico da época, ainda marcado pelo iluminismo e pelo positivismo, bem como pela grande controvérsia com a reforma protestante, estimulou essa reflexão que levou a colocar a história no centro do mistério da revelação divina. ‘Não se trata apenas de ter textos – afirma padre Girolami –, o cristianismo não é a religião do livro, mas, como também nos disse o Papa Bento XVI, é em primeiro lugar o encontro com Jesus, do qual certamente a Sagrada Escritura é a testemunha privilegiada, mas não sem o leito que a transporta, ou seja, a tradição e a vida da Igreja’.

O olhar sobre a realidade

Padre Girolami também cita a recente carta apostólica do Papa Leão, Uma fidelidade que gera futuro, divulgada em 22 de dezembro passado, por ocasião do sexagésimo aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum Ordinis. Os dois documentos sobre a formação sacerdotal estão em plena sintonia com o espírito da Dei Verbum. ‘Os padres conciliares – explica ele – pediam uma revisão profunda dos estudos de teologia, porque obviamente não se tratava mais de estudar as verdades reveladas, como se Deus quisesse revelar algo de si mesmo de forma abstrata, como se fosse uma filosofia a ser aprendida, mas era preciso voltar ao contexto da história, sabendo ouvir a história’. 

‘A Bíblia – continua padre Girolami – nos diz que é através de rostos, encontros e pessoas que Deus revela seu plano de salvação’. E é justamente aí que reside o poder da constituição dogmática, que convida todos os fiéis – não apenas os especialistas – a ler a Sagrada Escritura e a alimentar a familiaridade com os Textos Sagrados. ‘É graças à Dei Verbum – sublinha ainda o presidente da Associação Bíblica Italiana – que hoje podemos dizer que o Senhor continua a acompanhar a sua Igreja e a revelar o seu rosto através da vida da Igreja. A nossa catequese, o nosso ensino teológico já não é uma repetição de fórmulas pré-fabricadas, por mais corretas que sejam, mas que correm o risco de não comunicar nada. Em vez disso, é a Igreja que se questiona continuamente sobre como anunciar o Evangelho eterno de Jesus Cristo na história, no hoje, com a linguagem do homem contemporâneo’.

O processo de renovação

O documento, portanto, ofereceu a estrutura teológica para todo o Concílio Vaticano II. ‘A Dei Verbum nos permite compreender qual foi o espírito e a perspectiva correta com a qual a Igreja repensou a si mesma, sua missão no mundo, o sentido da Sagrada Escritura e da tradição, e como viver a experiência cristã hoje, dando primazia e valor à história e a este mundo amado por Deus’. Segundo padre Maurizio Girolami, além disso, a intuição teológica da constituição dogmática está na base de todo o processo de renovação estabelecido pelo Concílio : da liturgia à linguagem, até às estruturas e instituições. ‘Provavelmente – conclui – se não tivesse havido a Dei Verbum, toda a vida da Igreja, a nova evangelização de todos os últimos Pontífices, não teria tido a profundidade teológica que teve’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-01/padre-girolami-papa-leao-xiv-recorda-deus-se-revela-na-historia.html


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Ratzinger e o Concílio Vaticano II

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Assinatura da Bula de convocação do Concílio Vaticano II, em 25 de dezembro de 1961  (Archivio Fotografico Vatican Media)
 

*Artigo de Jackson Erpen


«A percepção desta perda do tempo presente por parte do cristianismo e da tarefa que disto derivava estava bem resumida pela palavra ‘aggiornamento’, actualização. O cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro» (Bento XVI)


‘Joseph Ratzinger, como teólogo, contribuiu para dar forma e acompanhar o Concílio Vaticano II. Trabalhou na sua preparação, foi membro de diversas comissões e ao final redigiu os comentários às Constituições Lumen gentium, Sacrosanctum concilium, Dei Verbum e  Gaudium et spes.

