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sexta-feira, 18 de maio de 2018

O martírio na perspectiva do Islã


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Para o Islã, nem todo que morre em nome de Deus é um mártir.
*Artigo de Patrícia Prado,
Doutoranda em Relações Internacionais (PUC, MG) 

‘Falar sobre o martírio é ir ao encontro do testemunho e da fé. É falar sobre a morte, mas também sobre a vida. É ir aos fundamentos, aos valores que sustentam não apenas um pensamento sobre determinada ação, mas, antes, as origens que mantêm viva a ideia que leva a essa ação. Falar sobre martírio é ir ao encontro do sacrifício, da devoção, da renúncia, da entrega. Por isso, antes de dizer o que é o martírio, e em especial, o martírio no Islã, é preciso compreender as bases teológicas dessa religião a fim de chegar à construção do significado de martírio para esse grupo religioso.

Terceira religião da tríade monoteísta, o Islã tem seu advento no século VII, entre os povos de língua árabe, sendo hoje a religião que mais cresce no mundo seguindo atrás do Cristianismo em número de adeptos (LIPKA, 2017). Presente em todos os continentes, não se pode falar do Islã, mas dos Islãs que se apresentam como uma mescla entre o conjunto de regras fixas e a adaptação cultural. Por isso, ao se pensar ou falar sobre Islã é preciso dizer não apenas de qual grupo está a se analisar – xiita, sunita, alauíta, etc – mas, também da(s) escola(s) de interpretação ou de jurisprudência (fiqh) a qual esse(s) grupo(s) segue(m).

A ideia sobre o martírio, um dos conceitos caros dentro do Islã, é construída dentro de um arcabouço teológico que passa pela compreensão entre vida terrena, pós-vida e vida em comunidade. Isso significa que, para compreender o martírio dentro do pensamento desse grupo, é preciso ter em mente que a ideia de que a comunidade (ummah) está acima da ideia de indivíduo. Logo, toda a ação que envolve a entrega da própria vida em prol de um coletivo passa por essa construção que diz sobre a visão de mundo dos inseridos nessa lógica, algo que terá implicações diretas sobre o social.

Mas, o que de fato é o martírio dentro do pensamento islâmico? Partimos em busca pelo entendimento indo ao significado semântico da palavra. Do árabe shahada a palavra martírio significa testemunho. Interessante observar que, shahada é o primeiro pilar da fé islâmica que diz sobre a confissão de fé feita por aquele que se reverte ao Islã : lā 'ilaha 'illāl-lāh an Muhammadur rasūlu llāhi – Não há divindade além de Allah (Deus) e Muhammad é Seu mensageiro (e Profeta). Isso significa que, para se alcançar o nível de viver o martírio (shahada) e se tornar, assim, um shahid (mártir) há toda uma preparação que começa no testemunho em vida e vida junto à comunidade, algo ligado diretamente ao grande jihad (esforço). O grande jihad, que diz sobre conduta, postura diante de Deus e dos homens, prepara o ser, caso seja necessário, entrar no chamado pequeno jihad que seria a luta armada, porém, a luta armada que se constitua em legítima defesa.

Assim, o mártir é antes de tudo um crente, um muçulmano (entregue) a Deus e à sua causa, por isso, seus valores e buscas estarão sempre mediados pela vontade de Deus, que está baseada na justiça e na luta contra a opressão. Nesse sentido, as lutas encabeçadas por grupos de resistência islâmica seriam legítimas, pois ao contrário dos grupos terroristas, a resistência tem objetivos e modos de operação que se fundamentam em uma ética para com o outro e com a vida.

Além disso é preciso pontuar que, nem toda morte em nome de Deus é considerada um martírio e, consequentemente, nem todo que morre em nome de Deus é um mártir. Assim, além das questões que passam por verificação dos objetivos e formas como as mortes ocorreram é preciso, também, verificar a vida daquele que morreu. Entre os muçulmanos é comum ouvir frases como ‘só Deus sabe quem é um mártir’, como também é comum ouvir e ver, através das homenagens que são feitas àqueles que morrem por uma causa : ‘esse é um mártir’.

Apesar de parecerem contraditórias as falas, a certeza nasce do testemunho dado em vida pelo que alcança o martírio, ou seja, o reconhecimento dado pela comunidade nasce do testemunho que se manifestou, em vida, através do grande jihad diário. Assim, os mártires deixam um testemunho vivo, poderoso, capaz de mobilizar novas gerações dando continuidade a esse movimento que diz sobre a morte, mas também sobre a vida. E, assim, o martírio vai se constituindo dentro dessa comunidade em uma força que se manifesta em resistência ativa.

Segundo Alagha (2013), o martírio no Islã pode ser dividido em 4 tipos : 1) al-istishadi al-mujahid (o lutador martirizado). Diz-se sobre aquele que se coloca em posição de perigo para salvar outros. Esse tipo de martírio, que envolve o uso do corpo como arma de combate, só pode ser utilizado se houver uma permissão ou autorização do líder religioso. Caso não haja esse tipo de autorização, a morte constitui-se em suicídio. 2) al shahid al mujahid (o lutador mártir). O que morre no campo de batalha ao enfrentar o inimigo em uma causa justa e legítima. 3) al-shahid (o mártir). Diz-se sobre um inocente que é morto. 4) shahid al watan e/ou shahid al qadiyya (o mártir do estado nação/ o mártir de uma causa). Diz-se do não muçulmano que morre lutando pelo seu país ou por uma causa justa.

A especificação dos tipos de martírio que podem ocorrer dentro do Islã é de suma importância para que possamos alargar nosso entendimento sobre o que é o martírio e também, o que não é martírio. Tal entendimento nos ajudará na construção de análises imparciais e justas sobre eventos e ações que ocorrem no ambiente internacional e que tem como envolvidos muçulmanos. Acredito que esse exercício, de compreensão do martírio, faz-se necessário ao se pensar que o uso de algumas ações por pessoas e grupos que se auto nomeiam como muçulmanos não são e não devem ser categorizados como martírio.

A busca pela categorização correta, oriunda de uma compreensão que começa pelo estudo das bases teológicas da religião e das formas interpretativas dos grupos, pode contribuir não apenas para o combate ao preconceito relacionado aos muçulmanos, mas, também, para o esclarecimento àqueles que se sentem atraídos por mensagens travestidas de resistência, mas que, de fato, estão a construir o terror.

