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quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Os mais pequenos são mestres

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Loreta Beccia,

Missionária Comboniana

 

‘Sou uma missionária comboniana italiana e aterrei há poucas semanas na República Democrática do Congo, no coração de um continente completamente desconhecido para mim. É a minha primeira vez em África e estou ansiosa por descobrir o que esta terra guarda para mim e as maravilhas que o Senhor me está a preparar.

Antes de pôr os pés neste abençoado solo africano, e apesar de ter apenas 35 anos, o Senhor permitiu-me ter muitas experiências interessantes, tanto na Europa como na América Latina. Em cada um dos lugares onde estive, sempre descobri que o Senhor me tinha precedido e preparado o caminho, porque Ele organiza sempre tudo para que os Seus filhos e filhas possam crescer e amadurecer.

Na minha vida missionária estou consciente de que a herança que São Daniel Comboni me deixou é preciosa e que, como sua filha, tenho uma grande responsabilidade. É por isso que tento viver a minha vida missionária com os olhos e o coração sempre abertos para deixar a Palavra de Deus, encarnada nas realidades e nas pessoas que encontro, transformar-me e ajudar-me a ser melhor, santa e capaz, como Comboni queria que fossem os seus missionários.

Partilhar a vida

Agradeço a Deus pelos muitos dons que recebi, especialmente pelas pessoas que conheci, pelas histórias que ouvi e pelas vidas que partilhei. Sempre quis aprender com os mais pequenos, por isso, lembro-me como de um tesouro os nomes e encontros com algumas das crianças e jovens do meu tempo no Equador.

Por exemplo, Thiago, 6 anos de idade, que me ensinou como o amor transforma tudo. Este menino, abandonado pelo seu pai e sem experimentar o amor da sua mãe, era violento com as outras crianças, de modo que todos o isolavam. Mas que culpa tem uma criança tão pequena? Quando comecei a conhecer a sua história, a trabalhar com a sua família e a transmitir-lhe o amor que eu tinha experimentado na minha família, ele começou a mudar. Qual foi a principal mudança? A sua mãe, pouco a pouco, descobriu que o Thiago era um presente de Deus e começou a amá-lo.

Outro nome na minha vida é Marcelo. Este rapaz equatoriano de 17 anos viveu com raiva e violência em resposta a uma existência cheia de dor, julgamentos, rejeição e abandono. Conhecemo-nos e a sua vida mudou a minha. Queriam expulsá-lo da escola por ter cometido um acto violento. Naquele momento lembrei-me de Comboni, que disse : «Temos de estar do lado dos últimos, dos mais necessitados e abandonados, esta é a nossa missão!» Por isso, defendi-o e disse aos responsáveis da escola que se o expulsassem, teriam de me expulsar também como professora. Começamos, então, a fazer uma viagem juntos; ele deixou-se ajudar, começou a acreditar em si próprio e nas suas capacidades. Teve a força e a coragem de deixar o velho Marcelo para que o Marcelo renovado pudesse ressuscitar. Queria jogar futebol profissionalmente, mas hoje está a estudar para ser assistente social. Sabem porquê? Um dia, disse-me : «Sei o que significa cair num buraco profundo, mas também sei o que significa encontrar uma mão estendida para me ajudar a sair. Hoje, graças a esta experiência, posso ajudar outros jovens!» As suas palavras causaram-me arrepios. Tal como disse que era necessário «salvar a África com a África», hoje Comboni não hesitaria em afirmar a necessidade de «salvar os jovens com os jovens!». Nada é impossível para Deus.

Aprender com os pequenos

Eu poderia continuar a dizer-vos o que aprendi com Ariel, com Arlette... com as comunidades indígenas e afro-descendentes, que lutam porque acreditam que o mundo pode ser melhor. Quantas famílias vulneráveis, mães solteiras, crianças e jovens vítimas de abusos e maltratados me ensinaram o valor de um sorriso, de um abraço, de uma palavra de encorajamento, em suma, o valor da vida! Graças a eles, aprendi que se é missionário quando se está ao seu lado, quando se caminha com os outros, quando se ama e se deixa amar, quando há paixão e, apesar das dificuldades, continuar a sonhar para realizar o grande projecto de Deus que é a felicidade e a vida abundante para todos.

Passei a minha última etapa no Equador com 2500 estudantes com idades compreendidas entre os 3 e 17 anos. Àqueles que dizem que as crianças e os jovens não têm nada a ensinar aos adultos e à sociedade, eu digo que estão enganados. Foram os meus grandes professores, ensinaram-me que a vida é um dom precioso e que ninguém tem de a desperdiçar ou espezinhar; que a vida vale a pena até ao fim, nas alegrias e nas dificuldades, porque tudo nos ajuda a ser pessoa, a sentir o que os outros sentem, e também a amar sem medida.

Sei que nesta etapa congolesa, que estou a iniciar, o Senhor me dará mais do que posso oferecer : sorrisos, abraços, amizade, confiança... Por isso não há nada a temer. Seja feita a Sua vontade!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/artigos/8/626/os-mais-pequenos-sao-mestres/

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Os esconderijos de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo do Padre António Rego,
Missionário Comboniano


