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domingo, 17 de dezembro de 2023

O fascinante simbolismo do incenso, o perfume do sol

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Michael Rennier, sacerdote católico ordenado através da Provisão Pastoral para ex-clérigos episcopais que foi criado pelo Papa São João Paulo II


Eu adoro pesquisar vídeos on-line de monges fazendo incenso com suas receitas supersecretas e especiais que foram transmitidas de irmão para irmão nos mosteiros desde tempos desconhecidos. O cuidado com que eles o fabricam revela o quão especial o incenso realmente é e quão vital se configura para a nossa adoração. 

É um processo pacífico e sagrado ver um monge misturando incenso silenciosamente em algum anexo do mosteiro. Quando o queimo no altar durante a Missa, sempre aprecio o resultado.

A fragrância calmante e o efeito que ele causa em quem sente o seu cheiro são difíceis de explicar. Quando estou na Missa, meus batimentos cardíacos diminuem um pouco e o peso do mundo sai dos meus ombros. Uma igreja com incenso no ar é ofuscada, delimitada como espaço sagrado. As pedras exalam o perfume de inúmeras Missas. É a fragrância da oração.

A adoração sagrada envolve todos os nossos sentidos, incluindo o olfato. O odor numa igreja católica parece um pequeno detalhe, mas ainda me lembro da vez em que uma criança entrou na nossa igreja com a sua mãe e, assim que cruzaram a soleira, sussurrou-lhe com entusiasmo ao ouvido : ‘Aqui cheira à igreja!’

Nós nos envolvemos na adoração com todo o nosso ser – visão, paladar, tato, audição e olfato. A beleza penetra em nossa alma e é internalizada. Nós também devemos ‘cheirar à igreja’ através das nossas ações no dia a dia.

O que o incenso simboliza?

Existem várias maneiras de explicar o simbolismo do incenso. O mais simples é notar que é um sinal visível de orações subindo ao nosso Pai Celestial. Literalmente vemos o incenso consumido no fogo e subindo até Deus como uma coluna de fumaça. 

No entanto, o incenso é muito mais do que uma oração tornada visível. É um sacrifício. Se você já assistiu aqueles vídeos de monges preparando-o, você testemunhou como ele é reduzido a pedaços com almofariz e pilão. É esmagado. Depois, no altar, é totalmente queimado.

Na antiga aliança, Deus ordenou a construção de um altar especificamente dedicado à queima de incenso (Êxodo 30,1). Os sacerdotes queimavam incenso neste altar duas vezes por dia, uma vez pela manhã e outra à noite. Uma vez por ano, o incenso também era uma parte obrigatória do sacrifício expiatório. A expiação é a oferta que Cristo cumpre na Cruz. É a oferta para o perdão dos pecados.

É precisamente por isso que é louvável queimar incenso durante o Santo Sacrifício da Missa todos os domingos. O incenso está presente nos sacrifícios do Templo e também na adoração celestial, por isso é justo que o utilizemos em nossa adoração atual.

Adoração que penetra no coração

Lembre-se, a adoração não é apenas uma ação exterior. Sempre vai ao coração. São Gregório Magno encoraja-nos a pensar nos nossos corações como altares onde podemos queimar incenso. Devemos exalar doces fragrâncias diante de Deus.

Nunca devemos esquecer, porém, que o sacrifício é de Nosso Senhor e estamos apenas nos unindo a ele. É aqui que o simbolismo do incenso se torna realmente interessante

Por que o incenso é o ‘perfume do sol’

Jean Hani, em seu livro ‘The Symbolism of the Christian Temple’, escreve : ‘o incenso é o perfume do sol’. Isso porque o incenso é uma resina criada pela árvore de olíbano em cooperação com a ação da luz solar. Quando você pega um pouquinho de incenso entre os dedos e o levanta para o céu, ele fica de cor âmbar, transparente e refrata a luz do sol. É quase como um pedaço de luz cristalizada.

Os antigos acreditavam que o incenso nasce do sol, nasce do fogo. Também morre pelo fogo quando consumido no altar. Um grão de incenso é um pedaço de terra transformado em céu pela ação de ser sacrificado. A humanidade sofre esta mesma transformação na Cruz. Nosso Senhor une a si a humilde humanidade e, como nosso representante, faz um sacrifício perfeito. Ele nos eleva ao Céu através da graça. Isto é, se fizermos da nossa vida um sacrifício junto com ele.

Durante anos, quando meus paroquianos perguntavam por que eu fazia um movimento circular com o turíbulo em torno do pão e do vinho durante a Missa, eu encolhia os ombros. Eu não sabia. Simplesmente incensava o altar como mostram os diagramas dos livros de liturgia. Agora entendo que o círculo traça a forma do sol.

O movimento circular é precedido pelo ato de incensar os presentes com o sinal da cruz três vezes. Inscrever o crucifixo sobre o pão e o vinho indica que os efeitos da Cruz viajarão até os confins da terra – leste, oeste, norte e sul – e o movimento circular é feito ao redor da área onde as cruzes foram feitas. O amor de Cristo preencherá tudo entre o nascer e o pôr do sol. Na verdade, ele é aquele sol nascente. Ele é a luz do mundo.