Mas voltemos um pouco ao contexto em que Ratzinger recebeu o anúncio do Concílio. E é ele mesmo que o descreve com as seguintes palavras : «João XXIII havia anunciado o Concílio Vaticano II, reavivando – em muitos até  a euforia – aquele sentimento de renascimento e esperança que, apesar da ameaça que a etapa nacional-socialista havia suposto, ainda estava vivo desde o final do Primeira Guerra Mundial».[1]

A teologia e a vida da Igreja na Alemanha, de fato, havia dado passos importantes no período entre guerras. Ratzinger assim resume essas contribuições. ‘Por um lado, o século em que vivemos foi chamado o século da Igreja; poderíamos também chamá-lo de século litúrgico e sacramental, visto que a redescoberta da Igreja, ocorrida durante as duas guerras mundias, reside na redescoberta da riqueza espiritual da liturgia primitiva cristã e o princípio sacramental». [2]

Ele também conclui, que ‘o movimento litúrgico, o movimento bíblico e ecumênico e, por fim, uma forte religiosidade mariana, configuraram um novo clima espiritual no qual floresceu também uma nova teologia que, no Concílio Vaticano II, deu frutos para toda Igreja».[3]

No contexto do recente falecimento do Papa Bento XVI, grande teólogo, padre Gerson Schmidt* nos propõe hoje a reflexão ‘Ratzinger e o Concílio Vaticano II’ :

‘O cardeal Joseph Ratzinger, como teólogo, participou em medida relevante na gênese dos textos mais variados do Concilio Vaticano II, primeiro ao lado do arcebispo de Colônia, cardeal Joseph Frings, e mais tarde como membro autônomo de diversas comissões.

O cardeal e arcebispo emérito D. Gerhard Ludwig Müller, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala assim da influência de Ratzinger no Concílio :

‘Na fase da recepção, ele – Ratzinger - não se cansa de recordar que o Concílio deve ser avaliado e compreendido à luz da sua intenção autêntica. O Concílio é parte integrante da história da Igreja e, portanto, só o podemos compreender corretamente se considerarmos este contexto de dois mil anos. Graças aos seus trabalhos sobre o conceito de Igreja em Santo Agostinho e sobre o conceito de Revelação em são Boaventura, com os quais tinha obtido os graus académicos, Joseph Ratzinger era particularmente idôneo e preparado para enfrentar as questões centrais apresentadas à Igreja no século XX. Entre elas, depois das experiências da guerra e de uma sociedade em profunda transformação nos anos sessenta, estava a crescente perda de significado e de presença da Igreja no mundo. O Papa Bento XVI descreveu do seguinte modo a tarefa do concílio : «A percepção desta perda do tempo presente por parte do cristianismo e da tarefa que disto derivava estava bem resumida pela palavra ‘aggiornamento’, atualização. O cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro».’[4]

No discurso à Cúria Romana a 22 de Dezembro de 2005, que suscitou grande interesse, Bento XVI pôs em evidência «a hermenêutica da reforma na continuidade» face a uma «hermenêutica da descontinuidade e da ruptura». Joseph Ratzinger coloca-se assim no sulco das suas afirmações de 1966. Esta interpretação é a única possível segundo os princípios da teologia católica, ou seja, considerando o conjunto indissolúvel entre Sagrada Escritura, a Tradição completa e integral e o Magistério, cuja expressão mais alta é o concílio presidido pelo sucessor de são Pedro como cabeça da Igreja visível. Fora desta única interpretação ortodoxa infelizmente existe uma interpretação herética, ou seja, a hermenêutica da ruptura, quer na vertente progressista, quer na tradicionalista. Estas duas vertentes têm em comum a rejeição do concílio; os progressistas pretendendo deixá-lo para trás, como se fosse só uma estação que se deve abandonar para alcançar outra Igreja; os tradicionalistas não querendo alcançá-lo, como se fosse o Inverno da Catholica. [5]

A questão das polarizações e totalitarismos são percebidos também dentro da própria Igreja. Há quem diga que o Concílio Vaticano II já está ultrapassado; outros, como conservadores radicais, nem aceitam o Concílio como a proposta de renovação da Igreja para dentro e para fora. Consultado que foi para um novo Concílio nas Américas, o Papa Francisco respondeu que as conclusões do Concílio Vaticano II nem foram aplicadas ainda na Igreja.

