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sábado, 8 de novembro de 2025

A Igreja, sacramento do Reino

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Flavio Jose Lima da Silva


‘A Igreja é Sacramento do Reino e assim ela é Sacramento de salvação, pois, segundo a Constituição Dogmática Lumen Gentium, ‘A Igreja enriquecida dos bens celestes, não pode ser considerada duas realidades, pois forma uma só realidade complexa em que se fundem divino e humano’ (5). Aí se encontra a missão terrena da Igreja : ser sinal do Reino de Deus. Ela está fundamentada na atuação histórica de Jesus.

Nesse processo histórico da humanidade, encontram-se nos sacramentos os sinais visíveis de Cristo na Igreja, por isso, o Catecismo da Igreja Católica definiu sete sacramentos, a saber: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio : ‘(…) estes atingem todas as etapas e todos os momentos importantes da vida do cristão : dão, à vida de fé do cristão, origem e crescimento, cura em missão’ (1210). Os sacramentos são, portanto, essências para iniciação cristã. Para a vida nova e para a missão.

Ao longo do tempo, a história vai sendo construída e a experiência de fé do povo de Deus, também. Nesse sentido, a Igreja, como sinal no mundo, vai se consolidando e ganha consistência no transcurso da humanidade, tornando-se presença sacramental na história, tendo em vista que Jesus Cristo é o autor salvífico, pois anunciou o Reino com muita maestria, a sua presença na história da humanidade garantiu a todos a salvação. 

Jesus fez a sua missão com uma eficácia sem igual, no entanto, Ele provocou, motivou os seus discípulos para o anuncio do Reino, que devia se perpetuar, era necessária a continuidade dele. Nesse sentido, nos evangelhos a continuação do Reino anunciada por Jesus é muito clara : ‘Ide pelo muito inteiro, e proclamai o Evangelho a todas as criaturas’ (Mc 16,15); ‘Jesus aproximou-se deles e lhes dirigiu estas palavras : ‘Toda autoridade me foi dada no Céu e sobre a Terra. Ide, pois de todas as nações fazei discípulos, […] ensinando-as a guardar tudo o que vos ordenei’’ (Mt 28,19a-20). Convictos dessa delegação feita por Jesus, o Reino continua se consolidando na vida da humanidade.

No que se refere ao prolongamento do Reino de Deus, a Igreja, como Sacramento desse Reino, precisa transmiti-lo, isso porque ela, em sua essência, tem esse papel de anunciá-lo claramente, numa perspectiva concreta da vida humana, pois isso é constitutivo de seu legado, uma vez que é feita de homens e mulheres e recebeu a missão a de propagar o Evangelho a todos os povos e nações. 

Por fim, a Igreja deve favorecer a difusão da mensagem deixada por Jesus Cristo, pois, sendo ela Sacramento do Reino, é justamente nesse itinerário que irá expandir o anúncio do Reino tão proclamado por Jesus, pois Ele e é o nosso modelo fundamental. É preciso entender que Jesus convida, ensina e depois envia os que aderiram à sua mensagem que consiste, essencialmente, no anúncio do Reino de Deus. Para tanto, cabe à Igreja na sua missão de fato assumir para si a proposta de Jesus e fazer com que o Reino se propague até os confins da Terra.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-igreja-sacramento-do-reino.html

domingo, 22 de setembro de 2024

Uma experiência viva com Deus por meio dos sacramentos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rafael Beck Ferreira


‘Nas mais diversas culturas, a água é compreendida como sagrada, fonte da vida, energia vital primordial. Importantes cidades foram construídas justamente próximas aos rios e ao mar. No cristianismo, os sacramentos são o grande rio que possibilita o desenvolvimento da vida na Igreja. Dos sacramentos os cristãos bebem e se alimentam desde o nascimento até o fim natural, do Batismo ao Viático e à Unção dos Enfermos. Esse rio nutrício nasce de um evento, sobretudo : o sacrifício de Jesus Cristo na cruz – do seu lado (coração) aberto pela lança do soldado brotaram sangue e água para a vida da Igreja. Desse manancial místico os sacramentos nasceram e, para nossa felicidade, essa nascente da graça jamais secará.

  Sendo assim, os sacramentos não se coadunam com o formalismo de um mero rito exterior (por exemplo : ‘Eu não acredito nisso, mas batizarei meu filho para ele receber o certificado’). Os sacramentos proporcionam o frescor de uma experiência revitalizante e salvífica. Se o pecado contamina, adoece e mata o indivíduo e a sociedade, os sacramentos salvam e conferem saúde. 

O setenário sacramental divide-se em : 1) sacramentos da iniciação cristã (Batismo e Confirmação, que nos ligam à família divina pelo vínculo do Espírito e pelos méritos de Cristo, e a Eucaristia, que atualiza a presença do vivente e a vida da Igreja na história); 2) sacramentos de cura (Reconciliação e Unção dos Enfermos, que purificam e vivificam nossa alma); 3) sacramentos de serviço (a vida que gera vida por meio da doação de si, expressão da caridade cristã).

  Nosso grande desafio, talvez, seja tornar a valorizar os sacramentos, desburocratizar o acesso a eles conforme recentes pedidos do Papa Francisco, celebrá-los com alegria, beleza e dignidade. ‘Existe estreito vínculo entre as três dimensões da vocação cristã : crer, celebrar e viver o mistério de Jesus Cristo, de tal modo que a existência cristã adquira verdadeiramente forma eucarística’ (Documento de Aparecida, 251). Na celebração dos sacramentos, jorra vida para a Igreja, vida em abundância (cf. Jo 10,10).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/uma-experiencia-viva-com-deus-por-meio-dos-sacramentos.html


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Reconciliação com Deus : guia para uma boa confissão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rivelino Nogueira


‘‘A Confissão é o Sacramento da misericórdia de Deus, é a festa do pecador arrependido.’ (Monsenhor Jonas Abib)

Por que confessar-se? Explica o Papa Francisco que ‘o perdão dos nossos pecados não é algo que podemos dar a nós mesmos. Eu não posso dizer ‘perdoo os meus pecados’. O perdão é pedido a outra pessoa e na Confissão pedimos o perdão a Jesus. O perdão não é fruto dos nossos esforços, mas uma dádiva, é um dom do Espírito Santo’. 

A reconciliação com Deus é um dos aspectos mais fundamentais e transformadores da fé cristã, a Confissão é um Sacramento de cura. Por meio dele os fiéis têm a oportunidade de se aproximar do Senhor, renovar sua fé e encontrar a paz interior. A confissão é uma prática que exige sinceridade, humildade e fé; os fiéis podem renovar sua relação com Deus, encontrar paz interior e receber a graça necessária para viver uma vida cristã mais plena. Muitas pessoas buscam a confissão sem antes ter examinado profundamente sua consciência; assim, perdem a oportunidade de um perdão total e a graça que renova até as raízes da existência.