O martírio, como uma ideia que perpassa outras tradições, está relacionado a valores e ideais caros, que refletem de forma contundente uma vida de entrega e abnegação. Logo, falar sobre o martírio é falar sobre um caminho que começa no testemunho (shahada) de fé, de entrega. Um caminho que vai sendo construído em um esforço diário (grande jihad) consigo, a fim de se tornar apto a testemunhar (shahadad), em prol de outros no caminho, Deus. A morte, nesse sentido, não é o fim, mas antes, a recompensa de uma vida vivida na e pela causa de Deus. Por isso, ‘não creiais que aqueles que foram mortos no caminho de Allah estão mortos; ao contrário, estão vivos, junto de seu Senhor, e por Ele sustentados’ (Alcorão 3:169).’


Fonte :

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Judaísmo e martírio


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Não raro o martírio sobreveio sobre o povo judeu e bem mais que uma centena de vezes se configurou como um caminho possível ante ideia de apostatar a fé. 
*Artigo de Reuberson Ferreira, M.S.C.,
mestre em teologia

You have done everything to make me lose my faith in You, to make me cease to believe in You. But I die exactly as I have lived, an unshakeable believe in You’ (Yols Rakover).

'Nos difíceis tempos do nazismo, numa das ruínas do gueto de Varsóvia, preservado em uma pequena garrafa escondida entre montes de pedras carbonizadas e ossos humanos, diz-se que foi encontrado o testamento espiritual de um judeu chamado Yosl Rakover, intitulado diálogo com D’us. Entre outras coisas, o testamentário, após relatar a trágica morte de sua família, as agruras de sua vida e sua nefasta situação ante o regime de Hitler, dirige-se a D’us dizendo : ‘Fizeste de tudo para que eu não acreditasse em Ti! Mas eu morro exatamente como vivi : com uma inabalável fé em Ti’

Essa história, não obstante o realismo, a carga teológica e emocional que apresenta, é uma obra de ficção pós-holocausto[1] escrita na argentina, originalmente para um jornal iídiche, pelo Judeu Lituano Zvi Kolitz. Vertida para diversos idiomas, popularizou-se em meios judaicos (e não judaicos), inclusive merecendo comentários de Emmanuel Lévinas. Esse texto, a despeito das interpretações teológicas a ela impressas e da certeza que as mortes no holocausto não eram somente fruto de perseguição religiosa, é lendária e ilustra aquilo que no universo judaico é entendido como martírio : a capacidade de, incluso perder a própria vida, para não abjurar sua fé no Senhor de Israel, não profanar o nome santo de D’us (cf Lv. 22,32).

Sobre o judaísmo, antes de mais, deve-se dizer que o martírio não é algo que se busque, almeje, planeje ou deseje. Muito ao contrário, ele visa defender e prover a vida dos filhos de Israel. Sacrifício humano é uma ideia incipiente no universo judaico. Não obstante essa premissa, não raro o martírio sobreveio sobre o povo judeu e bem mais que uma centena de vezes se configurou como um caminho possível ante ideia de apostatar a fé.

No universo das Escrituras Sagradas, no livro de Daniel, os irmãos Sidrac, Misac e Abdênago, são lançados ao fogo por não aceitarem adorar deuses estranhos e quando postos na fornalha são vistos cantando – crer-se salmos da Torah (Dn3,21ss). Na obra de Macabeus, a família de Matatias e muitos outros do seu clã, recusam-se em oferecer sacrifícios no altar a Modin. Eles, escusando-se em profanar o sábado, tiveram suas vidas ceifadas (1Mc 1, 15.19.21.33-27). Os três irmãos e os Macabeus são exemplos estritos de fiéis judeus que prefeririam o martírio à apostasia.

Ao longo da história judaica, figuras como Rabi Chanina ben Teradyon e Rabi Akiva, como narra o Talmude, foram martirizados pelas tropas romanas após a destruição do Templo, no primeiro século da era comum. Sobre eles recaiu esse peso por não negarem a própria fé, ensinarem publicamente à Torah assumindo, desse modo, em sua morte, a noção Kidush haShem (Santificar o nome do Senhor, cf. Lv 22, 33) – o martírio. Esse mesmo conceito assumira no imaginário religioso judaico, no período das primeiras cruzadas, uma outra conotação, não mais o da morte impingida por outrem, mas da autoimolação sacrificial ante a possibilidade de negação a fé.

Dentro da tradição litúrgica das festas Judaicas, na celebração de Yom Kippur, que fecha o ciclo aberto por Rosh Hashaná, há alusões ao martírio. Entre essas duas festividades, há um período de dez dias, chamados de dias de arrependimento. Neles, o judeu deve contristar-se do seus pecados, transgressões e faltas para voltar a unir-se com Deus, no dia mais sagrado para o judaísmo. Nesse período, mormente na última oração, recorda-se a memória dos mártires e se louva sua indômita bravura em permanecer fiel ao Senhor, mesmo às expensas de sua vida.

Por fim, apenas para recordar um fato da história recente, a Shoá. No holocausto foi impingida violenta morte ao povo judaico pelo simples delito/pecado de serem Judeus. Foram mais de seis milhões de judeus, que mesmo que conscientemente não estivessem negando a fé (ou até fossem indiferentes a ela) podem, como Maimônides categorizou, serem inseridos dentro da perspectiva de uma morte em Kidush hashem, para santificar o nome de D’us. Como corolário,  foram martirizados. Não sem razão, o nobel da paz, Elie Wiesel, em sua obra The Nigth, ao descrever os horrores do campo de concentração do qual sobrevivera, mesmo reconhecendo que tudo aquilo era culpa da irracionalidade humana, mas eivado por um sentimento de frustração face o silêncio de D’us diante da shóa, desabafou dizendo que ‘se o Senhor existisse, Ele deveria pedir perdão de joelhos à humanidade’, pelos sofrimentos ali vividos. Tamanha foi a barbárie/martírio que Wiesel testemunhou!

Em um plano geral, a noção judaica de martírio é ato segundo, pois sua primeira opção é preservar a vida. Historicamente, contudo, o judaísmo testemunhou ações que se configuram como martiriais, sempre motivadas pela convicção de não abjurar a fé e, desse modo, fazer santo o nome do Senhor. O passar do tempo foi auferindo novas conotações a esse conceito até imprimir-lhe a noção de que qualquer judeu, morto pelo simples fato de ser judeu, era um mártir e teria morrido em Kidush hashem. Em síntese, martírio no judaísmo decorre da opção de, em face a uma situação limite, se preciso for, preferir perder a própria vida a negar o D’us de seus pais.’