Na homilia dos 60 aos do Concílio dizia em tom claro sobre os radicalismos : ‘Quantas vezes se preferiu ser «adeptos do próprio grupo» em vez de servos de todos, ser progressistas e conservadores em vez de irmãos e irmãs, «de direita» ou «de esquerda» mais do que ser de Jesus; arvorar-se em «guardiões da verdade» ou em «solistas da novidade», em vez de se reconhecer como filhos humildes e agradecidos da santa Mãe Igreja. Todos, todos somos filhos de Deus, todos irmãos na Igreja, todos Igreja, todos’.’

_______________

[1] Mi vida, Encuentro, Madrid 1997, pp. 97.

[2] Ser cristiano (1965), Sígueme, Salamanca 1967, p. 57

[3] Natura e compito della teologia. Il teologo nella disputa contemporanea: storia e dogma, Jaca Book, Milano 1993, p. 90.

[4] Arcebispo D. Gerhard Ludwig Müller,Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - Reflexões sobre os escritos conciliares de Joseph Ratzinger - https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/muller/rc_con_cfaith_doc_20121128_riflessioni-muller_po.html

[5] Idem. 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-01/joseph-ratzinger-concilio-vaticano-ii0.html

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

O Vaticano II falhou? Podemos fazer a pergunta?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Papa Francisco faz uma pausa durante sua audiência geral na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 12 de outubro de 2022 | Foto CNS/Guglielmo Mangiapane, Reuters

*Artigo de Zac Davis

Tradução : Ramón Lara

 

‘Há sessenta anos, São João XXIII abriu o Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro. O conselho, que produziu mais de uma dúzia de documentos e iniciou reformas radicais, é difícil de resumir. Não é fácil sintetizar o cronograma das reações desde que esses documentos foram promulgados.

Uma leitura pode ser : logo após o concílio, houve um período de entusiasmo generalizado (combinado certamente com alguns resmungos). Mas em meio à interpretação e experimentação litúrgica, a igreja no Ocidente, que tinha grande influência sobre o Concílio, começou a desmoronar. Houve um êxodo do sacerdócio, da vida religiosa consagrada e dos bancos dos templos. Insatisfeitos com a paisagem, ocorreu um movimento de ‘reforma da reforma’, com a intenção de reprimir o caráter revolucionário do Concílio. Isso culminou com o Papa Bento XVI (que foi um conselheiro teológico do Concílio, mas não deixou que esses detalhes atrapalhassem a narrativa) restaurando a missa pré-Vaticano II para qualquer católico que desejasse celebrá-la ou frequentá-la. Finalmente, o Papa Francisco, com astúcia jesuíta, entra em cena para dar vida à implementação do Concílio, levando à resupressão da Missa em Latim e à instituição de uma Igreja sinodal que está sempre ouvindo.

Essa narrativa, com a qual você certamente poderia discordar a cada passo, no mínimo estabelece uma trama, uma ascensão e queda, uma tese e antítese sobre o papel e a recepção do Concílio. Ross Douthat, escrevendo no The New York Times, descreve nossa situação nestes termos : ‘o Concílio Vaticano II não pode ser simplesmente reduzido a uma única interpretação estabelecida, ou ter seu trabalho de alguma forma considerado terminado, o período de experimentação encerrado e a síntese restaurada’.

O Papa Francisco, em uma homilia no Vaticano para marcar o 60º aniversário, descreveu dois ‘campos’ que reagem ao Concílio como sendo amarrados a um ‘progressismo que se alinha por trás do mundo e o 'tradicionalismo' que anseia por um mundo passado’.