Este guia pretende oferecer um caminho claro e prático para aqueles que desejam fazer uma boa confissão. 

Reflexão e exame de consciência

Antes de se confessar é essencial fazer uma profunda reflexão sobre a própria vida e ações. O exame de consciência é um momento de introspecção em que se deve analisar os pecados cometidos, tanto em pensamentos como em palavras, atos e omissões. Utilizar os Dez Mandamentos como referência pode ser um bom ponto de partida.

Arrependimento sincero

O arrependimento é a chave para uma confissão válida e eficaz. Não basta apenas reconhecer os pecados, é necessário sentir um verdadeiro pesar por tê-los cometido e um desejo genuíno de mudar. Esse arrependimento deve nascer do amor a Deus e do reconhecimento de sua infinita misericórdia.

Propósito de emenda

Após o arrependimento é fundamental ter um firme propósito de emenda, ou seja, a decisão de evitar cometer os mesmos pecados no futuro. Isso inclui identificar as causas e ocasiões de pecado e buscar formas práticas de evitá-las, fortalecendo a vida espiritual por meio de oração, leitura da Bíblia e participação nos sacramentos.

Confissão dos pecados

Durante a confissão é importante ser claro e honesto ao relatar os pecados ao sacerdote. Não se deve omitir nenhum pecado grave intencionalmente, pois isso comprometeria a validade do Sacramento. Lembrar que o sacerdote age em nome de Cristo e está ali para ajudar, orientar e oferecer o perdão divino.

Aceitação da penitência

O sacerdote, após ouvir a confissão, dará uma penitência. Ela pode ser uma oração, um ato de caridade ou outro gesto concreto de arrependimento. Aceitar e cumprir a penitência com humildade e devoção é parte essencial do processo de reconciliação.

Ato de contrição

O ato de contrição é uma oração expressando arrependimento e o desejo de não mais pecar. Pode ser recitado de várias formas, mas o importante é que seja sincero e venha do coração. Um exemplo tradicional é ‘Meu Deus, estou arrependido de todo o coração de vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável. Prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar e evitar todas as ocasiões de pecado’.

Absolvição

Após o ato de contrição, o sacerdote concederá a absolvição, que é a declaração do perdão dos pecados. Esse é um momento de graça e renovação, em que a misericórdia de Deus se manifesta plenamente.

Costuma dizer-se que uma boa confissão tem quatro ‘Cs’ :

  • Clara : indicar qual foi a falta específica, sem acrescentar desculpas;
  • Concreta : referir o ato ou pensamento preciso, não usar frases genéricas;
  • Concisa : evitar dar explicações ou descrições desnecessárias;
  • Completa : sem calar nenhum pecado grave, vencendo a vergonha.

Ao seguir esses passos, cada pessoa pode se aproximar mais do amor infinito de Deus e caminhar em direção a uma vida de santidade e comunhão.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/reconciliacao-com-deus-guia-para-uma-boa-confissao.html



domingo, 12 de dezembro de 2021

O valor da Santa Missa

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Na pandemia, vimos o ateísmo prático mostrar suas afiadas garras, fora e – infelizmente – também dentro da Igreja, contra a Santa Missa bem como contra os demais sacramentos. De passagem, perguntemos : quantos doentes, por exemplo, se foram deste mundo sem a Unção dos Enfermos? Quem responderá pelo pecado desse descuido para com essas almas? Se é que, em meio ao materialismo reinante, ainda se pensa nas almas…

Como quer que seja, oferecemos, hoje, aos irmãos e às irmãs na fé uma reflexão sobre a Eucaristia. Elaborada por Dionísio, o Cartuxo († 1471), intitula-se ‘O alimento dos fracos’. Ei-la : ‘Para chegar a estar convenientemente concentrado, considera com devoção quem é Aquele que se dá a ti no altar, pobre e vil pecador mil vezes digno do inferno. Ele é um Deus de infinita majestade, onipotente e terrível : ‘Ele olha para a terra e a faz tremer, toca as montanhas e elas fumegam’ (Sl 103,32). ‘Leva escrito um nome em seu manto e em sua coxa : Rei dos reis e Senhor dos senhores’ (Ap 19,16). Esse nosso Deus desce diariamente pela nossa causa, miseráveis; mais ainda, com tanta humildade que não há ninguém tão vil a quem Ele não desça, contanto que o homem o queira. Vem com tanta paciência que está disposto a perdoar até mesmo o mais perverso de seus inimigos, se este quer se reconciliar com Ele. Vem com tanto amor que está disposto a abrasar também a pessoa mais fria do mundo, contanto que ela o deseje’.

‘Vem com tanta liberalidade que não há ninguém tão pobre que Ele não esteja pronto a enriquecer. Vem com tanta doçura, que deseja saciar até os mais famintos com o seu alimento verdadeiro. Vem com tanta luz, que não há ninguém tão cego que não queira iluminar. Vem com tanta santidade, que não há ninguém tão impuro ou indolente que ele não possa purificar e mover à devoção.’

‘Procura ter presente essas e outras reflexões, dia e noite em todas as tuas ações e exercícios, a fim de conservar limpa para tal hóspede a cela do teu coração. Todos os teus salmos e orações faze-os como ação de graças, depois de ter recebido esse dom e outros inumeráveis benefícios ou para preparar-te a fim de recebê-Lo dignamente. Toda a vida se gaste em honrar a esse hóspede que tão frequentemente se honra de vir a ti, aspirando sempre àquele feliz momento em que o Deus infinito se digna a rebaixar-se e a unir-se a ti, a partir do momento em que toda a tua felicidade consiste unicamente nisso. Teme sempre que aproximando-te d’Ele indignamente não te menospreze e se cumpra, assim, o que está escrito nos salmos : ‘Que a sua mesa ante eles se converta em um laço e sua abundância em armadilha!’ (Sl 68,23)’ (Contra detestabilem cordis inordinationem in Dei laudibus, art. XXIV. Opera omnia, t. 40, pp. 247-248, apud Um cartuxo. Antologia de autores cartuxos : itinerário de contemplação. São Paulo : Cultor de Livros, 2020, p. 336-337). 