‘Do futuro tudo se pode dizer. O tempo esconde sinuosidades, surpresas, acontecimentos festivos e tragédias. Mas também desgastes, desperdícios, arranha-céus e barracas, prémios Nobel, criminosos e heróis desconhecidos. E nós, no escalão social e eclesial em que nos encontramos, seguimos, segundo a nossa capacidade de rejuvenescer ou de nos conformarmos com a mediocridade que nos pode oferecer um caminho com menos custos dentro daquele que já nos custa percorrer.
Mas não vamos sós. Mesmo nos nossos cansaços temos quem vai ao nosso lado, suba, recomece, crie, ressurja das cinzas, vença a fragilidade e o pecado. E, por sermos cristãos e não deixarmos arrefecer a nossa entrega, temos tempo e espaço para a invenção, a conversão e para escrevermos e dizermos sempre algo de novo, para redescobrirmos o Evangelho cada dia, para nos levantarmos de cada queda e olharmos para o lado oferecendo amparo, dando esperança, ajudando a levantar tantos caídos que também nos ajudam nas nossas quedas. A ascese cristã sempre nos estimula a mais um passo, a prosseguir a subida, sentir a luz que vem de cima, fixar os olhos no Mestre que nos chama e deixar estrelas sobre a estrada. Os nossos passos, as nossas palavras, o nosso exemplo, não caem em terra seca, acordaram outros para subir, prosseguir, purificar, amparar, anunciar.
Que bom seria se cada dia fosse o cumprimento simples deste programa que parece complexo, mas reveste a nossa pele a ponto de já o cumprirmos com naturalidade que faz parte da nossa essência.
Apetece-nos sempre perguntar : como se encaixa esta crônica quase angélica na realidade que somos, na dualidade das palavras que usamos, nos tempos mortos da nossa oração, nas quezílias que tantas vezes temperam as nossas relações com os outros, nos tronos e altares que erguemos ao nosso ego, no desprezo ou esquecimento que alimentamos pelos outros?
É nesta dualidade que vivemos, de santos e pecadores, apóstolos e indiferentes, com momentos fortes de interioridade e tempos vazios e inoperantes, gestos destemidos de dádiva e cobardias de egoísmo acumulado.
A tudo isto acresce que não estamos sós. Nem somos apenas dois ou três. As nossas vidas passam-se em comunidade, comunidades múltiplas onde as nossas subidas e quedas são gestos de multidão que professa a mesma fé, parte do mesmo baptismo e está a caminho da mesma Luz, inspirada e animada pelo nosso Mestre, que é a nossa referência constante. É nossa missão acolher e potenciar as energias que ele nos concede e a comunidade que nos estimula e confirma. É nesta direção que todos somos enviados, movendo, ensinando e aprendendo o caminho sempre novo que o Mestre nos indica. Sem nunca perder de vista os sinais dos tempos, a originalidade de cada época, os novos caminhos que sempre se abrem, as surpresas que nos deixam aqueles que não fazem parte do nosso itinerário, nem proclamam a vida com as nossas palavras, nem manifestam sinais de fé. E, todavia, muito têm para nos ensinar por uma escrita única que Deus deixou em cada ser humano. Para O anunciar, urge procurá-lo nestes circuitos tortuosos e desconcertantes em que Deus se encontra onde menos se espera. É nossa missão não apenas proclamá-lo, mas procurá-lo aí, insuspeitamente escondido no manto espesso de cada tempo.’

Fonte :


domingo, 24 de maio de 2015

Missionário nas Arábias : determinação e visão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘...Recebam uma saudação de esperança das Arábias.

As realizações dependem sempre de dois elementos importantes : ter uma visão na linha do horizonte e a determinação de caminhar no seu rumo com o intuito de chegar o mais perto possível.

O sucesso de Dubai dependeu muito de seu xeque Rashid, da dinastia Maktum e seus sucessores que souberam combinar visão e determinação.

 Contudo, nada poderia ter sido conquistado se não fosse pelo espírito gregário dos vilarejos, reconhecidos como trabalhadores incansáveis. Sem recursos em terras desérticas, resolveram buscar soluções para sua sobrevivência. Por isso aumentou-se a frota de navios para comercializar e, muitas vezes, até contrabandear. Sendo o porto de pouco calado, pediram dinheiro emprestado para dragá-lo. Convidaram estrangeiros para se estabelecerem com seus negócios no Emirado, prometendo-lhes que não pagariam impostos e que não haveria convulsões sociais.

Como era de se esperar, os estrangeiros caíram nas graças do xeque Rashid da vila de Dubai, que já se havia transformado em cidade.

Com a presença de pessoas de outros países e a visita de comerciantes, Rachid foi informado das maravilhas do mundo moderno. Soube que havia arranha-céus em Nova York e o trem subterrâneo de Londres. Ouvia as informações com atenção. A nova situação revelou um grande abismo entre Dubai e o resto do mundo. Rachid decidiu que isso mudaria.

A cidade de Dubai já não se constituía numa população isolada entre a areia e o mar. Alimentou o sonho de que o nome da cidade de Dubai deveria ser conhecido, em todo o planeta. Queria sentar para um jantar em Nova York e comentar os acontecimentos de Dubai. Sua ambição era ver dois ingleses, tomando cerveja e falando sobre Dubai. Enfim, propôs a si mesmo que faria com que a cidade estivesse na boca dos fazendeiros na China, dos banqueiros da Suíça, dos generais da Rússia.

Contudo, para que todos pudessem conhecer Dubai, ela não podia ser uma cidade pequena e pobre.  Alimentou o desejo de transformá-la na mais luxuosa cidade da terra como não haveria outra. Seria a Cidade do Ouro.

O xeque Rashid era um homem carismático, exagerado e ambicioso sem muito tempo para dialogar sobre projetos.  Pôs em seus planos de transformar Dubai no centro financeiro do mundo, do edifício mais alto do planeta, do hotel mais alto e caro da terra, do maior porto artificial do mundo, da imitação das construções emblemáticas de Nova York.  A arquitetura aqui deveria explorar a unicidade e a beleza. Para ser diferente deveria trazer para o deserto o que seria inimaginável : uma cancha de esqui, o maior jardim de flores do mundo, outro jardim com milhares de borboletas, uma selva amazônica, ilhas artificiais e vai por aí afora.

A megalomania de Rashid, porém, foi um eclipse para o bom senso. O sentido de comunidade, acolhida e simplicidade das pessoas do deserto foram perdidos para sempre.  À visão e determinação faltou-lhe sabedoria.

Amigos e amigas,

‘Todo mestre da lei, bem esclarecido quanto ao Reino dos céus, é semelhante a um pai de família que sabe tirar do seu tesouro coisas novas e coisas velhas’. MT 13:52’


Fonte :



domingo, 22 de junho de 2014

A lição do Samurai

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

* Autor desconhecido

Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que se dedicava a ensinar os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro, conhecido por sua total falta de escrúpulos, apareceu por ali. Queria derrotar o samurai e aumentar a sua fama.