De fato, o Papa nos lembrou (com não uma pequena quantidade de castigo) que ‘uma Igreja apaixonada por Jesus não tem tempo para brigas, fofocas e disputas’. Talvez aqueles que reagem fortemente à coluna de Douthat pensem que estão transmitindo a mensagem do Santo Padre quando o castigam por mencionar que há debates e questões reais sobre o Vaticano II, no The New York Times, e em todos os lugares.

No entanto, quero rebater alguns dos críticos de Douthat e refletir um pouco sobre as próprias palavras do Papa. O problema não está em discutirmos ou discordarmos (ou, no mínimo, reconhecermos que as discordâncias existem). Agir como se não houvesse questões em aberto sobre o relacionamento do Concílio com o estado da Igreja é um ato de negação. E questionar se o Vaticano II foi ou não bem-sucedido não faz de alguém um anticristão.

As mudanças no Concílio causaram o declínio da igreja no Ocidente ou tornaram possível seu crescimento em lugares como Ásia e África com sua ênfase na inculturação? A Igreja realmente reconheceu o papel dos leigos? Se nossa liturgia foi alterada para refletir o vernáculo, por que não continuou mudando junto com nossos tempos? O crescimento do discipulado missionário valeu a perda de nossas instituições? A Igreja precisa de outro Concílio ecumênico para resolver questões novas e urgentes ou revisitar as antigas?

Uma Igreja que faz essas perguntas abertamente, com cuidado e amor é uma Igreja que se importa. Afinal, você não pode ler os Atos dos Apóstolos e encontrar uma Igreja sem divergências. No entanto, muitas vezes somos cegados pela ideologia para nossa própria interpretação ou ideia particular de como as coisas deveriam ser.

O Papa Francisco acrescenta : ‘Quantas vezes, após o Concílio, os cristãos preferiram escolher lados na Igreja, sem perceber que estavam partindo o coração de sua Mãe! Quantas vezes eles preferiram torcer pelo próprio partido ao invés de serem servos de todos? Ser progressista ou conservador em vez de ser irmãos e irmãs?’

A Igreja tem um Ano Santo chegando em 2025. Em preparação, Francisco pediu a todos que releiam as quatro constituições que saíram do concílio. Sugiro que o aceitemos e estejamos dispostos a compartilhar nossos pensamentos uns com os outros enquanto fazemos isso. E quando o fizermos, vamos tentar ouvir não como progressistas ou conservadores, como reformadores ou tradicionalistas, mas como cristãos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1591413

domingo, 10 de julho de 2022

O Papa Francisco divulga nova carta sobre liturgia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Cindy Wooden (Serviço Católico de Notícias)

Tradução : Ramón Lara

 

‘O ‘sentido de mistério’ e de temor que os católicos devem experimentar na Missa não é motivado pelo latim ou por elementos ‘criativos’ acrescentados à celebração, mas por uma consciência do sacrifício de Cristo e de sua presença real na Eucaristia, disse o Papa Francisco.

‘A beleza, assim como a verdade, sempre engendra maravilhas e, quando se referem ao mistério de Deus, levam à adoração’, escreveu Francisco em uma carta apostólica ‘sobre a formação litúrgica do povo de Deus’.

Intitulada ‘Desiderio Desideravi’ (‘Desejo sinceramente’), a carta foi publicada em 29 de junho, festa dos Santos Pedro e Paulo. O título vem de Lucas 22,15 quando, antes da Última Ceia, Jesus diz a seus discípulos : ‘Desejei muito comer esta Páscoa convosco, antes que padeça’.

Na carta, o Papa Francisco insistiu que os católicos precisam entender melhor a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II e seu objetivo de promover a ‘celebração plena, consciente, ativa e frutífera’ da Missa.

