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segunda-feira, 29 de julho de 2024

Inácio de Loyola : de cavaleiro a peregrino

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de João Melo,

professor


De cavaleiro destemido a humilde peregrino. A jornada de Inácio é um testemunho poderoso de conversão e dedicação à fé. No dia 31 de julho, celebramos a festa de Santo Inácio de Loyola, um homem cuja vida foi marcada por uma notável transformação espiritual.

Depois que se recuperou de um ferimento de batalha, Inácio iniciou uma peregrinação que o levou a um encontro com Nossa Senhora de Montserrat em um mosteiro. Durante sua peregrinação de Loyola até Montserrat, ele refletia sobre as grandes obras que desejava realizar por amor a Deus.

O que muita gente não sabe é que a imagem de Nossa Senhora de Montserrat é carinhosamente chamada de La Moreneta, em português A Moreninha. Ela recebe esse nome devido à cor negra da imagem, resultante da fumaça das velas, caso parecido com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, que também é negra. 

Mulheres negras são quase 28% da população brasileira, o maior grupo populacional do país, porém, mulheres e meninas negras são as pessoas que mais vivem em vulnerabilidade social; especialmente as moradoras de periferias, morros e favelas, enfrentam barreiras significativas no acesso a todos os tipos de direitos e serviços púbicos, inclusive aos meios adequados para questões de saúde. Por isso, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns alerta que em nossos tempos é preciso cuidar para que decisões de governo precipitadas não deixem de considerar adequadamente os direitos das mulheres e não as criminalizem em casos em que tenham sofrido alguma violência, especialmente aquelas mulheres em situação de vulnerabilidade. 

Nossa Senhora de Montserrat tem uma história milagrosa. Segundo antigos escritos sua imagem foi encontrada por uns pobres pastorinhos em 880, em uma distante caverna na montanha de Montserrat, após seguirem uma luz misteriosa. Quando tentaram mover a imagem para o centro da cidade de Manresa, ela se tornou tão pesada que foi impossível movê-la, evidenciando o desejo da Virgem de permanecer no local onde fora encontrada, na periferia da montanha sagrada. ‘A Moreninha’ queria permanecer com os pobres. 

A Companhia de Jesus, congregação fundada por Santo Inácio de Loyola, tem como uma das suas prioridades de missão no tempo presente caminhar com os empobrecidos, os descartados do mundo, os vulneráveis em sua dignidade, em uma missão de reconciliação e justiça.

Para marcar sua nova vida, Inácio realizou uma vigília, vestido como cavaleiro, na noite anterior à Festa da Anunciação, em 24 de março de 1522. Doou suas roupas finas a um mendigo e vestiu-se com um hábito feito de pano de saco. Passou a noite ora em pé, ora de joelhos, diante do altar de Nossa Senhora de Montserrat, em oração fervorosa. Aos pés do altar, pendurou sua espada e seu punhal, simbolizando a renúncia às suas antigas aspirações de cavaleiro e a dedicação ao serviço de Cristo.

Após uma noite de oração, Inácio partiu de Montserrat ao amanhecer, desejando evitar qualquer reconhecimento e honra de nobre cavaleiro. Vestido humildemente, iniciou sua vida como peregrino, carregando apenas um caderno onde anotava suas descobertas espirituais. Esse caderno se tornaria os Exercícios espirituais. Assim, Inácio abraçava uma vida de quem caminha com os pobres, a exemplo do desejo de sua ‘Senhora Moreninha’. 

A verdadeira transformação espiritual requer coragem, humildade e um profundo compromisso com a fé. Sua jornada de cavaleiro a peregrino nos convida a refletir sobre nossas próprias vidas e ambições. Quais são os nossos desejos profundos? Como queremos contribuir para o Reino de Deus? Nossa caminhada de vida também passa por caminhar ao lado dos mais empobrecidos e ajudá-los em seus direitos e necessidades? Assim como Inácio somos chamados a discernir a ação de Deus em nossas vidas e a responder com generosidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/inacio-de-loyola-de-cavaleiro-a-peregrino.html


quarta-feira, 24 de abril de 2024

Companheiros de Jesus : a conexão espiritual de Inácio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo de João Melo


‘No coração da França renascentista, na prestigiada Universidade de Sorbonne, em Paris, dois jovens espanhóis cruzaram caminhos que mudariam não apenas suas vidas, mas também o curso da história espiritual da fé cristã. Inácio de Loyola, um ex-soldado ferido em batalha, e Francisco Xavier, um nobre ambicioso, encontraram-se em circunstâncias que pouco prometiam para uma amizade duradoura. Inicialmente, Francisco nutria uma antipatia por Inácio, cuja presença lhe era desagradável. Contudo, após viver a experiência inaciana dos exercícios espirituais propostos por Inácio, Francisco experimentou uma transformação profunda, abandonando sua vaidade e aspirações mundanas.