[1] KOLITZ, zvi. Yosl Rakover Talks to Go https://archive.nytimes. com/www .nytimes.com/books/first/k /kolitz-god.html. acesso: 04.04.2018(06hs51’)


Fonte :

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Martírio : configuração a Jesus Cristo, entrega da vida por amor


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O sangue dos mártires é sementeira de novos cristãos.
*Artigo de Antônio Ronaldo Vieira Nogueira,
presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, CE


‘‘Em verdade, em verdade eu vos digo : se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, ficará sozinho. Mas se morrer, produzirá muito fruto’ (Jo 12,24). Algo fundamental do martírio daqui se depreende : dar a vida, como Jesus, para produzir frutos. Por isso mesmo, nos primeiros séculos da Igreja, se dizia que o sangue dos mártires é sementeira de novos cristãos (Tertuliano). Já bem cedo, no Novo Testamento, se percebeu que a perseguição era algo inerente à nova fé : ‘Porque vós sabeis que para isso é que fomos destinados. De fato, quando ainda estávamos entre vós, nós já vos dizíamos que devíamos sofrer tribulações, e assim aconteceu como vós sabeis’ (1Ts 3,3b-4). Bem cedo também se percebeu que essa perseguição podia chegar a uma morte violenta. Surgiu a teologia do martírio (a palavra mártir quer dizer testemunha).

Com o tempo, a definição de martírio foi ganhando certa complexidade e hoje é aceito oficialmente o seguinte conceito : ‘Teologicamente assim se define o martírio : o suportar voluntário da condenação à morte, infligida por ódio contra a fé ou a lei divina, morte que é firme e pacientemente suportada e que permite o ingresso imediato na bem-aventurança’ (FISICHELLA, Rino. Dicionário de Teologia Fundamental, verbete ‘Martírio’. Petrópolis: Vozes, 1994, p.574).

Por sua vez, o Concílio Vaticano II, na LG 42, afirma : ‘Tendo Jesus, Filho de Deus manifestado sua caridade dando por nós a sua vida, ninguém tem um amor maior do que o que dá a vida por ele e por seus irmãos (cf. 1Jo 3,16; Jo 15,13). Eis por que desde os tempos antigos alguns cristãos foram chamados, e o serão sempre, a dar este testemunho de amor diante dos homens e especialmente diante dos perseguidores. Por isto, o martírio, com o qual o discípulo se torna uma só realidade com o mestre que livremente aceita a morte pela salvação do mundo, e a ele se conforma no derramamento de sangue, é considerado pela Igreja como dom insigne e prova suprema de caridade. Embora ele seja a poucos concedido, devem todavia todos estar prontos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-lo no caminho da cruz durante as perseguições, que nunca faltam na vida da Igreja’. Nesse texto, o mártir aparece inserido numa perspectiva cristocêntrica : a base do martírio é a configuração a Cristo que manifesta seu amor, dando-nos sua vida. O mártir, configurado a Cristo, é capaz de continuar o testemunho da entrega da vida por amor, confirmando os irmãos na fé. O foco do texto recai sobre o amor, cuja base é Cristo, e pelo qual se pode dar verdadeiro testemunho da ‘fé que age através do amor’ (Gl 5,6).

Essa tônica é importante, pois nos encontramos diante de uma mudança de eventos em que muitas vezes o perseguidor se diz também cristão e não simplesmente alguém que explicitamente tenha ódio à fé e, muitas vezes, a perseguição que inflige é dita em nome da fé cristã. Sem dúvida, permanece o odium fidei como elemento importante e necessário para a compreensão do martírio, mas nele se pode perceber que a fé que age pela caridade se manifesta na busca da justiça. Nesse sentido, Rino Fisichella afirma : ‘o mártir não é mais isolado a alguns casos esporádicos, mas é fácil encontrá-lo em todos os lugares em que, por amor ao evangelho, se vive com coerência, até o ponto de dar a própria vida, ao lado dos pobres, dos marginalizados e dos violentados, e se defendem seus direitos pisoteados’ (Op. cit., p.575). Esse autor insiste na necessidade de uma definição de martírio em que se compreendam as novas formas de perseguição nas quais a verdade da fé e a credibilidade do amor estão comprometidas (cf. Ibidem). Particularmente ilustrativo nessa tônica dada ao amor é o processo de canonização do Pe. Maximiliano Kolbe, morto nos campos nazistas. Na homilia do Papa João Paulo II, a ênfase recai sobre o testemunho de amor : ‘Diante da eloquência da vida e da morte do Beato Maximiliano, não se pode não reconhecer o que parece constituir o principal e essencial conteúdo do sinal dado por Deus à Igreja e ao mundo na sua morte. Não constitui esta morte enfrentada espontaneamente, por amor ao homem, um particular cumprimento das palavras de Cristo? Não torna ela Maximiliano particularmente semelhante a Cristo, Modelo de todos os Mártires, que na Cruz dá a própria vida pelos irmãos? Não possui precisamente tal morte uma especial e penetrante eloquência para a nossa época? Não constitui ela um testemunho particularmente autêntico da Igreja no mundo contemporâneo?’ (JOÃO PAULO II, Papa. Solene Rito de canonização de São Maximiliano Maria Kolbe. Homilia. Roma, 10 de outubro de 1982).

Também Karl Rahner postulava uma ampliação do sentido de martírio, tomando como base a própria vida de Dom Oscar Romero : ‘Por que não haveria de ser mártir um monsenhor Romero, por exemplo, que tombou na luta pela justiça na sociedade, numa luta que ele travou a partir de suas convicções cristãs mais profundas?’ (RAHNER, Karl. Dimensões do martírio. Concilium, n.183, 1983, p.271). O próprio Papa Francisco, em discurso dirigido a salvadorenhos que foram a Roma lhe agradecer a beatificação de Dom Romero, apresentou o martírio sofrido por Romero, antes, durante e depois de sua vida : ‘Gostaria de acrescentar algo, que talvez nos tenha passado despercebido. O martírio de D. Romero não teve lugar unicamente no momento da sua morte; tratou-se de um martírio-testemunho, de um sofrimento anterior, de uma perseguição precedente, até à sua morte. Mas também posterior porque, depois de morto — eu era um jovem sacerdote e disto fui testemunha — ele foi difamado, caluniado, desonrado, isto é, o seu martírio continuou até por parte dos seus próprios irmãos no sacerdócio e no episcopado. [...] Depois de ter entregue (sic) a própria vida, ele continuou a oferecê-la, deixando-se açoitar por todas aquelas incompreensões e calúnias. Só Deus sabe como isto me fortalece! Só Deus conhece a história das pessoas, e quantas vezes pessoas que já entregaram a própria vida, ou que já morreram, continuam a ser lapidadas com a pedra mais dura que existe no mundo : a língua’ (FRANCISCO, Papa. Discurso do Papa Francisco a um grupo de peregrinos de El Salvador. Roma, 30 de outubro de 2015).