Afinal, a Eucaristia antecipa, já neste mundo passageiro, o Banquete celeste, conforme se lê na obra de outro monge cartuxo que se mantem anônimo. Diz ele : ‘A Eucaristia é promessa, penhor da união final. É, na fé, um pregustar do último banquete, onde o pão do céu já não será dado ao homem sob o véu do sacramento, mas no esplendor da luz do Cordeiro. Jesus nos ensinou a pensar no céu como um banquete, onde ele mesmo passará de um comensal a outro para servi-lo (cf. Lc 12,37). E o alimento que dará a comer será ele mesmo’ (A Missa, mistério nupcial. 2ª ed. Juiz de Fora : Subiaco, 2019, p. 97).

Lendo tais passagens de profundos autores espirituais, como não ter, no coração, o desejo de participar da Santa Missa e, em estado de graça, receber – até diariamente, se possível –, Nosso Senhor, com seu corpo, sangue, alma e divindade, na hóstia consagrada e de adorá-Lo, sempre mais, no Santíssimo Sacramento?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/12/12/o-valor-da-santa-missa/

terça-feira, 9 de julho de 2019

O penitente fala a Deus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Papa Francisco confissão
*Artigo de Silvonei José,
jornalista


‘O Vaticano voltou a reafirmar nesta semana a inviolabilidade do segredo da confissão em resposta a iniciativas legislativas de vários países para revelar casos de abuso sexual de padres conhecidos em confissões.

Numa nota da Penitenciaria Apostólica, a Santa Sé indicou que não admite exceções ‘nem no âmbito eclesial nem no âmbito civil’ ao segredo da confissão, porque ‘provém diretamente do direito divino revelado’ e ‘está enraizado na própria natureza da Santa Comunhão’.

‘De fato, a essência do cristianismo e da Igreja está encerrada no sacramento da Reconciliação’, acrescenta a nota assinada pelo penitenciário-mor, cardeal Mauro Piacenza, que foi aprovada no dia 21 de junho passado pelo Papa Francisco e divulgada nesta semana.

Aponta-se que ‘uma certa ânsia de informação se espalhou nas últimas décadas... até o ponto em que o 'mundo da comunicação' parece querer 'substituir' a realidade’.

Segundo a Penitenciaria, ‘ao invocar a opinião da opinião pública como último tribunal, muitas vezes são divulgadas informações de todos os tipos, inclusive em relação às esferas mais privadas e confidenciais’.

Isso inevitavelmente afeta a vida eclesial e induz a ‘julgamentos imprudentes, prejudicando de forma ilegítima e irreparável a boa reputação dos outros, bem como o direito de cada pessoa a defender sua privacidade’, observa a nota.

Fala-se da existência de um ‘preocupante preconceito negativo para com a Igreja Católica’, especialmente a partir dos escândalos de abusos, ‘horrivelmente perpetrados por alguns membros do clero’.

Por esta razão, acrescenta-se que, mesmo depois das declarações dos episcopados de países que tentam introduzir iniciativas contra o segredo da confissão, a Santa Sé intervém para reafirmar os princípios do segredo confessional.

‘O confessor, segundo o Código de Direito Canônico, nunca está autorizado, por qualquer razão, a trair o penitente com palavras ou de qualquer outra forma’, recorda.

É também ‘absolutamente proibido ao confessor fazer uso do conhecimento obtido com a confissão’.

O sigilo sacramental ‘deve ser mantido’ mesmo se o confessor não conceda a absolvição.

O cardeal Piacenza recordou ao Vatican News que ‘é oportuno destacar que o texto da Nota não pode e não quer ser de algum modo uma justificação ou uma forma de tolerância dos execráveis casos de abusos perpetrados por parte de membros do clero’. ‘Nenhum compromisso é aceitável no promover a proteção dos menores e das pessoas vulneráveis e na prevenção e combate a todas as formas de abuso, no espírito do que tem sido constantemente reafirmado pelo Papa Francisco e recentemente regulado com o Motu Proprio 'Vox estis lux mundi' (7 de maio de 2019)’.

‘Ao publicar a Nota sobre a importância do fórum interno e a inviolabilidade do sigilo sacramental - acrescenta -, é certa convicção da Penitenciaria de que ‘a defesa do sigilo sacramental e a santidade da confissão nunca poderão constituir alguma forma de conivência com o mal, ao contrário, representam o único verdadeiro antídoto ao mal que ameaça o homem e o mundo inteiro; são a real possibilidade de abandonar-se ao amor de Deus, de deixar-se converter, e transformar-se por este amor…’.

De acordo com o penitenciário-mor, além disso, no que diz respeito à ‘absoluta inviolabilidade do sigilo sacramental’, ‘é essencial insistir sobre a incomparabilidade do sigilo confessional com o sigilo profissional a que estão sujeitas certas categorias (médicos, farmacêuticos, advogados, etc.), a fim de evitar que as legislações seculares a apliquem ao sigilo - inviolável –, derrogações legitimamente previstas para o segredo profissional.’

O segredo da confissão ‘não é uma obrigação imposta a partir do exterior, mas uma exigência intrínseca do sacramento e, como tal, não pode ser cancelado nem mesmo pelo penitente’. O penitente não fala ao confessor-homem, mas a Deus, portanto tomar posse daquilo que é de Deus seria um sacrilégio.’


Fonte :

quinta-feira, 22 de março de 2018

Os sacramentos na vida da Igreja


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 NAJŚWIĘTSZY SAKRAMENT
*Artigo do Padre Bruno Roberto Rossi, 
Paróquia São Francisco de Assis


‘Inicio uma série de artigos sobre os Sacramentos. Têm fim catequético : ajudar o (a) leitor(a) a melhor conhecê-los para, mais dignamente, recebê-los.

É preciso, aqui, relembrar (ou aprender) importantes verdades sobre a qual nem sempre meditamos. Deus se revelou a nós por meio de pessoas escolhidas por Ele ao longo da história e, na plenitude dos tempos, pelo Seu próprio Filho (cf. Gl 4,4). É a história da salvação.

Ora, esse convite generoso do Senhor para que participemos do Seu grande plano de amor por nós vem acompanhado das verdades reveladas ou do patrimônio de fé no qual devemos crer. Tal patrimônio está contido na Escritura e na Tradição Divino-Apostólica (vem de Cristo pelos Apóstolos) interpretadas pelo Magistério da Igreja.

No entanto, não basta saber o que Deus quer de nós. É preciso responder, generosamente, a esse grande apelo (nunca exigência forçada) de amor. Nessa resposta, apesar da nossa fraqueza, podemos contar com dois valiosos auxílios da graça divina : os sacramentos (que vou tratar nesta série) e a oração (a ser abordada em um momento oportuno). Aqui já vêm as perguntas básicas : Que é graça? Que é sacramento?