Em que consiste a experiência inaciana para transformar tanto a vida de uma pessoa? A aventura da experiência espiritual inaciana consiste em amar e deixar-se amar com coragem e generosidade. Deixar-se amar é acolher o dom do perdão, da cura e da misericórdia para a aceitação de si e do amor que nos alcança sem mérito ou merecimento. É o que nos tira do fechamento em nós mesmos e nos abre ao entendimento de nossa dignidade inalienável de filhos de Deus. É o que cria condições para que verdadeiramente possamos amar. Amar é missão; é, portanto, o mandamento de que Jesus fala no Evangelho. Não se trata de uma obrigação imputada pela lei, mas um estilo de vida, isto é, o seguimento ao modo de vida de Jesus. O discípulo, ao contemplar o jeito de Jesus, seu trato com as pessoas e seu projeto de vida, deseja assumir em sua vida e ao seu modo esse mesmo modo de proceder que lhe encanta, portanto, amar e deixar-se amar são duas atitudes e disposições interiores que estabelecem as bases para uma relação de confiança e de entrega na comunhão. Assim, o discípulo e o Mestre possuem um vínculo amoroso que é mais forte do que a morte. A generosidade é a força e a vontade do discípulo amado que contempla na vida de Jesus a entrega que Ele faz de sua vida ao anúncio e chegada do Reino de Deus, demonstrando muito amor aos menos amados. Esse amor generoso é paixão pelo gênero humano criado à imagem e semelhança do Deus, que é amor. Essa paixão ganha uma forma radical na paixão da cruz em que Jesus vive dando a vida pelo amor aos seus amigos. A coragem é a realidade da ressurreição, que leva o discípulo a superar a experiência de morte e o medo de seguir amando profundamente. Na coragem do Ressuscitado, o discípulo ousa construir mais vida a partir da aposta no amor generoso.

Em 1540, a Ordem dos Jesuítas foi erigida sob a bênção do Papa Paulo III, com Inácio de Loyola como seu primeiro superior-geral. Francisco Xavier, por sua vez, embarcou em uma jornada missionária que o levaria às terras distantes da Índia e do Japão. Os dois amigos nunca mais se viram pessoalmente. Foi nesse período que a expressão ‘amigos no Senhor’ ganhou vida, usada por Inácio para descrever a profunda ligação espiritual que compartilhava com seus companheiros de ordem, especialmente com Francisco.

Xavier, em suas viagens, carregava consigo, costurados em sua batina junto ao coração, os nomes de seus companheiros jesuítas, mantendo Inácio em um lugar de destaque. Essa prática simbolizava a conexão inquebrantável que transcendia as barreiras geográficas. As cartas trocadas entre eles eram o cordão umbilical que mantinha viva essa amizade, servindo como um meio vital de comunicação e apoio mútuo, mesmo separados por milhares de quilômetros.

A história de Inácio e Francisco é um testemunho do poder da convivência e do conhecimento mútuo para superar mal-entendidos e julgamentos precipitados. De estranhos com impressões erradas um sobre o outro, eles se tornaram ‘amigos no Senhor’, um exemplo luminoso de como o tempo e a experiência compartilhada podem transformar relações e fortalecer laços de amizade verdadeira. Eles nos ensinam que as primeiras impressões podem ser enganosas e que é no convívio que se revela a verdadeira essência das pessoas, permitindo que a amizade floresça e cresça em profundidade e significado.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/companheiros-de-jesus-a-conexao-espiritual-de-inacio.html

 

domingo, 20 de março de 2022

Os Jesuítas celebram o 400º aniversário das canonizações de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo d0 Padre Jim McDermott, SJ

 Tradução  : Ramón Lara


‘Em 12 de março, a Companhia de Jesus celebra o 400º aniversário das canonizações de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier, dois dos sete homens que juntos formaram a Companhia de Jesus sob a liderança de Inácio em 1540.

Embora as vidas de Inácio e Xavier sejam bem conhecidas, pouco foi relatado sobre os eventos em torno de sua canonização. Então, neste aniversário, aqui estão seis fatos interessantes sobre este momento importante na vida dos jesuítas e da Igreja Católica.