O ancião aceitou o desafio e o jovem começou a insultá-lo. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou insultos, ofendeu seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o ancião permaneceu impassível.

No fim da tarde, sentindo-se exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados, os discípulos perguntaram ao mestre como ele pudera suportar tanta indignidade.

- ‘Se alguém chega até você com um presente e você não o aceita, a quem pertence o presente?’

- ‘A quem tentou entregá-lo’, respondeu um dos discípulos.

- ‘O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo...’

A sua paz interior depende exclusivamente de você. As pessoas não lhe podem tirar a calma. Só se você permitir...

  
Fonte : 
* Enviado pelo Mosteiro Nossa Senhora da Paz – Itapecerica da Serra - SP

Revista Beneditina nrº 9, Março/Abril de 2005, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tornar-se monge na sociedade secular de hoje (Capítulo 2 de 2)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB) 

 
IV – O Outro
Falamos sobre dois aspectos do mundo interior do jovem monge – a apropriação de sua herança humana como intelectual e como poeta, isto é, como alguém que pensa e alguém que sente. Falamos, então, sobre o ser humano em sua ‘solidão’, em sua experiência de si mesmo. Mas sabemos que solidão representa um polo da vida humana e que necessita para completar-se o polo da comunhão. O poeta tcheco Rilke afirmou que cada um de nós tem o dever de tornar-se um universo inteiro para depois entregar-se a um outro como dom. as nossas constituições trapistas comunicam esta mesma intuição quando dizem que nossa vivência monástica exige tanto uma grande capacidade para solidão como para a vida comunitária. E o nosso abade geral atual gosta de chamar-nos de ‘cenobitas no deserto’. Moramos no deserto monástico, sim, na separação geográfica da cidade e na privacidade de nosso coração. Mas vivemos juntos, e isto é essencial à nossa vocação monástica e humana.
O jovem brasileiro – e nisto ele é muito parecido com seus primos, os jovens do mundo inteiro, embora com uns toques particulares – encontra muito rapidamente dificuldades sérias neste caminho de comunhão. É quase certo que, provindo da cultura global, ele morava num ambiente precocemente sexualizado, e absorvia os valores desta cultura. Aqueles que se apresentam à porta do mosteiro como vocacionados raramente falam da experiência de uma longa e profunda amizade. Pulam, durante a entrevista, da família de origem para o primeiro namoro. Este pulo significa mais do que um lapso de memória. Ao contrário, deixa ver acertadamente um buraco importante em seu desenvolvimento. Ficou roubado, muitas vezes, da experiência de um compromisso afetivo, mas não fundamentalmente sexual, a aliança da amizade, onde realidades como idealismo, admiração e generosidade costumam despertar e florescer. Desde Homero na literatura grega e a primeira monarquia no Antigo Testamento, a amizade é visualizada como um dos aspectos mais preciosos da aventura humana, onde tranquilidade e paixão, sacrifício e realização, diferença e identidade brincam produtivamente entre si. Sei que nos lares brasileiros muitas destas qualidades acima mencionadas exprimem-se num contexto familiar, e também que o namoro/noivado/casamento constitui um dos mais fertéis campos imagináveis para o amadurecimento do ser humano. Mesmo assim, muitas vezes perde-se o momento entre lar e casamento, um momento que deve representar uma graça particular estável, uma forma vitalícia da intimidade humana.
Então, os nossos jovens entram no mosteiro. Quer dizer, para nós velhos, depois de muita transformação, é um mosteiro. Para eles, sobretudo quando entram sem esta experiência profunda de amizades (amizades particulares e grupos de amigos), a realidade é outra. Automaticamente, o mosteiro assume a tonalidade – a cara – de um time ou de uma sala de aula ou de uma vizinhança ou de um escritório/fábrica ou de um curso pré-vestibular, ou simplesmente da rua. Assim criamos todos nós o nosso mundo. Portanto, espontaneamente os jovens pegam na pasta de atitudes e práticas conhecidas. Por exemplo :
1)      Desconfiança : O jovem vive com medo de chamar atenção, acreditando que mais cedo ou mais tarde, atenção fatalmente vira zombaria. Se ele faz muito bem, está ‘puxando saco’; se ele fracassa, ele era um vaidoso, um idiota, por ter tentado aquilo que não tinha condições de realizar. Além de abafar sua criatividade – melhor ficar cabisbaixo e sumir no rebanho – esta desconfiança generalizada facilmente leva a um sentimento de hostilidade, tanto de sentir hostilidade quanto de sentir-se hostilizado. Quando isto acontece (e ainda não vi uma exceção), surge a tentativa de evasão. 
2)     Evasão : Tira o fôlego testemunhar com que rapidez os jovens podem apagar-se mutuamente do livro da vida : ‘Ele não presta’. Perdoam uma, duas, até três vezes, e depois (estou falando ironicamente ‘criam juízo’. Descobrem que este sujeito é perigoso, agressivo, mal educado, racista, etc. Nestas condições, pensam eles, o comportamento mais acertado é criar uma boa distância afetiva. Você fique em seu canto do mosteiro e eu fico no meu. Só que isto não pode dar certo. O mosteiro é pequeno demais, os encontros constantes demais para permitir uma boa guerra fria. Mais uma vez a sabedoria da cidade revela-se como penosamente inadequada no contexto monástico. Espiritualmente, a tática de evasão representa um contra-valor inaceitável numa sociedade de comunhão, como o mosteiro pretende ser. E depois, é um crime sem lucro. Busco com grande empenho colocar um espaço suficiente entre mim mesmo e aquele que eu chamo (com ênfase signiticativa) ‘Meu irmão’, mas ele continua vivendo no mosteiro e até ocupa alguns andares na casa da minha cabeça. Paciência! Donde vem esta tendência para desconfiança-hostilidade-evasão? Ao meu ver, em grande parte vem do treinamento insuficiente das emoções.   
3)     Treinamento insuficiente das emoções : Um fenômeno espantoso, que manifesta-se hoje em dia como norma, é a incapacidade de processar frustrações. Os nossos antepassados aceitavam com relativa calma que a vida é frustrante, que todo dia vai trazer sua pitada da contradição e que o ser humano mostra o seu estado de adulto superando as frustrações, incorporando-as em sua experiência e assim tornando-se mais livre das circunstâncias e mais aberto a elas. Os herdeiros de nossos antepassados (quer dizer, nós) em vez de contemplarmos as frustrações cotidianas da vida como um elemento normal, se não enriquecedor, as consideram como um insulto insuportável. Um golpe! Um baque! Uma facada! Cito estas três exclamações que ouço todo dia (tem outras) para indicar uma resposta às pequenas irritações que já bem enraizou-se em nossa cultura. Aqui no Brasil vejo entre os jovens uma oscilação preocupante entre ira e tristeza, como reações a estas provocações diárias e, frequentemente, reações desproporcionais. Me parece que entre as duas respostas aquela que mais predomina é a tristeza, e eu gosto de brincar com minha comunidade que a frase que eu mais escuto é (em voz chorosa) : ‘É difícil’ (aliás, para consolá-los, digo que se o brasileiro é mais suscetível ao vício da tristeza, o americano cai mais facilmente na armadilha da soberba. Por alguma razão, esta afirmação normalmente traz alívio). 
 