‘A graça é o dom gratuito que Deus nos dá para nos tornar participantes da sua vida trinitária e capaz de agir por amor d’Ele. É chamada graça habitual ou santificante ou deificante, pois nos santifica e diviniza. É sobrenatural, porque depende inteiramente da iniciativa gratuita de Deus e ultrapassa as capacidades da inteligência e das forças do homem. Escapa, portanto, à nossa experiência’ (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 423).

Parece oportuno reforçar que a graça é presente (não pode ser exigida) de Deus oferecido (não imposto) a cada um de nós para nos tornar santos e, por consequência, participantes da sua vida divina como filhos adotivos, em Cristo, na Igreja. A participação começa já, neste mundo, pelo Batismo, e se prolonga na eternidade. É sobrenatural (está além da natureza criada), por isso foge à nossa observação comum. Só pode ser conhecida pela fé.

‘Os sacramentos são sinais sensíveis e eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, mediante os quais nos é concedida a vida divina’ (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 224). Vejamos cada ponto desta importante definição.

Sinais sensíveis : somos psicossomáticos (compostos de corpo material e alma espiritual), por isso o próprio Deus, livremente, escolheu nos dar graças invisíveis (espirituais) por meios visíveis (materiais). Daí se falar que o sacramento, via de regra, tem matéria e forma : no Batismo, por exemplo, a água derramada é a matéria, porém só possui significado sacramental, se for acompanhada das palavras ‘Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’, que são a forma. Matéria e forma são, portanto, sinais sensíveis (ou visíveis) da graça invisível.

Instituídos por Cristo : é de fé que Cristo, em sua vida terrena, instituiu todos os sacramentos da Nova Aliança. Isso é muito lógico, pois nenhum poder humano tem a força de unir o natural (água e palavras, no Batismo) ao sobrenatural (a graça divina).

Vida divina : é a íntima união com Deus que habita em nós. Os sacramentos dão – cada um a seu modo – a quem os recebe dignamente, primeiro, a graça santificante e, em segundo, a graça sacramental própria de cada qual deles. A Eucaristia é o maior dos sacramentos, pois contém o próprio Autor de toda graça.’

– Ver : Catecismo da Igreja Católica. São Paulo : Loyola, 1999, n. 1996-2005 (a graça) e 1114-1134 e 1210-1211 (os sacramentos). Online : www.vatican.va.


Fonte :

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Quais são os 'poderes' de um diácono permanente?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Edson Sampel
  
‘Antes de darmos uma resposta à pergunta sobre os ‘poderes diaconais’, é importante lembrar que o Concílio Vaticano II felizmente restaurou a figura do diácono permanente, cuja origem se encontra nos primórdios do cristianismo (At 6, 1-6).

Vamos, agora, direto ao ponto, pois há bastantes dúvidas por parte dos católicos.  Afinal de contas, um leigo (ou uma leiga), com autorização especial, em determinadas circunstâncias, pode executar qualquer ofício litúrgico ou eclesiástico atribuído a um diácono? A resposta é afirmativa. E a explicação é assaz simples : o diácono frui do sacerdócio comum de todos os fiéis. Por exemplo, tanto quanto um leigo, o diácono, transitório ou permanente, não pode celebrar uma missa. O diácono permanente não é um sacerdote, como o são o presbítero (padre) e o bispo. Por este motivo, em vista do papel desempenhado pelos chamados leigos ministros extraordinários, muitas dioceses ainda não viram a necessidade pastoral de ordenar homens casados para o diaconato. Em alguns lugares, por exemplo, leigos de vida ilibada assistem aos matrimônios, após o beneplácito do bispo, com a competente delegação da testemunha qualificada, isto é, do pároco.

As atribuições próprias do diácono permanente não decorrem do sacramento da ordem, mas do direito canônico; vale dizer, do código ou de leis extravagantes. Por exemplo, o diácono permanente, no rito latino, é ministro ordinário do sacramento do batismo (cânon 861, § 1.º), embora a administração do referido sacramento seja encargo precípuo do pároco (cânon 530, 1.º). Sem embargo, qualquer ser humano, varão ou mulher, católico, acatólico ou mesmo ateu, dispõe do ‘poder’ de batizar. Já não se dirá o mesmo, por exemplo, com a função de, no confessionário, perdoar os pecados em nome de Jesus, conferida tão somente aos padres e bispos, por força do sacramento da ordem, recebido em segundo e terceiro graus, respectivamente. As bênçãos dadas por um diácono permanente a objetos de uso piedoso, disciplinadas pelo direito canônico, estão teologicamente fundamentadas na vocação evangelizadora de que gozam todos os batizados.   

Em resumo, os ditos ‘poderes’ do diácono permanente não advém do sacramento da ordem, e sim do sacramento do batismo, porquanto o diácono permanente, tal como o leigo, está revestido do sacerdócio comum e não do sacerdócio ministerial.

De qualquer modo, fique clara uma coisa : não é adequado usar a palavra ‘poder’, para criar uma distinção sacramental entre os membros da hierarquia (diáconos, padres e bispos) e os leigos, 90 por cento do povo de Deus. Desta feita, não se é um cristão mais santo, em virtude da recepção do sacramento da ordem. Um bispo não é melhor que um padre ou que uma leiga. Não se há de nutrir uma visão mágica dos sacramentos! A propósito, o papa Francisco explicitou bem este tema, demonstrando que a única diferença ontológica e teologal entre os seres humanos repousa no sacramento do batismo, disponível a quem quiser. Escreveu o vigário de Cristo : ‘O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza a serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do batismo, acessível a todos.’ (Evangelii Gaudium, n. 104). E conclui o bispo de Roma : ‘Na Igreja, as funções não dão justificação à superioridade de uns sobre os outros. Com efeito, uma mulher, Maria, é mais importante do que os bispos.’’  


