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segunda-feira, 3 de março de 2025

Como viver bem o tempo da Quaresma?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Paulo Ricardo

 

‘Quando o mundo desperta no dia seguinte ao Carnaval, é Quarta-feira de Cinzas. Para os mundanos e pagãos, trata-se de mais um dia como qualquer outro. Para nós, católicos, porém, inicia-se um tempo forte de oração e penitência : o tempo da Quaresma.

A Igreja, mãe e mestra dos homens, tem o dever de ensinar-lhes o caminho da santidade. Por isso, ela possui toda uma pedagogia, com métodos e programas de ensino, que movem o coração do homem na direção do Céu.

Quaresma faz parte dessa pedagogia como um tempo especial dedicado a um combate mais denso contra as nossas tendências pecaminosas. Não se trata, portanto, de um período em que a Igreja simplesmente se veste de roxo, mas de um kairós, ou seja, um tempo oportuno para nossa conversão.

Para viver bem esse período, o homem deve conhecer o seu fundo mau e reconhecer-se necessitado da graça divina. O tempo da Quaresma é esse tempo em que o homem passa quarenta dias meditando sobre a Paixão de Nosso Senhor, a fim de afastar-se do homem velho e, na Páscoa, ressurgir como um homem novo. Afinal, o que a Igreja deseja não é somente a nossa libertação do pecado, mas a nossa santificação e configuração a Cristo; ela quer, portanto, a nossa conversão mais profunda — uma espécie de segunda decolagem, por assim dizer —, que retira o cristão da lógica do mundanismo.

Na Quaresma, a Igreja nos exorta a praticar a esmola, o jejum e, sobretudo, a oração, como descrito no Sermão da Montanha (cf. Mt 6). Essas três práticas servem para ‘matar’ o homem velho dentro de nós e abrir o nosso coração à graça santificante. Elas desligam o motor do pecado — isto é, aquilo que São João chama de concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2, 16) — e dispõem as nossas almas a serem movidas pelo amor de Deus. O jejum mortifica a concupiscência da carne, a esmola mortifica a concupiscência dos olhos e a oração mortifica a soberba da vida.

Tudo que há no mundo é a concupiscência da carneEssa carne de que fala São João não é bem o nosso corpo, mas aquela inclinação da alma a querer os prazeres ilícitos da criatura. A alma humana, quando dominada pelo pecado, vive uma desordem. Ela deixa de governar a vida do homem para submeter-se às paixões carnais. Por isso ela recebe o nome de ‘carne’.

O jejum serve justamente para moderar essa fuga da dor e busca pelo prazer, ordenando o nosso espírito, de modo que a alma domine sobre as paixões e não o contrário. Assim, privar-se de coisas agradáveis como doces, refrigerantes e o consumo de carne (brancas e vermelhas, atenção) é algo bastante recomendável.

A concupiscência dos olhos. O homem é a única criatura de Deus que possui uma sede de conhecimento, esse desejo que move o nosso olhar para tudo que seja ‘belo’ e ‘interessante’ às vistas. Por exemplo, nenhum outro animal é capaz de passar o dia inteiro no Facebook, ou mudando de canal, ou passeando no shopping sem comprar nada, como faz o ser humano.

O homem nasceu para conhecer a verdade. Porém, o pecado original causou uma desordem no seu interesse pelas coisas, de modo que as pessoas se perdem na curiosidade malsã. Daí a necessidade da esmola como exercício de desapego e abnegação.

A soberba da vida. O pecado original maculou o ser humano com o vício diabólico do orgulho, essa atitude de achar-se suficiente e dizer ‘eu me basto’. Na história da Igreja, esse vício se espalhou por heresias como o pelagianismo e o semipelagianismo, que pregavam a ideia de uma santificação sem a necessidade da graça de Deus, mas apenas por méritos humanos.

O método mais eficaz para combater o orgulho é a oração. Colocando-se de joelhos diante de Deus, o homem reconhece a sua debilidade e incapacidade para todo bem, qual um mendigo na soleira da porta de Deus. Isso abre o nosso coração para o dom da caridade, para a verdadeira esperança, que reside apenas em Deus, pois Ele é que vai nos capacitar a amar e santificar os nossos irmãos. De resto, o homem desespera-se de si mesmo para esperar apenas na providência divina.

Uma prática bastante recomendável para o tempo da Quaresma é a participação diária à Santa Missa, com comunhões bem feitas, e a frequência à Confissão. Nessa dinâmica, a nossa alma vai se identificando mais depressa à vontade do Divino Mestre, que toca o nosso corpo e a nossa alma por meio dos sacramentos. Com essa força, tornamo-nos mais resistentes às tentações, às concupiscências da carne e dos olhos e à soberba da vida.

Não podemos nos esquecer ainda que o tempo da Quaresma é também o tempo de Nossa Senhora, a mulher do Apocalipse que se retirou para o deserto, a fim de vencer o dragão, a serpente maligna que pretendia devorar seu Filho.  Peçamos, pois, o auxílio da Mãe Divina e vivamos esses quarenta dias na expectativa de novos céus e nova terra, no dia da ressurreição.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://padrepauloricardo.org/episodios/como-viver-bem-o-tempo-da-quaresma

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

A conversão da língua

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Flávio José Lima da Silva

 

‘As virtudes são hábitos bons que geram condutas saudáveis das pessoas. Os vícios são ações ruins que prejudicam as pessoas, gerando assim situações desagradáveis. Se somos feitos à imagem e à semelhança do Criador, não deveríamos ser pessoas virtuosas? E os vícios, por que eles estão sempre no nosso horizonte?

De fato, somos filhos e filhas de Deus e, sendo sua imagem e semelhança, deveríamos ser pessoas virtuosas, buscando fazer a vontade dele no cotidiano de nossas vidas. Isso seria o ideal, no entanto, sabemos que existem pessoas que não conseguem viver vidas totalmente virtuosas por diversos motivos e acabam se deixando levar pelos vícios, pois eles parecem que s são mais atraentes e convidativos à uma vida sem compromisso.

Diante disso, destacamos o que falamos, aquilo que verbalmente expressamos, ou seja, o que a língua é capaz de fazer em nossas vidas. Ela pode ser usada para o bem ou para o mal, ou seja, o que falamos poder um ato virtuoso, fazendo o bem, ou uma ação viciosa, fazendo o mal.

