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domingo, 13 de setembro de 2026

A Santa Cruz de Caravaca: história de devoção milenar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento 


‘Em Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, ergue-se a Basílica Santuário da Vera Cruz. Aí se encontra uma devoção antiga, que infelizmente no Brasil e alguns países tem se misturado com superstições motivadas por publicações que misturam fé com bruxaria; porém, graças ao testemunho dos papas recentes, como São João Paulo II e Bento XVI, tem-se divulgado ao povo fiel uma verdadeira devoção à santa cruz . 

Na obra de Antonio de Honcala de 1546, Pentaplon christianae pietatis, relata-se que, no século XIII, um sacerdote aventurou-se em território mouro para pregar o Evangelho. Foi preso pelos muçulmanos e levado perante o governante, Zayd Abu Zayd. O governante interrogou-o sobre a Missa e o sacerdote explicou-a tão detalhadamente que o governante exigiu que fosse celebrada em sua presença. O sacerdote não possuía os itens necessários e mandou buscá-los na cidade de Concha, que estava sob controle cristão, contudo, a cruz havia sido esquecida. O sacerdote, sem saber da sua ausência, começou a Missa, mas, parou quando percebeu que ela faltava. O governante, que assistia à Missa com a sua família, perguntou-lhe o que havia de errado. O sacerdote respondeu : ‘Não há cruz’. Nesse momento, o muçulmano viu dois anjos colocando a cruz no altar e apontando para o objeto desejado disse : ‘Será que é isso?’. O sacerdote deu graças a Deus e continuou com a Missa. 

Segundo a lenda, esse evento levou o governante muçulmano e sua família a se converterem ao cristianismo. De acordo com a maioria das versões da história, o clérigo chamava-se Ginés Pérez Chirino ou Quirino, era originário de Mahora, na província de Albacete, e viera de Cuenca, onde fora discípulo do bispo São Julião, que o designara para servir na catedral. Segundo outra versão, seu nome era Fernán Pérez e por isso um dos filhos do governante foi batizado com o nome de Fernán Pérez. 

Leonardo Mayor Izquierdo situa a data do milagre em 3 de maio de 1231. Dom F. Renón, usando dados da monografia de Juan Robles Corbalán de 1615 sobre a verdadeira cruz de Caravaca, situa o milagre em 1227. Zayd Abu Zayd comunicou sua intenção de se converter ao cristianismo ao Papa Gregório IX em 1228. Essa conversão ocorreu após essa data. 

Existe outra lenda sobre a sua origem. Quando Santa Helena encontrou a verdadeira cruz no século IV, deu um pedaço ao patriarca de Jerusalém. No século XIII, o imperador Frederico II Hohenstaufen foi proclamar-se rei de Jerusalém, ocasião em que colocou a relíquia no peito. Contudo, devido à sua falta de piedade, dois anjos apareceram e levaram-na, tendo esta reaparecido mais tarde em Caravaca. 

Outra história, mais prosaica, conta que quando Caravaca foi conquistada por Jaime I, o Conquistador, e entregue a Fernando III, o Santo, em 1244, pelo tratado de Almizra, este entregou a cidade aos templários, que trouxeram a verdadeira cruz, de acordo com a regra da ordem de tê-la em todas as suas comendas. Ela teria sido colocada num relicário em forma de cruz patriarcal, pois era uma cruz simbólica dos templários. 

A cruz serviu como estandarte e talismã contra os subsequentes ataques andaluzes, especialmente os perpetrados por Muhammad ibn Nasr, emir de Arjona e Granada. Com isso, Caravaca consolidou sua posição como um bastião na fronteira hispano-islâmica.

Conta a lenda que, no século XIII, os templários foram sitiados no castelo pelos muçulmanos e a água das cisternas da fortaleza ficou estagnada. Um grupo de templários conseguiu escapar e foi até as fontes em busca de água, mas estas haviam sido envenenadas pelos sitiantes. Encontraram apenas vinho, então, encheram vários odres com ele e o carregaram em seus cavalos. Ao retornarem à fortaleza, após cruzarem com sucesso as linhas inimigas mais uma vez, abençoaram o vinho com a vera cruz e o deram aos doentes, que foram curados. Também derramaram um pouco do vinho nas cisternas, que foram purificadas. Dessa forma, conseguiram resistir ao cerco e as forças muçulmanas finalmente se retiraram. Essa tradição, conhecida como os Cavalos do Vinho, é comemorada todo dia 2 de maio, quando os clubes equestres de Caravaca enfeitam um cavalo e escolhem quatro representantes para correrem pela encosta que leva ao Santuário da Vera Cruz. 

O mestre da Ordem de Santiago, Lorenzo Suárez de Figueroa, fez uma peregrinação a Caravaca em 1390 e doou uma caixa de prata dourada para guardar a relíquia. 

A partir do século XIV foram emitidas bulas de indulgência para aqueles que visitavam a capela onde se encontrava a cruz. As duas primeiras que sobreviveram foram promulgadas por Clemente VII de Avignon em 1379 e em 30 de janeiro de 1392. O primeiro Papa de Roma a conceder indulgências para esse fim foi Pio V em 1572. Posteriormente, essas indulgências foram prorrogadas por Gregório XV em 1622 e confirmadas por Urbano VIII (1623-1644), Clemente X (1670-1676) e Inocêncio XII(1691-1700). 