Fonte :
* Artigo na íntegra de Edson Sampel :
Teólogo pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Jornalista (inscrição 0072188SP). Doutor em Direito Canônico com a nota máxima, ‘summa cum laude’, 90/90, concedida pela Pontifícia Universidade Lateranense, do Vaticano. Professor da Escola Dominicana de Teologia (EDT). Membro da Sociedade Brasileira de Canonistas (SBC), da Academia Marial de Aparecida (AMA) e da União dos Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp). Autor dos seguintes livros : ‘Introdução ao Direito Canônico’ (LTR, 2001), ‘Quando é possível decretar a nulidade de um matrimônio’ (Paulus, 3.ª ed., 2006), ‘Reflexões de um Católico’ (LTR, 2009), ‘Casamentos Nulos’ (LTR, 2009), ‘Questões de Direito Canônico’ (Paulinas, 2010) e ‘A responsabilidade cristã na administração pública – uma abordagem à luz do direito canônico’ (Paulus, 2011). Organizador e coautor da obra ‘Estudos de Direito Canônico’ (LTR, 2009). Coautor de ‘Princípios Constitucionais Fundamentais’ (Lex, 2005).


terça-feira, 23 de setembro de 2014

São Pio de Pietrelcina, Presbítero

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Pio de Pietrelcina, presbítero :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Do Decreto Presbyterorum ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros, do Concílio Vaticano II
(N.12)      (Séc.XX)

A vocação dos presbíteros à perfeição
Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são configurados com Cristo sacerdote, na qualidade de ministros da Cabeça, para construir e edificar todo o seu corpo que é a Igreja, como cooperadores da ordem episcopal. De fato, já pela consagração do batismo receberam, como todos os cristãos, o sinal e o dom de tão grande vocação e graça para que, apesar da fraqueza humana, possam e devam procurar a perfeição, segundo a palavra do Senhor : Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48).

Os sacerdotes, porém, estão obrigados por especial motivo a atingir tal perfeição, uma vez que, consagrados a Deus de modo novo pela recepção do sacramento da Ordem, se transformaram em instrumentos vivos de Cristo, eterno Sacerdote, a fim de poderem continuar através dos tempos sua obra admirável que reuniu com suma eficiência toda a família humana.

Como, pois, cada sacerdote, a seu modo, faz as vezes da própria pessoa de Cristo, é também enriquecido por uma graça especial, para que, no serviço dos homens a ele confiados e de todo o povo de Deus, possa alcançar melhor a perfeição daquele a quem representa, e para que veja a fraqueza do homem carnal curada pela santidade daquele que por nós se fez Pontífice santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores (Hb 7,26).

Cristo, a quem o Pai santificou, ou melhor, consagrou e enviou ao mundo, se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem (Tt 2,1), e assim, pela Paixão, entrou na sua glória. De modo semelhante, os presbíteros, consagrados pela unção do Espírito Santo e enviados por Cristo, mortificam em si mesmos as obras da carne e dedicam-se totalmente ao serviço dos homens, e assim podem progredir na santidade pela qual foram enriquecidos em Cristo, até atingirem a estatura do homem perfeito.

Deste modo, exercendo o ministério do Espírito e da justiça, se forem dóceis ao Espírito de Cristo que os vivifica e dirige, firmam-se na vida espiritual. Pelas próprias ações sagradas de cada dia, como também por todo o seu ministério, exercido em comunhão com o bispo e com os outros presbíteros, eles mesmos se orientam para a perfeição da vida.

A santidade dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho frutuoso do próprio ministério; pois, embora a graça divina possa realizar a obra da salvação também por meio de ministros indignos, contudo Deus prefere, segundo a lei ordinária, manifestar as suas maravilhas através daqueles que, dóceis ao impulso e direção do Espírito Santo, pela sua íntima união com Cristo e santidade de vida, podem dizer com o Apóstolo : Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).


Fonte :


sábado, 29 de março de 2014

Santo Ambrósio e a Fé na Eucaristia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano),
reflete sobre a terceira pregação da quaresma de 2014


‘1. A reflexão sobre os sacramentos

Junto do tema da Igreja, outro tema sobre o qual se nota um progresso na passagem dos Padres gregos aos latinos é aquele dos sacramentos. Nos primeiros tinha faltado uma reflexão sobre os sacramentos em si, ou seja, sobre a ideia de sacramento, embora tendo tratado de forma excelente de cada mistério : batismo, unção, eucaristia (1).

O iniciador da teologia sacramental – daquilo que, a partir do século XII, será o ‘De sacramentis’ – é ainda mais uma vez Agostinho. Santo Ambrósio com as suas duas séries de discursos ‘Sobre os sacramentos’ e ‘Sobre os mistérios’, antecipa o nome do tratado, mas não o seu conteúdo. Também ele, de fato, se ocupa de cada sacramento e não ainda dos princípios comuns a todos os sacramentos : ministro, matéria, forma, modo de produzir a graça...

Então, por que escolher Ambrósio como mestre de fé de um tema sacramental como é aquele da Eucaristia sobre o qual queremos hoje meditar? A razão é que Ambrósio é aquele que mais do que qualquer outro tem contribuído para o fortalecimento da fé na presença real de Cristo na Eucaristia e lançou as bases para a futura doutrina da transubstanciação. No ‘De sacramentis’ escreve :

‘Este pão é pão antes das palavras sacramentais; quando acontece a consagração, de pão torna-se carne de Cristo (...) Com quais palavras se realiza a consagração e de quem são essas palavras? (...) Quando se realiza o venerável sacramento, já não é mais o sacerdote que usa as suas palavras, mas usa as palavras de Cristo. É, portanto, a palavra de Cristo que realiza este sacramento’ (2).

No outro escrito, sobre os mistérios, o realismo eucarístico é ainda mais explícito. Diz :

‘A palavra de Cristo que pôde criar do nada o que não existia, não pode transformar em algo diferente aquilo que existe? De fato, não é algo menor dar às coisas uma natureza totalmente nova do que mudar aquela que já tem (...). Este corpo que produzimos (conficimus) sobre o altar é o corpo nascido da Virgem. (...) Com certeza é a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada, que foi sepultada; é, portanto, realmente o sacramento da sua carne (...). O próprio Senhor Jesus proclama :  'Este é o meu corpo’. Antes da bênção das palavras celestes usa-se o nome de outro objeto, depois da consagração significa corpo’ (3).

Sobre este ponto a autoridade de Ambrósio, no desenvolvimento posterior da doutrina eucarística, prevaleceu sobre aquela de Agostinho. Este certamente acredita na realidade da presença de Cristo na Eucaristia, mas, como vimos na meditação passada, acentua ainda mais fortemente o seu significado simbólico e eclesial. Alguns dos seus discípulos chegarão a afirmar não só que a Eucaristia faz a Igreja, mas que a Eucaristia é a Igreja : ‘Comer o corpo de Cristo, não é nada mais do que tornar-se o corpo de Cristo’ (4).  A reação à heresia de Berengário de Tours que reduzia a presença de Jesus na Eucaristia a uma presença só dinâmica e simbólica, provocou uma reação unânime na qual as palavras de Ambrósio tiveram um papel importante. Ele é a primeira autoridade que Santo Tomás de Aquino cita na sua Somma em favor da tese da presença real (5).

