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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

São José, modelo de discípulo missionário

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bernardino Frutuoso,

jornalista


‘Terminamos no dia 8 de Dezembro o ano especial dedicado a São José, convocado pelo Papa Francisco, que celebrou o 150.º aniversário da sua declaração como padroeiro da Igreja universal. Nessa ocasião, o pontífice escreveu uma bela carta apostólica – Patris Corde (com coração de pai) – onde apresenta José, «figura extraordinária, tão próxima da condição humana» e «um pai que foi sempre amado pelo povo cristão».

São José, que nos Evangelhos nunca fala, viveu na sombra, cuidando de Jesus e Maria com dedicação, mas sem destaques pessoais. Nessa perspectiva, na catequese do passado dia 24 de Novembro, o pontífice sublinhou que José «viveu o seu protagonismo sem nunca querer apoderar-se da cena». Foi um homem que passou despercebido, «o homem da presença diária, discreta e escondida, um intercessor, um apoio e um guia em tempos de dificuldade». E frisou que o mundo precisa desses homens e dessas mulheres «na segunda linha, mas que sustentam o desenvolvimento da nossa vida, de cada um de nós e que com a oração, com o exemplo, com o ensinamento nos sustentam na estrada da vida». Se pensarmos nisto, disse, «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns, habitualmente esquecidas, que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas». E Francisco lembrou que, nesta nova era, uma sociedade em constante mudança – que caracteriza como «sociedade gasosa», superando a metáfora de «sociedade líquida» de Zygmunt Bauman – os crentes podemos encontrar «na história de São José uma indicação muito precisa da importância dos laços humanos», pois «a nossa vida é constituída por laços que nos precedem e acompanham».

São José soube, sem se poupar a fadigas, defender o plano que Deus tinha sonhado para Jesus e toda a Humanidade. E isso significou não se contentar com o mundo tal como era, mas colaborar com criatividade para o transformar num lugar melhor. Em Belém, acolheu nos braços e no coração o recém-nascido, assumindo com valentia a paternidade legal do menino. Avisado num sonho da perseguição de Herodes, teve a coragem de se pôr a caminho do Egito com Jesus e a sua mãe e, nesse país estrangeiro, viveram na clandestinidade e como migrantes – a mesma situação que vivem muitos migrantes hoje, tentando cruzar as fronteiras e os muros da Europa em busca de um refúgio hospitaleiro. De regresso a Nazaré, consagrou a sua vida e capacidades a educar Jesus, para que crescesse «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Preparou, assim, Jesus para a sua missão.

São José é um modelo de discípulo missionário relevante para todos os cristãos. Conseguiu ao longo do seu peregrinar histórico discernir os sinais de Deus na sua história pessoal, sabendo nortear a sua vida – marcada por dificuldades, temores, dúvidas, desencorajamentos, alegrias, expectativas, sonhos e decisões – pela bússola da fé, da esperança e do amor. Esse homem simples e fiel a Deus viveu a mística do quotidiano. É, por isso, mestre da vida espiritual e do discernimento – o seu exemplo pode iluminar a Igreja durante o caminho sinodal que, atualmente, estamos a realizar juntos como Povo de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/631/sao-jose-modelo-de-discipulo-missionario/ 

domingo, 30 de abril de 2017

A pedagogia da cruz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A catequese de Jesus não se dá no banco de uma escola, e sim, no caminho da cruz.
*Artigo de Padre Rodrigo Ferreira da Costa, SDN


‘Jesus não quis ser um missionário solitário. Desde o início do seu ministério público, ele escolheu homens e mulheres para que ficassem com Ele, experimentassem o seu jeito de ser, compartilhassem de sua ação missionária, a fim de que os mesmos fossem por Ele enviados a pregar a novidade do Reino de Deus (cf. Mc 3, 13-14).

Ficar com Jesus e sair a pregar. Eis a dinâmica fundamental da catequese de Jesus presente no evangelho segundo Marcos. Não são dois momentos distintos, no qual o catequizando possa optar por um e abandonar o outro, nem tampouco, fazer um primeiro e depois o outro. O discípulo chamado à convivência com o Mestre, precisa estar pronto para sair em missão, do mesmo modo que, aquele que sai em missão, precisa estar sempre ligado à pessoa e vida do seu Senhor.

Na pedagogia catequética de Jesus aparece sempre este duplo movimento: discipulado e missão. Oração e trabalho. Mística missionária. Por isso a sua catequese não se dá no banco de uma escola, e sim, no caminho da cruz. Não se faz uma catequese isolada, mas em comunidade. Numa relação de amizade, entre irmãos. Discípulos missionários, eis o eixo principal da catequese de Jesus. Pois, ‘sem momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. Ao mesmo tempo, há que rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da Encarnação’ (Papa Francisco. EG, 262).

O grande desafio encontrado por Jesus na formação dos seus discípulos foi a tentação humana de querermos ser mestres. Na escola de Jesus não há lugar para o ‘carreirismo’. Os discípulos sempre serão discípulos, mesmo após serem enviados a pregar. Por isso Jesus terá na pedagogia da cruz o grande farol de todo o seu ensinamento. Só pode ser realmente seguidor de Jesus, o Messias servo sofredor, aquele que aprende da cruz a doação e o serviço gratuito aos outros. Somente ao pé da cruz, podemos reconhecer que ‘este homem [Jesus] era verdadeiramente o Filho de Deus’ (Mc 15,39). Como afirma o Papa Francisco, ‘quando caminhamos sem a Cruz, construímos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem a Cruz, não somos discípulos do Senhor : somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor’.

Neste sentido, a catequese de Jesus não estava pautada em doutrinas ou teorias sobre Deus. Nem tampouco num catálogo de regras e leis desvinculadas da vida do discípulo. Sua catequese falava da vida. Do cotidiano da vida do povo e do mistério de Deus escondido em nós. Jesus ensinava com palavras e gestos. E os seus discípulos aprendiam ouvindo, vendo as ações de Jesus em favor dos outros, mas aprendiam também fazendo, participando ativamente da missão do Mestre.  Por exemplo, numa tarde de deserto, enquanto Jesus ensinava sobre o valor da partilha, ele desafia os seus discípulos a darem de comer àquela multidão, ensinando-os na prática, o valor da solidariedade (cf. Mc 6, 30-42). Jesus fala do poder serviçal, e Ele mesmo se coloca como o grande servidor da humanidade : ‘o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’ (Mc 10, 45). Certamente quando os seus discípulos viveram a experiência traumática da morte na cruz do seu Mestre, essas palavras de Jesus foram sendo compreendidas com muito mais nitidez. Pois a cruz concretiza todo o seu ensinamento.