Em 1536, o comandante Pedro Fajardo y Chacón, primeiro marquês de Vélez, doou uma custódia de ouro e um porta-cruz de prata, avaliados em mil ducados. 

Em 1711, o duque de Montalto doou um relicário, que foi substituído por outro em 1777, doado pelo duque de Alba. 

A cruz foi objeto de um roubo sacrílego na noite de 14 de fevereiro de 1934. Os ladrões roubaram a relíquia sagrada e o relicário que a continha, uma doação da casa de Alba em 1777, deixando para trás o cofre que continha ambos e que foi doado em 1390 por Lorenzo Suárez de Figueroa, mestre da Ordem de Santiago. 

Em 30 de abril de 1942, dois fragmentos chegaram a Caravaca juntamente com um documento impresso em latim, emitido em 15 de abril de 1942, pelo frade dominicano Gabriel Moriondo, bispo de Caserta, que estava associado às relíquias do Vaticano desde pelo menos 1930. O documento certificava que os fragmentos provinham da cruz de Jesus Cristo e autorizava a sua exibição em qualquer igreja, capela pública ou oratório. Ambos os fragmentos foram colocados num relicário que era uma réplica do que tinha sido roubado. A relíquia chegou a tempo para as festividades de maio em honra da verdadeira cruz. 

São João Paulo II concedeu um ano jubilar à cidade em 2 de janeiro de 1981, a pedido do bispo de Cartagena. Em 1998, a pedido do bispo de Cartagena e da real e ilustre Confraria da Santa e Verdadeira Cruz de Caravaca, São João Paulo II concedeu perpetuamente um ano jubilar a cada sete anos ao santuário, a partir de 2003, concedendo uma indulgência plenária, nas condições habituais, em 3 de maio e 14 de setembro, ou por meio de uma peregrinação em grupo. Caravaca tornou-se uma das cinco cidades do mundo com esse privilégio, consideradas ‘cidades santas’. As outras são Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana. 

Em 2002, o então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, peregrinou à cidade para encerrar um congresso internacional de cristologia na região de Múrcia. Ele celebrou a Eucaristia e venerou publicamente a relíquia no Santuário da Vera Cruz de Caravaca.

O Papa Francisco recebeu delegações e enviou bênçãos apostólicas para os anos jubilares mais recentes, porém, nunca realizou uma viagem oficial até o município espanhol.

A adoração da santa cruz se encontra no centro de nossa fé. Vários santos se inspiraram na santa relíquia para promover missões, como São Junípero Serra, devoto da vera cruz de Caravaca, ou as missões jesuíticas no nosso país que conservam em muitos lugares a imagem dessa cruz. Já São Boaventura, em uma meditação, disse que assim como o lenho alimenta a chama, o santo lenho da cruz alimenta nosso amor. Esse é o real segredo da santa cruz de Caravaca.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-santa-cruz-de-caravaca-historia-de-devocao-milenar.html

 

sábado, 13 de setembro de 2025

Exaltação da Santa Cruz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Vatican News


‘Em 13 de setembro de 335, foram consagradas, em Jerusalém, duas igrejas: a da Ressurreição e a do Martyrium. No dia seguinte, com uma cerimônia solene, houve a ostensão da Cruz, que a Imperatriz Helena havia encontrado, em 14 de setembro de 320. Em 614, Cosroes II, rei dos Persas, travou uma guerra contra os Romanos e, depois de derrotar Jerusalém, levou consigo, entre os diversos tesouros, também a Cruz de Jesus. Heráclio, imperador romano de Bizâncio, propôs um pacto de paz com Cosroes, que não aceitou. Diante da sua negação, entrou em guerra com ele e venceu, perto de Nínive, e pediu a restituição da Cruz, que a levou de volta a Jerusalém. Neste dia da Exaltação da Santa Cruz, não se glorifica a crueldade da Cruz, mas o Amor que Deus manifestou aos homens ao aceitar de morrer na Cruz : ‘Mesmo sendo Deus, Cristo humilhou-se, fazendo-se servo. Eis a exaltação da Cruz de Jesus!’ (Papa Francesco).

«Naquela ocasião, Jesus disse a Nicodemo s: ‘Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu : o Filho do Homem. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem será levantado, a fim de que todo o que nele crer tenha a vida eterna’. De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,13-17).

Chega de fecharmos em nós mesmos

‘Na origem do ser cristão, - escreveu Bento XVI - não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento’. O Evangelho, que a liturgia nos propõe na festa da Exaltação da Santa Cruz, diz que Deus pretende construir uma relação de amor com cada um de nós; Ele se oferece na pessoa do seu Filho Jesus, pregado na Cruz.

O fato de levantarmos o olhar para Deus, nos propõe uma verdade importante: somos convidados a voltar a nos relacionarmos de novo com Ele. Chega de ficarmos fechados em nós mesmos, alimentando inúteis sentimentos de culpa e esquecendo que ‘se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração’ (1 Jo 3,20). Elevemos nosso olhar para as estrelas (Cf. Abraão e a promessa de uma grande descendência), colocando todas as nossas preocupações em Deus.