A expressão ‘corpo místico’ de Cristo, que até agora tinha servido para designar a Eucaristia, passou aos poucos a indicar a Igreja, enquanto que a expressão ‘verdadeiro corpo’ normalmente foi reservada somente à Eucaristia (6). Esta particular inversão marca, de certa forma, o triunfo da herança de Ambrósio sobre aquela de Agostinho. Expressões como aquelas do hino Ave verum, onde o corpo eucarístico de Cristo é saudado como ‘o verdadeiro corpo, nascido da Virgem Maria, que foi imolado na cruz e de cujo lado jorraram água e sangue’, parecem tiradas quase totalmente das palavras mencionadas acima por Ambrósio.

Podemos resumir dessa forma a diferença entre as duas perspectivas. Dos três corpos de Cristo – o corpo verdadeiro ou histórico de Jesus nascido de Maria, o corpo eucarístico e o corpo eclesial – Agostinho une estreitamente o segundo e o terceiro, o corpo eucarístico e aquele da Igreja, diferenciando-os do corpo real e histórico de Jesus; Ambrósio une, de fato identifica, o primeiro com o segundo, ou seja, o corpo histórico de Cristo e aquele eucarístico, distinguindo-os do terceiro, ou seja, do corpo eclesial.

Neste sentido, se poderia ir muito além, caindo em um realismo exagerado, quase que – como dizia uma fórmula contrária à heresia de Berengário - o corpo e o sangue de Cristo estivessem presentes no altar ‘sensivelmente e fossem, na verdade, tocados e partidos pelas mãos do sacerdote e mastigados pelos dentes dos fieis’ (7). Mas o remédio de tal perigo estava na mesma noção de sacramento já claro na teologia. Que a Eucaristia não é uma presença física, mas sacramental, mediada por sinais que são, de fato, o pão e o vinho.


2. A Eucaristia e a Beraka judaica

Se existe um limite na visão de Ambrósio, esse é a ausência de qualquer referência à ação do Espírito Santo na produção do corpo de Cristo sobre o altar. Toda a eficácia reside nas palavras da consagração. Elas são para ele palavras criativas, ou seja, palavras que não se limitam a afirmar uma realidade existente, mas produzem a realidade que significam, como a frase ‘fiat lux’ da criação. Isso influenciou na pouca importância que teve na liturgia latina a epiclese do Espírito Santo, que desempenha, pelo contrário, nas liturgias orientais um papel essencial como aquele das palavras da consagração.

As novas Orações Eucarísticas fizeram explícito, sobre esse ponto, o que no Cânone romano somente era mencionado implicitamente. A frase : ‘Santifica, oh Deus, esta oferta com a potência da tua benção’, equivale na verdade a dizer : ‘Santifica, Oh Deus, esta oferta com a potência do teu Santo Espírito’, e talvez teria sido melhor, no momento de traduzir o Cânone romano nas línguas modernas, explicitar neste sentido o significado da frase, de modo que nem sequer esta venerável oração eucarística ficasse sem uma verdadeira epiclese ao Espírito Santo.

Mas há uma lacuna maior, da qual se começa a dar-se conta, e que não diz respeito só a Ambrósio e nem sequer somente aos Padres latinos, mas à explicação do mistério eucarístico no seu todo. Mais do que nunca, vemos aqui como o estudo dos Padres não só nos ajuda a recuperar tesouros antigos, mas também a abrir-nos ao novo que emerge na história; a imitá-los não só no conteúdo, mas também no método que era o de colocar a serviço da palavra de Deus todos os recursos e os conhecimentos disponíveis no seu contexto cultural.

O novo recurso que temos hoje para compreender a Eucaristia é a aproximação entre cristãos e judeus. Desde os primeiros dias da Igreja, vários fatores históricos levaram a acentuar a diferença entre o cristianismo e o judaísmo, até contrapô-los entre si, como faz já Ignácio de Antioquia (8). Destacar-se dos hebreus – na data da Páscoa, nos dias de jejum, e em tantas outras coisas – se torna uma espécie de palavra de ordem. Uma acusação frequentemente direcionada aos próprios adversários e aos hereges é aquela de ‘judaizar’.

A respeito da Eucaristia, o novo clima de diálogo com o judaísmo tornou possível uma melhor compreensão da sua matriz hebraica. Como não é possível entender a Páscoa cristã, a menos que seja considerada como o cumprimento do que a Páscoa hebraica prenunciava, assim não é possível compreender completamente a Eucaristia se ela não é vista como o cumprimento do que os hebreus faziam e diziam ao longo da sua refeição ritual. O próprio nome Eucaristia não é nada mais do que a tradução de Beraka, a oração de bênção e agradecimento feita durante esta refeição. Um primeiro resultado importante dessa mudança foi que hoje nenhum estudioso sério avança mais na hipótese de que a Eucaristia cristã seja explicada à luz da ceia em voga em alguns cultos mistéricos do helenismo, como se tem tentado fazer por mais de um século.

Os Padres da Igreja conservam as Escrituras do povo hebraico, mas não a sua liturgia, à qual não podiam mais participar, depois da separação da Igreja da Sinagoga. Assim, para a Eucaristia utilizaram as figuras contidas nas Escrituras – o cordeiro pascal, o sacrifício de Isaac, o de Melquisedec, o maná -, mas não o concreto contexto litúrgico no qual o povo hebraico celebrava todas estas memórias que era a refeição espiritual celebrada, uma vez por ano, na ceia pascal (o Seder) e semanalmente no culto da sinagoga. O primeiro nome pelo qual a Eucaristia foi designada por Paulo no Novo Testamento é o de ‘refeição do Senhor’ (kuriakon deipnon) (1 Cor 11, 20), com evidente referência à refeição hebraica pela qual se diferencia já pela fé em Jesus.

É a perspectiva em que se coloca também Bento XVI no capítulo dedicado à Instituição da Eucaristia no seu segundo volume sobre Jesus de Nazaré. Seguindo a opinião agora predominante dos estudiosos, ele aceita a cronologia joanina segundo a qual a ceia de Jesus não foi uma ceia pascal, mas foi uma solene refeição de adeus; com Lous Bouyer, também Bento XVI acredita que seja possível ‘traçar o desenvolvimento da eucharistia cristã, isto é, do cânone, da beraka hebraica’ (9).

Por várias razões culturais e históricas, a partir da Escolástica, tentou-se explicar a Eucaristia à luz da filosofia, especialmente das noções aristotélicas de substância e acidente. Também isso era um colocar a serviço da fé os conhecimentos novos do momento e, portanto, um imitar o método dos Padres. Nos nossos dias, temos que fazer o mesmo com os novos conhecimentos de ordem, desta vez, históricas e litúrgicas mais do que filosóficas.