1. O processo de canonização de Inácio levou-o a ser apresentado de forma cada vez mais santa.

De acordo com o professor da Penn State Ronnie Po-Chia Hsia, quase desde o momento em que o Papa Sisto V estabeleceu a Sagrada Congregação dos Ritos em 1588 (o precedente da atual Congregação para as Causas dos Santos), a Companhia pressionou para que Inácio fosse canonizado. Em 1594, o superior geral jesuíta Claudio Acquaviva pediu a abertura do processo, com declarações de apoio do rei Filipe II e Maria da Áustria e do embaixador espanhol.

Este não foi simplesmente um ato de devoção por parte da Companhia; como fundador espiritual e primeiro general da ordem, a posição de Inácio na Igreja teve ramificações para a Sociedade. Sua canonização daria à ordem um maior grau de legitimidade e segurança, tanto dentro da Igreja quanto em suas obras no mundo.

Contudo, apesar do apoio que Inácio recebeu e do caso apresentado pelo primeiro cardeal jesuíta da Companhia, Francisco Toledo, Clemente VIII rejeitou o pedido, porque até agora nenhum milagre havia sido atribuído a Inácio.

Como Hsia relata em seu livro The World of Catholic Renewal 1540-1770, isso levou a Companhia a mudar a maneira como representava Inácio na arte e em outros lugares. Como demonstrado em sua famosa autobiografia, mesmo antes da morte de Inácio, os jesuítas ao seu redor pretendiam criar um retrato dele que fosse atraente para os outros. Mas depois dessa rejeição, esse retrato enfatizou sua santidade em um grau cada vez maior.

Em 1601, Pedro de Ribadeneira, S.J., publicou uma nova versão de sua famosa biografia de Inácio. Mas agora incluía 80 xilogravuras de Inácio tendo visões e ostentando uma auréola, e Ribadeneira o descrevia como um herói que já havia sido canonizado no céu. Outra arte do período tem Inácio similarmente aureolado ou envolto na luz do céu, como a famosa pintura de Pedro Paul Reubens de Inácio em uma casula vermelha segurando as Constituições enquanto olhava para o céu, seu rosto brilhando; ou outro em que Inácio, em uma postura e roupa quase idênticas, estende a mão sobre um grupo de pessoas chorando em uma igreja, tirando os demônios deles enquanto querubins flutuam acima de sua cabeça e um espírito sombrio voa para longe.

Em 1605, os jesuítas bávaros chegaram a incluir o texto para a canonização de Inácio em sua própria biografia de sua vida, como se fosse uma certeza, deixando espaços em branco para que os leitores pudessem inserir o nome do papa e a data em que ocorreu a canonização.

O ponto alto desse processo de recriação de Inácio como santo é a extraordinária ‘Apoteose de Santo Inácio’ no teto da Igreja de Sant'Ignazio em Roma. Projetado e pintado pelo irmão Andrea Pozzo, SJ, o trabalho trompe l'oeil faz parecer que o teto da igreja realmente se abre para o céu e o céu, onde Inácio, com raios de luz vindos de sua cabeça, olha para o perto de Cristo.

A arte por si só necessária para criar esse nível de ilusão era em si uma poderosa expressão dos poderes milagrosos de Inácio. (Se você estiver em Roma, você realmente precisa ver esta obra).

2. A canonização de 1622 foi importante além dos jesuítas.

Enquanto alguns na Companhia de Jesus podem descrever o dia 12 de março como a canonização de Inácio e Xavier, de fato, cinco homens e mulheres foram canonizados neste dia : além dos jesuítas, Santa Teresa de Ávila, fundadora dos Carmelitas Descalços; São Filipe Neri, fundador dos oratorianos; e São Isadore, o Operário. Neste único evento, o Papa Gregório XV colocou o selo de aprovação da Igreja não apenas nos jesuítas, mas nessas outras comunidades religiosas jovens e prósperas.

3. A canonização fez parte de um processo maior para fortalecer a autoridade papal.

A canonização de 1622 também foi a primeira vez que os canonizados tiveram que passar pelo processo de serem beatificados primeiro. Como Simon Ditchfield, professor da Universidade de York, disse ao Catholic News Service, durante a maior parte da história da igreja, os santos foram nomeados principalmente pela aclamação popular da comunidade em que trabalhavam.

A Reforma trouxe consigo novos níveis de escrutínio e organização da Igreja a partir do Vaticano, incluindo a Congregação dos Ritos Sagrados e uma sequência clara para a avaliação dos candidatos e processo de canonização. Agora a santidade veio através de Roma.

Ao nomear cinco santos de uma só vez, o Papa Gregório deixou isso bem claro.