Espanto e gratidão

O fato de elevar nosso olhar não nos deve causar medo, mas gratidão, porque tal elevação é a medida do amor com a qual Deus ama os seus filhos, no Filho. Com efeito, a misericórdia de Deus - como no caso de Nicodemos - ilumina as noites da nossa vida e nos permite continuar o nosso caminho.

Nenhuma indiferença diante da Cruz

Não podemos permanecer indiferentes diante da Cruz de Jesus : nem com ele e nem contra Ele. Trata-se de uma escolha, que deve ser feita antes de qualquer ação, porque a vida do cristão nada mais é que o testemunho de quanto ‘Deus nos amou, a ponto de dar seu Filho Jesus’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/exaltacao-da-santa-cruz.html

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Festa da Exaltação da Santa, Venerável e Vivificante Cruz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘A Igreja celebra a festa da Exaltação da Santa Cruz. É uma festa que se liga à dedicação de duas importantes basílicas construídas em Jerusalém por ordem de Constantino, filho de Santa Helena. Uma foi construída sobre o Monte do Gólgota; por isso, se chama Basílica do Martyrium ou Ad Crucem. A outra foi construída no lugar em que Cristo Jesus foi sepultado pelos discípulos e foi ressuscitado pelo poder de Deus; por isto é chamada Basílica Anástasis, ou seja, Basílica da Ressurreição.

A dedicação destas duas basílicas remonta ao ano 335, quando a Santa Cruz foi exaltada ou apresentada aos fiéis. Encontrada por Santa Helena, foi roubada pelos persas e resgatada pelo imperador Heráclio. Segundo contam, o imperador levou a Santa Cruz às costas desde Tiberíades até Jerusalém, onde a entregou ao Patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630. Tal festividade lembra aos cristãos o triunfo de Jesus, vencedor da morte e ressuscitado pelo poder de Deus.

A pregação da Cruz é uma necessidade para os que se perdem; mas para os que se salvam – para nós – é força de Deus. Por que diz a Escritura : «Destruirei a sabedoria dos sábios, e inutilizarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde o douto? Onde o sofista deste mundo? De fato, como o mundo através de sua própria sabedoria não conheceu Deus na divina sabedoria, quis Deus salvar os crentes através da necessidade da pregação». Assim, enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado : escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas para os chamados, tanto judeus quanto gregos, um Cristo, força de Deus e sabedoria de Deus. As palavras do apóstolo Paulo, lidas na solenidade da Exaltação da veneranda e santificadora Cruz, marcam o sentido inequívoco que, desde o princípio, tivera para os cristãos o patíbulo dos malfeitores, que era a cruz. Por que, pois, estranhar-se que a Igreja a tenha considerado objeto de culto particular?

Romano o Melode, imaginando um diálogo entre o diabo e o inferno, põe na boca do primeiro as palavras : «Belial, é tempo de abrires o ouvido. A hora presente far-te-á ver o império da Cruz, e o grande poder do Crucificado. Para ti, a Cruz não é senão loucura; porém toda a Criação a considera como um trono desde que, nela cravado, escuta Cristo como juiz em atividade».

A forma de cruz das igrejas antigas, inclusive hoje nas de tradição bizantina, evoca a virtude ou força da ação redentora desse sinal. A Cruz defende a todos do maligno e de seus ataques. Os marcados com o sinal de Cristo têm a esperança confiante de entrar no paraíso. Nas igrejas bizantinas, atrás do altar e no ponto mais alto do Iconostase, destaca-se a Crucifixão, 4 com o objetivo de que, de qualquer ponto do templo e a todo momento, possa atrair o olhar dos fiéis para a Árvore da Vida, plantada no novo paraíso universal, frondosa e muito mais honorável que a do Éden […]’


Fonte :

domingo, 30 de novembro de 2014

Santo André, Apóstolo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  
‘Primeiro a ser chamado, primeiro a testemunhar’

‘André foi o primeiro a ser chamado, portanto, o Protóclito (protos = primeiro + klitos = chamar). Recordemos como se deu este chamado : estava ele e seu irmão Cefas pela segunda vez na região do Jordão onde João Batista batizava, este exclamou : ‘Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’ (Jo 1,29). Eis aquele que liberta da morte; eis aquele que destrói o pecado. Eu sou enviado, não como o esposo, mas como quem O acompanha (Jo 3,29). Vim como servo e não como mestre.

Ouvindo estas palavras deixaram de seguir João Batista para acompanhar o próprio Cristo.

Jesus, voltando-se para trás e vendo que o seguiam, disse-lhes : ‘Que buscais?’ Eles disseram : ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’ Disse-lhes Jesus : ‘vinde e vede’. Foram, pois, e viram onde habitava e permaneceram lá aquele dia. Era quase a hora décima.

Ora, André tinha um irmão chamado Simão e disse-lhe : ‘Nós encontramos o Messias, que é o Cristo’. E levou-o a Jesus, que olhando-o disse : ‘Tu és Simão, filho de Jonas, doravante chamar-te-ás Pedro’.

Este é, segundo a narrativa de São João, o primeiro encontro de André com Jesus.

