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domingo, 9 de julho de 2023

Dom Hinder: no Iêmen permanece o sacrifício das freiras por todo um povo e pela paz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Deborah Castellano Lubov e Adriana Masotti


Quatro religiosas Missionárias da Caridade, congregação fundada por Santa Madre Teresa de Calcutá, que há tempos trabalhavam no Iêmen, foram vítimas de um ataque terrorista em Aden, uma das principais cidades do país. Elas perderam a vida junto com outras 12 pessoas. Era 4 de março de 2016. Às 8 da manhã, jihadistas invadiram a casa de repouso onde as religiosas assistiam idosos abandonados, disparando contra os presentes. Seus nomes eram Irmã Annselna, Irmã Judith, Irmã Margarita e Irmã Reginette e eram provenientes, respectivamente, da Índia, Quênia e Ruanda.

O trabalho da ‘Comissão Novos Mártires - Testemunhas da Fé’, instituído pelo Papa Francisco, tem justamente a intenção de homenagear essas religiosas e aqueles que sacrificaram suas vidas por amor ao próximo nos últimos 25 anos, permanecendo fiéis ao chamado de Deus em contextos de precariedade e violência. Aos microfones do Vatican News, o vigário apostólico emérito da Arábia, arcebispo Paul Hinder, recorda as freiras assassinadas, a quem pode conhecer pessoalmente, e destaca a importância de manter viva a memória de seu sacrifício. Os mártires, diz ele, não são apenas os dos primeiros séculos da Igreja, são hoje também existem muitos :

Arcebispo Hinder, qual é o legado deixado pelo martírio dessas quatro religiosas Missionárias da Caridade no Iêmen?

O legado das irmãs permanece como um testemunho em uma área de conflito de longa data. O que chama a atenção é a simplicidade com que viveram quase cinquenta anos no país. A morte delas em 2016 foi um evento realmente inesperado, mesmo que o risco existisse. O seu testemunho, juntamente com o das outras pessoas que foram assassinadas no mesmo momento, alguns colaboradores muçulmanos mas também um cristão, continua a ser uma espécie de sacrifício para uma Igreja sofredora, e não somente para a Igreja, mas para um povo sofredor. Penso que esta violência tenha sido um choque não só para os cristãos, mas também para o país que estimou e continua a estimar muito a presença destas missionárias da caridade e do coração. Eu as visitava todos os anos. A primeira vez em 2004, ainda com meu antecessor. Depois voltei sozinho como vigário apostólico e os encontros, as Missas e também uma conferência para as irmãs sempre faziam parte do programa. Vi seu testemunho e seu trabalho entre os idosos e pessoas com deficiência. Sempre me impressionou muito ver sua dedicação às pessoas mais pobres, com as quais ninguém se importava, exceto as irmãs. Essas visitas permanecem na minha memória. Eu não estava presente quando elas foram mortas, foi um choque quando recebi a notícia e ao mesmo tempo nos sentimos impotentes porque não havia possibilidade de levar ajuda de imediato, porque o contato com elas era quase impossível, mas eu me lembro de tudo. 

Na sua opinião, qual é o valor do reconhecimento da Igreja a esses ‘novos mártires’, entre os quais essas freiras e todos aqueles que deram a vida pela fé e para ajudar os outros?

Eu diria também pela paz em um mundo de guerra, também de guerra civil. Isto permanece, na minha opinião, embora seja claro que na situação do Iêmen não fez e continua a não provocar muito alarde. Muitas vezes é assim com o testemunho dos cristãos ou das cristãs autênticas, não fazem muito alarde, mas o seu é um testemunho eficaz para aqueles que sabem ler os sinais. Para mim, que pude conhecer estas irmãs, esta fidelidade e esta confiança no Senhor sempre impressionou e continua a impressionar, mesmo com o risco de perder a vida, de serem assassinadas, mas isto é difícil de comunicar aos outros : é preciso ver e é preciso acreditar que exista um sentido, que a fé é semente de uma vida maior que talvez nascerá mais tarde.