4. A canonização também serviu a um importante fim político.

De acordo com o historiador jesuíta John Padberg, em uma história contada pelo especialista em comunicações da Província Central e do Sul dos jesuítas dos EUA Jerry Duggan, Gregório escolheu esses santos muito especificamente. Em sua vida anterior como cardeal Alessandro Ludovisi, Gregório era conhecido por seu bom senso e diplomacia. Ele havia ocupado a Sede Apostólica, a mais alta autoridade judicial da Igreja Católica, além do próprio papa. Também foi chamado para resolver disputas entre o papa e diferentes governos e também entre vários partidos.

Como Padberg explica a Duggan, na época, a França e a Espanha eram as duas principais potências católicas na Europa. O antecessor de Gregório, o papa Paulo V, mostrou-se a favor da França. Assim, como tentativa de equilibrar a balança, quatro dos cinco canonizados em 12 de março de 1622 eram da Espanha. O quinto, Felipe Neri, era da Itália. (Como italiano, Neri era o favorito da cidade natal. Muitos romanos supostamente descreveram o evento como ‘Quatro Espanhóis e um Santo’.)

Gregório também escolheu este momento para dar à nova capital da Espanha, Madri, seu santo padroeiro, Santo Isidoro. De fato, a canonização de Isidoro foi o principal evento do dia, segundo Simon Ditchfield; O rei Filipe IV pagou por uma estrutura ‘teatro’ a ser construída dentro de São Pedro, decorada com cenas da vida e milagres de Isidoro. ‘Os outros foram, tecnicamente, apoiados nesta cerimônia’, disse Ditchfield ao CNS.

Mais do que uma boa diplomacia, na época da canonização, as nações da Europa já haviam iniciado a descida para a série de conflitos que seria chamada de Guerra dos Trinta Anos. Mais de oito milhões de pessoas morreriam ao longo desses anos de violência, fome e doenças.

Embora essas guerras sejam frequentemente apresentadas como sendo entre protestantes e católicos, a realidade era muito mais complicada. Quando Gregório assumiu o cargo, a França, a Veneza e a Saboia estavam perto do ponto de guerra com a Espanha e o Sacro Império Romano. Como uma tentativa de evitar que as coisas se agravassem ainda mais, Gregório fez com que o exército papal guardasse uma série de passagens alpinas nas quais a Espanha dependia para se comunicar com o Império.

No final, a França e a Espanha de fato entrariam em guerra. Mas isso não aconteceu durante o reinado de Gregório.

5. A relação do Papa Gregório XV com os jesuítas continuaria.

O Papa Gregório foi o primeiro Papa a ter sido educado pelos jesuítas, estudando com eles em Roma nos colégios alemão e romano – e não muitos anos após a morte de Inácio. Embora tenha sido papa apenas por 30 meses, eleito em 14 de fevereiro de 1621 e morrendo em 8 de julho de 1623, nessa época ele não apenas canonizou Xavier e Inácio, mas também usou seu próprio dinheiro para pagar igrejas e escolas em missões jesuítas.

Gregório tinha problemas de saúde quando foi eleito papa. Como Inácio, sofria de doenças estomacais que podem ter sido causadas ou agravadas por sua prática de jejum. E após sua morte, deixou à Sociedade dinheiro para construir a igreja em Roma com o nome de Santo Inácio, que ostentaria a surpreendente arte do irmão Pozzo. Quando foi concluído, Gregório foi enterrado lá, junto com os restos mortais de seu sobrinho e ajudante de campo cardeal Ludovico Ludovisi.

Seu túmulo ostenta um belo conjunto de figuras esculpidas projetadas pelos alunos de Gianlorenzo Bernini. Gregory senta-se cercado por anjos, como Inácio acima dele. E onde as mãos de Inácio se estendem maravilhadas com a visão de Jesus, a mão de Gregório se estende em boas-vindas.

6. A vida de Inácio e Xavier terminou sem a grandeza que receberam na morte.

Os caminhos de Inácio de Loyola e Francisco Xavier como jesuítas foram em muitos aspectos opostos. Xavier passou a vida na estrada, conhecendo pessoas e construindo igrejas. Inácio passou sua vida como jesuíta em Roma, sentado em uma sala escrevendo as Constituições, respondendo a cartas e construindo a Companhia como uma organização (um trabalho em que os dois homens morreram de maneira tristemente semelhante. E em seus últimos dias, esperou em uma ilha estéril na Baía de Cantão pelo navio que o levaria para o continente. Mas o barco nunca veio. Enquanto isso, Francisco adoeceu. Morreu em uma cabana de palha na praia, podia ver a China ao longe.