O que é a tarefa do pai espiritual, imitador de Jesus,
neste ninho de vespas?
            Me parece que ele tem que constituir um contrapeso a estas tendências, ou melhor, fazer exorcismo destes demônios. Não há dúvida : tal desconfiança, hostilidade, evasão, impaciência, irritação e melancolia vão além de ser sintomas do estresse do mundo pós-moderno. Surgem de uma experiência deturpada do próximo e do ambiente interpessoal, uma experiência que estimula os hormônios de superficialidade, esperteza e excessiva prudência e que impedem o florescimento de um clima de repouso e certeza, onde gestos como o sorriso, o aperto da mão, o abraço da paz na missa, o pedido de perdão são mini-sacramentos, isentos de uma interpretação ambígua. São Máximo Confessor, monge e teólogo do século VII, ensinava que os homens são capazes de negligência; quando manisfestam hostilidade e condenação, é um sinal seguro da atuação do Maligno.
            O pai espiritual responde a estas forças malignas por sua recusa de entrar em diálogo com elas. Na presença daqueles sentimentos que acabei de citar, e que certamente o convidam a ‘entrar na onda’ – convite cuja força ele mesmo sente por causa da persistência das consequências do pecado – ele vai agir contra a mentira. A gente pensa nos manifestos de Jesus no Sermão da Montanha, de São Francisco de Assis em sua celebrada oração (‘Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz’), de Tolstoi e de Gandhi, e a gente vê que a ‘violência’ de insistir em ver a presença divina no outro, acreditar nele e perseverar em fazer-lhe o bem é muito mais poderosa do que a nuvem de poeira criada por nossos medos e agressividades. Tanto quanto o mestre encontra-se como alvo da desconfiança/agressão quanto ele testemunha uma situação negativa entre outros irmãos, ele vai buscar rasgar o véu da mentira. Seu método não consiste em desmascarar a projeção (‘Você está vendo tal coisa deste jeito por causa do negativismo que você traz em si mesmo’), nem em moralizar, mas em fazer visível de novo o verdadeiro rosto espiritual dos brigados.
            Nisso, ele vai encontrar uma grande ajuda no uso abundante e benevolente do humor. A maior bênção do humor é precisamente apontar numa maneira aceitável para o exagero, a dureza, a amargura, a autopiedade – em breve, para o venenoso numa determinada tomada de atitude. O humor contemplativo identifica-se com o irmão irracional (‘Veja como nós dois podemos agir como loucos, quando queremos’), e o chama de volta para a razão e a paz. O humor contemplativo admite que o irmão irritado tem razão, pelo menos em parte, mas coloca a pergunta : O que você – o que nós – vamos ganhar se você continuar resmungando; o que você – o que nós – poderíamos ganhar se você parasse de resmungar e começasse a cantar de novo com a gente? O humor contemplativo aproveita do direito de cutucar (um dos meus apelidos na comunidade é ‘o grande cutucador’) sem magoar. Diz-se que o que o diabo mais teme é ser ridicularizado; quando o pai espiritual consegue mostrar a bobagem no comportamento do irmão por uma cutucada que dá em cheio, o demônio foge e o irmão retorna a ser ele mesmo. Assim como disse que quando trata-se da apropriação de uma história dolorosa por parte de um noviço, o mestre tem que saber chorar e calar-se; quando o assunto é a purificação da comunidade das tendências belicosas e afastadoras, o mestre tem que rir e fazer o outro rir. Isto já é conversão, quando a dificuldade reside em vaidade e hiper-sensabilidade. Várias parábolas de Jesus pretendem levar pessoas do mundo fechado deles para o reino de Deus justamente por meio de uma gargalhada. 
 