‘Com esta carta, quero simplesmente convidar toda a Igreja a redescobrir, salvaguardar e viver a verdade e o poder da celebração cristã’, escreveu o Papa. ‘Quero que a beleza da celebração cristã e suas consequências necessárias para a vida da Igreja não sejam prejudicadas por uma compreensão superficial e escorçada de seu valor ou, pior ainda, por serem exploradas a serviço de alguma visão ideológica, não importa qual é a tonalidade.’

‘A oração sacerdotal de Jesus na Última Ceia para que todos sejam um com cada uma de nossas visões em torno do pão partido, em torno do sacramento da misericórdia, o sinal da unidade, o vínculo da caridade’, disse Francisco.

Enquanto sua carta oferecia o que ele chamou de ‘meditação’ sobre o poder e a beleza da Missa, o Papa Francisco também reiterou sua convicção da necessidade de limitar as celebrações da liturgia de acordo com o rito em uso antes do Concílio Vaticano II.

‘Não podemos voltar àquela forma ritual que os padres conciliares, 'cum Petro et sub Petro', (com e sob Pedro) sentiram a necessidade de reformar, aprovando, sob a direção do Espírito Santo e seguindo sua consciência de pastores, os princípios dos quais nasceu a reforma’.

Os livros litúrgicos aprovados pelos ‘santos pontífices São Paulo VI e São João Paulo II’, disse, ‘garantiram a fidelidade da reforma do Concílio’.

Embora a Missa pós-Vaticano II seja celebrada em latim e em dezenas de línguas vernáculas, assinalou, é ‘uma e a mesma oração capaz de expressar a unidade da Igreja’.

‘Como já escrevi, pretendo que esta unidade seja restabelecida em toda a Igreja de rito romano’, disse, razão pela qual em 2021 promulgou ‘Traditionis Custodes’ (Guardiões da Tradição), limitando as celebrações da Missa segundo o rito usado antes do Concílio Vaticano II.

A maior parte da nova carta do papa concentrou-se em ajudar os católicos a aprender a reconhecer e se surpreender com o grande dom da Missa e da Eucaristia e como não é simplesmente uma ‘encenação’ ou ‘representação’ semanal da Última Ceia, mas realmente permite que as pessoas de todos os tempos e lugares para encontrar o Senhor crucificado e ressuscitado e comer seu corpo e beber seu sangue.

E, escreveu o Papa, é essencial reconhecer que a missa não pertence ao padre ou a qualquer adorador individual, mas a Cristo e sua Igreja.

‘A liturgia não diz ‘eu’, mas ‘nós’, e qualquer limitação na amplitude desse ‘nós’ é sempre demoníaca’, disse. ‘A liturgia não nos deixa sozinhos para buscar um suposto conhecimento individual do mistério de Deus. Pelo contrário, toma-nos pela mão, juntos, como uma assembleia, para nos levar ao fundo do mistério que a palavra e os sinais sacramentais nos revelam’.

‘Consistente com toda ação de Deus’, apontou o Papa, a liturgia leva as pessoas ao mistério usando ações e sinais simbólicos.

Francisco reconheceu que algumas pessoas afirmam que ao reformar a liturgia e permitir as celebrações da Missa no idioma da congregação local, de alguma forma, perdeu o que ‘significa a expressão vaga 'sentido de mistério'’.

Mas o mistério celebrado e comunicado, disse ele, não se trata de ‘um rito misterioso. É, pelo contrário, maravilhado pelo fato de que o plano salvífico de Deus foi revelado no ato pascal de Jesus’.

A liturgia usa ‘coisas que são exatamente o oposto das abstrações espirituais : pão, vinho, óleo, água, fragrâncias, fogo, cinzas, pedra, tecidos, cores, corpo, palavras, sons, silêncios, gestos, espaço, movimento, ação, ordem, tempo, luz’, disse. Essas coisas concretas proclamam que ‘toda a criação é uma manifestação do amor de Deus, e desde quando esse mesmo amor se manifestou em sua plenitude na cruz de Jesus, toda a criação foi atraída para ela’.