Foi quase quatro anos depois que Inácio morreu em Roma. E mesmo morando na Cúria Jesuíta, a casa-mãe da Sociedade, também se viu mais ou menos sozinho no final. O Santo ficou doente tantas vezes antes de se recuperar por um momento, que ficou difícil dizer o quão sério levar qualquer luta em particular. Em 30 de julho, pediu a seu secretário Juan Polanco, S.J., que fosse ao papa e recebesse sua bênção porque acreditava que estava morrendo. Polanco perguntou-lhe se estaria bem que esperasse um dia porque tinha muitas cartas para enviar. (Esta é uma história muito jesuíta.)

Ao amanhecer, ficou claro que Inácio ia realmente morrer. Mas já era tarde demais para ir ao papa, embora Polanco tenha ido mesmo assim, ou para conseguir o confessor que também pedira. Não está claro quem exatamente estava com Inácio no final. Algumas histórias não sugerem ninguém.

Parece que há uma grande ironia nisso. Estes são dois dos grandes santos da Igreja, pessoas que acreditavam ser santos mesmo durante suas vidas, mas em seu momento de necessidade ninguém estava lá.

Mas um jesuíta que conheço, Paul Harman, S.J., insiste que não, isso não é ironia. É graça. Desde cedo Inácio e Francisco jogaram fora todos os sonhos extravagantes que haviam planejado para suas vidas, todas as grandes coisas que iam fazer porque decidiram que queriam outra coisa : estar nas mãos de Deus. E levou toda a vida deles, mas no final eles receberam essa graça completa. Finalmente, não sobrou nenhum romance, nenhum seguidor dedicado, nenhum feito heroico. Finalmente, entregaram tudo, tudo, e poderia ser apenas Deus e eles. Deus os tomou pelas mãos.

Sua entrega e a resposta de Deus : Isso é o que a Igreja celebra neste mês.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1569855/2022/03/os-jesuitas-celebram-o-400-aniversario-das-canonizacoes-de-santo-inacio-de-loyola-e-sao-francisco-xavier/

sábado, 2 de outubro de 2021

Da oração à conversação

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo d0 Padre Alfredo Sampaio Costa, SJ


‘Darío Restrepo, no Diccionario de Espiritualidad Ignaciana1 , escreveu um precioso verbete sobre a ‘conversação espiritual’. Trazemos aqui suas principais reflexões e as comentamos. Causa impressão a confiança que Inácio deposita na palavra para poder encontrar a Deus e como instrumento para ajudar aos próximos. ‘Conversar’ é uma palavra complexa. Segundo Santo Inácio, pode significar a relação com alguém (conversar-tratar com) e/ou o falar com o outro (conversação-diálogo), dependendo do contexto (cf. Const. 89.196.729.637.814637, 802…). No século XVI não era usual empregar a palavra ‘diálogo’. O termo ‘falar’ inaciano segue ordinariamente o sentido geral que se dá a ele na língua espanhola. Algumas poucas vezes Santo Inácio o toma como equivalente ao ‘conversar espiritualmente’ (cf. Aut. 21.28.42.56.65-67, 70; Const. 157. 250.726; Diário Espiritual (DE) 15.53,54.63.69.74.77.95.113).

A experiência de Inácio em termos de conversação

A conversação de Inácio foi muito mais adquirida que inata; aprendida e moldada pacientemente mais que espontânea. Isso foi ainda mais notório referido à sua conversação espiritual; terá um como, um porquê e um para quê, ‘indo sempre buscar o que quero’ (EE 76). Ele não falava por falar com palavras ociosas. Nas Constituições se dirá que em matéria de conversação espiritual, o essencial é sempre a unção que o Espírito Santo comunica para isso; mas, de nossa parte, algumas orientações podem ajudar a prevenir os inconvenientes e assegurar as vantagens para poder conversar ‘no Senhor’. Como em toda a doutrina inaciana, aqui também encontramos o segredo e a chave de Inácio na sua estreita união entre a graça de Deus e a colaboração humana, princípio e fundamento desta conversação. O que Inácio ensinava, ele o tomava de sua experiência, fonte de sabedoria.

Qual foi a experiência de Inácio em matéria de conversação espiritual? Qual a unção que recebeu do Espírito e quais as orientações que encontrou para colaborar com ela? No que se refere à sua espiritualidade, ele, como todos os espirituais, é devedor da Tradição dos Padres da Igreja. Mas não é menos certo também que em grande medida foi também um autodidata como se vê claramente no discernimento dos espíritos. Como não tinha quem o ensinasse nessas matérias entrou por graça divina na escola de Deus que o instruiu diretamente : ‘Neste tempo [de Manresa] Deus o tratava da mesma maneira que um mestre-escola trata uma criança, ensinando-lhe’(Aut 27).