Para uma vivência cristã sadia, devemos abrir mão dos vícios, sobretudo da má língua que impede relacionamentos saudáveis causando rancor, ódio e divisão entre as pessoas.

A má língua é um vício capaz de destruir famílias, comunidades, pastorais e movimentos. Esse vício precisa ser excluído do convívio social, pois tem potencial de nos afastar da graça de Deus, portanto, é preciso ter uma atenção redobrada para que a má língua não se torne a principal atividade no nosso cotidiano. Para tanto, vivemos no processo de conversão, isso é um fato, a cada dia buscamos ser um pouquinho melhores. Nesse itinerário, precisamos urgentemente da conversão da língua. É urgente tomar essa decisão, pois a má língua é muito destrutiva e se não houver conversão será difícil a caminhada.

Precisamos concentrar nossas vidas nas virtudes, naquilo que faz bem e que nos santifica. Vivendo a vida nesse itinerário dificilmente os vícios vão ganhar espaço, mas é preciso pautar as ações nas coisas boas, sadias, naquilo que faz bem ao individual e ao coletivo.

 Por fim, a conversão da língua é possível, só depende de cada um. Sejamos, portanto, pessoas determinadas, busquemos falar bem de todos, esse é o melhor remédio para nos libertarmos do vício da má língua. Somos capazes de vencê-lo, mas é preciso ter consciência de que é bom e saudável para todos falar aquilo que é bom e faz bem. 

Tenhamos coragem e força de vontade e a conversão acontecerá.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-conversao-da-lingua.html

sábado, 6 de julho de 2024

O amor a Deus implica a conversão do coração

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Luiz Antônio de Araújo Guimaraes


Ao contemplarmos o primeiro mandamento da lei de Deus no artigo anterior, abordamos os meios que possibilitam amar a Deus em primeiro lugar. Tendo feito essa reflexão agora é hora de analisar que só ama a Deus em primeiro lugar e sobre todas as coisas quem inclina seu coração a Ele. 

Temos de convir que o coração é um órgão vital, ou seja, essencial na conjuntura dos órgãos que formam o ser humano. Por exemplo, você pode viver sem as amígdalas, sem a vesícula ou o apêndice, mas sem coração ninguém consegue sobreviver. De igual forma, o amor a Deus é crucial para que viva e prossiga decididamente na caminhada. Há jovens que dizem : ‘Eu não vou à Igreja e sou feliz. Estudo, trabalho, tenho o que eu quero, para que rezar e buscar a Deus?’. Acham que o coração é para ser inclinado às coisas do mundo e ao seu bel prazer. Enganam-se, porque se inclinar o coração a isso fosse sinônimo de um verdadeiro amor e felicidade não existiriam pessoas tão infelizes, sem contemplar a beleza da vida. Amar a Deus é o princípio do saber, como assegura a Sagrada Escritura. É sábio quem inclina o coração a Ele.

A conversão é um processo de toda a vida, que nunca pode parar, visto que em todo o tempo se é desafiado a não crer em Deus e, consequentemente, não amá-lo. Há meios para aproximar-se de Deus e buscá-lo de todo o coração. Dentre eles, destacam-se a adoração, a oração, o sacrifício e promessas e votos, conforme apresenta o Catecismo da Igreja Católica : ’A adoração é o primeiro ato da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-lo como tal, Criador e Salvador, Senhor e Dono de tudo quanto existe, amor infinito e misericordioso. ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’ (Lc 4,8)’ (2096); já em relação à oração, diz que ‘é condição indispensável para se poder obedecer aos mandamentos de Deus. ‘É preciso orar sempre, sem desfalecer’ (Lc 18,1)’ (2098). Quem reza, aproxima-se de Deus e Ele se deixa aproximar. 

Quanto ao sacrifício, ‘É justo que se ofereçam a Deus sacrifícios, em sinal de adoração e de reconhecimento, de súplica e de comunhão : ‘Verdadeiro sacrifício é todo o ato realizado para se unir a Deus em santa comunhão e poder ser feliz’’ (Catecismo da Igreja Católica, 2099). Um sacrifício de coração sincero agrada a Deus. Em se tratando das promessas e votos, além das promessas sacramentais, expressas no Batismo, Confirmação, Matrimônio e Ordem, o cristão pode apresentar a Deus promessas pessoais, frutos de seu coração, evidentemente sem negociar com Ele, mas, num ato de profundo amor e reverência : ‘A fidelidade às promessas feitas a Deus é uma manifestação do respeito devido à majestade divina e do amor para com o Deus fiel’ (Catecismo da Igreja Católica, 2101). Os votos, por sua vez, ‘são um ato de devoção, no qual o cristão se oferece a si próprio a Deus ou Lhe promete uma obra boa. Portanto, pelo cumprimento dos seus votos, ele dá a Deus o que Lhe foi prometido e consagrado’ (Catecismo da Igreja Católica, 2102). 

Ao buscar esses meios, os cristãos reconhecem que Deus é Deus e a Ele se devem converter a fim de um dia ser salvos. São atitudes eficazes para ter uma vida reta e totalmente dependente do Altíssimo, de modo a não se deixar levar pela ideia de que se é feliz sozinho e que o coração deve estar à deriva de suas próprias inclinações. Não! O coração deve estar totalmente inclinado para Deus e reconhecê-lo naquilo que Ele é : soberano, majestoso, glorioso, enfim. 

Por fim, ao meditar sobre o primeiro mandamento da lei de Deus, que seu coração conjugue o verbo amar em primeiro lugar para Ele e assim saberá, de certo, que ‘onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração’ (Mt 6,21).

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-amor-a-deus-implica-a-conversao-do-coracao.html

terça-feira, 26 de março de 2024

Endireitai os seus caminhos!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Antonieta Santana P. Sales


A construção de uma estrada envolve, no mínimo, três fases essenciais : planejamento, projeto e construção. O resultado final, uma estrada bem construída, facilita a vida e traz grandes benefícios para a sociedade. Na vida espiritual, é essencial construir uma estrada pessoal que se inicia no conhecimento de si mesmo, permitindo identificar sinais de crescimento na intimidade com Deus, bem como momentos de desleixo e afastamento d’Ele. Este tempo favorável na Igreja nos convida a refletir sobre as fases dessa construção pessoal.