Na sua opinião, é importante a iniciativa do Papa de constituir esta Comissão para recordar os ‘novos mártires’?

Sim, certamente, porque quando ouvimos falar de mártires pensamos nos primeiros séculos do cristianismo, porém o fenômeno do martírio continua ao longo da história e também hoje e devemos recordá-los. E é por isso que introduzimos aqui um memorial em nível de Vicariato todo dia 30 de junho - um dia depois da festa de São Pedro e São Paulo - para recordar os mártires modernos da região, que não são canonizados, mas que nos lembram que vivemos a fé em um contexto onde outros deram suas vidas.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-07/comissao-martires-papa-hinder-testemunho-fe-freiras-iemen.html


terça-feira, 13 de junho de 2023

Missa: o sacrifício perfeito

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Júlia A. Borges

 

‘‘Creio na Santa Igreja Católica’ – essa é a afirmação feita por nós, católicos, todas as vezes em que estamos na Missa, em frente ao altar. Essa verdade consta no Credo Apostólico, mas se a oração a ser feita advir do Credo Niceno-Constantinopolitano, a especificação é ainda maior : ‘Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados’. Em uma sentença : cremos verdadeiramente na fé que professamos, entretanto, ainda há alguns desacertos quanto ao núcleo central da nossa credulidade, quanto ao sacrifício perfeito, ou seja, quanto ao entendimento real da missa.

Trata-se de enxergar a clareza do que está a ocorrer naquele altar não como um evento ou um simples cultuar a Deus. É necessário, acima de qualquer coisa, compreender verdadeiramente a missa como sacrifício, o verdadeiro sacrifício de Cristo na Cruz. Presencia-se ali não um novo martírio, mas a confirmação, a sacramentalização daquela imolação ocorrida há dois mil anos.

Lutero e Calvino têm uma perspectiva diferente, chegando a abominar a Santa Missa, acreditando ocorrer ali um novo sacrifício e afirmam que tudo aquilo não é necessário fazer, uma vez que a imolação já fora oferecida e que os pecados já se encontram perdoados, como uma quitação judicial definitiva. De fato, a redenção ocorreu lá na Cruz, com Jesus Cristo, mas ela precisa ser apropriada como redenção subjetiva para o caminho de Santidade. Não é simplesmente um recibo que o cristão adquire de que nossos pecados foram justificados; mas um caminho legítimo na busca de ser verdadeiramente santo. Vale destacar que o  Concílio de Trento, por outro lado, respondeu a Lutero e Calvino dizendo que não há dois sacrifícios. Essa é a posição oficial da Igreja. Isso está declarado dogmaticamente. O Concílio de Trento (Sessão 22.ª) o diz : ‘Com efeito, uma só e mesma é a vítima [Una enim eademque est hostia], pois quem agora se oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que então se ofereceu na cruz; só o modo de oferecer é diferente.’

Posição católica

Ou seja, a posição católica é única : a vítima é a mesma, a Pessoa divina que se encarnou e que se ofereceu na Cruz, agora se oferece pelo ministério do sacerdote, do padre, no altar. ‘Só o modo de oferecer é diferente’ : na Missa, é sem derramamento de sangue. Essa é a posição dogmática da Igreja Católica.

É preciso ter a disposição para entender a importância da missa para além da remissão dos pecados; entender a fé para além da quitação e absolvição dos pecados. É preciso ir além. Afinal, se o objetivo é ser a imagem e semelhança de Cristo, é necessário muito além de puramente não cometer pecados, mas percorrer rumo à redenção verdadeira. É preciso algo além do que uma absolvição cartorial, mas uma transformação real da alma, ou seja, ela precisa amar e realizar obras divinas como os santos, e tal caminho passa pelos sacramentos, como a própria Eucaristia.