No entanto, escreveu o Papa Francisco, as palavras, gestos e símbolos a serem usados são apenas aqueles aprovados pela Igreja.

‘Sejamos claros aqui : cada aspecto da celebração deve ser cuidadosamente cuidado (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestimentas, canto, música) e cada rubrica deve ser observada’, escreveu. Caso contrário, o celebrante ou os ministros correm o risco de ‘roubar da assembleia o que lhe é devido; ou seja, o mistério pascal celebrado de acordo com o rito que a Igreja estabelece’.

O Papa Francisco disse que ‘a não aceitação da reforma litúrgica’ do Vaticano II, bem como ‘uma compreensão superficial dela, nos distrai da obrigação de encontrar respostas para a pergunta que volto a repetir : como podemos crescer em nossa capacidade de viver plenamente a ação litúrgica? Como continuamos nos deixando maravilhar com o que acontece na celebração sob nossos olhos?’

‘Precisamos de uma formação litúrgica séria e dinâmica’, apontou.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1583238/2022/07/o-papa-francisco-divulga-nova-carta-sobre-liturgia/

sábado, 31 de julho de 2021

Escola de liturgia que pautou discussão do Vaticano II cresce em influência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da redação da ACI 

‘A escola de liturgia do Pontificio Ateneo Sant'Anselmo, em Roma, é cada vez mais influente na determinação das normas litúrgicas anunciadas pela Santa Sé como a restrição à missa tradicional anterior à reforma do Vaticano II. Durante o Concílio Vaticano II, o Instituto Sant´Anselmo tornou-se ponto de referência para o debate sobre a reforma litúrgica e sua subsequente implementação. Tanto o novo secretário da Congregação do Culto Divino do Vaticano, bispo Vittorio Viola, quanto o subsecretário, dom Aurelio Garcia Macias, nomeados em maio estudaram lá.

Criado em 1637, dissolvido em 1837 e restaurado pelo Papa Leão XIII em 1887, a sede do ateneu fica no monte Aventino, em Roma, desde 1896. O Instituto de Liturgia do Pontifício Ateneo Sant'Anselmo foi criado antes do Concílio Vaticano II em 1961 pelo papa João XXIII e confiado a monges beneditinos.

Um dos professores mais importantes do Sant'Anselmo é o teólogo Andrea Grillo, vigoroso defensor do motu proprio Traditionis custodes que revogou o livre acesso ao uso do Missal de 1962, concedido em julho de 2007 pelo motu proprio Summorum pontificum, do então papa Bento XVI.

Desde a eleição do papa Francisco, Grillo fez campanha a favor da imposição de um silêncio institucional sobre o papa emérito. Ele também criticou os cardeais Carlo Cafarra, Joachim Meisner, Raymond Burke e Walter Brandmuller que, em 2016, pediram esclarecimentos sobre a exortação apostólica Amoris laetitia do papa Francisco, especialmente se o documento autorizava ou não a comunhão para pessoas separadas vivendo em nova união. O papa nunca respondeu.

O arcebispo Piero Marini, mestre de cerimônias das viagens pela Itália do papa Francisco, que também foi mestre de cerimônias do papa João Paulo II, é outro ex-aluno Sant’Anselmo. Assim como o padre Corrado Maggioni, que desde 1990 serve na Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos como subsecretário. Marini e Maggioni foram membros da comissão que redigiu o motu proprio Principium magnum de 3 de setembro de 2017, pelo qual o papa Francisco transferiu a responsabilidade sobre as traduções dos textos litúrgicos para as conferências episcopais nacionais, tirando-as da Congregação para o Culto Divino em Roma, eu buscava uniformiza as traduções. O cardeal Robert Sarah, então prefeito da congregação, foi marginalizado dessas discussões.