Chamou-os para que ficassem com Ele e para enviá-los a pregar com autoridade (cf. Mc 3,13). Jesus é um catequista que confia responsabilidades aos seus catequizandos. Ele dá aos discípulos a mesma autoridade (exousia) que recebeu do Pai (cf. Mc 1, 9-11). O envio missionário, no entanto, não significa superação da etapa formativa. O enviado aprende com a missão. Quando a realiza com sucesso, o Mestre ensina a não se prender aos aplausos : ‘Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, a fim de pregar também ali, pois foi para isso que eu saí’ (Mc 1, 38); e quando algo não dá certo, o Mestre retoma a conversa e mostra-lhes que sozinhos eles não poderão enfrentar os desafios da missão (cf. Mc 9, 14-29).

Olhando a pedagogia catequética de Jesus apresentada por Marcos, percebemos que Jesus se preocupava em formar o coração dos seus discípulos a partir da vida, a fim de que aqueles simples pescadores pudessem compreender o mistério do Reino revelado em Cristo Jesus e fossem seus anunciadores para o mundo. Pois, para Jesus, não basta saber quem é Deus e quais são os seus decretos. Ele quer que o seu discípulo expresse na vida o Deus que este acredita. Desta forma, podemos afirmar que a cruz é o grande livro da catequese de Jesus, do qual desabrocha todo o seu ensinamento.

Percebe-se que o messianismo de Jesus ainda continua mal compreendido por muitos que se dizem cristãos. A busca por um Messias triunfalista, milagreiro, cheio de glória e poder é constante em nossos dias. Marcos apresenta Jesus como um Messias servidor, empenhado na realização do Reino de Deus. Nem mesmo os discípulos de Jesus compreenderam o seu messianismo, por isso o abandonaram na hora da cruz. As autoridades sentiram-se desafiadas. Os poderes religioso e político o julgaram falsamente e o condenaram à morte. Mas o Filho do Homem que sofreu e deu a vida por amor foi confirmado na sua missão pelo Pai.

Novamente precisamos voltar a nossa atenção para a pedagogia catequética de Jesus. Primeiro, porque ela nos desafia a fazermos também uma catequese mais próxima e ‘em saída’. Uma catequese menos escolar e mais inserida na vida e na realidade concreta das nossas comunidades cristãs. Outro aspecto importante é a sua dinâmica discipular. Nossa missão enquanto catequistas é formar discípulos missionários do Reino, e não apenas transmitir um amontoado de doutrinas e decretos, muitas vezes, desvinculados da vida de nossos catequizandos.

Oxalá as nossas comunidades fossem esse espaço de convivência e fraternidade, no qual, cada um que chega se sentisse acolhido como irmão e irmã, e, a partir da experiência de fé vivida em comunidade, pudesse se tornar também um evangelizador, comprometido com a causa do reino. Pois somente uma catequese que ajuda os catequizandos a tocarem a carne sofredora de Cristo nos pobres e sofredores, que inicia os catequizandos na pedagogia da cruz, poderá formar verdadeiros discípulos missionários do reino.’


Fonte :

sexta-feira, 25 de março de 2016

A Sexta-feira Santa nos convida a ter ouvidos de discípulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Distante do que significa ter ‘ouvido de mercador’, desejar e ter ouvido de discípulo é um programa de vida, que exige compromisso com ações que possam gerar respostas e atingir metas importantes, que transformem a realidade do povo. Incontestavelmente, trata-se da qualificação do papel que se exerce, nas diferentes circunstâncias, pensando particularmente as consequências e incidências sobre a vida dos outros e nos rumos da sociedade. O silêncio desta Sexta-feira Santa ecoa como insistente convite para que se conheça e se assuma a postura interior de se ter ouvidos de discípulo. A carência dessa postura favorece a multiplicação de arbitrariedades e promove o esvaziamento de diálogos decisivos na construção da sociedade.

Ouvidos de discípulo é referência, na profecia de Isaías, ao servo de Javé, que testemunha o dom recebido da escuta. Receba-o, preze-o e agradeça a Deus por este dom. Dádiva que o faz portador de uma sabedoria, capacitando-o para suportar e enfrentar adversidades sem perder o rumo. Uma escuta que, continuamente, abre os ouvidos do discípulo para estar em condições de dar respostas que fazem a diferença. Graça de Deus que está na contramão da soberba do saber e da tirania de definir rumos, ou enjaulá-los, na rigidez provocada pela inexistência do exercício da escuta.


Os ganhos qualificadores de se ter ouvido de discípulo

O horizonte do caminho da paixão e morte de Jesus projeta para a humanidade, pela celebração desta Sexta-feira Santa, os ganhos qualificadores de se ter ouvido de discípulo. A profecia que leva a dizer a verdade e ao compromisso com a justiça e o bem nasce na mente e no coração de quem tem esse ouvido. Discípulo é aquele que vai à escola. Não como professor. Menos ainda como os que acreditam saber de tudo, pois se valem dos lugares que ocupam para definir, sem a escuta necessária, os rumos da sociedade, o atendimento de suas demandas e, com essa conduta, permanecem distantes da competência para gerar o novo que possibilita sair da crise, devolver esperanças aos corações.

Quem escolhe a escuta como dinâmica para a configuração de sua maestria se abre ao que é dito por quem está acima de tudo e de todos – Deus – e consequentemente à escuta dos pobres. Capacita-se para o diálogo amplo e plural que a sociedade exige no complexo processo de definição de suas dinâmicas e busca de novas saídas. Quem escuta se torna servidor. Uma obrigação de fé e também uma nota inteligente no desempenho de papéis cidadãos. Quem não escuta manda a partir do pedestal ocupado. Quem escuta dialoga e se deixa interpelar por clamores e necessidades que formatam posturas adequadas e, assim, permitem a superação de equívocos. Essa postura é antídoto para teimosias e tudo que obscurece os caminhos para as resoluções criativas e solidárias.


Construir para os homens um novo tempo

Os cristãos, nesta Sexta-feira Santa, celebrando a Paixão e Morte de Cristo, ao acompanhar os passos de sua amorosa escuta de Deus, na sua corajosa entrega de si pela salvação do mundo, são interpelados a contemplar o Mestre, Senhor e Salvador. Ele é Servo por escutar amorosamente o seu Pai, obediente ao desígnio n’Ele realizado de salvar a humanidade, de construir para os homens um novo tempo na força do amor que o leva a morrer na cruz e a ressuscitar. A atitude exemplar de Jesus é certamente o caminho inspirador que a sociedade brasileira precisa para reencontrar rumos e redefinir saídas.

O silêncio é condição para a escuta que permite identificar os clamores dos pobres, alcançar equilíbrio nas relações, cultivar o bem no coração da humanidade e promover a beleza que recupera a sensibilidade perdida. É urgente aceitar o convite que esta Sexta-feira Santa brada em seu silêncio. Trata-se de convocação para que todos adotem o ouvido de discípulo e, assim, avanços possam se tornar realidade. Ouvir como discípulo é tarefa que ilumina a cidadania e, entre outras fundamentais conquistas, possibilita entendimentos para a efetivação da reforma política, sem enrolações interesseiras. O ouvido de discípulo permite também escutar as muitas razões para que não se efetive a diminuição da maioridade penal. Evita irracionalidades, favorece o gosto pelo diálogo entre poderes e segmentos, criando condições para o aparecimento de líderes, que estão em falta, com capacidade humanística para priorizar as urgências dos mais pobres.