André e Pedro, contudo, não ficaram definitivamente com o Divino Mestre, mas voltaram às suas ocupações de pescadores. Dias depois, Jesus, passando pela praia do Lago de Tiberíades, pelas bandas de Cafarnaum, tendo-os encontrado quando lavavam as redes, disse-lhes : ‘Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens’. Eles, deixando imediatamente as redes, O seguiram (Mt 4,18). Com estas palavras, deu-se o chamamento oficial de André como apóstolo junto com seu irmão Pedro.

Nos catálogos oficiais que os evangelistas dão dos doze apóstolos, André ocupa sempre o segundo lugar, depois do irmão Pedro. Poucas menções expressas nos deixaram o Evangelho deste apóstolo durante os três anos do seguimento a Cristo. A primeira deu-se por ocasião da multiplicação dos pães e peixes.

Quando Jesus interpelou Filipe sobre a possibilidade de dar de comer a toda aquela multidão, André interveio, dizendo : ‘Está aqui um menino que tem cinco pães e dois peixes; mas que é isto para tanta gente?’ Jo 6, 9).

Uma segunda intervenção de André deu-se nos últimos dias da vida do Mestre. Havia alguns gentios que desejavam ver Jesus de perto e se aproximaram de Filipe, dizendo : ‘Senhor, desejamos ver Jesus’. Filipe foi dizer a André : e ambos disseram-no a Jesus.

Diz a Tradição que, por ocasião da partida dos apóstolos para levar o Evangelho pelo mundo, André viajou para a região dos mares Cáspio e Negro. Por último, fundou a igreja em Patras, na Acaia, que foi uma das mais florescentes dos tempos apostólicos. Esta mesma fonte afirma ter Santo André morrido crucificado em Patras, na Acaia, no dia trinta de novembro. A ele está relacionada a Cruz de Santo André em forma de X. Ao vê-la, antes do suplício, teria dito o apóstolo :

‘Salve Santa Cruz, tão desejada, tira-me do meio dos homens e entrega-me ao meu Mestre; de ti receba O que por ti me salvou!’

Todos se admiravam da coragem e da alegria que se estampava no rosto do apóstolo mártir, quando se entregou aos algozes fixado à cruz, permanecendo dois dias nesta posição, orando, aconselhando e orientando aos seus. Uma piedosa mulher de nome Maximila retirou da cruz o corpo do apóstolo sepultando-o com muita honra.

Depois das perseguições romanas, as relíquias do Santo foram transportadas para Constantinopla e, pelo ano 1460, transferidas para Amalfi e Roma. Mais recentemente, o Papa Paulo VI, desejando simbolizar a união de fraternidade com a Igreja Ortodoxa, devolveu as relíquias de Santo André à Igreja de Constantinopla.’


Fontes :
* Artigo na íntegra de http://www.diocesesantoandre.org.br/newsite/?page_id=6588

Konings, J – ‘Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical’ – Ed. Vozes, 1986.
Carvajal, Francisco F, ‘Falar com Deus’ – Ed. Quadrante, 1993. 
Donadeo, Madre Maria, ‘O Ano Litúrgico Bizantino’ – Ed. Ave Maria.


sábado, 13 de setembro de 2014

Exaltação da Santa Cruz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
  
‘...Gostaria de meditar sobre um Salmo com fortes implicações cristológicas, que sobressai continuamente nas narrações da Paixão de Jesus, com a sua dúplice dimensão de humilhação e glória, de morte e vida. É o Salmo 22 segundo a tradição judaica, 21 segundo a tradição greco-latina, uma oração intensa e comovedora, de uma densidade humana e de uma riqueza teológica que fazem dele um dos Salmos mais recitados e estudados de todo o Saltério. Trata-se de uma longa composição poética, e meditaremos de modo particular sobre a sua primeira parte, centrada na lamentação, para aprofundar algumas dimensões significativas da oração de súplica a Deus.

Este Salmo apresenta a figura de um inocente perseguido e circundado de adversários que desejam a sua morte; e ele recorre a Deus numa lamentação dolorosa que, na certeza da fé, se abre misteriosamente ao louvor. Na sua oração, a realidade angustiante do presente e a memória consoladora do passado alternam-se, numa difícil tomada de consciência acerca da sua situação desesperada que, no entanto, não quer renunciar à esperança. O seu clamor inicial é um apelo dirigido a um Deus que parece distante, que não responde e parece tê-lo abandonado :

‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
As palavras do meu clamor não são por Vós ouvidas.
Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis;
imploro durante a noite, sem conseguir sossegar’ (vv. 2-3).

Deus cala-se, e este silêncio dilacera a alma do orante, que chama incessantemente, mas sem encontrar uma resposta. Os dias e as noites sucedem-se, numa busca incansável de uma palavra, de uma ajuda que não chega; Deus parece tão distante, tão esquecido, tão ausente! A oração pede escuta e resposta, solicita um contacto, procura uma relação que possa conferir conforto e salvação. Mas se Deus não responde, o grito de ajuda perde-se no vazio e a solidão torna-se insustentável. E no entanto o orante do nosso Salmo, no seu brado, chama três vezes o Senhor ‘meu’ Deus, num extremo gesto de confiança e de fé. Não obstante qualquer aparência, o Salmista não pode acreditar que o vínculo com o Senhor se tenha interrompido totalmente; e enquanto pergunta o porquê do presumível abandono incompreensível, afirma que o ‘seu’ Deus não o pode abandonar.