Sob a guia do Espírito : da conversão à conversação

Durante o tempo de sua conversão em Loyola, Inácio parte, na matéria do conversar, da conversação com Deus e a partir dela passa à conversação com os homens. Sua longa convalescença e os intermináveis espaços de solidão em Loyola o levaram a conversar com ele do que passava no seu interior. Uma autêntica conversação espiritual : o Relato do Peregrino (Autobiografia) [Aut. 1-37]. Ainda que cronologicamente é sua obra póstuma (1553-1555), podemos encontrar nela os inícios da conversação inaciana. Pela sua origem, os meios que empregou e a finalidade que pretendeu ao fazê-la, a Autobiografia não somente narra a história de sua conversação, mas ela mesma é uma autêntica conversação espiritual; nela, Inácio fala escolhendo cuidadosamente suas palavras e com a força que as inspira, Inácio comunica à experiência uma familiaridade com Deus, um Deus que está na raiz de todos os acontecimentos que vai relatando. Encontramos, inicialmente, uma longa gestação de seu mundo interior que vai se traduzindo, pouco a pouco, em palavras exteriores. Os livros da Vida de Cristo e da Vida dos Santos abrem nele um diálogo com Deus e consigo mesmo (cf. Aut. 1.12). As lembranças do mundo o levam também a um solilóquio referente à dama dos seus pensamentos. Nestes balbucios do discernimento aparecem dois novos interlocutores em sua conversação interior : Deus e o demônio. A partir desse momento se estabelece uma interrelação entre sua intimidade e sua expressividade, entre sua vida interior e sua conversação. Suas palavras ressoarão as vibrações de seu espírito. Sem estudarmos a sua evolução interior, a conversação espiritual de Inácio resulta incompreensível ou a sua compreensão será inadequada. Nesse tempo, seus familiares tentarão dissuadi-lo da mudança que já notavam nele. Inácio anota : ‘Ele, não cuidando de nada […], o tempo que conversava com os de casa o gastava em coisas de Deus, como o qual fazia proveito em suas almas’ (Aut. 11). A sua peregrinação à Terra Santa e suas múltiplas viagens marcarão a necessidade de uma grande adaptabilidade de sua conversação segundo pessoas, tempos e lugares.

Os Exercícios Espirituais, um manual para conversar com Deus e com os homens

Ouvir o que falam as pessoas […] como falam umas com as outras […] e refletir depois para tirar algum proveito de suas palavras’ (EE 107). O ‘como falam’ concentra a nossa atenção. Este texto está tomado precisamente da contemplação da Encarnação do Verbo, a Palavra do Pai. Inácio aprendeu do Verbo, em Manresa, usar a palavra com verdade e caridade discreta, como mensagem para os próximos. Inácio escreveu o seu livro dos Exercícios como um diálogo em várias direções : ‘daquele que dá os Exercícios’ com Inácio através do seu texto; do ‘que dá os Exercícios’ com ‘o que os recebe’; deste com Deus; de Deus com o exercitante. Por isso a palavra está no centro do texto : a de Deus, e baseado nela e na palavra dos Exercícios, a do exercitante e a de seu acompanhante. Pedro Fabro chamava ‘conversações em Exercícios’ à realização desta experiência para exercitar-se espiritualmente (cf. Aut. 17.21 ss). Como todo manual, necessita uma explicação e uma adaptação : se dão e se recebem. Não é um livro para ser lido, mas são exercícios para serem vividos em diálogo, são um tipo específico de conversação espiritual em que se dá ao outro ‘modo e ordem’ para proceder. Requerem uma essencial adaptação pessoal àquele que os recebe e, por isso, implicam uma conversação que vai desde o mais concreto e temporal (a comida, o sono etc.) até o mais espiritual e decisivo : a vontade de Deus.

O Pressuposto (EE 22), condição sem a qual não pode existir um diálogo autêntico, marca o ponto de partida sem que possa afetar o exercitante nenhum preconceito negativo diante daquele que dá os Exercícios.

As Anotações, colocadas ao início do livrinho, são as regras de como conversar nos Exercícios. A anotação 15 assinala a regra de ouro da conversação inaciana : ‘saber conversar de tal maneira com os homens de modo que estes possam chegar ao diálogo direto com Deus’. Saber levar o próximo a Deus sem interferir no seu trato com ele. Por isso, Inácio pede ao exercitante, nesta experiência espiritual à qual ele se exercita, uma ‘conversão à palavra’, prévia à ‘conversão à pessoa’. Primeiro fará a pessoa passar por um ‘exame geral da palavra’(juramento vão, palavra ociosa, infamante, de murmuração) e por um processo de purificação da escravidão do pecado (erro, desordem, desintegração).