Neste caminho, o Senhor, por meio de Sua Palavra através do Profeta Jeremias, nos convida a ‘endireitar’, isto é, a examinar nossa estrada interior e fazer as correções necessárias, e, se preciso, recomeçar, pois Deus é especialista em renovar todas as coisas. Um ponto crucial é evitar sabotar nosso próprio projeto de construção pessoal, escondendo falhas e limites. É preciso fazer uma escolha baseada na verdade e no amor, não se esconder, mas abrir-se à correção, buscando um sincero arrependimento dos pecados e uma conversão radical ao Senhor, obedecendo a Sua Palavra.

A Palavra de Deus serve como o planejamento perfeito que nos impulsiona nessa construção e crescimento. Somos chamados a crescer como discípulos de Cristo, na edificação de Seu Corpo que é a Igreja, e na vida com os irmãos. Como discípulos, devemos imitar a Cristo, o que implica ser um outro Cristo no mundo em nosso pensar, falar, agir e amar. O desafio de amar como Cristo amou é diário, mas é possível com a fortaleza que o Espírito Santo nos concede a cada passo na estrada.

A conversão e a mudança de vida são essenciais para a edificação da Igreja, o Corpo de Cristo, gerando em nós atitudes que promovem unidade e amor, compromissos que nos unem a Deus e aos irmãos. ‘Todos os membros da Igreja devem esforçar-se por se assemelhar a Ele’ (Catecismo da Igreja Católica, 793).

O projeto de Deus para nós é perfeito, e caminhar pela estrada da santidade representa a contínua luta desigual que enfrentamos para completar nossa jornada até chegar ao céu. Afinal, uma estrada nos leva a um destino, e este é o lugar aonde queremos chegar. Não podemos desistir ou nos cansar de lutar pela conversão; isso exige de cada um de nós uma entrega sem reservas, pois na vida espiritual, quem não avança, recua.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/endireitai-os-seus-caminhos.html

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A conversão de São Paulo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682), domínio público

*Artigo do livro ‘O Evangelho de Paulo’, 

de José Maria González Ruiz, 

publicado pela Editora Vozes.


‘Eu sou judeu, de Tarso da Cilícia, cidadão de uma cidade de renome (At 21,39), circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus. Segundo a Lei, fariseu… Pela justiça da Lei, considerado irrepreensível (Fl 3,5-6).

Esta é a ficha que faz Saulo Paulo de si mesmo.

Como quase todos os judeus que viviam no mundo grego, acrescentara ao próprio nome judeu – Saulo ou Saul – outro nome grego que, quanto possível, se lhe assemelhasse foneticamente : Paulos, ou seja, Paulo.

Tarso era uma cidade culta, mas é de se supor que seus pais, fariseus recém-emigrados da Palestina, continuaram a estrita observância judia, abstendo-se de enviar seu filho às escolas gregas. O certo é que, tão logo completados os quatorze anos, Paulo foi enviado a Jerusalém, para fazer estudos rabínicos na escola mais ilustre da época : Aos pés de Gamaliel (At 22,3).

Alguns autores, deixando-se levar por uma fantasia completamente infundada, supuseram que Paulo, em sua juventude, tenha levado vida licenciosa e, para isto, aduzem a trágica descrição que, na primeira pessoa, ele mesmo faz, no capítulo 7 da ‘Carta aos Romanos’.

Todavia, parece que o que Paulo quer destacar ali não é sua vivência pessoal e individual, mas a trágica situação do próprio ‘eu’ humano, envolto na desgraça coletiva de uma pecaminosidade estrutural.

Por outro lado, temos em suas próprias cartas afirmações sinceras e humildes sobre a conduta irreprovável que o jovem israelita observou sempre, em sua boa fé. Fariseu desde jovem (At 26, 3-5), observador das tradições judaicas (Gl 1,14), irrepreensível em sua conduta (Fl 3,6).

O fariseu de direita – Hoje, graças às recentes descobertas de Qumrân, estamos em melhores condições de enfocar histórica e ideologicamente os acontecimentos que deram origem ao surgimento do cristianismo.

Através da numerosa literatura religiosa, encontrada às margens do Mar Morto, conhecemos o estado religioso daquela interessante época.

A ‘direita’ constituíam-na os fariseus, conservadores das velhas tradições de Israel, inclusive das mais significativas minúcias rituais. Eram integristas e se consideravam os expoentes autênticos e indiscutíveis das mais puras essências religiosas e nacionais. Para isto, a ordem religiosa se identificava com a situação sociológica. Seu sistema se podia qualificar de ‘nacional-judaísmo’.

Não obstante, apesar de seu alardeado nacionalismo, haviam chegado a um status quo em suas relações com o poder romano, regendo-se por um equilibrado modus vivendi que lhes permitia certa estabilidade e flexibilidade de movimentos.

Todavia, os fariseus eram somente minoria, ainda que numerosa, do povo israelita. E é isto que o sensacional achado de Qumrân veio iluminar.

Completamente à margem da fração farisaica, pululava uma multidão de seitas, uma das quais denominada, por Flávio Josefo e por Plínio, ‘essênia’.

O núcleo central deste tipo de seita era constituído por um grupo de homens célibes, que se retiravam para o deserto, para se dedicarem à vida de oração e de estudo da Lei. Eram autênticos monges, cujas regras e modos de vida influíram, sem dúvida, na própria organização do monacato cristão, que nasceu exatamente naqueles mesmos desertos palestinos e egípcios.

Em redor dos mosteiros, e espiritualmente ligados a eles, havia numerosos assistidos, que bem podiam ser comparados às ‘ordens terceiras’ de nossas grandes ordens mendicantes ou aos ‘sócios benfeitores’ de congregações e institutos religiosos. Nem sempre viviam ali; iam e vinham fazendo uma espécie de exercícios espirituais, que vivenciavam no resto do ano.

Pelas descobertas de Qumrãn, sabemos que ali existiu um grande mosteiro, talvez o mais importante de todos, e do qual encontramos uma espécie de sucursal em Damasco, constituída por alguns monges fugidos de Qumrân em época de perseguição.