Desenvolver o ouvido de discípulo é uma prática com força de remédio para curar as rudezas dos corações e das mentes que perderam o sentido nobre de pertencimento a um povo, de fidelidade à sua identidade. É a cura para corações e mentes que ao ferir o tecido cultural e humanístico fazem da vida um inferno verdadeiro, com desfigurações, violências e barbáries. Queiramos todos cultivar o ouvido de discípulo.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


domingo, 22 de junho de 2014

A lição do Samurai

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  

* Autor desconhecido

Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que se dedicava a ensinar os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro, conhecido por sua total falta de escrúpulos, apareceu por ali. Queria derrotar o samurai e aumentar a sua fama.

O ancião aceitou o desafio e o jovem começou a insultá-lo. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou insultos, ofendeu seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o ancião permaneceu impassível.

No fim da tarde, sentindo-se exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados, os discípulos perguntaram ao mestre como ele pudera suportar tanta indignidade.

- ‘Se alguém chega até você com um presente e você não o aceita, a quem pertence o presente?’

- ‘A quem tentou entregá-lo’, respondeu um dos discípulos.

- ‘O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo...’

A sua paz interior depende exclusivamente de você. As pessoas não lhe podem tirar a calma. Só se você permitir...

  
Fonte : 
* Enviado pelo Mosteiro Nossa Senhora da Paz – Itapecerica da Serra - SP

Revista Beneditina nrº 9, Março/Abril de 2005, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.



terça-feira, 10 de junho de 2014

São Barnabé, Apóstolo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Era natural da ilha de Chipre e foi um dos primeiros fiéis de Jerusalém. Pregou o Evangelho em Antioquia e acompanhou São Paulo em sua primeira viagem apostólica. Tomou parte no Concílio de Jerusalém. Voltando à sua pátria para pregar o Evangelho, aí morreu.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Barnabé, Apóstolo  :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Tratados sobre o Evangelho de São Mateus, de São Cromácio, bispo 
(Tract. 5,1.3-4 : CCL 9,405-407)     (Séc. IV)

Vós sois a luz do mundo
Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa (Mt 5,14-15). O Senhor chamou seus discípulos de sal da terra, porque eles deviam dar um novo sabor, por meio da sabedoria celeste, aos corações dos homens que o demônio tornara insensatos. E também os chamou de luz do mundo porque, iluminados por ele, verdadeira e eterna luz, tornaram-se também eles luz que brilha nas trevas.

O Senhor é o sol da justiça; é, por conseguinte, com toda razão que chama seus discípulos luz do mundo; pois é por meio deles que irradia sobre o mundo inteiro a luz do seu próprio conhecimento. Com efeito, eles afugentaram dos corações dos homens as trevas do erro, manifestando a luz da verdade.

Iluminados por eles, também nós passamos das trevas para a luz, como afirma o Apóstolo : Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz (Ef 5,8). E noutra passagem : Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas (1Ts 5,5).

Com razão diz também São João numa epístola sua : Deus é luz (1Jo 1,5); e quem permanece em Deus está na luz, da mesma forma como ele próprio está na luz. Portanto, uma vez que temos a felicidade de estar libertos das trevas do erro, devemos caminhar sempre na luz, como filhos da luz. A esse propósito, diz ainda o Apóstolo : Vós brilhais como astros no universo. Conservai com firmeza a palavra da vida (Fl 1,15-16). Se não procedemos assim, ocultaremos e obscureceremos com o véu da nossa infidelidade, para prejuízo tanto nosso como dos outros, uma luz tão útil e necessária.

Eis o motivo por que incorreu em merecido castigo aquele servo que, recebendo o talento para dar juros no céu, preferiu escondê-lo a depositá-lo no banco.

Assim, aquela lâmpada resplandecente, que foi acesa para nossa salvação, deve sempre brilhar em nós. Pois temos a lâmpada dos mandamentos de Deus e da graça espiritual a que se refere Davi : Vosso mandamento é uma luz para os meus passos, é uma lâmpada em meu caminho (cf. Sl 118,105). E Salomão também diz acerca dela : O preceito da lei é uma lâmpada (cf. Pr 6,23).

Por isso, não devemos ocultar esta lâmpada da lei e da fé, mas colocá-la sempre no candelabro da Igreja para a salvação de todos. Então gozaremos da luz da própria verdade e serão iluminados todos os que creem.


Fonte  :
‘In Liturgia das Horas II’, 1629, 1630



domingo, 27 de outubro de 2013

São Simão e São Judas, Apóstolos



A Liturgia da Horas e a reflexão no dia dos
Apóstolos São Simão e São Judas Tadeu :

 Ofício das Leituras

 Segunda leitura
Do Comentário sobre o Evangelho de João,
de São Cirilo de Alexandria, bispo
(Lib. 12,1: PG 74,707-710)   (Séc.V)

Como o Pai me enviou, também eu vos envio

Nosso Senhor Jesus Cristo designou guias e doutores do mundo e dispensadores de seus divinos mistérios. Semelhantes a lâmpadas, ordenou-lhes que esclarecessem e iluminassem não apenas o país dos judeus, mas todos os que existem sob o sol e em todo o universo, os homens e habitantes da terra. É verdadeiro aquele que disse: Ninguém se arroga esta honra, mas quem foi chamado por Deus (Hb 5,4). Pois nosso Senhor Jesus Cristo chamou ao nobilíssimo apostolado, antes de todos os outros, os seus discípulos. 

Os santos Apóstolos foram colunas e firmamento da verdade. A eles diz que os envia da mesma forma como foi enviado pelo Pai. Mostrou assim, ao mesmo tempo, a dignidade do apóstolo e a glória incomparável do poder que lhe foi dado; como também, parece-me, sugerindo a meta da vida apostólica. 

Pois, se julgava que devia enviar seus discípulos do mesmo modo como o Pai o enviara, como não se seguiria necessariamente que seus futuros imitadores iriam conhecer a que fim o Pai enviara o Filho? Por isto, declarando em vários lugares a finalidade de sua missão, dizia: Não vim chamar os justos, mas os pecadores para a conversão (cf. Mt 9,13). E também: Desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3,17). 