Visto isso, acreditamos que um conceito de martírio no mundo atual em que as perseguições apresentam novas facetas (muitas vezes propugnadas por cristãos, marcada também pela ridicularização, banalização, indiferença, calúnia e, por fim, a morte), precisamos ter consciência de que o ódio à fé tem se manifestado como ódio ao amor pelo qual opera a fé e que se manifesta na configuração da própria vida à de Jesus que doa livremente sua vida para ser fiel a Deus até o fim. Por isso, o martírio é provocado pela configuração a Cristo, continuando sua missão de anúncio da Boa Notícia aos pobres, de libertação aos presos e recuperação da vista aos cegos, liberdade aos oprimidos e ano da graça do Senhor (cf. Lc 4,18-19). O mártir, portanto, se põe no seguimento de Jesus, realizando, na sua vida, o mesmo amor manifestado na vida, na missão e na cruz de Jesus. O mártir é testemunha da entrega da vida por amor, provocando adesão a Jesus, à sua missão e ao amor com que Ele entregou a própria vida; o sangue do mártir se torna, assim, semente de novos cristãos, de novas adesões, de continuidade na missão de Jesus. Isso não nos deve fazer esquecer, porém, embora falemos aqui analogicamente, os inúmeros ‘mártires anônimos’, pessoas que deram a vida por amor, de maneira incondicional, mesmo sem uma profissão explícita da fé. Tampouco se pode esquecer os mártires que não foram canonizados : assim como conhecemos inúmeras pessoas que mesmo não canonizadas as consideramos santas pelo testemunho de vida que deram, assim também vale a pena trazer diante dos olhos e do coração tantos homens e mulheres que tombaram na luta pelo Reino anunciado por Jesus : Pe. Rutílio Grande, Margarida Maria, Pe. Ezequiel Ramin, Santos Dias, Pe. Josimo, Ir. Dorothy e a multidão de testemunhas que não se podia contar, que traziam palmas na mão e lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,9-14).

A vida doada livremente por amor, por si só, é também denúncia profética contra todos aqueles que negam o amor pela prática da injustiça, violência e opressão e também por aqueles que continuam a lapidar a vida do mártir com a pedra da língua, como bem nos recorda o Papa Franscisco. A mesma configuração a Jesus Cristo leva o mártir a não provocar violência contra seus inimigos, mas a vencer o mal com a força do bem e do amor. Por fim, o mártir provoca esperança : ‘Em verdade, em verdade eu vos digo : se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, ficará sozinho. Mas se morrer, produzirá muito fruto’ disse Jesus (Jo 12,24); ‘se me matarem, ressuscitarei na vida do meu povo’ disse Dom Romero.’


Fonte :

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Festa dos Santos Inocentes, Mártires

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Paulo Ricardo


‘O Evangelho do dia 28 de dezembro nos recorda os santos inocentes, ou seja, aquelas crianças de dois anos para baixo que foram martirizadas em Belém e todo o território vizinho por Herodes I em sua busca furiosa pelo rei dos judeus, que, segundo o testemunho dos magos do Oriente, tinha acabado de nascer (cf. Mt 2, 2). Fixemo-nos por uns momentos nos detalhes que contextualizam o martírio destes santos pequeninos. Assistimos, pois, ao nascimento do menino Deus : uma indefesa criancinha, frágil, inerme, sem ter onde repousar a cabeça (cf. Mt 8, 20), faz tremerem as potestades da terra. À simples notícia de sua chegada ao mundo, o rei Herodes, e com ele toda Jerusalém, enche-se de pavor (cf. Mt 2, 3).
Deus, ainda que se faça impotente, ainda que se despoje de sua glória e majestade, Deus ainda assim impõe aos impérios humanos a grandeza de sua autoridade e o temor de sua presença. Ele, vindo ao mundo, diz ao homem que há um só Senhor, e a Ele pertencem a poder e a honra. Com efeito, embora nasça desprovido de todo atrativo humano — sem o brilho nem pompa —, aquele pequeno nazareno, só com o fazer-se presente ao homem, já manifesta o poder de seu braço, desconcerta os corações dos soberbos, derruba do trono os poderosos (cf. Lc 1, 51-52).
O Senhor nos chama, assim, a reconhecer que fomos feitos para Ele. Por isso, temos de deixar o trono de orgulho em que nos colocamos, temos de abandonar a postura petulante de um Herodes que, agarrando-se às aparências de um falso poder e de uma pretensa autossuficiência, quer ser a todo custo o ‘senhor’ da própria vida. É a Deus, aos seus interesse e à sua vontade que devemos servir. Esse o propósito de nossa existência, essa a fonte de toda a alegria que nos aguarda no Céu. Desçamos, pois, do nosso pedestal, abandonemos o altar de caprichos e vaidades em que nos incensamos a nós mesmos. Que os Santos Inocentes intercedam por nós e nos ajudem aceitar que há um só Rei, Jesus Cristo, e um só Reinado.’

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Missionários Franciscanos desafiam as bombas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bernardino Frutuoso,
Jornalista

‘Do Mosteiro Er-Ram pode-se ver quase toda a cidade de Alepo, ou o que resta dela depois de cinco anos de guerra. A cidadela antiga, que foi declarada Patrimônio da Humanidade em 1986, ainda permanece no topo da colina. Alepo antes era conhecida por ser um lugar de paz e coexistência, foi o lar de árabes, turcos, curdos, circassianos e trezentos mil cristãos de dez denominações.

Alepo é uma cidade histórica, com um significado religioso, político e estratégico crucial. Um provérbio sírio diz : «Quem domina Alepo, domina a Síria.» Foi a terceira cidade cristã do Médio Oriente e ao mesmo tempo a capital da cultura islâmica. Foi a antiga capital do reino hitita e é um lugar de grande valor arqueológico, o berço de culturas diferentes, uma encruzilhada na Rota da Seda entre o Oriente e o Ocidente e a antiga sede do Codex Aleppo (que é considerado o melhor manuscrito existente da Bíblia hebraica, embora esteja incompleto). Tudo foi destruído agora.