Com base nos estudos já realizados nessa direção, especialmente o de L. Bouyer (10), gostaria de mostrar a luz intensa que recai sobre a Eucaristia cristã quando colocamos as narrações evangélicas da instituição sobre o fundo do que sabemos da refeição espiritual hebraica. A novidade do gesto de Jesus não será diminuída, mas exaltada ao máximo.


3. O que aconteceu naquela noite

Um texto que mostra os laços estreitos entre a liturgia judaica e a ceia cristã é a Didaqué. Este texto não é nada mais do que uma coleção de orações da sinagoga, com o acréscimo, aqui e ali, das palavras ‘pelo teu servo Jesus Cristo’; o resto é idêntico à liturgia da sinagoga. O rito sinagogal era composto por uma série de orações chamadas ‘berakah’ que em grego é traduzido por ‘Eucaristia’. A beraka resume a espiritualidade da antiga Aliança e é a resposta de benção e de ação de graças que Israel dá à palavra de amor dirigida-lhe pelo seu Deus.

O rito seguido por Jesus ao instituir a Eucaristia acompanhava todas as refeições dos Hebreus, mas assumia uma particular importância nas refeições em família ou em comunidade no sábado e nos dias festivos. No início da refeição, cada um por sua vez tomava pela mão uma taça de vinho e, antes de leva-la aos lábios, repetia uma benção que a liturgia atual nos faz repetir quase literalmente no momento do ofertório : ‘Bendito sejas, Senhor nosso Deus, Rei dos séculos, que nos destes este fruto da videira’. É o primeiro cálice de vinho.

Mas a refeição começava oficialmente só quando o pai de família ou o chefe da comunidade tinha partido o pão que tinha que ser distribuído entre os convidados. E, de fato, Jesus, logo após a frase, toma o pão, recita a benção, parte-o e o distribui dizendo : ‘Este é o meu corpo...’ E aqui o rito, que era somente uma preparação, se torna realidade. Depois da benção do pão, que era considerada como uma benção geral por todo o alimento, serviam-se os pratos de costume.

Se os precedentes da Eucaristia se encontram na refeição ritual dos Judeus, então não tem mais significado especial saber se a festa da Páscoa coincidia com a Quinta-feira Santa ou com a Sexta-feira Santa. Jesus não associou a Eucaristia com nada particular próprio do alimento da Páscoa (deixando de lado a incompatibilidade da data, não há qualquer referência ao consumo do cordeiro e das ervas amargas), mas apenas com aqueles elementos que fazem parte do rito de cada dia : ou seja, a fração do pão no começo e com a grande oração de ação de graças no final. O caráter pascal da última ceia é inegável, mas é independente destas discussões e se explica com o nexo que Jesus coloca entre a Eucaristia (‘o meu sangue derramado por vós’) e a sua morte de cruz. É ali que se realiza, de acordo com João, a figura do cordeiro pascal ao qual ‘não se quebra nenhum osso’ (Jo 19,36).

Mas voltando ao ritual hebraico. Quando o jantar está acabando e as iguarias foram consumidas, os comensais estão prontos para o grande ato ritual que conclui a celebração e dá o significado mais profundo. Todos lavam as mãos, como no começo. Estava prescrito que o presidente recebesse a água do mais jovem dos presentes e talvez João a tenha dado a Jesus. Mas, o Mestre, em vez de deixar-se servir, dá uma lição de humildade, lavando os seus pés. Terminado isso, tendo diante de si uma taça convida a fazer as três orações de agradecimento : a primeira por Deus criador, a segunda pela libertação do Egito, a terceira para que continue no presente a sua obra. Concluída a oração, a taça passava de mão em mão e cada um bebia. Eis o rito antigo, realizado tantas vezes por Jesus em vida.

Lucas diz que depois de ter ceado Jesus tomou o cálice dizendo : ‘Este cálice é a nova aliança no meu Sangue que é derramado por vós’. Algo decisivo acontece quando Jesus acrescenta a estas palavras a fórmula das orações de agradecimento, ou seja, a beraka hebraica. Aquele rito era um banquete sacro no qual se celebrava e se agradecia um Deus salvador, que tinha redimido o seu povo para estreitar com ele uma aliança de amor, concluída no sangue de um cordeiro. O alimento cotidiano abençoava a Deus por aquela Aliança, mas agora, do momento em que Jesus decide dar a vida pelos seus como o verdadeiro cordeiro, ele declarou concluída aquela antiga Aliança que todos juntos estavam celebrando liturgicamente.

Naquele momento, com poucas e simples palavras, ele abre, oferece e estreita com os seus a nova e eterna Aliança no seu Sangue. Quando Jesus passa aquele cálice é como se dissesse :  ‘Até agora, todas as vezes que tivestes celebrado esta refeição ritual tivestes comemorado o amor de Deus Salvador que vos redimiu do Egito. A partir de agora, toda vez que repetirdes o que fizemos hoje, o fareis não mais em comemoração de uma salvação da escravidão material no sangue de um animal; o fareis em memória de mim, filho de Deus que dá o seu Sangue para redimir-vos dos vossos pecados. Até aqui tivestes comido alimento normal para celebrar uma libertação material; agora comereis a mim, alimento divino sacrificado por vós, para fazer-vos uma só coisa comigo. E me comereis e bebereis o meu Sangue, no mesmo ato em que eu me sacrifico por vós. Esta é a nova e eterna Aliança no meu amor’.

Acrescentando as palavras ‘fazei isto em memória de mim’, Jesus dá um alcance ilimitado ao seu dom. Do passado, o olhar se projeta ao futuro. Tudo o que ele fez até agora na ceia é colocado nas nossas mãos. Repetindo o que ele fez, se renova aquele ato central da história humana que é a sua morte pelo mundo. A figura do cordeiro pascal que sobre a cruz se torna evento, na ceia nos é dado como sacramento, ou seja, como memorial perene do evento. O evento acontece apenas uma vez (semel).  (Hb 10,12), o sacramento, sempre que o quisermos (quotiescumque) (1 Cor 11,26).

A idéia do ‘memorial’ que Jesus retoma do ritual hebraico do sábado e dos dias festivos, referida em Êxodos 12, 14 contém a própria essência da Missa, a sua teologia, o seu significado íntimo para a salvação. O memorial bíblico é muito mais do que uma simples comemoração, do que uma simples lembrança subjetiva do passado. Graças a ele, intervém, fora da mente do orante, uma realidade que tem uma existência própria, que não pertence ao passado, mas existe e obra no presente e continuará a obrar no futuro. O memorial que até agora era o compromisso da fidelidade de Deus a Israel, agora é o corpo partido e o sangue derramado do Filho de Deus; é o sacrifício do Calvário ‘representado’ (ou seja, tornado novamente presente) para sempre e para todos.