V – O Compromisso
Alguns anos atrás, um professor de sociologia deu um curso para os professos trienais trapistas norte-americanos. Ao ouvir a pergunta, se haveria um fator que mais dificultava a formação monástica hoje em dia, respondeu imediatamente, ‘Sem dúvida. A impossibilidade do jovem comprometer-se’. Provavelmente, esta resposta não nos surpreende, porque o fenômeno da instabilidade é mundial em suas dimensões, mas não deve faltar de deixar-nos assutados. Apesar da afirmação recente de um presidente de uma faculdade ‘Ivy League’, Yale, ‘Vemos agora que uma vida bem sucedida não é uma linha reta, mas uma série fecunda de zigue-zagues’, não podemos perder a consciência que compromisso é a grande condição para comunhão, para maturidade, para o verdadeiro bem estar, e finalmente, para a manutenção do contrato social, isto é, para a continuação da sociedade. Foi Kierkegaard que asseverou, no título de um de seus livros, ‘Pureza de coração significa desejar uma coisa só’; foi Jung que insistiu que as tarefas mais profundas da vida só podem ser cumpridas por aqueles que permanecem fielmente num único propósito.
O grande bloqueio surge de uma ignorância e uma impotência. A ignorância consiste em não saber que a nossa identidade é necessariamente social. Ninguém entra na gruta de tesouros do seu próprio ser a não ser por uma interação estável com um comunidade.
Identidade depende da identificação. Aquele que borboleteia na sua vida acaba sendo apenas um punhado de pó colorido. A impotência consiste em não poder assumir o trabalho sacrificante de tornar-se peça viva e vivificante de um organismo meta-individual, de morrer à uma identidade independente e ressurgir como parte de um ou outro corpo místico (no fim das contas, qualquer família, qualquer verdadeira comunidade é também um corpo místico). Lembra-se da citação de Rilke – Primeiro a gente tem que crescer para ser um universo para depois dar-se a um outro. Aqui estamos tratando deste segundo momento, do dom mútuo dos universos. Igualmente São Bento ensina que o monge que pretende unir-se com Deus e consigo mesmo vai chegar ao seu objetivo somente mergulhando-se, ativa e afetivamente, na comunidade, suas tradições e mais ainda, com seu pessoal.
Isto traz à tona um desafio particular do compromisso monástico. O que o monge deseja acima de tudo é unir-se com Deus. Neste caso, não há ignorância nenhuma que a sua própria auto-realização depende de uma sintonia progressiva com Deus, uma ‘união de Espírito’ com Deus, para empregar o termo clássico. Por outro lado, a dificuldade de abir-se à irrupção da vida divina em sua vida é enorme, é literalmente espantosa. Uma ativa receptividade às ‘mexidas’ de um Deus invisível, transcendente e nem sempre delicado constitui a grande aventura e o grande sofrimento da vocação contemplativa. De fato, esta irrupção de Deus na vida da gente forma o drama inteiro da nossa vivência. A luta para conhecimento de si mesmo, para desenvolvimento do intelecto, para a superação das paixões nas interações comunitárias – todas estas realidades são reflexos da grande iniciativa de Deus de formar uma só coisa com um pobre mortal. É a sombra jogada por sua aproximação que põe em movimento todos estes processos.
A grande tentação do jovem monge é de dissociar os elementos desta atividade única : o unir-se de Deus com sua criação. O jovem quase morre de medo e de dor, sentindo os dedos de Deus nele, dedos que segundo João da Cruz são perfeitamente capazes de queimar e não somente acariciar. O jovem sente que uma fresta – qual um abismo está abrindo-se nele para deixar o Todo Poderoso (bom, ruim?) entrar e não sabe se vai aguentar, tem quase certeza que não. Portanto, ele quer negar a necessidade de viver estes dois processos simultaneamente. Para unir-se a Deus, pensa ele, não deve ser indispensável passar por tudo isto com os irmãos. Ele vem a perceber que a comunidade é impiedosa, que ela insiste em mantê-lo no centro da arena, e também que em vez de suavizar o sofrimento vertical místico acrescenta o sofrimento horizontal, através de transtornos, friezas, grosserias. Quando damos conta da fragilidade dos jovens, vemos o tamanho de heroísmo pedido por nossa vida simples e repetitiva. E percebemos que a perseverança na fé, esperança e caridade é um milagre.
Se o pai espiritual pode ajudar aqui? Certamente por meio da oração, porque o mistério fica essencialmente entre Deus e o jovem. Rezando igualmente para si mesmo, para não forçar a liberdade do jovem (e assim prejudica-la permanentemente), mas ao mesmo tempo para não deixar esta liberdade do jovem sem as dicas que ela necessita. Além disso, há duas forma de ajuda que o pai pode prestar. Cada vez que ele percebe a mão do Senhor tocar num de seus irmãos para prová-lo, ele deve viver seu próprio compromisso com uma pureza e fidelidade intensificada. Se o assunto é de identificação, ele em primeiro lugar tem que identificar-se com o provado, o purificado, em oração assídua e em oferta de si mesmo. Ficar com ele, à medida que isto é possível, entrar livremente em comunhão com este irmão em tudo o que este sofre, como prece silenciosa, que o irmão chegue àquela comunhão profunda com Deus e com a comunidade que o impelia a entrar no mosteiro.
A segunda forma de ajuda é de abrir seu coração, revelar seus segredos. Tem muita coisa hiperpessoal na vida monástica – toda a história de intimidade e dor entre Deus e a gente – que nunca deve ser falada (foi São Bernardo que gostava de repetir ‘O meu segredo é meu’).  
A grande exceção se encontra nestes tempos de provação do discípulo. Nestes momentos, o mestre pode falar do mistério que ninguém conhece, este mistério que pode exercer um poder divino por ser o mais precioso, quase o único bem precioso que ele possui. É o vaso de bálsamo que ele quebra e jorra sobre seu discípulo para ungí-lo em sua hora. Assim como Jesus fez do fim do seu ministério um desvelar-se absoluto : ‘Agora eu posso chamar-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer’ (Jo 15,15).
 
 

sábado, 10 de agosto de 2013

Tornar-se monge na sociedade secular de hoje (Capítulo 1 de 2)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB) 