Como se sabe, o clamor inicial do Salmo, ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’, é citado pelos Evangelhos de Mateus e de Marcos como o grito lançado por Jesus agonizante na Cruz (cf. Mt 27, 46; Mc 15, 34). Ele manifesta toda a desolação do Messias, Filho de Deus, que enfrenta o drama da morte, uma realidade totalmente oposta ao Senhor da vida. Abandonado por quase todos os seus, atraiçoado e renegado pelos discípulos, circundado por quantos o insultam, Jesus encontra-se sob o peso esmagador de uma missão que deve passar pela humilhação e o aniquilamento. Por isso, clama ao Pai, e o seu sofrimento assume as palavras dolorosas do Salmo. Mas o seu grito não é desesperado, como o do Salmista, que na sua súplica percorre um caminho atormentado, mas que no final acaba numa perspectiva de louvor, na confiança da vitória divina. E dado que no uso hebraico citar o início de um Salmo implicava uma referência ao poema inteiro, a prece dilacerante de Jesus, embora mantenha a sua carga de sofrimento indizível, abre-se à certeza da glória. ‘Não tinha o Messias de sofrer estas coisas para entrar na sua glória?’, dirá o Ressuscitado aos discípulos de Emaús (Lc 24, 26). Na sua paixão, em obediência ao Pai, o Senhor Jesus atravessa o abandono e a morte para alcançar a vida e para a doar a todos os fiéis.

A este brado inicial de súplica, no nosso Salmo 22, segue-se num contraste doloroso a recordação do passado :

‘Em Vós confiaram os nossos pais,
confiaram, e Vós os livrastes;
a vós clamaram e foram salvos;
confiaram em Vós e não foram confundidos’ (vv. 5-6).

Aquele Deus que hoje ao Salmista parece tão distante é, no entanto, o Senhor misericordioso que Israel sempre experimentou na sua história. O povo ao qual o orante pertence foi objecto do amor de Deus, e pode dar testemunho da sua fidelidade. A começar pelos Patriarcas, e depois no Egito e durante a longa peregrinação pelo deserto, na permanência na terra prometida em contacto com populações agressivas e inimigas, até ao obscurecimento do exílio, toda a história bíblica foi uma história de clamores de ajuda da parte do povo e de respostas salvíficas da parte de Deus. E o Salmista faz referência à fé inabalável dos seus Pais, que ‘confiaram’ — esta palavra é repetida três vezes — sem jamais permanecer confundidos. Agora, no entanto, parece que esta série de invocações confiantes e de respostas divinas se interrompeu; a situação do Salmista parece desmentir toda a história da salvação, tornando ainda mais dolorosa a realidade presente.

Mas Deus não pode desmentir-se, e eis então que a oração volta a descrever a situação penosa do orante, para induzir o Senhor a ter piedade e a intervir, como sempre tinha feito no passado. O Salmista define-se ‘um verme, não um homem, o opróbrio de todos e a abjecção da plebe’ (v. 7), é escarnecido, zombado (cf. v. 8) e ferido precisamente na fé : ‘Confiou no Senhor, que Ele o livre, que o salve, se o ama’ (v. 9), dizem. Sob os golpes ultrajantes da ironia e do desprezo, parece quase que o perseguido perde as suas conotações humanas, como o Servo sofredor delineado no Livro de Isaías (cf. Is 52, 14; 53, 2b-3). E como o justo oprimido, do Livro da Sabedoria (cf. 2, 12-20), ou como Jesus no Calvário (cf. Mt 27, 39-43), o Salmista vê posta em dúvida a própria relação com o seu Senhor, na evidência cruel e sarcástica daquilo que o faz sofrer : o silêncio de Deus, a sua aparente ausência. E no entanto, Deus esteve presente na existência do orante com uma proximidade e uma ternura inquestionáveis. O Salmista recorda-o ao Senhor : ‘Na verdade, Vós me tirastes do ventre materno, confiastes-me aos seios de minha mãe. Pertenço-vos desde o ventre materno’ (vv. 10-11a). O Senhor é o Deus da vida, que faz nascer e acolher o recém-nascido, e cuida dele com carinho paterno. E se antes recordara a fidelidade de Deus na história do povo, agora o orante volta a evocar a própria história pessoal de relação com o Senhor, remontando ao momento particularmente significativo do início da sua vida. E ali, não obstante a desolação do presente, o Salmista reconhece uma proximidade e um amor divinos tão radicais que agora pode exclamar, numa confissão cheia de fé e geradora de esperança : ‘Desde o seio de minha mãe, Vós sois o meu Deus’ (v. 11b).