Resumindo assim, em poucas palavras, o objetivo do apostolado, diz que foram enviados por ele, como ele o fora pelo Pai e soubessem ter recebido a missão de chamar os pecadores à conversão; de curar os doentes de corpo e de espírito; de não procurar, no ministério, sua vontade, mas a daquele por quem foram enviados; e de salvar o mundo por sua doutrina. Não será difícil saber quanto os santos apóstolos se esforçaram por bem realizar todas estas tarefas, se leres os escritos dos Atos dos Apóstolos e de São Paulo.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, pg. 1407 a 1409

 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tornar-se monge na sociedade secular de hoje (Capítulo 2 de 2)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB) 

 
IV – O Outro
Falamos sobre dois aspectos do mundo interior do jovem monge – a apropriação de sua herança humana como intelectual e como poeta, isto é, como alguém que pensa e alguém que sente. Falamos, então, sobre o ser humano em sua ‘solidão’, em sua experiência de si mesmo. Mas sabemos que solidão representa um polo da vida humana e que necessita para completar-se o polo da comunhão. O poeta tcheco Rilke afirmou que cada um de nós tem o dever de tornar-se um universo inteiro para depois entregar-se a um outro como dom. as nossas constituições trapistas comunicam esta mesma intuição quando dizem que nossa vivência monástica exige tanto uma grande capacidade para solidão como para a vida comunitária. E o nosso abade geral atual gosta de chamar-nos de ‘cenobitas no deserto’. Moramos no deserto monástico, sim, na separação geográfica da cidade e na privacidade de nosso coração. Mas vivemos juntos, e isto é essencial à nossa vocação monástica e humana.
O jovem brasileiro – e nisto ele é muito parecido com seus primos, os jovens do mundo inteiro, embora com uns toques particulares – encontra muito rapidamente dificuldades sérias neste caminho de comunhão. É quase certo que, provindo da cultura global, ele morava num ambiente precocemente sexualizado, e absorvia os valores desta cultura. Aqueles que se apresentam à porta do mosteiro como vocacionados raramente falam da experiência de uma longa e profunda amizade. Pulam, durante a entrevista, da família de origem para o primeiro namoro. Este pulo significa mais do que um lapso de memória. Ao contrário, deixa ver acertadamente um buraco importante em seu desenvolvimento. Ficou roubado, muitas vezes, da experiência de um compromisso afetivo, mas não fundamentalmente sexual, a aliança da amizade, onde realidades como idealismo, admiração e generosidade costumam despertar e florescer. Desde Homero na literatura grega e a primeira monarquia no Antigo Testamento, a amizade é visualizada como um dos aspectos mais preciosos da aventura humana, onde tranquilidade e paixão, sacrifício e realização, diferença e identidade brincam produtivamente entre si. Sei que nos lares brasileiros muitas destas qualidades acima mencionadas exprimem-se num contexto familiar, e também que o namoro/noivado/casamento constitui um dos mais fertéis campos imagináveis para o amadurecimento do ser humano. Mesmo assim, muitas vezes perde-se o momento entre lar e casamento, um momento que deve representar uma graça particular estável, uma forma vitalícia da intimidade humana.
Então, os nossos jovens entram no mosteiro. Quer dizer, para nós velhos, depois de muita transformação, é um mosteiro. Para eles, sobretudo quando entram sem esta experiência profunda de amizades (amizades particulares e grupos de amigos), a realidade é outra. Automaticamente, o mosteiro assume a tonalidade – a cara – de um time ou de uma sala de aula ou de uma vizinhança ou de um escritório/fábrica ou de um curso pré-vestibular, ou simplesmente da rua. Assim criamos todos nós o nosso mundo. Portanto, espontaneamente os jovens pegam na pasta de atitudes e práticas conhecidas. Por exemplo :
1)      Desconfiança : O jovem vive com medo de chamar atenção, acreditando que mais cedo ou mais tarde, atenção fatalmente vira zombaria. Se ele faz muito bem, está ‘puxando saco’; se ele fracassa, ele era um vaidoso, um idiota, por ter tentado aquilo que não tinha condições de realizar. Além de abafar sua criatividade – melhor ficar cabisbaixo e sumir no rebanho – esta desconfiança generalizada facilmente leva a um sentimento de hostilidade, tanto de sentir hostilidade quanto de sentir-se hostilizado. Quando isto acontece (e ainda não vi uma exceção), surge a tentativa de evasão. 
2)     Evasão : Tira o fôlego testemunhar com que rapidez os jovens podem apagar-se mutuamente do livro da vida : ‘Ele não presta’. Perdoam uma, duas, até três vezes, e depois (estou falando ironicamente ‘criam juízo’. Descobrem que este sujeito é perigoso, agressivo, mal educado, racista, etc. Nestas condições, pensam eles, o comportamento mais acertado é criar uma boa distância afetiva. Você fique em seu canto do mosteiro e eu fico no meu. Só que isto não pode dar certo. O mosteiro é pequeno demais, os encontros constantes demais para permitir uma boa guerra fria. Mais uma vez a sabedoria da cidade revela-se como penosamente inadequada no contexto monástico. Espiritualmente, a tática de evasão representa um contra-valor inaceitável numa sociedade de comunhão, como o mosteiro pretende ser. E depois, é um crime sem lucro. Busco com grande empenho colocar um espaço suficiente entre mim mesmo e aquele que eu chamo (com ênfase signiticativa) ‘Meu irmão’, mas ele continua vivendo no mosteiro e até ocupa alguns andares na casa da minha cabeça. Paciência! Donde vem esta tendência para desconfiança-hostilidade-evasão? Ao meu ver, em grande parte vem do treinamento insuficiente das emoções.   
3)     Treinamento insuficiente das emoções : Um fenômeno espantoso, que manifesta-se hoje em dia como norma, é a incapacidade de processar frustrações. Os nossos antepassados aceitavam com relativa calma que a vida é frustrante, que todo dia vai trazer sua pitada da contradição e que o ser humano mostra o seu estado de adulto superando as frustrações, incorporando-as em sua experiência e assim tornando-se mais livre das circunstâncias e mais aberto a elas. Os herdeiros de nossos antepassados (quer dizer, nós) em vez de contemplarmos as frustrações cotidianas da vida como um elemento normal, se não enriquecedor, as consideram como um insulto insuportável. Um golpe! Um baque! Uma facada! Cito estas três exclamações que ouço todo dia (tem outras) para indicar uma resposta às pequenas irritações que já bem enraizou-se em nossa cultura. Aqui no Brasil vejo entre os jovens uma oscilação preocupante entre ira e tristeza, como reações a estas provocações diárias e, frequentemente, reações desproporcionais. Me parece que entre as duas respostas aquela que mais predomina é a tristeza, e eu gosto de brincar com minha comunidade que a frase que eu mais escuto é (em voz chorosa) : ‘É difícil’ (aliás, para consolá-los, digo que se o brasileiro é mais suscetível ao vício da tristeza, o americano cai mais facilmente na armadilha da soberba. Por alguma razão, esta afirmação normalmente traz alívio). 
 