Um sinal visível

Em muitas igrejas antigas, o incenso sacrificado no altar flutua até a pedra angular do arco acima dele. É uma escada para o Céu, um sinal visível de que a terra está sendo redimida, elevada como oferenda ao Pai. Cristo é essa linha vertical. Ele está na pedra fundamental do altar e também na pedra angular do telhado do mundo. Na verdade, sua luz viaja através daquele teto, passando pelo sol e outras estrelas até o reino celestial.

Quanto mais compreendo os mistérios da liturgia, mais ela se enquadra num todo belo e harmonioso. Os símbolos da Missa podem ser difíceis de entender. Muitas das tradições da Igreja são sombriamente misteriosas. Mas, no centro de tudo isso, Cristo brilha intensamente, como o sol.’

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/12/07/o-fascinante-simbolismo-do-incenso-o-perfume-do-sol/


domingo, 27 de agosto de 2023

Os debates sobre a Eucaristia e a nossa mentalidade contemporânea

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


‘Muitos anos atrás, um sacerdote já idoso, homem de grande santidade, foi dar a comunhão a meu filho pequeno, que estava doente. Na hora, minha filha mais nova ficou olhando fixamente para o irmão que comungava. O padre perguntou-lhe se ela queria comungar e se sabia o que era aquele pãozinho. Ela respondeu que queria e que o pãozinho era o Jesus.

O sacerdote, então, me explicou que ele havia sido formado antes do Concílio Vaticano II, estava ciente que hoje em dia se valoriza muito a formação e o conhecimento que a criança tem na hora que faz a primeira comunhão, mas ele, como sacerdote, devia ministrar os sacramentos segundo a vontade de Deus. Se a menina, mesmo pequena, sabia que a hóstia consagrada era Cristo e queria comungar, era porque o próprio Jesus queria se dar a ela. Cabia a ele, como sacerdote, cumprir a vontade do Senhor e ministrar-lhe a comunhão naquele momento. A mim, como pai, cabia providenciar a adequada formação dela, assim que tivesse a idade certa, para que fizesse a primeira comunhão junto com as demais crianças.

Um acontecimento recente, fez com que eu me recordasse desse caso. Aliás, ele me volta à mente sempre que ouço algum debate acalorado ou escandalizado sobre a forma adequada de se comungar, recebendo a hóstia na mão ou na boca, de pé ou de joelhos, em uma (só pão) ou duas espécies (pão e vinho). Não é minha função aqui entrar num debate sobre normas litúrgicas, mas essas discussões podem ser a manifestação de uma mentalidade contemporânea, bem pouco católica, mesmo quando a intenção é a mais pia possível.

Maravilhar-se diante dos sinais de Deus

Volto à lógica do velho sacerdote : não cabia a ele julgar como Deus queria que as coisas acontecessem, devia apenas estar atento aos sinais que Ele enviava, para melhor obedecê-Lo. A ação divina sempre tem algo de surpreendente aos nossos olhos, não podemos querer encerrá-la em nossos esquemas – e podemos reduzir até mesmo os ensinamentos da Igreja segundo nossos esquemas. O respeito devido a Deus não se manifesta, em primeiro lugar, numa subordinação às normas, mas sim na abertura obediente aos Seus sinais no mundo (sinais esses que frequentemente passam pelas normas, mas sempre as transcendem).

A mentalidade contemporânea nos torna cada vez menos capazes de contemplar a ação de Deus no mundo. A própria religião frequentemente torna-se uma construção humana, que parte de princípios, ritos e preceitos criados pelos religiosos. A forma pela qual vivemos o cristianismo passa a ser uma característica identitária nossa e nos escandalizamos quando alguém vive o mesmo cristianismo de um modo diverso. Insisto que, aqui, não estou me detendo na questão de qual é o modo certo (ou mais certo) de praticar a doutrina católica, mas sim na perda da capacidade de se abandonar ao mistério de Deus no mundo, seja qual for a forma com a qual se apresente a nós em determinada situação.

Os sacramentos são sinais sensíveis da ação de Cristo, por meio de sua Igreja (Catecismo da Igreja Católica, CIC 1084). Compreendê-los e vivê-los dignamente implica sem dúvida no respeito às normas e procedimentos que a autoridade eclesial estabelece – mas, antes disso, somos chamados a reconhecer que é Deus agindo em sua misericórdia para conosco. Sem a gratidão maravilhada pela obra do Senhor em toda a criação e em nossa vida, podemos seguir à risca os preceitos, mas ainda não estaremos nos entregando efetivamente ao Seu amor.

Quem vê o mundo com os olhos do velho sacerdote do início desse texto, com certeza procura seguir os preceitos da Igreja da melhor forma que consegue, mas vive essa obediência com absoluta liberdade e amor. Para tal pessoa, a realidade é sempre mais leve e luminosa, pois está verdadeiramente se entregando Àquele que é manso e humilde de coração, que propõe um jugo suave e um fardo leve (Mt 11, 29-30).

A liberdade dos que se submetem ao Senhor

A autoridade religiosa à qual os católicos devem prestar obediência é constituída pelo Papa em comunhão com os bispos (cf. CIC 874ss). Frequentemente, no entanto, encontramos fiéis que preferem seguir essa ou aquela indicação de determinado padre ou líder religioso do que seguir as indicações da autoridade eclesial.

No fundo, trata-se de uma dúvida sobre a própria presença de Deus em sua Igreja. Quando o fiel prefere seguir uma liderança particular, ao invés da autoridade eclesial, está indiretamente duvidando da própria presença de Deus em sua Igreja – e que, portanto, pode agir segundo os seus próprios critérios (frequentemente até mais rígidos do que aqueles da Igreja, que sempre procura abraçar e acolher a todos).