Pensar em Santa Teresa D`Ávila, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho ou São Francisco como exemplos de vida é uma tarefa muito árdua se não houver como auxílio maior o Espírito Santo de Deus. Se os referidos santos e todos os outros conseguiram alcançar a tão almejada sétima morada que Santa Teresa D`Ávila revela em seu livro sobre As sétimas moradas do Castelo Interior da Alma, estejam certos de que tal conquista não fora pelos próprios méritos ou por algum tipo de merecimento, ou ainda, porque simplesmente creram em Jesus e tinham fé. É um esvaziar-se de tal forma que nada mais há a não ser àquele que os criou. E tal atitude vai muito além de um único passo de arrependimento dos pecados.

Sim, é aí que o caminho da perfeição começa. É aceitando nossas máculas e buscando corrigi-las diariamente. Mas se o desejo é ser semelhante a Cristo, é necessário sermos diferentes do que somos e buscar, somente pela graça, a virtude da Santidade.’

Referências :

  • A Bíblia Sagrada. Tradução do Pe. Manuel de Matos Soares. Campinas: Ecclesiae, 2096p.
  • João Calvino, Institutio religionis christianæ, v. 2. Brunsvique: Schwetschke, 1869.
  • Padres apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995.
  • Padre Paulo Ricardo. A resposta Católica. São Paulo: Ecclesiae, 2013.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/06/11/missa-o-sacrificio-perfeito/

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O martírio na perspectiva do Islã


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Para o Islã, nem todo que morre em nome de Deus é um mártir.
*Artigo de Patrícia Prado,
Doutoranda em Relações Internacionais (PUC, MG) 

‘Falar sobre o martírio é ir ao encontro do testemunho e da fé. É falar sobre a morte, mas também sobre a vida. É ir aos fundamentos, aos valores que sustentam não apenas um pensamento sobre determinada ação, mas, antes, as origens que mantêm viva a ideia que leva a essa ação. Falar sobre martírio é ir ao encontro do sacrifício, da devoção, da renúncia, da entrega. Por isso, antes de dizer o que é o martírio, e em especial, o martírio no Islã, é preciso compreender as bases teológicas dessa religião a fim de chegar à construção do significado de martírio para esse grupo religioso.

Terceira religião da tríade monoteísta, o Islã tem seu advento no século VII, entre os povos de língua árabe, sendo hoje a religião que mais cresce no mundo seguindo atrás do Cristianismo em número de adeptos (LIPKA, 2017). Presente em todos os continentes, não se pode falar do Islã, mas dos Islãs que se apresentam como uma mescla entre o conjunto de regras fixas e a adaptação cultural. Por isso, ao se pensar ou falar sobre Islã é preciso dizer não apenas de qual grupo está a se analisar – xiita, sunita, alauíta, etc – mas, também da(s) escola(s) de interpretação ou de jurisprudência (fiqh) a qual esse(s) grupo(s) segue(m).

A ideia sobre o martírio, um dos conceitos caros dentro do Islã, é construída dentro de um arcabouço teológico que passa pela compreensão entre vida terrena, pós-vida e vida em comunidade. Isso significa que, para compreender o martírio dentro do pensamento desse grupo, é preciso ter em mente que a ideia de que a comunidade (ummah) está acima da ideia de indivíduo. Logo, toda a ação que envolve a entrega da própria vida em prol de um coletivo passa por essa construção que diz sobre a visão de mundo dos inseridos nessa lógica, algo que terá implicações diretas sobre o social.

Mas, o que de fato é o martírio dentro do pensamento islâmico? Partimos em busca pelo entendimento indo ao significado semântico da palavra. Do árabe shahada a palavra martírio significa testemunho. Interessante observar que, shahada é o primeiro pilar da fé islâmica que diz sobre a confissão de fé feita por aquele que se reverte ao Islã : lā 'ilaha 'illāl-lāh an Muhammadur rasūlu llāhi – Não há divindade além de Allah (Deus) e Muhammad é Seu mensageiro (e Profeta). Isso significa que, para se alcançar o nível de viver o martírio (shahada) e se tornar, assim, um shahid (mártir) há toda uma preparação que começa no testemunho em vida e vida junto à comunidade, algo ligado diretamente ao grande jihad (esforço). O grande jihad, que diz sobre conduta, postura diante de Deus e dos homens, prepara o ser, caso seja necessário, entrar no chamado pequeno jihad que seria a luta armada, porém, a luta armada que se constitua em legítima defesa.