A espiritualidade ‘qumrânica’ era diferente da farisaica. Sem serem abertamente cismáticos, afastavam-se do legalismo ritual e estreito do culto do templo de Jerusalém, sobre o qual se encontram finas e veladas críticas em suas regras e livros ascéticos.

Diante do orgulho farisaico, professavam uma humildade desconfiada de si mesmos e fortemente baseada num sentimento de absoluta dependência do Criador. Finalmente, eram de tendência universalista e aberta aos demais povos não israelitas.

Saulo militava abertamente na ala extrema do farisaísmo mais estreito e ortodoxo e, no círculo intelectual hierosolimitano, assistira mais de uma vez às ásperas críticas que se faziam freqüentemente àqueles inovadores populares, perigosos para a ortodoxia.

Quando, mais tarde, Saulo volta a Jerusalém e se defronta com o problema da nascente comunidade judeu-cristã, sua indignação chega ao paroxismo. Exatamente os judeu-cristãos, procedentes do movimento ‘qumrânico’, que, de algum modo, coincidiam com os que Lucas denominava ‘helenistas’ (At 6,1), foram os que diretamente se converteram em alvo de suas iras.

Seu chefe era o jovem levita Estêvão. O discurso do protomártir, que Lucas nos refere (At 7, 2-53), é farto das idéias centrais do ‘qumranismo’, sublimadas e superadas numa esplêndida e originalíssima versão cristã.

Decididamente, Estêvão era um elemento demasiado perigoso e, nas reuniões conciliares da ‘direita’ farisaica, chegou a tomar a decisão de que a própria sobrevivência de Israel estava gravemente ameaçada e que, por conseguinte, era preciso eliminar, pela violência, quem assim minava sua própria existência.

Definitivamente, Estêvão foi apedrejado : única pena que as autoridades nacionalistas podiam infligir, quando se tratava de um caso declarado de ‘blasfêmia’.

Durante a macabra execução, os apedrejadores, para ficarem mais livres, puseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo (At 7, 58). O próprio Paulo orava, mais tarde,

Senhor enquanto era derramado o sangue de tua testemunha,
Estêvão, eu estava presente, de acordo com eles, e guardava as vestes daqueles que o matavam (At 22,20).

Saulo se converteu na peça-chave da primeira perseguição à Igreja nascente, persegui de morte esta doutrina, acorrentando e encarcerando homens e mulheres (At 22,4). Isto, naturalmente, produziu uma fuga dos cristãos, sobretudo dos da ‘ala esquerda’, que se refugiaram em Damasco, onde haveria, certamente, cristãos de tipo ‘qumraniano’. Saulo lutava inteligentemente e dirigiu seus ataques a Damasco : era preciso impedir decididamente que rebrotasse aquela semente envenenada. O resto dos judeu-cristãos não foi molestado e pôde permanecer em Jerusalém.

Caminho de Damasco – O que aconteceu no caminho de Jerusalém a Damasco, conta-o o próprio Paulo, simplesmente assim :

Recebi cartas do Sumo Sacerdote e de todo o colégio dos anciãos para os irmãos de Damasco, aonde fui com o fim de prender os que lá se achassem e trazê-los acorrentados para Jerusalém, onde seriam castigados. Ora, estando eu a caminho e aproximando-me de Damasco, pelo meio-dia, de repente me cercou uma intensa luz do céu. Caí por terra e ouvi uma voz, que me dizia : ‘Saulo, Saulo, por que me persegues’? Respondi : ‘Quem és, Senhor?’E ele me disse : ‘Sou Jesus Nazareno, a quem persegues’. Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz daquele que me falava. Eu disse : ‘O que hei de fazer Senhor?’ O Senhor me disse : ‘Levanta-te e entra em Damasco, que ali te será dito o que deverás fazer ‘(At 22,5-10).

Saulo obedeceu. Era muito difícil o que se lhe exigia. Convertendo-se ao cristianismo, teria preferido ser recebido pela ‘ala direita’ da ‘seita’, ou seja, por aqueles que ficaram em Jerusalém e foram tolerados pelo tribunal fariseu de depuração, de que ele era parte principal. Mas, agora, ordenava-se-lhe receber o ingresso da ‘seita’ naquele ambiente de Damasco, plenamente solidário com os ‘helenistas’ (At 6,1), que comandara o odiado Estêvão. A esta dura renúncia se refere, sem dúvida, quando, depois de fazer sua própria ficha, acrescenta, cheio de nostalgia pegajosa : Mas tudo isto, que para mim era vantagem, considero desvantagem por amor de Cristo (FI 3,7).

Esta transformação dolorosa de sua postura mental constitui indubitavelmente a infra-estrutura psíquica daquela atitude combativa, às vezes violenta, que teve que adotar, no seio da comunidade cristã, contra seus antigos correligionários fariseus, que pretendiam manter, dentro do cristianismo, uma posição integrista, sufocando a novidade expansiva do Evangelho.

O noviciado do apóstolo – A princípio, Paulo começou a experimentar sua vocação apostólica pregando a Jesus nas próprias sinagogas de Damasco. Mas, pouco depois, se retirou para o deserto, para ali se preparar, na oração, e quem sabe se uniu a algum grupo monástico judeu-cristão, procedente da ‘Seita da Aliança’, intimamente aparentada como movimento ‘qumrânico’.

Daqueles primeiros anos, narra-nos Lucas alguns fatos cruciais do novel apóstolo. Ao fim de três anos de conversão, subiu a Jerusalém para ‘visitar’ o chefe da Igreja, Pedro (GI 1,18).

Dali, voltou a sua cidade natal de Tarso, de onde teve que sair, finalmente, para se defender de uma conjura, tramada pelos judeus contra ele.

De Tarso, dirigiu-se Paulo a Antioquia, cuja comunidade florescia, devido, em parte, à própria perseguição do ex-fariseu. Na verdade, em conseqüência da rajada de vento anticristã, provocada por Saulo em Jerusalém, muitos cristãos ‘helenistas’ se dispersaram pela Fenícia, Chipre e Antioquia. Estes começaram a pregar a fé. Posteriormente, os apóstolos de Jerusalém enviaram Barnabé, como delegado oficial, e este, seguindo uma inspiração do Espírito, associou-se a Paulo, em sua tarefa apostólica. Por um ano inteiro, Paulo colheu uma messe tão abundante que o fato transcendeu o grande público e este começou a chamar os fiéis pelo nome de ‘cristãos’, como eram chamados ‘pompeanos’ ou ‘cesarianos’ os partidários de algum dos dois rivais do Império.