Artigo de *Dom Abade Bernardo Bonowitz, OCSO
Prólogo da **Revista Pedras Vivas
            No momento que a conferência aqui reproduzida foi realizada, Dom Abade Bernardo Bonowitz era Prior do mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, o único mosteiro trapista do Brasil, localizado em Campo do Tenente, no Paraná. Ele proferiu essa palestra sobre a vida monástica no século XXI, no auditório da Faculdade de Administração e Economia (FAE) no dia 12 de setembro de 2001, dentro do VII Ciclo de Palestras e Conferências do Instituto Ciência e Fé. Apesar da distância, a argumentação da mesma continua atual e merece ser conhecida. Para Dom Bernardo, os jovens candidatos que querem se tornar monges precisam de uma formação humana mais ampla. Para um auditório lotado ele disse que, no mosteiro do qual é superior, apenas três entre 50 candidatos conseguem, de fato, entrar. Agradecemos ao autor a permissão para publicação do seu texto aqui. 
O jovem discípulo brasileiro e o Pai espiritual :
Tornar-se monge na sociedade secular de hoje
Introdução : Uma Nova Paternidade – de João Batista a Jesus
O monge é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seus ombros ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando monges lêem que na hora da sua morte, Santo Antão, primeiro monge, mandou seu manto para Atanásio, todo mundo entende o que isto significa.
Os monges do século IV, o século da explosão do fenômeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitas horas por dia na leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez chegado o tempo de Cassiano (século IV), a escolha foi feita. O primeiro ‘monge’, o progenitor da raça monástica, ia ser Elias – Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo, Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz de Deus como a brisa mansa que segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto com ele, como seu espelho neotestamentário, os monges escolheram a João Batista – não certamente, o neném das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os monges não falavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu próprio rosto espiritual refletido na fisionomia de seguidores de Jesus como Pedro, Tiago e João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito : sabemos que a cristologia dos monges era uma cristologia chamada ‘alta’, isto é, que enfatiza a divindade de Jesus. Mesmo assim, esta ‘paternidade mais próxima’ de Elias e João Batista necessariamente implica em certas conseguências.
Porque Elias e João Batista, pelo menos como compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escada que levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de ‘terríveis’ – título de admiração, de certo, e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles tocassem. Ninguém nunca imaginou bater um papo com nenhum dos dois.
Ora, o tema da palestra a mim pedido é ‘Ser monge na sociedade de hoje’. Eu interpreto este título da seguinte maneira : Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da sociedade de hoje, e especificamente da sociedade atual brasileira? Por um lado, meus pobres cinco anos no país não me providenciam uma intuição muito aguda nesta questão. Por outro lado, tenho a vantagem de pessoalmente viver esta situação como um ‘desafio existencial’. Superior de uma comunidade monástica brasileira, para mim é questão de vida e de morte chegar a discernir a interação exigida entre a sociedade local contemporânea e a tradição milenar monástica, para chegar àquela síntese que a gente chama de ‘inculturação’. Evidentemente, seria absolutamente ilícito falsificar as exigências do monaquismo para agradar aos ‘fregueses’, seria um tipo de morte. Igualmente, porém, seria morte cegar-me ao retrato vivo da sociedade brasileira jovem que eu contemplo em cada um de nossos vocacionados, sociedade que vive à uma imensa distância do Egito do século IV.
Esta sociedade – aqueles que vêm desta sociedade e aspiram ser monges – precisam de outros pais que Elias e João Batista. Precisam realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na própria carta aos Hebreus, pensa em Jesus como o pai de seus seguidores, e esta tradição persiste e se manifesta até na regra monástica mais difundida, a Regra de São Bento. Vamos considerar brevemente a paternidade de Jesus para aplica-la à formação monástica.
Para mim, é de grande interesse que o brado de João Batista, ‘Convertei-vos’ – foi assumido por Jesus no começo de seu ministério. Lemos no Evangelho de Mateus que quando Jesus voltou da sua prova no deserto e ficou sabendo da prisão de João, iniciou a sua própria atividade de pregação, dizendo exatamente o que João dizia : ‘Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo’. Parece que Jesus mesmo ia tomar João por seu pai. Só que esta palavra de conversão, ou pelo menos, esta maneira de abordar o tema de conversão, terminou com este primeiro anúncio. Certamente não porque Jesus decidiu que a transformação da vida não o interessava mais. Trasnformação da vida, novidade da vida, constituía o núcleo da missão de Jesus. Contudo, em vez de exigí-la como João fazia, Jesus aprendeu que ele estava em condições de comunicá-la. Comunicava-a por meio de curas, de ensinamentos (particularmente as parábolas), e sobretudo de perdão o: ‘Teus pecados estão perdoados’.
Será que foi mais fácil para o pessoal do tempo de Jesus receber a vida renovada do que serem chamados a transformar-se? Acho que não : acho que a nova vida doía dentro daqueles que a aceitavam, que sentiam muitas saudades pela vida velha. Acho que finalmente Jesus não pedia menos do que João Batista. Mas ele criava, gerava naqueles que o seguiam a nova vida que ia depois pedir em prol do seu Reino. Mais ainda, ele implantava esta vida neles da sua própria vida. Cada vez que ele curava, uma força saia dele, e ele sentia a diminuição; cada vez que ele perdoava, assumia o pecado em si mesmo e sentia o aumento. Quer dizer, Jesus vivia todo o seu ministério eucaristicamente, infundindo nova vida nos outros, ou melhor, fazendo como que a transfusão de sua vida para os outros. E assim prostitutas, cobradores de impostos, leprosos e soldados chegaram a uma auto-doação que João Batista nunca poderia ter provocado neles.
Podemos afirmar, então, que Jesus antecipava durante o ministério a intuição fundamental de Paulo na Carta aos Romanos : a humanidade não se salva através das chamadas da atenção. Uma humanidade desfigurada pelo pecado, alienada do Deus que fala nas profundezas da consciência, só se entristece e se endurece ao ouvir mais um apelo de ser diferente do que é – ou, em termos da teologia paulina, de enfrentar a Lei. Somente perdão gratuito, amor abundantemente derramado da própria fonte de amor – quer dizer, Graça, - tem a possibilidade de restaurar o homem. Garantia não tem nenhuma – é possível que o amor divino caia às vezes, muitas vezes até, num solo pedregoso, para morrer lá e apodrecer lá. Mesmo assim, é a única chance. 