Assim, o mártir é antes de tudo um crente, um muçulmano (entregue) a Deus e à sua causa, por isso, seus valores e buscas estarão sempre mediados pela vontade de Deus, que está baseada na justiça e na luta contra a opressão. Nesse sentido, as lutas encabeçadas por grupos de resistência islâmica seriam legítimas, pois ao contrário dos grupos terroristas, a resistência tem objetivos e modos de operação que se fundamentam em uma ética para com o outro e com a vida.

Além disso é preciso pontuar que, nem toda morte em nome de Deus é considerada um martírio e, consequentemente, nem todo que morre em nome de Deus é um mártir. Assim, além das questões que passam por verificação dos objetivos e formas como as mortes ocorreram é preciso, também, verificar a vida daquele que morreu. Entre os muçulmanos é comum ouvir frases como ‘só Deus sabe quem é um mártir’, como também é comum ouvir e ver, através das homenagens que são feitas àqueles que morrem por uma causa : ‘esse é um mártir’.

Apesar de parecerem contraditórias as falas, a certeza nasce do testemunho dado em vida pelo que alcança o martírio, ou seja, o reconhecimento dado pela comunidade nasce do testemunho que se manifestou, em vida, através do grande jihad diário. Assim, os mártires deixam um testemunho vivo, poderoso, capaz de mobilizar novas gerações dando continuidade a esse movimento que diz sobre a morte, mas também sobre a vida. E, assim, o martírio vai se constituindo dentro dessa comunidade em uma força que se manifesta em resistência ativa.

Segundo Alagha (2013), o martírio no Islã pode ser dividido em 4 tipos : 1) al-istishadi al-mujahid (o lutador martirizado). Diz-se sobre aquele que se coloca em posição de perigo para salvar outros. Esse tipo de martírio, que envolve o uso do corpo como arma de combate, só pode ser utilizado se houver uma permissão ou autorização do líder religioso. Caso não haja esse tipo de autorização, a morte constitui-se em suicídio. 2) al shahid al mujahid (o lutador mártir). O que morre no campo de batalha ao enfrentar o inimigo em uma causa justa e legítima. 3) al-shahid (o mártir). Diz-se sobre um inocente que é morto. 4) shahid al watan e/ou shahid al qadiyya (o mártir do estado nação/ o mártir de uma causa). Diz-se do não muçulmano que morre lutando pelo seu país ou por uma causa justa.

A especificação dos tipos de martírio que podem ocorrer dentro do Islã é de suma importância para que possamos alargar nosso entendimento sobre o que é o martírio e também, o que não é martírio. Tal entendimento nos ajudará na construção de análises imparciais e justas sobre eventos e ações que ocorrem no ambiente internacional e que tem como envolvidos muçulmanos. Acredito que esse exercício, de compreensão do martírio, faz-se necessário ao se pensar que o uso de algumas ações por pessoas e grupos que se auto nomeiam como muçulmanos não são e não devem ser categorizados como martírio.

A busca pela categorização correta, oriunda de uma compreensão que começa pelo estudo das bases teológicas da religião e das formas interpretativas dos grupos, pode contribuir não apenas para o combate ao preconceito relacionado aos muçulmanos, mas, também, para o esclarecimento àqueles que se sentem atraídos por mensagens travestidas de resistência, mas que, de fato, estão a construir o terror.

O martírio, como uma ideia que perpassa outras tradições, está relacionado a valores e ideais caros, que refletem de forma contundente uma vida de entrega e abnegação. Logo, falar sobre o martírio é falar sobre um caminho que começa no testemunho (shahada) de fé, de entrega. Um caminho que vai sendo construído em um esforço diário (grande jihad) consigo, a fim de se tornar apto a testemunhar (shahadad), em prol de outros no caminho, Deus. A morte, nesse sentido, não é o fim, mas antes, a recompensa de uma vida vivida na e pela causa de Deus. Por isso, ‘não creiais que aqueles que foram mortos no caminho de Allah estão mortos; ao contrário, estão vivos, junto de seu Senhor, e por Ele sustentados’ (Alcorão 3:169).’