Aqui descobre-se o significado e a preciosidade da insistência de Ambrósio e, atrás dele, de forma mais evoluída, dos teólogos escolásticos e do concílio de Trento, sobre a presença ‘verdadeira, real e substancial de Cristo’ na Eucaristia (11).  Só assim, de fato, é possível manter no ‘memorial’ instituído por Jesus o seu caráter objetivo de dom absoluto, sem condições, independente de tudo, até mesmo da fé de quem o recebe.


4. A nossa assinatura no dom

Qual é o nosso lugar no drama humano-divino que temos lembrado? A nossa reflexão sobre a Eucaristia deve levar-nos a descobrir justamente isso. É para nós, de fato, para envolver-nos na sua ação, que Jesus fez do seu dom um ‘sacramento’.

Na Eucaristia acontecem dois milagres : um é aquele que faz do pão e do vinho o corpo e o sangue de Cristo, o outro é aquele que faz de nós ‘um sacrifício vivo agradável a Deus’, que nos une ao sacrifício de Cristo, como autor, e não apenas como espectadores. No ofertório oferecemos o pão e o vinho que para Deus não tinham, é claro, nem valor nem significado por si mesmos. Agora, na consagração, é Cristo que coloca aquele valor que eu não posso colocar na minha oferta. Neste momento pão e vinho se tornam Corpo e Sangue de Cristo que se entrega à morte em um supremo ato de amor ao Pai.

Eis então o que aconteceu : o meu pobre dom privado de valor tornou-se o dom perfeito para o Pai. Jesus não dá somente a si mesmo no pão e no vinho, também nos pega e nos transforma (misticamente, não realmente) em si mesmo, também nos dá o valor que tem o seu dom de amor ao Pai. Naquele pão e naquele vinho estamos também nós; ‘Naquilo que oferece, a Igreja oferece a si mesma’, escreve Agostinho (12).

Gostaria de resumir, com a ajuda de exemplo humano, o que acontece na celebração eucarística. Pensemos em uma grande família em que há um filho, o primogênito, que admira e ama desmedidamente seu próprio pai. Para o seu aniversário deseja fazer-lhe um presente precioso. Antes, porém, de apresenta-lo pede, em segredo, a todos os seus irmãos e irmãs que coloquem a sua assinatura nesse dom. Este chega, portanto, nas mãos do pai como sinal do amor de todos os seus filhos, sem distinção, mesmo que, na verdade, só um pagou o preço dele.

É o que acontece no sacrifício eucarístico. Jesus admira e ama infinitamente o Pai Celestial. A ele quer fazer a cada dia, até o fim do mundo, o dom mais precioso que se possa pensar, aquele da sua própria vida. Na Missa ele convida todos os seus ‘irmãos’ a colocarem a sua assinatura no dom, de modo que ele chega a Deus Pai como o dom indistinto de todos os seus filhos, mesmo que só um tenha pagado o preço de tal dom. E que preço!

A nossa assinatura são as poucas gotas de água que são misturadas ao vinho no cálice; a nossa assinatura, explica Agostinho, é especialmente o amém que os fieis pronunciam no momento da comunhão : ‘Àquilo que sois respondeis : Amém e respondendo o assinais. Ouves, de fato : O corpo de Cristo, e respondes : Amém. Sejas membro do corpo de Cristo, para que seja verdadeiro o seu Amém... Sejais aquilo que vês e recebeis aquilo que sois’ (13). Toda a eclesiologia eucarística de Agostinho que lembramos semana passada encontra aqui o seu campo de aplicação. Se não é possível dizer que a Eucaristia é a igreja (como chegam a afirmar alguns dos seus discípulos), pode-se e deve-se dizer que a Eucaristia faz a Igreja.

Sabemos que quem assinou um compromisso tem o dever de honrar a própria firma. Isso significa que, saindo da Missa, temos que fazer também nós da nossa vida um dom de amor ao Pai e aos irmãos. Temos que dizer também nós, mentalmente, aos irmãos : ‘Tomai, comei; este é o meu corpo’. Tomai o meu tempo, as minhas capacidades, a minha atenção. Tomai também o meu sangue, ou seja, os meus sofrimentos, tudo o que me humilha, me mortifica, limita as minhas forças, a minha mesma morte física. Quero que toda a minha vida seja, como aquela de Cristo, pão partido e vinho derramado pelos outros. Quero fazer de toda a minha vida uma eucaristia.

Recordei a Didaqué, como o texto que documenta a fase de transição da liturgia hebraica para aquela cristã. Terminamos com uma oração sua que inspirou tantas orações eucarísticas subsequentes  :

‘Como este pão partido estava

espalhado sobre as colinas e recolhido tornou-se

uma só coisa,

Assim a tua Igreja se recolha dos

confins da terra no teu reino

porque tua é a glória e a potência

por Jesus Cristo nos séculos’. Amem


Fonte  :

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(1) Cf.  J. Kelly, Il pensiero cristiano delle origini, cit., pp. 415 ss

(2) Ambrósio, De sacramentis, IV,14-16

(3) Ambrósio, De mysteriis, 52-53

(4) Guglielmo di Saint-Thierry, PL 184, 403

(5) Cf. S. Th., III, q.LXXV. aa. 1 ss

(6) É o processo reconstruído por H. de Lubac, in Corpus Mysticum. L’Eucharistie et l’Eglise au Maoyen Age, Aubier, Paris 1949

(7) Denzinger-Schoenmetzer, Enchiridion Symbolorum, nr. 690

(8) Ignacio de Antiquioa, Epístola aos Magnésios, 10,3

(9) J. Ratzinger – Bento XVI, Jesus de Nazaré,  vol .II, LEV, Roma  2011, p.132-163; cf. L. Bouyer, Eucharistie. Théologie et spiritualità de la prière eucharistique. Desclée, Tournai 1966

(10) Além do livro citado de L. Bouyer,  cf. A. Baumstark, Liturgie comparée, Chevetogne 1953;  L. Alonso Schoekel,  Meditaciones biblicas sobre la Eucaristia, Sal Terrae, Santander 1986 ; Seung Ai Yang, ‘Les repas sacrés dans le Judaisme de l’époque hellénistique’, in  Encyclopedie de l’Eucaristie, du Cerf, Paris 2000, pp. 55-59

(11) Cf. Conc. Tridentino, Canon 1 de SS. Eucharistiae sacramento (DS, 1651)

(12) Agostinho, De civitate Dei, X, 6 (CCL 47, 279 (‘ In ea re quam offert, ipsa offertur’)

(13) Agostinho, Sermo 272 (PL 38, 1247 s.)