A carreira apostólica de Paulo chegara a seu ponto culminante e nele se realizariam os projetos de Deus, manifestados desde o primeiro momento de sua conversão : Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, a fim de levar meu nome perante as nações, os reis e os israelitas (At 9,15).

Um dia, na assembléia litúrgica de Antioquia, o Espírito falou por meio da mesma comunidade de oração : Separai-me Barnabé e Saulo, para a obra a que os chamei (At 13,2).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://franciscanos.org.br/vidacrista/especiais/a-conversao-de-sao-paulo-2/#gsc.tab=0

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A primeira idade da vida interior

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Monte Saint-Michel, na França : uma metáfora sublime do castelo interior

*Artigo do Padre Françoá Costa 


‘Jesus afirma categoricamente :  ‘Cuidado! Ficai atentos!’ (Mc 13,33). Esta exortação de Jesus Cristo deveria impactar a nossa alma, porque, do contrário, poderíamos passar a vida inteira como almas retardadas ou atrasadas ou tíbias. Quais são essas almas? São pobres pecadores batizados que nunca se decidem pelo caminho da salvação de verdade. Habitualmente, conservando uma vida de pecados mortais, vêm à Missa, mas nem sempre; rezam, mas não de maneira decidida; fazem o bem, porém de maneira morna. São pessoas que não fazem o mínimo para irem para o céu. Esse tipo de gente de alma retardada pode encontar-se inclusive entre os padres, quanto mais entre os leigos.

O bispo Santo Afonso teve que corrigir, num determinado dia, um padre que tinha uma vida má. Para recebê-lo, Santo Afonso colocou uma imagem de Jesus Crucificado bem na porta da entrada, de tal maneira que seria impossível passar lá sem pisar na imagem de Jesus. Quando o padre chegou, vendo que não podia atravessar a porta, disse : – como vou passar aqui, sem pisar na Cruz’. O santo bispo disse-lhe : – Pisa, pisa, pois a sua vida já está massacrando Jesus Cristo.

Assim como Deus desceu e as montanhas se derreteram diante dele (Is 64,2), de maneira semelhante queremos que os pecadores, inclusive os mais endurecidos, se desmancham diante de Deus. Esta é a primeira conversão, na qual o pecador diz, juntamente com outros que também se derreteram : ‘nós pecamos; é nos caminhos de outrora que seremos salvos’ (Is 64,4). Finalmente, o pecador reconhece que não dá para ficar longe de Deus, que precisa voltar ao caminho dos seus antigos, dos seus pais, dos seus avós. Quebrados, derretidos, despedaçados como estamos, dizemos ao Senhor: ‘Nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos’ (Is 64,7).

É neste momento de conversão inicial que o pobre pecador percebe a majestade de Deus, vem-lhe o santo temor, dá-se conta da ação poderosa de Deus, reconhece as doutrinas de Jesus Cristo e suas leis santíssimas. O pecador acaba de entrar, pela arrependimento e pela confissão, no castelo onde Deus mora. Inicia-se, portanto, uma busca pela sala do trono, onde se encontra a Majestade Divina. Mas, até chegar lá, a pobre alma terá que percorrer um caminho de desejos santos, percebendo, ao mesmo tempo, que suas ações nem sempre estão à altura daquilo que deseja.

A comparação da conversão inicial com a entrada em um castelo é muito oportuna porque quando Isaías escreveu os capítulos 63 e 64, a cidade de Jerusalém, depois da invasão dos babilônios, estava sendo construída, suas muralhas, suas casas, seu palácio, o Templo. Parece-se muito à alma do cristão, que, depois de arrasada pelos Babilônios espirituais, os demônios, agora se transformará numa bela cidade, mas isso acontece no castelo do Rei Jesus, que é tão grande a tal ponto de caber a nossa cidade interior. Assim como Jerusalém voltará ao seu antigo esplendor, também a alma voltará a ser embelezada pela união transformante com o Senhor.

O pobre pecador está na casa do Senhor, mas ele não sabe quando aparecerá o dono dessa casa, desse magnífico castelo real : ‘à tarde, à meia-noite, ao canto do galo, ou de manhã’ (Mc 13,35). O cristão, nesse momento, sente-se como uma criancinha, mas que, ao mesmo tempo, tem que algo grande : vigiar, procurando a sala do trono, ao mesmo tempo, é consciente de que o dono do castelo pode se manifestar a qualquer momento, mesmo fora da sala do trono. Aplica-se a ele as palavras do Apóstolo : ‘vós que aguardamos a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo’ (1 Cor 1,7).

Nesse contexto, no qual a alma está decidida a permanecer dentro do castelo, isto é, abandonando o pecado mortal e em busca incessante do Senhor do castelo, faz-se necessário algum sábio ancião que o guie com sábias orientações. Os sacerdotes de Jesus Cristo são os anciãos do castelo, são eles que recebem os pecadores no batismo e na confissão, alimenta-as com a Palavra e com a Eucaristia, dá-lhes doutrina espiritual segura para que sigam rumo à sala do trono, ao mesmo tempo que as faz vigilantes, já que o Senhor do castelo pode chegar a qualquer momento e manifestar-se.

Como se pode perceber, a pessoa que abandonou o pecado mortal acaba de começar sua verdadeira vida espiritual. Antes de abandonar o pecado, não existia vida espiritual, mas morte. A pessoa não estava numa escala ascendente, mas abaixo de zero. Quando Deus lhe deu a graça de tomar a decisão de abandonar os pecados mortais, ficou no zero; ao confessar-se, Deus lhe deu uma nova ajuda : encontra-se no número 1, agora positivo. Começa o caminho ascendente. Neste momento, esse cristão é apenas uma criança e deve aprender as orações da sua família espiritual, as orações vocais : Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória, Credo, Salve Rainha, os Mandamentos etc. Digo, deve aprender, isto é, valorizar as orações vocais, dizendo-as conscientemente. Pode até ser que antes essa pessoa rezava algo, mas agora as orações vocais são o seu apoio inicial para que reze mais profundamente e, por isso, as valoriza tanto.