Mas a hierarquia também não pode errar? Sim, pode, mais ainda quando pensamos na conduta pessoal de um sacerdote ou de um bispo, seres humanos falíveis como todos nós. Devemos procurar sempre a verdade e a conduta justa, isso também é verdade. Contudo, existem formas adequadas e formas inadequadas de fazer as coisas.

Se Deus age no mundo e na Sua Igreja, nosso primeiro objetivo é encontrar os sinais da Sua presença e da Sua vontade – e isso diz respeito à nossa santidade e não à santidade dos outros. Quando ficamos mais preocupados em dizer que os outros estão errados do que em saber como nós mesmos podemos fazer certo, alguma coisa está errada em nós…

A seguir, se percebemos claramente um erro na comunidade e/ou na hierarquia, devemos nos comprometer a dar um testemunho cada vez mais luminoso, pois é a luz de nosso testemunho (e não a raiva de nossos juízos) que ajudarão nossos irmãos a serem melhores.

Deus faz maravilhas e não deixa que aquele que deseja segui-Lo sinceramente se perca, por mais voltas e desvios faça. Era com essa tranquila liberdade que aquele sacerdote decidiu dar a comunhão para minha filhinha. Muitos anos depois, só posso atestar que ele estava certo.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/08/27/os-debates-sobre-a-eucaristia-e-a-nossa-mentalidade-contemporanea/

quinta-feira, 18 de março de 2021

Basílica de São Paulo Fora dos Muros: um sinal de conversão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Marinella Bandini,

Jornalista


‘A Basílica de São Paulo Fora dos Muros fica sobre o túmulo de São Paulo, martirizado em Roma em 67. No local de sua morte foi erguida outra basílica em sua homenagem e há também a Abadia das Três Fontes – assim batizada devido à tradição que diz que fontes de água surgiram do chão após os três saltos da cabeça de Paulo ao ser cortada de seu corpo.

O primeiro núcleo da basílica de São Paulo Fora dos Muros foi uma pequena igreja construída por Constantino. Foi ampliada em 384 pelos ‘três imperadores’ –  Valentiniano II, Teodósio e Arcadio – , e sobreviveu até o incêndio de 1823. Depois foi reconstruída em estilo neoclássico, mantendo-se fiel à estrutura original.

Por mais de 1300 anos, os monges beneditinos têm sido os guardiões do lugar. Hoje em dia, o carisma beneditino está entrelaçado com o ecumênico. Entre as iniciativas mais conhecidas estão o Colóquio Ecumênico Paulino e a Semana da Unidade Cristã, que termina no dia 25 de janeiro, e a Festa da Conversão de São Paulo. Desde 2008, o início do Ano Paulino, com a chama paulina, acesa por monges, permanece acesa no átrio da basílica.

No passado, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, realizava-se o terceiro escrutínio dos aspirantes ao Batismo. No lugar dedicado ao apóstolo convertido no caminho de Damasco, pela primeira vez os catecúmenos escutaram a palavra de Deus num serviço litúrgico, chamado ‘in aperitione aurium’ : num sentido espiritual, seus ouvidos foram abertos à palavra da vida eterna.

Como São Paulo e os catecúmenos, renovemos nosso caminho de conversão :

Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vidaJoão 5, 24.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/03/17/basilica-de-sao-paulo-fora-dos-muros-um-sinal-de-conversao/

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Sinais de vida e esperança

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

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*Artigo da Irmã Flor de Maria Decelis,

Missionária Comboniana 

Uma comunidade internacional de missionárias combonianas desenvolve na Zâmbia iniciativas de evangelização e promoção humana integral, projetos que permitem às pessoas desenvolver as suas capacidades e sonhar com uma vida melhor.


‘A nossa comunidade de combonianas de Mongu, na Zâmbia, é constituída por seis missionárias de quatro nacionalidades : Omaira (Colômbia), Anns (Índia), Evette (EUA) e três mexicanas (Maru, Sonia e Flor de Maria).

Na missão temos muitas tarefas e responsabilidades no campo social e pastoral. Participamos na pastoral catequética, acompanhamos os jovens da diocese e da paróquia, na pastoral da saúde e da mulher na paróquia de Santa Ágata. Também colaboramos com as iniciativas de espiritualidade e cuidado da criação no âmbito local e nacional.

Além disso, cooperamos num projeto de promoção social chamado «Mãe Terra», que se iniciou há uns anos e visa apoiar os agricultores desta região na produção de moringa, uma planta medicinal. O processo para conseguir a certificação sanitária que lhes permitisse processar, embalar e vender o pó de moringa desenvolveu-se muito lentamente e não foi fácil. São muitos os requisitos exigidos e os custos econômicos são elevados, com muitas taxas para pagar. Mas, finalmente, há algumas semanas, obtiveram a autorização oficial que permite à associação comercializar o produto no país e no estrangeiro.

Neste projeto do pó de moringa participam os agricultores associados, que recebem constantemente capacitação em agricultura, nutrição e administração. 

Outro desafio que se procura superar relaciona-se com a situação de seca, tão comum nestas regiões, que provoca colheitas muito fracas e escassas. Assim, procura-se apoiar os agricultores, ajudando-os a conseguir os adubos a baixo preço e bombas de água para regar as árvores, mas ainda falta que o apoio chegue aos lugares mais distantes.