O que é a tarefa do pai espiritual, imitador de Jesus,
neste ninho de vespas?
            Me parece que ele tem que constituir um contrapeso a estas tendências, ou melhor, fazer exorcismo destes demônios. Não há dúvida : tal desconfiança, hostilidade, evasão, impaciência, irritação e melancolia vão além de ser sintomas do estresse do mundo pós-moderno. Surgem de uma experiência deturpada do próximo e do ambiente interpessoal, uma experiência que estimula os hormônios de superficialidade, esperteza e excessiva prudência e que impedem o florescimento de um clima de repouso e certeza, onde gestos como o sorriso, o aperto da mão, o abraço da paz na missa, o pedido de perdão são mini-sacramentos, isentos de uma interpretação ambígua. São Máximo Confessor, monge e teólogo do século VII, ensinava que os homens são capazes de negligência; quando manisfestam hostilidade e condenação, é um sinal seguro da atuação do Maligno.
            O pai espiritual responde a estas forças malignas por sua recusa de entrar em diálogo com elas. Na presença daqueles sentimentos que acabei de citar, e que certamente o convidam a ‘entrar na onda’ – convite cuja força ele mesmo sente por causa da persistência das consequências do pecado – ele vai agir contra a mentira. A gente pensa nos manifestos de Jesus no Sermão da Montanha, de São Francisco de Assis em sua celebrada oração (‘Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz’), de Tolstoi e de Gandhi, e a gente vê que a ‘violência’ de insistir em ver a presença divina no outro, acreditar nele e perseverar em fazer-lhe o bem é muito mais poderosa do que a nuvem de poeira criada por nossos medos e agressividades. Tanto quanto o mestre encontra-se como alvo da desconfiança/agressão quanto ele testemunha uma situação negativa entre outros irmãos, ele vai buscar rasgar o véu da mentira. Seu método não consiste em desmascarar a projeção (‘Você está vendo tal coisa deste jeito por causa do negativismo que você traz em si mesmo’), nem em moralizar, mas em fazer visível de novo o verdadeiro rosto espiritual dos brigados.
            Nisso, ele vai encontrar uma grande ajuda no uso abundante e benevolente do humor. A maior bênção do humor é precisamente apontar numa maneira aceitável para o exagero, a dureza, a amargura, a autopiedade – em breve, para o venenoso numa determinada tomada de atitude. O humor contemplativo identifica-se com o irmão irracional (‘Veja como nós dois podemos agir como loucos, quando queremos’), e o chama de volta para a razão e a paz. O humor contemplativo admite que o irmão irritado tem razão, pelo menos em parte, mas coloca a pergunta : O que você – o que nós – vamos ganhar se você continuar resmungando; o que você – o que nós – poderíamos ganhar se você parasse de resmungar e começasse a cantar de novo com a gente? O humor contemplativo aproveita do direito de cutucar (um dos meus apelidos na comunidade é ‘o grande cutucador’) sem magoar. Diz-se que o que o diabo mais teme é ser ridicularizado; quando o pai espiritual consegue mostrar a bobagem no comportamento do irmão por uma cutucada que dá em cheio, o demônio foge e o irmão retorna a ser ele mesmo. Assim como disse que quando trata-se da apropriação de uma história dolorosa por parte de um noviço, o mestre tem que saber chorar e calar-se; quando o assunto é a purificação da comunidade das tendências belicosas e afastadoras, o mestre tem que rir e fazer o outro rir. Isto já é conversão, quando a dificuldade reside em vaidade e hiper-sensabilidade. Várias parábolas de Jesus pretendem levar pessoas do mundo fechado deles para o reino de Deus justamente por meio de uma gargalhada. 
 
V – O Compromisso
Alguns anos atrás, um professor de sociologia deu um curso para os professos trienais trapistas norte-americanos. Ao ouvir a pergunta, se haveria um fator que mais dificultava a formação monástica hoje em dia, respondeu imediatamente, ‘Sem dúvida. A impossibilidade do jovem comprometer-se’. Provavelmente, esta resposta não nos surpreende, porque o fenômeno da instabilidade é mundial em suas dimensões, mas não deve faltar de deixar-nos assutados. Apesar da afirmação recente de um presidente de uma faculdade ‘Ivy League’, Yale, ‘Vemos agora que uma vida bem sucedida não é uma linha reta, mas uma série fecunda de zigue-zagues’, não podemos perder a consciência que compromisso é a grande condição para comunhão, para maturidade, para o verdadeiro bem estar, e finalmente, para a manutenção do contrato social, isto é, para a continuação da sociedade. Foi Kierkegaard que asseverou, no título de um de seus livros, ‘Pureza de coração significa desejar uma coisa só’; foi Jung que insistiu que as tarefas mais profundas da vida só podem ser cumpridas por aqueles que permanecem fielmente num único propósito.
O grande bloqueio surge de uma ignorância e uma impotência. A ignorância consiste em não saber que a nossa identidade é necessariamente social. Ninguém entra na gruta de tesouros do seu próprio ser a não ser por uma interação estável com um comunidade.
Identidade depende da identificação. Aquele que borboleteia na sua vida acaba sendo apenas um punhado de pó colorido. A impotência consiste em não poder assumir o trabalho sacrificante de tornar-se peça viva e vivificante de um organismo meta-individual, de morrer à uma identidade independente e ressurgir como parte de um ou outro corpo místico (no fim das contas, qualquer família, qualquer verdadeira comunidade é também um corpo místico). Lembra-se da citação de Rilke – Primeiro a gente tem que crescer para ser um universo para depois dar-se a um outro. Aqui estamos tratando deste segundo momento, do dom mútuo dos universos. Igualmente São Bento ensina que o monge que pretende unir-se com Deus e consigo mesmo vai chegar ao seu objetivo somente mergulhando-se, ativa e afetivamente, na comunidade, suas tradições e mais ainda, com seu pessoal.
Isto traz à tona um desafio particular do compromisso monástico. O que o monge deseja acima de tudo é unir-se com Deus. Neste caso, não há ignorância nenhuma que a sua própria auto-realização depende de uma sintonia progressiva com Deus, uma ‘união de Espírito’ com Deus, para empregar o termo clássico. Por outro lado, a dificuldade de abir-se à irrupção da vida divina em sua vida é enorme, é literalmente espantosa. Uma ativa receptividade às ‘mexidas’ de um Deus invisível, transcendente e nem sempre delicado constitui a grande aventura e o grande sofrimento da vocação contemplativa. De fato, esta irrupção de Deus na vida da gente forma o drama inteiro da nossa vivência. A luta para conhecimento de si mesmo, para desenvolvimento do intelecto, para a superação das paixões nas interações comunitárias – todas estas realidades são reflexos da grande iniciativa de Deus de formar uma só coisa com um pobre mortal. É a sombra jogada por sua aproximação que põe em movimento todos estes processos.
A grande tentação do jovem monge é de dissociar os elementos desta atividade única : o unir-se de Deus com sua criação. O jovem quase morre de medo e de dor, sentindo os dedos de Deus nele, dedos que segundo João da Cruz são perfeitamente capazes de queimar e não somente acariciar. O jovem sente que uma fresta – qual um abismo está abrindo-se nele para deixar o Todo Poderoso (bom, ruim?) entrar e não sabe se vai aguentar, tem quase certeza que não. Portanto, ele quer negar a necessidade de viver estes dois processos simultaneamente. Para unir-se a Deus, pensa ele, não deve ser indispensável passar por tudo isto com os irmãos. Ele vem a perceber que a comunidade é impiedosa, que ela insiste em mantê-lo no centro da arena, e também que em vez de suavizar o sofrimento vertical místico acrescenta o sofrimento horizontal, através de transtornos, friezas, grosserias. Quando damos conta da fragilidade dos jovens, vemos o tamanho de heroísmo pedido por nossa vida simples e repetitiva. E percebemos que a perseverança na fé, esperança e caridade é um milagre.
Se o pai espiritual pode ajudar aqui? Certamente por meio da oração, porque o mistério fica essencialmente entre Deus e o jovem. Rezando igualmente para si mesmo, para não forçar a liberdade do jovem (e assim prejudica-la permanentemente), mas ao mesmo tempo para não deixar esta liberdade do jovem sem as dicas que ela necessita. Além disso, há duas forma de ajuda que o pai pode prestar. Cada vez que ele percebe a mão do Senhor tocar num de seus irmãos para prová-lo, ele deve viver seu próprio compromisso com uma pureza e fidelidade intensificada. Se o assunto é de identificação, ele em primeiro lugar tem que identificar-se com o provado, o purificado, em oração assídua e em oferta de si mesmo. Ficar com ele, à medida que isto é possível, entrar livremente em comunhão com este irmão em tudo o que este sofre, como prece silenciosa, que o irmão chegue àquela comunhão profunda com Deus e com a comunidade que o impelia a entrar no mosteiro.
A segunda forma de ajuda é de abrir seu coração, revelar seus segredos. Tem muita coisa hiperpessoal na vida monástica – toda a história de intimidade e dor entre Deus e a gente – que nunca deve ser falada (foi São Bernardo que gostava de repetir ‘O meu segredo é meu’).  
A grande exceção se encontra nestes tempos de provação do discípulo. Nestes momentos, o mestre pode falar do mistério que ninguém conhece, este mistério que pode exercer um poder divino por ser o mais precioso, quase o único bem precioso que ele possui. É o vaso de bálsamo que ele quebra e jorra sobre seu discípulo para ungí-lo em sua hora. Assim como Jesus fez do fim do seu ministério um desvelar-se absoluto : ‘Agora eu posso chamar-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer’ (Jo 15,15).
 