Alepo, que é a segunda maior cidade da Síria, está no epicentro de uma guerra civil que há mais de cinco anos (desde Março de 2011) opõe o governo do presidente Bashar al-Assad a várias forças rebeldes contrárias ao regime. Ao longo deste ano intensificaram-se os bombardeamentos russos e a ofensiva terrestre dos Guardas da Revolução iranianos e das tropas sírias leais a Bashar al-Assad. Alepo Este tem estado a ser alvo de intensos bombardeamentos desde o fim do cessar-fogo acordado pelos Estados Unidos e a Rússia no mês de Setembro. Em entrevista ao jornal russo Komsomolskaya Pravda, o presidente da Síria promete «continuar a limpar» a cidade, onde 275 mil cidadãos, 100 mil dos quais crianças, estão encurralados pelos bombardeamentos intensivos das forças leais ao regime em parceria com a Força Aérea russa. «Vai ser um trampolim para [nos] movermos para outras áreas, para libertarmos outras áreas dos terroristas, é esta a importância de Alepo», declarou Bashar al-Assad na entrevista.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos informou que num só dia – o passado 13 de Outubro – se registaram na zona oriental da cidade 20 ataques da aviação de combate da Rússia e do regime sírio, causando mais de 70 vítimas. O enviado especial das Nações Unidas à Síria, Staffan de Mistura, alertou que «a este ritmo, a cidade de Alepo Este estará totalmente destruída e milhares de civis sírios, não terroristas, serão mortos» até ao Natal. A guerra já causou, em cinco anos, cerca de 400 mil mortos – segundo as Nações Unidas –, mais de 6,5 milhões de deslocados dentro do país e 4,8 milhões de refugiados.

Em declarações à Rádio Vaticano, o padre Firas Lufti, que trabalha no Colégio da Terra Santa dos Franciscanos em Alepo, explicou que «o exército sírio oficial com os seus aliados está a cercar a cidade de Alepo para enfrentar o avanço dos jiadistas». Segundo o religioso, «sentem-se os bombardeamentos dia e noite e, portanto, não se dorme. Não há paz na cidade. As pessoas têm medo».

O Papa Francisco condenou em muitas ocasiões a violência que tem atingido a população da Síria, particularmente em Alepo, e alertou para o «preço» humano que a guerra civil tem custado à população do país, pedindo soluções de paz. Em Agosto, o Sumo Pontífice afirmou que «é inaceitável que tantas pessoas vulneráveis – incluindo tantas crianças – devam pagar o preço do conflito, o preço do fechamento do coração e da falta de vontade das potências para a paz.»

«Todos os interesses no Médio Oriente estão a concentrar-se em Alepo», afirma o padre Firas. «Todos os dias ouvimos falar de conversações de tréguas, de acordos entre governos, mas, em seguida, os tiroteios e as mortes continuam. Estamos diante de uma grave catástrofe humana. Mas ninguém parece importar-se. Quem se preocupa com os milhares de crianças que não têm nada para comer? Quem se preocupa com os feridos que não podem ser curados, porque não existem medicamentos?»

Os Frades Franciscanos na Síria são os responsáveis por três centros : Paróquia de São Francisco de Assis, uma capela que pertence à Paróquia de Er-Ram, e a Escola Terra Santa. Nos últimos meses, a paróquia de São Francisco foi bombardeada numa ocasião e o Mosteiro de Er-Ram cinco vezes. Na Síria ainda permanecem 14 frades franciscanos, dos quais cinco estão em Alepo.

Os Frades Franciscanos foram convidados a deixar a cidade várias vezes. «As mesmas razões que nos podem levar a sair são aquelas que nos fazem ficar. Os cristãos que ainda estão aqui confiaram em nós, eles precisam de nós e nós precisamos deles. Queremos permanecer perto de todas aquelas pessoas que incessantemente batem à porta do nosso mosteiro, para receber alguma ajuda e conforto», frisa o padre Lufti. «Diria que o Senhor não nos deixa sozinhos se houver um pouco de consolação e de força para seguir em frente, porque o Senhor está presente e Ele é o Senhor da esperança, que nos ajuda a resistir e a esperar esta ressurreição depois do período da paixão e da morte», afirma o franciscano.


Convento da misericórdia

Em Agosto, devido aos combates, cerca de 100 pessoas refugiaram-se no mosteiro dos franciscanos. Na casa, explica o sacerdote, puderam encontrar «a força para viver e esperar por um futuro melhor». Os jovens encontraram um lugar onde se distraem com o desporto. «Há disparos, mas é muito comovedor ver um pouco da alegria destes jovens, a força de poder viver e de esperar um futuro verdadeiramente melhor», explicou o religioso. Entretanto, expressou a sua preocupação pelas crianças.

O padre Lufti indicou que só os mais pobres ficaram em Alepo, porque quando começou a guerra aqueles que tinham mais condições econômicas deixaram a cidade. «Atualmente em Alepo vivem os mais pobres. Procuramos sair ao seu encontro, não só oferecendo comida, água», mas também «abrindo este espaço de acolhimento, de assistência espiritual e psicológica. As pessoas em Alepo têm muita necessidade de serem escutadas», assinalou.

A casa dos Franciscanos também acolhe a comunidade cristã maronita que realiza as suas celebrações semanais na igreja do mosteiro, uma vez que as igrejas maronitas dos bairros circundantes foram completamente destruídas ou estão inabitáveis. «O nosso mosteiro é a sede de uma escola para surdos-mudos, um dos poucos centros deste tipo que ainda está operacional em Alepo. O acolhimento que nós tentamos oferecer incondicionalmente é uma expressão concreta das obras de misericórdia que a Igreja nos pede para fazer, especialmente neste Ano Santo da Misericórdia. Nós também partilhamos, com quem bate à nossa porta, o bem mais precioso que existe agora em Alepo, a água do poço que temos no nosso mosteiro.»

O sacerdote franciscano Ibrahim Alsabagh, da paróquia de São Francisco de Assis, em declarações realizadas à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, denunciava, em Julho passado, a intensidade dos ataques. O religioso afirmava que Alepo está a viver «os piores momentos da sua história», e que as pessoas «estão desesperadas e rezam de dia e de noite».

A «cidade dos mártires», como disse o Papa Francisco, tinha cerca de 150 000 católicos e era uma das maiores comunidades cristãs de toda a Síria. Calcula-se que, pelo menos, dois terços dos cristãos terão abandonado a cidade. Os que ficaram vivem principalmente na zona oeste da cidade, controlada pelo exército sírio, «onde, ao menos, têm direito a viver e a praticar a sua fé», como refere o padre Ibrahim. Os cristãos de Alepo estão a viver tempos de provação, incerteza e insegurança. «A lista de mártires é longa», assinala o religioso.

O Papa Francisco manifestou a sua «proximidade a todas as vítimas do desumano conflito na Síria» e apelou a um «cessar-fogo imediato» no país, durante a audiência pública com os peregrinos na Praça de São Pedro, no Vaticano, no passado dia 12 de Outubro. «É com urgência que renovo este apelo, implorando com todas as minhas forças aos responsáveis por este conflito, a fim de que haja um cessar-fogo imediato, implementado e respeitado pelo menos durante o tempo necessário para a evacuação das populações civis, sobretudo das crianças ainda apanhadas no meio destes bombardeamentos cruéis», disse Francisco.’
  