Nessa primeira etapa da vida interior ou primeira conversão, a alma tem uma fé viva, porém inicial. Esta fé, ainda que formada pela caridade, não se encontra, todavia, na perfeição da caridade, mas anima-se mais pelo santo temor. Esse cristão ainda não é um sábio informado pela fé saborosa do dom da sabedoria, mas pela fé inicial do dom do santo temor de Deus. Há muito ainda para chegar à união com Deus, contudo a pessoa está viva, é uma criancinha diante de Deus e pode prosseguir, graças à bondade divina.

A alma precisa descobrir o valor das pequenas coisas, pois nesta primeira conversão, a alma sente um desejo muito grande de fazer penitência que acompanhem o fervor de suas orações vocais. É como se a penitência fosse a oração do corpo e as orações vocais fossem a oração da alma. Nesse sentido, a pessoa inteira, corpo e alma, empenha-se para chegar à sala do trono, no ritmo que Deus lhe for marcando. Porém, mais que colocar a atenção nas grandes penitências, a alma precisa saber que Deus lhe pede a penitência do cotidiano, das pequenas coisas bem feitas por amor.

Já que estamos valorizando as pequenas coisas, é bom voltar a ressaltar a importância de serem ditas muitas vezes as palavras ‘obrigado’, ‘desculpa’, ‘com licença’. De fato, com essas palavras, as famílias funcionam. Uma pessoa, falando-me das maravilhas dos Estados Unidos, referiu-se precisamente a isto : aqui, dizia ele, sempre se fala ‘thank you’, ‘sorry’, ‘excuse me’. Isto é fantástico quando vivido especialmente com os nossos.

Conta-se que havia um missionário na África escreveu uma carta que dizia que lá era muito selvagem, com leões e tigres, que a casa onde ele morava era meio na roça e que ela não tinha nenhuma proteção especial, as janelas eram muito comuns. Mas, dizia ele : ainda bem que na casa existe mosqueteiro, porque aqui o mais perigoso são os mosquitos.

É preciso proteger-se dos pequenos mosquitos que causam grandes doenças. Em meio a essa necessidade, o cristão encontra-se num tempo oportuno para fazer mortificações e viver a purificação ativa dos sentidos. Desta forma, será protegido de outros males. Assim como a cidade de Corinto, que recebe a mensagem apostólica, era uma cidade devassa, cheia de prazeres e de poderes (1 Cor 1,3-9), assim também a alma, dada aos seus desvarios, agora quer alcançar a ordem e a beleza divina. O cristão então faz penitências que mortificam seu paladar, sua gula e ebriedade; seu tato, sua comodidade e luxúria; seu olfato, sua vaidade e concupiscência desordenada; sua vista, sua falta de modéstia, sua curiosidade; sua audição, sua falta de controle, sua atenção esmerada à vida alheia.

Além dessa purificação ativa dos sentidos externos, a alma também mortifica seus sentidos internos : a imaginação, a memória, a fantasia, a cogitativa e o senso comum. De fato, a imaginação pode levar muitas pessoas a construírem muitos monstros sobre os outros e outras situações, é preciso controlar a imaginação antes que ela nos domine. A memória, por sua vez, se não for posta em penitência, recorda-nos pecados passados, fazendo-nos demorar neles e, desta forma, aproximando-nos do pecado : é preciso estar atentos e cortar os dados pecaminosos da memória. A imaginação, auxiliada pela memória, gera fantasias assaz tresloucadas; também por isso deve ser posta no seu lugar, domesticada para que sirva aos projetos de Deus.

A cogitativa é um sentido interno que nos ajuda a perceber aquelas coisas que os sentidos externos não percebem imediatamente : se uma coisa é nociva, se fulano de tal está com uma atitude amigável ou não. Se o cristão não estiver atento a esse sentido interno, poderia pecar por juízos temerários, ou seja, julgamentos nos quais não há fundamento para se pensar tal coisa. Perceber essa realidade nos ajuda a realizar a mortificação de colocar a nossa mente em seu lugar, evitando as curiosidades e os juízos precipitados. Finalmente, o senso comum reúne todas as informações formando uma ‘fantasminha’ que fica como que depositado no nosso intelecto passivo, esperando a luz do intelecto ativo para que se forme um conceito. A mortificação, neste caso, nos leva a purificar as nossas informações, a não sermos precipitados, agindo segundo as normas da prudência e do santo temor de Deus.

A nossa certeza é que o Senhor veio para nos converter, ele vem a qualquer momento para estar conosco, ele chama-nos para a sala do trono onde ele está assentado juntamente com o Pai e o Espírito Santo. Este tempo do Advento nos ajude a pensar no nosso progresso espiritual : como devemos estar atentos à graça de Deus que nos seguir adiante. Queira Deus que o façamos decididamente pela intercessão de Santa Maria, a senhora do castelo.

Uma última historinha. Uma mãe tinha um filho que estava nas drogas. A pobre mulher, para conseguir a conversão no seu filho, oferecia orações e penitências a Deus : dormia no chão todos os dias, jejuava três vezes por semana, rezava muitos terços. E não estava contente. Pergunto-me : como estará Nossa Senhora com a fé e o comportamento dos católicos, seus filhos queridíssimos? Você é tão cruel que ousará continuar a ofender o coração da mãe de Deus e sua mãe?

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/12/05/a-primeira-idade-da-vida-interior/


quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Repensar o pensar natalício para mudar que tipo de vida?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Miguel Oliveira Panão, 

professor

 

‘Aproximamo-nos do Natal e existem dois pensamentos que começam a preencher a cabeça de muitas pessoas : prendas e comida. As prendas relacionam-se com o presépio na medida em que Jesus (aparentemente) também as recebeu dos reis magos. Talvez a diferença seja que as prendas que Jesus recebeu tinham um significado especial relacionado com a sua missão neste planeta – ouro = realeza, incenso = divindade, mirra (planta medicinal) = o que iria sofrer – e será que pensamos na missão de cada pessoa nesta terra quando oferecemos algo a alguém? Por outro lado, dado o momento de reunir a família ao redor da mesa, a comida a preparar é uma preocupação em muitas casas, exceto nas que têm pouco para comer. Talvez haja nestes dois pensamentos uma oportunidade de conversão.