Inácio toma a palavra a sério, sobretudo a palavra de Deus, e exige que esta palavra seja utilizada com verdade, necessidade e reverência (EE 38). Em seguida, confrontará esta palavra enquanto imitação de outra, com seu modelo original, a Palavra encarnada. Buscará sua integração (ordem) no Verbo que precede, ensina, interpela e espera uma resposta que não será mais do que um eco desta Palavra eterna. Para isso faz orar com o significado de cada palavra (EE 249ss). Finalmente, esta palavra-eco, iluminada e libertada através de um silêncio doloroso e eloquente, proclamará a boa nova do Senhor que volta na glória. Podemos notar que Inácio tira sua forma de conversar de seus modos de orar e vice-versa, pois se dá uma estreita interrelação, própria do contemplativo na ação. ‘Ver a Deus em todas as coisas : também na palavra verdadeira, necessária e reverente’(EE 38-39)’.

Para refletir :

Como podemos crescer no conversar espiritualmente?

– Temos tratado a Palavra de Deus com reverência, atenção devida e profundidade?

 1 - Darío Restrepo, ‘Conversación’, em : GEI, Diccionario de Espiritualidad Ignaciana, Santander/Bilbao : Mensajero/Sal Terrae 2007, 472-481.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1542338/2021/09/da-oracao-a-conversacao/

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O que a conversão de Santo Inácio pode nos ensinar 500 anos depois

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'Ignatius convalesce em Loyola', de Albert Chevallier-Tayler na Igreja do Sagrado Coração de Santo Inácio em Wimbledon, Inglaterra
 

*Artigo d0 Padre Jean Luc Enyegue, SJ

 

‘Em 1597, no mesmo dia em que ficou completamente cega, uma mulher de Maiorca chamada Noguere foi tocada pelas relíquias de Santo Inácio. A mulher relatou que um perfume de rosas a encheu de um doce consolo. A dor aguda em seus olhos diminuiu de repente. Ela começou a ver as coisas fracamente, e no dia seguinte ela começou a ver perfeitamente. Esta cura foi um dos milagres que apoiou a canonização de Santo Inácio de Loyola.

Este ano, começando em 20 de maio e continuando até 31 de julho de 2022, a Companhia de Jesus em todo o mundo e toda a família inaciana celebram a jornada espiritual de Santo Inácio desde o 500º aniversário de sua conversão em 1521 até sua canonização em 1622. No contexto deste ano inaciano, a história de Noguere ajuda a explicar a conversão como um processo de recuperação da cegueira para uma visão melhor.

Em 20 de maio de 1521, em uma batalha na cidade espanhola de Pamplona, uma bala de canhão quebrou uma perna de Iñigo López de Loyola e feriu a outra. Com o incidente, Iñigo havia chegado ao fundo do que tinha sido uma existência bastante destruída, marcada por perdas e por uma ambição insaciável. O homem ferido em Pamplona era um órfão de 26 anos que perdera os pais muito jovem. Um de seus irmãos morreu na guerra. Outro se aventurou nas Américas e nunca mais voltou para casa. Na época da batalha de Pamplona, seu novo mestre e padrasto, Juan Velásquez de Cuéllar, o tesoureiro-chefe da coroa, que havia apresentado a Iñigo o decoro e a diplomacia da corte, havia perdido sua posição privilegiada.

A conversão de Inácio ocorreu durante sua longa recuperação dos ferimentos, enquanto lia sobre a vida dos santos, como Francisco e Domingos. Os sonhos de Inácio foram transferidos de façanhas heroicas no campo de batalha ao serviço heroico a Cristo. A bula da canonização em 12 de março de 1622, relatou que Inácio foi chamado das honras mundanas e do serviço militar terreno para uma vida santa que levou à fundação da ordem dos Jesuítas e, em última instância, ao consolo das almas em todo o mundo.

Embora o tema geral deste ano jubilar seja a conversão, o convite subjacente relacionado a essa conversão é ‘Ver tudo de novo em Cristo’. (2 Coríntios 5,17). Ver ‘perfeitamente’, como Noguere, ou ver tudo novo, como São Paulo, é primeiro reconhecer alguma forma de cegueira. Então, quando tocados pelas relíquias de Inácio – ou seja, uma vez inspirados por sua experiência e tradição espiritual – seremos capazes de deixar Deus nos consolar e, assim, abraçar nosso presente e futuro com fé e esperança renovadas.