Fonte :


domingo, 10 de maio de 2015

Terra de mártires


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*Artigo de Padre José Vieira,
Missionário Comboniano

  
A África continua a ser fecundada pelo sangue dos mártires, semente de novos cristãos e seiva de uma igreja que testemunha o Ressuscitado.
  

‘Extremistas líbios ligados ao Estado Islâmico publicaram na Internet, em Fevereiro, imagens cruentas e pavorosas em que degolavam 21 imigrantes egípcios nas praias de Sirte, tingindo de sangue as águas do Mediterrâneo. A razão? Eram cristãos coptas.

Os mártires de Sirte encontram-se quase no fim de uma longa fita do tempo cor de sangue que marca o martírio dos cristãos africanos que viveram a fé até ao fim. A contagem começou a 17 de Julho de 180, quando cinco mulheres e sete homens cristãos foram executados em Cartago, onde é hoje a Tunísia, pelos soldados romanos por se terem recusado a prestar culto ao imperador.

Ao longo dos tempos milhares de outros cristãos continuaram a regar com o seu sangue o solo africano individualmente ou em grupo às mãos dos impérios ou religiões. A lista que se segue não é exaustiva.

Os franciscanos contam no seu martirológio 13 frades, mortos em Marrocos e Ceuta, em 1220 e 1227.

Na Etiópia, depois da expulsão dos jesuítas ibéricos em 1632, um número de seguidores de Inácio de Loyola e de Francisco de Assis foram mortos nas praias do Mar Vermelho ou na Abissínia por tentarem voltar à terra do Preste João. Cinco são venerados como beatos : dois capuchinhos franceses (um deles de origem portuguesa), executados em Gondar em 1638 e três franciscanos, mortos na mesma cidade em 1716. Os imperadores etíopes pagavam em ouro o peso das cabeças de católicos degolados pelos ‘caçadores de missionários’ costeiros.

No Uganda, 23 jovens anglicanos e 22 católicos foram executados em Namugongo entre finais de 1885 e inícios de 1887 pelo rei do Buganda.

A revolta dos Simbas, em 1964, no que é hoje a República Democrática do Congo, fez mais de duas centenas de mártires, incluindo a beata Anuarite Clementina, 27 missionários dehonianos e quatro combonianos.

Aliás, a família comboniana conta com 22 missionários mortos em África, duas irmãs e 20 padres e irmãos. Mais de metade deram a vida no Uganda.

O site thereligionofpeace.com fez o levantamento dos cristãos martirizados no continente desde o fatídico 11 de Setembro de 2001 e documenta a execução de mais de 4000 cristãos em 16 dos 54 países da África : Nigéria, Líbia, Quénia, Sudão, Níger, Egipto, Somália, República Centro-Africana, Uganda, República Democrática do Congo, Camarões, Tanzânia, Tunísia, Mali, Etiópia e Eritreia.

A Nigéria é o país mais hostil aos cristãos apesar de quase metade dos Nigerianos serem batizados. A organização Open Doors indica na 2015 World Watch List que extremistas muçulmanos do Boko Haram mataram 2484 cristãos em 2014. Espera-se que o novo presidente, Muhammadu Buhari, tenha mais êxito que o seu antecessor, o cristão Goodluck Jonathan, para estancar a violência extremista no Norte do país.

Há ainda os chamados mártires ‘brancos’, aqueles que morreram silenciosamente de doenças, porque decidiram permanecer em climas agrestes, como São Daniel Comboni, que faleceu em Cartum, Sudão, aos 50 anos de idade, em 1881, vítima das febres tropicais.

Os cristãos africanos continuam a fertilizar o continente com o seu sangue e a Igreja continua a crescer a olhos vistos. Segundo o Anuário Católico, o livro de estatísticas da Igreja, a África teve mais 4,9 milhões de católicos em 2013, representando um terço do crescimento global desse ano.

O Papa Francisco durante as celebrações da Páscoa recordou os cristãos perseguidos a quem chamou ‘os mártires do nosso século’. Sublinhou que talvez sejam mais numerosos que os primeiros mártires e pediu à comunidade internacional que ‘não vire os olhos para o outro lado, que não assista de forma silenciosa e passiva a tal inaceitável crime que constitui uma preocupante violação dos direitos humanos mais elementares.’’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EuFpZFyVpAcZnmGgSf


domingo, 30 de novembro de 2014

Santo André, Apóstolo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
‘Primeiro a ser chamado, primeiro a testemunhar’

‘André foi o primeiro a ser chamado, portanto, o Protóclito (protos = primeiro + klitos = chamar). Recordemos como se deu este chamado : estava ele e seu irmão Cefas pela segunda vez na região do Jordão onde João Batista batizava, este exclamou : ‘Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’ (Jo 1,29). Eis aquele que liberta da morte; eis aquele que destrói o pecado. Eu sou enviado, não como o esposo, mas como quem O acompanha (Jo 3,29). Vim como servo e não como mestre.

Ouvindo estas palavras deixaram de seguir João Batista para acompanhar o próprio Cristo.

Jesus, voltando-se para trás e vendo que o seguiam, disse-lhes : ‘Que buscais?’ Eles disseram : ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’ Disse-lhes Jesus : ‘vinde e vede’. Foram, pois, e viram onde habitava e permaneceram lá aquele dia. Era quase a hora décima.

Ora, André tinha um irmão chamado Simão e disse-lhe : ‘Nós encontramos o Messias, que é o Cristo’. E levou-o a Jesus, que olhando-o disse : ‘Tu és Simão, filho de Jonas, doravante chamar-te-ás Pedro’.

Este é, segundo a narrativa de São João, o primeiro encontro de André com Jesus.

André e Pedro, contudo, não ficaram definitivamente com o Divino Mestre, mas voltaram às suas ocupações de pescadores. Dias depois, Jesus, passando pela praia do Lago de Tiberíades, pelas bandas de Cafarnaum, tendo-os encontrado quando lavavam as redes, disse-lhes : ‘Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens’. Eles, deixando imediatamente as redes, O seguiram (Mt 4,18). Com estas palavras, deu-se o chamamento oficial de André como apóstolo junto com seu irmão Pedro.

Nos catálogos oficiais que os evangelistas dão dos doze apóstolos, André ocupa sempre o segundo lugar, depois do irmão Pedro. Poucas menções expressas nos deixaram o Evangelho deste apóstolo durante os três anos do seguimento a Cristo. A primeira deu-se por ocasião da multiplicação dos pães e peixes.

Quando Jesus interpelou Filipe sobre a possibilidade de dar de comer a toda aquela multidão, André interveio, dizendo : ‘Está aqui um menino que tem cinco pães e dois peixes; mas que é isto para tanta gente?’ Jo 6, 9).