I – Os Jovens de Hoje 
Os jovens que vêm buscando a vida monástica hoje em dia são pessoas admiráveis. Além de um grande idealismo que les quase sempre trazem para o mosteiro, chegam com uma generosiadade transbordante, um desejo de experimentar a Deus e uma esperança de viver numa comunhão de amor fraterno. Mas também chegam carregando um jugo pesado de sofrimento e de potencialidades ainda adormecidas ou despertadas apenas para tornar-se frustradas novamente. Vêm com grande frequência de situações de casa marcadas por todo tipo de abuso, negligência e fracasso. Vêm de lares pobres que não permitem o desenvolvimento normal de suas capacidades intelectuais, sociais ou artísticas. Vêm de famílias onde não há livros ou instrumentos musicais. Vêm de ambientes onde experimentavam muito e sentiam muito, mas nunca aprendiam refletir sobre a própria experiência e ainda menos dialogar sobre ela. Vêm de pequenos mundos de criança onde as figuras de autoridade com as quais viviam – o professor, o patrão – nem sempre mostravam para eles a paciência e a bondade que faziam parte do seu cargo, que deveriam ter feito parte do seu repertório como adultos. E por tudo isso, os jovens chegam ao mosteiro muito, muito inseguros.

Que sentido faria, portanto, de assumir o tom de um São João Batista com este moços? Há um trabalho enorme a ser feito, sem dúvida, tanto por eles quanto por aqueles que têm o privilégio de atuar como mestre de noviços ou superior. Mas este trabalho começa muito quietamente, e por sua natureza progride muito devagar. 
II – A Vida da Mente
Vamos olhar primeiro para um tema relativamente simples : a formação intelectual do novato. Existe toda uma tradição a ser assimilada, uma tradição riquíssima, aliás : a Bíblia, os padres da Igreja, os padres primitivos monásticos, os padres cistercienses de nossa ordem (século XII), a teologia sistemática, sacramental, moral, etc. Houve um momento em que eu achava que a dificuldade da assimilação baseava-se na grande sofisticação e abrangência desta tradição. Agora sei que isto é o de menos. Em certas condições – disto sou testemunha repetidas vezes –, uma pessoa com pouca formação intelectual é totalmente capaz de entrar no mundo dos padres com compreensão, delicadeza e sim, prazer (ser testemunha deste encontro é ao meu ver uma das grandes alegrias da minha vida). É trágico, sim, que o brasileiro comum receba uma formação que pouco corresponde com sua inteligência inata. Mas dá para dar uma consertada nisso no mosteiro; afinal, temos livros e temos professores. Então, não é este o problema. O problema é que por falta da experiência ou por experiências negativas, o livro, a aula, a biblioteca, o professor incutem medo. O jovem não sabe que ele tem gosto de ler; ao contrário, tem provas que não. Além disso, se ele lia antes, era sempre assunto de utilidade (ganhar o pão) ou diversão. O que fazer com uma leitura poética ou filosófica, cujo valor reside na própria beleza ou simplesmente numa aproximação maior da verdade?
Vemos assim que trata-se aqui de algo bastante básico e precioso : a descoberta do intelecto. Na minha última palestra para esta assembléia augusta, falei sobre a experiência exuberante do monge cair no mundo bíblico, de sonhar e depois acordar como um personagem a mais na história da salvação, tendo como companheiros Davi, Ester, Daniel, Pedro. Imaginen, portanto, o que pode significar acordar dentro da própria mente! É uma experiência mais cartesiana do que aquela de Descartes. Seu ‘Cogito, ergo sum’ representava uma tentativa de estabelecer inabalavelmente sua existência por meio de sua consciência reflexiva. Aqui, porém, estas mesmas palavras exprimem um estalo, ao mesmo tempo de espanto e alegria. Penso, reflito, leio, entendo e então sou, sou outro e mais do que jamais imaginava.
Será que uma tal descoberta vai acontecer somente pela leitura programada dos padres e dos teólogos? Duvido. Cabe ao formador pôr mais ingredientes na sopa, imitar a Jesus que sempre encontrava um vinho novo para botar nos odres novos. No caso ao qual estou me referindo, os odres seriam as mentes dos jovens. E o vinho novo? Um livro de poesias, um romance histórico de Alencar, uma sonata literária de Érico Veríssimo, as cebolas e pimentas de Machado. Inseparável desta tarefa é a de acompanhar o jovem em sua leitura. Além de comunicar ao noviço seu verdadeiro entusiasmo para as obras primas da espiritualidade monástica, reler com ele os livros que faziam a glória de sua própria juventude, sentir novamente o que sentia quando viajava sentado no lombo do burro ao lado de Dom Quixote, combatendo contra os moinhos de vento. O livro é o companheiro certo para a mente; mas a mente jovem tem necessidade de companheiro vivo para compartilhar com ele o seu alvoroço. E se o mestre questiona-se sobre este procedimento de dar espaço à leitura ‘profana’, que ele pense no escriba sábio do Evangelho que sabia tirar de seu armazém coisas velhas e novas. Minha experiência me ensina que uma preocupação excessiva neste assunto atrapalha mais do que protege. O jovem, com o tempo, vai sentir-se atraído à beleza da literatura mística e patrística da Igreja, e seu contato com a literatura nacional e universal vai formar nele uma sensitividade ao enredo, caracterização, imagem e tema que só pode enriquecer sua lectio da Bíblia e dos escritos dos santos padres e madres.