Agora, a lamentação torna-se uma súplica intensa : ‘Não vos afasteis de mim, porque estou atribulado; não há quem me ajude’ (v. 12). A única proximidade que o Salmista sente e que o amedronta é a dos seus inimigos. Portanto, é necessário que Deus se aproxime e que o socorra, porque os inimigos circundam e rodeiam o orante, e são como touros poderosos, como leões que abrem as fauces para rugir e despedaçar (cf. vv. 13-14). A angústia altera a percepção do perigo, aumentando-o. Os adversários parecem invencíveis, tornaram-se animais ferozes e extremamente perigosos, enquanto o Salmista é como um pequeno verme, impotente, sem qualquer defesa. Mas estas imagens utilizadas no Salmo servem também para dizer que quando o homem se torna brutal e agride o irmão, algo de animalesco prevalece sobre ele, que parece perder qualquer semblante humano; a violência tem sempre em si algo de bestial, e só a intervenção salvífica de Deus pode restituir o homem à sua humanidade. Agora, para o Salmista, objecto de uma agressão tão feroz, parece que não existe mais salvação, e a morte começa a tomar posse dele : ‘Sou como água que se derrama, todos os meus ossos se desconjuntam [...] A minha garganta secou-se como barro cozido; a minha língua pegou-se ao meu paladar [...] repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica’ (vv. 15.16.19). Com imagens dramáticas, que voltamos a encontrar nas narrações da Paixão de Cristo, descreve-se a decomposição do corpo do condenado, o calor insuportável que atormenta o moribundo e que encontra eco no pedido de Jesus : ‘Tenho sede’ (cf. Jo 19, 28), para chegar ao gesto definitivo dos algozes que, como os soldados aos pés da Cruz, repartem entre si as vestes da vítima, já considerada morta (cf. Mt 27, 35; Mc 15, 24; Lc 23, 34; Jo 19, 23-24).

Eis então, imperioso, novamente o pedido de socorro : ‘Mas Vós, Senhor, não vos afasteis de mim; sois o meu auxílio, apressai-vos a ajudar-me [...] Salvai-me!’ (vv. 20.22a). Trata-se de um grito que descerra os céus, porque proclama uma fé, uma certeza que vai mais além de toda a dúvida, de toda a escuridão e de toda a desolação. E a lamentação transforma-se, deixando espaço ao louvor no acolhimento da salvação : ‘Vós respondestes-me. Então, anunciarei o vosso Nome aos meus irmãos, e louvar-vos-ei no meio da assembleia’ (vv. 22c-23). Assim, o Salmo abre-se à ação de graças, ao grande hino final que abrange todo o povo, os fiéis do Senhor, a assembleia litúrgica e as gerações vindouras (cf. vv. 24-32). O Senhor acorreu em ajuda, salvou o pobre e mostrou o seu rosto de misericórdia. Morte e vida cruzaram-se num mistério inseparável, e a vida triunfou; o Deus da salvação manifestou-se como Senhor incontestado, que todos os confins da terra celebrarão e diante do qual todas as famílias dos povos se prostrarão. É a vitória da fé, que pode transformar a morte em dom da vida, o abismo da dor em fonte de esperança.

Caríssimos irmãos e irmãs, este Salmo levou-nos ao Gólgota, aos pés da Cruz de Jesus, para reviver a sua paixão e compartilhar a alegria fecunda da Ressurreição. Portanto, deixemo-nos invadir pela luz do mistério pascal, mesmo na aparente ausência de Deus, também no silêncio de Deus e, como os discípulos de Emaús, aprendamos a discernir a verdadeira realidade, para além das aparências, reconhecendo o caminho da exaltação precisamente na humilhação, e a plena manifestação da vida na morte, na cruz. Assim, depositando toda a nossa confiança e a nossa esperança em Deus Pai, em cada angústia também nós O poderemos suplicar com fé, e o nosso grito de ajuda transformar-se-á em cântico de louvor.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20110914_po.html


sábado, 14 de setembro de 2013

O escândalo do Crucificado

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)

 
 Este artigo foi gentilmente cedido por Dom João Evangelista Kovas, OSB,
monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo.
 
 
No dia 14 de setembro, a Igreja celebra na liturgia a festa da Exaltação da Santa Cruz. Eco dessa festa ressoa na solene celebração litúrgica da Sexta-feira Santa, por ocasião da celebração do Tríduo pascal, ou seja, dos três dias que se celebram de maneira mais intensa os mistérios que rondam a principal celebração litúrgica da Igreja, que é a Solenidade da Páscoa do Senhor. Na celebração da Sexta-feira Santa os fiéis são convidados a adorar a Santa Cruz, o objeto de suplício de Jesus Cristo, mas sinal eficaz de seu sacrifício salvífico em nosso favor. Após a assembléia aclamar solenemente por três vezes aquele é o sinal de nossa salvação, cada fiel é convidado a venerá-lo pessoalmente beijando-o.

A festa do mês de setembro retoma de maneira especial o sentido da cruz do Senhor. A morte de Jesus na cruz é um mistério importante da nossa fé. Desde muito cedo, os cristãos foram reconhecidos por portarem esse sinal sobre si e assim também identificaram os lugares sagrados, nos quais celebravam seu culto comunitário, desde o momento que o cristianismo deixou de ser oficialmente perseguido pelo Império Romano.