Promoção integral da mulher

Eu participo nos projetos de promoção da mulher na paróquia de Santa Ágata. Com a ajuda de amigos e benfeitores, pudemos construir um pequeno centro. No local iniciaram-se pequenos cursos básicos de corte e costura, informática, etc. Também não faltam os cursos em que se ensina a ler e escrever na sua língua local e inglês, o idioma oficial. São as mulheres as responsáveis na organização dessas capacitações. As senhoras mais preparadas partilham os seus conhecimentos com as outras mulheres, que não tiveram as mesmas possibilidades de desenvolvimento técnico-profissional. Assim, muitas mulheres, com os conhecimentos adquiridos podem dar uma reviravolta às suas vidas e pensar num futuro melhor para elas e as suas famílias.

No centro promovem-se também outras iniciativas que ajudam no crescimento humano, espiritual e económico das mulheres. Por exemplo, organizam-se cursos em que se instrui como preparar a terra para o cultivo de árvores e plantas ou como fazer carvão fabricado em casa com materiais recicláveis. Também se fomenta a participação em campanhas de conscientização ecológica e de saúde.

Testemunhas de Jesus

Há onze anos, quando cheguei a Mongu, era uma povoação pequena. Agora está a desenvolver-se graças à Igreja e a outras entidades que estão aqui presentes.

As comunidades cristãs são entusiastas e, desde as propostas do Evangelho, procuram responder a esta realidade concreta, cheia de desafios. No final do ano passado constituiu-se na nossa paróquia um novo conselho pastoral e estabeleceram-se novos objetivos, projetos e sonhos para as comunidades eclesiais e os grupos laicais.  

 Mas também há outros sinais de esperança na missão. Um dia, ao visitar uma comunidade numa zona rural, conheci a Astrid. Ela acompanhava com amor e espírito de liderança um grupo de mulheres. Mas no seu coração carregava uma grande dor : o seu marido bebia demasiado. No entanto, ela educou todos os filhos, dando-lhes a possibilidade de irem à escola. Um dia, o Senhor chamou-a para o seu seio e, surpreendentemente, o marido mudou e deixou de beber álcool. Tempos depois, ao visitar a comunidade cristã com outras companheiras, ele apresentou-nos um grupo de 40 crianças de diversas idades, para as quais tinha iniciado uma pré-escola. Ajudava também os que, por diferentes motivos, tinham abandonado o ensino a que regularizassem a sua situação e regressassem à escola. Um dos seus filhos tinha-se juntado ao projeto e animava as crianças a estudar e aprender.

Na missão testemunhamos a fé em Jesus e experimentamos, igualmente, a alegria de conviver com as pessoas, partilhar as suas dores e fracassos e colaborar na construção de um futuro melhor para todos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/355/sinais-de-vida-e-esperanca/

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Sinal do amor de deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘A Irmã Joana Sofia Carneiro é originária da paróquia da Póvoa de Santo Adrião e Olival de Basto (Lisboa). Nasceu no seio de uma família católica e desde sempre esteve envolvida nas diversas atividades paroquiais. Durante os anos de estudo começou a crescer nela o desejo de ser médica. «O gosto pelo estudo e sobretudo pela arquitetura do organismo humano motivaram a que me empenhasse para alcançar este objetivo. E, nesse momento, quando consegui entrar na Faculdade de Medicina, pensei que tinha alcançado o que Deus queria para mim e considerei a medicina como a minha vocação primordial. Contudo, Deus sonha sempre mais alto para cada um de nós e desejava, para mim, algo mais belo, mais radical, mais abundante», refere a missionária comboniana.

Caminho missionário

Quando ainda estudava na universidade, a irmã Joana conheceu as Missionárias Combonianas. «O que me cativou mais foi a profunda alegria que transmitiam quando falavam da sua vida partilhada com os mais pobres. Se, ao princípio, esta vocação missionária me pareceu longínqua e inalcançável, a presença destas irmãs fez-me questionar muito a coerência com que vivia a minha fé cristã.»

«Após anos intensos de procura, senti que Deus me chamava a comprometer-me mais seriamente com o meu projeto vocacional. E assim, sentindo fortemente o chamamento a ser missionária comboniana, uma vez terminado o curso de Medicina, comecei as etapas de formação religiosa», refere a irmã.

Convencida da sua decisão, a irmã Joana viajou para Granada, Espanha, para ingressar no Postulantado – a primeira etapa de formação para a vida consagrada e de contato com a forma de vida orante, comunitária e apostólica de uma missionária comboniana. Em seguida, para fazer o Noviciado, teve de deixar o continente que a viu nascer e partir para o Equador, na América do Sul. Transcorridos dois anos, fez a sua consagração religiosa e viajou para a Escócia para melhorar o inglês e, posteriormente, para a Jordânia, para aprender a língua árabe. Nesse país fez uma «bela experiência de encontro com a realidade dos refugiados e migrantes que lá se encontram, fruto das inúmeras guerras que ainda se travam na região que é considerada Terra Santa pelas três principais religiões mundiais : Judaísmo, Islamismo e Cristianismo».

Depois do tempo dedicado ao aperfeiçoamento da língua árabe, a irmã Joana viajou para o Sudão do Sul.