Uma segunda intervenção de André deu-se nos últimos dias da vida do Mestre. Havia alguns gentios que desejavam ver Jesus de perto e se aproximaram de Filipe, dizendo : ‘Senhor, desejamos ver Jesus’. Filipe foi dizer a André : e ambos disseram-no a Jesus.

Diz a Tradição que, por ocasião da partida dos apóstolos para levar o Evangelho pelo mundo, André viajou para a região dos mares Cáspio e Negro. Por último, fundou a igreja em Patras, na Acaia, que foi uma das mais florescentes dos tempos apostólicos. Esta mesma fonte afirma ter Santo André morrido crucificado em Patras, na Acaia, no dia trinta de novembro. A ele está relacionada a Cruz de Santo André em forma de X. Ao vê-la, antes do suplício, teria dito o apóstolo :

‘Salve Santa Cruz, tão desejada, tira-me do meio dos homens e entrega-me ao meu Mestre; de ti receba O que por ti me salvou!’

Todos se admiravam da coragem e da alegria que se estampava no rosto do apóstolo mártir, quando se entregou aos algozes fixado à cruz, permanecendo dois dias nesta posição, orando, aconselhando e orientando aos seus. Uma piedosa mulher de nome Maximila retirou da cruz o corpo do apóstolo sepultando-o com muita honra.

Depois das perseguições romanas, as relíquias do Santo foram transportadas para Constantinopla e, pelo ano 1460, transferidas para Amalfi e Roma. Mais recentemente, o Papa Paulo VI, desejando simbolizar a união de fraternidade com a Igreja Ortodoxa, devolveu as relíquias de Santo André à Igreja de Constantinopla.’


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://www.diocesesantoandre.org.br/newsite/?page_id=6588

Konings, J – ‘Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical’ – Ed. Vozes, 1986.
Carvajal, Francisco F, ‘Falar com Deus’ – Ed. Quadrante, 1993. 
Donadeo, Madre Maria, ‘O Ano Litúrgico Bizantino’ – Ed. Ave Maria.


domingo, 23 de novembro de 2014

Santo André Dung-Lac, Presbítero e seus companheiros mártires

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
‘O cristianismo chegou ao Vietnam no final do século XVI, mas, foi continuamente contestado por governantes locais que, entre os séculos XVII e XIX, publicaram mais de 50 editais contra os cristãos, o que causou a morte de cerca de 130 mil fiéis. 

Em qualquer caso, os núcleos familiares cristãos foram desmembrados e dispersados, famílias e parentes separados e deportados para regiões diferentes; os bens e propriedades eram confiscados. Os cristãos foram privados de qualquer vínculo religioso (não tinham mais igrejas, paróquias, escolas cristãs, etc...).

Em 1988, vários grupos de mártires vietnamitas que foram beatificados por papas anteriores, foram unificados em um único grupo e canonizados pelo beato Papa João Paulo II que também os declarou ‘Patronos do Vietnã’...

Para representá-los, o Missal Romano nomeia Santo André Dung-Lac, primeiro, catequista e, depois, padre, que recebe uma devoção especial pelos católicos do Vietnã. De outro mártir, São Paulo Le-Bao-Tinh, o Missal informa hoje um pedaço de carta onde se lê : ‘No meio desses tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela graça de Deus, estou cheio de alegria, porque eu não estou sozinho, Cristo está comigo’.

A história do catolicismo no Vietnã começou no século XVI, com o padre Alexandre de Rhodes, um missionário francês, considerado o primeiro apóstolo desta jovem Igreja asiática, então dividida em três regiões distintas : Tonkin, Annam e Cochinchina.

Mas, a partir de 1645, quando o padre Rhodes foi expulso, houve a ocorrência das perseguições, alternando com períodos de paz, em que os missionários de várias congregações foram enviados às regiões do Vietnam, animando os fiéis e, especialmente, trabalhando para a formação do clero e de catequistas locais.

De 1645 a 1886, foram expedidos 53 editais contra os cristãos, resultando na morte de 113 mil fiéis. Durante o reinado de Minh-Manh (1821), a perseguição tornou-se implacável, condenando à morte aqueles que ousaram até mesmo esconder os cristãos. Outro rei (já citado acima) foi particularmente opositor do cristianismo : Tuc-Duc, que reinou entre 1847-1883. Profundamente avesso à política colonial francesa, odiava tudo que era europeu ou que provinha da Europa, não distinguindo política de religião. Estipulou que aqueles que colaborassem na captura de um missionário católico ganhariam 300 onças (8,5 quilos) de prata e que, ao ser capturado, depois de ser decapitado, deveria ter o corpo jogado no rio.

Os sacerdotes locais (vietnamitas) e os catequistas estrangeiros foram abatidos, enquanto os catequistas locais tinham impressos em seus rostos ‘à fogo’ (marcados a ferro em brasa) a palavra ‘Ta Dao’, que significa, ‘falsa religião’, sendo expostos ao desprezo público. Os simples fiéis cristãos poderiam salvar as suas vidas espezinhando uma cruz na frente do juiz.

Além disso, frente à firme fé dos cristãos, foi ordenado que os cristãos fossem dispersos, separando maridos de esposas e filhos de seus pais, exilando-os em regiões distantes e diferentes, entre os pagãos, confiscando todos os seus bens.

Através desta miríade de mártires, heróis da fé, a Igreja beatificou a alguns ao longo dos anos : 1900, pelo Papa Leão XIII, em 1906 e 1909, por São Pio X e 1951 pelo Papa Pio XII. Finalmente, em 19 de junho de 1988, o beato João Paulo II os proclamou santos. Foram 117 santos ao todo : 08 bispos, 50 sacerdotes e 59 leigos. Destes, 96 são vietnamitas, 11 espanhóis e 10 franceses. Entre os leigos há 16 catequistas, uma mãe, quatro médicos, seis soldados e muitos pais de família.

O ‘líder’ (que deu o nome ao grupo) dos mártires é André Dung-Lac, primeiro, catequista, depois, sacerdote vietnamita. Ele nasceu de pais pagãos em 1795. Seus pais eram tão pobres que se desfizeram dele de boa vontade para vendê-lo a um catequista. Viveu na missão de Vinh-Tri, onde foi batizado, educado na fé, vindo a tornar-se um catequista. Continuou seus estudos teológicos e, em 15 de março de 1823, foi ordenado sacerdote e nomeado pároco em diversas áreas. Durante a perseguição perpetrada por Minh-Manh, foi preso várias vezes e resgatado dos mandarins pelos cristãos locais. Mesmo correndo perigo, exerceu o apostolado entre os fiéis e administrava os sacramentos. Preso novamente em 10 de novembro de 1839 pelo prefeito de Ke-Song, foi libertado mediante o pagamento de 200 moedas de prata coletadas entre os cristãos. Foi novamente preso em Hanói em 16 de novembro de 1839, submetido a interrogatórios extenuantes, convidado várias vezes para apostatar e pisar na cruz, mas, tendo permanecido firme em sua fé, foi sentenciado a ser decapitado, o que foi feito em 21 de dezembro de 1839. Foi colocado como ‘líder’ do grupo no calendário litúrgico, devido à devoção e culto que goza em seu país, devido ao exemplo brilhante dado durante sua vida.