 

sábado, 10 de agosto de 2013

Tornar-se monge na sociedade secular de hoje (Capítulo 1 de 2)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB) 

Artigo de *Dom Abade Bernardo Bonowitz, OCSO
Prólogo da **Revista Pedras Vivas
            No momento que a conferência aqui reproduzida foi realizada, Dom Abade Bernardo Bonowitz era Prior do mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, o único mosteiro trapista do Brasil, localizado em Campo do Tenente, no Paraná. Ele proferiu essa palestra sobre a vida monástica no século XXI, no auditório da Faculdade de Administração e Economia (FAE) no dia 12 de setembro de 2001, dentro do VII Ciclo de Palestras e Conferências do Instituto Ciência e Fé. Apesar da distância, a argumentação da mesma continua atual e merece ser conhecida. Para Dom Bernardo, os jovens candidatos que querem se tornar monges precisam de uma formação humana mais ampla. Para um auditório lotado ele disse que, no mosteiro do qual é superior, apenas três entre 50 candidatos conseguem, de fato, entrar. Agradecemos ao autor a permissão para publicação do seu texto aqui. 
O jovem discípulo brasileiro e o Pai espiritual :
Tornar-se monge na sociedade secular de hoje
Introdução : Uma Nova Paternidade – de João Batista a Jesus
O monge é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seus ombros ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando monges lêem que na hora da sua morte, Santo Antão, primeiro monge, mandou seu manto para Atanásio, todo mundo entende o que isto significa.
Os monges do século IV, o século da explosão do fenômeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitas horas por dia na leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez chegado o tempo de Cassiano (século IV), a escolha foi feita. O primeiro ‘monge’, o progenitor da raça monástica, ia ser Elias – Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo, Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz de Deus como a brisa mansa que segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto com ele, como seu espelho neotestamentário, os monges escolheram a João Batista – não certamente, o neném das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os monges não falavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu próprio rosto espiritual refletido na fisionomia de seguidores de Jesus como Pedro, Tiago e João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito : sabemos que a cristologia dos monges era uma cristologia chamada ‘alta’, isto é, que enfatiza a divindade de Jesus. Mesmo assim, esta ‘paternidade mais próxima’ de Elias e João Batista necessariamente implica em certas conseguências.
Porque Elias e João Batista, pelo menos como compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escada que levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de ‘terríveis’ – título de admiração, de certo, e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles tocassem. Ninguém nunca imaginou bater um papo com nenhum dos dois.
Ora, o tema da palestra a mim pedido é ‘Ser monge na sociedade de hoje’. Eu interpreto este título da seguinte maneira : Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da sociedade de hoje, e especificamente da sociedade atual brasileira? Por um lado, meus pobres cinco anos no país não me providenciam uma intuição muito aguda nesta questão. Por outro lado, tenho a vantagem de pessoalmente viver esta situação como um ‘desafio existencial’. Superior de uma comunidade monástica brasileira, para mim é questão de vida e de morte chegar a discernir a interação exigida entre a sociedade local contemporânea e a tradição milenar monástica, para chegar àquela síntese que a gente chama de ‘inculturação’. Evidentemente, seria absolutamente ilícito falsificar as exigências do monaquismo para agradar aos ‘fregueses’, seria um tipo de morte. Igualmente, porém, seria morte cegar-me ao retrato vivo da sociedade brasileira jovem que eu contemplo em cada um de nossos vocacionados, sociedade que vive à uma imensa distância do Egito do século IV.
Esta sociedade – aqueles que vêm desta sociedade e aspiram ser monges – precisam de outros pais que Elias e João Batista. Precisam realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na própria carta aos Hebreus, pensa em Jesus como o pai de seus seguidores, e esta tradição persiste e se manifesta até na regra monástica mais difundida, a Regra de São Bento. Vamos considerar brevemente a paternidade de Jesus para aplica-la à formação monástica.
Para mim, é de grande interesse que o brado de João Batista, ‘Convertei-vos’ – foi assumido por Jesus no começo de seu ministério. Lemos no Evangelho de Mateus que quando Jesus voltou da sua prova no deserto e ficou sabendo da prisão de João, iniciou a sua própria atividade de pregação, dizendo exatamente o que João dizia : ‘Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo’. Parece que Jesus mesmo ia tomar João por seu pai. Só que esta palavra de conversão, ou pelo menos, esta maneira de abordar o tema de conversão, terminou com este primeiro anúncio. Certamente não porque Jesus decidiu que a transformação da vida não o interessava mais. Trasnformação da vida, novidade da vida, constituía o núcleo da missão de Jesus. Contudo, em vez de exigí-la como João fazia, Jesus aprendeu que ele estava em condições de comunicá-la. Comunicava-a por meio de curas, de ensinamentos (particularmente as parábolas), e sobretudo de perdão o: ‘Teus pecados estão perdoados’.
Será que foi mais fácil para o pessoal do tempo de Jesus receber a vida renovada do que serem chamados a transformar-se? Acho que não : acho que a nova vida doía dentro daqueles que a aceitavam, que sentiam muitas saudades pela vida velha. Acho que finalmente Jesus não pedia menos do que João Batista. Mas ele criava, gerava naqueles que o seguiam a nova vida que ia depois pedir em prol do seu Reino. Mais ainda, ele implantava esta vida neles da sua própria vida. Cada vez que ele curava, uma força saia dele, e ele sentia a diminuição; cada vez que ele perdoava, assumia o pecado em si mesmo e sentia o aumento. Quer dizer, Jesus vivia todo o seu ministério eucaristicamente, infundindo nova vida nos outros, ou melhor, fazendo como que a transfusão de sua vida para os outros. E assim prostitutas, cobradores de impostos, leprosos e soldados chegaram a uma auto-doação que João Batista nunca poderia ter provocado neles.
Podemos afirmar, então, que Jesus antecipava durante o ministério a intuição fundamental de Paulo na Carta aos Romanos : a humanidade não se salva através das chamadas da atenção. Uma humanidade desfigurada pelo pecado, alienada do Deus que fala nas profundezas da consciência, só se entristece e se endurece ao ouvir mais um apelo de ser diferente do que é – ou, em termos da teologia paulina, de enfrentar a Lei. Somente perdão gratuito, amor abundantemente derramado da própria fonte de amor – quer dizer, Graça, - tem a possibilidade de restaurar o homem. Garantia não tem nenhuma – é possível que o amor divino caia às vezes, muitas vezes até, num solo pedregoso, para morrer lá e apodrecer lá. Mesmo assim, é a única chance. 