Sinais da Ressurreição

A irmã Joana encontra-se há pouco mais de um ano em Wau, uma pequena cidade do Sudão do Sul. O seu principal apostolado é o serviço alegre e dedicado no campo da saúde. De facto, as Irmãs Missionárias Combonianas são responsáveis pela administração de dois hospitais diocesanos – Nzara, próximo de Yambio, e Wau.

O Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, tem atravessado momentos de grande tensão por causa dos conflitos tribais e devido a todos aqueles que, aproveitando-se da situação, levam as riquezas do país, nomeadamente as petrolíferas, abandonando-o às lutas internas com graves consequências para todo o povo.

«Os que mais sofrem são sempre as crianças e as mulheres. Como gostaria que vissem os seus rostos! Cada pessoa precisa de ser acompanhada com muito cuidado e amor, na esperança que um dia possamos dar melhores notícias deste país, infelizmente sempre associado às guerras, aos conflitos, às tensões, aos refugiados e aos mortos», comenta a irmã Joana.

No desempenho do seu labor quotidiano a irmã lembra a atitude do Papa Francisco, que nos «deu o mesmo poderoso e interpelante exemplo de Jesus ao beijar os pés do presidente do Sudão do Sul e de outros membros da oposição : aqueles que têm autoridade devem servir, ao ponto de lavar e beijar os pés dos mais pobres, dos mais pequenos, pelo simples fato de serem nossos irmãos e irmãs». É esse exemplo, refere a religiosa, «que me sinto chamada a imitar em cada dia tratando cada pessoa que chega ao nosso hospital, necessitada de todo o gênero de cuidados».

As condições em que a missionária trabalha são precárias e, por isso, «enfrenta-se com grande dificuldade em oferecer as condições para um melhor serviço médico». No entanto, «com a ajuda de Deus vamos caminhando, dia após dia, procurando aliviar o sofrimento permanecendo junto da Cruz como Maria, a Mãe de Jesus. Por isso – sublinha a irmã Joana –, os pequenos sinais de ressurreição são muito importantes. O mistério da fé que celebramos todos os dias é um convite a prestar atenção aos pequenos sinais de vida, pois são os pequenos e sutis sinais que apontam para a possibilidade da Vida nova».’


Fonte :

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Como Deus age através dos sinais sagrados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 GOD THE FATHER
*Artigo de Fábio Nunes, 


‘Muitos são os significados para a palavra sinal. Se procurarmos em um dicionário o que significa o verbete sinal, tem-se como definição ‘coisa que chama outra à memória, que recorda, que faz lembrar’, obtém-se também o sentido de ‘indício’; ‘vestígio’; ‘rastro’; ‘traço’; além disso, pode significar uma ‘marca distintiva’. Então, partindo desses conceitos de cunho secular, veremos que sinal sagrado vai além de uma representação.

No ambiente religioso, o sinal sagrado também pode ser utilizado de várias formas e em diversas situações, como, por exemplo, os sinais no Antigo Testamento, os símbolos litúrgicos, os Sacramentos e os sinais que expressam as realidades espirituais.

A Igreja faz uso dos sacramentais que, também, são sinais. E, na Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium, fica claro a sua finalidade : ‘[…] São sinais sagrados, pelos quais, à imitação dos Sacramentos, são significados efeitos principalmente espirituais obtidos pela impetração da Igreja. Pelos sacramentais os homens os homens se dispõem a receber o efeito principal dos sacramentos e são santificados as diversas circunstâncias da vida’ (n. 60).

A seguir, veremos um pouco do que cada realidade quer expressar, mas notar-se-á que em nenhuma deixará de ter um sentido comum, que é levar o homem a Deus.

O homem necessita de sinais e de símbolos

O homem é, ao mesmo tempo, um ser espiritual e um ser corporal, por isso, as necessidades são tanto corporais como espirituais. Da mesma forma que precisamos alimentar o corpo, cuidar da saúde, precisamos cuidar da alma, por meio da oração e da busca de Deus. Os sinais são meios para que possamos manter a comunicação com o corpo e, ao termos o conhecimento do significado espiritual desses sinais, comunicamos também com a nossa alma.

Na vida humana, sinais e símbolos ocupam um lugar importante. O Catecismo da Igreja Católica vai nos falar o que os sinais sensíveis podem realizar na vida do homem : ‘Enquanto criaturas, essas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão da ação de Deus que santifica os homens, e da ação dos homens que prestam seu culto a Deus’ (CIC, 1148). Para o fiel crente, os sinais sagrados são os exercícios da sua fé e auxílio no culto divino.

Símbolos do Antigo Testamento

O povo de Israel era constantemente orientado por sinais que representavam a presença de Deus e a Sua manifestação. O livro do Êxodo narra que ‘Quando Moisés subiu ao monte, a nuvem cobriu o monte. A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias’(cf. Ex 24,15-16). A nuvem era o sinal pelo qual o povo de Israel tinha a certeza de que Deus estava atuando naquele momento, era a presença de Deus no meio deles.

A nuvem ora escura, ora luminosa revela o Deus vivo e salvador. A nuvem, por muitas vezes citada nos textos do Antigo Testamento, representa a presença de Deus, como podemos ver na passagem em que Moisés está sobre o Sinai e a glória de Iahweh pousa sobre o monte, cobrindo toda a montanha (cf. Ex 24,15-18). Também, quando Moisés entrava na Tenda do Encontro e a coluna de nuvem parava na entrada da Tenda, e ali Deus falava com o seu servo faca a face (cf. Ex 33,9-11). Como podemos perceber, muitas são as manifestações de Deus por meio dos sinais para falar com o seu povo.