Dom Maurizio Barba, funcionário da Congregação da Doutrina da Fé, ensina no instituto de liturgia do Sant’Anselmo, assim como o frade carmelita Giuseppe Midili, diretor do gabinete litúrgico da diocese de Roma. Midili é candidato a suceder Guido Marini como mestre de cerimônias do papa. Outro candidato ao cargo é o padre Pietro Muroni, decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Urbana e consultor do Escritório para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Ele também estudou no Sant'Anselmo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.acidigital.com/noticias/escola-de-liturgia-que-pautou-discussao-do-vaticano-ii-cresce-em-influencia-32589

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Teologia da liturgia na 'Sacrosanctum Concilium'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Cristo está presente na celebração eucarística tanto no ministro quanto nas espécies eucarísticas.
*César Thiago do Carmo Alves pertence 
à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos)


‘O Concílio Vaticano II (1962-1965) constituiu uma guinada para a vida eclesial. Entre essas guinadas está a reforma da liturgia. A constituição conciliar que trata dela é a Sacrosanctum Concilium. Foi aprovada pelos Padres Conciliares no dia 04 de dezembro de 1963. Estavam presentes 2.178 votantes. 2.158 votaram favoráveis para sua aprovação, 19 foram contrários e 1 aprovou desde que se fizesse alguma modificação. Portanto, nota-se um número expressivo de votos favoráveis para aprovação da Constitutio De sacra Liturgia. Esses dados podem ser encontrados nas atas do Concílio Vaticano II (Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II).

Fruto de todo um trabalho que a precedeu como o movimento litúrgico; a nouvelle théologie que buscou um retorno às fontes escriturísticas, patrísticas e litúrgicas; o trabalho das comissões pré-preparatória e preparatória que cuidou de apresentar inicialmente um esquema para a Constitutio De sacra Liturgia, no intuito de ser examinada pelos Padres Conciliares, a Sacrosanctum Concilium, com os seus 130 números, surge como uma resposta para a pessoa contemporânea de fé que procura celebrar o seu crer em Deus por meio da vida litúrgica (proêmio). Tendo presente isso, uma pergunta emerge : se o Concílio Vaticano II julgou importante uma reforma litúrgica para que se pudesse fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptando-a às necessidades contemporâneas, qual é o conceito teológico de liturgia que se pode extrair da Sacrosanctum Concilium? Para responder essa pergunta o primeiro elemento que se faz necessário afirmar é que a liturgia constitui um lugar teológico. Embora o teólogo Melchior Cano (1509-1560) não a tenha citado em seu tratado De locis theologicis, sabe-se, pela Tradição, que a partir dela o conhecimento teológico pode elaborar o seu saber, então cabe a afirmação de que a liturgia constitui um lugar teológico.

São os primeiros números que ajudam a responder a questão proposta. A liturgia é o lugar no qual se celebra a obra da redenção do ser humano (n.2). Essa obra teve o seu prelúdio já no Antigo Testamento, quando Deus operava maravilhas na vida do povo. Percorrendo a literatura veterotestamentária poder-se-á constatar isso. Como exemplo das maravilhas de Deus está a libertação dos israelitas da escravidão no Egito (cf. Ex 13,17-15,21). Tal obra se completou em Jesus Cristo por meio de sua paixão, morte e ressurreição. No mistério pascal toda a Trindade está envolvida. O Filho se entrega na obediência filial ao Pai ao seu projeto salvífico por meio da força do Espírito Santo. Além disso, foi do seu lado aberto na cruz que nasceu o sacramento de toda a Igreja (n.5). É esse sacramento que é celebrado. O mistério pascal é para a liturgia o seu fulcro. Numa perspectiva cristológica e eclesiológica, para a Sacrosanctum Concilium a liturgia é fruto de um mandato do Senhor. Da mesma forma que Cristo foi enviado pelo Pai, de igual modo ele enviou os apóstolos não somente para pregar o Evangelho e anunciar o mistério pascal, mas para também levarem a efeito o que anunciavam, isto é, a obra de salvação através do Sacrifício, que é a eucaristia, e dos demais sacramentos. Por conta disso a Igreja nunca deixou de se reunir para a celebração do mistério pascal (n.6). O caráter comunitário está implícito no modo de se pensar a vida litúrgica. Não se celebra isolado da comunidade. Em outras palavras, a dimensão cristológica da liturgia está na celebração do mistério pascal. Já a dimensão eclesiológica aponta que esse mistério celebrado é feito em comunidade. Mais ainda, ele cria comunidade. De tal modo que se faz valer o antigo e sempre atual axioma de Próspero de Aquitânia (†465) lex orandi-lex credendi, ou seja, aquilo que a Igreja ora é aquilo que ela crê. A Igreja se reúne para celebrar a páscoa do Senhor justamente pelo fato de querer evidenciar no que ela professa a sua fé. Isso faz a comunidade e vice-versa. Dito de outra forma, a liturgia faz a Igreja e a Igreja faz a liturgia.