I – Os Jovens de Hoje 
Os jovens que vêm buscando a vida monástica hoje em dia são pessoas admiráveis. Além de um grande idealismo que les quase sempre trazem para o mosteiro, chegam com uma generosiadade transbordante, um desejo de experimentar a Deus e uma esperança de viver numa comunhão de amor fraterno. Mas também chegam carregando um jugo pesado de sofrimento e de potencialidades ainda adormecidas ou despertadas apenas para tornar-se frustradas novamente. Vêm com grande frequência de situações de casa marcadas por todo tipo de abuso, negligência e fracasso. Vêm de lares pobres que não permitem o desenvolvimento normal de suas capacidades intelectuais, sociais ou artísticas. Vêm de famílias onde não há livros ou instrumentos musicais. Vêm de ambientes onde experimentavam muito e sentiam muito, mas nunca aprendiam refletir sobre a própria experiência e ainda menos dialogar sobre ela. Vêm de pequenos mundos de criança onde as figuras de autoridade com as quais viviam – o professor, o patrão – nem sempre mostravam para eles a paciência e a bondade que faziam parte do seu cargo, que deveriam ter feito parte do seu repertório como adultos. E por tudo isso, os jovens chegam ao mosteiro muito, muito inseguros.

Que sentido faria, portanto, de assumir o tom de um São João Batista com este moços? Há um trabalho enorme a ser feito, sem dúvida, tanto por eles quanto por aqueles que têm o privilégio de atuar como mestre de noviços ou superior. Mas este trabalho começa muito quietamente, e por sua natureza progride muito devagar. 
II – A Vida da Mente
Vamos olhar primeiro para um tema relativamente simples : a formação intelectual do novato. Existe toda uma tradição a ser assimilada, uma tradição riquíssima, aliás : a Bíblia, os padres da Igreja, os padres primitivos monásticos, os padres cistercienses de nossa ordem (século XII), a teologia sistemática, sacramental, moral, etc. Houve um momento em que eu achava que a dificuldade da assimilação baseava-se na grande sofisticação e abrangência desta tradição. Agora sei que isto é o de menos. Em certas condições – disto sou testemunha repetidas vezes –, uma pessoa com pouca formação intelectual é totalmente capaz de entrar no mundo dos padres com compreensão, delicadeza e sim, prazer (ser testemunha deste encontro é ao meu ver uma das grandes alegrias da minha vida). É trágico, sim, que o brasileiro comum receba uma formação que pouco corresponde com sua inteligência inata. Mas dá para dar uma consertada nisso no mosteiro; afinal, temos livros e temos professores. Então, não é este o problema. O problema é que por falta da experiência ou por experiências negativas, o livro, a aula, a biblioteca, o professor incutem medo. O jovem não sabe que ele tem gosto de ler; ao contrário, tem provas que não. Além disso, se ele lia antes, era sempre assunto de utilidade (ganhar o pão) ou diversão. O que fazer com uma leitura poética ou filosófica, cujo valor reside na própria beleza ou simplesmente numa aproximação maior da verdade?
Vemos assim que trata-se aqui de algo bastante básico e precioso : a descoberta do intelecto. Na minha última palestra para esta assembléia augusta, falei sobre a experiência exuberante do monge cair no mundo bíblico, de sonhar e depois acordar como um personagem a mais na história da salvação, tendo como companheiros Davi, Ester, Daniel, Pedro. Imaginen, portanto, o que pode significar acordar dentro da própria mente! É uma experiência mais cartesiana do que aquela de Descartes. Seu ‘Cogito, ergo sum’ representava uma tentativa de estabelecer inabalavelmente sua existência por meio de sua consciência reflexiva. Aqui, porém, estas mesmas palavras exprimem um estalo, ao mesmo tempo de espanto e alegria. Penso, reflito, leio, entendo e então sou, sou outro e mais do que jamais imaginava.
Será que uma tal descoberta vai acontecer somente pela leitura programada dos padres e dos teólogos? Duvido. Cabe ao formador pôr mais ingredientes na sopa, imitar a Jesus que sempre encontrava um vinho novo para botar nos odres novos. No caso ao qual estou me referindo, os odres seriam as mentes dos jovens. E o vinho novo? Um livro de poesias, um romance histórico de Alencar, uma sonata literária de Érico Veríssimo, as cebolas e pimentas de Machado. Inseparável desta tarefa é a de acompanhar o jovem em sua leitura. Além de comunicar ao noviço seu verdadeiro entusiasmo para as obras primas da espiritualidade monástica, reler com ele os livros que faziam a glória de sua própria juventude, sentir novamente o que sentia quando viajava sentado no lombo do burro ao lado de Dom Quixote, combatendo contra os moinhos de vento. O livro é o companheiro certo para a mente; mas a mente jovem tem necessidade de companheiro vivo para compartilhar com ele o seu alvoroço. E se o mestre questiona-se sobre este procedimento de dar espaço à leitura ‘profana’, que ele pense no escriba sábio do Evangelho que sabia tirar de seu armazém coisas velhas e novas. Minha experiência me ensina que uma preocupação excessiva neste assunto atrapalha mais do que protege. O jovem, com o tempo, vai sentir-se atraído à beleza da literatura mística e patrística da Igreja, e seu contato com a literatura nacional e universal vai formar nele uma sensitividade ao enredo, caracterização, imagem e tema que só pode enriquecer sua lectio da Bíblia e dos escritos dos santos padres e madres.