Símbolos e Sinais litúrgicos

A celebração na qual o cristão participa é repleta de sinais e símbolos que, segundo a pedagogia de Deus, são meios de Deus chegar aos homens, sendo, os homens, seres corporais e espirituais como foi dito anteriormente. Em toda a Liturgia sacramental, os símbolos fazem referência à criação, como a luz, o fogo e a água; referem-se também à vida humana, como lavar, ungir, partir o pão; por fim, representam ao mesmo tempo a história da salvação no rito da Páscoa (CIC 1189).

Estão também, na mesma esfera, as imagens sacras que, assim como os itens da celebração liturgia, são relativos a Cristo. As imagens de Nossa Senhora e dos santos servem de sinais para comunicar ao povo de Deus a ação de Cristo na vida de tantos homens e mulheres, que a Igreja reconheceu como verdadeiros cristãos. Todas essas formas são manifestações de Deus que a Igreja usa para comunicar algo; normalmente, são a graça e a presença do próprio Deus agindo no povo.

Sacramentos como sinais

Os sacramentos são verdadeiramente sinais sagrados, por meio deles o Espírito Santo realiza a santificação. A Igreja, em sua sabedoria, dá todo um sentido espiritual e enriquecem os sinais naturais : ‘Os sacramentos da Igreja não abolem, antes purificam e integram toda a riqueza dos sinais e dos símbolos do cosmos e da vida social’ (CIC 1152).

A Igreja realiza, por meio dos sacramentos, a santificação dos homens e a edificação da própria Igreja, que é corpo místico de Cristo. Deus age por meio dos sacramentos que são sinais eficazes da graça de Deus, instituídos por Cristo e confiados à Sua Igreja, pela qual é dispensada a vida divina (CIC 1131).

Os sinais servem para entender e expressar as realidades espirituais. É Deus quem fala aos homens por meio de sinais visíveis da criação. Deus comunica, por meio do cosmo, para que cada homem veja os vestígios do Seu criador. Esses sinais sensíveis tornam-se o lugar da ação de Deus (CIC 1148).

Por fim, após essa explanação de maneiras, situações, meios e ‘artifícios’ que Deus, muitas vezes, usa para comunicar, a nós, a sua graça, fica claro que : o nosso Deus (conhecendo o coração humano e a necessidade do homem) usa dos vários sinais para salvar. Deus conhece a nossa pouca fé, como expressaram os apóstolos : ‘Senhor, aumenta em nós a fé’ (Lc 17,5). Os sinais se fazem necessários para que, com a pouca fé, possamos dar passos em direção a Deus. O homem carece de sensibilidade e, portanto, Deus age pelos muitos sinais para ganhar a todos’.’


Fonte :

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Os esconderijos de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo do Padre António Rego,
Missionário Comboniano


‘Do futuro tudo se pode dizer. O tempo esconde sinuosidades, surpresas, acontecimentos festivos e tragédias. Mas também desgastes, desperdícios, arranha-céus e barracas, prémios Nobel, criminosos e heróis desconhecidos. E nós, no escalão social e eclesial em que nos encontramos, seguimos, segundo a nossa capacidade de rejuvenescer ou de nos conformarmos com a mediocridade que nos pode oferecer um caminho com menos custos dentro daquele que já nos custa percorrer.
Mas não vamos sós. Mesmo nos nossos cansaços temos quem vai ao nosso lado, suba, recomece, crie, ressurja das cinzas, vença a fragilidade e o pecado. E, por sermos cristãos e não deixarmos arrefecer a nossa entrega, temos tempo e espaço para a invenção, a conversão e para escrevermos e dizermos sempre algo de novo, para redescobrirmos o Evangelho cada dia, para nos levantarmos de cada queda e olharmos para o lado oferecendo amparo, dando esperança, ajudando a levantar tantos caídos que também nos ajudam nas nossas quedas. A ascese cristã sempre nos estimula a mais um passo, a prosseguir a subida, sentir a luz que vem de cima, fixar os olhos no Mestre que nos chama e deixar estrelas sobre a estrada. Os nossos passos, as nossas palavras, o nosso exemplo, não caem em terra seca, acordaram outros para subir, prosseguir, purificar, amparar, anunciar.
Que bom seria se cada dia fosse o cumprimento simples deste programa que parece complexo, mas reveste a nossa pele a ponto de já o cumprirmos com naturalidade que faz parte da nossa essência.
Apetece-nos sempre perguntar : como se encaixa esta crônica quase angélica na realidade que somos, na dualidade das palavras que usamos, nos tempos mortos da nossa oração, nas quezílias que tantas vezes temperam as nossas relações com os outros, nos tronos e altares que erguemos ao nosso ego, no desprezo ou esquecimento que alimentamos pelos outros?
É nesta dualidade que vivemos, de santos e pecadores, apóstolos e indiferentes, com momentos fortes de interioridade e tempos vazios e inoperantes, gestos destemidos de dádiva e cobardias de egoísmo acumulado.
A tudo isto acresce que não estamos sós. Nem somos apenas dois ou três. As nossas vidas passam-se em comunidade, comunidades múltiplas onde as nossas subidas e quedas são gestos de multidão que professa a mesma fé, parte do mesmo baptismo e está a caminho da mesma Luz, inspirada e animada pelo nosso Mestre, que é a nossa referência constante. É nossa missão acolher e potenciar as energias que ele nos concede e a comunidade que nos estimula e confirma. É nesta direção que todos somos enviados, movendo, ensinando e aprendendo o caminho sempre novo que o Mestre nos indica. Sem nunca perder de vista os sinais dos tempos, a originalidade de cada época, os novos caminhos que sempre se abrem, as surpresas que nos deixam aqueles que não fazem parte do nosso itinerário, nem proclamam a vida com as nossas palavras, nem manifestam sinais de fé. E, todavia, muito têm para nos ensinar por uma escrita única que Deus deixou em cada ser humano. Para O anunciar, urge procurá-lo nestes circuitos tortuosos e desconcertantes em que Deus se encontra onde menos se espera. É nossa missão não apenas proclamá-lo, mas procurá-lo aí, insuspeitamente escondido no manto espesso de cada tempo.’