III – O Encontro com os Sentimentos
Tenho falado, então sobre a bem-aventurança de conhecer o mundo de livros. Segundo Orígenes, fundador da corrente da teologia mística cristã (século III), a suma bem-aventurança reside no conhecimento de si mesmo. Com isto ele quer afirmar que o ‘self’ é o sacramento primordial de Deus que cada um de nós recebe. Simplesmente existindo, possuímos em nós mesmos uma reflexão perfeita da Divindade, em cuja imagem nós fomos feitos. Aquele que consegue ver fundo em si, vê além de si, vê o Deus trino cuja força e sabedoria forma a base do próprio ser. De um certo modo, cada homem e mulher tem direito de aplicar a si mesmo as palavras de Jesus, ‘Quem me vê, vê o Pai’.
Esta visão à qual o monge é chamado (junto com todos os outros seres humanos) não é automática. Necessita um longo processo paralelo ao despertar do intelecto, isto é, o despertar da afetividade. E aí encontramos mais um desafio particularmente puxado para os nossos jovens.
Aqueles jovens brasileiros que vêm ao mosteiro levando nas costas o peso de seu passado sofrido não tem muito interesse em viver o primeiro passo desta subida/descida para a descoberta da sua identidade radical de filho de Deus. Qual é este primeiro passo ‘impulável’?
A apropriação da própria história de dor, fracasso e insegurança, uma apropriação que faz se sentir à flor da pele. Sem falar em fuga, o qual seria um termo injusto, o jovem pobre, ou subdesenvolvido de uma ou outra maneira, ou negligenciado, olha com desejo para o mosteiro como um lugar de felicidade. Se ele quisesse ficar mergulhado em seus problemas, poderia ter permanecido no mundo. Ele busca a Deus, isto sim, mas ainda não busca a cruz de Cristo. Aquele que já carrega a cruz da sua vida não precisa da cruz de outrem.
Em pouco tempo porém, dá para ver que para a pessoa sofrida todo lugar, mesmo o mosteiro, é um lugar de sofrimento. De fato, para tal pessoa, só tem duas possibilidades : consciência – a qual por enquanto vai ser necessariamente dolorosa – e distração, na tentativa de não conhecer a si mesmo à medida que este conhecimento implica dor. O maior desafio de todos, portanto, nos primeiros anos da vida monástica, é deixar-se experimentar conscientemente a carga da dor que a gente levava inconscientemente fora. E ‘experimentar’ no sentido mais forte da palavra : receber de novo os socos, os traumas que a vida ia distribuindo, sentir de novo o choque, a decepção, a culpa, o ódio que eles causavam, e reconhecer uma vez por todas que estes acontecimentos nunca vão ser apagados do livro da vida. Por isto, eu costumo dizer a respeito da questão de ‘fuga para o mosteiro’ : pode ser que cada um de nós fugiu para o mosteiro. Que seja assim. Não importa. O importante é não fugir dentro do mosteiro, não fugir desta responsabilidade fundamentalmente humana de sentir.
É tempo de refletir novamente sobre o papel do mestre, do pai, como alguém que comunica a vida, em memória de Jesus. Ele não pode simplesmente exigir do jovem vivendo este horror (realmente este trecho da vida monástica é um horror) de aguentar, fazer pé firme, e quaisquer outros conselhos que constituem um afastamento afetivo do ‘assaltado’. Esta seria a fuga do mestre, e uma fuga imperdoável. O mestre tem que assistir, por meses...anos, à tribulação do seu filho. Tem que sentir algo da mesma raiva, chorar as mesmas lágrimas, sofrer a mesma incompreensão diante das injustiças e sujeiras jogadas em cima do jovem às vezes por muitos anos. E não pode neste momento assumir a linguagem da razão para dizer, ‘Mas sabe, rapaz, todo mundo passa por tais pedaços’. O problema com todos os amigos de Jó é que todos tinham doutorado em filosofia. Falavam demais. Faltava alguém que só ficava junto com Jó não tentando nem compreender nem comentar, alguém que superava seu medo de enfrentar em Já a irracionalidade do sofrimento, alguém que sabia calar-se. No Novo Testamento encontramos este silêncio absolutamente necessário em Jesus ao túmulo de Lázaro, e em Maria, ao pé da cruz de Jesus. Como é que o mestre vai poder viver isto, talvez com cinco, seis, sete jovens de uma vez? Tem que ser ele mesmo um homem das dores. Vai precisar muito da consciência de suas próprias dores como base de seu silêncio.
Ao mesmo tempo, o jovem não pode ser vítima. Não foi por isso que Deus o trouxe para o mosteiro, simplesmente para chegar a medir o mar de sua dor. Ele tem vocação de ressuscitado, de passar por todos os quartos da sua interioridade e finalmente dar-se com o espelho na parede onde ele contempla-se a si mesmo como imagem de Deus. O novo mandamento de Jesus, pelo menos o mandamento mais frequentemente enunciado por ele, é ‘Levantata-te’. Este ‘levantamento’ faz-se por uma experiência muito paradoxal, mas de valor ilimitado. É uma experiência de compreensão, de percepção espiritual tímida, através da qual o jovem começa a conhecer-se como radicalmente fundado e seguro em Deus. Se a gente pudesse imaginar o significado último da frase ‘são e salvo’, a gente teria uma idéia desta graça. Muitas vezes esta iluminação realiza-se num momento de oração depois de um período de grande tensão interior; outras vezes parece que o jovem ouve seu nome pronunciado (por quem? Não sabe direito.) carinhosamente – como se o seu nome fosse uma carícia. De qualquer modo que seja, representa o primeiro instante da verdadeira contemplação. Pela primeira vez, a pessoa humana reconhece em si, unido a si, não diferente de si Aquele de quem ele é o sacramento.
Não é o mestre que comunica esta intuição, que não é sugestão de fora, mas certeza brotando de dentro, aquela certeza que somente Deus é capaz de produzir. Mas o mestre tem a tarefa de confirmar o que o jovem vê passageiramente, num triz de densidade ontológica enorme. Se é possível falar de uma certeza fraca, é isto que o jovem conhece a respeito daquilo que viu ou ouviu no momento inesquecível de descobrir a própria identidade em Deus. O mestre tem que testemunhar por suas palavras, seu sorriso, o respeito com o qual ele presta atenção às reflexões do jovem, que este jovem é uma nova criatura em Deus, e que tudo aquilo que ele passou não o destruiu, não podia destruí-lo, porque em Deus ele é imortal. Pode ser que o próprio mestre esteja passando por uma época difícil. Neste caos, que ele libere-se de si mesmo. Seu chamado agora é de ser testemunha da ressurreição. Segundo os evangelhos, de nada mais se duvida do que da realidade da ressurreição. Deste acontecimento inesperado e totalmente ímpar na vida do jovem, o mestre tem que ser o pregador infatigável : ‘Vi o Senhor!...em ti’.
 
Fonte :
*Dom Abade Bernardo Bonowitz, OCSO, do mosteiro trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, Paraná (http://www.mosteirotrapista.org.br/)
**Revista Pedras Vivas – Ano XVI – nrº 72 – Janeiro/Fevereiro de 2013, editada pelos oblatos seculares do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro/RJ
Contato : osrio@osb.org.br