III – O Encontro com os Sentimentos
Tenho falado, então sobre a bem-aventurança de conhecer o mundo de livros. Segundo Orígenes, fundador da corrente da teologia mística cristã (século III), a suma bem-aventurança reside no conhecimento de si mesmo. Com isto ele quer afirmar que o ‘self’ é o sacramento primordial de Deus que cada um de nós recebe. Simplesmente existindo, possuímos em nós mesmos uma reflexão perfeita da Divindade, em cuja imagem nós fomos feitos. Aquele que consegue ver fundo em si, vê além de si, vê o Deus trino cuja força e sabedoria forma a base do próprio ser. De um certo modo, cada homem e mulher tem direito de aplicar a si mesmo as palavras de Jesus, ‘Quem me vê, vê o Pai’.
Esta visão à qual o monge é chamado (junto com todos os outros seres humanos) não é automática. Necessita um longo processo paralelo ao despertar do intelecto, isto é, o despertar da afetividade. E aí encontramos mais um desafio particularmente puxado para os nossos jovens.
Aqueles jovens brasileiros que vêm ao mosteiro levando nas costas o peso de seu passado sofrido não tem muito interesse em viver o primeiro passo desta subida/descida para a descoberta da sua identidade radical de filho de Deus. Qual é este primeiro passo ‘impulável’?
A apropriação da própria história de dor, fracasso e insegurança, uma apropriação que faz se sentir à flor da pele. Sem falar em fuga, o qual seria um termo injusto, o jovem pobre, ou subdesenvolvido de uma ou outra maneira, ou negligenciado, olha com desejo para o mosteiro como um lugar de felicidade. Se ele quisesse ficar mergulhado em seus problemas, poderia ter permanecido no mundo. Ele busca a Deus, isto sim, mas ainda não busca a cruz de Cristo. Aquele que já carrega a cruz da sua vida não precisa da cruz de outrem.
Em pouco tempo porém, dá para ver que para a pessoa sofrida todo lugar, mesmo o mosteiro, é um lugar de sofrimento. De fato, para tal pessoa, só tem duas possibilidades : consciência – a qual por enquanto vai ser necessariamente dolorosa – e distração, na tentativa de não conhecer a si mesmo à medida que este conhecimento implica dor. O maior desafio de todos, portanto, nos primeiros anos da vida monástica, é deixar-se experimentar conscientemente a carga da dor que a gente levava inconscientemente fora. E ‘experimentar’ no sentido mais forte da palavra : receber de novo os socos, os traumas que a vida ia distribuindo, sentir de novo o choque, a decepção, a culpa, o ódio que eles causavam, e reconhecer uma vez por todas que estes acontecimentos nunca vão ser apagados do livro da vida. Por isto, eu costumo dizer a respeito da questão de ‘fuga para o mosteiro’ : pode ser que cada um de nós fugiu para o mosteiro. Que seja assim. Não importa. O importante é não fugir dentro do mosteiro, não fugir desta responsabilidade fundamentalmente humana de sentir.
É tempo de refletir novamente sobre o papel do mestre, do pai, como alguém que comunica a vida, em memória de Jesus. Ele não pode simplesmente exigir do jovem vivendo este horror (realmente este trecho da vida monástica é um horror) de aguentar, fazer pé firme, e quaisquer outros conselhos que constituem um afastamento afetivo do ‘assaltado’. Esta seria a fuga do mestre, e uma fuga imperdoável. O mestre tem que assistir, por meses...anos, à tribulação do seu filho. Tem que sentir algo da mesma raiva, chorar as mesmas lágrimas, sofrer a mesma incompreensão diante das injustiças e sujeiras jogadas em cima do jovem às vezes por muitos anos. E não pode neste momento assumir a linguagem da razão para dizer, ‘Mas sabe, rapaz, todo mundo passa por tais pedaços’. O problema com todos os amigos de Jó é que todos tinham doutorado em filosofia. Falavam demais. Faltava alguém que só ficava junto com Jó não tentando nem compreender nem comentar, alguém que superava seu medo de enfrentar em Já a irracionalidade do sofrimento, alguém que sabia calar-se. No Novo Testamento encontramos este silêncio absolutamente necessário em Jesus ao túmulo de Lázaro, e em Maria, ao pé da cruz de Jesus. Como é que o mestre vai poder viver isto, talvez com cinco, seis, sete jovens de uma vez? Tem que ser ele mesmo um homem das dores. Vai precisar muito da consciência de suas próprias dores como base de seu silêncio.
Ao mesmo tempo, o jovem não pode ser vítima. Não foi por isso que Deus o trouxe para o mosteiro, simplesmente para chegar a medir o mar de sua dor. Ele tem vocação de ressuscitado, de passar por todos os quartos da sua interioridade e finalmente dar-se com o espelho na parede onde ele contempla-se a si mesmo como imagem de Deus. O novo mandamento de Jesus, pelo menos o mandamento mais frequentemente enunciado por ele, é ‘Levantata-te’. Este ‘levantamento’ faz-se por uma experiência muito paradoxal, mas de valor ilimitado. É uma experiência de compreensão, de percepção espiritual tímida, através da qual o jovem começa a conhecer-se como radicalmente fundado e seguro em Deus. Se a gente pudesse imaginar o significado último da frase ‘são e salvo’, a gente teria uma idéia desta graça. Muitas vezes esta iluminação realiza-se num momento de oração depois de um período de grande tensão interior; outras vezes parece que o jovem ouve seu nome pronunciado (por quem? Não sabe direito.) carinhosamente – como se o seu nome fosse uma carícia. De qualquer modo que seja, representa o primeiro instante da verdadeira contemplação. Pela primeira vez, a pessoa humana reconhece em si, unido a si, não diferente de si Aquele de quem ele é o sacramento.
Não é o mestre que comunica esta intuição, que não é sugestão de fora, mas certeza brotando de dentro, aquela certeza que somente Deus é capaz de produzir. Mas o mestre tem a tarefa de confirmar o que o jovem vê passageiramente, num triz de densidade ontológica enorme. Se é possível falar de uma certeza fraca, é isto que o jovem conhece a respeito daquilo que viu ou ouviu no momento inesquecível de descobrir a própria identidade em Deus. O mestre tem que testemunhar por suas palavras, seu sorriso, o respeito com o qual ele presta atenção às reflexões do jovem, que este jovem é uma nova criatura em Deus, e que tudo aquilo que ele passou não o destruiu, não podia destruí-lo, porque em Deus ele é imortal. Pode ser que o próprio mestre esteja passando por uma época difícil. Neste caos, que ele libere-se de si mesmo. Seu chamado agora é de ser testemunha da ressurreição. Segundo os evangelhos, de nada mais se duvida do que da realidade da ressurreição. Deste acontecimento inesperado e totalmente ímpar na vida do jovem, o mestre tem que ser o pregador infatigável : ‘Vi o Senhor!...em ti’.
 
Fonte :
*Dom Abade Bernardo Bonowitz, OCSO, do mosteiro trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, Paraná (http://www.mosteirotrapista.org.br/)
**Revista Pedras Vivas – Ano XVI – nrº 72 – Janeiro/Fevereiro de 2013, editada pelos oblatos seculares do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro/RJ
Contato : osrio@osb.org.br