Ao escrever à comunidade dos Coríntios, São Paulo diz: “Aprouve a Deus, pela loucura da pregação, salvar aqueles que crêem. Os judeus pedem sinais, os gregos andam em busca da sabedoria, nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que, para os judeus, é escândalo, para os gregos, sabedoria, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, poder de Deus e sabedoria de Deus.” (ICor 1,21.23s). O mistério da visita de Deus à humanidade e da concretização do seu amor por nós está “escondido” no mistério da cruz. O mundo não pôde receber a pregação de um Deus crucificado. Isso atenta contra toda sensatez humana e mesmo depõe contra nós. Para a doutrina da filosofia, Deus só é concebido como um Deus perfeitíssimo, afastado do mundo e de toda preocupação humana. Deus é isolado em sua perfeição. Deus sequer pode ser entendido como criador, porque isso significaria que ele se ocuparia com algo que era inferior a sua perfeição sublime, seria algo indigno de Deus. De fato, filosoficamente falando, não podemos afirmar outra coisa de Deus. Porém os fatos não atestam isso, os fatos da Revelação. Aprouve a Deus manifestar seu grande amor por nós, suas criaturas, as quais Ele preferiu chamar de filhos e de amigos. Deus, que é amor, comunicou o seu amor criando suas criaturas, a fim de que cada qual, segundo o seu grau de perfeição, pudesse participa de algo da perfeição de Deus. E à sua criação ele presta assistência para que possa sempre manifestar a seu modo a glória de Deus.

Assim, desde o Antigo Testamento da Bíblia, encontramos o Deus criador que é também o Deus providente; a partir do Novo Testamente, encontramos o Deus salvador que convida o homem a participar de modo muito particular dessa glória. Estando o ser humano em situação indigna, Deus não se manteve afastado em sua perfeição sublime, mas se achegou a nós e assumiu a figura humilhante do crucificado. Com efeito, nunca mais os cristãos poderiam desdenhar de sinal tão premente do amor de Deus: a cruz.

         Quando fazemos sobre nossos corpos o sinal da cruz, atestamos para o mundo que nosso Deus é o Deus salvador, e invocamos sobre nós a sua bênção. Atestamos que no mundo há injustiças, imoralidades, desamor; que o homem inescrupulosamente se presta a tão torpes atitudes. Mas, o testemunho de Jesus, de sacrifício e auto-oblação, é mais forte do que a morte e a injustiça, pois é o sinal eficaz de que Deus não nos abandonou e que nos quer eternamente junto de si.


 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Exaltação da Santa Cruz

p/ Maria Vanda A, silva
(Ir. Ma. Silvia - obl.osb-sp)






                                                       " Mysterium Crucis"
                                                             Henri de Lubac


                                Qualquer que seja  o dom[inio aonde a sua reflexão o levou, o cristão é sempre reconduzido, como por um peso natural, à contemplação da Cruz.

                                 Todo o mistério do Cristo é um mistério de ressurreiçào, mas taambém um mistério de morte. Um não vai sem o outro, e uma mesma palavra os exprime: Páscoa.  Páscoa é a "passagem". Alquimia de todo ser, separação de alguém consigo mesmo, a qual ninguém pode ter a pretensão de escapar, Negação de todos os valores naturais em seu ser natural, renúncia àquilo mesmo pelo qual o indivíduo se tinha ultrapassado.

                                 Por mais autêntica e pura que seja a visão de unidade que inspira e orienta a atividade do homem, ela deve, portanto, começar por desaparecer, se quiser tornar-se realidade. A grande sombra da cruz deve recobrí-la

                                 A humanidade não se unirá, senão renunciando a tornar-se a si mesmo como fim. No fundo, o homem não quer e não ama a humanidade, senão segundo o mesmo movimento natural em que ele se quer e se ama a si mesmo.  Ora, Deus é essencialmente Aquele que não  admite partilha. Aquele que devemos amar unicamente, sob pena de não o amar E se é verdade  que ninguém amará a humanidade por ela mesma, e não com amor ainda egoísta, senão à medida em que a ama em Deus unicamente amado, esta verdade não nos aparece de início tão evidente, que ela possa suprimir a realidade do sacrifício. O humanismo cristão dever ser um humanismo convertido. De nenhum amor natural passamos, sem mais nem menos, ao amor sobre natural. é preciso que a gente se perca para se reencontrar. Dialética espiritual cujo rigor se impõe à humanidade e a cada indivíduo, isto é, ao meu amor do homem e dos homens e ao meu amor por mim mesmo.  Lei do "êxodo", lei do "êxtase".  Se ninguém deve evadir-se da humanidade, a humanidade inteira deve morrer a si mesma em cada um dos seus membros, para, assim, viver, transfigurada em Deus. Não há fraternidade definitiva, senão numa comum Adoração. "A glória de Deus é o homem vivo"- mas o homem não tem acesso à Vida na única sociedade total capaz de existir, senão pelo "só a Deus a glória".  Tal é a Páscoa universal, que prepara a Cidade de Deus. Pelo Cristo mortoo na Cruz, a humanidade que ele trazia inteira em si, se renuncia e morre.

                               Mas este mistério é mais profundo ainda. Aquele que carregava em si todos os homens, estava abandonado de todos. O Homem universal morreu só. Plenitude da Kênose, isto é, do "aniquilamento", e perfeição do sacrifício. Era necessário esse abandono - e até esse abandono do Pai - para  realizar a reunião.