Fonte :


domingo, 15 de outubro de 2017

Sinais de vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo da Irmã Joana Sofia Carneiro,
Missionária Comboniana


‘Aqui em Amã (Jordânia), além das minhas aulas de árabe, ajudo alguns refugiados na prática do seu inglês. Graças a Deus existem espaços de diálogo ecumênico e inter-religioso onde realizamos atividades, como, por exemplo, a biblioteca organizada pelas irmãs seculares da associação espanhola Poveda.

Testemunhas de Jesus
A maioria dos refugiados que se encontram neste lugar vem do Iraque e da Síria. Eles tiveram de fugir da guerra, de maneira que a Jordânia é para eles um lugar de passagem até que consigam ter a oportunidade de partir para outro lugar onde possam viver em paz. O processo de espera pela autorização de um país que os recebe é muito lento, motivo pelo qual muitos deles permanecem aqui por vários anos. Na Jordânia os refugiados não estão autorizados a trabalhar e várias gerações ficam paradas. Os jovens não estudam por falta de meios econômicos, as propinas da universidade são muito elevadas. Não obstante todas estas situações difíceis, eles não desesperam, antes pelo contrário, são um verdadeiro testemunho de esperança em Jesus e sabem ser conhecidos, amados e protegidos pelo Bom Pastor que toma conta deles. Eles são os verdadeiros crentes. Isto é maravilhoso! É só ver a grande comunidade dos iraquianos cristãos a celebrar a Eucaristia aqui em Amã, todos os domingos à tarde. Eles cantam, rezam, estão em paz porque sabem que aqui não cairá nenhuma bomba que lhes pode destruir a casa.

Famílias de refugiados
Além das horas que fico na biblioteca vou visitar algumas famílias com a irmã Pierina.
A maioria das famílias são provenientes do Iraque, da Síria e também do Sudão. Lamentavelmente, as famílias provenientes da África são as mais pobres. Elas não têm direito ao estatuto de refugiados porque, oficialmente, no Sudão não há guerra, embora todo o mundo saiba que a situação do Sudão é uma das mais terríveis. A nossa memória é curta quando não vivemos estas situações na nossa própria carne. Há dias, fomos visitar uma família sudanesa, um casal jovem, com três gêmeos. O meu primeiro pensamento, confesso, foi de fria lógica humana. «Se não conseguem alimentar-se a eles próprios, que farão com três crianças?» Mas, depois, rezando, consegui perceber toda a força do nosso Deus que sempre tem respostas de vida em abundância para todos, apesar da guerra e da violência que são os frutos do nosso egoísmo
Esta maneira de agir do nosso Deus vejo-a encarnada na Irmã Pierina. As visitas que fazemos juntas parecem insignificantes e pequenas, a nossa ajuda simplesmente inútil, segundo os critérios humanos. Mas, são estes gestos, repletos de compaixão e de esperança, que fazem toda a diferença.
Através da nossa insignificância, Deus cuida destes irmãos vulneráveis. Acredito que só através da nossa intimidade com o Senhor seremos sinais de luz e de vida.
Por favor, continuem a rezar por nós e, sobretudo, por todos os que, neste mundo, mais precisam da luz de Jesus. E, por favor, se virem alguém chegar do estrangeiro, não lhe virem as costas! O nosso planeta está a passar por um momento muito difícil, milhões de pessoas são obrigadas a abandonar tudo por razões que as ultrapassam...Somos instrumentos de paz, de acolhimento e de reconciliação! Os pequenos gestos concretos de cada pessoa a favor de outros têm uma grande repercussão na escala mundial.’

Fonte :

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Um grande sinal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

  
‘Por convocação do Papa Francisco, a Igreja Católica celebra um Ano dedicado à Vida Consagrada, no qual voltamos os nossos olhos para os homens e mulheres que foram chamados pelo Senhor à radicalidade de vida dos chamados Conselhos Evangélicos da Pobreza, Castidade e Obediência, para serem sinais dos valores definitivos da Partilha, do Amor indiviso e da Oblação da liberdade por amor a Deus e ao próximo. Em nossas Igrejas Particulares, Arquidioceses, Dioceses e Prelazias, resplandecem luminosos os pontos de presença da vida religiosa consagrada. De forma especial na Amazônia, foi através de gerações de religiosos e religiosas que a vida de Igreja se organizou e se consolidou. No dia da Apresentação do Senhor, em torno do Papa Francisco e pelo mundo todo, renova-se a consagração destas pessoas preciosas aos olhos de Deus e de todos os cristãos. Com velas acesas, simbolizando a entrega de suas vidas e o reconhecimento do grande sinal que representam, louvamos a Deus por estes irmãos e irmãs e pedimos o fortalecimento de suas disposições para o serviço do Reino de Deus.