Fonte :

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Olhar na alma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Curti o programa ‘Olhar na alma’!
*Artigo de Lev Chaim, 
jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil radicado na Holanda 


‘Há tempos que não me emocionava tanto com um programa de um dos canais da televisão holandesa : ‘Olhar na alma’. O apresentador Coen Verbraak é quase invisível, mas efetivamente presente com a voz e suas perguntas intrigantes a um determinado grupo de pessoas, com a mesma profissão, e com bastante experiência em missões no exterior, bem longe de casa. 

Ele faz a entrevista inteira com um personagem, depois com o outro e aí por diante, mas todos separados entre si. Só aparece o rosto do entrevistado em 90% do tempo e, como eu disse, o rosto do apresentador só vem à telinha muito rápido,  quando ele tem que fazer uma pergunta chave, para o desfecho da história.

Na montagem do programa, estas entrevistas inteiras são cortadas e remontadas na cena em que ele faz a mesma pergunta a todos. Desta vez, os entrevistados foram os militares de alta patente das três forças, com histórias que a primeira vista você não contaria em um programa de televisão qualquer.

O que faz desta sua profissão interessante para você?’ Muitos responderam : a camaradagem dos colegas, a confiança que você adquire na vida exercendo esta profissão de general ou comandante de esquadrão de aviões caças. ‘É claro que vocês estão em muitos momentos importantes fora de casa, longe da família. Como se acostumar a isto’ : um dos militares, olhando na câmara, pensativo, disse que não viu nascer o seu primeiro neto, aliás, uma criança deficiente. ‘O que isto fez com você?’, perguntou o apresentador :  Uma dor profunda, inigualável, que faz com que eu admire ainda mais a minha querida esposa.

Um chefe do esquadrão de pilotos disse que uma vez ele ficou doente em casa por alguns meses e tudo deu errado. Brigou com a esposa, pensou em suicidar-se, mas finalmente, com um bom tratamento, voltou a ativa e com tudo. A maneira calma com que ele contou isto, sabendo que tudo isto foi visto pelo país inteiro é o que impressionou ainda mais. É como se eles estivessem fazendo um seminário para o colegas mais jovens, como se os preparassem para enfrentar tudo que viesse pela frente.

Um oficial da marinha, que trabalha num submarino na costa do Mediterrâneo, por exemplo, com poucas palavras passou emoções intensas que o fazem mais próximo da realidade cruel deste mundo de hoje. Contou que uma vez, ele e sua tripulação se depararam com um lixo boiando no mar. O submarino subiu e constataram que eram corpos de homens, mulheres e crianças, todos náufragos, provavelmente na tentativa de atravessar o Mediterrâneo rumo à Europa. Contando que ao ver tão de perto aqueles corpos, ele engoliu em seco várias vezes. Não era mais uma coisa irreal, que se fala nos jornais, nas TVs e nos rádios, mas estava ali, a sua frente, sem qualquer disfarce. Ele deu ordens para que recolhessem os corpos para serem entregues à marinha costeira.

Ao contar tudo isto, você nota emoção embutida em cada palavra, cada gesto, em cada olhar do entrevistado. E tudo dito pausadamente, pensando bem na escolha da palavra certa para descrever todo aquele horror, como se tivéssemos o privilégio de mirar bem fundo, mais bem fundo mesmo, a própria alma combalida daquele militar. É claro que tem uns que nos emocionam mais que os outros, mas no conjunto, uma coisa ficou clara : esses militares, que um dia pensaram ser heróis, sem dúvida, tornaram-se mais humanos. Emocionante. 