As prendas no contexto da época natalícia são motivo para repetidas reflexões sobre o consumismo, mas creio que essas têm servido de pouco porque todos os anos a corrida às prendas é sistemática. Ninguém acaba por fugir a essa situação, exceto aqueles que não têm possibilidades financeiras. Antigamente, no tempo da minha mãe, oferecia-se uma laranja e um chapéu de chuva de chocolate e essa era a alegria das crianças. Que sentido tem uma prenda oferecida? Pode ser o que precisamos, ou o que sabemos que o outro gosta, mas o sentido profundo de hoje que me parece valer a pena descobrir é – «quero-te bem.» Pensar no bem do outro é mais importante do que qualquer prenda que lhe possamos oferecer.

A comida é um desafio ambiental. Em países como os Estados Unidos da América, o consumo de carne no Natal tem levado as comunidades cristãs a repensar essa opção por escolhas mais ecológicas. Claro que nos países africanos, onde ter uma galinha é um luxo, ou em Portugal que habitualmente se opta pelo peixe, repensar o consumo de carne no Natal pode fazer pouco sentido. Porém, por detrás da comida está o sentido de sobriedade e, mais uma vez, em querer o bem do outro. Reduzir a quantidade de comida diminui as sobras que podem ser deitadas ao lixo, mas se se optar por uma dieta mais vegetal, contribuímos para a saúde dos familiares que nos visitam e, no silêncio ou sorriso com que acolhemos, ou nos despedimos, dizemos – «quero-te bem.»

Quero-te bem’ através de sinais e gestos concretos na época de Natal é dizer ao outro aquilo que Deus lhe diz a cada instante. As pessoas não precisam de prendas e comida, mas de carinho e manifestações de amor fraterno. Se falta o amor ao redor da mesa, sente-se mais a ausência de Deus e o sinal será a divisão experimentada entre as pessoas ou as faltas de atenção. Recuperar o espírito de Natal como a presença de Jesus entre nós, misticamente, usando o que parece mundano, significa colocar amor e sobriedade em tudo o que fazemos em relação aos outros. Sinto que se fala pouco de Deus no Natal, mas se realizarmos gestos de amor, serão esses a linguagem gestual que falará de Deus aos outros, ainda que não se dêem conta disso. Mas repensar o Natal não passa somente pelas prendas e comida.

Noutros tempos, sem televisão, eram as histórias que animavam as noites de Natal. Os mais velhos tinham a experiência de vida e a imaginação para se tornarem, naquela noite, contadores de histórias. As histórias tinham repercussões maiores do que o entretenimento, pois continham uma filosofia de interioridade que levava quem as escutava a pensa na vida profunda, antecipando os desejos de mudança no ano novo que se aproximava. Hoje fazem-se maratonas de filmes, ou de programas para entreter as pessoas, mas suspeito que o efeito não seja o mesmo que o produzido pelas histórias. Com um mundo de entretenimento nas mãos de cada pessoa, são, também, mais frequentes os momentos em que cada um pode isolar-se com o seu ecrã. Algo tem de mudar.

Ao mudar o clima com o seu comportamento, o ser humano demonstrou que a cultura tem o mesmo poder de transformação planetária que um meteorito. Tanto quanto sabemos, até ao momento, somos o universo que pensa sobre si mesmo e evolui mediante escolhas orientadas por intenções. Não somos capazes de formular leis físicas para essas escolhas, como fazemos para a queda de um meteorito. Por isso, o ser humano precisa de tomar consciência do quanto a face do planeta depende dessas escolhas. O Natal, as prendas, a comida, as histórias que partilhamos, e o ‘quero-te bem’ são apenas alguma fruta da época para meditar.

O que sinto necessidade de mudança está ao nível da vida interior.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/649/repensar-o-pensar-natalicio-para-mudar-que-tipo-de-vida/

sábado, 2 de outubro de 2021

Da oração à conversação

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo d0 Padre Alfredo Sampaio Costa, SJ


‘Darío Restrepo, no Diccionario de Espiritualidad Ignaciana1 , escreveu um precioso verbete sobre a ‘conversação espiritual’. Trazemos aqui suas principais reflexões e as comentamos. Causa impressão a confiança que Inácio deposita na palavra para poder encontrar a Deus e como instrumento para ajudar aos próximos. ‘Conversar’ é uma palavra complexa. Segundo Santo Inácio, pode significar a relação com alguém (conversar-tratar com) e/ou o falar com o outro (conversação-diálogo), dependendo do contexto (cf. Const. 89.196.729.637.814637, 802…). No século XVI não era usual empregar a palavra ‘diálogo’. O termo ‘falar’ inaciano segue ordinariamente o sentido geral que se dá a ele na língua espanhola. Algumas poucas vezes Santo Inácio o toma como equivalente ao ‘conversar espiritualmente’ (cf. Aut. 21.28.42.56.65-67, 70; Const. 157. 250.726; Diário Espiritual (DE) 15.53,54.63.69.74.77.95.113).

A experiência de Inácio em termos de conversação

A conversação de Inácio foi muito mais adquirida que inata; aprendida e moldada pacientemente mais que espontânea. Isso foi ainda mais notório referido à sua conversação espiritual; terá um como, um porquê e um para quê, ‘indo sempre buscar o que quero’ (EE 76). Ele não falava por falar com palavras ociosas. Nas Constituições se dirá que em matéria de conversação espiritual, o essencial é sempre a unção que o Espírito Santo comunica para isso; mas, de nossa parte, algumas orientações podem ajudar a prevenir os inconvenientes e assegurar as vantagens para poder conversar ‘no Senhor’. Como em toda a doutrina inaciana, aqui também encontramos o segredo e a chave de Inácio na sua estreita união entre a graça de Deus e a colaboração humana, princípio e fundamento desta conversação. O que Inácio ensinava, ele o tomava de sua experiência, fonte de sabedoria.

Qual foi a experiência de Inácio em matéria de conversação espiritual? Qual a unção que recebeu do Espírito e quais as orientações que encontrou para colaborar com ela? No que se refere à sua espiritualidade, ele, como todos os espirituais, é devedor da Tradição dos Padres da Igreja. Mas não é menos certo também que em grande medida foi também um autodidata como se vê claramente no discernimento dos espíritos. Como não tinha quem o ensinasse nessas matérias entrou por graça divina na escola de Deus que o instruiu diretamente : ‘Neste tempo [de Manresa] Deus o tratava da mesma maneira que um mestre-escola trata uma criança, ensinando-lhe’(Aut 27).