A perspectiva cristológica na Constituição leva a radicalização positiva de algum ponto. Esse ponto diz respeito à presença de Cristo na liturgia.  Era pacífica para a teologia católica dos sacramentos a afirmação da presença do Senhor no pão e no vinho eucaristizados. Sobretudo com o Concílio de Trento (1545-1563) que buscou reforçar essa ideia por conta dos Reformadores, não se pairava nenhuma sombra de dúvida a respeito disso. No entanto, se focou tão somente nesse aspecto não dando espaço significativo para se pensar a presença de Cristo em toda a ação litúrgica. Desse modo, a Sacrosanctum Concilium vem como que dar uma maior visibilidade para esse ponto que foi um tanto quanto negligenciado no decorrer dos séculos. A Constituição sobre a liturgia do Vaticano II reconhece que Cristo está presente na celebração eucarística tanto na pessoa do ministro quanto nas espécies eucarísticas. Está presente nos sacramentos, na Palavra e na Igreja que se reúne para orar (n.7). Essa guinada revela a posição global em que Cristo ocupa na ação litúrgica. Não se restringe a tão somente um aspecto, como o das espécies do pão e do vinho. A atenção da assembleia orante é convidada a se voltar para o todo e perceber que cada parte da liturgia tem sua importância e dignidade que lhe é própria. Essa hermenêutica proposta pela Constituição corrobora com a tese de que a liturgia é a celebração do mistério pascal pelo fato de que o Senhor está presente realmente em toda ela. Portanto, ao se falar de presença real de Cristo não se pode cair no risco do reducionismo. Com esse número 7 a Sacrosanctum Concilium deixa, de certa forma, um alerta para se perceber uma dinâmica holística da presença.

Celebrar o mistério pascal é fonte de vida das comunidades eclesiais. Fazer memória do seu Senhor é algo vital e favorece um itinerário mistagógico. A Sacrosanctum Concilium vem ao encontro dessas comunidades. Nesse sentido, sua recepção por parte da Igreja se torna elemento indispensável para que se possa nutrir a vida de fé dos fiéis. A riqueza teológica que a Constituição traz a respeito da liturgia não pode ser engavetada. Se assumida e traduzida no cotidiano da vida das comunidades, mediante a criatividade própria do Espírito, tende a fortalecer nos fiéis a experiência de Deus, o caminho da solidariedade com os sofredores e a comunhão com os irmãos, haja vista que a páscoa de Jesus revela esses três aspectos. Em tempos em que a liturgia está sendo vista por certos grupos eclesiais como algo mecânico e/ou voltado tão somente para o cumprimento das rubricas, urge a necessidade de revistar a Sacrosanctum Concilium e (re)descobrir a beleza apresentada pela Constituição no que diz respeito à vida litúrgica. Tal (re)descoberta, indubitavelmente, colaborará para uma maior vivência daquilo que é o núcleo da fé cristã : o mistério pascal do Senhor. ‘Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19).’


Fonte :