Sabemos que a plenitude da vida acontecerá quando Deus for ‘tudo em todos’ (Cf. 1 Cor 15, 28). A pessoa chamada à vida consagrada é ‘apressada’! Deseja viver, desde já, a realidade do Céu. Faz votos públicos de entrega de sua vida ao Senhor, plena liberdade. Basta ver a imensa lista de santos e santas, passando dos mais conhecidos, como São Francisco de Assis, Santo Antônio, São João Bosco e outros, até chegar aos que continuamente são apresentados à Igreja e ao mundo, nas beatificações e canonizações, como testemunhas qualificadas, que atestam a validade permanente do Evangelho. Há poucos dias, o Papa Francisco canonizou Padre José Vaz, um sacerdote religioso imbuído de grande espírito missionário e dedicação aos pobres.

Quando tantos põem sua segurança nas posses e a elas se apegam, os consagrados a Deus querem relativizar o ídolo do ‘ter’ a qualquer custo, assumindo um estilo de vida simples e pobre, confiando-se à Providência de Deus. São homens e mulheres livres em relação às coisas, para ajudar a todos com a lição da partilha e da comunhão dos bens. Aceitam construir a própria vida e ajudar as pessoas a edificar a própria existência com os meios simples e pobres.

São pessoas que vivem ‘ao pé da letra’ a recomendações de São Paulo proclamadas pela Liturgia da Igreja neste final de semana : ‘O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar à sua mulher e, assim, está dividido. Do mesmo modo, a mulher não casada e a jovem solteira têm zelo pelas coisas do Senhor e procuram ser santas de corpo e espírito. Mas a que se casou preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar ao seu marido’ (1 Cor 7, 32-34). Tais pessoas olham para frente e para o alto e querem amar a todos, com os sentimentos do coração de Cristo. Renunciam a constituir uma família própria, para testemunhar a vida em comunidade e um amor efetivo a todos, sem reservas. Livres em relação aos afetos, para que reine o amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Cf. Rm 5, 5).

Olhando para Cristo, que se fez obediente até a morte, e morte de Cruz (Cf. Fl 2, 6-8), oferecem a oblação da própria liberdade, prontos para ouvir a voz de Deus, que expressa sua santa vontade que liberta e salva a todos. São pessoas livres de si mesmas, pelo voto de obediência.

Estes são homens e mulheres que aceitaram serem sinais de Deus em todos os tempos. Em alguns casos, sua dedicação fundamental é a contemplação, como nos muitos mosteiros de várias ordens e congregações masculinas e femininas, verdadeiros para-raios de oração diuturna pela Igreja e pelo mundo. Outras pessoas estão presentes nas atividades pastorais, de forma ativa e dedicada, animando as Comunidades, formando catequistas, incentivando as vocações ou na animação bíblica de grupos e comunidades. Muitos religiosos e religiosas estão nas Escolas confessionais e públicas, apaixonados pela educação das novas gerações. Que dizer das pastorais sociais, como a Pastoral da Criança, da Saúde e outras áreas marcadas pelo testemunho que chega às raias do heroísmo. Em nosso país, tantos viveram tal testemunho até o derramamento do próprio sangue, mártires da verdade do Evangelho.

Onde encontram os religiosos e religiosas as forças necessárias à sua consagração? O fundamento de suas vidas está na escolha radical do seguimento de Jesus Cristo, em que reconheceram um ‘ensinamento novo, dado com autoridade’ (Cf. Mc 1, 21-28). Decidiram ser discípulos missionários de Jesus. O Mestre descoberto os arrastou para estradas antes impensáveis! Abraçaram a causa do Evangelho, fazendo dela o ideal de sua existência, prontos a edificar uma nova família de irmãos, para serem sinais que atraem homens e mulheres de todas as idades.

O Ano da Vida Consagrada quer chegar, de forma especial, aos adolescentes e jovens, rapazes e moças, em tempo de opções vocacionais. Deus tem um olhar pessoal e intransferível para cada cristão, e este olhar tem o nome de vocação. Convido todos os jovens a se confrontarem com a Palavra de Deus que escutam na Santa Missa, descobrindo-a como dirigida especialmente a eles. Provoco com força e ternura tantos deles que experimentam no mais profundo do coração a inquietação, que os conduz a buscarem a liberdade das coisas, dos afetos e de si mesmos, para se lançarem na maravilhosa aventura do seguimento radical de Jesus Cristo.

Aos religiosos e religiosas e outras pessoas que se consagram na profissão dos Conselhos Evangélicos, chegue o estímulo à fidelidade crescente ao Senhor, no amor a Ele e a todos os homens e mulheres de todas as idades e situações sociais, que suplicam a luminosidade do grande sinal. Olhem para Maria, aquela que é toda revestida da Palavra de Deus, o ‘Grande Sinal’ que realiza plenamente a vocação da Igreja (Cf. Ap 12, 1-6). Nela está o dever ser que a Igreja e o Mundo esperam das pessoas consagradas.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.basilicadenazare.com.br/noticias/view/1740/um_grande_sinal_por_dom_alberto_taveira_correa