Sob a guia do Espírito : da conversão à conversação

Durante o tempo de sua conversão em Loyola, Inácio parte, na matéria do conversar, da conversação com Deus e a partir dela passa à conversação com os homens. Sua longa convalescença e os intermináveis espaços de solidão em Loyola o levaram a conversar com ele do que passava no seu interior. Uma autêntica conversação espiritual : o Relato do Peregrino (Autobiografia) [Aut. 1-37]. Ainda que cronologicamente é sua obra póstuma (1553-1555), podemos encontrar nela os inícios da conversação inaciana. Pela sua origem, os meios que empregou e a finalidade que pretendeu ao fazê-la, a Autobiografia não somente narra a história de sua conversação, mas ela mesma é uma autêntica conversação espiritual; nela, Inácio fala escolhendo cuidadosamente suas palavras e com a força que as inspira, Inácio comunica à experiência uma familiaridade com Deus, um Deus que está na raiz de todos os acontecimentos que vai relatando. Encontramos, inicialmente, uma longa gestação de seu mundo interior que vai se traduzindo, pouco a pouco, em palavras exteriores. Os livros da Vida de Cristo e da Vida dos Santos abrem nele um diálogo com Deus e consigo mesmo (cf. Aut. 1.12). As lembranças do mundo o levam também a um solilóquio referente à dama dos seus pensamentos. Nestes balbucios do discernimento aparecem dois novos interlocutores em sua conversação interior : Deus e o demônio. A partir desse momento se estabelece uma interrelação entre sua intimidade e sua expressividade, entre sua vida interior e sua conversação. Suas palavras ressoarão as vibrações de seu espírito. Sem estudarmos a sua evolução interior, a conversação espiritual de Inácio resulta incompreensível ou a sua compreensão será inadequada. Nesse tempo, seus familiares tentarão dissuadi-lo da mudança que já notavam nele. Inácio anota : ‘Ele, não cuidando de nada […], o tempo que conversava com os de casa o gastava em coisas de Deus, como o qual fazia proveito em suas almas’ (Aut. 11). A sua peregrinação à Terra Santa e suas múltiplas viagens marcarão a necessidade de uma grande adaptabilidade de sua conversação segundo pessoas, tempos e lugares.

Os Exercícios Espirituais, um manual para conversar com Deus e com os homens

Ouvir o que falam as pessoas […] como falam umas com as outras […] e refletir depois para tirar algum proveito de suas palavras’ (EE 107). O ‘como falam’ concentra a nossa atenção. Este texto está tomado precisamente da contemplação da Encarnação do Verbo, a Palavra do Pai. Inácio aprendeu do Verbo, em Manresa, usar a palavra com verdade e caridade discreta, como mensagem para os próximos. Inácio escreveu o seu livro dos Exercícios como um diálogo em várias direções : ‘daquele que dá os Exercícios’ com Inácio através do seu texto; do ‘que dá os Exercícios’ com ‘o que os recebe’; deste com Deus; de Deus com o exercitante. Por isso a palavra está no centro do texto : a de Deus, e baseado nela e na palavra dos Exercícios, a do exercitante e a de seu acompanhante. Pedro Fabro chamava ‘conversações em Exercícios’ à realização desta experiência para exercitar-se espiritualmente (cf. Aut. 17.21 ss). Como todo manual, necessita uma explicação e uma adaptação : se dão e se recebem. Não é um livro para ser lido, mas são exercícios para serem vividos em diálogo, são um tipo específico de conversação espiritual em que se dá ao outro ‘modo e ordem’ para proceder. Requerem uma essencial adaptação pessoal àquele que os recebe e, por isso, implicam uma conversação que vai desde o mais concreto e temporal (a comida, o sono etc.) até o mais espiritual e decisivo : a vontade de Deus.

O Pressuposto (EE 22), condição sem a qual não pode existir um diálogo autêntico, marca o ponto de partida sem que possa afetar o exercitante nenhum preconceito negativo diante daquele que dá os Exercícios.

As Anotações, colocadas ao início do livrinho, são as regras de como conversar nos Exercícios. A anotação 15 assinala a regra de ouro da conversação inaciana : ‘saber conversar de tal maneira com os homens de modo que estes possam chegar ao diálogo direto com Deus’. Saber levar o próximo a Deus sem interferir no seu trato com ele. Por isso, Inácio pede ao exercitante, nesta experiência espiritual à qual ele se exercita, uma ‘conversão à palavra’, prévia à ‘conversão à pessoa’. Primeiro fará a pessoa passar por um ‘exame geral da palavra’(juramento vão, palavra ociosa, infamante, de murmuração) e por um processo de purificação da escravidão do pecado (erro, desordem, desintegração).

Inácio toma a palavra a sério, sobretudo a palavra de Deus, e exige que esta palavra seja utilizada com verdade, necessidade e reverência (EE 38). Em seguida, confrontará esta palavra enquanto imitação de outra, com seu modelo original, a Palavra encarnada. Buscará sua integração (ordem) no Verbo que precede, ensina, interpela e espera uma resposta que não será mais do que um eco desta Palavra eterna. Para isso faz orar com o significado de cada palavra (EE 249ss). Finalmente, esta palavra-eco, iluminada e libertada através de um silêncio doloroso e eloquente, proclamará a boa nova do Senhor que volta na glória. Podemos notar que Inácio tira sua forma de conversar de seus modos de orar e vice-versa, pois se dá uma estreita interrelação, própria do contemplativo na ação. ‘Ver a Deus em todas as coisas : também na palavra verdadeira, necessária e reverente’(EE 38-39)’.

Para refletir :

Como podemos crescer no conversar espiritualmente?

– Temos tratado a Palavra de Deus com reverência, atenção devida e profundidade?

 1 - Darío Restrepo, ‘Conversación’, em : GEI, Diccionario de Espiritualidad Ignaciana, Santander/Bilbao : Mensajero/Sal Terrae 2007, 472-481.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1542338/2021/09/da-oracao-a-conversacao/