Nosso mundo enfrenta novos desafios. A Covid-19 sozinha destruiu nosso modo de vida normal. Precisamos de fé para ver de novo. A 34ª Congregação Geral da Companhia de Jesus em 1995 declarou que ‘sem fé, sem os olhos do amor, o mundo humano parece mau demais para encontrar um Deus bom, para que um Deus bom exista. Mas a fé reconhece que Deus está agindo, por meio do amor de Cristo e do poder do Espírito Santo, para destruir as estruturas de pecado que afetam o corpo e o coração de seus filhos’.

A congregação foi significativa em parte porque ocorreu em um momento de autoexame para a ordem. Foi um momento em que, como jesuítas, como escreveu a congregação, ‘enfrentamos nossas limitações e fraquezas, nossas luzes e sombras, nossa pecaminosidade’. No entanto, em meio ao quebrantamento do mundo, os jesuítas ‘também encontraram muitas coisas sábias e boas’. Eles puderam ver tudo de novo e se comprometeram a ‘seguir este Cristo, o Senhor Crucificado e Ressuscitado, em peregrinação e serviço’.

A conversão de Inácio não foi concluída instantaneamente, após sua queda em Pamplona. Esse incidente, no entanto, estabeleceu um novo curso para sua vida. Isso virou sua vida de cabeça para baixo e forçou-o a um autoexame. A partir desse despertar espiritual, Inácio tinha um desejo ardente de santidade e zelo por fazer grandes coisas para Deus, desejo que no final o levou a um longo processo de autoentrega.

O apelo dessa conversão hoje é que, quando confrontado com uma situação de desesperança, Inácio criou uma intimidade maior com Deus. Ao renovar seu relacionamento com Deus, o santo foi capaz de redirecionar sua existência incerta. Inácio colocou Deus no centro de sua vida. Ele podia olhar para o mundo não com medo, mas com esperança e o desejo de incendiá-lo com o amor de Cristo.

Este ano inaciano não se limita à conversão de Inácio, mas culmina com sua canonização. Sua causa foi apoiada por milagres atribuídos à sua intercessão, como a recuperação da visão de Noguere por meio do uso de relíquias. Embora a linguagem das relíquias e dos milagres em si possa parecer em desacordo com o extremo racionalismo de nosso mundo, todos nós temos a tarefa de interpretar essas ‘relíquias’ e milagres significativos para nosso próprio tempo.

Como herdeiros da tradição inaciana, somos os guardiões das ‘relíquias’ espirituais de Inácio. Continuamos em dívida com a rica tradição inaciana, que, embora enraizada no cristianismo medieval, corajosamente abraçou o mundo moderno. As oportunidades oferecidas pelo mundo do tempo de Inácio moldaram a Companhia de Jesus, que por sua vez ajudou a transformar a Igreja e a forma como ela alcançou o mundo.

Os milagres ainda fazem parte da nossa prática espiritual. Quando confrontados com uma tragédia, uma doença incurável, a perda de um emprego, um amigo ou irmão querido, podemos orar a Deus no segredo de nossos corações para que intervenha. O verdadeiro milagre pode não ser a realização imediata de nossos desejos ou orações por várias necessidades. Em vez disso, é o consolo que surge do aprofundamento da fé em Deus.

O milagre é acreditar que para aqueles, como Inácio, que acreditam em Deus e confiam no cuidado e na providência de Deus, não há acidente, tragédia ou fracasso que não possam superar. O ponto mais baixo que Inácio atingiu em 1521 tornou-se um trampolim para maiores aventuras, sua autorrealização e seu sucesso. A Igreja considerou a jornada de Inácio de 1521 a 1622 exemplar para os outros.

Na África e em sua igreja em crescimento, há muitas razões para ter esperança, mas também para o desespero. A celebração do jubileu reforça nossa esperança de que as coisas possam mudar para melhor. Os enfermos podem ser curados. A paz pode ser restaurada. A alegria do Evangelho pode florescer. Os reis da Espanha, da França e da Baviera foram capazes de colocar de lado suas rivalidades sangrentas para pressionar pela canonização de Santo Inácio. Como eles, todos os cristãos podem ajudar a construir uma comunidade global pacífica e criar novas redes de solidariedade e amizade para a maior glória de Deus e o serviço aos mais pobres entre nós. Ver todas as coisas novas é renovar nosso compromisso com a visão original de Inácio, de uma profundidade espiritual, amor e serviço à Igreja e à sociedade.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1515476/2021/05/o-que-a-conversao-de-santo-inacio-pode-nos-ensinar-500-anos-depois/