Tal qual contou uma senhora, psicóloga da marinha, quando estava no Afeganistão em missão. Através do seu IPad, ela conseguiu ver pedaços da primeira dança de sua netinha no teatrinho da escola. Os sacrifícios de uma profissão tão discutida, as vezes tão mal entendida, pegaram-me de surpresa e deixaram-me emocionado. Para tudo se paga um preço, principalmente para esses militares que vão tão longe defender os ideais democráticos de seus países e organizações internacionais. Curti o programa ‘Olhar na alma’!’


Fonte :

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Santa Inês, Virgem e Mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Sofreu o martírio em Roma na segunda metade do século III ou, mais provavelmente, no início do século IV. O papa São Dâmaso adornou o seu sepulcro com versos, e muitos Santos Padres, seguindo Santo Ambrósio, celebraram seus louvores.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Santa Inês (Agnes) :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Do Tratado sobre as Virgens, de Santo Ambrósio, bispo

(Lib. 1, cap. 2.5.7-9:PL 16, [edit. 1845], 189-191)      (Séc.IV)


Ainda não preparada para o sofrimento
e já madura para a vitória!
     Celebramos o natalício de uma virgem: imitemos sua integridade; é o natalício de uma mártir: ofereçamos sacrifícios. É o aniversário de Santa Inês. Conta-se que sofreu o martírio com a idade de doze anos. Quanto mais detestável foi a crueldade que não poupou sequer tão tenra idade, tanto maior é a força da fé que até naquela idade encontrou testemunho.

Haveria naquele corpo tão pequeno lugar para uma ferida? Mas aquela que quase não tinha tamanho para receber o golpe da espada, teve força para vencer a espada. E isto numa idade em que as meninas não suportam sequer ver o rosto zangado dos pais e choram como se uma picada de alfinete fosse uma ferida!

Mas ela permaneceu impávida entre as mãos ensanguentadas dos carrascos, imóvel perante o arrastar estridente dos pesados grilhões. Oferece o corpo à espada do soldado enfurecido, sem saber o que é a morte, mas pronta para ela. Levada à força até os altares dos ídolos, estende as mãos para Cristo no meio do fogo, e nestas chamas sacrílegas mostra o troféu do Senhor vitorioso. Finalmente, tendo que introduzir o pescoço e ambas as mãos nas algemas de fero, nenhum elo era suficientemente apertado para segurar membros tão pequeninos.

Novo gênero de martírio? Ainda não preparada para o sofrimento e já madura para a vitória! Mal sabia lutar e facilmente triunfa! Dá uma lição de firmeza apesar de tão pouca idade! Uma recém-casada não se apresaria para o leito nupcial com aquela alegria com que esta virgem correu para o lugar do suplício, levando a cabeça enfeitada não de belas tranças mas de Cristo, e coroada não de flores mas de virtudes.

Todos choram, menos ela. Muitos se admiram de vê-la entregar tão generosamente a vida que ainda não começara a gozar, como se já tivesse vivido plenamente. Todos ficam espantados que já se levante como testemunha de Deus quem, por causa da idade, não podia ainda dar testemunho de si. Afinal, aquela que não mereceria crédito se testemunhasse a respeito de um homem, conseguiu que lhe dessem crédito ao testemunhar acerca de Deus. Pois o que está acima da natureza, pode fazê-lo o Autor da natureza.

Quantas ameaças não terá feito o carrasco para incutir-lhe terror! Quantas seduções para persuadi-la! Quantas propostas para casar com algum deles! Mas sua resposta foi esta: “É uma injúria ao Esposo esperar por outro que me agrade. Aquele que primeiro me escolheu para si, esse é que me receberá. Por que demoras, carrasco? Pereça este corpo que pode ser amado por quem não quero!” Ficou de pé, rezou, inclinou a cabeça.

Terias podido ver o carrasco perturbar-se, como se fosse ele o condenado, tremer a mão que desfecharia o golpe, e empalidecerem os rostos temerosos do perigo alheio, enquanto a menina não temia o próprio perigo. Tendes, pois, numa única vítima um duplo martírio: o da castidade e o da fé. Inês permaneceu virgem e alcançou o martírio.



Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, pg. 1197, 1198