Os outros 116 mártires do Vietnam, cada um tem uma história edificante de seu martírio, realizado em diferentes lugares e épocas, mas, compartilham a mesma glória dos santos.

A festa litúrgica comum dos 117 mártires do Vietnam foi criada para o dia 24 de novembro, com memórias individuais para alguns deles, especialmente os pertencentes às congregações missionárias.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://pelos-caminhos-de-deus.blogspot.com.br/2014/11/santo-andre-dung-lac.html

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Santa Cecília, Virgem e Mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


         ‘Santa Cecília é uma santa católica, padroeira dos músicos. Não se tem muitas informações sobre a vida de Santa Cecília. É provável que tenha sido martirizada entre 176 e 180, sob o império de Marco Aurélio. Escavações arqueológicas não deixam dúvidas sobre a sua existência.

Segundo a Paixão de Santa Cecília, escrita no século V, Cecília seria da nobre família romana dos Metelos, filha de senador romano e cristã desde a infância.

Os pais de Cecília, sem que a filha soubesse, prometeram-na em casamento a um jovem patrício romano, chamado Valeriano. Se bem que tivesse alegado os motivos que a levavam a não aceitar este contrato, a vontade dos pais se impôs de maneira a tornar-lhe inútil qualquer resistência. Assim se marcaria o dia do casamento e tudo estava preparado para a grande cerimônia.

Da alegria geral que estampava nos rostos de todos, só Cecília fazia exceção. A túnica dourada e alvejante peplo que vestia não deixavam adivinhar que por baixo existia o cilício, e no coração lhe reinasse a tristeza.

Estando só com o noivo, disse-lhe Cecília com toda a amabilidade e não menos firmeza : ‘Valeriano, acho-me sob a proteção direta de um Anjo que me defende e guarda minha virgindade. Não queiras, portanto, fazer coisa alguma contra mim, o que provocaria a ira de Deus contra ti’. A estas palavras, incompreensíveis para um pagão, Cecília fez seguir a declaração de ser cristã e obrigada por um voto que tinha feito a Deus de guardar a pureza virginal.

Disse-lhe mais : que a fidelidade ao voto trazia a bênção, a violação, porém, o castigo de Deus. Valeriano vivamente impressionado com as declarações da noiva, respeitou-lhe a virgindade, converteu-se e recebeu o batismo naquela mesma noite. Valeriano relatou ao irmão Tibúrcio o que tinha passado e conseguiu que também este se tornasse cristão.

Turcius Almachius, prefeito de Roma, teve conhecimento da conversão do dois irmãos. Citou-os perante o tribunal e exigiu peremptoriamente que abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. Diante da formal recusa, foram condenados à morte e decapitados.

Também Cecília teve de comparecer na presença do irredutível juiz. Antes de mais nada, foi intimada a revelar onde se achavam escondidos os tesouros dos dois sentenciados. Cecília respondeu-lhe que os sabia bem guardados, sem deixar perceber ao tirano que já tinham achado o destino nas mãos dos pobres. Almachius, mais tarde, cientificado deste fato, enfureceu-se extraordinariamente e ordenou que Cecília fosse levada ao templo e obrigada a render homenagens aos deuses.

De fato foi conduzida ao lugar determinado, mas com tanta convicção falou aos soldados da beleza da religião de Cristo, que estes se declararam a seu favor, e prometeram abandonar o culto dos deuses.

Almachius, vendo novamente frustrado seu estratagema, deu ordem para que Cecília fosse trancada na instalação balneária do seu próprio palacete e asfixiada pelos vapores d’água. Cecília experimentou uma proteção divina extraordinária e embora a temperatura tivesse sido elevada a ponto de tornar-se intolerável, a serva de Cristo nada sofreu. Segundo outros, a Santa foi metida em um banho de água fervente do qual teria saído ilesa.

Almachius recorreu, então, à pena capital. Três golpes vibrou o algoz sem conseguir separar a cabeça do tronco. Cecília, mortalmente ferida, caiu por terra e ficou três dias nesta posição. Aos cristãos que a vinham visitar, dava bons e caridosos conselhos. Ao Papa entregara todos os bens, com o pedido de distribuí-los entre os pobres. Outro pedido fora o de transformar a sua casa em igreja, o que se fez logo depois de sua morte. Foi enterrada na Catacumba de São Calisto.

As diversas invasões dos godos e lombardos fizeram com que os Papas resolvessem a transladação de muitas relíquias de santos para igrejas de Roma. O corpo de Santa Cecília ficou muito tempo escondido, sem que lhe soubessem o jazigo.

Uma aparição da Santa ao Papa Pascoal I (817-824) trouxe luz sobre este ponto. Achou-se o caixão de cipreste que guardava as relíquias. O corpo foi encontrado intacto e na mesma posição em que tinha sido enterrado. O esquife foi achado em um ataúde de mármore e depositado no altar de Santa Cecília. Ao lado da Santa acharam seu repouso os corpos de Valeriano, Tibúrcio e Máximo.

Em 1599, por ordem do Cardeal Sfondrati, foi aberto o túmulo de Santa Cecília e o corpo encontrado ainda na mesma posição descrita pelo papa Pascoal. O escultor Stefano Maderno que assim o viu, reproduziu em finíssimo mármore, em tamanho natural, a sua imagem.

A Igreja ocidental, como a oriental, tem grande veneração pela Mártir, cujo nome figura no cânon da santa Missa. O ofício de sua festa traz como antífona um tópico das atas do martírio de Santa Cecília, as quais afirmam que a Santa, nos festejos do casamento, ouvindo o som dos instrumentos musicais, teria elevado o coração a Deus nestas piedosas aspirações : ‘Senhor, guardai sem mancha meu corpo e minha alma, para que não seja confundida’.

Desde o século XV, Santa Cecília é considerada padroeira da música sacra e dos músicos. Sua festa é celebrada no dia 22 de novembro, dia da música e dos músicos.’ 


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.portaldamusicacatolica.com.br/rafael_de_angeli_45.asp