                               Mistério de solidão e mistério de dilaceramento, sinal único da reunião e da unidade.  Espada sagrada, que vai até a separar a alma do espírito, mas para aí fazer penetrar a Vida Universal: "Ó Tu, que és só entre os sós, e que és tudo em todos".  "Pelo madeiro da Cruz, conclui S. Irineu, a obra do Verbo de Deus se tornou manifesta a todos, suas mãos ali se estenderam para reunir todos os homens. Duas mãos estendias porque há dois povos disperso sobre a terra. Uma só Cabeça no centro, porque há um só Deus acima de todos, no meio de todos e em todos".


                                                                            "In  Catholicisme, Aubier, pg.322-324".
                                         

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Cruz, Sinal dos Cristãos

  Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)


            Este artigo foi gentilmente cedido por Dom João Evangelista Kovas, OSB,
monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo.

                     Em muitos lugares deste nosso imenso Brasil, encontramos uma grande variedade de representações artísticas da cruz de Jesus. Assim que a vemos, logo reconhecemos nela um sinal cristão dos mais fortes. Quando vemos a cruz ostentada sobre o peito de uma pessoa, ela nos indica sua consagração pessoal a Cristo; quando ela alteia o cimo de uma torre, reconhecemos que aquela edificação é uma igreja cristã; quando ela está entronizada em um recinto, é invocado sobre nós o sentimento de proteção divina e de profundo respeito pelas pessoas que ali estão presentes. O que faz da cruz um sinal tão forte para os cristãos, e mesmo para quem não é cristão, um sinal especial de respeito?

                  No dia 14 de setembro, celebramos o dia da Exaltação da Santa Cruz. Uma festa do calendário litúrgico que nos lembra o significado maior da cruz de Cristo.
                        
                   Antes de tudo ela é um sinal, um sinal eficaz de salvação. Por isso, merece ser lembrado e celebrado na liturgia.

                  É conhecida a história do imperador romano Constantino no início do século IV. Certa noite, ele teve um sonho, no qual visualizava a cruz dos cristãos e ouvia uma voz que lhe dizia: “com esse sinal vencerás” (in hoc signo vinces). Ele sabia que se tratava da batalha que ele travaria contras as legiões romanas que se opunham à sua sucessão ao trono. No dia seguinte, ele ordena que os escudos de seus guerreiros fossem pintados com o sinal da cruz. Eles partiram para a batalha e venceram. Sua mãe Santa Helena alguns anos mais tarde vai à Terra Santa juntamente com uma comitiva de peritos, com o intuito de localizar os lugares santos, ou seja, as localidades onde Jesus nasceu, realizou seus mais celebres feitos, foi morto e sepultado. Até hoje é reconhecida a precisão com que Helena e seus peritos localizaram tais lugares. Dentre suas façanhas na Terra Santa, está a localização de uma cruz romana, a qual foi atribuída ser o objeto de suplício de Jesus Cristo. É difícil atribuir-lhe autenticidade histórica, porém o fato foi significativo, despertando ainda mais os fiéis cristãos ao reconhecimento da importância da cruz, como já salientavam amplamente as Sagradas Escrituras. A partir desse fato, a celebração da Exaltação da Cruz não tardou a entrar no calendário litúrgico.

                   A história acima narrada ilustra algo do significado da cruz de Jesus. Paulo diz à comunidade dos coríntios que ele não anunciou a sabedoria segundo a filosofia dos gregos, nem os grandes sinais de Deus segundo a piedade judaica, mas Cristo crucificado: “loucura para os gregos e escândalo para os judeus” (I Cor 1,23).

                  O Cristo crucificado é a expressão maior da sabedoria de Deus e o maior sinal de Deus para a humanidade. Em sua cruz, Jesus “crucifica” todos os procedimentos embusteiros do mundo: sua injustiça, seu apego às aparências falsas, sua segurança nas riquezas materiais.

                  A denúncia da cruz de Jesus é, ao mesmo tempo, denúncia do pecado do mundo e anúncio do amor de Deus em favor de todos aqueles que desejam viver conforme a justiça de Deus. Para nós cristãos, a cruz é um sinal eficaz a nos lembrar que não queremos fazer parte das obras desse mundo mundano e do príncipe desse mundo, o demônio.

                  Mas, livres do pecado, vivemos na alegria dos filhos de Deus, os quais sabem separar o bem do mal, ficar com o bem e renunciar ao mal. Assumimos a missão com Jesus de promover a justiça e a paz, desterrar toda injustiça e abrir o caminho para a verdadeira caridade. Continuar a anunciar o Cristo crucificado, escândalo para muitos, porém salvação para todos os que reconhecem em Jesus a maior dádiva de Deus Pai para todos os povos.

                   Por isso, não nos enganemos! A cruz é sinal de suplício de Jesus, sua morte injusta. Isso é o resultado das ações dos homens, quando a vaidade e a falta de amor mandam em nós. Contudo, aqueles que reconhecem e meditam no sinal da cruz, descobrem o sinal da ação silenciosa de Deus a nos redimir de todo esse mal.

                   Aqueles que impõem a cruz sobre si são merecedores de participar da ressurreição de Jesus: poder salvador de Deus em favor de todos os seres humanos.